terça-feira, 18 de janeiro de 2011
Mulher e Mercado de Trabalho
Vocês já conhecem o blog coletivo das blogueiras feministas? Não? Então passem lá. Dia desses alguém avisou na nossa lista de discussão que a Carolina Pombo estava agitando uma blogagem coletiva hoje sobre mulheres e mercado de trabalho. Alguém criou um tópico no nosso fórum, boas idéias surgiram e a Bia editou e fez um post. Daí que eu não vou fazer um aqui, porque minha idéias já estão todas lá - assim como o crédito à outras companheiras de fórum inspiradas que contribuíram para a discussão. Visitem o blog e conheçam mulheres fantásticas com quem tenho trocado figurinhas ultimamente. E se alguém que passa por aqui quiser se juntar ao fórum, me avise, tá? Já adianto que o volume de mensagens é enlouquecedor, mas o aprendizado e a troca de experiências têm sido fantástico.
sábado, 15 de janeiro de 2011
Foco
Essa semana fui ao médico e não consegui fugir mais da balança. Tipo assim, falta muito pouco pra eu chegar aos 80kg. Aquele muito pouco que um final de semana mais guloso é o suficiente pra alcançar. E, bom, como da última vez eu não estava tão longe assim dos 80, como minhas saias andam bem apertadas e a pancinha pronunciada, não posso dizer que foi um susto. Mas fiquei pensando que, puxa, eu preciso fazer alguma coisa. Porque isso precisa ter um limite, não posso ficar engordando indefinidamente. E eu li o post lindo da Mary W. Eu não assisto Big Brother, mas adoro os comentários sobre. E a Mary W, como socióloga, detona mesmo. E no post ela fala da perseguição aos gordos, da magrocracia. E eu sempre me pergunto porque eu estou incomodada, já que eu não acredito nesse padrão tão redutor de beleza. Acho que eu tô gordinha sim, mas não acho que eu tô feia. E marido acha que não sou gorda, sou uma gostosa que se acha gorda. E eu tô saudável e tal. Então porque me preocupar?
Pra começar eu preciso lembrar que um dos culpados por eu ter engordado é justamente o padrão modelo de beleza, do manequim 38, por mais contraditório que pareça dizer isso. Sou uma pessoa que sempre usou 42, que sempre esteve por volta do 60 e tanto, e se achava gorda. Mas não era. Qualquer peso abaixo de 70 tá ótimo pra mim (considerando aquela regrinha do IMC, o “normal” pra minha altura seia até 68,5kg). Só que como eu me via como gorda, achava que foda-se, gorda por gorda, vamos comer mais um pedaço de pizza. E oi, eu não era gordinha, mas agora fiquei. Não acho que estou feia assim, mas não me reconheço nas fotografias. Sempre tive pernão, bundão, mas não tinha pança, e os braços eram mais finos. E, bom, tem uma foto minha aí no post anterior, rola um bração agora e tal. Mas puxa, ok. Nem acho que seja grave. Eu poderia assumir o fat pride, “sou gordelícia mesmo e aí?”, e ficar em paz. Tapa na cara da sociedade “magrocrática”. Porque não faço isso?
Porque daí eu lembro o meu problema real, que não tem nada a ver com aparência, que não tem nada a ver com pesar 65kg ou 80kg. Foco. E disciplina. Eu não tenho nenhuma dessas duas coisas. A questão não é quanto eu peso, a questão não é se eu gosto de beber, a questão é que eu preciso ser mais disciplinada pra comer e fazer exercícios. Nada a ver com virar a gostosona, ou com me privar do que eu gosto. Mas a verdade é que “refeições recreativas”, aquelas em que a gente bebe, se diverte, e até abusa um pouco do doce deveriam ser mais raras mesmo, até pra preservarem seu caráter festivo de exceção. Eu diminui a cerveja, mas tava comendo doce todos os dias. Comendo e sabendo que não me faz bem. Ano passado a endócrino me receitou uma reeducação alimentar, então eu já conheço o caminho das pedras. Sei bem que se eu voltar a ter disciplina, posso não voltar a pesar o que eu gostaria, mas imagino que a balança se estabilizará aí nuns 7 ou 8kg menos. Mas o importante, de verdade, é levar um estilo de vida um pouco mais saudável.
Enfim. Eu sou muito ruim com esse negócio de disciplina. Minha vida é uma zona, eu nunca fiz agenda, meu guarda-roupas é uma tristeza de tão zoado, minha bolsa é um mar de papéis sem utilidade e não queira ver a minha mesa de trabalho (sério, minha mesa de trabalho é uma vergonha). Ainda assim, apesar disso tudo, vou levando a vida de maneira mais ou menos bem sucedida. Mas acho que tudo seria muito mais tranquilo se eu fosse mais disciplinada, se eu proscratinasse menos, se eu colocassem coisas em ordem, se eu jogasse papéis velhos fora. Então, nada de listas imensas de planos pra 2011. Muito menos de colocar “perder x quilos” como objetivo. O foco deve ser fazer mais bem feito, com mais capricho, tudo o que eu já faço. Inclusive me alimentar.
Pra começar eu preciso lembrar que um dos culpados por eu ter engordado é justamente o padrão modelo de beleza, do manequim 38, por mais contraditório que pareça dizer isso. Sou uma pessoa que sempre usou 42, que sempre esteve por volta do 60 e tanto, e se achava gorda. Mas não era. Qualquer peso abaixo de 70 tá ótimo pra mim (considerando aquela regrinha do IMC, o “normal” pra minha altura seia até 68,5kg). Só que como eu me via como gorda, achava que foda-se, gorda por gorda, vamos comer mais um pedaço de pizza. E oi, eu não era gordinha, mas agora fiquei. Não acho que estou feia assim, mas não me reconheço nas fotografias. Sempre tive pernão, bundão, mas não tinha pança, e os braços eram mais finos. E, bom, tem uma foto minha aí no post anterior, rola um bração agora e tal. Mas puxa, ok. Nem acho que seja grave. Eu poderia assumir o fat pride, “sou gordelícia mesmo e aí?”, e ficar em paz. Tapa na cara da sociedade “magrocrática”. Porque não faço isso?
