quarta-feira, 28 de outubro de 2009

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Caso de polícia, problema de saúde pública e escolhas

Essa semana os sites da Globo tão superexplorando a história do rapaz viciado em crack que matou uma colega. O pai dele escreveu uma carta-desabafo, muito triste, sobre a situação do filho. Semana passada tinham lá um link para uma matéria de uma mãe resolvou trancafiar um filho viciado em crack em uma jaula. Pra completar, a capa da Veja, com a sutileza de pata-de-elefante habitual diz, sem rodeios: “quem cheira, mata”.

Eu conheço dois lados das drogas: tenho amigos com uma vida produtiva usando drogas habitualmente de maneira recreativa. Mas também tive uma pessoa bem próxima que se viciou. A família buscou ajuda num grupo de apoio chamado “Amor Exigente”, para co-dependentes, e são voluntários até hoje, muitos anos depois do furacão.

Realmente acho que tem muito, muito moralismo quando se fala de drogas ilícitas. Sim, o dinheiro do consumidor vai para nas mãos do traficante, mas o Estado queria o quê? Acho tão irreal reprimir uma relação comercial onde, supostamente, as duas partes saem ganhando. O discurso que diz “não compre porque o seu dinheiro alimenta o tráfico” não está direcionado aos dependentes. Estes, na verdade, tão pouco se lixando (depois volto a falar deles). O suposto receptor desta moral é o estudante que queima um baseado na FFLCH, ou o cara que cheira uma carreira numa festinha numa festinha eventualmente. Estes, volto a repetir, vão em busca de um ganho quando compram as drogas: o prazer imediato proporcionado por elas. Tal qual o cara que contrata a prostituta. Ou qualquer um de nós quando compra uma cerveja. Então, este é um crime onde não há vítimas. Quer dizer, eu sei que há, muitas. Mas a imensa maioria é vítima do negócio ilícito e lucrativo da venda das drogas, não do ato de vender drogas sozinho.

Nesse sábado eu saí com um cara que eu conheço desde o colégio. Temos um amigo em comum, que estava junto. Programinha tranqüilo: museu, café, boteco depois. Pois bem, esse carinha se auto-define junkie. E eu sei que ele já tinha esse perfil desde a escola (há bons anos atrás). Não sei exatamente o que significa essa definição pra ele, mas tenho idéia, pelas conversas: bastante álcool, bastante maconha, cocaína com alguma frequencia. Talvez otras cositas más. O fato que ele é um cara produtivo: tradutor uma área especializada e de extrema responsabilidade, além de professor de inglês e de português para estrangeiros. E passa natais pacificamente com a família, com direito a “Amigo Secreto” com os primos e tudo mais. Eu o conheço só superficialmente, mas jamais diria que ele é antissocial. Como eu estudei Letras na USP, desnecessário dizer aqui que muitos dos meus amigos eram usuários mais ou menos eventuais de maconha. Alguns ainda são. E todo mundo é trabalhador, naquele sentido operário mesmo, de acordar cedo, estudar, batalhar sua vida. Tem gente até que formou família já. Por tudo isso, não posso aceitar o discurso simplista que diz que todo usuário de drogas ilícitas tem um problema social.

Por outro lado, tem esse pessoal que me traz os problemas compartilhados no grupo de apoio (eles podem me contar as histórias, contanto que não revelem nomes). Histórias muito tristes, de gente escravizada pelo vício dos parentes. Filhos expulsando mães velhinhas de casa, ameaças constantes de traficantes, dramas difíceis de serem medidos por quem não está nessa situação. A orientação deste grupo, muito polêmica, é a de não proteger o viciado. Se a pessoa já é adulta e está infernizando a vida da família, deve ser excluído do convívio familiar. Eles não mandam ninguém expulsar o filho de casa, mas se esta for a única alternativa para o resto da família conseguir dormir, eles o encorajarão a fazê-lo. A questão colocada é que o doente escolheu esse caminho. Pode não ter escolhido o vício, mas dificilmente não conhecia os riscos quando experimentou uma droga, mesmo as lícitas. A família, por outro lado, não escolheu nada e não pode arcar com a responsabilidade do outro. Se não pode resgatar o outro, tem que se salvar como pode, porque não é justo com o resto da família (ouros filhos, irmãos, netos) condernar-se a infelicidade por uma problema que não pode ser resolvido.

