Lá vou eu. Pulando de cabeça na polêmica-mamilos sem bóia. Fui.
Seguinte. Myriam Rios, ex-celebridade, ex-namorada do Roberto Carlos e atual deputada estadual pelo RJ, falou aquela tanto de besteira na assembléia legislativa de seu estado. Associou homossexualismo a pedofilia. Daí, neste contexto, uma porção de gente foi procurar as fotos sensuais que ela fez mileanos atrás (algumas de antes de eu nascer) para denunciar a sua hipocrisia e seu falso moralismo. Outros não perderam a viagem e resolveram chamá-la de puta. Bom, a Conceição Oliveira fez parte do primeiro grupo. E eu discuti o assunto com ela no twitter. Como o espaço limitado lá dificulta bastante debater o que quer que seja, resolvo trazer a discussão pra cá.
O post no Maria Frô traz algumas fotos da Myriam Rios e se dirige “aos moralistas de plantão”. Termina com a pergunta: “Moralistas cristãos de plantão que aplaudiram as bobagens ditas por Myrian Rios, vocês a contratariam como babá?”. E quando uma leitora a indaga sobre o porque recuperar essas fotos, ela responde assim:
“Quanto a mim, destaquei as fotos, porque considero que o discurso falso-moralista e detrator de Myriam Rios não orna com a sua prática. Para os moralistas de plantão, 'boas mães cristãs de família' não posam nuas em revistas masculinas, ou posam?”
Sou da turma que pensa como a leitora Ana Paula Guedes, que se incomodou com o post. E meu argumento para a Conceição foi o de que não vejo porque seria incoerente posar nua 30 anos atrás e ser homofóbica hoje. Sobre essas fotos feitas 30 anos atrás podemos supor duas coisas: que ela se arrepende de tê-las feito ou que ela não vê problema algum nisso.
Pois bem. Vamos ao primeiro. É hipócrita desfrutar de sua vida, celebridade, beleza e juventude e, ao cair no ostracismo, virar fiscal de fiofó alheio? Ô se é. Mas a gente não sabe se foi isso que aconteceu. Porque o post diz: “é uma opção real decidir ser fotografada nua e cobrar por isso”. Mas o que a gente sabe é que nem sempre nessas situações as mulheres tem todo esse poder de escolher. Que esse “escolher”, pode ser até a página dois. Uma atriz mediana pode muito bem ter tido problemas financeiros, ter feito isso sem curtir porque precisava muito do dinheiro pra pagar os remédios da mãe doente ou [insira aqui qualquer outra situação dramática em que grana faz muita diferença], e hoje ficar realmente mal aos se lembrar que teve que se submeter a isso. Quer dizer, pode ter se arrependido porque ela não tava ali desfrutando a liberdade do seu corpo que agora o seu discurso quer negar. Talvez ela nunca tenha sido livre, até porque dizem que ninguém consegue oferecer o que não tem. Ou talvez ela realmente tenha mudado muito nestes 30 anos e não se reconheça nessas fotografia. Se é assim, lembrá-la disso com certeza é um ataque a ela. Mas seria um ataque eficiente ao seu discurso?
A Conceição no seu PS 2 se dirige a mim, explicando que para ela falsos moralistas para mim são aqueles que não seguem sequer o moralismo que pregam. E eu discordo aí, de novo, que a gente pode afirmar categoricamente que se trata de uma falsa moralista.
Vamos considerar agora que ela não se arrependeu de nada. Que apesar destas fotos serem antigas, ela faria tudo outra vez. Que acha lindo e tal. Não vejo contradição. Mulher posando nua pra revista masculina é algo super heteronormativo. Não ameaça em nada o status quo. Aqueles leitores conservadores a quem o post se dirige podem até ser realmente gratos pelos filhos terem tido a chance de bater uma punheta olhando uma moça tão bonita e garantir sua virilidade. E talvez sequer achem que não serviria para ser babá. Se ninguém mais concordar comigo, “Amar verbo intransitivo” tá aí pra não parecer que eu tirei isso da minha cabeça.
