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quinta-feira, 10 de junho de 2010

Sex and the City

Então, eu não vi o segundo filme e acho que não vou ver. Não no cinema, pelo menos. A não ser que alguma amiga sugira um programinha luluzinha em que a sessão de cinema esteja inclusa- e daí eu vou pela companhia. E nada contra. Mas só não consigo ser entusiasta. Eu tenho amigas superhiperultramegamaxi fãs, que têm todas as temporadas, conhecem episódios de cor, etc, etc. E eu mal sei das histórias, porque só assisti reprises – só fui ter TV a cabo em casa há 3 anos, e a série já tinha acabado.
Mas eu respeito. Muito. Porque se eu tenho uma certa gastura com o consumismo e os deslumbres por grifes – ok, eu tenho mais pares de sapato do que eu precisaria, mas não sou deslumbrada com isso – a gente tem que reconhecer que em termos de comportamento a série foi revolucionária. Uma coisa que sempre me chamou a atenção foi falarem abertamente de mulheres se masturbando. E é impressionante como ninguém falava. Aliás, quase ninguém fala ainda. Nem entre amigas. Recentemente, uma amiga se queixava do quanto era chato estar sem companhia masculina e eu falei que tem horas que a gente se cansa de se satisfazer só com os dedos. Visivelmente constrangida, ela disse que “não gostava disso”. Olha só, da minha geração, fala sobre homens numa boa, mas prazer solitário “não gosta”. E eu acho bizarro mesmo. Consegue imaginar um cara falando pro outro: “ô, nem gosto de punheta?”. Pois é.
Mas as moças lá gostam. E eu lembro da faxineira que a Miranda arranjou que trocou o vibrador dela por uma imagem religiosa. E penso que nunca antes de SATC a gente veria algo assim. E penso na Samantha e toda a sua voracidade, como ela destrói todas as previsões machistas de que a mulher “rodada” tá “condenada” (todas as aspas do mundo, né?) a ficar sozinha. Por ela termina a série ao lado de um homem gato, apaixonado e companheiro, disposto a ficar ao lado dela no momento mais difícil de sua vida, não importa com quantos homens ela tenha transado antes. Lembro da Charlotte que nunca tinha pegado um espelhinho pra olhar sua própria vagina e penso em quantas Charlottes encontramos por aí... Daí meu respeito, porque olha, não deveria ter nada de chocante nada disso, mas todo mundo fazia de conta que a nossa sexualidade só existia orbitando um homem, e para o prazer dele. Então, na ficção assim cotidiana, as mulheres nunca foram tão autônomas.
Daí lembro de ter visto em algum site feminista uma crítica ao primeiro filme. Mas o que eu mais gostei foi justamente o que muita gente achou machista pra caramba. Tipo, a Miranda é a minha personagem favorita. E, desculpe quem não viu o filme, lá ela tá há muitos meses sem transar com o marido. E daí ele a trai e eles se separam. E contando parece mesmo que o lance é que a gente tem obrigação de transar e tal. Mas eu não entendi assim. Porque sexo é carinho em muitos contextos, e a gente vê que não era sexo que Miranda recusava a Steve – era intimidade. E que ele sofre muito por isso. E ele conta a ela que a traiu arrasado, destruído. Não há um pingo de intenção de humilhá-la no ato dele, ele é quem se sente humilhado de ter que esmolar carinho fora da relação. E, por ser feminista, eu deveria acreditar que mulheres não tem reponsabilidade nenhuma pela felicidade dos seus parceiros só pra fazer oposição a quando se acreditava que tudo estava nas nossas mãos? Não, né? Então, bobona que sou, chorei horrores. Pra mim, o filme marcou por essa história: a tentativa de reconstruir uma relação abalada, de fazer o amor valer mais do que a mágoa. E a trilha desta trama é “How can you mend a broken heart”, só pra eu chorar mais ainda. E eu tava no comecinho do namoro com o marido, mas já fiquei pensando o quanto o perdão é matéria-prima essencial dos relacionamentos, especialmente aqueles que se pretendem longos.