Porque daí eu lembro o meu problema real, que não tem nada a ver com aparência, que não tem nada a ver com pesar 65kg ou 80kg. Foco. E disciplina. Eu não tenho nenhuma dessas duas coisas. A questão não é quanto eu peso, a questão não é se eu gosto de beber, a questão é que eu preciso ser mais disciplinada pra comer e fazer exercícios. Nada a ver com virar a gostosona, ou com me privar do que eu gosto. Mas a verdade é que “refeições recreativas”, aquelas em que a gente bebe, se diverte, e até abusa um pouco do doce deveriam ser mais raras mesmo, até pra preservarem seu caráter festivo de exceção. Eu diminui a cerveja, mas tava comendo doce todos os dias. Comendo e sabendo que não me faz bem. Ano passado a endócrino me receitou uma reeducação alimentar, então eu já conheço o caminho das pedras. Sei bem que se eu voltar a ter disciplina, posso não voltar a pesar o que eu gostaria, mas imagino que a balança se estabilizará aí nuns 7 ou 8kg menos. Mas o importante, de verdade, é levar um estilo de vida um pouco mais saudável.
Enfim. Eu sou muito ruim com esse negócio de disciplina. Minha vida é uma zona, eu nunca fiz agenda, meu guarda-roupas é uma tristeza de tão zoado, minha bolsa é um mar de papéis sem utilidade e não queira ver a minha mesa de trabalho (sério, minha mesa de trabalho é uma vergonha). Ainda assim, apesar disso tudo, vou levando a vida de maneira mais ou menos bem sucedida. Mas acho que tudo seria muito mais tranquilo se eu fosse mais disciplinada, se eu proscratinasse menos, se eu colocassem coisas em ordem, se eu jogasse papéis velhos fora. Então, nada de listas imensas de planos pra 2011. Muito menos de colocar “perder x quilos” como objetivo. O foco deve ser fazer mais bem feito, com mais capricho, tudo o que eu já faço. Inclusive me alimentar.
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
A posse da presidenta
Por onde começar? Foi tudo tão lindo! Primeiro, porque eu tava morrendo de ansiedade por encontrar gente que eu só conhecia pela internet. Não que isso seja tão novidade assim na minha vida, mas, né? Toda uma situação especial. Mulheres que eu aprendi a respeitar sem conhecer. E não poderia ter sido mais legal nesse aspecto. Abraços apertado e sorrisos generosos de gente que parecia amiga de longa data.
Mas vamos ao evento. O clima era lindo. Povo tirando foto com bandeira e camiseta da campanha já no aeroporto de Congonhas. No aeroporto, conhecemos uma moça que, numa demonstração de orgulho democrático do qual assumo ser incapaz, disse que não tinha votado na Dilma, mas estava indo assistir à posse por que afinal de contas “ela seria presidenta de todo mundo”. Chegando à Brasília enfim, um inferno pra quem não gosta de “petista” (leia-se todos aqueles que acham que, se votou no PT, é petista automaticamente, e isso é péssimo). Muita gente animada pra festa.
Eu sei que ao chegar na Esplanada dos Ministérios no sábado meus olhos já se encheram d'água. Vi uma moça com uma camiseta escrito “lugar de mulher é na presidência” (tem foto dessa moça aqui). E caiu a ficha legal, de que aquele era um momento histórico, que com certeza ia marcar a minha vida e a de milhões de brasileiros e de brasileiras (das últimas especialmente, claro). A Esplanada estava decorada com Banners que lembravam grande mulheres da nossa história. Nós éramos as protagonistas, isso estava claro.
Bom, a frustração maior é porque a chuva mais forte caiu 2 minutos antes dela passar de carro aberto a 3 metros de onde estávamos. Nos molhamos horrores e só vi a mão da presidenta acenando do lado de fora do carro. Ok, faz parte. Depois, fomos pra frente do Palácio do Planalto. E eu cai no choro pesado quando o Sarney disse “declaro empossada a presidenta”. E eu chorei durante o hino nacional. Vergonha de contar, parece um ufanismo à la Galvão Bueno, mas eu pensei em tanta coisa. Lembrei que o meu pai foi torturado, como ela. Lembrei do quanto esse país já melhorou, do quanto somos mais democráticos, da infância inteira ouvindo que somos o país do futuro e, olha lá, eu tenho 30 anos, o futuro chegou, e é esse momento tão cheio de esperança. E quando eu tava quase com os olhos secos, ouvi uma senhora do meu lado dizer que ela seria “uma babaca” se não fosse assistir a posse, porque ela achava que só as netas ou bisnetas veriam uma mulher presidente, um dia. Daí acontece de ser uma mulher da idade dela, e de esquerda, ela tinha que testemunhar. Voltei a chorar.
Havia toda a ansiedade pela despedida do Lula. Mas ele, generoso que só, se esforçou pra não ofuscar a estrela do dia. Foi lindo ver ele descer a rampa e, silencioso, se juntar a galera.
