Uns dias atrás jantei na casa de uma amiga. Quem preparou a refeição - um risoto de alho poró, pêra e queijo parmesão - fui eu. Daí que a terceira amiga presente disse que queria ter talento pra cozinhar. E eu respondi que ela estava enganada. O que eu tenho não é talento, é prática. Acho que a primeira vez que cozinhei tinha não mais que 15 anos. Hoje tenho 31, faça as contas. E ainda assim tudo o que eu faço é extremamente simples. A grande sacada do risoto é essa inclusive: prato único, fácil de fazer e com pinta de elegante. Perfeito pra quem gosta de comer bem mas não necessariamente quer ter trabalho. Então eu não sou uma cozinheira talentosa, até porque nem me aplico o suficiente. Mas sou uma pessoa capaz de fazer algumas coisas bem gostosas, e disso eu mesma tenho certeza.
Continuei dizendo pra minha amiga que esse discurso do talento é muito complicado em uma série de outras áreas, porque desperta o lado mais repressor do nosso super-ego. Se a gente se convence que não presta pra fazer algo, nem tenta. Trava mesmo. Por isso que é tão difícil pra algumas pessoas, depois de adultas, aprenderem um idiomas estrangeiro, por exemplo. Claro, tem lances aí cognitivos do sistemas fonético da língua materna já estar consolidado, etc, etc. Mas pra aprender a falar, tem que estar disposto a falar errado. E falar errado na frente dos outros. E parecer ridículo. Não há opção, sem esse desprendimento, não funciona. Há que escolher entre passar vergonha e aprender ou permanecer na ignorância.
E bom, talento. Não sei quais são os meus. E vivo nesse drama. Mas o fato é que não dava pra esperar tentar descobrir. Nunca deu. Tenho uma vida pra ganhar, aluguel pra pagar. Sabe aquele lance de vida é aquilo que acontece enquanto fazemos planos? Pois é. Nunca pensei que eu fosse usar este adjetivo pra me descrever, mas eu acabo me descobrindo uma pessoa simplória. Porque tento não sofrer muito. Vou lá e faço, sabendo ou não. Um pragmatismo meio tosco de quem já percebeu que às vezes a ação é melhor que a reflexão. O que não significa necessariamente agir por impulso, mas perder o medo de fazer cagada. Ah, sim, eu faço as minhas com frequência. E não, não sou a pessoa mais destemida do mundo: tenho fobia de dirigir, de andar de avião, de altura – só pra começar a citar. Mas tem isso de como eu não sei exatamente o que eu presto pra fazer, não tenho medo de aprender coisas novas (nem de passar ridículo durante o processo). Vai que naquele canto inóspito, naquela tarefa chata, descubro o meu talento, como quando a gente procura uma coisa e encontra outra?
segunda-feira, 16 de maio de 2011
quinta-feira, 5 de maio de 2011
Eu, por aí
Tem post meu no Blogueiras Feministas hoje. Apareçam por lá: http://blogueirasfeministas.com/2011/a-maternidade-como-trabalho-nao-pago/
quarta-feira, 27 de abril de 2011
27 de abril - Dia Nacional das Trabalhadoras Domésticas
Fiquei sabendo da data pela lista de discussão das Blogueiras Feministas. Não queria deixar passar a data, porque eu acho que é importantíssimo discutir a questão desta classe de trabalhadoras. Mas daí, vocês sabem, eu sou uma sujeita meio sem-vergonha e preguiçosa. E a Bia fez este post incrível, completíssimo e cheio de informações úteis. Então, se eu fosse você, dava um pulo lá e, caso ainda não conheça, aproveite pra conhecer o blog dela que é luxo só.
Apesar da preguiça, cabe no mínimo a minha opinião sobre o assunto. Como a Bia disse lá e a gente sabe bem, o trabalho doméstico não é um trabalho como qualquer outro. É um trabalho que só existe porque existe desigualdade social, e um grupo de pessoas privilegiado pode se dar ao luxo de delegar a outrem tarefas que não lhe agradam. A desculpa que sempre ouvimos é: “mas eu preciso, não tenho tempo!”, “mas quem cuidará dos meus filhos?”. Daí que a empregada pode ser uma pessoa que também tem casa pra e filhos, mas ela que dê um jeito nisso tudo. O trabalho doméstico faz com nossas necessidades nos pareçam maiores que as necessidades alheias. Contraprodutivo para sensibilidade social, portanto.
Além disso, a terceirização destas tarefas atrasa em muito a discussão da divisão de tarefas. Porque olhem só, nas classes mais esclarecidas que poderiam ser “vanguarda”, a gente não precisa discutir nada. Os moços bem instruídos tem empregada na casa da mãe. Se saem de casa sem se casar, em geral contratam ao menos uma diarista. Se se casam, tem outra diarista lá. Sempre uma mulher cuidando das tarefas. “Mas Iara, peralá, ela só vem uma vez por semana, no resto sou eu que lavo a louça e coloco a roupa pra lavar.” Aham. Lava a cozinha? O banheiro? Limpa azulejo? Os vidros? Tira a poeira das estantes? Desengordura os armários? Provavelmente não. Faz o mínimo pra tocar a vida e a parte pesada fica com uma mulher mesmo. Logo, terceirizar essa tarefa é contraprodutivo para a discussão feminista. Como a Mary W disse em nossa lista, maridão lavar a louça no domingo não é divisão de tarefas, tá?
Bom, daí que apesar da desigualdade de classe e de gênero me incomodar, contrato os serviços de uma diarista a cada 15 dias. Por que eu sou cínica? É uma leitura possível, claro. Mas não acredito que o fato de não contratar alguém e gastar esse dinheiro com qualquer outra coisa resolverá, por si só, estas questões. Contratar, dizer que o mundo é assim e não pensar mais no assunto resolve menos ainda. Então tô aí. Pensando. Discutindo. Enquanto isso, o mínimo que se pode fazer é trazer à luz estas discussões e não deixar que esta classe, que justamente pelas condições em que este trabalho se dá tem dificuldade de se mobilizar coletivamente para reivindicar respeito, seja invisível.