Não tenho aqui a menor pretensão minimizar o drama de famílias que não sabem mais como lidar com seus filhos dependentes químicos, nem de dizer “eureka”, ó como e fácil. Aliás, acho que ninguém em sã consciência tem, nem meu amigo junkie. Mas uma coisa é meio clara, pra mim, pelo menos: num certo nível de dependência, o dependent está morto socialmente. Já não interessa mais o amor da família, as obrigações do dia-a-dia, o futuro, as leis. Como a família vai lidar com um morto-vivo? Com a morte social de um corpo físico? Seria essa morte reversível? Ouvi falar de um sujeito de 42 anos internado numa clínica de recuperação pela 24ª vez. Alguém aí acredita que um sujeito que vai pela 24ª para a rehab, vai ficar bom? É tudo triste demais pra ser negligenciado.

Só que eu acho que o buraco do vício é bem mais embaixo. As drogas ilícita alteram a consciência, viciam, fazem com que as pessoas coloquem sua vida e a dos outros em risco. Só que o álcool, servido até em batizado de criança, faz a mesma coisa. Mesmíssima. O que muda é o perfil: como consumir drogas ilícitas é uma trangressão, de maneira geral, o tiozinho “cidadão de bem” vai preferir a cachaça ou o whisky. E tem outra: comportamentos compulsivos e antissociais não dependem da ingestão de substâncias químicas. Tem gente que perde a casa da família no jogo. Há quem se vicie em sexo. Outros, em comida. Como controlar tudo isso?

A minha (pouca) experiência na área, fruto de alguma observação, é que a dependência química e uma das consequências de um problema, e não a origem de todos os males. Alguma coisa mal resolvida fez com que o prazer virasse fuga. Algo a ser observado e tratado, mas que se não se manifestasse com cocaína, se manifestaria com cartão de crédito. Daí alguém me diz que “ah, pode ser assim com cocaína até, mas com crack, o cara vicia na primeira”. Eu realmente não acredito que alguém prove crack por curiosidade, como quem prova um baseado.

O fato é que o discurso super moralizante é mentiroso e ineficiente. Porque se eu disser pra um adolescente que todo cara que prova cocaína se vicia em morre, e na outra semana ele conhecer um cara como meu amigo, cheirando numa festa no sábado e trabalhando numa boa na segunda, vai ficar clara a minha ignorância na realidade dos fatos. Enquanto a gente não falar claro sobre drogas, com gente de todas as idades, sem julgamentos, e admitindo que as pessoas se drogam porque dá barato, as pessoas não vão ter informações suficientes pra fazer suas escolhas de maneira consciente. Penso em ter filh@s e vai ser difícil desempenhar papel de mãe sem ser hipócrita, porque nunca fui junkie, mas nunca fui santa também. Vou ser obrigada a falar a verdade: que tem coisas muito divertidas por aí, mas talvez não valha a pena correr certos riscos para prová-las.

domingo, 25 de outubro de 2009

Sobre cinema

Um dos meus projetos de vida, daqueles que a gente diz "uma dia ainda vou fazer tal coisa", é sair de férias na época da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, comprar um passe daqueles integrais e passar quinze dias respirando cinema. Eu adoro cinema, e vou muito menos do que gostaria. Houve uma época da minha vida, há muuuitos anos atrás, em que eu namorava um moço muito interessado em cinema também. E a gente era estudante sem dinheiro pra nada. Os cinemas no centro de São Paulo cobravam R$5,00 pela entrada. Mas às quartas-feiras, R$2,50. Às quartas e com carteirinha de estudante, R$1,25 (!!). Daí, a gente ia ao cinema às quartas e aos sábados. Depois juntava uns trocos pra comer esfiha do Habib's da Av. Ipiranga. Licença para uma digressão enorme: peguei trauma de Habib's, porque me lembra uma fase que o MacDonald's era caro pra mim. Hoje, quando vou a uma lanchonete mais phyna e portanto muito mais cara, tipo, sei lá, o Joaquim's, e vejo galera de 16 anos lá, fico pensando no tamanho da mesada desse povo que, com essa idade, já tem R$50 pra gastar assim, numa sentada. Gastar 50 pilas numa sentada, pra mim, só foi possível depois de alguns anos de batente...