Bom, depois fomos com o povo comemorar. Fechamos um boteco, depois fechamos o segundo (nem foi uma super noitada, os bares lá fecham cedo). Em algum momento da noite descobrimos que a Maria Frô não iria se juntar a nós porque ela era rycah e conseguiu entrar na festa oficial no Itamaraty. E eu não tive inveja porque sou um ser evoluído (mentchira). Mas, voltando ao boteco, chamou a atenção o clima da nossa mesa. Os poucos homens num confortável papel de coadjuvantes. A festa era nossa, e eles estavam felizes pelo país e também por verem suas companheiras tão felizes juntas. O que me faz dizer a você, moça solteira a procura de companhia masculina: não se satisfaça com qualquer pão com ovo machistinha. Tem homem bacana por aí. É difícil de encontrar, mas você é brasileira e não desiste nunca, certo?
Enfim, o que mais posso contar, gente? Só que eu fiquei muito feliz, mesmo. Valeu demais a grana, o tempo, o desconforto da chuva, os tênis até agora sujos de lama e o medão de pousar em Congonhas em noite de chuva. Valeu tudo, valeu muito. Agora é torcer muito pra que ela seja bem sucedida na árdua tarefa de suceder a um dos líderes mais populares do mundo. Trabalho duro, mas né? Eu boto fé. Vocês não? ;-)
Bom, as fotos:



Eu não gosto de por fotos minhas aqui, mas a ocasião merece. Várias blogueiras e "arrobas" famosas e eu. Sou a sem capa, da direita "toda molhadinha".
Mas vamos ao evento. O clima era lindo. Povo tirando foto com bandeira e camiseta da campanha já no aeroporto de Congonhas. No aeroporto, conhecemos uma moça que, numa demonstração de orgulho democrático do qual assumo ser incapaz, disse que não tinha votado na Dilma, mas estava indo assistir à posse por que afinal de contas “ela seria presidenta de todo mundo”. Chegando à Brasília enfim, um inferno pra quem não gosta de “petista” (leia-se todos aqueles que acham que, se votou no PT, é petista automaticamente, e isso é péssimo). Muita gente animada pra festa.
Eu sei que ao chegar na Esplanada dos Ministérios no sábado meus olhos já se encheram d'água. Vi uma moça com uma camiseta escrito “lugar de mulher é na presidência” (tem foto dessa moça aqui). E caiu a ficha legal, de que aquele era um momento histórico, que com certeza ia marcar a minha vida e a de milhões de brasileiros e de brasileiras (das últimas especialmente, claro). A Esplanada estava decorada com Banners que lembravam grande mulheres da nossa história. Nós éramos as protagonistas, isso estava claro.
Bom, a frustração maior é porque a chuva mais forte caiu 2 minutos antes dela passar de carro aberto a 3 metros de onde estávamos. Nos molhamos horrores e só vi a mão da presidenta acenando do lado de fora do carro. Ok, faz parte. Depois, fomos pra frente do Palácio do Planalto. E eu cai no choro pesado quando o Sarney disse “declaro empossada a presidenta”. E eu chorei durante o hino nacional. Vergonha de contar, parece um ufanismo à la Galvão Bueno, mas eu pensei em tanta coisa. Lembrei que o meu pai foi torturado, como ela. Lembrei do quanto esse país já melhorou, do quanto somos mais democráticos, da infância inteira ouvindo que somos o país do futuro e, olha lá, eu tenho 30 anos, o futuro chegou, e é esse momento tão cheio de esperança. E quando eu tava quase com os olhos secos, ouvi uma senhora do meu lado dizer que ela seria “uma babaca” se não fosse assistir a posse, porque ela achava que só as netas ou bisnetas veriam uma mulher presidente, um dia. Daí acontece de ser uma mulher da idade dela, e de esquerda, ela tinha que testemunhar. Voltei a chorar.
Havia toda a ansiedade pela despedida do Lula. Mas ele, generoso que só, se esforçou pra não ofuscar a estrela do dia. Foi lindo ver ele descer a rampa e, silencioso, se juntar a galera.
Bom, depois fomos com o povo comemorar. Fechamos um boteco, depois fechamos o segundo (nem foi uma super noitada, os bares lá fecham cedo). Em algum momento da noite descobrimos que a Maria Frô não iria se juntar a nós porque ela era rycah e conseguiu entrar na festa oficial no Itamaraty. E eu não tive inveja porque sou um ser evoluído (mentchira). Mas, voltando ao boteco, chamou a atenção o clima da nossa mesa. Os poucos homens num confortável papel de coadjuvantes. A festa era nossa, e eles estavam felizes pelo país e também por verem suas companheiras tão felizes juntas. O que me faz dizer a você, moça solteira a procura de companhia masculina: não se satisfaça com qualquer pão com ovo machistinha. Tem homem bacana por aí. É difícil de encontrar, mas você é brasileira e não desiste nunca, certo?
Enfim, o que mais posso contar, gente? Só que eu fiquei muito feliz, mesmo. Valeu demais a grana, o tempo, o desconforto da chuva, os tênis até agora sujos de lama e o medão de pousar em Congonhas em noite de chuva. Valeu tudo, valeu muito. Agora é torcer muito pra que ela seja bem sucedida na árdua tarefa de suceder a um dos líderes mais populares do mundo. Trabalho duro, mas né? Eu boto fé. Vocês não? ;-)
Bom, as fotos:
Eu não gosto de por fotos minhas aqui, mas a ocasião merece. Várias blogueiras e "arrobas" famosas e eu. Sou a sem capa, da direita "toda molhadinha".
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
O coletor menstrual – ou pequenos desastres

Até uns dois meses atrás eu nunca tinha sequer ouvido falar em coletor menstrual. Não tinha a menor ideia do que era. Você não tem? Então a parte objetiva da explicação será um oferecimento de Wikipedia.
Leu lá no link? Beleza. Eu descobri a existência dos coletores fuçando em links de blogs feministas (mas não vou lembrar onde exatamente pra dar o crédito, desculpem). Fiquei enlouquecida. Como assim eu não tinha ouvido falar daquilo? Como assim não precisar mais comprar absorvente? Como assim é seguro, a gente não sente que está lá, e é ecológico. Etc, etc. Fucei mais links, li bastante coisa, e resolvi experimentar.
