domingo, 14 de outubro de 2012

Mudamos

Achei que a poderia aproveitar as mudanças e mudar o blog também. Agora eu escrevo aqui, ó: http://foifeitopraisso.wordpress.com/. Pensei em deletar os posts antigos, recomeçar do zero, nova fase, etc e tal, mas não. Eu ainda sou eu. ;)

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Úteros não são espaços públicos


O aborto foi a bandeira feminista que tive mais dificuldade de abraçar. Desde muito nova eu reconhecia que a situação das mulheres neste mundo é de extrema desvantagem e que algo deveria ser feito a esse respeito. Sempre achei o aborto mais complicado. Mas uma vez entendendo do que se trata e aceitando essa causa como importantíssima e urgente, não consigo compreender um feminismo que não defenda a legalização do aborto como uma causa fundamental.

O meu trajeto em relação a este tema pode ser explicado pela naturalização da alienação das mulheres (falo neste momento pelas cissexuais, não sei como isso se dá com as mulheres e homens trans* exatamente) em relação ao corpo. É muito comum encontrar mulheres cissexuais que tem filhos, mas nunca usaram um espelho ver suas genitais. Ou que se apavoram com a possibilidade de usar algo tão comum quanto um absorvente interno (não estou dizendo que todas devem achar confortável, mas simplesmente que há mulheres pra quem a possibilidade de introduzir, por si mesmas, algo em suas vaginas, é impensável). Já ouvi conhecidas que, com vida sexual ativa, sequer entendiam como a uretra e a vagina “não são o mesmo buraco”.

Eu mesma, feminista, tive de me encher de coragem pra questionar o médico em quem eu confio sobre a necessidade de realizar um exame invasivo. Veja bem doutor, se eu fiz uma ultrassonografia transvaginal ano passado, se meu papanicolau está normal, se não tenho nenhuma queixa, preciso MESMO fazer outra ultrassonografia transvaginal este ano? É, Iara, tem razão, não precisa. Não era má vontade ou abuso dele, mas uma ideia de que, quantos mais exames, melhor, né? Quantas pacientes se queixam? Pois é, mas não precisava. Não fiz.

E onde tudo isso se relaciona com o aborto? Bom, estamos acostumadas a não decidir sobre nossos corpos. A achar que marido, Igreja, médicos, todo mundo pode decidir sobre eles com mais propriedade do que nós mesmas. E, sendo assim, porque se recusar a gerar um feto? Inclusive é comum ao defendermos o aborto ouvirmos o argumento de que sempre é possível entregar a criança para adoção.

Uma gravidez, por mais tranquila que seja, envolve desgaste físico, risco a saúde e impacto nas relações sociais. Sempre. Consequências estas que devem ser plenamente assumidas por mulheres (ou homens trans*) que assim o desejem.

Mas a dificuldade é sempre pensar que o feto é um ser humano em potencial. Que o aborto é um assassinato.

E aqui voltamos a alienação do corpo. As mulheres sempre abortaram. Não foi a medicina e muito menos o feminismo que inventaram o aborto. Até entre mulheres muito religiosas há quem já tenha tomado chá “pra descer a menstruação”. Porque olhem só, o desenho humanizado e quase autônomo do feto só existe em livros e em panfletos anti-aborto. Quando se tomava chazinho pra descer a menstruação o que saía não era um bebê mas.... sangue. Sim, havia um feto ali. Talvez perdido em alguém coágulo, como são comuns coágulos na menstruação.

A tecnologia médica moderna faz com que saibamos de uma gravidez ao primeiro atraso da menstruação. E isso é ótimo quando falamos em cuidar da saúde de quem gera. Mas péssimo quando se pretende elevar este feto a categoria de indivíduo. Sim, podem alegar que há outro DNA etc, etc. Mas ainda não existe tecnologia que possibilite a este feto sobreviver fora do organismo da ou do gestante [nota importante: sei muito bem que há tecnologia pra ajudar bebês nascidos muito prematuros, mas não estou falando aqui de bebês formados, mas de fetos ainda em desenvolvimento, com poucas semanas no útero].