Enfim, não há nada de incoerente entre ter feitos aquelas fotos 30 anos atrás e ter este discurso hoje. O problema é ser homofóbico, ponto. Se a deputada tivesse saído direto do claustro das carmelitas descalças para tomar posse na Alerj, isso não tornaria seu discurso intolerante mais legítimo. Porque nada do que ela fez ou possa ter feito no passado conseguiria isso. E acho que quando a gente começa a discutir a pessoa, tira o foco do que realmente interessa neste caso. A Conceição em nenhum momento usou adjetivos machistas para qualificar Myrian Rios, mas hoje testemunhei gente buscando “material” para construir sua detratação misógina e o coleguinha de timeline dar o link do blog dela pra isso. Porque ela pode ter pensado crítica a uma mulher + foto sensuais = falsa moralista. Mas GERAL soma crítica a uma mulher + fotos sensuais = PUTA.
segunda-feira, 27 de junho de 2011
terça-feira, 21 de junho de 2011
Da necessidade de ter opinião pra tudo
Escrevo um post abordando coisas diferentes com um ponto de intersecção pequeno e corro o risco de ser mal interpretada. Conto com a generosidade de você aí que está lendo pra me dar o benefício da dúvida caso algo soe mal.
Bom, começo com a propaganda da Coca-Cola, que me incomoda um tanto. Pra cada tantos corruptos existem tantos mil doadores de sangue. Os bons são maioria, etc. No mundo em que eu vivo, as coisas são mais complexas e como doar sangue é algo que se faz publicamente e ser corrupto é algo que se faz de maneira (geralmente) dissumulada, não dá pra afirmar categoricamente que quem faz um, não faz outro. Porque no meu mundo não tem nada que diga que um criminoso não seja capaz de uma generosidade. E acho que, no geral, cometer um crime, ou alguns deles, é só um aspecto da vida de uma pessoa. Não que eu não acredite que há serial killers psicopatas, pessoas que se dedicam a se dar bem em cima das outras como vilão de novela. Mas acho que, no geral, a maior parte das pessoas é capaz de coisas bacanas e de coisas mesquinhas. E algumas são capazes também de coisas horríveis. Meu critério para escolher com quem me relaciono é muito mais qualitativo (que coisas horríveis são essas) do que esse condicional bons x maus. Outro dia vi gente inteligente dizer no twitter que não existe gente mal caráter de esquerda. Que se for de esquerda “de verdade”, não é mau caráter. Sério, não posso com essas simplificações do mundo, gente.
Disso eu passo para os comentários de portais na internet. Porque quando noticiam um crime qualquer, o povo que se dedica a comentar nesses lugares curte muito ter uma opinião formada, como se tivesse a investigação tivesse sido concluída e @ comentarista tivesse tido acesso a todo o processo. Daí, maniqueísmo abunda, né? E eu me assusto com a leviandade que a internet propicia. isso de poder registrar sua opinião publicamente mesmo não sendo qualificad@ para tal. Erro que a gente pode cometer facilmente se não tiver o mínimo de cuidado.
Tento evitar ao máximo. Sou uma pessoa razoavelmente politizada, tenho um blog, gosto de dar opiniões, mas faço este esforço de não me manifestar assim, só pra marcar minha opinião. Porque tem coisas que eu não tenho condições de avaliar. Se blogueira X está brigando com blogueira Y e eu só sei do caso muito superficialmente, vou evitar ao máximo dar pitaco, pelo menos publicamente. Claro que eu sou humana, tenho minhas preferências e uma série de preconceitos. Mas tomo muito cuidado antes de fazer afirmações categóricas. Um exemplo bem concreto? Caso Battisti. Não sei o que pensar. Li um pouco a respeito, muito pouco pra me posicionar, pra saber qual é a do cara. E, olhem só, não acho que não ter opinião é um problema. Não tenho especial interesse em Relações Internacionais e isso não vai afetar a minha vida diretamente. Então, se alguém quiser me descadastrar do clube de pessoas pensantes por conta disso, não vou guardar mágoa.