Antes de contar minha experiência, um comentário importante: o fato de não ser descartável te causa nojo? Ok, você não está sozinha. Mas vamos explorar isso. Nosso corpo não é sujo. O sangue menstrual só tem aquele cheiro ruim depois de começar a se decompor, já no absorvente, por conta do contato com o ar. Ora, o coletor, pra funcionar corretamente, impede o sangue de ter contato com o ar, porque forma uma barreira. Ele deve ser sempre manipulado com as mãos limpas, lavado quando for esvaziado e fervido ao início e final de cada ciclo menstrual num recipiente exclusivo. Também é desnecessário dizer que é feito de um material inerte, ou seja, que não colabora para a proliferação de bactérias. Pessoalmente, não sei como isso pode ainda ser nojento, mas eu sei que a noção de repulsa varia muito de pessoa pra pessoa. Só convido quem passar por aqui a questionar certos preconceitos e não julgar quem pensa diferente, beleza? Você pode achar nojento pra você, mas eu não acho e continuo sendo uma pessoa bem limpinha.
Enfim, comprei o meu aqui. Carinho (R$70,00), mas chegou numa boa. O alto custo de aquisição deve ser encarado como um investimento inicial, pois dada a durabilidade do coletor, o que você economiza em absorventes compensa e muito (claro, isso se você não for nó cega como eu, mas eu explico depois). Tava super empolgada. Comecei a usar e pensava escrever sobre ele aqui assim que terminasse o meu ciclo menstrual. Como tinha lido bastante sobre, já sabia que existe um pequeno desconforto ao tirar até a gente se adaptar, que ele não deve ser colocado muito no fundo como a gente faz com absorvente interno, enfim, tinha algum contato com os macetes. E os primeiros dias não poderiam ter sido melhores. Nenhum problema pra colocar, nenhum vazamento, não o sentia dentro de mim e adeus cheiro desagradável de absorvente usado no lixo do banheiro. A felicidade existe.
Hoje era o teste de fogo. Isso porque eu tenho um ciclo meio esquisito. Parece que 70% do fluxo desce num intervalo de algumas horas no meio do ciclo, e antes de depois é bem pouco. Daí que o momento da enxurrada foi a manhã de hoje. O coletor tem capacidade para 40ml* e li por aí que, como o volume de fluxo por ciclo menstrual é de 80 ml dividido por todos os dias, é possível ficar com o coletor entre 8 e 12 horas sem trocar. Pois bem, eu me troquei às 7:30 da manhã e as 11:00 ele estava quase cheio. Joguei o sangue na privada e fui lavar o coletor com a ajuda da ducha higiênica que temos em um dos reservados do banheiro. O jato estava fortíssimo, o coletor escorregou da minha mão e sequer o vi na privada: com a força do jato foi pra fossa direto. Como eu estava toda empolgada com minha nova aquisição, sequer tinha absorventes na bolsa: tive que fazer aquele bolinho de papel higiênico e correr na farmácia mas próxima (caríssima) e comprar um pacote de emergência. Setenta reais fossa abaixo que eu praticamente não usufruí e a imensa frustração de estar usando moddess de novo. :\
Apesar da minha primeira experiência atrapalhada, recomendo muito. Tô muito puta com o dinheiro que foi pela privada, mas assim que passar o bode e o medo de fazer burrada de novo, vou voltar a comprá-lo (tô toda trabalhada no 13º, mas eu sou pãodura e a raiva de gastar com isso de novo vai me impedir de resolver isso hoje). O coletor é prático e mais confortável que o absorvente interno, e muitíssimo mais barato (uma caixa de tampax custa uns 10 reais, né?) a longo prazo. Se como eu você ficou curiosa, leia, pesquise, pergunte. Desconfie sempre do senso comum, até nas coisas pequenas. É muito interessante pra indústria que a gente ache que higiene = descarte. Fico pensando que os coletores poderiam ser muito mais baratos se a escala de produção fosse maior, e em quanto a indústria farmacêutica perderia com isso. Penso também no tabu que é pra muitas mulheres manipular a região genital, em quanto a gente perde não conhecendo o próprio corpo. Não tô afim de me aprofundar nisso agora, nem teria conhecimento suficiente pra dar conta, mas toda essa relação da associação do sangue menstrual à sujeira e o tabu em relação a penetração de qualquer coisa em nossas vaginas que não seja o pênis do sacrossanto marido me fazem pensar na questão do corpo feminino como objeto de disputas políticas. Toda a construção cultural sobre como a gente deve lidar com um processo natural como a menstruação é uma questão antropológica importante, ao meu ver.
(E este final inspiradinho foi só pra eu fingir pra mim mesmo que sou uma mulher inteligente, não uma anta que deixa 70 pilas iram com a descarga. Ô, raiva!)
*Update: no site que vende o Meluna eu vi que a capacidade do coletor médio, o que eu tinha, é só de 15ml (logo, eu não tenho uma semi-hemorragia, só um ciclo forte - que bom). Mas na internet vi comparações com outras marcas e parece que o Meluna é o menorzinho deles, que o grande do Meluna é do tamanho do pequeno de outras marcas. O meu próximo com certeza será maior, pra ter um pouco mais de tranquilidade.
**Update 2: Trocando informações sobre o assunto num fórum feminista, fiquei sabendo que dá pra comprar muito mais barato pelo eBay. Segue um link pra um modelo por 18 dólares: aqui.