Update:
Ah, sim, né? Preguiçosa demais, eu. Isso é uma blogagem coletiva e além do post da Bia linkado aí no texto tem esses muito bacanas da Denise:
http://drang.com.br/blog/2011/04/trabalho-domestico-faca-a-sua-parte/
E da Luka:
http://bdbrasil.org/2011/04/27/seja-empregada-domestica-ou-tercerizada-a-sina-e-a-mesma-invisibilidade/
O da Luka inclusive menciona a questão da terceirização da faxina. Por coincidência eu tô com um post semi-pronto sobre terceirizações no geral. Pretendo não enrolar muito pra terminá-lo e postá-lo mas, né? Oremos.
Apesar da preguiça, cabe no mínimo a minha opinião sobre o assunto. Como a Bia disse lá e a gente sabe bem, o trabalho doméstico não é um trabalho como qualquer outro. É um trabalho que só existe porque existe desigualdade social, e um grupo de pessoas privilegiado pode se dar ao luxo de delegar a outrem tarefas que não lhe agradam. A desculpa que sempre ouvimos é: “mas eu preciso, não tenho tempo!”, “mas quem cuidará dos meus filhos?”. Daí que a empregada pode ser uma pessoa que também tem casa pra e filhos, mas ela que dê um jeito nisso tudo. O trabalho doméstico faz com nossas necessidades nos pareçam maiores que as necessidades alheias. Contraprodutivo para sensibilidade social, portanto.
Além disso, a terceirização destas tarefas atrasa em muito a discussão da divisão de tarefas. Porque olhem só, nas classes mais esclarecidas que poderiam ser “vanguarda”, a gente não precisa discutir nada. Os moços bem instruídos tem empregada na casa da mãe. Se saem de casa sem se casar, em geral contratam ao menos uma diarista. Se se casam, tem outra diarista lá. Sempre uma mulher cuidando das tarefas. “Mas Iara, peralá, ela só vem uma vez por semana, no resto sou eu que lavo a louça e coloco a roupa pra lavar.” Aham. Lava a cozinha? O banheiro? Limpa azulejo? Os vidros? Tira a poeira das estantes? Desengordura os armários? Provavelmente não. Faz o mínimo pra tocar a vida e a parte pesada fica com uma mulher mesmo. Logo, terceirizar essa tarefa é contraprodutivo para a discussão feminista. Como a Mary W disse em nossa lista, maridão lavar a louça no domingo não é divisão de tarefas, tá?
Bom, daí que apesar da desigualdade de classe e de gênero me incomodar, contrato os serviços de uma diarista a cada 15 dias. Por que eu sou cínica? É uma leitura possível, claro. Mas não acredito que o fato de não contratar alguém e gastar esse dinheiro com qualquer outra coisa resolverá, por si só, estas questões. Contratar, dizer que o mundo é assim e não pensar mais no assunto resolve menos ainda. Então tô aí. Pensando. Discutindo. Enquanto isso, o mínimo que se pode fazer é trazer à luz estas discussões e não deixar que esta classe, que justamente pelas condições em que este trabalho se dá tem dificuldade de se mobilizar coletivamente para reivindicar respeito, seja invisível.
Update:
Ah, sim, né? Preguiçosa demais, eu. Isso é uma blogagem coletiva e além do post da Bia linkado aí no texto tem esses muito bacanas da Denise:
http://drang.com.br/blog/2011/04/trabalho-domestico-faca-a-sua-parte/
E da Luka:
http://bdbrasil.org/2011/04/27/seja-empregada-domestica-ou-tercerizada-a-sina-e-a-mesma-invisibilidade/
O da Luka inclusive menciona a questão da terceirização da faxina. Por coincidência eu tô com um post semi-pronto sobre terceirizações no geral. Pretendo não enrolar muito pra terminá-lo e postá-lo mas, né? Oremos.
domingo, 17 de abril de 2011
Torta de climão*
Não é bonito falar mal das pessoas, ainda mais gente comum, não personalidades. Não sei se deveria fazer isso, mas aproveito que este é um blog “escondido”, sem muita visibilidade. A desculpa é que, para além de implicância pessoal, quando falo mal de alguém aqui tô tentando falar de uma situação mais ampla, como quando mencionei colegas de trabalho machistas e preconceituosos.
Já contei mais de uma vez sobre a minha pós. Um curso não muito pretensioso, uma especialização lato sensu, mas que tem me feito muito feliz. Primeiro pelo conteúdo. Finalmente estudar um pouco de economia, algo que me interessa tanto, e tratar de problemas das grandes cidades é muito estimulante para uma pessoa que curte estudar, mas passa a semana envolvida com um trabalho não necessariamente desafiador. Depois pela turma. Passo o sábado com pessoas inteligentes e talentosas de profissões e experiências de vida muito diversas. Com algumas (há moços também, mas as mais próximas são elas, por isso uso o artigo no feminino) criei um vínculo de tchurma de faculdade mesmo: almoçamos juntas, bebemos depois da aula, e já fizemos um churrasco aqui no na churrasqueira do prédio.
A turma é muito diversa. Há essa tchurma mais grudada, mas não chega a ser uma panelinha. Como em todo grupo grande, há os micro grupos, e há pessoas que não estão ligadas a ninguém especificamente. Mas no geral reina o respeito e o coleguismo. Sabe, não vale a pena acordar cedo no sábado e pagar uma mensalidade para frequentar um curso que não vai deixar ninguém mais rico (pelo menos não de maneira muito imediate, já que não é curso voltado ao mercado) se isso não for um prazer. E pra maior parte de nós é essa a relação mesmo: de prazer.
Mas há essa colega. Mal-humorada. Tão mal-humorada que eu brinco que ela não deve ter dentes, porque nunca a vi sorrindo. Até aí, problema dela. A coisa complica quando o mal-humor extrapola, a ponto de implicar com a dinâmica da aula. Foi o que aconteceu ontem, o climão do título.
Nosso curso tem um professor coordenador, que é o único docente fixo. Ele montou uma grade e convidou docentes que não necessariamente têm vínculo com a instituição na qual estudamos para dar aulas. E, pra minha grata surpresa, é um curso com uma ideologia de esquerda assumida: alguns dos nossos professores fizeram parte da gestão da Erundina como prefeita de São Paulo, por exemplo. Nem todos os colegas são super interessados por política, nem todos são super entusiastas da esquerda, mas isso só enriquece o debate. E há muito debate, que muitas vezes leva a digressões, o que eu acho bem normal num cursos com um tema tão rico, e numa aula tão longa.