Mas daí vem o ponto polêmica-mamilos deste post. Faço parte de um coletivo, as Blogueiras Feministas. Somos muito plurais e há bastante divergência interna. Tem gente lá que eu adoro, mas com quem não consigo concordar em (quase) nada. Até aí, tudo bem. Os posts no blog coletivo são assinados e quando não concordo com algo, posso ir na caixa de comentários discordar ou simplesmente deixar passar batido. Imagino que não é porque fulana do grupo pensa assim que geral vai concluir que eu, por ser do grupo, concordo também. Bom, e se concluir isso numa questão menos importante, beleza também. O fato é que eu não estou disponível pra entrar em todos os debates do mundo. E fico me perguntando até que ponto não estou sendo negligente quando eu não entro em todos os debates deste coletivo. Enfim. Vocês decidem.
*Agora o alerta: isso não significa, em momento nenhum, que estou desqualificando os debates, nem as pessoas que tem opiniões em questões que não me despertam interesse. Menos ainda que quem tem opiniões firmes em questões que eu ignoro é, necessariamente, maniqueísta. Por favor, vocês entenderam, né?
Bom, começo com a propaganda da Coca-Cola, que me incomoda um tanto. Pra cada tantos corruptos existem tantos mil doadores de sangue. Os bons são maioria, etc. No mundo em que eu vivo, as coisas são mais complexas e como doar sangue é algo que se faz publicamente e ser corrupto é algo que se faz de maneira (geralmente) dissumulada, não dá pra afirmar categoricamente que quem faz um, não faz outro. Porque no meu mundo não tem nada que diga que um criminoso não seja capaz de uma generosidade. E acho que, no geral, cometer um crime, ou alguns deles, é só um aspecto da vida de uma pessoa. Não que eu não acredite que há serial killers psicopatas, pessoas que se dedicam a se dar bem em cima das outras como vilão de novela. Mas acho que, no geral, a maior parte das pessoas é capaz de coisas bacanas e de coisas mesquinhas. E algumas são capazes também de coisas horríveis. Meu critério para escolher com quem me relaciono é muito mais qualitativo (que coisas horríveis são essas) do que esse condicional bons x maus. Outro dia vi gente inteligente dizer no twitter que não existe gente mal caráter de esquerda. Que se for de esquerda “de verdade”, não é mau caráter. Sério, não posso com essas simplificações do mundo, gente.
Disso eu passo para os comentários de portais na internet. Porque quando noticiam um crime qualquer, o povo que se dedica a comentar nesses lugares curte muito ter uma opinião formada, como se tivesse a investigação tivesse sido concluída e @ comentarista tivesse tido acesso a todo o processo. Daí, maniqueísmo abunda, né? E eu me assusto com a leviandade que a internet propicia. isso de poder registrar sua opinião publicamente mesmo não sendo qualificad@ para tal. Erro que a gente pode cometer facilmente se não tiver o mínimo de cuidado.
Tento evitar ao máximo. Sou uma pessoa razoavelmente politizada, tenho um blog, gosto de dar opiniões, mas faço este esforço de não me manifestar assim, só pra marcar minha opinião. Porque tem coisas que eu não tenho condições de avaliar. Se blogueira X está brigando com blogueira Y e eu só sei do caso muito superficialmente, vou evitar ao máximo dar pitaco, pelo menos publicamente. Claro que eu sou humana, tenho minhas preferências e uma série de preconceitos. Mas tomo muito cuidado antes de fazer afirmações categóricas. Um exemplo bem concreto? Caso Battisti. Não sei o que pensar. Li um pouco a respeito, muito pouco pra me posicionar, pra saber qual é a do cara. E, olhem só, não acho que não ter opinião é um problema. Não tenho especial interesse em Relações Internacionais e isso não vai afetar a minha vida diretamente. Então, se alguém quiser me descadastrar do clube de pessoas pensantes por conta disso, não vou guardar mágoa.
Mas daí vem o ponto polêmica-mamilos deste post. Faço parte de um coletivo, as Blogueiras Feministas. Somos muito plurais e há bastante divergência interna. Tem gente lá que eu adoro, mas com quem não consigo concordar em (quase) nada. Até aí, tudo bem. Os posts no blog coletivo são assinados e quando não concordo com algo, posso ir na caixa de comentários discordar ou simplesmente deixar passar batido. Imagino que não é porque fulana do grupo pensa assim que geral vai concluir que eu, por ser do grupo, concordo também. Bom, e se concluir isso numa questão menos importante, beleza também. O fato é que eu não estou disponível pra entrar em todos os debates do mundo. E fico me perguntando até que ponto não estou sendo negligente quando eu não entro em todos os debates deste coletivo. Enfim. Vocês decidem.