Não existe individualmente este feto bem desenhadinho. Ele está lá, no útero de uma pessoa cujos os desejos não podem ser ignorados. Quando humanizamos um feto contra a vontade de quem o gera, estamos desumanizando esta pessoa. Estamos dizendo que, para todos os efeitos, nos próximos meses sua vida deve existir em função de seu útero.

Há quem diga que se trata de exatamente a mesma situação de um bebê nascido, o que não poderia ser falácia maior. Se sabemos que uma criança corre risco vivendo com a família, o que fazemos? Denunciamos à polícia, ao conselho tutelar, esperamos que ela seja protegida e afastada de quem lhe ameaça. Mas o que fazer com o nascituro? Veja bem, a segurança dele está, justamente, em um útero. Não há como apartá-lo desta possível “ameaça”, porque não se pode – ou melhor dizendo, não se deveria – legislar sobre o corpo de outrem.

Portanto eu entendo quem lamenta o aborto. Quem jamais o faria. Entendo quem tem desconforto com o tema. Olhem só: eu também me sinto desconfortável. Mas não se pode obrigar alguém a levar uma gravidez adiante - e isso eu não tenho desconforto algum em afirmar, pelo contrário. A legalização do aborto diz respeito a garantir a liberdade e a dignidade de quem quer ter autonomia do próprio corpo. Mesmo que essas decisões se choquem com os credos e opiniões de outrem. Mesmo que esta decisão não seja a minha ou a sua. Não importa. O que importa é que úteros não são espaços públicos e não deveríamos dar palpite sobre o que acontece dentro deles sem sermos convidados a fazê-lo.


Imagem: Campanha Internacional pelo Direito ao Aborto Seguro


PS: comentários eram moderados por motivos óbvios. E por motivos de não sei se vou ter internet no final de semana, não sei quando vão aparecer.


PS2: MAS É UM BEBÊ MAS É UM BEBÊ. Não tem bebê sem útero. De novo. NÃO TEM BEBÊ SEM ÚTERO. Que fique claro: não adianta tentar argumentos pra separar ambos. A gente só fala de coisas separadas quando houver viabilidade de existirem separadas. E tem útero sem feto, mas não tem feto sem útero. E tem pessoa sem útero, mas não tem útero sem pessoa que decide por ele. A pessoa decide pelo útero. Ficou claro? É hierárquico mesmo, ué. Já aviso: não insista, é perda de tempo.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

A Feira da Praça Kantuta


Domingo passado eu e Daniel almoçamos na Feira da Praça Kantuta. A feira acontece todos os domingos no Pari, exatamente enfrente ao lugar onde cursei o Ensino Médio, que hoje se chama Instituto Federal de Educação Tecnológica – mas que eu chamo carinhosamente só de “a Federal” (porque na minha época era “a escola”, não “o instituto”).

Mas na minha época não havia feira e a praça sequer tinha esse nome. E não tenho a menor ideia de como a praça se chamava. A Praça passou a chamar-se Kantuta há uns 10 anos, quando começou a feira, uns 4 ou 5 anos depois de eu deixar a escola. Katuta é a flor que empresta suas cores para a bandeira da Bolívia. Na Praça funciona um centro de apoio aos imigrantes bolivianos, que passaram a montar barracas de comidas típicas (pra serem consumidas lá ou ingredientes para prepará-las) e a coisa foi crescendo. Eu já sabia da existência dessa feira há algum tempo, pensava em conhecê-la, mas foi uma matéria no caderno de comida do Estadão (estamos recebendo o jornal de a graça em casa por um mês, aquelas promoções pra te convencerem a assinar) que me levou a finalmente visitá-la.

Quando chegamos, aquela coisa linda. Uma praça que provavelmente estaria triste e meio abandonada sendo tomada pelas pessoas, sendo vivida. Crianças correndo entre as barracas enquanto os seus pais trabalham ou se divertem. Comoveu-me especialmente por ser tomada por uma população marginalizada, como são os imigrantes bolivianos.