Ok, a Carrie, o Big e tal. Isso dá preguiça mesmo. Aliás, desculpaê quem é fã, mas eu acho a Carrie uma chata, sempre achei. Mas quem disse que são os protagonistas que sempre contam as melhores histórias?

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Leveza

Essa semana assisti a “Persépolis” com o marido, que ele não tinha visto ainda. É uma animação incrivelmente bem produzida que trata uma história triste com toda a leveza possível.

Em algum momento da minha vida fui acusada por uma “ex-amiga” de ser uma pessoa pesada, porque eu tava sempre vendo o lado ruim das coisas, segundo ela. Pô, tomei a pílula vermelha. Sofrimento enorme, esse, viu? Queria, como ela, conseguir fletar com o policial que estava na Sorbonne pra reprimir as manifestações dos estudantes. Mas eu não via o cara gostoso, via a repressão, não rolava mesmo. Não sou uma criatura iluminada, pelo contrário, acho que até sou bem superficial algumas vezes. Mas somo dois mais dois e sou bem crítica, e não tenho culpa disso. Taí o Caio Fernando Abreu, que não me deixa mentir:

"Você pode se recusar a ver, o tempo que quiser: até o fim de sua maldita vida, você pode recusar, sem necessidade de rever seus mitos ou movimentar-se de seu lugarzinho confortável. Mas a partir do momento em que você vê, mesmo involuntariamente, você está perdido: as coisas não voltarão a ser mais as mesmas e você próprio já não será o mesmo. O que vem depois, não se sabe.”

Por outro lado, como muito custo, aprendi que o mundo não vai ser um lugar melhor se eu for infeliz. Que eu preciso sim refletir sobre as minhas escolhas, mas que não é indigno sentir-se bem num mundo tão miserável, contanto que eu não faça de conta que esssa miséria não tem absolutamente nada a ver comigo. Antes eu achava que pra conseguir isso a gente precisava ser muito cínico. Hoje acho que basta um pouco de pragmatismo.

Mas o título fala de leveza. Tenho curtido muito filmes que tratam de temas sérios de maneira leve, mas não leviana, que a gente encara no sábado com pipoquinha assim, despretensiosamente. E o Persépolis, apesar da intensidade, tem uma narradora que faz a sua autobiografia não se levando tão a sério, o que é sensacional. Na mesma categoria, amei de paixão o “A Culpa é do Fidel”. Não assistiu ainda? Corre na locadora ou no torrent, porque é imperdível. E “O Crocodilo” do Nanni Moretti? Comédia leve, mas que faz uma denúncia pesada sobre a máfia que é o governo Berlusconi.

Gosto de filmes e de refletir sobre a realidade. Se eu puder fazer os dois ao mesmo tempo e ainda me divertir então, programa perfeito. Aceito sugestões.

domingo, 25 de outubro de 2009

Sobre cinema

Um dos meus projetos de vida, daqueles que a gente diz "uma dia ainda vou fazer tal coisa", é sair de férias na época da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, comprar um passe daqueles integrais e passar quinze dias respirando cinema. Eu adoro cinema, e vou muito menos do que gostaria. Houve uma época da minha vida, há muuuitos anos atrás, em que eu namorava um moço muito interessado em cinema também. E a gente era estudante sem dinheiro pra nada. Os cinemas no centro de São Paulo cobravam R$5,00 pela entrada. Mas às quartas-feiras, R$2,50. Às quartas e com carteirinha de estudante, R$1,25 (!!). Daí, a gente ia ao cinema às quartas e aos sábados. Depois juntava uns trocos pra comer esfiha do Habib's da Av. Ipiranga. Licença para uma digressão enorme: peguei trauma de Habib's, porque me lembra uma fase que o MacDonald's era caro pra mim. Hoje, quando vou a uma lanchonete mais phyna e portanto muito mais cara, tipo, sei lá, o Joaquim's, e vejo galera de 16 anos lá, fico pensando no tamanho da mesada desse povo que, com essa idade, já tem R$50 pra gastar assim, numa sentada. Gastar 50 pilas numa sentada, pra mim, só foi possível depois de alguns anos de batente...