*Agora o alerta: isso não significa, em momento nenhum, que estou desqualificando os debates, nem as pessoas que tem opiniões em questões que não me despertam interesse. Menos ainda que quem tem opiniões firmes em questões que eu ignoro é, necessariamente, maniqueísta. Por favor, vocês entenderam, né?
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Mulheres e guitarras
Nunca tinha ouvido falar da Kaki King. Daí a Babi Lopes falou dela na lista e chamou a galera pro show. Fez até uma entrevista com ela.
Bom, a companhia era ótima, o preço era bom, e depois de ver o vídeo no youtube, não foi difícil decidir:
Garanto pra vocês que ao vivo é ainda mais bacana. E o mais legal é que ela é absolutamente low profile: minutos antes antes do se apresentar tava encolhida num sofá no Sesc Belemzinho lendo um livro pra passar o tempo.
A Kaki King foi a primeira mulher nomeada pela revista Rolling Stone como uma "guittar god(ess)". Daí ela me fez lembrar um outra mulher, vinda de um contexto completamente diferente, mas que também se destacou neste ambiente ainda tão machista que é o dos guitarristas:
Imaginem quanta mulher talentosa tem por este mundo tocando pra caramba, mas tendo que trabalhar duas vezes mais do que os homens pra ser reconhecida? Chato, isso.
Bom, a companhia era ótima, o preço era bom, e depois de ver o vídeo no youtube, não foi difícil decidir:
Garanto pra vocês que ao vivo é ainda mais bacana. E o mais legal é que ela é absolutamente low profile: minutos antes antes do se apresentar tava encolhida num sofá no Sesc Belemzinho lendo um livro pra passar o tempo.
A Kaki King foi a primeira mulher nomeada pela revista Rolling Stone como uma "guittar god(ess)". Daí ela me fez lembrar um outra mulher, vinda de um contexto completamente diferente, mas que também se destacou neste ambiente ainda tão machista que é o dos guitarristas:
Imaginem quanta mulher talentosa tem por este mundo tocando pra caramba, mas tendo que trabalhar duas vezes mais do que os homens pra ser reconhecida? Chato, isso.
sábado, 28 de maio de 2011
Por políticas mais eficientes para a saúde da mulher
Hoje, dia 28 de maio, é dia de blogagem coletiva pró saúde da mulher. Hoje é sábado, são 6:42 da manhã, eu tô de ressaca, tenho aula na pós, mala pra fazer e ainda vou tentar aparecer na Marcha pela Liberdade. Mas senti que, pra mim, era importante sair da cama mais cedo pra falar sobre isso.
Sim, nós feministas sabemos que homens e mulheres são diferentes biologicamente. Não precisamos de nenhum artigo pseudo científico pra reafirmar isso, porque , olhem só, vivemos um tsunami hormonal mensalmente. E isso acontece por conta da reprodução, que como eu já disse lá no meu post do Blogueiras Feministas, é um trabalho social. E mesmo quem nunca se interessou por ter filhos, está sujeita a problemas de saúde relacionados ao sistema reprodutivo.
Então, como não vou conseguir elaborar muito, deixo um link para um blog sobre endometriose. A jornalista Caroline Salazar tem um blog em que expõe de maneira muito corajosa a sua batalha contra a doença, que a obrigou a se afastar do trabalho para o tratamento. Pra quem não sabe, a endometriose é uma doença crônica que leva o tecido do endométrio, o revestimento do útero, a crescer em lugares onde ele não deveria estar. Como um câncer, só que benigno. Mas o termo benigno pode levar à falsa impressão de que se trata de algo simples, quando na verdade é uma doença que pode provocar danos sérios à saúde física e emocional da mulher, porque provoca muita dor. Como há dificuldades para diagnosticá-la, a mulher pode passar anos sentindo dores lanscinantes sem saber que sofre de uma patologia. Porque tem mais essa, como é esperado que sintamos dor mesmo quando estamos saudáveis (poucas são as felizardas que nunca tiveram cólica menstrual), há profissionais de saúde que minimizam queixas de suas pacientes.