Vários parágrafos pra chegar ao causo-em-si. Ufa.
Este sábado estávamos lá com um professor que trabalho no IPEA. Ele falava de dinâmicas regionais no Brasil. E falou sobre a desigualdade, que a economia do Nordeste cresceu bastante, mas continua muito menor que a do Sudeste. E o assunto caiu no Bolsa Família, porque não dá para, em 2011, falar de economia do Nordeste sem tratar de Bolsa Família. Não dá, não interessa sua orientação política. E aí falamos do preconceito contra o programa. E caímos no PSDB, e o professor falou algo muito interessantes: que a aliança do PSDB com o PFL (hoje DEM), sugou o PT pro centro, meio vácuo mesmo. E se ela não tivesse acontecido, o quadro político do país seria outro. E bom, daí falamos da carta aberta do FHC essa semana. Estávamos nessa, chamando o FHC de doido, comentando a escolha de ignorar as massas, quando a mal-humorada levantou a mão de disse, bicuda, que queria voltar ao tema da aula.
Climão, claro. Professor perguntou se ela não achava que aquele assunto era relevante para o tema abordado. Ela respondeu que a gente poderia discutir política “no bar depois da aula”, coisa que fazemos todo o sábado (e ela nunca está conosco, claro). Mas enfim. Chamou a aula do professor convidado de papo de boteco, desqualificando. Disse que estava lá para aprender Economia e Administração Pública, e não discutir política, e que há um ano “tinha que aguentar este tipo de conversa”. Que o queria na aula eram fatos e não “opiniões”
Bom, como explicar pra esta pessoa que não dá pra falar de administração pública sem falar de política? Sério, como? Não quero ser intolerante, acho críticas muito positivas, mas como fazê-la entender que se a classe está satisfeita com a dinâmica do curso, não há porque mudar o que quer que seja para atender às necessidades dela. De verdade, não quero falar “não tá satisfeita, vá embora”, mas como fazer a pessoa entender que o que ela chama de papo de boteco faz parte do curso? Claramente não era o que ela buscava, mas ok, ela não precisa ficar ali, pagar mensalidade, acordar cedo se está tão ruim assim. Nem sempre a gente faz escolhas as certas, normal.
Daí rolou um bate-boca com uma colega que perdeu a paciência com ela, chamamos o intervalo do café pro clima abrandar, e em seguida, antes que mal-humorada voltasse, uma colega mais reservada e muito sabida fez um julgamento muito bom. Disse que no fundo tem compaixão pela moça. A culpa provavelmente não é só de sua óbvia não-identificação com a turma. Há uma clara concepção de que saber é algo técnico, apostilado. Logo, este papo, esta colcha de retalhos feita a partir de perguntas dos colegas, os comentários engraçadinhos, a troca de experiências que prezamos tanto e identificamos como uma construção coletiva do aprendizado para ela é só uma fuga do “real” saber, o trazido pelo professor, que segue um roteiro determinado.
O chocante é que colega mal-humorada é jornalista. E olha, eu já contei que uma das minhas amigas mais amadas é jornalista. E algumas das minha colegas de curso mais bacanas e inteligentes também são. Mas eu fico pensando se não há aí nas redações hoje uma geração de profissionais que pensam como ela, sabe? E chamou muita atenção quando ela disse que queria “fatos, não opiniões”. Será que ela pensa mesmo que existe conhecimento neutro, sem nenhum viés ideológico? Será que ela acredita que o publicado no portal de notícias em que ela trabalha como repórter é a expressão da verdade, e não a verdade segundo o ponto de vista do patrão? Não sei mesmo. Mas uma colega disse que não está interessada em ler matérias de jornalistas não afeitos ao debate. Que acham que podem tratar de economia e urbanismo (!!!) sem tratar de política. Olha, não é porque eu não gosto de gente carrancuda, mas concordo bastante.
* vi essa expressão no twitter e achei sensacional...
Já contei mais de uma vez sobre a minha pós. Um curso não muito pretensioso, uma especialização lato sensu, mas que tem me feito muito feliz. Primeiro pelo conteúdo. Finalmente estudar um pouco de economia, algo que me interessa tanto, e tratar de problemas das grandes cidades é muito estimulante para uma pessoa que curte estudar, mas passa a semana envolvida com um trabalho não necessariamente desafiador. Depois pela turma. Passo o sábado com pessoas inteligentes e talentosas de profissões e experiências de vida muito diversas. Com algumas (há moços também, mas as mais próximas são elas, por isso uso o artigo no feminino) criei um vínculo de tchurma de faculdade mesmo: almoçamos juntas, bebemos depois da aula, e já fizemos um churrasco aqui no na churrasqueira do prédio.
A turma é muito diversa. Há essa tchurma mais grudada, mas não chega a ser uma panelinha. Como em todo grupo grande, há os micro grupos, e há pessoas que não estão ligadas a ninguém especificamente. Mas no geral reina o respeito e o coleguismo. Sabe, não vale a pena acordar cedo no sábado e pagar uma mensalidade para frequentar um curso que não vai deixar ninguém mais rico (pelo menos não de maneira muito imediate, já que não é curso voltado ao mercado) se isso não for um prazer. E pra maior parte de nós é essa a relação mesmo: de prazer.
Mas há essa colega. Mal-humorada. Tão mal-humorada que eu brinco que ela não deve ter dentes, porque nunca a vi sorrindo. Até aí, problema dela. A coisa complica quando o mal-humor extrapola, a ponto de implicar com a dinâmica da aula. Foi o que aconteceu ontem, o climão do título.
Nosso curso tem um professor coordenador, que é o único docente fixo. Ele montou uma grade e convidou docentes que não necessariamente têm vínculo com a instituição na qual estudamos para dar aulas. E, pra minha grata surpresa, é um curso com uma ideologia de esquerda assumida: alguns dos nossos professores fizeram parte da gestão da Erundina como prefeita de São Paulo, por exemplo. Nem todos os colegas são super interessados por política, nem todos são super entusiastas da esquerda, mas isso só enriquece o debate. E há muito debate, que muitas vezes leva a digressões, o que eu acho bem normal num cursos com um tema tão rico, e numa aula tão longa.
