terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Agnes

A preguiça de postar é muita. Assunto eu tenho, mas o final do ano tá foda e eu continuo trabalhando feito doida.Mas me cortou o coração ler isso.

Depois daquele post foda da Aline, recebi uma amiga em casa. Essa amiga é feminista também, e começamos a conversar sobre aborto. E eu não sabia que ela tinha feito um. Parece que encontraram (ela e o ex-namorado) um contato. Daí marcaram, o cara explicou o procedimento. No dia, se encontraram num lugar público, e minha amiga entrou no carro do cara. Sozinha. E foi para a clínica sozinha. E contou que, quando voltou da anestesia, se deu conta de que o corpo dela tinha estado por algumas horas a mercê de gente em quem ela não confiava. Que podiam ter feito qualquer coisa com ela.

Quando ela me contou, me senti culpada. Queria ter estado ao lado dela, segurando a sua mão, mas sequer soube que ela passou por isso. Tive uma imensa vontade de chorar pensando que alguém pode ter abusado da sua fragilidade naquele momento. E um desespero enorme de imaginar que ela poderia estar morta agora. Mas minha amiga sobreviveu e vive uma vida plena e feliz.

Minha sogra teve o primeiro filho, que vem a ser o meu amor, aos 17 anos. Os outros dois filhos são frutos da família que teve que se formar às pressas. Eles (ela e o meu sogro, que tinha 20 anos na época) passaram uma barra, abriram mão de muitas coisas pra serem pais tão jovens. Eu me emocionei muito ouvindo ela contar o susto quando ouviu o coraçãozinho bater dentro dela, porque este coraçãozinho é o que bate ao meu lado agora. Diante da surpresa, minha sogra recalculou a rota de sua vida. Uma escolha legítima, que não tira a legitimidade de quem escolheu outra coisa.

E eu vou sempre defender que essa escolha possa ser feita por todas as mulheres, da maneira mais tranqüila possível. Respeito à alteridade, como eu já disse aqui. Mas como não é assim que funcionam as coisas no nosso país, a Agnes é mais uma das vítimas dessa hipocrisia silenciosa e assassina.

domingo, 13 de dezembro de 2009

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Êxtase

Ontem a vi pela primeira vez ao vivo. Presente do marido, que nem é fã, mas sabia o quanto seria importante pra mim, e queria me ver chorando horrores, o danado. Mas eu me contive e só chorei um pouquinho... Ai... o que posso dizer? Uma experiência das mais ricas. Ouvir "Explode Coração" assim, ao vivo, só na voz dela, sem o acompanhamento da banda, emudeceu o teatro. E no bis ela cantou "Reconvexo" e é muito bobo, mas acho tão lindo ouvir o meu nome na voz dela (sou a sereia que canta/ destemida Iara)! Depois no bis-do-bis, cantou "Olhos nos olhos", com a platéia acompanhando.

Saí me sentindo a pessoa mais realizada do mundo. E o mundo seria um lugar lindo se todo mundo pudesse sentir essa epifania ao menos uma vez na vida...

Ah! Quase esquecendo, e eu adoro contar isso: meu pai assistiu "Opinião" em 1965, quando a Maria Bethânia estreiou profissionalmente substituindo a Nara Leão. Cara de sorte, ele...

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Diálogos e monólogos

de: W

para: D , Iara , m <@yahoo.com.br>data: 4 de dezembro de 2009 15:22
assunto: Isso tem cara de Iara!

Olá pessoal!

Estava a ler os comentários sobre o texto "Um deserto de idéias" do Azenha e vi o seguinte post:

Iara (03/12/2009 - 21:57)
'Minha esperança, francamente, é de que a engenheira "desenvolvimentista" tenha preservado suficientemente em si a mulher e mãe.'

Cuidado, Azenha, porque aqui você foi sexista, mesmo com a melhor das intenções. A sensibilidade é uma qualidade independente do gênero, e concordo que deveria ser requisito mínimo para quem aspira o cargo de presidência. E há milhares de mulheres insensíveis, muitas delas mães, inclusive. Não são menos mulheres por conta disso.


Aí pergunto: é você Iara?
Digo isso porque a gente conversou sobre a Dilma lá no Gogó e você falou sobre essa questão sexista. No nosso bate papo o tema foi o fato da imprensa descer o sarrafo porque a Dilma é durona, não é linda e fez plástica.

Abraços

W


de:Iara

para: W
cc: D ,m
data: 4 de dezembro de 2009 15:37
assunto: Re: Isso tem cara de Iara!


Bingo! Eu mesma!

A questão é simples: não aceito que exijam de uma mulher o que não se exige de um homem na vida pública (nem vou entrar na particular, porque é pano pra manga e a idéia não é polemizar). Fora que é ingênuo, né? Se você viu nos comentários, alguém citou Margareth Tatcher, Golda Meyer... Vamos combinar que poder e meiguice não combinam, né? Agora sensibilidade é importante pra todo mundo, poxa vida!

E minha frustração é que o cara deu a resposta preguiçosa padrão "Iara, acredito que homens e mulheres são diferentes." Fraca essa, viu? Preguiça mental mesmo.

Bjo!

;-)

O remetente do e-mail é um amigo do marido, que agora é meu amigo também. Tempos atrás, quando ele se referiu a não sei quem como “mau-comida”, levou um pito meu. E ouviu, não porque eu sou a rainha da cocada preta e tenho sempre razão, mas porque acha minha opinião relevante.

O post ao qual nos referimos é esse. Sabe o que é muito chato? Essa coisa do cara ter um blog, ser conceituado e tals, você entra, lê, prestigia, e quando levanta um debate, ele te responde do jeito mais preguiçoso do mundo. Lógico, quem tem trocentos comentários na caixa não pode se dar ao luxo de dar atenção a todo mundo. Nem esperava que o Azenha fosse “fofinho” como meu amigo, né? Mas, poxa, se resolveu responder, responde direito, porra! Homens e mulheres são diferentes, essa parte eu já sabia desde os dois anos de idade quando vi o pipi do meu irmãozinho recém-nascido. Responder assim é desrespeitar minha capacidade intelectual. Ok, o blog é bom e não vou deixar de lê-lo por conta disso. Mas se até o Azenha utiliza esse recurso, porque a gente estranha o Marcelo Coelho cobrar meiguice da Dilma, né? (não achei o post original dele pra linkar aqui, só a crítica da Marjorie, que é excelente, aliás)

A Dilma tem mais é que ser durona mesmo. Porque ano que vem o chumbo vai vir grosso...

domingo, 6 de dezembro de 2009

Futebol

Eu gosto de futebol. E sempre gostei muito de homens que gostam de futebol. O marido é perdidamente apaixonado. E pelo Palmeiras. E eu sou corintiana. Mas não tem problema, a gente vive bem assim, principalmente quando seca o São Paulo juntos e dá certo. Dois momentos inesquecíveis do nosso relacionamento, ambos proporcionados por times cariocas, foram ver o Fluminense tirar o São Paulo da Libertadores ano passado (antes do jogo cantei a bola de que a decisão sairia no último momento do jogo, e acertei) e a linda vitória do Botafogo duas semanas atrás (jogão, gente, jogão).

E bom, Flamengo campeão. Mereceu muito. Marido super chateado porque, depois de liderarem tanto tempo, não vão nem pra Libertadores. E a graça do futebol é essa, a imprevisibilidade, o “nada como um dia após o outro”. Tanto é assim que o Flamengo é o primeiro time a ser campeão brasileiro depois de levar surra de 5 a 0. E foi do Coritiba, rebaixado hoje.

Além de futebol, eu gosto muito de homem gostoso. E, putz, me lembro a primeira vez que eu vi o Adriano (suspiro...). E além de gostar de futebol de homem gostoso, gosto quando a lógica capitalista não é determinante nas decisões das pessoas.