Em 2007, uma amiga minha foi diagnósticada de endometriose. Acompanhei seu sofrimento. Primeiro, 2 meses sem mentruar e o pânico de estar grávida, situação desmentida após sucessivos exames de gravidez darem negativo. Depois, crises de dores agudas confundidas com apendicite. Não me lembro de ela chegou ser operada para apendicite. Dias e dias de afastamento do trabalho dada a violência das dores, mas algumas semanas após a cirurgia. Soma-se a isso o medo de não ser capaz de engravidar.
Passados poucos meses da cirurgia, minha amiga participou de um processo de seleção para uma vaga de trabalho que oferecia, entre outros benefícios, morar do país legalmente, como ela também sonhava. Viu-se obrigada a omitir sua doença no exame médico, uma vez que isso poderia inviabilizar sua contratação mesmo estando em perfeitas condições de trabalho naquele momento. Há quem digo que isso é antiético. Pois eu digo que entre ter empatia por uma mulher com um problema de saúde tratável que precisa de trabalho e uma empresa gigantesca, não tenho dúvidas sobre quem escolho.
Minha amiga está bem agora. Foi diagnosticada cedo e logo conseguiu tratamento. Tinha um bom plano de saúde e, o mais importante, acesso à informações sobre a doença. Não é o que acontece com a maioria das mulheres. E acho realmente que há pouca divulgação sobre essa doença tão séria. E é essa negligência em disseminar a informação que faz com que milhares de mulheres, todos os dias, sejam vistas por seus empregadores como preguiçosas quando tem que se afastar do trabalho.
(ces prometem que não prestam muita atenção aos erros? é q não vou ter tempo de revisar MESMO. agradecida)
Sim, nós feministas sabemos que homens e mulheres são diferentes biologicamente. Não precisamos de nenhum artigo pseudo científico pra reafirmar isso, porque , olhem só, vivemos um tsunami hormonal mensalmente. E isso acontece por conta da reprodução, que como eu já disse lá no meu post do Blogueiras Feministas, é um trabalho social. E mesmo quem nunca se interessou por ter filhos, está sujeita a problemas de saúde relacionados ao sistema reprodutivo.
Então, como não vou conseguir elaborar muito, deixo um link para um blog sobre endometriose. A jornalista Caroline Salazar tem um blog em que expõe de maneira muito corajosa a sua batalha contra a doença, que a obrigou a se afastar do trabalho para o tratamento. Pra quem não sabe, a endometriose é uma doença crônica que leva o tecido do endométrio, o revestimento do útero, a crescer em lugares onde ele não deveria estar. Como um câncer, só que benigno. Mas o termo benigno pode levar à falsa impressão de que se trata de algo simples, quando na verdade é uma doença que pode provocar danos sérios à saúde física e emocional da mulher, porque provoca muita dor. Como há dificuldades para diagnosticá-la, a mulher pode passar anos sentindo dores lanscinantes sem saber que sofre de uma patologia. Porque tem mais essa, como é esperado que sintamos dor mesmo quando estamos saudáveis (poucas são as felizardas que nunca tiveram cólica menstrual), há profissionais de saúde que minimizam queixas de suas pacientes.
Em 2007, uma amiga minha foi diagnósticada de endometriose. Acompanhei seu sofrimento. Primeiro, 2 meses sem mentruar e o pânico de estar grávida, situação desmentida após sucessivos exames de gravidez darem negativo. Depois, crises de dores agudas confundidas com apendicite. Não me lembro de ela chegou ser operada para apendicite. Dias e dias de afastamento do trabalho dada a violência das dores, mas algumas semanas após a cirurgia. Soma-se a isso o medo de não ser capaz de engravidar.
Passados poucos meses da cirurgia, minha amiga participou de um processo de seleção para uma vaga de trabalho que oferecia, entre outros benefícios, morar do país legalmente, como ela também sonhava. Viu-se obrigada a omitir sua doença no exame médico, uma vez que isso poderia inviabilizar sua contratação mesmo estando em perfeitas condições de trabalho naquele momento. Há quem digo que isso é antiético. Pois eu digo que entre ter empatia por uma mulher com um problema de saúde tratável que precisa de trabalho e uma empresa gigantesca, não tenho dúvidas sobre quem escolho.
