domingo, 31 de outubro de 2010
=D
Não, o país não deixará de ser machista em 1º de janeiro, tal qual os EUA não deixaram de ser racistas. Mas é um passo importante, pra quebrar paradigmas. Para as novas gerações crescerem acostumadas às novas possibilidades. Disse no twitter, disse em comentários por aí e repito: eu nasci num país governado pelo general Figueiredo, que gostava mais de cavalo do que gente. E hoje vejo uma mulher divorciada ser eleita, apesar de uma campanha machista retrógrada apoiada pela imprensa. É um outro país, não há como negar. Por ele, pelas possibilidades que ele traz, eu comemoro.
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
O (não) peso das palavras
Acho que eu nunca escrevi sobre este tema, embora seja muito de meu interesse. As sutilezas dos significados que um significante pode ter (pra quem não é familiarizado: significante é a palavra sapato, significado é o objeto sapato). Uma palavra pode ter diversos pesos, impactos, provocar reações as mais diversas dependendo de quem a diz ou de como a diz. Por exemplo: referir-se a alguém carinhosamente como “meu preto” não tem nada a ver com usar a cor da pele como forma de insulto. Só quem é muito desonesto intelectualmente não aceita isso, que o contexto, se não diz tudo, diz muita coisa ao menos.
Aconteceu uma coisa engraçada esse final de semana. Eu não sabia que uma (nova) amiga era lésbica. Daí perguntei pra galera: “só eu não sabia que fulana é sapata”? Todo mundo riu. E depois eu comentei com a própria: “fulana, só eu não sabia que você era sapata!”. E ela respondeu, dando risada: “ok, me apresento de novo, prazer, sou a fulana, e sou sapatão”. E todo mundo riu mais ainda.
Meu primeiro contato próximo com a homossexualidade foi quando uma amiga da escola, que até então se relacionava com meninos, voltou das férias namorando uma garota. Tínhamos 16, 17 anos. Aquilo me intrigou um pouco, como tudo o que é novo. Depois me acostumei, mas lembro que achava a palavra “sapatão” super pejorativa. Semana passada eu ouvi, em contextos diferentes, duas mulheres se apresentando como “sapatão”, de uma maneira extremamente bem humorada. Uma delas, na verdade, disse que era “sapatã” - achei bem fofo. Então, venci o meu preconceito com o termo, chamei a amiga de sapata, e ela entendeu que, por sapata, eu tava dizendo “uma mulher que gosta de outras mulheres”, nada além.
Eu sempre achei extremamente subversivo isso de se apropriar de uma palavra teoricamente ofensiva, assumi-la, e devolver para um interlocutor como um enfrentamento, porque você desarma o preconceituoso. Sempre lembro da tal mesa redonda com profissionais do sexo no Fórum Social Mundial, que eu já mencionei aqui. Mulherada dizia: “olha, eu sou puta, gosto de ser puta, gosto muito de fazer sexo e ainda ganhar dinheiro pra isso.” Esqueçamos a discussão feminista sobre a prostituição neste momento. Quando alguém chama uma mulher de puta e ela responde, de cabeça erguida, “sou puta mesmo, e daí?”, ela desmontou o ataque. E eu acho isso lindo.
Tem um neologismo que eu uso de uma maneira bem humorada, mas que o machismo considera ofensa gravíssima: periguete. Mas eu só uso porque, na minha cabeça, registrei “periguete” como a mulher gostosa que sabe que é gostosa e adora ser gostosa. Eu não coloco nenhum julgamento moral aí. Só que, né? Preciso tomar cuidado pra usar, porque eu não vivo em Marte. Se eu me refiro a uma mulher como “periguete”, meu interlocutor pode achar que eu tô condenando, e eu não sou assim. Tem um caso engraçado de uma amiga linda e muito bem-sucedida, cargo alto em multinacional e tudo, que usa este termo pejorativamente, fala “eu não sou uma periguete qualquer”. Mas ela tá sempre usando roupas que chamam muito a atenção para seu (lindo) corpo. Sempre “vestida para matar”, decotão, roupa justa, maquiagem pesada, microssaia - em 10 anos de amizade, nunca a vi de jeans, camiseta e tênis. No dia em que eu a apresentei ao meu marido (então namorado), ela usava uma blusa meio transparente, sem sutiã, “farol aceso”. Bem periguete, segundo minha definição. Lógico que ele olhou os peitos dela. Até eu olhei, né? E nada demais, como ele é um cara bacana, olhou, achou gostosa, e não inferiu nada sobre ela só por isso. Acho que ela não é menos respeitada por ninguém por conta da maneira como se veste: é inteligente o suficiente pra se afastar gente desrespeitosa, e pra deixar claro que sim, ela é gostosona, sim, você pode olhar e não, ela não é mero objeto de apreciação, embora goste muito de ser admirada. Mas o engraçado é que faz este julgamento sobre outras mulheres. Sei lá qual o critério dela, mas acho graça.
Post sem pé nem cabeça. Só que pra dizer que, oi, você pode ser periguete, você pode ser sapata, você pode ser tudo, sua linda. O que não pode é alguém te desrespeitar por conta disso. Machismo é achar que existe um padrão aceitável de conduta para uma mulher, e que todo o resto é condenável.
Aconteceu uma coisa engraçada esse final de semana. Eu não sabia que uma (nova) amiga era lésbica. Daí perguntei pra galera: “só eu não sabia que fulana é sapata”? Todo mundo riu. E depois eu comentei com a própria: “fulana, só eu não sabia que você era sapata!”. E ela respondeu, dando risada: “ok, me apresento de novo, prazer, sou a fulana, e sou sapatão”. E todo mundo riu mais ainda.
Meu primeiro contato próximo com a homossexualidade foi quando uma amiga da escola, que até então se relacionava com meninos, voltou das férias namorando uma garota. Tínhamos 16, 17 anos. Aquilo me intrigou um pouco, como tudo o que é novo. Depois me acostumei, mas lembro que achava a palavra “sapatão” super pejorativa. Semana passada eu ouvi, em contextos diferentes, duas mulheres se apresentando como “sapatão”, de uma maneira extremamente bem humorada. Uma delas, na verdade, disse que era “sapatã” - achei bem fofo. Então, venci o meu preconceito com o termo, chamei a amiga de sapata, e ela entendeu que, por sapata, eu tava dizendo “uma mulher que gosta de outras mulheres”, nada além.
Eu sempre achei extremamente subversivo isso de se apropriar de uma palavra teoricamente ofensiva, assumi-la, e devolver para um interlocutor como um enfrentamento, porque você desarma o preconceituoso. Sempre lembro da tal mesa redonda com profissionais do sexo no Fórum Social Mundial, que eu já mencionei aqui. Mulherada dizia: “olha, eu sou puta, gosto de ser puta, gosto muito de fazer sexo e ainda ganhar dinheiro pra isso.” Esqueçamos a discussão feminista sobre a prostituição neste momento. Quando alguém chama uma mulher de puta e ela responde, de cabeça erguida, “sou puta mesmo, e daí?”, ela desmontou o ataque. E eu acho isso lindo.
Tem um neologismo que eu uso de uma maneira bem humorada, mas que o machismo considera ofensa gravíssima: periguete. Mas eu só uso porque, na minha cabeça, registrei “periguete” como a mulher gostosa que sabe que é gostosa e adora ser gostosa. Eu não coloco nenhum julgamento moral aí. Só que, né? Preciso tomar cuidado pra usar, porque eu não vivo em Marte. Se eu me refiro a uma mulher como “periguete”, meu interlocutor pode achar que eu tô condenando, e eu não sou assim. Tem um caso engraçado de uma amiga linda e muito bem-sucedida, cargo alto em multinacional e tudo, que usa este termo pejorativamente, fala “eu não sou uma periguete qualquer”. Mas ela tá sempre usando roupas que chamam muito a atenção para seu (lindo) corpo. Sempre “vestida para matar”, decotão, roupa justa, maquiagem pesada, microssaia - em 10 anos de amizade, nunca a vi de jeans, camiseta e tênis. No dia em que eu a apresentei ao meu marido (então namorado), ela usava uma blusa meio transparente, sem sutiã, “farol aceso”. Bem periguete, segundo minha definição. Lógico que ele olhou os peitos dela. Até eu olhei, né? E nada demais, como ele é um cara bacana, olhou, achou gostosa, e não inferiu nada sobre ela só por isso. Acho que ela não é menos respeitada por ninguém por conta da maneira como se veste: é inteligente o suficiente pra se afastar gente desrespeitosa, e pra deixar claro que sim, ela é gostosona, sim, você pode olhar e não, ela não é mero objeto de apreciação, embora goste muito de ser admirada. Mas o engraçado é que faz este julgamento sobre outras mulheres. Sei lá qual o critério dela, mas acho graça.