Considerando tudo isso, tô achando lindo o Flamengo campeão, com o Adriano ídolo e artilheiro. O Adriano é um anti-herói: joga muito, mas é um cara instável, alcóolatra, um Garrincha quase. E eu AMO essa instabilidade, sabe? E o romantismo evocado por ela. O cara tava mal lá na Europa, ganhando bem, mas motivação zero, e vontade de abandonar tudo. Aí pinta o Flamengo e a chance de continuar trabalhando com o que gosta e fazer churrasco na laje com a galera da Vila Cruzeiro de vez em quando. Tem gente que achava aposta furada do time, mas ele chegou e detonou. Não esqueço o primeiro jogo dele de volta, o Maracanã cantando: “eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci...”.

Lógico, o Adriano não ganha troco jogando aqui (se estiver recebendo direitinho, Flamengo é famoso pela inadimplência), mas seu objetivo não é se tornar o atleta mais rico da sua geração. Superada a pobreza, garantido o seu sustento e o dos filhos, ele quer ser um ídolo entre seus iguais, ser reconhecido pela maior torcida do Brasil. Então esse título pra ele é além de um sucesso profissional, um sonho de menino.

E voltando ao marido e ao sofá de casa, há uma aposta interna: verá o marido o seu Palmeiras ser campeão do Libertadores mais uma vez antes de eu ver o meu Corinthians campeão pela primeira vez? Ou será o contrário? O prêmio (além do prazer futebolístico, claro) é significativo: um sapato escândalo pra mim, o equivalente ao valor de um sapato em cerveja (Guinness, especificamente) pra ele. Como para ganhar precisa participar, tô saindo na frente. \o/

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Semana

Tem um "empório" (leia-se: vendinha metida a besta cheia de coisas deliciosas e caras que eu não posso comer durante o regime) no caminho entre o trem e a minha casa. Ele também é meio bar, meio restaurante. Segundas e terças-feiras fecha às 18h00, mas nos outros dias fica aberto até meia-noite. De modos que, quando eu volto pra casa na quarta-feira, passo enfrente umas 7 da noite e vejo aberto, meu coraçãozinho se enche de alegria. Cai a ficha de que a semana está perto do fim...

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Leveza

Essa semana assisti a “Persépolis” com o marido, que ele não tinha visto ainda. É uma animação incrivelmente bem produzida que trata uma história triste com toda a leveza possível.

Em algum momento da minha vida fui acusada por uma “ex-amiga” de ser uma pessoa pesada, porque eu tava sempre vendo o lado ruim das coisas, segundo ela. Pô, tomei a pílula vermelha. Sofrimento enorme, esse, viu? Queria, como ela, conseguir fletar com o policial que estava na Sorbonne pra reprimir as manifestações dos estudantes. Mas eu não via o cara gostoso, via a repressão, não rolava mesmo. Não sou uma criatura iluminada, pelo contrário, acho que até sou bem superficial algumas vezes. Mas somo dois mais dois e sou bem crítica, e não tenho culpa disso. Taí o Caio Fernando Abreu, que não me deixa mentir:

"Você pode se recusar a ver, o tempo que quiser: até o fim de sua maldita vida, você pode recusar, sem necessidade de rever seus mitos ou movimentar-se de seu lugarzinho confortável. Mas a partir do momento em que você vê, mesmo involuntariamente, você está perdido: as coisas não voltarão a ser mais as mesmas e você próprio já não será o mesmo. O que vem depois, não se sabe.”

Por outro lado, como muito custo, aprendi que o mundo não vai ser um lugar melhor se eu for infeliz. Que eu preciso sim refletir sobre as minhas escolhas, mas que não é indigno sentir-se bem num mundo tão miserável, contanto que eu não faça de conta que esssa miséria não tem absolutamente nada a ver comigo. Antes eu achava que pra conseguir isso a gente precisava ser muito cínico. Hoje acho que basta um pouco de pragmatismo.

Mas o título fala de leveza. Tenho curtido muito filmes que tratam de temas sérios de maneira leve, mas não leviana, que a gente encara no sábado com pipoquinha assim, despretensiosamente. E o Persépolis, apesar da intensidade, tem uma narradora que faz a sua autobiografia não se levando tão a sério, o que é sensacional. Na mesma categoria, amei de paixão o “A Culpa é do Fidel”. Não assistiu ainda? Corre na locadora ou no torrent, porque é imperdível. E “O Crocodilo” do Nanni Moretti? Comédia leve, mas que faz uma denúncia pesada sobre a máfia que é o governo Berlusconi.

Gosto de filmes e de refletir sobre a realidade. Se eu puder fazer os dois ao mesmo tempo e ainda me divertir então, programa perfeito. Aceito sugestões.

sábado, 28 de novembro de 2009

O jornalismo do não fato

A história só merece desprezo, mas eu resolvi dar pitaco e tentar contextualizá-la na pauta das reinvindicações feministas. Não vou atrás do link (mas no Azenha tem o texto completo), mas é a papo do fulano que ouviu, 15 anos atrás, que o Lula teria tentado molestar um carinha outros 15 anos antes, quando estava preso.

Olha, a gente reclama muito porque sabe que vítimas de estupro têm sua moral julgada, e por isso evitam denunciar. Sabe o quanto isso é horroroso, triste, o quanto a lógica machista impera e cala as mulheres. Nesse ponto, homens estuprados, ou como quer a lei, vítimas de atentados violentos ao pudor, também sofrem por conta do machismo. Agora... sem vítima não tem crime, né, galera? E a Folha da ditabranda, virando a campeã universal do bola-fora (Veja e boimate são hours concours, gente), publica uma coisa dessas, tão golpe baixo, tão sem pé nem cabeça.

Então, se a vítima aparece, 15 anos, 30 anos depois, é uma coisa. Não tem como comprovar a materialidade dos fatos, algo fundamental num processo justo, mas ainda tem uma palavra ali. Mas, assim, “o menino do MEP”? O Lula não é o Polanski. E com isso não estou colocando a mão no fogo por nosso presidente, pelo qual não nutro nenhuma simpatia pessoal (apesar de apoiar este governo). Se aparecesse agora uma mulher dizendo que foi estuprada pelo Polanski 30 anos atrás, ele não teria sido preso, porque é muito difícil comprovar um estupro tanto tempo depois, ainda mais quando não se trata de um estuprador em série.

Só que é ainda pior. É “tentou molestar”. Materialidade nenhuma mesmo. De novo: se foi verdade, é horrível, claro. Mas, como saber? É uma palavra contra a outra. Aliás, uma contra várias, porque lá no Azenha mesmo e no Nassif já apareceu um monte de gente pra dizer que essa história não tem pé nem cabeça.

Minha opinião, assim, muuuuito pessoal, é que o fato não é verdade, mas o Lula pode ter contado a história. Porque falastrão ele é, né? Inventar uma história sórdida e contar assim, numa boa, num ambiente privado, como se não tivesse consequências, até combina com ele. Mas o babaca repetir 15 anos depois e a Folha publicar é o fim.

Lembrei do caso Luísa. Olha só, o cara publicou aquilo na Trip. Disse que fez, e depois disse que era ficção. Mas ninguém inventou que ele fez: a gente leu um discurso em primeira pessoa banalizando a coisa, e chegou a uma conclusão. De qualquer maneira, a não ser que a Luísa aparecesse pra denunciá-lo, só se pode repudiar o texto do cara, mas não processá-lo por estupro. No caso do Lula, a não ser que o “menino do Mep” apareça e a gente ouça a versão dele dos fatos, a gente só pode concluir que o César Benjamin é um tremendo safado e/ou (porque uma coisa não exclui a outra) que o Lula fez uma piada de mal gosto e o cara resolveu valorizá-la.