Voltando ao cinema, eu fui muito ao Marabá. Era imenso, tinha uns 900 lugares e uma tela enorme. Sério! E me lembro quando instalaram som digital, quando lançaram Twister, aquele filme dos furacões (lembram?). Parece que só tinha graça com som digital. O Marabá parece que virou um multiplex com 4 salas. Eu ia menos ao Ipiranga. Lá, uma vez, um morador de rua cheirando mal sentou ao meu lado. Ele tava cheiradão e eu fiquei assustada. Mas, pô, R$2,50 a entrada, né? Conseguem imaginar um morador de rua pagando R$16,00 pra entrar no Espaço Unibanco? Nem falo de shopping, que os caras não passam nem pela porta. Hoje, mesmo com meus creminhos importados, me sinto a super muderrrna, porque com 16 anos, enquanto todo mundo ia em cinema no shopping, eu atravessava a Pça da República às 10 da noite depois de pegar cineminha no Ipiranga tendo junkies como companhia.

Sem carteirinha de estudante (porque eu não uso carteirinha falsa), fica caro ir ao cinema sempre. Descobri há 1 ano que o Belas Artes tem uma promoção às segundas: cobram só R$4,00 de quem provar ser "trabalhador" (crachá da empresa serve), o que me fez uma pessoa muito feliz. Se um dia você estiver por lá às segundas e vir uma moça com roupa social e cara de esfinge (pééééssima essa, eu sei) de mãos dadas com um moço bochechudo e com ares de roqueiro, somos eu e marido, tá?

Por fim, a Mostra: nunca entendi porque as pessoas se matam para assistir ao filmes mais bambambam, justamente os que vão entrar em cartaz no circuito comercial dali a algumas semanas. A graça pra mim é assitir àqueles que, não fosse pela Mostra, a gente nem saberia que existiam.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Dia de amar seu corpo

A Haline fez esse post bacana ontem. E hoje eu descobri isso. E putz, justamente este é um assunto que me interessa muito.

O fato é que eu tenho uma amiga queridíssima que tem distúrbios alimentares. Já esteve internada, toma antidepressivo há anos. Quando eu a conheci ela estava melhor, mas recentemente teve uma recaída. E uma amiga comum nossa é psicóloga. Não quer mais clinicar, mas não consegue evitar ajudar amigas em apuros. Daí um dia a Má pediu para a Fá fazer uma relação de todas as idéias que ela associava a “gorda”. O resultado foi uma lista bem grande, mas eu só me lembro de alguns termos:

- Feia;
- Fracassada;
- Não-amada;
- Frustrada;
- Menor;
- Infeliz;

Enfim, todos depreciativos. Só que essa relação não é fruto da mente doente de algumas mulheres anoréxicas. Elas não inventaram isso, assim, do nada. O delírio delas é se enxergarem gordas quando não estão, mas a associação da gordura com tudo o que há de negativo tá aí, pronta. O curioso é que a Fá, sofrendo tanto, é uma das minhas amigas mais bonitas. E é muito mais magra do que eu e a Má. A Fá não está deprimida porque se acha gorda. A relação é inversa, a baixa auto-estima e a depressão a fazem ter uma imagem distorcida de si mesma. O caso dela é patológico, ela sabe, e se trata.

Casos como o da minha amiga são cada vez mais numerosos, mas ainda são exceção, felizmente. Mas o que é assustador é que, ainda que em menor intensidade, esse sofrimento pela não aceitação da auto-imagem é uma epidemia, principalmente entre as mulheres.

Eu entendo muito o corpo como a representação do que eu sou, mas não o que eu sou. Ele materializa a minha identidade. Então, é o mais óbvio jogar para o corpo todas as nossas frustrações. O corpo é superfície e ele pode ser “consertado”. A gente estica, puxa, se mutila, e, no extremo, corrige a foto no photoshop depois.

Mas, de novo, a nós não somos nossos corpos. E quem deposita toda a auto-estima no corpo tende se frustrar, porque ele, sozinho, não determina uma vida. Lógico que se ser gorda demais te traz problemas de saúde, sua imagem está impactando na sua vida de maneira prática. Sofrer bullying por conta da aparência também impacta bastante (eu sofri). Ainda assim dificilmente bulling e colesterol alto vão ser a essência da existência de alguém.