Post sem pé nem cabeça. Só que pra dizer que, oi, você pode ser periguete, você pode ser sapata, você pode ser tudo, sua linda. O que não pode é alguém te desrespeitar por conta disso. Machismo é achar que existe um padrão aceitável de conduta para uma mulher, e que todo o resto é condenável.
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Leituras Feministas - Deslocamentos do Feminino
Este o nome do livro originado da tese de doutorado da Maria Rita Kehl, que eu tinha prometido pra Rita comentar, já que ela leu Madame Bovary não tem muito tempo. Prometi isso em setembro ainda, quando o Corinthians era líder do campeonato e a gente nem sonhava que a eleição ia virar essa baixaria. Tipo, parece que foi o ano passado. Nesse “não tem muito tempo” a Rita já deve ter lidos mais meia-dúzia de livros (ok, exagerei), a autora já entrou e saiu dos TT's do twitter e, bom, nada do meu post. Veio o segundo turno, o desânimo, semana que vem vou me matar de trabalhar num evento, tenho que ler 4 livros e avançar um pouco na minha monografia e, se enrolar muito, nunca mais escrevo sobre isso. Mas divago. Você não veio até aqui pra ler mimimi, né? O post já vai ficar longo sem este parágrafo altamente dispensavel... Preparem-se para um leitura confusa (no mínimo).
Neste livro a autora analisa a suposta identidade feminina do ponto de vista freudiano. Freud acreditava que o sofrimento de suas “histéricas” se dava por seu não ajustamento ao seu papel - no que a autora concorda. E acreditava que só haveria possibilidade de cura para seu sofrimento psicológico se este papel fosse aceito de bom-grado – no que discordamos eu, a autora e provavelmente todo o movimento feminista.
No primeiro capítulo, Kehl (engraçado, né? Parece apelido de “raquel”) trata de uma questão fundamental para a psicanálise, para a obra de Flaubert e para o feminismo: a construção do discurso. As mulheres são objeto de um discurso do feminino que não foi elaborado por elas. Falando em português claro, ninguém perguntou pra mim ou pra você o que é ser mulher. Você pode argumentar que, Iara, mas ninguém perguntou aos homens também. A diferença é que o homem é o “sujeito zero”, digamos assim. O cidadão básico, que não precisa de definição. Nem precisa ir muito longe na história: acho que todo mundo sabe que os redatores das revistas femininas do começo do século XX eram todos homens. O discurso que as moças liam sobre como deveriam se portar não era elaborado por mulheres mais velhas e supostamente experientes, mas por eles. E assim tem sido desde sempre: nosso lugar é aquele que nos foi reservado pelos outros. Uma das minha melhores amigas, psicóloga de formação, uma vez disse que eu era muito radical, que nem tudo construído socialmente é ruim. E eu concordo: sou monogâmica e não acho isso ruim, só pra dar um exemplo banal. Ruim é quando querem te empurrar todo um modelo, composto por uma série de atributos, goela abaixo (ou cabeça adentro, como preferirem). Então, este é o primeiro ponto fundamental: não foi a mulher que inventou o que é ser mulher. A gente vive com isso, algumas melhor do que outras. E, bom, a matéria da psicanálise é a fala do paciente, né? O discurso faz parte do tratamento. Freud tinha um desafio imenso de tentar fazer falar aquelas que não tinham voz. E lógico, ao falar, revelaram coisas inéditas ao seu ouvinte.
Bom, mas vamos a Madame Bovary um pouco. Ela faz parte de uma geração pós Revolução Francesa, evento que trouxe uma grande mudança na expectativas dos homens burgueses, mas não de suas mulheres. Pra tentar ser curta grossa: até a Revolução, os filhos de sapateiro cresciam sabendo que seriam filhos sapateiros. Não havia mobilidade social. Logo, como esposa do sapateiro, a mulher era seu igual. Ok, não era e nem é até hoje, mas não vamos falar da dominação doméstica, foco no papel social de maneira mais ampla: ambos, marido e mulher, já tinham suas cartas marcadas, seu lugar estabelecido. A Revolução agitou as coisas e trouxe a expectativa e a possibilidade de novos empreendimentos. Lógico, a mobilidade social ainda hoje é muito restrita. Mas somos uma nação que elegeu um retirante torneiro mecânico presidente, então, né, a possibilidade existe, e já existia (em menor medida, claro) no século XIX. Mas, para as mulheres burguesas desta época, as cartas continuaram sendo marcadas. Com um agravante: antes, se a moça se casava com o médico do vilarejo, sabia que seria, para sempre, a esposa do médico do vilarejo, ok. Depois da Revolução, passou a ser a esposa do médico do vilarejo que até poderia ter se destacado, mas não o fez por mediocridade. Havia uma expectativa a ser frustrada. A mulher só chegava até onde a levasse seu marido, e nunca poderia ser mais inteligente que ele. Assim, fosse minimamente mais “arejada” e imaginativa, como Emma Bovary, estaria condenada, para sempre, à opacidade social de seu companheiro.
E, bom, o que faz Emma para preencher seu tempo? Lê romances. Que não só não a ajudam a sublimar sua energia subempregada, como também alimentam suas fantasias. Emma Bovary é Dom Quixote de saias: de tanto ler, passou a se fantasiar como protagonista de suas próprias histórias. O problema é que o protagonismo lhe era, justamente, negado. Não havia essa possibilidade para ela, em nenhuma circunstância. A Kehl, em seu livro, menciona algumas mulheres que se destacaram no século XIX justamente pela literatura. Jane Austen é a mais famosa que eu me lembro agora. Uma das poucas mulheres que podiam se sustentar com seu trabalho intelectual, e uma ironia que este trabalho seja, justamente, seu discurso. Curioso este duplo papel da literatura, alienando e resgatando da alienação por vezes. Nossa autora menciona ainda outros casos bem sucedidos de mulheres que, compreendendo bem o papel do casamento em suas vidas, conseguiram se unir a maridos que incentivavam seu desenvolvimento intelectual. Mas Emma Bovary não tem potencial para ser Jane Austen. E seu sofrimento é porque, justamente, não havia a menor possibilidade de contar com seu marido para essa transcendência almejada. Fosse uma mulher pobre, operária, talvez vivesse com alguma dignidade como criada numa família rica, sem necessariamente sujeitar-se a um marido. Mas Emma é pequeno-burguesa, inteligente, sem contudo chegar a ser brilhante. Fosse no século XXI, viraria assistente administrativa em multinacional, pra ganhar seu pão com dignidade e sem maiores intempéries enquanto sonhava em dominar o mundo (oi? o/). Sendo o século XIX, o que lhe restou foi procurar amantes e tentar, por meio deles, se realizar. No romance ficam claros seus diferentes papéis nas relações em que se envolveu. Se não é bem-sucedida, é mais por culpa da dificuldade da empreitada do que por sua capacidade de empreendê-la. Mas, segundo Kehl, se podemos determinar o poder de decidir seu próprio destino como medida de sucesso, talvez Emma Bovary tenha sido sim bem-sucedida de alguma forma.