É claro que como futura imigrante latino-americana em terras estrangeiras sou suspeitíssima pra falar. Mas eu nunca entendi mesmo a xenofobia. Se as pessoas vêm pra cá se sujeitar a condições de trabalho terríveis é porque a economia, como funciona hoje, absorve isso. Eu me lembro dos meus pais contando como tem gente que se escandaliza com a sugestão de que funcionários da saúde pública aprendam um pouco de espanhol pra atenderem esta população. Acham um absurdo que o dinheiro público seja investido para atender imigrantes muitas vezes ilegais. Como se eles não pagasse ICMS cada vez que compra uma lata de óleo ou pegam o metrô pra ir lá se divertir na praça aos domingos. Gente que acredita piamente que o estado de bem estar social da Escandinávia é só mérito deles, não tem absolutamente nada a ver com a pobreza, sei lá, das Filipinas. Como se o mundo não fosse uma coisa só e as pessoas não tivessem o direito de tentarem se defender com alguma dignidade seja onde for.

Sou muito tímida (acreditem) pra puxar assunto com quem eu não conheço. Queria saber se as moças da barraca de comida onde comemos o majadito (uma carne desfiada com molho no arroz, servida com banana assada, ovo frito e mandioca – gostoso, mas nada demais) trabalham em fábricas de segunda a sábado, como acredito. Acho que há muita gente ali nessa situação, trabalhando de segunda a segunda, tentando conseguir no domingo algum dinheiro pra guardar ou enviar pra família, o que seria difícil demais só com o salário. Mas elas estavam muito ocupadas e eu fiquei com medo de ser invasiva.


Voltando a feira em si, fica lá uma espécie de animador com o microfone dizendo coisas em um espanhol quase incompreensível de tempos em tempos. Há barracas com milhos dos mais variados formatos. Batatas brancas e rajadas, pacotes de erva mate e cerveja Paceña, pão de milho. Nossa entrada foi uma salteña deliciosa em uma das barracas mais “ricas”: Don Carlos tem uma barraca enorme e aparece gente pra comprar caixar enormes de salteñas e levar pra casa. Pelo capricho das embalagens pra viagem, imagino que ele seja o primo próspero do lugar. Compreensível, dada a qualidade da salteña.


Uma coisa nos chamou demais a atenção: três ou quatro tendas de “peluquería”, ou seja, cabelereiros. Pela extravagância dos penteados das fotos do lado de fora, imagino que a necessidade do serviço apareceu não só pelos preços praticados aqui, mas pela dificuldade de comunicação enquanto as expectativas de resultados (eu já cortei cabelo fora do país, dá um pouco de medo mesmo).

Por fim, outra curiosidade: tendas com publicidade da Western Union. Até ir pra França eu sequer sabia o que era Western Union, porque seu principal negócio é a comissão sobre as remessas de imigrantes para seu país de origem. E o Brasil do crescimento econômico passou a receber muitos imigrantes. Vemos todos os dias notícias de estrangeiros vindo tentar a sorte aqui. Entre eles europeus super qualificados. Mas jovens brancos de classe média alta são sempre bem recebidos, né? Já os bolivianos pobres cujos traços não escondem sua etnia são vistos com desdém (racistas? nós?). 

Eu acho mesmo um alívio que eles tenham encontrado um espaço nessa cidade tão hostil, que a Praça Kantuta possa acolhê-lhos, em uma cidade que não acolhe os pobres, mesmo os nascido aqui. Transformaram a Praça Kantuta em um espaço tão rico e oferecem diversidade cultural a uma cidade tão intolerante. Plantam kantuta colorida no concreto (clichês cafonas, trabalhamos). Como não ser grata?

sábado, 4 de agosto de 2012

Efeito Borboleta ou “como você se imagina daqui a 5 anos?”


Ontem, comendo uma pizza e tomando vinho com o Daniel, tive um insight do quanto me parecia surreal a conversa que estávamos tendo. O cenário era absolutamente banal, mas o conteúdo trazia a ansiedade das mudanças que nossa vida vai sofrer mudanças. Muitas mudanças. (disclaimer: quando uma mulher como eu - cissexual, hetero, casada há um tempo e balzaquiana - diz que tem mudanças GERAL pensa que é gravidez, mas não é).