Vários parágrafos pra chegar ao causo-em-si. Ufa.
Este sábado estávamos lá com um professor que trabalho no IPEA. Ele falava de dinâmicas regionais no Brasil. E falou sobre a desigualdade, que a economia do Nordeste cresceu bastante, mas continua muito menor que a do Sudeste. E o assunto caiu no Bolsa Família, porque não dá para, em 2011, falar de economia do Nordeste sem tratar de Bolsa Família. Não dá, não interessa sua orientação política. E aí falamos do preconceito contra o programa. E caímos no PSDB, e o professor falou algo muito interessantes: que a aliança do PSDB com o PFL (hoje DEM), sugou o PT pro centro, meio vácuo mesmo. E se ela não tivesse acontecido, o quadro político do país seria outro. E bom, daí falamos da carta aberta do FHC essa semana. Estávamos nessa, chamando o FHC de doido, comentando a escolha de ignorar as massas, quando a mal-humorada levantou a mão de disse, bicuda, que queria voltar ao tema da aula.
Climão, claro. Professor perguntou se ela não achava que aquele assunto era relevante para o tema abordado. Ela respondeu que a gente poderia discutir política “no bar depois da aula”, coisa que fazemos todo o sábado (e ela nunca está conosco, claro). Mas enfim. Chamou a aula do professor convidado de papo de boteco, desqualificando. Disse que estava lá para aprender Economia e Administração Pública, e não discutir política, e que há um ano “tinha que aguentar este tipo de conversa”. Que o queria na aula eram fatos e não “opiniões”
Bom, como explicar pra esta pessoa que não dá pra falar de administração pública sem falar de política? Sério, como? Não quero ser intolerante, acho críticas muito positivas, mas como fazê-la entender que se a classe está satisfeita com a dinâmica do curso, não há porque mudar o que quer que seja para atender às necessidades dela. De verdade, não quero falar “não tá satisfeita, vá embora”, mas como fazer a pessoa entender que o que ela chama de papo de boteco faz parte do curso? Claramente não era o que ela buscava, mas ok, ela não precisa ficar ali, pagar mensalidade, acordar cedo se está tão ruim assim. Nem sempre a gente faz escolhas as certas, normal.
Daí rolou um bate-boca com uma colega que perdeu a paciência com ela, chamamos o intervalo do café pro clima abrandar, e em seguida, antes que mal-humorada voltasse, uma colega mais reservada e muito sabida fez um julgamento muito bom. Disse que no fundo tem compaixão pela moça. A culpa provavelmente não é só de sua óbvia não-identificação com a turma. Há uma clara concepção de que saber é algo técnico, apostilado. Logo, este papo, esta colcha de retalhos feita a partir de perguntas dos colegas, os comentários engraçadinhos, a troca de experiências que prezamos tanto e identificamos como uma construção coletiva do aprendizado para ela é só uma fuga do “real” saber, o trazido pelo professor, que segue um roteiro determinado.
O chocante é que colega mal-humorada é jornalista. E olha, eu já contei que uma das minhas amigas mais amadas é jornalista. E algumas das minha colegas de curso mais bacanas e inteligentes também são. Mas eu fico pensando se não há aí nas redações hoje uma geração de profissionais que pensam como ela, sabe? E chamou muita atenção quando ela disse que queria “fatos, não opiniões”. Será que ela pensa mesmo que existe conhecimento neutro, sem nenhum viés ideológico? Será que ela acredita que o publicado no portal de notícias em que ela trabalha como repórter é a expressão da verdade, e não a verdade segundo o ponto de vista do patrão? Não sei mesmo. Mas uma colega disse que não está interessada em ler matérias de jornalistas não afeitos ao debate. Que acham que podem tratar de economia e urbanismo (!!!) sem tratar de política. Olha, não é porque eu não gosto de gente carrancuda, mas concordo bastante.
* vi essa expressão no twitter e achei sensacional...
segunda-feira, 11 de abril de 2011
Administração do Tempo (como não fazer)
Daí que eu pisco e passam-se dois meses sem que eu escreva uma linha aqui. Mas não foi só isso que eu deixei de fazer. De uns tempos pra cá deixei de ler os blogs que eu gosto também. Meio que abaixei a cabeça e deixei a onda passar, porque a verdade é que eu sou uma pessoa em processo de organização. Tá fácil a vida não, e eu tive que começar com o trabalho, que paga o meu salário. Semanas dedicadas a por em ordem coisas que eu fico proscratinando pra fazer. Falta um tanto, mas quando eu voltar a trabalhar daqui a duas semanas (eu tô de férias até depois da Páscoa), espero que não me sinta tão perdida. A lição mais importante eu já aprendi: que quando eu quero ser produtiva, eu consigo. É só querer assim, dicumforça. #autoajudafeelings
Mas é engraçada essa alienação que o trabalho assalariado numa atividade em que não me realizo me proporciona. Porque eu saio de férias pra dar conta do resto da minha vida. Nesse resto envolvidas coisas que não são ócio, como o meu trabalho da pós, tão abandonadinho também, coitado. Além de, é claro, visitar a família, resolver pendências domésticas e tal e cousa. O plano então é aproveitar estas semanas pra correr atrás do tempo perdido, não na ilusão de dar conta de tudo o que acontece a minha volta, mas tentando pelo menos não largar (muitas) coisas pelo caminho.
No mais, reclamo da vida não. Como já ouvi de gente querida, se a gente tá sem tempo pra vida online, é porque tem uma vida real bem rica em experiências. Comigo, pelo menos, é assim. =D
Mas é engraçada essa alienação que o trabalho assalariado numa atividade em que não me realizo me proporciona. Porque eu saio de férias pra dar conta do resto da minha vida. Nesse resto envolvidas coisas que não são ócio, como o meu trabalho da pós, tão abandonadinho também, coitado. Além de, é claro, visitar a família, resolver pendências domésticas e tal e cousa. O plano então é aproveitar estas semanas pra correr atrás do tempo perdido, não na ilusão de dar conta de tudo o que acontece a minha volta, mas tentando pelo menos não largar (muitas) coisas pelo caminho.