Kehl afirma que não pode, como profissional, dar um diagnóstico de Emma Bovary assim, sem mais. Mas tudo nos leva a crer de que era uma histérica, segundo a definição freudiana, e sua condição a infligia grande sofrimento. Como eu disse acima, para Freud, o caminho para a cura seria a resignação sincera. Kehl acredita que não. Freud, como homem do seu tempo, não foi capaz de visualizar uma mudança na sociedade que permitisse às mulheres não sofrerem pela inveja do falo. E aí eu aprendi um coisa que não sabia (acho que até sabia, mas não lembrava, ou não tinha ficado tão claro): que o falo não é o pênis. Mulher não tem inveja do pênis, tem inveja do falo, tem inveja do poder de ação e de discurso que aqueles dotados de pênis têm na sociedade patriarcal. Porque, né? Eu acha viagem mesmo essa coisa do pênis, que só me faz falta mesmo em banheiro de rodoviária e boteco copo-sujo. Lógico que a castração só é simbólica. Serei eu a única lesada? Tenho a impressão de que a própria autora diz que o Freud confunde essas ideias às vezes - mas pode ser viagem da pessoa que escreve sobre um livro 2 meses depois de ter terminado a leitura e sem ter feito nenhuma anotação (é, nenhuma vocação acadêmica, fato). Sim, um falo, para algumas mulheres, poderia ser um filho, a realização através da nova geração. Neste contexto, faz sentido o desinteresse de Emma pela filha, já que uma mulher não poderia transcender por ela, seria só mais uma a ser esposa de alguém. A sedução também é poder, claro. Freud acreditava que suas pacientes poderiam ficar livres de sofrimento se entendessem que sua transcendência estava nesse binômio sedução-maternidade. Binômio que a gente sabe que é super atual, é o que nos vendem como “combo mulher nota 10”. E a autora não o nega nem o desqualifica. Mas, né? É muito pouco. São só dois caminhos, tem mulheres que não querem nada disso, tem mulheres que querem isso e muito mais. Tem mulher que quer ser até Presidente da República, olhem só a audácia.
Pronto, pari o post. Desculpem se ficou confuso. Recomendo a leitura do livro, porque é muito denso, mas didático e esclarecedor. A Editora é a Imago.
PS: Acabo de me dar conta de que este blog completou 1 ano no dia 5, bem no meio da depressão pós segudo turno. Nem lembrei...
Update, no dia seguinte: vocês também tem vergonha de seus textos publicados com sono? Corrigi uma porção de coisas já, mas ainda tá confuso. Desculpaê, pessoal...
Neste livro a autora analisa a suposta identidade feminina do ponto de vista freudiano. Freud acreditava que o sofrimento de suas “histéricas” se dava por seu não ajustamento ao seu papel - no que a autora concorda. E acreditava que só haveria possibilidade de cura para seu sofrimento psicológico se este papel fosse aceito de bom-grado – no que discordamos eu, a autora e provavelmente todo o movimento feminista.
No primeiro capítulo, Kehl (engraçado, né? Parece apelido de “raquel”) trata de uma questão fundamental para a psicanálise, para a obra de Flaubert e para o feminismo: a construção do discurso. As mulheres são objeto de um discurso do feminino que não foi elaborado por elas. Falando em português claro, ninguém perguntou pra mim ou pra você o que é ser mulher. Você pode argumentar que, Iara, mas ninguém perguntou aos homens também. A diferença é que o homem é o “sujeito zero”, digamos assim. O cidadão básico, que não precisa de definição. Nem precisa ir muito longe na história: acho que todo mundo sabe que os redatores das revistas femininas do começo do século XX eram todos homens. O discurso que as moças liam sobre como deveriam se portar não era elaborado por mulheres mais velhas e supostamente experientes, mas por eles. E assim tem sido desde sempre: nosso lugar é aquele que nos foi reservado pelos outros. Uma das minha melhores amigas, psicóloga de formação, uma vez disse que eu era muito radical, que nem tudo construído socialmente é ruim. E eu concordo: sou monogâmica e não acho isso ruim, só pra dar um exemplo banal. Ruim é quando querem te empurrar todo um modelo, composto por uma série de atributos, goela abaixo (ou cabeça adentro, como preferirem). Então, este é o primeiro ponto fundamental: não foi a mulher que inventou o que é ser mulher. A gente vive com isso, algumas melhor do que outras. E, bom, a matéria da psicanálise é a fala do paciente, né? O discurso faz parte do tratamento. Freud tinha um desafio imenso de tentar fazer falar aquelas que não tinham voz. E lógico, ao falar, revelaram coisas inéditas ao seu ouvinte.
Bom, mas vamos a Madame Bovary um pouco. Ela faz parte de uma geração pós Revolução Francesa, evento que trouxe uma grande mudança na expectativas dos homens burgueses, mas não de suas mulheres. Pra tentar ser curta grossa: até a Revolução, os filhos de sapateiro cresciam sabendo que seriam filhos sapateiros. Não havia mobilidade social. Logo, como esposa do sapateiro, a mulher era seu igual. Ok, não era e nem é até hoje, mas não vamos falar da dominação doméstica, foco no papel social de maneira mais ampla: ambos, marido e mulher, já tinham suas cartas marcadas, seu lugar estabelecido. A Revolução agitou as coisas e trouxe a expectativa e a possibilidade de novos empreendimentos. Lógico, a mobilidade social ainda hoje é muito restrita. Mas somos uma nação que elegeu um retirante torneiro mecânico presidente, então, né, a possibilidade existe, e já existia (em menor medida, claro) no século XIX. Mas, para as mulheres burguesas desta época, as cartas continuaram sendo marcadas. Com um agravante: antes, se a moça se casava com o médico do vilarejo, sabia que seria, para sempre, a esposa do médico do vilarejo, ok. Depois da Revolução, passou a ser a esposa do médico do vilarejo que até poderia ter se destacado, mas não o fez por mediocridade. Havia uma expectativa a ser frustrada. A mulher só chegava até onde a levasse seu marido, e nunca poderia ser mais inteligente que ele. Assim, fosse minimamente mais “arejada” e imaginativa, como Emma Bovary, estaria condenada, para sempre, à opacidade social de seu companheiro.
E, bom, o que faz Emma para preencher seu tempo? Lê romances. Que não só não a ajudam a sublimar sua energia subempregada, como também alimentam suas fantasias. Emma Bovary é Dom Quixote de saias: de tanto ler, passou a se fantasiar como protagonista de suas próprias histórias. O problema é que o protagonismo lhe era, justamente, negado. Não havia essa possibilidade para ela, em nenhuma circunstância. A Kehl, em seu livro, menciona algumas mulheres que se destacaram no século XIX justamente pela literatura. Jane Austen é a mais famosa que eu me lembro agora. Uma das poucas mulheres que podiam se sustentar com seu trabalho intelectual, e uma ironia que este trabalho seja, justamente, seu discurso. Curioso este duplo papel da literatura, alienando e resgatando da alienação por vezes. Nossa autora menciona ainda outros casos bem sucedidos de mulheres que, compreendendo bem o papel do casamento em suas vidas, conseguiram se unir a maridos que incentivavam seu desenvolvimento intelectual. Mas Emma Bovary não tem potencial para ser Jane Austen. E seu sofrimento é porque, justamente, não havia a menor possibilidade de contar com seu marido para essa transcendência almejada. Fosse uma mulher pobre, operária, talvez vivesse com alguma dignidade como criada numa família rica, sem necessariamente sujeitar-se a um marido. Mas Emma é pequeno-burguesa, inteligente, sem contudo chegar a ser brilhante. Fosse no século XXI, viraria assistente administrativa em multinacional, pra ganhar seu pão com dignidade e sem maiores intempéries enquanto sonhava em dominar o mundo (oi? o/). Sendo o século XIX, o que lhe restou foi procurar amantes e tentar, por meio deles, se realizar. No romance ficam claros seus diferentes papéis nas relações em que se envolveu. Se não é bem-sucedida, é mais por culpa da dificuldade da empreitada do que por sua capacidade de empreendê-la. Mas, segundo Kehl, se podemos determinar o poder de decidir seu próprio destino como medida de sucesso, talvez Emma Bovary tenha sido sim bem-sucedida de alguma forma.