(Obrigada, Vanessa! =D
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Sobre ferros de passar - entre outras coisas

Lembram de mim? Pois é, esse blog está abandonado não por falta de assunto, nem por conta do trabalho da pós – que aliás, eu escrevi só mais 2 páginas além do que tinha feito no semestre passado e entreguei. Bateu foi um cansaço enorme de um ano corrido e sem férias (licença de 10 dias pra fazer uma cirurgia e ficar de molho não é exatamente férias, né?), e o saco cheio de um trabalho que não chega ser ruim, mas também tá longe de ser animador. Ok, eu sobrevivo, e pra compensar, senta que o assunto é longo.
Segunda fui ao shopping, antes dele virar um inferno, comprar os presentes de Natal. Tenho duas sobrinhas (do marido, na verdade, mas já adotei, né?), com menos de 1 ano de diferença entre elas. São primas, bem diferentes tanto fisicamente quanto na personalidade, mas tem em comum a fofurice extrema – ok, corujice mode off. E eu acho uma dificuldade comprar presentes pra elas no shopping. A imensa maioria dos brinquedos é muito sexista. Nas lojas, tirando os brinquedos para bebezinhos, os outros são separados por gênero. E, puxa, vou chover no molhado aqui, mas como isso é carregado de ideologia. Aos 3 anos de idade essas crianças são doutrinadas pra ocupar seu lugar no mundo. E isso acontece não só com as meninas, claro. Com os meninos é a mesma coisa. Porque tantos carrinhos, gente? Quando crescerem, já vão ter internalizados que carro = pernas. Ou, em muitos casos, carro = pau. Mas voltando às meninas. A vendedora nos ofereceu um joguinho cujo nome deveria ser algo do tipo “beauty make-up”, algo pra ensiná-las a se maquiarem desde cedo. E também um conjunto de ferro + tábua de passar. Pausa aqui. Nada contra a ideia de brincar de panelinha, por exemplo. Comidas são lúdicas, claro, e emular tarefas de adulto não é necessariamente ruim. Mas duvideodó que alguém desse um jogo de ferro + tábua pra um menino, né?
Daí, sou obrigada a contar da minha experiência na França. A menina que eu cuidava lá era bem mimada, ganhava muitos brinquedos. Pilhas deles na verdade, e além disso acho que tinha mais livros aos 6 anos do que eu do que eu tenho aos 30. Mas uma coisa eu achava o máximo: ela era estimulada a brincar de tudo. Nada era proibido. Ela tinha algumas bonecas, tinha panelinhas, mas tinha também um castelo medieval Playmobil. E tinha um joguinho de ferramentas mecânicas de plástico para montar carrinhos. No Natal que eu passei lá, ela disse que queria, entre outros presentes, uma fantasia de princesa. E a mãe levou-a a loja pra escolher a fantasia mais bonita. Mas ela viu do rei Arthur, que vinha com espada e escudo, e gostou mais. Nada de “isso é de menino, não pode” nem de “mas vestido de princesa é machista e fútil!”. Liberdade pra descobrir o mundo, sabem como é? Lembrei dela na segunda-feira porque a mãe me contou uma história engraçada uma vez. A professora tinha achado curioso porque a Lola viu um ferro de passar num livro e não conhecia, apesar de ser uma menina tão viva e inteligente. A mãe explicou pra professora que era natural, porque a área de serviço era no porão, a Lola tinha medo de ir lá, então não tinha contato com o ato de passar roupas mesmo. Daí a professora retrucou: “ué, mas ela não tem um ferro de passar de brinquedo?”.
Bom, neste ponto eu mudo um pouco o assunto. Eu não sei passar roupa. Sou péssima, mesmo. Então compro roupas que não amassam, coloco pra secarem esticadinhas no cabide, e vamos vivendo. Marido não precisa trabalhar de camisa social, então apesar de termos uma tábua em casa, ela é pouco utilizada. Ah, sim, temos uma faxineira trabalhando pra gente a cada 15 dias. Não vou me aprofundar aqui na questão social do trabalhador doméstico, mas cabe dizer que apesar de ser muito crítica do modelo de desigualdade social brasileiro que permite às pessoas terem semi escravos, não me sinto culpada por ter alguém trabalhando aqui em casa. E um dos motivos, entre outras coisas, é porque não peço a ela pra fazer nada do que eu mesma não faria. Ela não é mão de obra desqualificada fazendo coisas que eu sou muito nobre para fazer. Então, se passar roupa não é importante a ponto de eu não fazer isso quando não posso pagar alguém pra fazê-lo, ela também não faz. Questão de coerência, pra mim.
Mas olhem só, eu penso assim porque minha agenda tem algumas prioridades. A gente vai amadurecendo e vai dando valor a algumas coisas, deixando outras de lado, e tentando conciliar tudo neste mundo pouco razoável. E na minha agenda pessoal, o feminismo e justiça social não podem se chocar, por exemplo. Se a condição pra que eu seja feminista é ter uma semi escrava em casa, não funciona. Então, essas duas coisas estão acima do meu relacionamento com meu marido, até. Se ele achasse 1) que eu sou obrigada a fazer tudo sozinha, porque eu sou mulher ou 2) serviço domésticos são trabalhos inferiores a serem desempenhados por pessoas inferiores, ele não seria meu marido. Bem, só depois disso tudo vem a qualidade das tarefas domésticas. Logo, quando por qualquer motivo estes valores não podem ser conciliados, a casa fica uma zona. Sem a menor culpa porque apesar de no dia 8 de março louvarmos A Mulher, este ser multitarefa que dá conta de tudo, eu sou uma só e vim ao mundo pra ser feliz.