Enfim. Disse pra ele que a vida era um conjunto de dias, e fiquei tentando lembrar de todas as varíaveis envolvidas no que estamos vivendo, dia após dia. Pensei naqueles filmes que começam com os personagens em alguma situação, e voltam na história pra explicar como chegaram até ali. E acabo de lembrar que um dos meus romances preferidos na vida, o “Cem anos de solidão”, começa exatamente assim, com o pelotão de fuzilamento do Aureliano Buendía, e depois volta pra toda a história da família.

Daí pensei que, se minha vida fosse contada assim, queria começar pela crise de choro convulsivo que tive na sala de embarque no aeroporto do Galeão, no Rio, perto das 14h00 da última segunda-feira, dia 30 de julho. Nenhuma tragédia acontecendo, apenas o resultado da comoção após a leitura de um e-mail enviado por uma pessoa especial na minha vida (vejam bem, não fosse a popularização dos smartphones nos últimos anos, nem ler e-mail no aeroporto eu estaria lendo). E aí me peguei pensando em como eu estava 5 anos antes da última segunda-feira. Em como seria interessante se 5 nos atrás eu pudesse me ver naquela situação, como uma bola de cristal mesmo, sabem?

30 de julho de 2007. Pensei em tentar recuperar meus e-mail no gmail mas, oi, preguiça. Mas eu estava desempregada. Tinha voltado da França há menos de um ano. Depois de voltar, trabalhei como assistente do diretor financeiro de uma montadora francesa, emprego que eu só consegui porque falava francês fluentemente. Era um contrato temporário de 6 meses, porque estavam de mudança pro Rio. Como meu chefe adorava meu trabalho, queria que eu me mudasse pro Rio com o resto da equipe. E eu queria também, porque já não aguentava viver na casa dos meus pais. Não por eles, mas aos 27 anos, esse papel de filha, de viver numa casa que não é a minha, já tinha me cansado. Mas veio a frustração: o RH me ofereceu um salário ridículo pra me contratar (como temporária, eu era terceirizada até então), o diretor disse que não podia interferir nas políticas do RH, e eu não fui.

Isso foi em junho. Eu só encontraria outro emprego em novembro. Neste meio tempo, meu incômodo aumentou de uma maneira que tornou impossível minha convivência na casa dos meus pais. Saí de lá poucas semanas antes de conseguir outro emprego, disposta a viver das minhas economias em uma pensão enquanto o emprego bacana não aparecesse. Mas o acaso premiou minha ousadia e colocou no meu caminho um emprego que eu detestava, mas pagou as minhas contas até eu conseguir coisa melhor. E eu pude mudar pra um lugar muito bacana, mas absolutamente “pelado”: dormi a primeira noite em um saco de dormir, fiquei mais de 1 mês sem geladeira (acesso à internet? HAHAHAHAHAHA).

Pouco tempo depois conheci o Daniel em uma festa de uma ex-colega daquela montadora. E bom, conhecer o Daniel muda toda minha história. Marca todas as decisões. Concluo então que trabalhar na montadora por 6 meses me serviu para 1) criar a série de eventos que me levariam a conhecê-lo, 2) aumentar a minha frustração a ponto de finalmente virar a mesa e ir cuidar da minha vida.  Mas eu não teria ido trabalhar nessa montadora se não tivesse ido viver na França. E talvez (porque aí é só suposição mesmo) não tivesse ido viver na França se meu melhor amigo, que eu conheci no colégio técnico, não tivesse ido fazer a mesma coisa uns anos antes e me incentivado tanto ao voltar. E eu não teria saído da escola particular pra estudar na escola técnica federal se meu pai não tivesse ficado desempregado em 1994.

Enfim. Dei uma viajada agora. Mas tem mais coisa. Tem esse blog, criado em outubro de 2009 sem maiores pretensões e que mudou minha vida, porque trouxe gente incrível demais. Não haveria a crise de choro convulsivo no aeroporto se não houvesse o blog, porque a pessoa que me comoveu chegou até mim por conta dele. E, desculpem as outras todas, mas só por ela esses cento e tantos posts (nem é tanta coisa assim) já teriam valido a pena. Mas não. Tem ela, e tem mais um batalhão, uma festa de gente linda, bacana, que chegou aqui porque curtiu meu texto. Sou grata demais a mim mesma por tê-lo criado.