Kehl afirma que não pode, como profissional, dar um diagnóstico de Emma Bovary assim, sem mais. Mas tudo nos leva a crer de que era uma histérica, segundo a definição freudiana, e sua condição a infligia grande sofrimento. Como eu disse acima, para Freud, o caminho para a cura seria a resignação sincera. Kehl acredita que não. Freud, como homem do seu tempo, não foi capaz de visualizar uma mudança na sociedade que permitisse às mulheres não sofrerem pela inveja do falo. E aí eu aprendi um coisa que não sabia (acho que até sabia, mas não lembrava, ou não tinha ficado tão claro): que o falo não é o pênis. Mulher não tem inveja do pênis, tem inveja do falo, tem inveja do poder de ação e de discurso que aqueles dotados de pênis têm na sociedade patriarcal. Porque, né? Eu acha viagem mesmo essa coisa do pênis, que só me faz falta mesmo em banheiro de rodoviária e boteco copo-sujo. Lógico que a castração só é simbólica. Serei eu a única lesada? Tenho a impressão de que a própria autora diz que o Freud confunde essas ideias às vezes - mas pode ser viagem da pessoa que escreve sobre um livro 2 meses depois de ter terminado a leitura e sem ter feito nenhuma anotação (é, nenhuma vocação acadêmica, fato). Sim, um falo, para algumas mulheres, poderia ser um filho, a realização através da nova geração. Neste contexto, faz sentido o desinteresse de Emma pela filha, já que uma mulher não poderia transcender por ela, seria só mais uma a ser esposa de alguém. A sedução também é poder, claro. Freud acreditava que suas pacientes poderiam ficar livres de sofrimento se entendessem que sua transcendência estava nesse binômio sedução-maternidade. Binômio que a gente sabe que é super atual, é o que nos vendem como “combo mulher nota 10”. E a autora não o nega nem o desqualifica. Mas, né? É muito pouco. São só dois caminhos, tem mulheres que não querem nada disso, tem mulheres que querem isso e muito mais. Tem mulher que quer ser até Presidente da República, olhem só a audácia.
Pronto, pari o post. Desculpem se ficou confuso. Recomendo a leitura do livro, porque é muito denso, mas didático e esclarecedor. A Editora é a Imago.
PS: Acabo de me dar conta de que este blog completou 1 ano no dia 5, bem no meio da depressão pós segudo turno. Nem lembrei...
Update, no dia seguinte: vocês também tem vergonha de seus textos publicados com sono? Corrigi uma porção de coisas já, mas ainda tá confuso. Desculpaê, pessoal...
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Mudando de assunto...
Eu tô devendo um post sobre o livro da Maria Rita Kehl que eu falei que ia fazer, até porque será sobre uma obra em que ela analisa Madame Bovary, a Rita leu faz pouco e, bom, o timing tá passando (droga!). Mas tô meio de saco cheio de assunto super sério (eleições? deu por enquanto). Daí me deu vontade de escrever sobre algo diferente. Algo sério mas não no gênero épico, no lírico.
Tenho essa amiga que está num relacionamento bem instável. Aliás, não só o relacionamento, a vida dela está muito instável e este relacionamento começado no meio da crise só reflete isso. E ela diz que gosta do cara, mas os dois não conseguem se entender. Na sua versão, não dá pra terminar porque o namoro “é a única coisa boa” na vida dela no momento. E não adianta eu argumentar que “olha, mas um relacionamento ruim não é uma coisa boa...”. Claro, cada um pensa de um jeito. Tem gente que não consegue ficar sozinha, e pode ser que seja o caso dela. Eu já estive sozinha por longos períodos e já estive em relacionamentos ruins e posso dizer que hoje eu não troco a primeira situação pela segunda. Mas sou espertinha o suficiente pra dizer que esta sou EU e isto é HOJE. Não posso garantir que sempre vou pensar assim. Mas que eu acho um desperdício uma pessoa tão jovem se apegar a algo que não a está fazendo feliz, isso eu acho.
O problema principal do casal em questão é o ciúme. Os dois sentem um ciúme absurdo um do outro. Não é caso de polícia, felizmente, mas é caso de tensão constante. E você diz: “mas Iara, sua tolinha, tem gente que acha que isso apimenta a relação”. Pode ser, mas eu acho que uma coisa é aquela briguinha boba, aquele charminho, que termina em fazer as pazes na cama. Outra é ficar o tempo todo se perguntando o que o outro está fazendo, sofrendo, fantasiando e levando a questão para guerra semana-sim-e-outra-também. Sabe gente que vai fuçar no celular alheio procurando algo pra se aborrecer? Nesse naipe.
Já falei pra ela que é bobagem. Que não funciona assim. O amor só é tão bacana porque o outro é livre. Tem que cativar, não prender. Mas ela disse que não consegue ser assim, que tem muito medo de “ser feita de trouxa”. E, né? Mandei a real pra ela. Garantia até a próxima Copa, só na televisão nova. Amor não dá garantia nenhuma. “Ser feita de trouxa”, que pode significar coisas muito diferentes pra pessoas diferentes, é um risco inerente ao sentimento. Enquanto eu escrevo isso, marido está na faculdade. Quer dizer, deve estar. Mas pode estar com outra, dizendo “sabe como é, minha mulher é frígida, nem rola nada entre a gente, etc”. Confio muito nele, nos seus sentimentos, e no seu amor e respeito por mim, mas já vivi o suficiente pra saber que as pessoas são humanas, com tudo de bom e de ruim que essa humanidade implica. Todas as pessoas que amamos têm potencial pra nos machucar.. TODAS. E olha só, também temos esse potencial e podemos machucar os outros, ainda que involuntariamente. As opção são: confiar, não pensar no assunto e extrair o máximo de felicidade da vida, ou se fechar, travar e viver angustiada por não ter o controle de tudo. Eu escolhi a primeira.
Tenho essa amiga que está num relacionamento bem instável. Aliás, não só o relacionamento, a vida dela está muito instável e este relacionamento começado no meio da crise só reflete isso. E ela diz que gosta do cara, mas os dois não conseguem se entender. Na sua versão, não dá pra terminar porque o namoro “é a única coisa boa” na vida dela no momento. E não adianta eu argumentar que “olha, mas um relacionamento ruim não é uma coisa boa...”. Claro, cada um pensa de um jeito. Tem gente que não consegue ficar sozinha, e pode ser que seja o caso dela. Eu já estive sozinha por longos períodos e já estive em relacionamentos ruins e posso dizer que hoje eu não troco a primeira situação pela segunda. Mas sou espertinha o suficiente pra dizer que esta sou EU e isto é HOJE. Não posso garantir que sempre vou pensar assim. Mas que eu acho um desperdício uma pessoa tão jovem se apegar a algo que não a está fazendo feliz, isso eu acho.
O problema principal do casal em questão é o ciúme. Os dois sentem um ciúme absurdo um do outro. Não é caso de polícia, felizmente, mas é caso de tensão constante. E você diz: “mas Iara, sua tolinha, tem gente que acha que isso apimenta a relação”. Pode ser, mas eu acho que uma coisa é aquela briguinha boba, aquele charminho, que termina em fazer as pazes na cama. Outra é ficar o tempo todo se perguntando o que o outro está fazendo, sofrendo, fantasiando e levando a questão para guerra semana-sim-e-outra-também. Sabe gente que vai fuçar no celular alheio procurando algo pra se aborrecer? Nesse naipe.
Já falei pra ela que é bobagem. Que não funciona assim. O amor só é tão bacana porque o outro é livre. Tem que cativar, não prender. Mas ela disse que não consegue ser assim, que tem muito medo de “ser feita de trouxa”. E, né? Mandei a real pra ela. Garantia até a próxima Copa, só na televisão nova. Amor não dá garantia nenhuma. “Ser feita de trouxa”, que pode significar coisas muito diferentes pra pessoas diferentes, é um risco inerente ao sentimento. Enquanto eu escrevo isso, marido está na faculdade. Quer dizer, deve estar. Mas pode estar com outra, dizendo “sabe como é, minha mulher é frígida, nem rola nada entre a gente, etc”. Confio muito nele, nos seus sentimentos, e no seu amor e respeito por mim, mas já vivi o suficiente pra saber que as pessoas são humanas, com tudo de bom e de ruim que essa humanidade implica. Todas as pessoas que amamos têm potencial pra nos machucar.. TODAS. E olha só, também temos esse potencial e podemos machucar os outros, ainda que involuntariamente. As opção são: confiar, não pensar no assunto e extrair o máximo de felicidade da vida, ou se fechar, travar e viver angustiada por não ter o controle de tudo. Eu escolhi a primeira.