Minha amiga está bem agora. Foi diagnosticada cedo e logo conseguiu tratamento. Tinha um bom plano de saúde e, o mais importante, acesso à informações sobre a doença. Não é o que acontece com a maioria das mulheres. E acho realmente que há pouca divulgação sobre essa doença tão séria. E é essa negligência em disseminar a informação que faz com que milhares de mulheres, todos os dias, sejam vistas por seus empregadores como preguiçosas quando tem que se afastar do trabalho.
(ces prometem que não prestam muita atenção aos erros? é q não vou ter tempo de revisar MESMO. agradecida)
segunda-feira, 16 de maio de 2011
Talentos
Uns dias atrás jantei na casa de uma amiga. Quem preparou a refeição - um risoto de alho poró, pêra e queijo parmesão - fui eu. Daí que a terceira amiga presente disse que queria ter talento pra cozinhar. E eu respondi que ela estava enganada. O que eu tenho não é talento, é prática. Acho que a primeira vez que cozinhei tinha não mais que 15 anos. Hoje tenho 31, faça as contas. E ainda assim tudo o que eu faço é extremamente simples. A grande sacada do risoto é essa inclusive: prato único, fácil de fazer e com pinta de elegante. Perfeito pra quem gosta de comer bem mas não necessariamente quer ter trabalho. Então eu não sou uma cozinheira talentosa, até porque nem me aplico o suficiente. Mas sou uma pessoa capaz de fazer algumas coisas bem gostosas, e disso eu mesma tenho certeza.
Continuei dizendo pra minha amiga que esse discurso do talento é muito complicado em uma série de outras áreas, porque desperta o lado mais repressor do nosso super-ego. Se a gente se convence que não presta pra fazer algo, nem tenta. Trava mesmo. Por isso que é tão difícil pra algumas pessoas, depois de adultas, aprenderem um idiomas estrangeiro, por exemplo. Claro, tem lances aí cognitivos do sistemas fonético da língua materna já estar consolidado, etc, etc. Mas pra aprender a falar, tem que estar disposto a falar errado. E falar errado na frente dos outros. E parecer ridículo. Não há opção, sem esse desprendimento, não funciona. Há que escolher entre passar vergonha e aprender ou permanecer na ignorância.
E bom, talento. Não sei quais são os meus. E vivo nesse drama. Mas o fato é que não dava pra esperar tentar descobrir. Nunca deu. Tenho uma vida pra ganhar, aluguel pra pagar. Sabe aquele lance de vida é aquilo que acontece enquanto fazemos planos? Pois é. Nunca pensei que eu fosse usar este adjetivo pra me descrever, mas eu acabo me descobrindo uma pessoa simplória. Porque tento não sofrer muito. Vou lá e faço, sabendo ou não. Um pragmatismo meio tosco de quem já percebeu que às vezes a ação é melhor que a reflexão. O que não significa necessariamente agir por impulso, mas perder o medo de fazer cagada. Ah, sim, eu faço as minhas com frequência. E não, não sou a pessoa mais destemida do mundo: tenho fobia de dirigir, de andar de avião, de altura – só pra começar a citar. Mas tem isso de como eu não sei exatamente o que eu presto pra fazer, não tenho medo de aprender coisas novas (nem de passar ridículo durante o processo). Vai que naquele canto inóspito, naquela tarefa chata, descubro o meu talento, como quando a gente procura uma coisa e encontra outra?
Continuei dizendo pra minha amiga que esse discurso do talento é muito complicado em uma série de outras áreas, porque desperta o lado mais repressor do nosso super-ego. Se a gente se convence que não presta pra fazer algo, nem tenta. Trava mesmo. Por isso que é tão difícil pra algumas pessoas, depois de adultas, aprenderem um idiomas estrangeiro, por exemplo. Claro, tem lances aí cognitivos do sistemas fonético da língua materna já estar consolidado, etc, etc. Mas pra aprender a falar, tem que estar disposto a falar errado. E falar errado na frente dos outros. E parecer ridículo. Não há opção, sem esse desprendimento, não funciona. Há que escolher entre passar vergonha e aprender ou permanecer na ignorância.