Então eu estou um bom tanto acima do peso. E tenho os dentes separados. E varizes, desde adolescência. E uma pele luxuosa, praticamente um pêssego, além de olhos grandes e expresssivos. E tudo isso é parte de mim, mas não me resume. Porque eu sou amiga da Má e da Fá (e de mais uma porção de gente bacana), fiz Letras, tenho “quase 30 anos”, trabalho numa empresa de tecnologia, gosto de cozinhar, leio blogs feministas, de culinária e de maquiagem, corintiana casada com um palmeirense (que acabou de desligar a televisão porque não suportou ver seu time tomar o segundo gol do Santo André) e já fui a Helsinki (em fevereiro, pra ser mais divertido). Pra quem eventualmente passar por aqui e ler este post, a minha imagem não terá a menor importância porque muito provavelmente, se fosse magra, de dentes certinhos e rosto cheio de espinhas, seria diferente fisicamente, mas ainda seria a Iara. Eu sou minhas experiências. E meu corpo é protagonista da minha vida em alguns momentos, é claro, mas em outros ele é mera ferramenta.

Com essa lucidez, eu quero perder uns 10 kg, mas ainda assim, “meigordinha”, sou bonita, feliz, bem-amada, realizada em algumas coisas - em outras nem tanto; recuso todos os termos que minha amiga atribui automaticamente a esses quilos a mais. Pra sorte minha, não encaro a ausência de perfeição estética do meu corpo como questão existencial. Pela felicidade da minha amiga, e de mulheres que sofrem como ela, torço pra que mais mulheres consigam se enxergar além de seus corpos. E claro, olharem pra si mesmas com mais amor e menos rigidez.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Padrões

Daí que eu li que, por conta da Taís Araújo na novela, entre outras coisas, existe um movimento para resgatar a dignidade dos cabelos crespos. E eu li isso na Época. Não rejeito nenhum veículo de comunicação assim, de saída. Nem mesmo depois de ler algo tão desonesto como o que escreveram contra a Dilma. No final das contas, até conheço um cara muito bacana que trabalha na Época São Paulo. Então nada é “do mal” pra mim, como um rótulo.

É maravilhoso ler uma reportagem expondo o racismo embutido nessa coisa de alisar o cabelo a qualquer custo. Questionando isso, da baixa auto-estima da mulheres de cabelo crespo. E tem tudo a ver com a indústria que ganha milhões fazendo as mulheres se sentirem feias. Nada contra cosméticos no geral, porque eu curto muito alguns deles. Já fiz até escova progressiva, daquelas com formol, que deixam os olhos ardendo (meu cabelo é liso, mas bem grosso e volumoso, estilo “doida que saiu ao vento”, então a idéia era deixá-lo mais arrumadinho). Pra mim é claro que técnicas e produtos em si não são vilões. O problema é o arsenal todo ser vendido como “obrigatório”. Meu cabelo “liso pero no mucho” não é inaceitável. Como o crespo não é. Cabelo “não liso” não deveria ser defeito. Mudar algo na aparência deveria ser um exercício de liberdade, de construção de identidade. Nossa relação com nossa imagem deveria ser muito mais pessoal. Óbvio que o olhar do outro influencia, não sou arrogante a ponto de bater no peito e dizer “tô cagando e andando”. Mas a verdade é que essas opiniões relevantes são (ou deveriam ser) poucas.

Finalmente fico triste porque, para o cabelo crespo ser aceito, as Organizações Globo precisam promover isso, assinar embaixo, colocar a Taís Araújo lá. E eu não vou negar a importância de ver a Taís Araújo protagonista de novela, do que isso significa. Nem vou entrar numas de que “a massa não pensa e obdece à Globo; inteligente sou só eu”. Mas a gente sabe que não é um “movimento”. A Época não está reportando uma mudança, ela está ditando: o lance agora é comprar shampoo pra cabelos cacheados e não mais chapinha, de acordo com o anunciante em potencial para a novela. O mercado é dinâmico, né? O problema é o caminho: não se cria um produto pensando numa necessidade das pessoas. Se cria uma necessidade pra vender um produto (ok, neste caso o exemplo não é dos melhores, sempre houve cabelos crespos no mundo). Não acredito que algum dia o cabelo liso vai ser rotulado como “ruim”, invertendo a equação. Mas apesar de a matéria dizer algo como “liso ou crespo, a opinião é somente delas”, deixa claro que Michelle Obama e Oprah estão sendo pressionadas a “assumir seus cabelos crespos”, por uma questão “política”. E apesar de concordar desde o começo com o conteúdo político do alisamento, pra mim é claro que, se alguém ainda se dá ao direito de pressionar outrem a mudar o cabelo em nome de uma “causa”, não há muito aí o que celebrar.