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Elaborando um pouco a indignação desta manhã
De manhã eu estava com uma enxaqueca daquelas terríveis. Daí, abri o Uol, vi o link, achei que nunca mais fosse ficar em bem na vida. Mas a Neosaldina* ajuda gente a concatenar as ideias.
Enfim, eu tava satisfeita com a maneira com que a Dilma tava levando as coisas antes dos boatos. Não dá pra dizer que é super a favor, tem que jogar no colo da saúde pública. Acho que dizer assim fica claro. E acho que faltou orientação da campanha, de dizer que é o congresso que decide, que presidente sozinha não faz nada, que ela precisa repetir isso. Sim, no meu mundo ideal ela poderia ser mais enfática, claro, mas no meu mundo ideal aborto nunca teria sido criminalizado. Então achava que isso era o suficiente pra não desagradar ninguém. E daí entrava o pessoal religioso, Crivela, Benedita (e agora no segundo turno, o Chalita), que já que estão lá, tem que prestar pra alguma coisa. Pelo menos pra usar sua comunicação com este público pra dizer que ela não é o bicho-papão.
Mas aí vai o bosta do André Vargas falar aquela bobagem no twitter. Que abortista é o Serra por conta da pílula do dia seguinte. O que além de ser uma campanha de tão baixo nível quanto o que a gente critica, traz a pauta uma questão já conquistada. Tem como ser mais revoltante? Ah, tem. Lembra que eu disse ontem que tem gente do nosso lado com quem eu não confraternizaria para nada? Paulo Henrique Amorim, por exemplo. Olha só, o Serra, como Ministro da Saúde, assinou uma política pública pra fazer com que o SUS atenda as mulheres que tem direito a interromper a gestação legalmente, de acordo com a nossa legislação. Porque apesar de terem este direito desde 1940, não conseguiam exercê-lo pelo SUS. Quer dizer, bola dentro. O que um Ministro da Saúde sério deve fazer. Apesar de chamar quem aborta de “carniceiro”, o cara deu a cara a tapa pra garantir um direito adquirido. Algo a ser comemorado, pois. Daí o que PHA faz? Sugere transformar em spam pro outro lado. Tipo, “abortista é ele, não somos nós”. Se isso não é desonestidade das mais baixas e desrespeito com uma bandeira tão cara ao feminismo, eu não sei o que é.
Sabe o que me incomoda demais? É que Luiz Buassuma está ado-ran-do o rumo dessa prosa. Luiz Buassuma é um dos defensores daquela aberração do Estatuto no Nascituro. O cara foi expulso do PT por suas posições, e imagino que as feministas do partido devem ter feito pressões neste sentido. E sabe que partido o acolheu de braços abertos? Surprise, suprise: o PV da Marina. Daí sai uma notícia dizendo que o PT está disposto a pôr as feministas de lado. E, olhem só, o PT tá precisando de alguns votos que, no 1º turno, foram pra Marina. E a Dilma aparece no JN dizendo que é super pró-vida, sem ninguém ter nem perguntado. Você pode achar que eu estou exagerando, mas lembre-se que o Estatuto do Nascituro a redação do Estatuto foi aprovada pela Comissão de Seguridade e Família da Câmara, o que já o torna mais do que um devaneio. Eu quero crer que daqui a pouco alguém engaveta isso, até porque eu não acho mesmo que a sociedade deseja esse retrocesso. Além disso o Bassuma, o Miguel Martini e a Solange Almeida, que são os 3 cabeças da coisa, não se reelegeram - nem tudo na vida são más notícias. Mas alguém vem aqui por favor dizer que eu estou mucholoka de ter relacionado tudo isso, que uma coisa não tem nada a ver com a outra.
* isto não é um publieditorial
Enfim, eu tava satisfeita com a maneira com que a Dilma tava levando as coisas antes dos boatos. Não dá pra dizer que é super a favor, tem que jogar no colo da saúde pública. Acho que dizer assim fica claro. E acho que faltou orientação da campanha, de dizer que é o congresso que decide, que presidente sozinha não faz nada, que ela precisa repetir isso. Sim, no meu mundo ideal ela poderia ser mais enfática, claro, mas no meu mundo ideal aborto nunca teria sido criminalizado. Então achava que isso era o suficiente pra não desagradar ninguém. E daí entrava o pessoal religioso, Crivela, Benedita (e agora no segundo turno, o Chalita), que já que estão lá, tem que prestar pra alguma coisa. Pelo menos pra usar sua comunicação com este público pra dizer que ela não é o bicho-papão.
Mas aí vai o bosta do André Vargas falar aquela bobagem no twitter. Que abortista é o Serra por conta da pílula do dia seguinte. O que além de ser uma campanha de tão baixo nível quanto o que a gente critica, traz a pauta uma questão já conquistada. Tem como ser mais revoltante? Ah, tem. Lembra que eu disse ontem que tem gente do nosso lado com quem eu não confraternizaria para nada? Paulo Henrique Amorim, por exemplo. Olha só, o Serra, como Ministro da Saúde, assinou uma política pública pra fazer com que o SUS atenda as mulheres que tem direito a interromper a gestação legalmente, de acordo com a nossa legislação. Porque apesar de terem este direito desde 1940, não conseguiam exercê-lo pelo SUS. Quer dizer, bola dentro. O que um Ministro da Saúde sério deve fazer. Apesar de chamar quem aborta de “carniceiro”, o cara deu a cara a tapa pra garantir um direito adquirido. Algo a ser comemorado, pois. Daí o que PHA faz? Sugere transformar em spam pro outro lado. Tipo, “abortista é ele, não somos nós”. Se isso não é desonestidade das mais baixas e desrespeito com uma bandeira tão cara ao feminismo, eu não sei o que é.
Sabe o que me incomoda demais? É que Luiz Buassuma está ado-ran-do o rumo dessa prosa. Luiz Buassuma é um dos defensores daquela aberração do Estatuto no Nascituro. O cara foi expulso do PT por suas posições, e imagino que as feministas do partido devem ter feito pressões neste sentido. E sabe que partido o acolheu de braços abertos? Surprise, suprise: o PV da Marina. Daí sai uma notícia dizendo que o PT está disposto a pôr as feministas de lado. E, olhem só, o PT tá precisando de alguns votos que, no 1º turno, foram pra Marina. E a Dilma aparece no JN dizendo que é super pró-vida, sem ninguém ter nem perguntado. Você pode achar que eu estou exagerando, mas lembre-se que o Estatuto do Nascituro a redação do Estatuto foi aprovada pela Comissão de Seguridade e Família da Câmara, o que já o torna mais do que um devaneio. Eu quero crer que daqui a pouco alguém engaveta isso, até porque eu não acho mesmo que a sociedade deseja esse retrocesso. Além disso o Bassuma, o Miguel Martini e a Solange Almeida, que são os 3 cabeças da coisa, não se reelegeram - nem tudo na vida são más notícias. Mas alguém vem aqui por favor dizer que eu estou mucholoka de ter relacionado tudo isso, que uma coisa não tem nada a ver com a outra.
* isto não é um publieditorial
Do desabafo
O desabafo se fez urgente, por conta disso aqui. O recado tá dado: ou a gente tem uma mulher lá, ou a gente discute aborto. Os dois juntos não pode. Impressionante com a pauta feminista é sempre a que vai ser sacrificada. SEMPRE. Notem que tirar a discriminalização do aborto de pauta não vai garantir a eleição, mas pode enterrar a discussão por muito tempo. Tempo que as mulheres que estão morrendo de hemorragia em clínicas clandestinas não têm.