E bom, talento. Não sei quais são os meus. E vivo nesse drama. Mas o fato é que não dava pra esperar tentar descobrir. Nunca deu. Tenho uma vida pra ganhar, aluguel pra pagar. Sabe aquele lance de vida é aquilo que acontece enquanto fazemos planos? Pois é. Nunca pensei que eu fosse usar este adjetivo pra me descrever, mas eu acabo me descobrindo uma pessoa simplória. Porque tento não sofrer muito. Vou lá e faço, sabendo ou não. Um pragmatismo meio tosco de quem já percebeu que às vezes a ação é melhor que a reflexão. O que não significa necessariamente agir por impulso, mas perder o medo de fazer cagada. Ah, sim, eu faço as minhas com frequência. E não, não sou a pessoa mais destemida do mundo: tenho fobia de dirigir, de andar de avião, de altura – só pra começar a citar. Mas tem isso de como eu não sei exatamente o que eu presto pra fazer, não tenho medo de aprender coisas novas (nem de passar ridículo durante o processo). Vai que naquele canto inóspito, naquela tarefa chata, descubro o meu talento, como quando a gente procura uma coisa e encontra outra?
quinta-feira, 5 de maio de 2011
Eu, por aí
Tem post meu no Blogueiras Feministas hoje. Apareçam por lá: http://blogueirasfeministas.com/2011/a-maternidade-como-trabalho-nao-pago/
quarta-feira, 27 de abril de 2011
27 de abril - Dia Nacional das Trabalhadoras Domésticas
Fiquei sabendo da data pela lista de discussão das Blogueiras Feministas. Não queria deixar passar a data, porque eu acho que é importantíssimo discutir a questão desta classe de trabalhadoras. Mas daí, vocês sabem, eu sou uma sujeita meio sem-vergonha e preguiçosa. E a Bia fez este post incrível, completíssimo e cheio de informações úteis. Então, se eu fosse você, dava um pulo lá e, caso ainda não conheça, aproveite pra conhecer o blog dela que é luxo só.
Apesar da preguiça, cabe no mínimo a minha opinião sobre o assunto. Como a Bia disse lá e a gente sabe bem, o trabalho doméstico não é um trabalho como qualquer outro. É um trabalho que só existe porque existe desigualdade social, e um grupo de pessoas privilegiado pode se dar ao luxo de delegar a outrem tarefas que não lhe agradam. A desculpa que sempre ouvimos é: “mas eu preciso, não tenho tempo!”, “mas quem cuidará dos meus filhos?”. Daí que a empregada pode ser uma pessoa que também tem casa pra e filhos, mas ela que dê um jeito nisso tudo. O trabalho doméstico faz com nossas necessidades nos pareçam maiores que as necessidades alheias. Contraprodutivo para sensibilidade social, portanto.
Além disso, a terceirização destas tarefas atrasa em muito a discussão da divisão de tarefas. Porque olhem só, nas classes mais esclarecidas que poderiam ser “vanguarda”, a gente não precisa discutir nada. Os moços bem instruídos tem empregada na casa da mãe. Se saem de casa sem se casar, em geral contratam ao menos uma diarista. Se se casam, tem outra diarista lá. Sempre uma mulher cuidando das tarefas. “Mas Iara, peralá, ela só vem uma vez por semana, no resto sou eu que lavo a louça e coloco a roupa pra lavar.” Aham. Lava a cozinha? O banheiro? Limpa azulejo? Os vidros? Tira a poeira das estantes? Desengordura os armários? Provavelmente não. Faz o mínimo pra tocar a vida e a parte pesada fica com uma mulher mesmo. Logo, terceirizar essa tarefa é contraprodutivo para a discussão feminista. Como a Mary W disse em nossa lista, maridão lavar a louça no domingo não é divisão de tarefas, tá?
Bom, daí que apesar da desigualdade de classe e de gênero me incomodar, contrato os serviços de uma diarista a cada 15 dias. Por que eu sou cínica? É uma leitura possível, claro. Mas não acredito que o fato de não contratar alguém e gastar esse dinheiro com qualquer outra coisa resolverá, por si só, estas questões. Contratar, dizer que o mundo é assim e não pensar mais no assunto resolve menos ainda. Então tô aí. Pensando. Discutindo. Enquanto isso, o mínimo que se pode fazer é trazer à luz estas discussões e não deixar que esta classe, que justamente pelas condições em que este trabalho se dá tem dificuldade de se mobilizar coletivamente para reivindicar respeito, seja invisível.