Em 30 de julho de 2007 eu estava muito frustrada, e ansiosa pra que minha vida se encaminhasse. Em 30 de julho de 2012 as lágrimas são ligadas a intensidade do rumo maravilhoso que as coisas tomaram. O que só me deixa curiosa para 30 de julho de 2017. Mas a vida é uma sucessão de dias, um de cada vez, e hoje é dia de comer pastel na feira. Bom sábado! =)

sábado, 7 de julho de 2012

Memórias gastronômicas de um relacionamento estável


Fui à feira sozinha e na barraca do pastel me dei conta de que se um dia a gente terminar, vou sempre lembrar que seu preferido é pizza (eu cada semana pego um diferente). Se um dia a gente terminar, vou lembrar que além do pastel do sábado, você come também o pastel da feira de quinta-feira, a caminho do trabalho, como café da manhã. Vou me lembrar também que seu café da manhã é, boa parte das vezes, só café e cigarros – que às vezes você varia pra um suco cítrico, o que também não é nada bacana pro estômago (eu e minha gastrite ficamos inconformadas).

Se um dia a gente terminar vou lembrar que você não achava o jantar importante até me conhecer e eu te deixar claro que, se eu não tivesse companhia pra jantar, ficava sozinha. E lembrar que sua resposta foi um suspiro seguido por “beleza. então vou comer menos no almoço”.

Se a gente terminar vou lembrar que você não é muito fã de doces, mas que a vó Erci no seu aniversário faz uma torta de morango pra você e a outra pros convidados. E que eu já levei bronca por comer um pedaço da sua. E vou lembrar do seu apreço pelas papinhas de frutas industrializadas (mas eu sei, você disse que já enjôou delas faz um tempo). Vou lembrar que você e sua família joseense me apresentaram ao bolinho caipira (é bem bom bolinho caipira).

Se um dia a gente terminar vou lembrar que você não gostava de coentro quando a gente se conheceu, e hoje come até na salada. Vou lembrar que você gosta tanto da comida da minha mãe que já foi até lá meio brigado comigo só pra filar o almoço. Mas também vou me lembrar que você é um chato que não gosta de abóbora, nem do doce da minha mãe (melhor, sobra mais). E também não é lá muito fã de mandioquinha (que pra mim é o paraíso em forma de legume). Ai, também não gosta de grão-de-bico, acabei de me lembrar. Porra, você é MUITO chato.

Se um dia a gente terminar vou lembrar que você gosta de cervejas em geral, e da Guinness em especial. E lembrar que os anos na Alemanha o fizeram gostar daqueles salsichões que eu acho sem graça. E que gosta de joelho de porco, e de purê de batata com salsicha.

Se um dia a gente terminar, vou lembrar que temos planos de viagens gastronômicas para o Peru e para o Sudeste Asiático. Pode ser que a gente só termine depois de fazer essas viagens, que hoje ainda parecem tão distantes. Mas a viagem de carro até Ushuaia também parecia um sonho distante e a gente realizou. E nem era uma viagem gastronômica, mas comemos muito bem em alguns lugares (e pessimamente em outros).

Se um dia a gente terminar, vou lembrar que nós dois engordamos desde que nos conhecemos. E que todos esses quilos foram feitos de muito prazer. Vou me lembrar que apesar de eu estar rechonchuda pra mais, você continua dizendo que eu sou gostosa – e se a gente é o que a gente come, eu devo ser mesmo, modéstia às favas.

Se um dia a gente terminar vou me lembrar de uma relação tão deliciosa que não tem porque terminar. Eu não quero que termine. Acho que nem você, né?

quinta-feira, 21 de junho de 2012

O discurso normalizante


O que há em comum entre a minha monografia sobre políticas públicas para pessoas com mobilidade reduzida (que se se arrasta como uma lesma, mas não está parada), a polêmica sobre o parto em casa e os obstáculos que homens e mulheres transexuais enfrentam para terem sua identidade aceita reconhecida? Todas tem o discurso médico como condutora de políticas públicas.