Eu tava animada, juro. Eu tava me organizando pra escrever um post bacana convocando os eleitores da Marina a passarem para o nosso lado. Mas essa notícia acabou com o meu dia. Não estranhem se eu der uma sumida. Eu tenho um emprego, um marido, uma pós pra cursar, família, amigos, e eu preciso estar bem pra tudo isso idependentemente do resultado das urnas dia 31, porque a minha vida continua. E por isso, pra manter a minha sanidade, talvez eu tenha que me afastar um pouco da discussão. Porque eu entrei na internet, li isso e me deu uma imensa vontade de chorar, mas minha mesa tá cheia de trabalho, e é isso que eu tenho que fazer agora.
Update: Ah, sim. E o horrível. O imbecil do secretário de comunicação dizer que o demônio é o Serra, que implantou a pílula do dia seguinte. E parece que nem foi. Mas, se fosse, é pra dar um beijo na careca dele, porque é uma tremenda conquista.
Eu tava animada, juro. Eu tava me organizando pra escrever um post bacana convocando os eleitores da Marina a passarem para o nosso lado. Mas essa notícia acabou com o meu dia. Não estranhem se eu der uma sumida. Eu tenho um emprego, um marido, uma pós pra cursar, família, amigos, e eu preciso estar bem pra tudo isso idependentemente do resultado das urnas dia 31, porque a minha vida continua. E por isso, pra manter a minha sanidade, talvez eu tenha que me afastar um pouco da discussão. Porque eu entrei na internet, li isso e me deu uma imensa vontade de chorar, mas minha mesa tá cheia de trabalho, e é isso que eu tenho que fazer agora.
Update: Ah, sim. E o horrível. O imbecil do secretário de comunicação dizer que o demônio é o Serra, que implantou a pílula do dia seguinte. E parece que nem foi. Mas, se fosse, é pra dar um beijo na careca dele, porque é uma tremenda conquista.
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
E depois do susto...
Olha só, eu pensei muito, li muito e passado o susto e o medo reginaduartísco de não rolar no final das contas, tô achando é bom que a eleição foi pro 2º turno. Porque a gente aprende um monte com isso. E a principal lição, pra quem não tinha se ligado, é que arrogância e presunção não são exclusividade da direita. Que como eu coloquei aqui esse “nós x eles”, essa trincheira, é péssima pra democracia. Porque a primeira coisa que muita gente fez foi o quê? Desqualificar o voto na Marina. Olha só, eu não estou dizendo que questionar ou tentar entender é desqualificar, pelo contrário. Acho que é este questionamento que é importante. O que não pode é, como eu vi muita gente fazendo, dizer que é um voto despolitizado, de mauricinho. Sabe aquele lance de dizer que petista é ignorante e tal? Mesmíssima coisa, com o sinal invertido. É interessante porque ao mesmo tempo que tem amigos bacanas mandando e-mails babacas, a gente se dá conta de que tem gente na esquerda que não dá vontade nem de apertar a mão, quanto mais confraternizar em algum sentido. Mas isso é maturidade, perceber que o mundo diverso, há gente bacana e babaca em todos os lados e olha só, a gente tem um país a construir e precisa da ajuda de todo mundo.
Mas o voto na Marina é o caso aqui. Sem nenhuma ofensa, é razoável dizer que ele é muito diverso. Tem gente que acreditou em spam que a Dilma disse que nem Jesus a derrotaria, tem gente anti-PT mas sem especial simpatia pelo PSDB, e tem gente que simplesmente não quer endossar o governo assim, de saída, porque ele tem uma série de defeitos. E, oi? Não reconhecer que há problemas é sério. Há muitos. Ainda acho que há mais acertos, por isso votei na Dilma no 1º turno. Mas eu mesma sou da turma de mais de 6 milhões de eleitores que não votou no Lula em 2006 no 1º turno. Votei na Heloísa. E eu sei que agora dá mais medo porque a Dilma não é o Lula e o Serra não é o Alckmin. Só que 2010 também não é 2006. E acho que todo mundo concorda que o 2º mandato foi muito melhor que o 1º, que os resultados foram mais visíveis mesmo.
Por outro lado, a urgência dessa autocrítica. Que tem que ser feita pra ontem, e se a gente ganhasse no 1º turno talvez não viesse. Em time que se ganha não se mexe, né? Pois é pra continuar ganhando o governo vai ter que ouvir mais os porquês de quem não está com ele. E isso é excelente pro Brasil. Olha só, aqui em São Paulo o governo estadual conta com o voto anti-PT e não faz autocrítica nunca. Fica aí, fazendo o mínimo do mínimo do mínimo no estado mais rico do país e já tá indo pra 20 anos no poder. Lei do menor esforço, saca? E você agora vai falar que o PT não é o PSDB. Mas não é por isso que eu quero o PT no poder por anos a fio achando que está abafando. Colocando um cara sem experiência e agressor de mulheres e achando que vai levar o Senado com isso, que não vai se queimar. Que vai apoiar Roseana Sarney e vai ficar tudo belezinha (fosse eu maranhense, acho que votava na Marina também). Menos, né, gente?
Enfim. Muito a ser discutido, muito a batalhar. Mas comemoremos a democracia, comemoremos Marina, comemoremos a possibilidade de abrir nova discussões.
PS: Continuo com medo da baixaria, claro. Mas se o PSDB aprendeu alguma coisa nessa campanha foi que o eleitor não curte baixaria, não. Tanto que ele não ganhou nada com ela. E se apelar muito, só tende a se queimar mais. Mas, eu posso estar enganada. E o meu medo mora aí, claro.
Mas o voto na Marina é o caso aqui. Sem nenhuma ofensa, é razoável dizer que ele é muito diverso. Tem gente que acreditou em spam que a Dilma disse que nem Jesus a derrotaria, tem gente anti-PT mas sem especial simpatia pelo PSDB, e tem gente que simplesmente não quer endossar o governo assim, de saída, porque ele tem uma série de defeitos. E, oi? Não reconhecer que há problemas é sério. Há muitos. Ainda acho que há mais acertos, por isso votei na Dilma no 1º turno. Mas eu mesma sou da turma de mais de 6 milhões de eleitores que não votou no Lula em 2006 no 1º turno. Votei na Heloísa. E eu sei que agora dá mais medo porque a Dilma não é o Lula e o Serra não é o Alckmin. Só que 2010 também não é 2006. E acho que todo mundo concorda que o 2º mandato foi muito melhor que o 1º, que os resultados foram mais visíveis mesmo.
Por outro lado, a urgência dessa autocrítica. Que tem que ser feita pra ontem, e se a gente ganhasse no 1º turno talvez não viesse. Em time que se ganha não se mexe, né? Pois é pra continuar ganhando o governo vai ter que ouvir mais os porquês de quem não está com ele. E isso é excelente pro Brasil. Olha só, aqui em São Paulo o governo estadual conta com o voto anti-PT e não faz autocrítica nunca. Fica aí, fazendo o mínimo do mínimo do mínimo no estado mais rico do país e já tá indo pra 20 anos no poder. Lei do menor esforço, saca? E você agora vai falar que o PT não é o PSDB. Mas não é por isso que eu quero o PT no poder por anos a fio achando que está abafando. Colocando um cara sem experiência e agressor de mulheres e achando que vai levar o Senado com isso, que não vai se queimar. Que vai apoiar Roseana Sarney e vai ficar tudo belezinha (fosse eu maranhense, acho que votava na Marina também). Menos, né, gente?
Enfim. Muito a ser discutido, muito a batalhar. Mas comemoremos a democracia, comemoremos Marina, comemoremos a possibilidade de abrir nova discussões.