No mais, reclamo da vida não. Como já ouvi de gente querida, se a gente tá sem tempo pra vida online, é porque tem uma vida real bem rica em experiências. Comigo, pelo menos, é assim. =D
sábado, 12 de fevereiro de 2011
Ainda sobre o anterior
Adorei a repercussão do post anterior (blogueira modesta, fico muito envaidecida), mas de repente foi um tal de aparecer gente fofa e justificando e, definitivamente, a ideia não era essa. Eu sei que, principalmente pra quem mora em cidades menores, o serviço de transporte público pode ser muito ruim, e o post não é um convite ao martírio em nome da cidadania. Longe de mim. Mas vou falar mais um pouco do assunto, até pra despersonalizar a questão.
Já contei aqui que faço uma especialização em urbanismo e administração pública. E, olha, lá, eu estudei História no colégio, mas só na pós fui me ligar que a nossa urbanização aqui no Brasil acontece simultaneamente à instalação da indústria automobilística. Na Europa a urbanização é muito mais antiga, então o carro não interferiu muito no desenho das cidades. Aqui, o automóvel foi senhor e rei do projetos urbanísticos. Então, não dá mesmo pra gente pensarem cidades médias brasileiras, muitas das quais passaram a ter mais de uma centena de milhar de habitantes e equipamentos urbanos como universidades só nos últimos 30 anos, sem a presença maciça do automóvel. Isso justifica o não investimento em transporte público? Em termos. Por um lado, fica mais cara financiar um sistema quando a demanda é menor. Por outro, por conta do automóvel, estabeleceu-se no Brasil a noção de que transporte público é coisa de pobre. E coisa de pobre nessa terra é algo a ser negligenciado. Então, não tô aqui pra dizer pra ninguém: “olha, torra aí 1 hora no sol esperando busão lotado”.
Mas eu não vivo numa cidade de 180 mil habitantes. Eu vivo numa aglomeração urbana que concentra umas 4 vezes mais habitantes que a região metropolitana de Madrid. E tem gente (eu inclusive) que tem grana pra pagar aluguel ou ser proprietário nos lugares onde estão concentradas as melhores ofertas de serviços urbanos. Então, morar, sei lá, em Cuiabá, e andar de carro o tempo todo pode fazer muito sentido. Morar nos Jardins, em Pinheiros, na Vila Madalena, em Higienópolis em São Paulo e pegar o carro pra tudo é muito estranho pra mim. Eu já cheguei a ouvir de colega de trabalho coxinha, que morava a 3km do trabalho que “não dá pra ficar sem carro, né?”. Daí a gente sabe que tem gente pegando ônibus com cadeira de rodas e tem vontade de mandar pastar. Porque é disso que se trata. As pessoas se deslocam mesmo em situações muito adversas. O que não significa que a gente tenha que se submeter a elas, mas acho que vale muito pensar um pouco nas nossas escolhas, não aceitar o padrão como única solução possível, não virar um reprodutor acrítico do modelo.
No mais , eu respondi a alguém que se ofendeu dizendo que tem direito de parar na rua porque paga IPVA que não é bem assim. Que o IPVA é pra cuidar das ruas e tal. E TOTAL asneira minha, me dei conta depois. Pequena explicação de administração pública agora. Existem impostos, taxas e contribuições. Começando pelas últimas, contribuições são vinculadas, como era a CPMF, que saía das movimentações financeiras com um destino pré-determinado, financiar a saúde pública (sem entrar no mérito se a coisa era justa ou não, só a explicação teórica). Já as taxas são vinculadas diretamente a um serviço prestado, como era a taxa do lixo aqui em SP. Mas imposto, não. Imposto não está vinculado a contrapartida. Quer dizer, eticamente falando, claro que o Estado tem que nos retornar em serviço, mas não necessariamente pro proprietário do veículo que pagou o imposto. O IPVA pode, por exemplo, financiar a educação pública. E mais: cuidar do estado de conservação das vias locais é atribuição da prefeitura, não do governo do estado. Há um repasse importante de verbas do IPVA para o domicílio em que o veículo foi licenciado, que aí até pode ser usado pra cuidar das vias, mas não necessariamente, é esse o ponto. Tem que pagar porque tem carro, mesmo se a rua for de terra e esburacada. Então, se a prefeitura resolver estabelecer zona azul pra cobrar estacionamento nas ruas não tá cobrando em duplicidade: o IPVA tributa a propriedade, a zona azul tributa o serviço prestado, a vaga de estacionamento. Até porque você paga IPVA num estado, mas pode viajar e deixar o carro parado em outro.
Encerro contando uma historinha que acho que nunca contei antes por aqui (se contei, desculpem, hein?), sobre uns colegas do antigo emprego. O papo na mesa do almoço era o trânsito pesado. E alguém lembrou que, impressionante, né?, a maior parte dos veículos circula só com o motorista. E, bom, as pessoas poderiam se organizar pra irem juntas. E começaram a lembrar de um ou dois colegas que era mais ou menos vizinhos, com quem poderia combinar algo do tipo. E na sequência foram aparecendo os impedimentos do tipo “mas fulano é chato”, “mas tiraria minha liberdade”. Daí, no final, ninguém podia revezar com o colega, porque vivemos num tempo em que a liberdade individual de se deslocar usando o próprio veículo é mais importante do que tentar contribuir para a diminuição de problemas como engarrafamentos e poluição. E esse é o grande problema contemporâneo: a gente acha que nossa liberdade individual é intocada, mesmo que seja prejudicial ao bem-estar coletivo.
Já contei aqui que faço uma especialização em urbanismo e administração pública. E, olha, lá, eu estudei História no colégio, mas só na pós fui me ligar que a nossa urbanização aqui no Brasil acontece simultaneamente à instalação da indústria automobilística. Na Europa a urbanização é muito mais antiga, então o carro não interferiu muito no desenho das cidades. Aqui, o automóvel foi senhor e rei do projetos urbanísticos. Então, não dá mesmo pra gente pensarem cidades médias brasileiras, muitas das quais passaram a ter mais de uma centena de milhar de habitantes e equipamentos urbanos como universidades só nos últimos 30 anos, sem a presença maciça do automóvel. Isso justifica o não investimento em transporte público? Em termos. Por um lado, fica mais cara financiar um sistema quando a demanda é menor. Por outro, por conta do automóvel, estabeleceu-se no Brasil a noção de que transporte público é coisa de pobre. E coisa de pobre nessa terra é algo a ser negligenciado. Então, não tô aqui pra dizer pra ninguém: “olha, torra aí 1 hora no sol esperando busão lotado”.