Eu sempre me interessei por política. E acompanhando o processo eleitoral nos últimos anos, os noticiários de TV, sempre notei que a Economia tinha um papel decisivo nas macro decisões. A Economia é o deus mais importante da política. Então eu tinha vontade de estudar Economia não porque o assunto de fato me interessasse tanto, mas porque queria comer o fruto da árvore do bem e do mal, queria ter conhecimento técnico pra afirmar que dá pra conduzir o mundo de outro jeito. Enfim, não fiz Economia, fiz Letras, e os motivos interessam mais a minha analista do que a vocês, acreditem. Mas não deixei de me interessar por política nunca, jamais, em tempo algum, embora político partidário às vezes me cause mais sono do que revolta, como seria de se esperar (Maluf? Erundina? So eighties, honey!). 

Daí chego a minha monografia. E me dou conta de que há produção em ciências sociais sobre as dificuldades cotidianas das pessoas com deficiência é muito restrita. Mas chego a isso já depois de ser apresentada a questão da deficiência como problema social. Há uma sociedade que teima em discriminar tudo o que não se enquadra num padrão, regido, entre outras coisas, pelas exigências do mercado de trabalho. Mas o discurso que sempre se usou para se olhar para as pessoas com deficiência é o médico. De que as pessoas precisam ser curadas ou reabilitadas. Vira uma questão pessoal que restringe a inclusão ao indivíduo. É um ponto de vista que vem sendo combatido nos últimos anos, mas continua muito forte. Tanto que para ter acesso a algumas políticas de inclusão, é necessário um laudo médico. Não basta o testemunho ocular da deficiência física. É o médico quem deve atestá-la.

A questão dos direitos das pessoas transexuais é análoga em muitas coisas. Outro dia vi que um juiz autorizou uma pessoa trans a mudar seus documentos sem passar por nenhum processo cirúrgico, mas isso é muito raro – e claro, implicou gastos com processo judicial que não são acessíveis a toda a população. No geral, pessoas que se identificam com um sexo diferente do que foi atestado no nascimento são submetidas a um pesado e desumano escrutínio psicológico. Sua diversidade é patologizada com a desculpa de tornar possível sua inclusão numa sociedade que não aceita a diferença. Não é possível mulher com pênis: se tem pênis e “quer ser” mulher é doente, e vai ser estigmatizado como doente por anos até poder ter acesso a uma cirurgia que “corrija” o que está errado. Daí podemos pensar no caso de mudar os documentos e poupar de uma série de constrangimentos. Mas se não se enquadrar no que o discurso padrão acredita ser uma mulher alfa, você é só um homem meio estranho mesmo. Não insista. (¹)

Chegamos ao parto. O que alguém pode dizer que é diferente, que é claramente uma questão de saúde. E não nego que seja também, mas não é só isso. E o post é sobre essa hegemonia do discurso médico. Que o parto é anterior a medicina, acho que é fato histórico incontestável. É claro que o número de óbitos era alto, ninguém vai negar. Este não é um post pra falar mal da medicina, muito menos de cesarianas, porque são conquistas importantíssimas para humanidade. A questão é que transformou-se o parto em um procedimento obrigatoriamente médico. A presença de um médico deixa de ser um direito e passa a ser mandatória para um parto com segurança.

Misturei um monte de coisas, porque o que eu tenho pensado é sobre como os médicos passaram a ser sacerdotes dos comportamentos, tal qual os economistas são para as grandes decisões políticas. Porque o nosso olhar sobre o outro, esteja se locomovendo em uma cadeira de rodas, esteja adotando uma identidade diferente da designada em seus documentos, é um construto social, mas chamamos os médicos para nos socorrerem sempre que este outro sai do que consideramos “normal”. Poderíamos chamar um poeta, um filósofo, poderíamos achar que urgente é construir empatia. Mas achamos mais urgente rotular, enquadrar, fazer caber no nosso modelo de mundo, de normalidade, de civilização.