Eu não sou a fodona desencanada. Esta tranquilidade não é inerente. Eu achava sim as casas na Europa muito porcas, até entender que lá custa caro pagar alguém pra limpar, porque não há essa cultura escravista daqui, então o padrão de exigência passa a ser outro. Ok, as pessoas podem viver numa casa com janelas empoeiradas, qual o drama afinal? Logo quando virei dona-de-casa, no sentido de alguém que não pode delegar a outrem a manutenção do espaço em que vive, estava falando com minha mãe ao telefone e reclamei de cansaço de trabalhar o dia inteiro e ainda ter coisas pra me preocupar quando chego em casa. Ela me disse que, se eu tava cansada, “não precisava limpar casa todo dia, né?”. E eu explique a ela que além da grande limpeza quinzenal, essa casa só vê um aspirador de pó eventualmente, quando um de nós se incomoda muito com a sujeira, que o cansaço era por estas coisas que não podem ser adiadas, tipo fazer supermercado e cozinhar. Achei a conversa engraçada na hora, mas ela é ilustrativa de como a dominação funciona. Meu marido não precisa me cobrar nada. A cultura , representada pela minha mãe, me cobra. Se a gente for receber uma visita em casa, serei eu a me preocupar o que vão pensar se encontrarem tudo uma zona, porque todas as propagandas de material de limpeza tem uma mulher como protagonista.
Enfim, desencanar desta imposição dá muito trabalho, mas é preciso. E fica muito mais difícil se dar conta de que não é obrigatório passar roupas sempre, se aos 3 anos de idade alguém te oferece um ferro e uma tábua como presentes. Desta vez compramos presentes iguais pras duas: uma maletinha de médico, com estetoscópio, seringa, termômetro e mais umas coisinhas. Marido se derreteu imaginando uma destas pequenas médicas. Queremos muito que elas cresçam num mundo de possibilidades, em que passar roupa seja uma tarefa chata, não um destino inevitável.
* a imagem que ilustra este post veio daqui, e o link eu recebi via twitter do Alex Castro (@alexcatrolll)
domingo, 21 de novembro de 2010
O post que se fez sozinho
Tô eu aqui na poltroninha nova, enrolado, tomando vinho branco, esperando o jogo do Corinthians começar e pensando que deveria estar estudando.
Daí pensei que o tema é importantíssimo, mas que não tinha nenhuma inspiração para escrever sobre isso (e por isso é difícil seguir proposta de blogagens coletivas, porque inspiração não é negociável):

Mas eu disse que tava de bobeira. Daí fui ver uns vídeos no youtube. E fui ver umas coisas de umas bandas não conhecidas aqui no Brasil, mas que eu conhecia porque dava aulas de espanhol. E achei esse aqui:
E, puxa, achava divertido há uns anos atrás, mas nunca tinha prestado atenção na letra, né? Daí, no final fez-se o meu post. Saca só como termina a música:
"Por eso ahora tendré que obsequiarte
un par de balazos, pa' que te duela.
Y aunque estoy triste por ya no tenerte
voy a estar contigo en tu funeral."
Balazos é bala, gente. Ingrata, você me deixou e eu te mato. Não preciso nem comentar que a violência contra a mulher, o tal amor passional, taí, glamurizado, engraçadinho. Pra ficar mais signficativo, este é um grupo mexicano, e é no México que fica Ciudad Juarez, cidade tristemente célebre por sua violência contra a mulher.
Deveria estar contente porque fiz este post em 10 minutos? Tô não. Tô indignada porque violência contra a mulher é um assunto tão corriqueiro que a gente esbarra com ele até quando não tá procurando.
Daí pensei que o tema é importantíssimo, mas que não tinha nenhuma inspiração para escrever sobre isso (e por isso é difícil seguir proposta de blogagens coletivas, porque inspiração não é negociável):

Mas eu disse que tava de bobeira. Daí fui ver uns vídeos no youtube. E fui ver umas coisas de umas bandas não conhecidas aqui no Brasil, mas que eu conhecia porque dava aulas de espanhol. E achei esse aqui:
E, puxa, achava divertido há uns anos atrás, mas nunca tinha prestado atenção na letra, né? Daí, no final fez-se o meu post. Saca só como termina a música:
"Por eso ahora tendré que obsequiarte
un par de balazos, pa' que te duela.
Y aunque estoy triste por ya no tenerte
voy a estar contigo en tu funeral."
Balazos é bala, gente. Ingrata, você me deixou e eu te mato. Não preciso nem comentar que a violência contra a mulher, o tal amor passional, taí, glamurizado, engraçadinho. Pra ficar mais signficativo, este é um grupo mexicano, e é no México que fica Ciudad Juarez, cidade tristemente célebre por sua violência contra a mulher.
Deveria estar contente porque fiz este post em 10 minutos? Tô não. Tô indignada porque violência contra a mulher é um assunto tão corriqueiro que a gente esbarra com ele até quando não tá procurando.
sábado, 20 de novembro de 2010
Dia da Consciência Negra – e respeitando o timing
Eu sou uma moça muito desligada e achava que tinha de ter escrito o post que pretendia na semana passada por conta das discussões sobre o racismo na obra do Monteiro Lobato, ainda mais de ler este post aqui no Idelber. Mas aí ontem veio de novo a inspiração e caiu a ficha de que oi, o dia da Consciência Negra é hoje, zé mané. Tem timing perdido não. Pra melhorar, O Idelber colocou outro texto fera lá, da Ana Maria Gonçalves. Se você ainda não leu, recomendo fortemente.