Agora, a Folha querer fazer jornalismo com "ouvi falar 15 anos atrás que 15 anos antes..." é de lascar, né?

Update em 28/11: segundo está dito aqui, era como eu imaginava. A história foi contada, mas era brincadeira. De muitíssimo mau-gosto, aliás: assédio sexual não é nem um pouco engraçado. Lógico que motivo nenhum pra se orgulhar disso, shame on you, Lula. Mas ele contou isso em um encontro privado, não publicou na Trip, e atire a primeira merda quem nunca fez uma piada mórbida qualquer. Então, quem é canalha, o cara que contou a piada ou o que quer usar isso politicamente 15 anos depois?

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Mea culpa, ou sobre a incoerência cotidiana

A coisa mais comum do mundo é encontrar gente se comportando de maneira oposta ao seu discurso. A gente chama isso de incoerência. Quando a gente indetifica, costuma apontar lá o dedão no incoerente. Eu acho que às vezes até é bem válido, quando o incoerente usa o seu discurso para julgar nossas ações, mas se dá ao direito de ter seus próprios critérios. Porque além de incoerente, a pessoa vira uma hipócrita. Mas o ser humano é cheio de incoerências, né?

A família lá da França tinha um discurso politicamente correto e tal, mas não separava o lixo reciclável. E um dia minha “patroa” contou que, numa conversa com os colegas do trabalho, todo mundo deu uma desculpa para não separá-lo, ainda que achasse reciclagem uma idéia fantástica. Uma vez, almoçando com ex-colegas de trabalho, comentou-se o absurdo da quantidade de veículos em São Paulo circulando ocupados por somente uma pessoa. Daí Fulano lembrou que era vizinho do Sicrano, e do Beltrano. E todo mundo se deu conta de que tinha um colega de trabalho morando em seu bairro. Mas apesar disso, concluiram que dar carona não funcionaria porque “tolheria a nossa liberdade de ir e vir nos horários mais convenientes”.

O blog 7 x 7 da Época tem umas coisas muita machistas e retrógradas às vezes, como o post sobre a Dilma, mas a mesma Ruth de Aquino, capaz daquele discurso reaça de carteirinha, fez um post que me comoveu bastante. Fala de um documentário sobre mulheres de diferentes idades e classes sociais que contraíram Aids de seus maridos. E aí eu percebi uma enorme incoerência minha, e me incomodei muito. Com todos ex-namorados, ficantes, one-night-stand e etc, sempre usei camisinha. Conheci o namorido há dois anos, quando eu e ele já tinhamos “aproveitado bastante a vida”. Quando começamos a sair, usávamos camisinha, mas um dia deixamos de usar. Conversamos sobre o assunto, mas pra ser honesta, não consigo me lembrar de todos os termos. Não fizemos exame antes. Deixo muito claro que também não foi uma imposição machista dele: só deixamos a camisinha porque eu concordei sem nenhuma resistência. Como sou doadora de sangue, ele ainda tinha essa garantia de que, muito provavelmente, eu estava “bem”. Eu, nem isso. Há um acordo de que, se um dia (ou quando, pra ser mais realista) transarmos com outras pessoas ainda estando juntos, vamos ter o cuidado de usá-la.

Mas, putz, e daí, né? Quer dizer, o namorido pode ficar chateado ao ler isso (mas acho que não), mas quem me garantiu que ele não tinha HIV quando a gente se conheceu? A palavra dele, que talvez nem soubesse também? E quem o garantiu que eu não fosse HIV positiva? A última doação de sangue que eu fiz 6 meses antes de conhecê-lo? Não, né. A gente fica romântico, e fica burro. Honestamente, não acho que “isso nunca vai acontecer comigo”. Sei, muito conscientemente, dos riscos que corremos, eu e ele, até porque “mulher contrair HIV do marido” não é uma ficção, há um caso assim no nosso círculo de relações. Porque se comportar assim, então? Não sei responder.

E me sinto ainda pior porque eu não aponto o dedo na cara, mas muitas vezes julgo a falta de cuidado do outro, sabe? Apesar de ser pró-aborto, tendo a, no meu íntimo, acreditar que a pessoa que engravidou sem ter se planejado não fez o suficiente para evitar a gravidez, porque eu sempre usei pílula E camisinha. Não uso agora porque um filho não planejado neste momento seria bem vindo. Mas contrair uma doença venérea não seria bacana em momento algum, óbvio, e isso eu não estou evitando. E este post é um mea culpa: não posso julgar. Nunca, jamais em tempo algum, porque eu também sou humana.

Não sou insensível a ponto de dizer “bem-feito!”. Nem pra quem se descuidou engravidou sem se planejar, nem para a mulher que aceitou voltar para o marido violento e apanhou de novo e, nem pra quem contraiu câncer de pele de tanto torrar no branzeamento artificial. Tenho a delicadeza de me solidarizar com os dramas do outro mesmo sendo decorrentes de atitudes que não combinam com o meu discurso, porque o respeito a alteridade, ao direito do outro de ser outro, é fundamental pra mim. Só demorei a me dar conta de que o outro do meu discurso, às vezes, é a minha ação.

domingo, 15 de novembro de 2009

Contemporaneidades

"Mesmo se desobedece às leis da comunidade, o homem continua a pertencer-lhe; não passa de um menino levado que não ameaça a ordem coletiva. Ao contrário, se a mulher se evade da sociedade, retorna à Natureza e ao demônio, desencadeia no seio da coletividade foças incontroláveis e perniciosas"

BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo, 1949

Só eu fico assustada quando certos clássicos parecem ter sido publicados tipo assim, essa semana?

sábado, 14 de novembro de 2009

Ode à comida!

Três anos atrás eu pesava 10kg menos que agora. Ao contrário de todas as amigas na mesma situação, voltei da França com 4kg menos do que quando cheguei lá. Engordei quase 2kg no inverno, mas quando começou a esquentar eu fui emagrecendo entre 1kg e 1,5kg por mês. Tomando vinho, comendo chocolate, pão com manteiga (eu poderia passar o resto da vida comendo baguete francesa e manteiga Président). A família pra quem eu trabalhava tinha uma balança no banheiro. Às segundas, dia em que eu limpava a casa, eu ia me pesar. Lembrava do sorvete do final de semana e pensava: "já era, engordei". Mas não, tava sempre um pouquinho menos do que na semana anterior.

Esses bons tempos acabaram. Chegando ao Brasil, ganhei uns 2kg logo na primeira semana: não conseguia parar de comer goiabada com queijo. Deve ter uns bons meses que eu não como goiabada com queijo, mas na época a privação por 1 ano despertou uma compulsão sem precedentes. Ganhei mais alguns quilos depois disso e achei que tinha chegado a um teto. É que eu sempre tive tetos, aquele limite que, mesmo comendo sem critério, dali não passava. E eu nunca na vida fui muito gorda, nem fui magra. Não sou muito alta (tenho 1,67), mas tenho pernas grossas, costar largas, um pulso grosso. Não sou nada mignon, então não dá pra ser magrinha mesmo. Ah! E nunca tive barriga saliente, o que é uma tremenda vantagem estética. Sempre vivi feliz usando manequim 42.

Voltando, de uns tempos pra cá, a coisa desandou e eu comecei a engordar mesmo sem exagerar. Mentira: eu não sou compulsiva, mas sou gulosa. E a balança tem sido implacável. Um dia me pesei e vi que, bastava um final de semana mais glutão, e eu chegaria aos 80kg (antes disso já tinha notado que as calças 44 estão apertaaaaadas). Aí acendou uma luz amarela e eu resolvi marcar uma consulta com uma endocrinologista. Ela me pediu uns exames e chegou à conclusão mais provável: nada de errado comigo, mas o meu metabolismo mudou. Ano que vem faço 30 anos, e as coisas resolveram ser mais lentas. E pior: segundo a médica, minha glicemia está no limite então, se eu não me cuidar, não serei uma gordinha saudável, serei uma gordinha diabética.