Voltando ao cinema, eu fui muito ao Marabá. Era imenso, tinha uns 900 lugares e uma tela enorme. Sério! E me lembro quando instalaram som digital, quando lançaram Twister, aquele filme dos furacões (lembram?). Parece que só tinha graça com som digital. O Marabá parece que virou um multiplex com 4 salas. Eu ia menos ao Ipiranga. Lá, uma vez, um morador de rua cheirando mal sentou ao meu lado. Ele tava cheiradão e eu fiquei assustada. Mas, pô, R$2,50 a entrada, né? Conseguem imaginar um morador de rua pagando R$16,00 pra entrar no Espaço Unibanco? Nem falo de shopping, que os caras não passam nem pela porta. Hoje, mesmo com meus creminhos importados, me sinto a super muderrrna, porque com 16 anos, enquanto todo mundo ia em cinema no shopping, eu atravessava a Pça da República às 10 da noite depois de pegar cineminha no Ipiranga tendo junkies como companhia.

Sem carteirinha de estudante (porque eu não uso carteirinha falsa), fica caro ir ao cinema sempre. Descobri há 1 ano que o Belas Artes tem uma promoção às segundas: cobram só R$4,00 de quem provar ser "trabalhador" (crachá da empresa serve), o que me fez uma pessoa muito feliz. Se um dia você estiver por lá às segundas e vir uma moça com roupa social e cara de esfinge (pééééssima essa, eu sei) de mãos dadas com um moço bochechudo e com ares de roqueiro, somos eu e marido, tá?

Por fim, a Mostra: nunca entendi porque as pessoas se matam para assistir ao filmes mais bambambam, justamente os que vão entrar em cartaz no circuito comercial dali a algumas semanas. A graça pra mim é assitir àqueles que, não fosse pela Mostra, a gente nem saberia que existiam.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

C.R.A.Z.Y.

Eu já tinha visto, mas o marido não, então peguei em DVD pra ver de novo. E a gente sabe que gostou quando se emociona pela segunda vez. Zac, o protagonista, quarto filho de uma família de cinco rapazes, é gay. Mas não é simples assim: a gente acompanha a infância dele, a inquietação, a negação, a dificuldade em se aceitar. Porque Zac diz que tem o melhor pai do mundo, e se para o melhor pai do mundo com uma formação católica não é fácil aceitar um filho gay, 30 anos atrás era ainda mais difícil.

É um filme sobre família, sobre o amor do pai pelos filhos, sobre a dificuldade de aceitar as diferenças. Eu acho interessante, porque o Zac é super sexualizado, a gente saca, mas o filme não explora cenas de sexo, e acerta nisso. Não tenho nada contra elas, mas aqui a proposta é outra. O foco são as relações familiares, então interessa mais mostrar a sexualidade como formação de identidade e posicionamento no mundo do que como prática. Então, se colocar lá o vovô católico/militar/malufista, que tem horror a idéia de um homem beijando outro, pra assistir, duvido que ele não se emocione. Porque, por mais que a gente goste de sexo, ele é parte importante da nossa vida, não a nossa vida toda. E os filhos queridos não deveriam deixar de ser queridos quando seus caminhos não foram exatamente os que os pais escolheriam.

Eu queria que o marido assistisse ao filme porque ele é bom, mas também porque reconheço demais o meu sogro no protagonista. Eu sei que, na maioria dos casos, os pais amam seus filhos. Mas a maneira de amar e, principalmente, de expressar o amor, é muito particular. Esse amor louco, com um orgulho que transborda, que faz sofrer, é o amor do meu sogro pelos seus “meninos”. Meu marido, o mais velho dos meninos do meu sogro, concordou comigo: seu pai e Gervais Beaulieu são sujeitos parecidos.

Ah, tem a trilha sonora também, incrível! Depois do filme, Space Oddity ganhou um significado especial pra mim.