PS: Continuo com medo da baixaria, claro. Mas se o PSDB aprendeu alguma coisa nessa campanha foi que o eleitor não curte baixaria, não. Tanto que ele não ganhou nada com ela. E se apelar muito, só tende a se queimar mais. Mas, eu posso estar enganada. E o meu medo mora aí, claro.
domingo, 3 de outubro de 2010
Ansiedade
Tá difícil. Eu achei que rolaria hoje mesmo (marido ainda acha que dá, talvez), mas tá muito difícil. A primeira parcial, que dava Dilma 41 e Serra 37 quase me matou do coração. Tô tremendo até agora, sério. Em nenhuma pesquisa o careca aparecia tão bem votado. Faltam pouco menos de 20% enquanto eu escrevo isso. Eu quero muito voltar aqui e dar um update de que, ufa, deu, mas acho muito, muito difícil. E mil coisas. Muito medo do saco de baixarias que se seguirá, porque agora que os caras viram que podem ter chances (acho que nos últimos dias eles estavam bem desanimados), vão apelar geral, porque nem a dignidade eles tem a perder.
E a Marina, 20% até agora. Grande vitória pra ela, por estar disputando com a candidata do governo e o figurão da oposição. E a grande dúvida: o que será desses votos? Eu não consigo ver a Marina apoiando o Serra, mas o partido dela é outra coisa, né? E tem muito voto nela que é conservador.
Princípio de pânico de não haver continuidade do governo Lula. Mas acho que dá, né? Tem que dar, pelamor.
Não sei como vou dormir esta noite. Muita adrenalina. Mas se conseguisse, queria acordar só no dia 31.
E a Marina, 20% até agora. Grande vitória pra ela, por estar disputando com a candidata do governo e o figurão da oposição. E a grande dúvida: o que será desses votos? Eu não consigo ver a Marina apoiando o Serra, mas o partido dela é outra coisa, né? E tem muito voto nela que é conservador.
Princípio de pânico de não haver continuidade do governo Lula. Mas acho que dá, né? Tem que dar, pelamor.
Não sei como vou dormir esta noite. Muita adrenalina. Mas se conseguisse, queria acordar só no dia 31.
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Sobre o voto pra senador em São Paulo
Sumi, eu sei. Se mais alguém além da fofa da Luci, que até cobrou, sentiu falta, desculpaê. Assunto não falta, nunca. Aliás, eu não sei se alguma vez eu contei aqui mas eu sou uma pessoa prolixa e que fala pelos cotovelos. E que tem que cortar às vezes parágrafos inteiros pros posts ficarem razoáveis. Mas além de tagarela eu sou também preguiçosa e instável. Então de vez em quando perco o tesão de escrever por uns dias.
Como eu continuo com preguiça, resolvi fazer um post pra linkar um debate que eu vi primeiro no post do Idelber. Depois eu fui lá na Mary W, depois na Camila e na Kellen (cujos blogs não conhecia). E o causo é que aqui em São Paulo a gente tem um problema pra escolher o 2º voto pra senador. O primeiro vai pra Marta. Mas, se for seguir a coligação, o 2º voto seria do Netinho, que se filiou ao PC do B. Netinho, pra quem não se lembra, é um pagodeiro que depois foi fazer programa de auditório. Admito que eu conheço pouco de sua trajetória, e admito até que tenho muita simpatia por ser uma liderança vinda de periferia. Só que ele é um agressor de mulheres reincidente. Daí, complica.
E bom, a discussão nestes blogs é excelente sobre os porquês de votar ou não no cara. E há coisas bem pragmáticas, que eu acho que são muito válidas, até. Respeito muito os argumentos, mas pra mim, não rola. E quero deixar claro que isso não é um dogma. Não estou dizendo que nunca, jamais, em tempo algum, votaria num cara que algum dia na vida agrediu um mulher. Não estou dizendo que o arrependimento dele não é válido e ele deve queimar no fogo do inferno. Longe de mim, que sou humano e tenho aí a minha listinha das coisas das quais eu não me orgulho de ter feito na vida. O caso é que o cara não virou um tapa numa namorada uma-vez-na-vida-durante-um-discussão-acalorada-lá-pelos-idos-de-93. Fosse essa história e, depois disso, ele arrependido, tivesse uma série de coisas muito bacanas pra colocar no seu cv, é lógico que eu olhava as coisas de outra forma. Mas o cara bateu na mulher em 2005. Tipo, anteontem. Daí se arrependeu, levou a Maria da Penha no programa dele, fez mea culpa e tal. E não tem aí uma história política consistente além de seu interesse (que eu considero muito legítimo, aliás) pela juventude da periferia.
Mas, bom, tem todo o argumento anti- Romeu Tuma. Que é mais do que válido, ô se é. Bater em mulher é horroroso, mas ser pró violência policial institucionalizada é pior. O potencial de danos à sociedade de um cara como o Tuma é incomparavelmente maior do que o do Netinho, claro. Mas o que eu estou dizendo é que eu, Iara, não consigo ser pragmática assim, de votar simplesmente porque é menos pior. E eu sou super pragmática, pra muita coisa. Meu voto na Dilma é muito mais pragmático do que ideológico, acreditem.
O que eu quero dizer, e tenho muita tranquilidade nisso, é que eu não tenho nenhum compromisso a não ser com a minha cidadania. Daí que, por mais que eu entenda que o Netinho representa um projeto político para o país que eu endosso, eu não me conformo do PC do B não ter quadros melhores. Tipo, talvez tenha, mas esse quadros não teriam tanto apelo popular, né? Beleza, eu entendo a lógica da coisa, mas não conte comigo pra fazer parte disso. Muita chance do Netinho ser eleito e não acho que isso vai ser um mau negócio. Mas fico mais tranquila se meu voto, que me é tão caro, não endossá-lo.
Como eu continuo com preguiça, resolvi fazer um post pra linkar um debate que eu vi primeiro no post do Idelber. Depois eu fui lá na Mary W, depois na Camila e na Kellen (cujos blogs não conhecia). E o causo é que aqui em São Paulo a gente tem um problema pra escolher o 2º voto pra senador. O primeiro vai pra Marta. Mas, se for seguir a coligação, o 2º voto seria do Netinho, que se filiou ao PC do B. Netinho, pra quem não se lembra, é um pagodeiro que depois foi fazer programa de auditório. Admito que eu conheço pouco de sua trajetória, e admito até que tenho muita simpatia por ser uma liderança vinda de periferia. Só que ele é um agressor de mulheres reincidente. Daí, complica.
E bom, a discussão nestes blogs é excelente sobre os porquês de votar ou não no cara. E há coisas bem pragmáticas, que eu acho que são muito válidas, até. Respeito muito os argumentos, mas pra mim, não rola. E quero deixar claro que isso não é um dogma. Não estou dizendo que nunca, jamais, em tempo algum, votaria num cara que algum dia na vida agrediu um mulher. Não estou dizendo que o arrependimento dele não é válido e ele deve queimar no fogo do inferno. Longe de mim, que sou humano e tenho aí a minha listinha das coisas das quais eu não me orgulho de ter feito na vida. O caso é que o cara não virou um tapa numa namorada uma-vez-na-vida-durante-um-discussão-acalorada-lá-pelos-idos-de-93. Fosse essa história e, depois disso, ele arrependido, tivesse uma série de coisas muito bacanas pra colocar no seu cv, é lógico que eu olhava as coisas de outra forma. Mas o cara bateu na mulher em 2005. Tipo, anteontem. Daí se arrependeu, levou a Maria da Penha no programa dele, fez mea culpa e tal. E não tem aí uma história política consistente além de seu interesse (que eu considero muito legítimo, aliás) pela juventude da periferia.
Mas, bom, tem todo o argumento anti- Romeu Tuma. Que é mais do que válido, ô se é. Bater em mulher é horroroso, mas ser pró violência policial institucionalizada é pior. O potencial de danos à sociedade de um cara como o Tuma é incomparavelmente maior do que o do Netinho, claro. Mas o que eu estou dizendo é que eu, Iara, não consigo ser pragmática assim, de votar simplesmente porque é menos pior. E eu sou super pragmática, pra muita coisa. Meu voto na Dilma é muito mais pragmático do que ideológico, acreditem.