Bom, regime então. Fiquei morrendo de medo da médica insistir em remédios, porque eu não quero, acho que meu caso não é sério assim. Pra minha surpresa, ela só rabiscou um cardápio no receituário mesmo. E, bacana, é comida pra caramba! Umas 3 frutas por dia, arroz com feijão, pão integral com queijo de manhã (e nem precisa ser daqueles brancos sem gosto, pode ser o Minas Padrão, mais cremosinho, que eu adoro). O lanche da tarde por de ser uma banana nanica, ou um iogurte, ou uma xícara grandona de capuccino. Não vou passar fome, mesmo sendo comilona. Mas vou passar vontade: sem docinhos, sem petisco de boteco, sem ceveja. Segundo ela, sem academia nem nada, dá pra perder uns 3kg por mês, o que significaria chegar bem mais elegante ao meu aniversário em março. Vale o esforço.

Hoje fui ao mercado e à feira. Comprei muitas frutas e legumes e verduras e queijo e barrinhas de cereal. Passei os últimos dias me despedindo do cardápio trash. Sexta rolou hamburguer e cheesecake, até amanhã rolam as últimas cervejinhas. Vai rolar também uma visita providencial à minha mãe amanhã, pra almoçar. Tenho que confessar que estes 10kg extras ao mesmo tempo que me incomodam, são a recordação de muitos momentos bacanas, sabem? Muito chopp trincando, muita coxinha do Veloso e do Frangó, muita pizza da Brás, muita costelinha do Outback, barras de chocolate importadas e nacionais, muita picanha nos churrasco na casa da sogra, lautos jantares (em geral risotos, adoro risotos) preparados com carinho para os meus amigos, regados à vinho tinto, feijoadas com os amigos do marido em São José. De acordo com a médica, a dieta deve ser seguida de segunda a segunda. Final de semana livre, só quando eu estiver no peso ideal, na fase de manutenção. Então este post é uma homenagem a todas as coisas que eu adoro comer e que não vão fugir: vão só ficar mais distantes de mim por alguns meses. Se eu me comportar diretinho, vou reencontrá-las em breve. A coxinha olhará pra mim e nem me reconhecerá: "nossa, Iara, como você tá elegante!". Ok, viajei agora, desculpaê.

Pra minha sorte, eu sou tão gulosa que gosto das coisas saudáveis e magrinhas também: adoro salada fresquinha, quase todas as frutas, pão integral, salmão grelhado...

terça-feira, 10 de novembro de 2009

A playboy da Fernanda Young

Eu não gosto da Fernanda Young. Assumo mesmo, acho muito chata, do tipo que se acha muito inteligente. Sabe rebelde de botique? Pois é, tenho preguiça de quem diz coisas pra ser polêmico, trabalhando para instituições mainstream. Sabe assim, a pessoa se acha moderna porque tem a "coragem" de raspar a cabeça e usar tatuagens (longo bocejo....)?

Não tenho absolutamente nada contra ela posar pra Playboy. Nem sei se eu tenho algo contra a Playboy em si, eu teria que pensar um pouco - e eu tô compreguiça agora. Porque se eu defendo que a mulher pode dispor de seu corpo como quiser, porque ganhar uma grana com ele seria ilegítimo?

O que me irrita nessa história é sua vontade de parecer "superior" às ex-BBBs porque, afinal, ela é uma pessoa que publicou 8 livros. Pra começar que publicar livro não prova porra nenhuma, que a gente sabe. Essa coisa de se afirmar mais inteligente que suas colegas capa é tão insegura e arrogante! Porque eu tenho que acreditar que ela é mais inteligente que, sei lá, a mulher-melancia? Só porque a mulher-melancia é famosa pela bunda, não quer dizer que ela seja uma estúpida. Só quem conclui isso assim, sem uma análise mais profunda, pode assumir que o fato da Fernanda Young ter publicado 8 livros atesta sua inteligência. Então, ela entrar pro clube, mas afirmar que é melhor do as outras é péssimo (aliás, ela já é do mesmo clube das ex-BBBs: é todo mundo funcionária da Globo). Fica pior ainda porque ela disse que "seria bonito" vender mais do que as ex-BBBs, o que eu li uma vibe de inteligência x reality shows. Como se a suposta inteligência dela devesse ser cultuada até na Playboy.

A cereja do bolo foi quando eu li, acho que ontem, que posar para Playboy uma vingança "a uns 3 babacas que a deixaram". Fico imaginando a cabeça de uma mulher, que se autoproclama inteligente e bem-resolvida, fantasiando que o ex vai olhar a Playboy e dizer: "Como eu sou burro de ter dado um pontapé na chata da Fernanda! Ela é mó gostosa, virou a até coelhinha da Playboy". Só posso ter muita vergonha alheia pela pessoa que expõe seu corpo para obter a aprovação de homens com quem se relacionou no passado. As ex-BBBs são mais espertas: elas, dizem, pra quem quiser ouvir, que vai ser legal ganhar essa grana pra comprar um apartamento. Quem é mais inteligente e independente aí?

domingo, 8 de novembro de 2009

Sobre a Uniban, ainda

Pois é. Fizeram o que pra muita gente pode parecer absurdo, mas que faz todo sentido, como está bem explicado aqui. Sabe aquela piada que a gente faz dizendo que, pra estudar em certos lugares, é só deixar o CPF cair na porta, que já vão te matriculando? É mais fácil mandar uma aluna embora, do que encher o saco dos outros "clientes". Choca especialmente, no anúncio publicado, quando dizem que a reação foi uma "defesa do ambiente escolar".

A namorada do meu irmão, que estuda na UEL, em Londrina, contou que há um colega homossexual que vai travestido assitir às aulas. Quer dizer, não exatamente: ele não usa saias, mas shorts cor-de-rosa minúsculos. Tem cabelos curtos e usa batom. Não tem seios de silicone, mas às vezes está de salto. Nunca está vestido de mulher de uma maneira a ser confundindo e misturar-se entre as alunas, como um transexual. Não, ele deixa claro que é um homem com adereços femininos, provoca a noção de gênero dos colegas mesmo. Ainda segundo minha cunhada o cara, no geral, é respeitado por colegas e professores. Algumas vezes, dentro do campus, pára um carro e diz uma gracinha, em especial os caras de veterinária em sua maioria filhos de fazendeiro mais conservadores. Mas nunca sofreu algo parecido com a Geyse, cuja suposta provocação é seguramente menor.

Quisesse se afirmar como Universidade, a Uniban marcaria pra ontem uma semana de debates sobre tolerância, cidadania, violência de gênero, mídia. Não puniria ninguém, nem os agressores de Geyse: os convidaria a debater sobre suas atitudes, a manifestar sua insatisfação pelo comportamento da colega de maneira racional para que, em grupo, entendessem onde está o incômodo. Dada a repercussão da mídia, tenho certeza de que muita gente notória aceitaria estar presente. Com um gasto mínimo (talvez menos do que custaram os anúncios para comunicar a decisão de expulsar Geyse), inverteria a situação a seu favor.