Mas eu não vivo numa cidade de 180 mil habitantes. Eu vivo numa aglomeração urbana que concentra umas 4 vezes mais habitantes que a região metropolitana de Madrid. E tem gente (eu inclusive) que tem grana pra pagar aluguel ou ser proprietário nos lugares onde estão concentradas as melhores ofertas de serviços urbanos. Então, morar, sei lá, em Cuiabá, e andar de carro o tempo todo pode fazer muito sentido. Morar nos Jardins, em Pinheiros, na Vila Madalena, em Higienópolis em São Paulo e pegar o carro pra tudo é muito estranho pra mim. Eu já cheguei a ouvir de colega de trabalho coxinha, que morava a 3km do trabalho que “não dá pra ficar sem carro, né?”. Daí a gente sabe que tem gente pegando ônibus com cadeira de rodas e tem vontade de mandar pastar. Porque é disso que se trata. As pessoas se deslocam mesmo em situações muito adversas. O que não significa que a gente tenha que se submeter a elas, mas acho que vale muito pensar um pouco nas nossas escolhas, não aceitar o padrão como única solução possível, não virar um reprodutor acrítico do modelo.
No mais , eu respondi a alguém que se ofendeu dizendo que tem direito de parar na rua porque paga IPVA que não é bem assim. Que o IPVA é pra cuidar das ruas e tal. E TOTAL asneira minha, me dei conta depois. Pequena explicação de administração pública agora. Existem impostos, taxas e contribuições. Começando pelas últimas, contribuições são vinculadas, como era a CPMF, que saía das movimentações financeiras com um destino pré-determinado, financiar a saúde pública (sem entrar no mérito se a coisa era justa ou não, só a explicação teórica). Já as taxas são vinculadas diretamente a um serviço prestado, como era a taxa do lixo aqui em SP. Mas imposto, não. Imposto não está vinculado a contrapartida. Quer dizer, eticamente falando, claro que o Estado tem que nos retornar em serviço, mas não necessariamente pro proprietário do veículo que pagou o imposto. O IPVA pode, por exemplo, financiar a educação pública. E mais: cuidar do estado de conservação das vias locais é atribuição da prefeitura, não do governo do estado. Há um repasse importante de verbas do IPVA para o domicílio em que o veículo foi licenciado, que aí até pode ser usado pra cuidar das vias, mas não necessariamente, é esse o ponto. Tem que pagar porque tem carro, mesmo se a rua for de terra e esburacada. Então, se a prefeitura resolver estabelecer zona azul pra cobrar estacionamento nas ruas não tá cobrando em duplicidade: o IPVA tributa a propriedade, a zona azul tributa o serviço prestado, a vaga de estacionamento. Até porque você paga IPVA num estado, mas pode viajar e deixar o carro parado em outro.
Encerro contando uma historinha que acho que nunca contei antes por aqui (se contei, desculpem, hein?), sobre uns colegas do antigo emprego. O papo na mesa do almoço era o trânsito pesado. E alguém lembrou que, impressionante, né?, a maior parte dos veículos circula só com o motorista. E, bom, as pessoas poderiam se organizar pra irem juntas. E começaram a lembrar de um ou dois colegas que era mais ou menos vizinhos, com quem poderia combinar algo do tipo. E na sequência foram aparecendo os impedimentos do tipo “mas fulano é chato”, “mas tiraria minha liberdade”. Daí, no final, ninguém podia revezar com o colega, porque vivemos num tempo em que a liberdade individual de se deslocar usando o próprio veículo é mais importante do que tentar contribuir para a diminuição de problemas como engarrafamentos e poluição. E esse é o grande problema contemporâneo: a gente acha que nossa liberdade individual é intocada, mesmo que seja prejudicial ao bem-estar coletivo.
domingo, 6 de fevereiro de 2011
A vida idílica sem carro
(Ok, propaganda enganosa, mas não achei um título melhor...)
Faz um mês que estamos sem carro. Mas é preciso explicar. Eu venho de uma família que não liga pra carro. Meu irmão vai fazer 29 anos e não tem habilitação. Eu só tirei a minha aos 23, nunca comprei um carro apesar de ter condições pra isso há já bastante tempo, e meu pai tem um carrinho pé de boi. Lá em casa fomos ensinados que qualquer distância de menos de 2km pode ser feita a pé, a não ser em circunstâncias muito adversas. E não, eu não morava em bairro nobre. O metrô mais próximo estava a 1 hora. Mesmo o ponto de ônibus estava a 600m de distância. Já ouve épocas na minha vida em que eu gastava mais no táxi pra voltar pra casa do que na balada em si. (E olha tem muita São Paulo depois da casa dos meus pais. De lá até o extremo sul dá pra rodar mais 1h30 de ônibus, então eu nem tô fazendo mimimi, longe de mim). Mas eu sempre achei carro muito caro. Como assim tem que pagar IPVA todo ano? Como assim tem que pagar seguro? Como assim qualquer coisa que quebra custo 300 paus? Melhor me virar com ônibus e pagar táxi de vez em quando. E fazia planos pra morar num lugar mais centralizado.
Marido também era um sem-carro, apesar de gostar de dirigir e de curtir a coisa-em-si. Bom, como ele trabalha na indústria automobilística, surgiu a oportunidade de termos um carro da empresa em leasing, pagando uma taxa fixa não muito cara pra usar um carro zero, sem nos preocuparmos com seguro, IPVA, revisão, etc. Bem bacana, viramos motorizados por quase 2 anos. Mas desencanamos e, ao final do último contrato, devolvemos e estamos sem. E o povo estranha porque, né? Como assim ficar sem carro? Por que ficar sem carro?