(¹) Mencionei o pessoal trans sem me aprofundar demais, porque não tenho condições. Espero não ter sido leviana e que tenha ficado claro que as aspas aí significam não o que eu penso, mas um senso comum. Estou pronta a me desculpar caso tenha ofendido alguém.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Os novos rumos do menino Poizé – ou sobre carros, de novo


Ano passado escrevi dois posts muito comentados (pros padrões deste blog modesto) sobre nossa decisão de ficar sem carro. Alguns meses depois, fizemos um novo contrato de leasing e trouxemos para garagem Poizé, nosso meio de transporte durante a maravilhosa jornada até Ushuaia. Essa semana o contrato acabou e, depois de nos servir tão bem, de rodar por tantas estradas de terra nos confins da Argentina, de ter a porta quase arrancada pelo vento patagônico, nosso companheiro de aventuras volta pra concessionária da marca (nota: propaganda de graça, não trabalhamos). Ficamos aqui imaginando que se ele pudesse falar, ia contar vantagem para os coleguinhas: “Qual o lugar mais longe que você já foi? UBATUBA? Se liga, ô, cruzei os Estreito de Magalhães de balsa. Vai lá no mapa ver onde fica e depois a gente conversa.”

Menino Poizé, todo trabalhado no uso sustentável - aka capacidade máxima

Mas voltar a ficar sem carro me fez reler os posts e repensar algumas questões. Semana passada estive em Brasília em um seminário da Capes sobre os problemas da metropolização brasileira. E em algum momento, perguntaram ao professor Carlos Correia da Fonseca, da Universidade Tecnica de Lisboa, o que ele achava de medidas punitivas para o uso do carro. E ele se incomodou muito com o termo “punitivas”. Para o expositor, o carro é uma conquista do nosso desenvolvimento, não é um vilão. O problema do carro é que, da maneira como é usado, traz grandes prejuízos de maneira coletiva para alguns benefícios privados.

Explicando melhor. No post do ano passado, falei sobre os custos de se manter um carro. De que achava caro e tal. Mas a questão é que o carro ainda é mais barato para seu proprietário do que para o resto da sociedade – incluindo aí as pessoas que nunca vão ter carro na vida. Ano passado mencionei, por exemplo, que o IPVA tributa a propriedade, mas não o espaço que você “empata” quando deixa o carro estacionado na rua. Mas esse é um exemplo bem primário. Nem o IPVA, nem o ICMS sobre o combustível é suficiente pra cobrir os gastos públicos com as doenças causadas pela poluição. Tenho minhas dúvidas também se o DPVAT, o seguro obrigatório, dá conta de todo o ônus a longo prazo gerado pelos acidentes e mortes no trânsito (embora ele exista pra cobrir despesas imediatas), mas como não tenho esses dados aqui a mão, deixo só o questionamento mesmo.

Bom, daí alguém pode argumentar que esses ônibus caindo aos pedaços que circulam pela cidade emitindo fumaça preta são mais poluentes do que carros novos com catalisadores. Mas além da questão óbvia de que um ônibus transporta muito mais gente, qualquer cidadã(o) tem o direito de se utilizar do transporte público, tendo inclusive gratuidade garantida em alguns (poucos) casos. Carros particulares são de uso... particular. E, do ponto de vista do pagamento de tributos, não faz diferença se você circula no seu carro todo dia sozinho ou se apenas leva a família pra passear com o carro cheio nos finais de semana (uso muito mais sustentável). Não se tributa o uso, mas a posse. Há alguma tributação indireta por meio do ICMS dos combustíveis, mas de novo, em termos de prejuízos coletivo é completamente diferente usar o carro individualmente nos horários de pico de segunda a sexta e fazer um passeio com a família aos sábados, embora os trajetos possam ser equivalentes. 

Então um desafio da gestão pública é esse, entender que o transporte individual gera um ônus social muito grande pra que este custo não seja captado integralmente de forma privatizada, já que não é justo obrigar quem não se locomove assim a arcar com esta despesa. E claro, oferecer alternativas sustentáveis que desestimulem o uso do automóvel, pra que as pessoas até comprem um se lhes for conveniente, mas sintam que não é vantajoso utilizá-lo em todos os momentos. Menino Poizé saía de casa para visitar meus pais no outro lado da cidade aos domingos, ir a São José do Campos, onde vivem os pais do Daniel, em outros finais de semana, majoritariamente. Umas poucas e raras vezes (não devem ter chegado a 20 em uma ano) fez o trajeto Pinheiros-Berrini (ou seja, casa-trabalho). Além, é claro, de ter ido até Ushuaia e voltado.