Mas, da mesma maneira que muita gente só vai à Universidade comprar um diploma pago em prestações, a Uniban deixa claro seu papel de "impressora de diplomas". Não vou julgar ou discriminar que estuda lá, porque já conheci um fulano que se orgulhava por ter concluído o curso de Filosofia da USP sem nunca na vida ter lido um livro até o fim. Acredito que tem gente brilhante e gente rasa em qualquer lugar. O papel da Universidade é estimular a busca do conhecimento, não entregá-lo pronto. Pra mim, a formação acadêmica depende da vontade do aluno, de seu esforço pessoal, mais do que qualquer outra coisa. A Universidade é um facilitador importante, mas não é tudo. Considerando meu ponto de vista, penso em que tipo de contribuição para a construção do conhecimento oferece um lugar onde, frente a um conflito, escolhe-se como solução defesnestrar seu agente mais frágil e mais exposto.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Sou fã da Elisângela

O caso é o seguinte: hospedada na casa dos meus sogros, fomos domingo à padaria comprar pão-presunto-queijo pro café da manhã. Mal-humoradíssima e sonolenta, preferi ficar sentadinha no carro, de olhos fechados. Nem o cinto de segurança eu tirei. Só que marido estacionou ao lado de um orelhão (pausa: há quantos milhões de anos não escrevo a palavra “orelhão”?). E a fila dos frios demorou horrores, tipo uns 10 ou 15 minutos. Daí fiquei quietinha, ouvindo a conversa de um sujeito com a família no nordeste. E é impressionante como, ouvindo só um dos lados do papo, deu pra inferir todo um modo de vida, e todo um conflito familiar. Vai ficar longo, mas juro que é legal:

“- Gilson, quantos sacos de milho... já deu a parte dela? Divide a parte dela! Fala pra sua mãe que não quero mais ela trabalhando no roçado, porque ela já trabalha demais em casa.”

Pelo sotaque, é nordeste, mas não sei exatamente onde. Há uma pequena lavoura na propriedade da família, talvez mais alguém trabalhe lá pra receber sua parte em milho, mas o marido quer poupar a esposa.

“- Deixa eu falar com sua mãe... Oi minha flor! Tudo bom... melhor se eu tivesse com você... mas chega logo, né?”


Deve voltar pra terra no Natal. Como o sotaque é bem suave, não acho improvável que o pai-de-família esteja há muitos anos no sudeste.

O papo volta para o Gilson que, imagino, seja o filho mais velho. Daí a coisa começa a ficar boa:

“- ... num vai, num vai pra forró coisa nenhuma. Que coisa é essa, que história é essa? Num tem que dar a chave pra ela... deixa eu falar com sua mãe de novo! Que história é essa de Elisângela ir pra forró. Num tem que dar a chave pra ela não. Só se for uma precisão. Quem manda sou eu. Na minha ausência, quem manda é você. Eu me enfio em forró aí? E você vai pra forró? Num tem que ir pra forró!”.

Ó, com todo respeito à palavra do moço, mas dado o visual caprichado (manjam meio rústico, meio macho-alfa?), duvido que ele não pegue um forrózinho no final de semana. Fica sem sexo o ano inteiro? Du-vi-do. E possível que vá procurar companhia num rasta-pé. Mas essa não foi uma suposição assim, baseada em coisas muito precisas, só um palpite mesmo. Pode ser desconsiderada sem prejuízo pro resto da história.

Enfim, mais alguns minutos dessa lenga-lenga “num vai pra forró”.

“- Ela tá indo pra 15 anos de idade e nunca me viu em forró. Quando ela casar, tiver a vida dela, ela vai pra forró, se quiser. Enquanto estiver na minha casa, quem manda sou eu. Eu batalho aqui pra fazer as vontades dela, ela tem de tudo, tem que fazer as minha vontades também.”

Como veremos, Elisângela não é de se deixar dominar, apesar da pouquíssima idade.

“- Como é que ela tá com a moto? Tá andando direito com a moto... oi? Certeza? Num quero que ela te derrube... Então, dia 15 ela é que te leva na comadre Nena ou na comadre Maria, porque eu vou falar com ela. Qualquer uma das duas”.

Bom, ouvi a conversa dia 1º. O que me fez concluir que essas conversas telefônica acontecem a cada 15 dias, na casa de uma comadre, porque a família não tem telefone. Gilson coloca a mãe na garupa da moto, geralmente. Mas, se da próxima vez quem vai é Elisângela, o fato dela ser menor de idade e tecnicamente não poder dirigir não é a questão: o problema é o forró mesmo.


“- Outra coisa que eu queria te falar flor. Fala pra Gilson ver que celular pega melhor em casa, se Tim, se Oi, e eu mando dinheiro pra comprar
um celular. Daí não tem que amolar os outros, ficar nessa precisão de ir na casa de comadre.”

Boa! É a modernidade chegando na roça.

“- Como é que é?!?! Elisângela tem celular? Quem foi que deu celular pra Elisângela?!?!”


Muito viva essa garota!

“- Mas desde quando minha moto é táxi?!”

Tive que me segurar muito pra não rir nessa hora e denunciar minha indiscrição. Elisângela, 15 anos, lá na roça, decidiu que a moto do pai é um ativo pra gerar renda. Faz corridas de moto táxi pelas redondezas e tira uma grana. Conseguiu comprar um celular, e garante um troco pro forró (ou pra se enfeitar pro forró, que eu tô ligada que mulher deve entrar de graça). O irmão mais velho e a mãe não têm autoridade o suficiente pra segurá-la em casa, pra desespero do pai machista e conservador que mora há centenas de quilômetros de distância.

Tem como não amar a Elisângela?

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Caso de polícia, problema de saúde pública e escolhas

Essa semana os sites da Globo tão superexplorando a história do rapaz viciado em crack que matou uma colega. O pai dele escreveu uma carta-desabafo, muito triste, sobre a situação do filho. Semana passada tinham lá um link para uma matéria de uma mãe resolvou trancafiar um filho viciado em crack em uma jaula. Pra completar, a capa da Veja, com a sutileza de pata-de-elefante habitual diz, sem rodeios: “quem cheira, mata”.

Eu conheço dois lados das drogas: tenho amigos com uma vida produtiva usando drogas habitualmente de maneira recreativa. Mas também tive uma pessoa bem próxima que se viciou. A família buscou ajuda num grupo de apoio chamado “Amor Exigente”, para co-dependentes, e são voluntários até hoje, muitos anos depois do furacão.

Realmente acho que tem muito, muito moralismo quando se fala de drogas ilícitas. Sim, o dinheiro do consumidor vai para nas mãos do traficante, mas o Estado queria o quê? Acho tão irreal reprimir uma relação comercial onde, supostamente, as duas partes saem ganhando. O discurso que diz “não compre porque o seu dinheiro alimenta o tráfico” não está direcionado aos dependentes. Estes, na verdade, tão pouco se lixando (depois volto a falar deles). O suposto receptor desta moral é o estudante que queima um baseado na FFLCH, ou o cara que cheira uma carreira numa festinha numa festinha eventualmente. Estes, volto a repetir, vão em busca de um ganho quando compram as drogas: o prazer imediato proporcionado por elas. Tal qual o cara que contrata a prostituta. Ou qualquer um de nós quando compra uma cerveja. Então, este é um crime onde não há vítimas. Quer dizer, eu sei que há, muitas. Mas a imensa maioria é vítima do negócio ilícito e lucrativo da venda das drogas, não do ato de vender drogas sozinho.