Tolerância

Há exatos dois minutos fui lembrada do real significado da palavra "tolerância". Pessoalmente, não gosto dela, prefiro "respeito", assim, sem rodeios. Mas a real é que eu posso, numa boa, compreender muita coisa no ser humano, de sentir tesão em ser cagado até se explodir em nome da fé. Agora, me explica, por que o sujeito compra uma buzinha imitando o tema do “Poderoso Chefão”? Tipo, eu tenho mesmo que interagir com alguém assim, tratá-lo como se fosse... um ser tão racional e digno de respeito quanto eu? Beleza, eu trato. Mas posso ironizar, pelo menos?

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Simples

Eu detesto otimismo constante e mensagens piegas.

Mas às vezes, depois de uma semana ruim, é bom lembrar que sobreviver ao próprios problemas é uma dádiva (e no geral, a gente sobrevive). Que chegar em casa numa sexta-feira, véspera de feriado, com o amor da sua vida esperando e abrir uma cervejinha pode ser mais do que suficiente pra justificar toda a existência. Acredito mesmo que a vida é feita de pequenos prazeres.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

C.R.A.Z.Y.

Eu já tinha visto, mas o marido não, então peguei em DVD pra ver de novo. E a gente sabe que gostou quando se emociona pela segunda vez. Zac, o protagonista, quarto filho de uma família de cinco rapazes, é gay. Mas não é simples assim: a gente acompanha a infância dele, a inquietação, a negação, a dificuldade em se aceitar. Porque Zac diz que tem o melhor pai do mundo, e se para o melhor pai do mundo com uma formação católica não é fácil aceitar um filho gay, 30 anos atrás era ainda mais difícil.

É um filme sobre família, sobre o amor do pai pelos filhos, sobre a dificuldade de aceitar as diferenças. Eu acho interessante, porque o Zac é super sexualizado, a gente saca, mas o filme não explora cenas de sexo, e acerta nisso. Não tenho nada contra elas, mas aqui a proposta é outra. O foco são as relações familiares, então interessa mais mostrar a sexualidade como formação de identidade e posicionamento no mundo do que como prática. Então, se colocar lá o vovô católico/militar/malufista, que tem horror a idéia de um homem beijando outro, pra assistir, duvido que ele não se emocione. Porque, por mais que a gente goste de sexo, ele é parte importante da nossa vida, não a nossa vida toda. E os filhos queridos não deveriam deixar de ser queridos quando seus caminhos não foram exatamente os que os pais escolheriam.

Eu queria que o marido assistisse ao filme porque ele é bom, mas também porque reconheço demais o meu sogro no protagonista. Eu sei que, na maioria dos casos, os pais amam seus filhos. Mas a maneira de amar e, principalmente, de expressar o amor, é muito particular. Esse amor louco, com um orgulho que transborda, que faz sofrer, é o amor do meu sogro pelos seus “meninos”. Meu marido, o mais velho dos meninos do meu sogro, concordou comigo: seu pai e Gervais Beaulieu são sujeitos parecidos.

Ah, tem a trilha sonora também, incrível! Depois do filme, Space Oddity ganhou um significado especial pra mim.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Banheiros públicos

Desde que me formei na faculdade os banheiros públicos que frequento são muito antissépticos. Não de microorganismos necessariamente, mas de idéias. Eu sempre gostei da “literatura” das portas de banheiros, acho uma subversão das mais saudáveis. Não tem nada a ver com vandalismo pra mim: a porta não deixa de cumprir sua função porque alguém escreveu nela, então a “coletividade” não sai prejudicada. Os banheiros que uso agora não tem nada escrito. São tão monótonos que às vezes dá vontade de provocar, de começar algo na porta do banheiro do trabalho, só pra ver se alguém me responde. Mas tenho medo do vexame duplo: ser pega fazendo “papel” de adolescente e de não ser respondida por ninguém.