Update:
Ah, sim, né? Preguiçosa demais, eu. Isso é uma blogagem coletiva e além do post da Bia linkado aí no texto tem esses muito bacanas da Denise:
http://drang.com.br/blog/2011/04/trabalho-domestico-faca-a-sua-parte/
E da Luka:
http://bdbrasil.org/2011/04/27/seja-empregada-domestica-ou-tercerizada-a-sina-e-a-mesma-invisibilidade/
O da Luka inclusive menciona a questão da terceirização da faxina. Por coincidência eu tô com um post semi-pronto sobre terceirizações no geral. Pretendo não enrolar muito pra terminá-lo e postá-lo mas, né? Oremos.
Apesar da preguiça, cabe no mínimo a minha opinião sobre o assunto. Como a Bia disse lá e a gente sabe bem, o trabalho doméstico não é um trabalho como qualquer outro. É um trabalho que só existe porque existe desigualdade social, e um grupo de pessoas privilegiado pode se dar ao luxo de delegar a outrem tarefas que não lhe agradam. A desculpa que sempre ouvimos é: “mas eu preciso, não tenho tempo!”, “mas quem cuidará dos meus filhos?”. Daí que a empregada pode ser uma pessoa que também tem casa pra e filhos, mas ela que dê um jeito nisso tudo. O trabalho doméstico faz com nossas necessidades nos pareçam maiores que as necessidades alheias. Contraprodutivo para sensibilidade social, portanto.
Além disso, a terceirização destas tarefas atrasa em muito a discussão da divisão de tarefas. Porque olhem só, nas classes mais esclarecidas que poderiam ser “vanguarda”, a gente não precisa discutir nada. Os moços bem instruídos tem empregada na casa da mãe. Se saem de casa sem se casar, em geral contratam ao menos uma diarista. Se se casam, tem outra diarista lá. Sempre uma mulher cuidando das tarefas. “Mas Iara, peralá, ela só vem uma vez por semana, no resto sou eu que lavo a louça e coloco a roupa pra lavar.” Aham. Lava a cozinha? O banheiro? Limpa azulejo? Os vidros? Tira a poeira das estantes? Desengordura os armários? Provavelmente não. Faz o mínimo pra tocar a vida e a parte pesada fica com uma mulher mesmo. Logo, terceirizar essa tarefa é contraprodutivo para a discussão feminista. Como a Mary W disse em nossa lista, maridão lavar a louça no domingo não é divisão de tarefas, tá?
Bom, daí que apesar da desigualdade de classe e de gênero me incomodar, contrato os serviços de uma diarista a cada 15 dias. Por que eu sou cínica? É uma leitura possível, claro. Mas não acredito que o fato de não contratar alguém e gastar esse dinheiro com qualquer outra coisa resolverá, por si só, estas questões. Contratar, dizer que o mundo é assim e não pensar mais no assunto resolve menos ainda. Então tô aí. Pensando. Discutindo. Enquanto isso, o mínimo que se pode fazer é trazer à luz estas discussões e não deixar que esta classe, que justamente pelas condições em que este trabalho se dá tem dificuldade de se mobilizar coletivamente para reivindicar respeito, seja invisível.
Update:
Ah, sim, né? Preguiçosa demais, eu. Isso é uma blogagem coletiva e além do post da Bia linkado aí no texto tem esses muito bacanas da Denise:
http://drang.com.br/blog/2011/04/trabalho-domestico-faca-a-sua-parte/
E da Luka:
http://bdbrasil.org/2011/04/27/seja-empregada-domestica-ou-tercerizada-a-sina-e-a-mesma-invisibilidade/
O da Luka inclusive menciona a questão da terceirização da faxina. Por coincidência eu tô com um post semi-pronto sobre terceirizações no geral. Pretendo não enrolar muito pra terminá-lo e postá-lo mas, né? Oremos.
Assinar:
Postagens (Atom)