Nesse sábado eu saí com um cara que eu conheço desde o colégio. Temos um amigo em comum, que estava junto. Programinha tranqüilo: museu, café, boteco depois. Pois bem, esse carinha se auto-define junkie. E eu sei que ele já tinha esse perfil desde a escola (há bons anos atrás). Não sei exatamente o que significa essa definição pra ele, mas tenho idéia, pelas conversas: bastante álcool, bastante maconha, cocaína com alguma frequencia. Talvez otras cositas más. O fato que ele é um cara produtivo: tradutor uma área especializada e de extrema responsabilidade, além de professor de inglês e de português para estrangeiros. E passa natais pacificamente com a família, com direito a “Amigo Secreto” com os primos e tudo mais. Eu o conheço só superficialmente, mas jamais diria que ele é antissocial. Como eu estudei Letras na USP, desnecessário dizer aqui que muitos dos meus amigos eram usuários mais ou menos eventuais de maconha. Alguns ainda são. E todo mundo é trabalhador, naquele sentido operário mesmo, de acordar cedo, estudar, batalhar sua vida. Tem gente até que formou família já. Por tudo isso, não posso aceitar o discurso simplista que diz que todo usuário de drogas ilícitas tem um problema social.

Por outro lado, tem esse pessoal que me traz os problemas compartilhados no grupo de apoio (eles podem me contar as histórias, contanto que não revelem nomes). Histórias muito tristes, de gente escravizada pelo vício dos parentes. Filhos expulsando mães velhinhas de casa, ameaças constantes de traficantes, dramas difíceis de serem medidos por quem não está nessa situação. A orientação deste grupo, muito polêmica, é a de não proteger o viciado. Se a pessoa já é adulta e está infernizando a vida da família, deve ser excluído do convívio familiar. Eles não mandam ninguém expulsar o filho de casa, mas se esta for a única alternativa para o resto da família conseguir dormir, eles o encorajarão a fazê-lo. A questão colocada é que o doente escolheu esse caminho. Pode não ter escolhido o vício, mas dificilmente não conhecia os riscos quando experimentou uma droga, mesmo as lícitas. A família, por outro lado, não escolheu nada e não pode arcar com a responsabilidade do outro. Se não pode resgatar o outro, tem que se salvar como pode, porque não é justo com o resto da família (ouros filhos, irmãos, netos) condernar-se a infelicidade por uma problema que não pode ser resolvido.

Não tenho aqui a menor pretensão minimizar o drama de famílias que não sabem mais como lidar com seus filhos dependentes químicos, nem de dizer “eureka”, ó como e fácil. Aliás, acho que ninguém em sã consciência tem, nem meu amigo junkie. Mas uma coisa é meio clara, pra mim, pelo menos: num certo nível de dependência, o dependent está morto socialmente. Já não interessa mais o amor da família, as obrigações do dia-a-dia, o futuro, as leis. Como a família vai lidar com um morto-vivo? Com a morte social de um corpo físico? Seria essa morte reversível? Ouvi falar de um sujeito de 42 anos internado numa clínica de recuperação pela 24ª vez. Alguém aí acredita que um sujeito que vai pela 24ª para a rehab, vai ficar bom? É tudo triste demais pra ser negligenciado.

Só que eu acho que o buraco do vício é bem mais embaixo. As drogas ilícita alteram a consciência, viciam, fazem com que as pessoas coloquem sua vida e a dos outros em risco. Só que o álcool, servido até em batizado de criança, faz a mesma coisa. Mesmíssima. O que muda é o perfil: como consumir drogas ilícitas é uma trangressão, de maneira geral, o tiozinho “cidadão de bem” vai preferir a cachaça ou o whisky. E tem outra: comportamentos compulsivos e antissociais não dependem da ingestão de substâncias químicas. Tem gente que perde a casa da família no jogo. Há quem se vicie em sexo. Outros, em comida. Como controlar tudo isso?

A minha (pouca) experiência na área, fruto de alguma observação, é que a dependência química e uma das consequências de um problema, e não a origem de todos os males. Alguma coisa mal resolvida fez com que o prazer virasse fuga. Algo a ser observado e tratado, mas que se não se manifestasse com cocaína, se manifestaria com cartão de crédito. Daí alguém me diz que “ah, pode ser assim com cocaína até, mas com crack, o cara vicia na primeira”. Eu realmente não acredito que alguém prove crack por curiosidade, como quem prova um baseado.

O fato é que o discurso super moralizante é mentiroso e ineficiente. Porque se eu disser pra um adolescente que todo cara que prova cocaína se vicia em morre, e na outra semana ele conhecer um cara como meu amigo, cheirando numa festa no sábado e trabalhando numa boa na segunda, vai ficar clara a minha ignorância na realidade dos fatos. Enquanto a gente não falar claro sobre drogas, com gente de todas as idades, sem julgamentos, e admitindo que as pessoas se drogam porque dá barato, as pessoas não vão ter informações suficientes pra fazer suas escolhas de maneira consciente. Penso em ter filh@s e vai ser difícil desempenhar papel de mãe sem ser hipócrita, porque nunca fui junkie, mas nunca fui santa também. Vou ser obrigada a falar a verdade: que tem coisas muito divertidas por aí, mas talvez não valha a pena correr certos riscos para prová-las.

domingo, 25 de outubro de 2009

Sobre cinema

Um dos meus projetos de vida, daqueles que a gente diz "uma dia ainda vou fazer tal coisa", é sair de férias na época da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, comprar um passe daqueles integrais e passar quinze dias respirando cinema. Eu adoro cinema, e vou muito menos do que gostaria. Houve uma época da minha vida, há muuuitos anos atrás, em que eu namorava um moço muito interessado em cinema também. E a gente era estudante sem dinheiro pra nada. Os cinemas no centro de São Paulo cobravam R$5,00 pela entrada. Mas às quartas-feiras, R$2,50. Às quartas e com carteirinha de estudante, R$1,25 (!!). Daí, a gente ia ao cinema às quartas e aos sábados. Depois juntava uns trocos pra comer esfiha do Habib's da Av. Ipiranga. Licença para uma digressão enorme: peguei trauma de Habib's, porque me lembra uma fase que o MacDonald's era caro pra mim. Hoje, quando vou a uma lanchonete mais phyna e portanto muito mais cara, tipo, sei lá, o Joaquim's, e vejo galera de 16 anos lá, fico pensando no tamanho da mesada desse povo que, com essa idade, já tem R$50 pra gastar assim, numa sentada. Gastar 50 pilas numa sentada, pra mim, só foi possível depois de alguns anos de batente...

Voltando ao cinema, eu fui muito ao Marabá. Era imenso, tinha uns 900 lugares e uma tela enorme. Sério! E me lembro quando instalaram som digital, quando lançaram Twister, aquele filme dos furacões (lembram?). Parece que só tinha graça com som digital. O Marabá parece que virou um multiplex com 4 salas. Eu ia menos ao Ipiranga. Lá, uma vez, um morador de rua cheirando mal sentou ao meu lado. Ele tava cheiradão e eu fiquei assustada. Mas, pô, R$2,50 a entrada, né? Conseguem imaginar um morador de rua pagando R$16,00 pra entrar no Espaço Unibanco? Nem falo de shopping, que os caras não passam nem pela porta. Hoje, mesmo com meus creminhos importados, me sinto a super muderrrna, porque com 16 anos, enquanto todo mundo ia em cinema no shopping, eu atravessava a Pça da República às 10 da noite depois de pegar cineminha no Ipiranga tendo junkies como companhia.

Sem carteirinha de estudante (porque eu não uso carteirinha falsa), fica caro ir ao cinema sempre. Descobri há 1 ano que o Belas Artes tem uma promoção às segundas: cobram só R$4,00 de quem provar ser "trabalhador" (crachá da empresa serve), o que me fez uma pessoa muito feliz. Se um dia você estiver por lá às segundas e vir uma moça com roupa social e cara de esfinge (pééééssima essa, eu sei) de mãos dadas com um moço bochechudo e com ares de roqueiro, somos eu e marido, tá?