Enfim, pra começar eu preciso contar que minha pela é branca. Tirei lá minha foto do twitter, e se alguém não viu antes, descrevo: sou um tipo não branca germânica, mas branca mediterrânea: pele branca amarelada, cabelos e olhos bem escuros (e um nariz grande que faz o povo achar que sou descendente de árabes – mas não sou). Meu fenótipo é uma combinação de vários outros, como acontece com boa parte dos brasileiros. Minha mãe tem a pele mais escura (e um nariz delicadinho). Minha avó tinha a pela ainda mais escura, nariz e lábios finos, cabelos bem pretos e bem lisos. Minha bisavó era, pelo fenótipo, negra. Mas não só por ele: era parteira e benzedeira numa cidade do interiorzão de Minas. E fumava cachimbo. Sim, o povo na família não diz isso assim - depois comento sobre – mas vó Joaquina era a própria preta velha. Dada a miscigenação, tenho parentes de todas as cores, e meu irmão tem olhos verdes. Tem uma foto sensacional do meu irmão pequenininho, loirinho, com a bisa preta, que eu adoraria ter digitalizada pra ilustrar este post. Se achar, depois eu subo pra cá.
Bom, então, do lado materno da família, as mulheres tinham pele mais escura conforme a idade (minha avó paterna era branca, e morreu antes de eu nascer, então não era referência). Tenho claramente a memória de que em algum momento eu acreditei que seria negra quando fosse velha. Sério. Pode parecer surreal, mas imaginava que quando fosse adulta seria mais morena como minha mãe, e aos 80, negra como a bisa. Lógico que isso deve ter durado pouco e logo percebi que, olha só, há vovós por aí que são branquinhas.
A outra informação importante (vai ficar longo isso...) é que tanto meu pai como minha mãe são de famílias muito pobres, com muito pouca instrução. Mas o meu pai fez faculdade, teve a vida toda um emprego com uma remuneração bacana que o permitiu dar uma vida confortável para a família. Eu e meu irmão estudamos em colégios particulares uma parte da vida. E durante alguns anos estudei numa escola com um perfil elitizado, mas cujas mensalidades cabiam no bolso do meu pai com algum sacrifício. Bom, um dia, quando eu tinha por volta de uns 9 ou 10 anos, a professora de Estudos Sociais nos deu um trabalho interessante. Tínhamos que contar a história da nossa família, entrevistando nossos avós para saber sobre seu passado. Mas aí vinha o detalhe: o foco era o país de onde veio a família. Portugal, Itália, Japão, Líbano, enfim, estes lugares que exportaram gente pra São Paulo. Daí fui eu explicar que olha, eu até sei que tenho lá um bisavô português, alguém na família disse que tem um espanhol, mas minha avó veio de Minas mesmo. Não, não servia. Tinha que ser estrangeiro. E me sugeriu entrevistar outra pessoa que viesse do mesmo país. Acabei, muito a contragosto, entrevistando uma vizinha espanhola. Sem nenhuma identificação: a Espanha não dizia nada pra mim. Nem sabia o que era paella até a entrevista – comida de antepassado, pra mim, era frango com quiabo e angu.
Meus pais não se deram conta do problema na época, não protestaram. E não vou dizer que tenho trauma porque não é verdade: esse caso ficou mais ou menos esquecido até a minha licenciatura, quando em alguma matéria vimos a questão dos "temas transversais", que devem ser abordados em todas as disciplinas. Só então eu me lembrei. De novo, não fiquei traumatizada, mas me lembro do desconforto na época. De me sentir a orfã, aquela que não tem passado e precisa pegar emprestado do da vizinha. Fora isso, hoje tenho a consciência de que minha avó, que vivia comigo na mesma casa, não teve o direito de ter sua história reproduzida e valorizada - o que é muito mais revoltante do que meu incômodo. Dentro de casa sempre imperou o respeito e a tolerância, mas boa parte da família é racista – contavam piadas racistas e diziam que a vó e a bisa eram “morenas”. Mesmo a minha avó dizia que “de preta, já basta eu”. A falta de autoestima de quem aprendeu que, como negra, pobre e sem instrução, não tinha valor. E eu me dou conta do quanto é perversa uma atividade escolar que reforça isso. Bom, desnecessário dizer que não havia crianças negras na turma. Mas eu ouso chutar que, se houvessem seriam convidadas a entrevistar o português da padaria, com aquele papo de que todos descendem de portugueses também, né? O “embranquecimento” da população, tão defendido no começo do século XX.
A lembrança e a análise deste evento me ajudaram a amadurecer a minha defesa da cotas raciais. Eu, menina de pele branca e cabelo liso, tive o meu passado próximo discriminado e fui obrigada não a mentir (é, eu sou descendente de portugueses e espanhóis e alemães até, também) mas a editar a minha história pra que ela fosse “aceitável”. E na ocasião nem me passou pela cabeça que a escola estivesse errada: o problema era meu, ué. Fiquei imaginando então como é para a criança negra, aquela que só aprende que seus antepassados foram escravos e que a África é, olha só, a fornecedora de escravos - ponto. No geral não aprende nem de onde estes escravos vinham, de que países, a cultura deles, etc. Isso que chamam de “mesmas oportunidades para todos” os que defendem a meritocracia do vestibular sem cotas?
Enfim, o papo caiu nas cotas, mas nem é essa a questão. Fica muito claro pra mim que quem fica falando em “ditadura do politicamente correto” tá pensando só na sua infância idílica. Porque na minha infância nada romântica a escola me disse que a vovó ideal era a Dona Benta – mas a que eu tinha em casa, que teve doze filhos, trabalhou em garimpo grávida e não teve acesso à educação formal, lembrava mais a tia Anastácia. Minha avó já morreu, mas por respeito a ela e desagravo ao fato de que sua história não foi devidamente reconhecida em vida quando deveria, eu só posso condenar quem relativiza o racismo. Eu prefiro a preservação da autoestima das crianças negras à elevação da Emília a cânone intocável.