Fato é que o carro, mas do que um meio de transporte, virou um símbolo de status. Você vira um ET se está numa determinada faixa de renda, se tem tal padrão de consumo, mas não tem um carro. E a grande verdade é que pouca gente entende que luxo, luxo de verdade, é não precisar de carro. Moramos numa região de razoável oferta de transporte coletivo. Levamos, incluindo caminhada, 40 minutos porta a porta no trajeto casa-trabalho, mesmo quando o congestionamento bate recorde na cidade (acredite, isso em São Paulo é muito bom). Há supermercados a 4 quadras de distância, restaurantes, baladas, várias coisas que podemos acessar a pé. Claro, pagamos um aluguel caro pra morar numa região tão bacana. Então, não temos carro porque somos privilegiados, e não por sermos excluídos.
Mas tô desviando da coisa. O ponto não é ter o carro. Nada contra as pessoas terem carro, e a gente pode voltar a ter num futuro não tão distante. Ele faz falta em algumas situações, principalmente porque a família do marido mora numa cidade a 100km daqui. De carro, com trânsito não muito pentelho, 1h30, mas agora vamos ter que ir a rodoviária e tals, uma pentelhação. Da última vez alugamos um, mas a ideia não é fazer isso sempre. Então, isso vai ser mais chato mesmo. E outro dia um professor na pós chamou de “reacionários de esquerda” quem critica o pobre que se endivida pra comprar automóvel. Se você mora a 20 kms do seu lugar de trabalho e o transporte que te oferecem a um custo alto é uma droga, é claro que vai querer melhorar sua qualidade de vida.
O que acontece em São Paulo, e em muitas grandes cidades, é que o pessoal que tem dinheiro pra morar em regiões nobres, com transporte razoável, que não precisaria de carro, se acha importante demais pra andar de ônibus. O culpado do congestionamento não é o pobre que só pôde comprar carro agora, é também o rico que não encara 2 kms de caminhada pra nada nessa vida. O cara que vai de carro até a academia pra andar na esteira (sério, morro e não entendo que pega o carro pra ir andar na esteira). As pessoas deixaram de andar na rua. E não dá pra aceitar que “ó, a violência”, porque se você mora em bairro nobre, a chance de ser assaltado dentro do carro é muito maior do que andando a pé. Procura aí estatística e volta aqui pra desmentir, por favor.
Eu não acho o máximo o serviço de transporte coletivo de São Paulo. Mesmo na minha região ele deixa a desejar. Mas eu gosto da troca que o combo andar na rua + pegar o trem me proporcionam. Tem um casal idoso que passa por mim todas as manhãs em sua caminhada matinal. No começo, só o homem respondia ao meu bom dia, a senhora parece ser mais reservada. Depois de algum tempo, ela passou a me responder. Logo, a sorrir. Outro dia passei do outro lado da calçada, e ela acenou a mão toda sorridente. Eu ganhei meu dia por saber que a expectativa de me encontrar está na rotina deles também (fazer academia de manhã alterou meus horários e não os vejo mais, infelizmente). E no final do dia tem o rapaz que busca o filho na escolinha na minha rua. O menino ia no carrinho 1 ano atrás, agora já puxa uma mochilinha e vai tagarelando pro pai, e eu vejo o tempo passando. Eu perderia tudo isso se estivesse no carro. Toda essa troca. Como perderia o sujeito no trem lendo um livro escrito “EXU” bem grande na capa. E a moça negociando com o marido que ele cuidasse do bebê porque sim, ela tinha direito de tomar uma cerveja com as amigas. Fosse de carro, só conviveria com os meus colega tão pequeno-burgueses quanto eu. Desculpem se eu pareço muito piegas, mas a rua e o trem me humanizam, me põe em contato com a cidade, e eu gosto disso.
Na minha pós, tratando de urbanismo, alguém professor mencionou que hoje 30% do espaço urbano de São Paulo é dedicado à vias. Vias onde circulam, majoritariamente, automóveis, e muitas vezes só transportando o motorista. Daí a pessoa pega o carro que estava numa garagem, transita com ele, e deixa em outra garagem. Espaços que são dedicados ao veículos. Tem lançamento imobiliário em São Paulo de 2 quartos que oferece 3 vagas na garagem. Só eu acho essa relação muito estranha? No curso a gente aprende a se perguntar porque as pessoas podem estacionar seus carros sem pagar por isso, mesmo na rua. Quando a gente para o carro na rua, tá empatando um espaço público em prol de um uso privado. O carro é o senhor da metrópole, não os cidadãos. Não sei vocês, mas eu acho isso triste.
Não sei se é possível pra todo mundo. Não sei como seria se eu tivesse crianças pequenas, por exemplo. Acho realmente que algumas situações são bem complicadas de vencer sem carro. Mas eu fico chocada com o quanto as pessoas desaprenderam a viver sem automóvel. Com a quantidade de limitações que elas se colocam. Limitações todos temos. Eu tenho um joelhinho meio podre que, quando está inflamado, reclama um pouco do 1,5km que eu preciso vencer atá a estação de trem. Quer dizer, desculpa pra me acomodar eu tenho. Todo mundo tem, se partir do pressuposto que o “default” é se locomover usando um transporte motorizado individualmente. Mas este não é um post pra apontar acomodação de ninguém, longe de mim. É só pra te contar que eu sou uma pessoa privilegiada por, aos 31 anos, nunca ter pagado IPVA na vida. =D
Faz um mês que estamos sem carro. Mas é preciso explicar. Eu venho de uma família que não liga pra carro. Meu irmão vai fazer 29 anos e não tem habilitação. Eu só tirei a minha aos 23, nunca comprei um carro apesar de ter condições pra isso há já bastante tempo, e meu pai tem um carrinho pé de boi. Lá em casa fomos ensinados que qualquer distância de menos de 2km pode ser feita a pé, a não ser em circunstâncias muito adversas. E não, eu não morava em bairro nobre. O metrô mais próximo estava a 1 hora. Mesmo o ponto de ônibus estava a 600m de distância. Já ouve épocas na minha vida em que eu gastava mais no táxi pra voltar pra casa do que na balada em si. (E olha tem muita São Paulo depois da casa dos meus pais. De lá até o extremo sul dá pra rodar mais 1h30 de ônibus, então eu nem tô fazendo mimimi, longe de mim). Mas eu sempre achei carro muito caro. Como assim tem que pagar IPVA todo ano? Como assim tem que pagar seguro? Como assim qualquer coisa que quebra custo 300 paus? Melhor me virar com ônibus e pagar táxi de vez em quando. E fazia planos pra morar num lugar mais centralizado.