Por fim, a Mostra: nunca entendi porque as pessoas se matam para assistir ao filmes mais bambambam, justamente os que vão entrar em cartaz no circuito comercial dali a algumas semanas. A graça pra mim é assitir àqueles que, não fosse pela Mostra, a gente nem saberia que existiam.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Dia de amar seu corpo

A Haline fez esse post bacana ontem. E hoje eu descobri isso. E putz, justamente este é um assunto que me interessa muito.

O fato é que eu tenho uma amiga queridíssima que tem distúrbios alimentares. Já esteve internada, toma antidepressivo há anos. Quando eu a conheci ela estava melhor, mas recentemente teve uma recaída. E uma amiga comum nossa é psicóloga. Não quer mais clinicar, mas não consegue evitar ajudar amigas em apuros. Daí um dia a Má pediu para a Fá fazer uma relação de todas as idéias que ela associava a “gorda”. O resultado foi uma lista bem grande, mas eu só me lembro de alguns termos:

- Feia;
- Fracassada;
- Não-amada;
- Frustrada;
- Menor;
- Infeliz;

Enfim, todos depreciativos. Só que essa relação não é fruto da mente doente de algumas mulheres anoréxicas. Elas não inventaram isso, assim, do nada. O delírio delas é se enxergarem gordas quando não estão, mas a associação da gordura com tudo o que há de negativo tá aí, pronta. O curioso é que a Fá, sofrendo tanto, é uma das minhas amigas mais bonitas. E é muito mais magra do que eu e a Má. A Fá não está deprimida porque se acha gorda. A relação é inversa, a baixa auto-estima e a depressão a fazem ter uma imagem distorcida de si mesma. O caso dela é patológico, ela sabe, e se trata.

Casos como o da minha amiga são cada vez mais numerosos, mas ainda são exceção, felizmente. Mas o que é assustador é que, ainda que em menor intensidade, esse sofrimento pela não aceitação da auto-imagem é uma epidemia, principalmente entre as mulheres.

Eu entendo muito o corpo como a representação do que eu sou, mas não o que eu sou. Ele materializa a minha identidade. Então, é o mais óbvio jogar para o corpo todas as nossas frustrações. O corpo é superfície e ele pode ser “consertado”. A gente estica, puxa, se mutila, e, no extremo, corrige a foto no photoshop depois.

Mas, de novo, a nós não somos nossos corpos. E quem deposita toda a auto-estima no corpo tende se frustrar, porque ele, sozinho, não determina uma vida. Lógico que se ser gorda demais te traz problemas de saúde, sua imagem está impactando na sua vida de maneira prática. Sofrer bullying por conta da aparência também impacta bastante (eu sofri). Ainda assim dificilmente bulling e colesterol alto vão ser a essência da existência de alguém.

Então eu estou um bom tanto acima do peso. E tenho os dentes separados. E varizes, desde adolescência. E uma pele luxuosa, praticamente um pêssego, além de olhos grandes e expresssivos. E tudo isso é parte de mim, mas não me resume. Porque eu sou amiga da Má e da Fá (e de mais uma porção de gente bacana), fiz Letras, tenho “quase 30 anos”, trabalho numa empresa de tecnologia, gosto de cozinhar, leio blogs feministas, de culinária e de maquiagem, corintiana casada com um palmeirense (que acabou de desligar a televisão porque não suportou ver seu time tomar o segundo gol do Santo André) e já fui a Helsinki (em fevereiro, pra ser mais divertido). Pra quem eventualmente passar por aqui e ler este post, a minha imagem não terá a menor importância porque muito provavelmente, se fosse magra, de dentes certinhos e rosto cheio de espinhas, seria diferente fisicamente, mas ainda seria a Iara. Eu sou minhas experiências. E meu corpo é protagonista da minha vida em alguns momentos, é claro, mas em outros ele é mera ferramenta.

Com essa lucidez, eu quero perder uns 10 kg, mas ainda assim, “meigordinha”, sou bonita, feliz, bem-amada, realizada em algumas coisas - em outras nem tanto; recuso todos os termos que minha amiga atribui automaticamente a esses quilos a mais. Pra sorte minha, não encaro a ausência de perfeição estética do meu corpo como questão existencial. Pela felicidade da minha amiga, e de mulheres que sofrem como ela, torço pra que mais mulheres consigam se enxergar além de seus corpos. E claro, olharem pra si mesmas com mais amor e menos rigidez.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Padrões

Daí que eu li que, por conta da Taís Araújo na novela, entre outras coisas, existe um movimento para resgatar a dignidade dos cabelos crespos. E eu li isso na Época. Não rejeito nenhum veículo de comunicação assim, de saída. Nem mesmo depois de ler algo tão desonesto como o que escreveram contra a Dilma. No final das contas, até conheço um cara muito bacana que trabalha na Época São Paulo. Então nada é “do mal” pra mim, como um rótulo.

É maravilhoso ler uma reportagem expondo o racismo embutido nessa coisa de alisar o cabelo a qualquer custo. Questionando isso, da baixa auto-estima da mulheres de cabelo crespo. E tem tudo a ver com a indústria que ganha milhões fazendo as mulheres se sentirem feias. Nada contra cosméticos no geral, porque eu curto muito alguns deles. Já fiz até escova progressiva, daquelas com formol, que deixam os olhos ardendo (meu cabelo é liso, mas bem grosso e volumoso, estilo “doida que saiu ao vento”, então a idéia era deixá-lo mais arrumadinho). Pra mim é claro que técnicas e produtos em si não são vilões. O problema é o arsenal todo ser vendido como “obrigatório”. Meu cabelo “liso pero no mucho” não é inaceitável. Como o crespo não é. Cabelo “não liso” não deveria ser defeito. Mudar algo na aparência deveria ser um exercício de liberdade, de construção de identidade. Nossa relação com nossa imagem deveria ser muito mais pessoal. Óbvio que o olhar do outro influencia, não sou arrogante a ponto de bater no peito e dizer “tô cagando e andando”. Mas a verdade é que essas opiniões relevantes são (ou deveriam ser) poucas.

Finalmente fico triste porque, para o cabelo crespo ser aceito, as Organizações Globo precisam promover isso, assinar embaixo, colocar a Taís Araújo lá. E eu não vou negar a importância de ver a Taís Araújo protagonista de novela, do que isso significa. Nem vou entrar numas de que “a massa não pensa e obdece à Globo; inteligente sou só eu”. Mas a gente sabe que não é um “movimento”. A Época não está reportando uma mudança, ela está ditando: o lance agora é comprar shampoo pra cabelos cacheados e não mais chapinha, de acordo com o anunciante em potencial para a novela. O mercado é dinâmico, né? O problema é o caminho: não se cria um produto pensando numa necessidade das pessoas. Se cria uma necessidade pra vender um produto (ok, neste caso o exemplo não é dos melhores, sempre houve cabelos crespos no mundo). Não acredito que algum dia o cabelo liso vai ser rotulado como “ruim”, invertendo a equação. Mas apesar de a matéria dizer algo como “liso ou crespo, a opinião é somente delas”, deixa claro que Michelle Obama e Oprah estão sendo pressionadas a “assumir seus cabelos crespos”, por uma questão “política”. E apesar de concordar desde o começo com o conteúdo político do alisamento, pra mim é claro que, se alguém ainda se dá ao direito de pressionar outrem a mudar o cabelo em nome de uma “causa”, não há muito aí o que celebrar.

Tolerância

Há exatos dois minutos fui lembrada do real significado da palavra "tolerância". Pessoalmente, não gosto dela, prefiro "respeito", assim, sem rodeios. Mas a real é que eu posso, numa boa, compreender muita coisa no ser humano, de sentir tesão em ser cagado até se explodir em nome da fé. Agora, me explica, por que o sujeito compra uma buzinha imitando o tema do “Poderoso Chefão”? Tipo, eu tenho mesmo que interagir com alguém assim, tratá-lo como se fosse... um ser tão racional e digno de respeito quanto eu? Beleza, eu trato. Mas posso ironizar, pelo menos?