Na escola onde fiz o colegial (já se chamava 2º grau, agora é ensino médio, mas eu sou old school, com o perdão do trocadilho infame) tinha dois diálogos ótimos nos banheiros, que eu me lembre. Um era assim:

“Se puta fosse flor, essa escola seria um jardim.”

E a resposta:

“E você seria um girassol, a maior, mais feia, e mais aparecida das flores.” (crueldade essa, eu adoro girassóis).

A outra bacana era:

“Porque escovar os dentes 3 vezes por dia e transar só duas vezes por semana?”

Resposta:

“Porque ninguém toparia transar 3 vezes por dia com alguém que só escova os dentes 2 vezes por semana, sua porca!”.

Sei que há espaço pra muito policiamento da conduta alheia (“fulaninha é piranha”) e homofobia (“cicraninha é sapatão”). Mas não consigo invalidar completamente uma mídia (sente a importância da coisa!) só por causa de alguns mal intecionados. Se fosse assim, não valia a pena ler blogs. Muito menos criar um.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Idealismo preguiçoso

Quando eu comprei meu laptop, há quase dois anos, escolhi um com Linux instalado. “Mó bosta ser mais uma a deixar o Bill Gates mais rico”, pensei. Quando chegou, beleza, vi que a interface era bem chupinhada do Windows. Não tem “Painel de Controle”, mas tem “Centro de controle”, então, pra quem sabe mais ou menos pra que serve cada coisa, tá ok. Dá pra salvar arquivos com extensões de softwares fechados, e tem até um msn próprio. Tudo lindo, se o meu sistema operacional não tivesse um problema grave que me impede de fazer atualizações (importante: é um problema no meu computador, não acredito que o sistema não preste). Não consigo instalar bosta nenhuma. Veio com 1 ano de suporte grátis, a partir do primeiro chamado aberto. Como eu nunca abri nenhum chamado, a solução seria claro, procurar o suporte. Mas eu me acomodei geral e uso o micro do trabalho ou, às vezes, o do marido, quando preciso fazer coisas que o meu não dá conta.

Porque eu tô contando isso? Porque tô usando o meu agora, esse verificador ortográfico é péssimo e eu não vou conseguir atualizar, apesar de ser de graça. Vou correr o risco de passar vergonha postando bobagem porque quero mudar o mundo sem sair do sofá. Triste, não?

Update: acabo de descobrir o verificador ortográfico daqui do blogger. Uma desculpa a menos pra escrever mal, droga!

Teoria do Texto Escrito

A professora na faculdade dizia que o texto bonito tinha no máximo um “que” a cada três linhas, e um verbo de ligação a cada cinco. Texto cheio de “que” é feinho mesmo, concordo. Mas essa norma acaba com toda a espontaneidade também, convenhamos. Então vou tentar escrever bonitinho, pra garantir que meu diploma não vai se destrua por combustão espontânea. Mas se eu não conseguir, paciência...

Blog de novo

Eu já tive um blog. Foi há alguns anos, quando eu morava fora do país e achei que poderia ser uma maneira interessante de atualizar as pessoas sobre as minha impressões acerca da experiência. Mas aquele foi um ano muito dolorido, os meus posts eram muito pessoais, e eu não tive a malícia de escolher um semianonimato. Quando contei uma vez no blog que estava com um grupo de amigas e todas já tinha tomado antidepressivos, levei uma bronca dos meus pais. Tive que mudar o endereço sem comunicá-los, porque não pretendia abrir mão do tom confessional. Depois do regresso, já há alguns anos, deletei o blog antigo e hoje entendo a preocupação da minha família: as pessoas são cruéis, a gente não tem controle de quem vai nos ler, e de como isso pode ser usado contra nós no futuro.

De uns tempos pra cá, voltei a ler e a comentar em blogs, em especial, mas não somente, os com temática feminista. E voltou a vontade de escrever, porque eu sou prolixa e acho que caixas de comentários não são suficientes. Porque por mais que as pessoas escrevam muito bem, e muitas vezes me sinta contemplada pelo ponto de vista alheio, minhas experiências são só minhas, e eu também quero registrá-las.

Por enquanto, mas pode ser que eu mude de idéia, vou apelar para o formato “anônima, pero no mucho”. Ou seja, jogando no google o meu nome completo ninguém vai cair aqui. Mas se eventualmente alguém que me conhece chegar aqui por outras vias, não vai ter dificuldades em me identificar.