Marido também era um sem-carro, apesar de gostar de dirigir e de curtir a coisa-em-si. Bom, como ele trabalha na indústria automobilística, surgiu a oportunidade de termos um carro da empresa em leasing, pagando uma taxa fixa não muito cara pra usar um carro zero, sem nos preocuparmos com seguro, IPVA, revisão, etc. Bem bacana, viramos motorizados por quase 2 anos. Mas desencanamos e, ao final do último contrato, devolvemos e estamos sem. E o povo estranha porque, né? Como assim ficar sem carro? Por que ficar sem carro?
Fato é que o carro, mas do que um meio de transporte, virou um símbolo de status. Você vira um ET se está numa determinada faixa de renda, se tem tal padrão de consumo, mas não tem um carro. E a grande verdade é que pouca gente entende que luxo, luxo de verdade, é não precisar de carro. Moramos numa região de razoável oferta de transporte coletivo. Levamos, incluindo caminhada, 40 minutos porta a porta no trajeto casa-trabalho, mesmo quando o congestionamento bate recorde na cidade (acredite, isso em São Paulo é muito bom). Há supermercados a 4 quadras de distância, restaurantes, baladas, várias coisas que podemos acessar a pé. Claro, pagamos um aluguel caro pra morar numa região tão bacana. Então, não temos carro porque somos privilegiados, e não por sermos excluídos.
Mas tô desviando da coisa. O ponto não é ter o carro. Nada contra as pessoas terem carro, e a gente pode voltar a ter num futuro não tão distante. Ele faz falta em algumas situações, principalmente porque a família do marido mora numa cidade a 100km daqui. De carro, com trânsito não muito pentelho, 1h30, mas agora vamos ter que ir a rodoviária e tals, uma pentelhação. Da última vez alugamos um, mas a ideia não é fazer isso sempre. Então, isso vai ser mais chato mesmo. E outro dia um professor na pós chamou de “reacionários de esquerda” quem critica o pobre que se endivida pra comprar automóvel. Se você mora a 20 kms do seu lugar de trabalho e o transporte que te oferecem a um custo alto é uma droga, é claro que vai querer melhorar sua qualidade de vida.
O que acontece em São Paulo, e em muitas grandes cidades, é que o pessoal que tem dinheiro pra morar em regiões nobres, com transporte razoável, que não precisaria de carro, se acha importante demais pra andar de ônibus. O culpado do congestionamento não é o pobre que só pôde comprar carro agora, é também o rico que não encara 2 kms de caminhada pra nada nessa vida. O cara que vai de carro até a academia pra andar na esteira (sério, morro e não entendo que pega o carro pra ir andar na esteira). As pessoas deixaram de andar na rua. E não dá pra aceitar que “ó, a violência”, porque se você mora em bairro nobre, a chance de ser assaltado dentro do carro é muito maior do que andando a pé. Procura aí estatística e volta aqui pra desmentir, por favor.
Eu não acho o máximo o serviço de transporte coletivo de São Paulo. Mesmo na minha região ele deixa a desejar. Mas eu gosto da troca que o combo andar na rua + pegar o trem me proporcionam. Tem um casal idoso que passa por mim todas as manhãs em sua caminhada matinal. No começo, só o homem respondia ao meu bom dia, a senhora parece ser mais reservada. Depois de algum tempo, ela passou a me responder. Logo, a sorrir. Outro dia passei do outro lado da calçada, e ela acenou a mão toda sorridente. Eu ganhei meu dia por saber que a expectativa de me encontrar está na rotina deles também (fazer academia de manhã alterou meus horários e não os vejo mais, infelizmente). E no final do dia tem o rapaz que busca o filho na escolinha na minha rua. O menino ia no carrinho 1 ano atrás, agora já puxa uma mochilinha e vai tagarelando pro pai, e eu vejo o tempo passando. Eu perderia tudo isso se estivesse no carro. Toda essa troca. Como perderia o sujeito no trem lendo um livro escrito “EXU” bem grande na capa. E a moça negociando com o marido que ele cuidasse do bebê porque sim, ela tinha direito de tomar uma cerveja com as amigas. Fosse de carro, só conviveria com os meus colega tão pequeno-burgueses quanto eu. Desculpem se eu pareço muito piegas, mas a rua e o trem me humanizam, me põe em contato com a cidade, e eu gosto disso.
Na minha pós, tratando de urbanismo, alguém professor mencionou que hoje 30% do espaço urbano de São Paulo é dedicado à vias. Vias onde circulam, majoritariamente, automóveis, e muitas vezes só transportando o motorista. Daí a pessoa pega o carro que estava numa garagem, transita com ele, e deixa em outra garagem. Espaços que são dedicados ao veículos. Tem lançamento imobiliário em São Paulo de 2 quartos que oferece 3 vagas na garagem. Só eu acho essa relação muito estranha? No curso a gente aprende a se perguntar porque as pessoas podem estacionar seus carros sem pagar por isso, mesmo na rua. Quando a gente para o carro na rua, tá empatando um espaço público em prol de um uso privado. O carro é o senhor da metrópole, não os cidadãos. Não sei vocês, mas eu acho isso triste.
Não sei se é possível pra todo mundo. Não sei como seria se eu tivesse crianças pequenas, por exemplo. Acho realmente que algumas situações são bem complicadas de vencer sem carro. Mas eu fico chocada com o quanto as pessoas desaprenderam a viver sem automóvel. Com a quantidade de limitações que elas se colocam. Limitações todos temos. Eu tenho um joelhinho meio podre que, quando está inflamado, reclama um pouco do 1,5km que eu preciso vencer atá a estação de trem. Quer dizer, desculpa pra me acomodar eu tenho. Todo mundo tem, se partir do pressuposto que o “default” é se locomover usando um transporte motorizado individualmente. Mas este não é um post pra apontar acomodação de ninguém, longe de mim. É só pra te contar que eu sou uma pessoa privilegiada por, aos 31 anos, nunca ter pagado IPVA na vida. =D
Assinar:
Postagens (Atom)