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Simples

Eu detesto otimismo constante e mensagens piegas.

Mas às vezes, depois de uma semana ruim, é bom lembrar que sobreviver ao próprios problemas é uma dádiva (e no geral, a gente sobrevive). Que chegar em casa numa sexta-feira, véspera de feriado, com o amor da sua vida esperando e abrir uma cervejinha pode ser mais do que suficiente pra justificar toda a existência. Acredito mesmo que a vida é feita de pequenos prazeres.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

C.R.A.Z.Y.

Eu já tinha visto, mas o marido não, então peguei em DVD pra ver de novo. E a gente sabe que gostou quando se emociona pela segunda vez. Zac, o protagonista, quarto filho de uma família de cinco rapazes, é gay. Mas não é simples assim: a gente acompanha a infância dele, a inquietação, a negação, a dificuldade em se aceitar. Porque Zac diz que tem o melhor pai do mundo, e se para o melhor pai do mundo com uma formação católica não é fácil aceitar um filho gay, 30 anos atrás era ainda mais difícil.

É um filme sobre família, sobre o amor do pai pelos filhos, sobre a dificuldade de aceitar as diferenças. Eu acho interessante, porque o Zac é super sexualizado, a gente saca, mas o filme não explora cenas de sexo, e acerta nisso. Não tenho nada contra elas, mas aqui a proposta é outra. O foco são as relações familiares, então interessa mais mostrar a sexualidade como formação de identidade e posicionamento no mundo do que como prática. Então, se colocar lá o vovô católico/militar/malufista, que tem horror a idéia de um homem beijando outro, pra assistir, duvido que ele não se emocione. Porque, por mais que a gente goste de sexo, ele é parte importante da nossa vida, não a nossa vida toda. E os filhos queridos não deveriam deixar de ser queridos quando seus caminhos não foram exatamente os que os pais escolheriam.

Eu queria que o marido assistisse ao filme porque ele é bom, mas também porque reconheço demais o meu sogro no protagonista. Eu sei que, na maioria dos casos, os pais amam seus filhos. Mas a maneira de amar e, principalmente, de expressar o amor, é muito particular. Esse amor louco, com um orgulho que transborda, que faz sofrer, é o amor do meu sogro pelos seus “meninos”. Meu marido, o mais velho dos meninos do meu sogro, concordou comigo: seu pai e Gervais Beaulieu são sujeitos parecidos.

Ah, tem a trilha sonora também, incrível! Depois do filme, Space Oddity ganhou um significado especial pra mim.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Banheiros públicos

Desde que me formei na faculdade os banheiros públicos que frequento são muito antissépticos. Não de microorganismos necessariamente, mas de idéias. Eu sempre gostei da “literatura” das portas de banheiros, acho uma subversão das mais saudáveis. Não tem nada a ver com vandalismo pra mim: a porta não deixa de cumprir sua função porque alguém escreveu nela, então a “coletividade” não sai prejudicada. Os banheiros que uso agora não tem nada escrito. São tão monótonos que às vezes dá vontade de provocar, de começar algo na porta do banheiro do trabalho, só pra ver se alguém me responde. Mas tenho medo do vexame duplo: ser pega fazendo “papel” de adolescente e de não ser respondida por ninguém.

Na escola onde fiz o colegial (já se chamava 2º grau, agora é ensino médio, mas eu sou old school, com o perdão do trocadilho infame) tinha dois diálogos ótimos nos banheiros, que eu me lembre. Um era assim:

“Se puta fosse flor, essa escola seria um jardim.”

E a resposta:

“E você seria um girassol, a maior, mais feia, e mais aparecida das flores.” (crueldade essa, eu adoro girassóis).

A outra bacana era:

“Porque escovar os dentes 3 vezes por dia e transar só duas vezes por semana?”

Resposta:

“Porque ninguém toparia transar 3 vezes por dia com alguém que só escova os dentes 2 vezes por semana, sua porca!”.

Sei que há espaço pra muito policiamento da conduta alheia (“fulaninha é piranha”) e homofobia (“cicraninha é sapatão”). Mas não consigo invalidar completamente uma mídia (sente a importância da coisa!) só por causa de alguns mal intecionados. Se fosse assim, não valia a pena ler blogs. Muito menos criar um.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Idealismo preguiçoso

Quando eu comprei meu laptop, há quase dois anos, escolhi um com Linux instalado. “Mó bosta ser mais uma a deixar o Bill Gates mais rico”, pensei. Quando chegou, beleza, vi que a interface era bem chupinhada do Windows. Não tem “Painel de Controle”, mas tem “Centro de controle”, então, pra quem sabe mais ou menos pra que serve cada coisa, tá ok. Dá pra salvar arquivos com extensões de softwares fechados, e tem até um msn próprio. Tudo lindo, se o meu sistema operacional não tivesse um problema grave que me impede de fazer atualizações (importante: é um problema no meu computador, não acredito que o sistema não preste). Não consigo instalar bosta nenhuma. Veio com 1 ano de suporte grátis, a partir do primeiro chamado aberto. Como eu nunca abri nenhum chamado, a solução seria claro, procurar o suporte. Mas eu me acomodei geral e uso o micro do trabalho ou, às vezes, o do marido, quando preciso fazer coisas que o meu não dá conta.

Porque eu tô contando isso? Porque tô usando o meu agora, esse verificador ortográfico é péssimo e eu não vou conseguir atualizar, apesar de ser de graça. Vou correr o risco de passar vergonha postando bobagem porque quero mudar o mundo sem sair do sofá. Triste, não?

Update: acabo de descobrir o verificador ortográfico daqui do blogger. Uma desculpa a menos pra escrever mal, droga!

Teoria do Texto Escrito

A professora na faculdade dizia que o texto bonito tinha no máximo um “que” a cada três linhas, e um verbo de ligação a cada cinco. Texto cheio de “que” é feinho mesmo, concordo. Mas essa norma acaba com toda a espontaneidade também, convenhamos. Então vou tentar escrever bonitinho, pra garantir que meu diploma não vai se destrua por combustão espontânea. Mas se eu não conseguir, paciência...

Blog de novo

Eu já tive um blog. Foi há alguns anos, quando eu morava fora do país e achei que poderia ser uma maneira interessante de atualizar as pessoas sobre as minha impressões acerca da experiência. Mas aquele foi um ano muito dolorido, os meus posts eram muito pessoais, e eu não tive a malícia de escolher um semianonimato. Quando contei uma vez no blog que estava com um grupo de amigas e todas já tinha tomado antidepressivos, levei uma bronca dos meus pais. Tive que mudar o endereço sem comunicá-los, porque não pretendia abrir mão do tom confessional. Depois do regresso, já há alguns anos, deletei o blog antigo e hoje entendo a preocupação da minha família: as pessoas são cruéis, a gente não tem controle de quem vai nos ler, e de como isso pode ser usado contra nós no futuro.

De uns tempos pra cá, voltei a ler e a comentar em blogs, em especial, mas não somente, os com temática feminista. E voltou a vontade de escrever, porque eu sou prolixa e acho que caixas de comentários não são suficientes. Porque por mais que as pessoas escrevam muito bem, e muitas vezes me sinta contemplada pelo ponto de vista alheio, minhas experiências são só minhas, e eu também quero registrá-las.

Por enquanto, mas pode ser que eu mude de idéia, vou apelar para o formato “anônima, pero no mucho”. Ou seja, jogando no google o meu nome completo ninguém vai cair aqui. Mas se eventualmente alguém que me conhece chegar aqui por outras vias, não vai ter dificuldades em me identificar.