Enfim, pra começar eu preciso contar que minha pela é branca. Tirei lá minha foto do twitter, e se alguém não viu antes, descrevo: sou um tipo não branca germânica, mas branca mediterrânea: pele branca amarelada, cabelos e olhos bem escuros (e um nariz grande que faz o povo achar que sou descendente de árabes – mas não sou). Meu fenótipo é uma combinação de vários outros, como acontece com boa parte dos brasileiros. Minha mãe tem a pele mais escura (e um nariz delicadinho). Minha avó tinha a pela ainda mais escura, nariz e lábios finos, cabelos bem pretos e bem lisos. Minha bisavó era, pelo fenótipo, negra. Mas não só por ele: era parteira e benzedeira numa cidade do interiorzão de Minas. E fumava cachimbo. Sim, o povo na família não diz isso assim - depois comento sobre – mas vó Joaquina era a própria preta velha. Dada a miscigenação, tenho parentes de todas as cores, e meu irmão tem olhos verdes. Tem uma foto sensacional do meu irmão pequenininho, loirinho, com a bisa preta, que eu adoraria ter digitalizada pra ilustrar este post. Se achar, depois eu subo pra cá.
Bom, então, do lado materno da família, as mulheres tinham pele mais escura conforme a idade (minha avó paterna era branca, e morreu antes de eu nascer, então não era referência). Tenho claramente a memória de que em algum momento eu acreditei que seria negra quando fosse velha. Sério. Pode parecer surreal, mas imaginava que quando fosse adulta seria mais morena como minha mãe, e aos 80, negra como a bisa. Lógico que isso deve ter durado pouco e logo percebi que, olha só, há vovós por aí que são branquinhas.
A outra informação importante (vai ficar longo isso...) é que tanto meu pai como minha mãe são de famílias muito pobres, com muito pouca instrução. Mas o meu pai fez faculdade, teve a vida toda um emprego com uma remuneração bacana que o permitiu dar uma vida confortável para a família. Eu e meu irmão estudamos em colégios particulares uma parte da vida. E durante alguns anos estudei numa escola com um perfil elitizado, mas cujas mensalidades cabiam no bolso do meu pai com algum sacrifício. Bom, um dia, quando eu tinha por volta de uns 9 ou 10 anos, a professora de Estudos Sociais nos deu um trabalho interessante. Tínhamos que contar a história da nossa família, entrevistando nossos avós para saber sobre seu passado. Mas aí vinha o detalhe: o foco era o país de onde veio a família. Portugal, Itália, Japão, Líbano, enfim, estes lugares que exportaram gente pra São Paulo. Daí fui eu explicar que olha, eu até sei que tenho lá um bisavô português, alguém na família disse que tem um espanhol, mas minha avó veio de Minas mesmo. Não, não servia. Tinha que ser estrangeiro. E me sugeriu entrevistar outra pessoa que viesse do mesmo país. Acabei, muito a contragosto, entrevistando uma vizinha espanhola. Sem nenhuma identificação: a Espanha não dizia nada pra mim. Nem sabia o que era paella até a entrevista – comida de antepassado, pra mim, era frango com quiabo e angu.
Meus pais não se deram conta do problema na época, não protestaram. E não vou dizer que tenho trauma porque não é verdade: esse caso ficou mais ou menos esquecido até a minha licenciatura, quando em alguma matéria vimos a questão dos "temas transversais", que devem ser abordados em todas as disciplinas. Só então eu me lembrei. De novo, não fiquei traumatizada, mas me lembro do desconforto na época. De me sentir a orfã, aquela que não tem passado e precisa pegar emprestado do da vizinha. Fora isso, hoje tenho a consciência de que minha avó, que vivia comigo na mesma casa, não teve o direito de ter sua história reproduzida e valorizada - o que é muito mais revoltante do que meu incômodo. Dentro de casa sempre imperou o respeito e a tolerância, mas boa parte da família é racista – contavam piadas racistas e diziam que a vó e a bisa eram “morenas”. Mesmo a minha avó dizia que “de preta, já basta eu”. A falta de autoestima de quem aprendeu que, como negra, pobre e sem instrução, não tinha valor. E eu me dou conta do quanto é perversa uma atividade escolar que reforça isso. Bom, desnecessário dizer que não havia crianças negras na turma. Mas eu ouso chutar que, se houvessem seriam convidadas a entrevistar o português da padaria, com aquele papo de que todos descendem de portugueses também, né? O “embranquecimento” da população, tão defendido no começo do século XX.
A lembrança e a análise deste evento me ajudaram a amadurecer a minha defesa da cotas raciais. Eu, menina de pele branca e cabelo liso, tive o meu passado próximo discriminado e fui obrigada não a mentir (é, eu sou descendente de portugueses e espanhóis e alemães até, também) mas a editar a minha história pra que ela fosse “aceitável”. E na ocasião nem me passou pela cabeça que a escola estivesse errada: o problema era meu, ué. Fiquei imaginando então como é para a criança negra, aquela que só aprende que seus antepassados foram escravos e que a África é, olha só, a fornecedora de escravos - ponto. No geral não aprende nem de onde estes escravos vinham, de que países, a cultura deles, etc. Isso que chamam de “mesmas oportunidades para todos” os que defendem a meritocracia do vestibular sem cotas?
Enfim, o papo caiu nas cotas, mas nem é essa a questão. Fica muito claro pra mim que quem fica falando em “ditadura do politicamente correto” tá pensando só na sua infância idílica. Porque na minha infância nada romântica a escola me disse que a vovó ideal era a Dona Benta – mas a que eu tinha em casa, que teve doze filhos, trabalhou em garimpo grávida e não teve acesso à educação formal, lembrava mais a tia Anastácia. Minha avó já morreu, mas por respeito a ela e desagravo ao fato de que sua história não foi devidamente reconhecida em vida quando deveria, eu só posso condenar quem relativiza o racismo. Eu prefiro a preservação da autoestima das crianças negras à elevação da Emília a cânone intocável.
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