O que eu quero dizer, e tenho muita tranquilidade nisso, é que eu não tenho nenhum compromisso a não ser com a minha cidadania. Daí que, por mais que eu entenda que o Netinho representa um projeto político para o país que eu endosso, eu não me conformo do PC do B não ter quadros melhores. Tipo, talvez tenha, mas esse quadros não teriam tanto apelo popular, né? Beleza, eu entendo a lógica da coisa, mas não conte comigo pra fazer parte disso. Muita chance do Netinho ser eleito e não acho que isso vai ser um mau negócio. Mas fico mais tranquila se meu voto, que me é tão caro, não endossá-lo.
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
Adendo importante ao último post
Eu preciso sair pro trabalho e hoje prometi a mim mesma ficar menos tempo na internet, mas tem algo que eu preciso comentar a respeito do post anterior. É que eu falo isso sobre o conservadorismo da classe média paulistana, e fica parecendo que eu coloquei uma trincheira aí, um "nós x eles", o que me incomodou bastante. Ninguém reclamou, mas acho bom esclarecer: eu não acho que exista só uma caminho bom, só uma resposta válida, tipo messianismo. Eu não acho que todo mundo que lê, se informa e questiona vai votar na Dilma porque ela é a melhor e ponto. Não acho que o eleitor do Serra seja ignorante, apolitizado, voto de manada, reacinha. Eu tenho na verdade muita preguiça de gente de esquerda que pensa assim. Acho perfeitamente possível que duas pessoas inteligentes, bem informadas e, principalmente, bem intencionadas, tenham divergências sobre o que seria o melhor para o mundo, até porque estamos falando de planos que envolvem muitas variáveis. E nesse ponto eu volto atrás ao que respondi pra Amanda nos comentários: acho que até dá pra ser casado tendo visões politicas diferentes, e pode até ser um exercício interessante, mas isso depende de um respeito profundo à individualidade do outro, respeito quem nem todo mundo tem. Que talvez eu mesma não tenha: pelo menos no casamento, prefiro que as divergências sejam menores mesmo, o que não significa em absoluto que eu e marido façamos eco pra tudo, estamos bem longe disso.
O post anterior é principalmente pra criticar o discurso no sentido contrário, de que quem vota no PT é ignorante ou mal-intencionado, que se beneficia diretamente de alguma forma de corrupção. Crítica a quem, votando no Serra, acha que o eleitor do Lula é analfabeto assim como o próprio também seria. E sei que muita gente vota no Serra não pensa assim, claro. Muita gente em São Paulo, inclusive. Mas o discurso que eu, no meu meio, mais escuto, é o primeiro mesmo, infelizmente
Então, este adendo foi pra isso, pra dizer que eu respeito muito a divergência de pontos de vista. Que acredito quando uma pessoa me diz que tem argumentos bem fundamentados pra votar no Serrra, tal qual eu os tenho pra votar na Dilma. Tô aqui defendendo o meu lado, mas respeito tem que ser uma via de mão dupla, né? Sempre.
O post anterior é principalmente pra criticar o discurso no sentido contrário, de que quem vota no PT é ignorante ou mal-intencionado, que se beneficia diretamente de alguma forma de corrupção. Crítica a quem, votando no Serra, acha que o eleitor do Lula é analfabeto assim como o próprio também seria. E sei que muita gente vota no Serra não pensa assim, claro. Muita gente em São Paulo, inclusive. Mas o discurso que eu, no meu meio, mais escuto, é o primeiro mesmo, infelizmente
Então, este adendo foi pra isso, pra dizer que eu respeito muito a divergência de pontos de vista. Que acredito quando uma pessoa me diz que tem argumentos bem fundamentados pra votar no Serrra, tal qual eu os tenho pra votar na Dilma. Tô aqui defendendo o meu lado, mas respeito tem que ser uma via de mão dupla, né? Sempre.
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
Pontos fora da curva
Hoje aconteceu uma coisa engraçada no trabalho. Alguém veio me perguntar se eu achava que a Dilma ia ganhar no 1º turno. Assim, do nada. E eu respondi que provavelmente sim, mas que existem dois fatores cujos impactos as pesquisas não tinham condições de avaliar, cada um pendendo para um lado. Um é o fato da herança no número 13 que é muito forte como o número do Lula, mesmo entre quem ainda não sacou que a candidata é ela. Outra era a exigência de dois documentos para votar, uma novidade pouco divulgada. Daí alguém comentou com um tom meio alegrinho que “o povo ignorante que vota na Dilma e ganha bolsa família” não sabe disso. Mas todo mundo meio que mimimi e perguntaram o que eu achava. E eu disse que era suspeita porque não só ia votar nela, como já comprei minha passagem pra assistir à posse em Brasília. Ficaram com aquela cara de tacho de: “jura?”. Juro, respondi. Sou petista de pai e mãe. E alguém perguntou se eu gostava do PT ou dela e eu respondi que gosto de ambos. Silêncio. Todo mundo voltou a trabalhar, assunto encerrado.
No trabalho do marido é sabido que só ele e uma colega são eleitores do PT. E um dia um cara veio com discurso de que falam tanto que o país melhorou, mais ele ainda tem que pagar escola particular pros filhos. Marido explicou que, oi, o responsável pela escolas de Ensino Médio é o governo estadual, do partido que está há quase duas décadas no comando de São Paulo, justamente o partido do Serra que era, ele mesmo, governador até anteontem. E como marido não deixa barato, falou pro colega se informar melhor pra não passar vergonha na próxima – e de repente, quem sabe, votar no Mercadante dessa vez, se o que ele quer é mudança.
Esses casos são exemplo de uma coisa que é muito clara pra mim: as classes média e média alta paulistanas não estão acostumadas a alteridade. Não que o ser humano assim, no geral, não seja resistente à diferença. Mas é que o nível de renda e de escolaridade mais alto aqui não contribuem para visão mais ampla do mundo. Acham realmente que sua vida é o padrão, a norma, que o resto é ponto fora da curva. Daí o discurso só varia na hora de falar de futebol mesmo (e um dos colegas ainda brincou: “você é corintiana E petista?”). E a eleição do Lula, ao meu ver, trouxe mesmo esse ranço de que nós (porque se eu não compactuo com discurso, também não nego minha posição social) não somos maioria. Que há no país milhões de pessoas que não têm nossas referências, nossas prioridades, e têm direito à cidadania. E esta minoria então estranha muito quando encontra, eventualmente, alguém que não recebe Bolsa Família, fala línguas estrangeiras, frequenta restaurantes e usa perfume importado, trabalha duro, paga Imposto de Renda mas não faz coro com o discurso de lula-analfabeto-ignorante-petralha-vagabundo-etc-etc.
Em 2002 eu trabalhava naquela empresa super elitista e escrotinha. E foi o ano da eleição do Lula, então, toda uma experiência observar estes colegas. Tinha um cara que era reconhecidamente super alienado, até para os padrões de lá. Contavam que uma vez o levaram pra visitar varejo na periferia, parte de um trabalho de pesquisa de mercado, e ele ficou chocado. Em dado momento perguntou, se referindo à pobreza do bairro visitado: “nossa, mas o que é essa miséria toda?”. E alguém respondeu: “ué, isso é São Paulo, mané! achava que acabava em Moema?”. Pois então, esse cara tinha certeza de que o Lula ia “transformar o Brasil em Cuba”. Repito, em 2002, não em 89. E tinha um papo hilário do povo que não entendia como o Lula tinha aquele percentual de intenções de votos, se eles “não conheciam ninguém que ia votar nele”. Uma colega, engenheira, chegou a dizer que fizeram uma pesquisa no prédio dela e ninguém lá ia votar no cara. Alguém sabe me dizer se no curso de engenharia estuda-se alguma coisa de estatística? Porque no de Letras não, mas eu sei que um condomínio fechado em São Paulo, de um edifício com 3 vagas de garagem e nome provavelmente em inglês NÃO é um microcosmo representativo do país. Logo fica difícil fazer alguma projeção numérica confiável com essa amostragem tão pouco diversa, né?
Essa minha aversão à mentalidade tacanha à minha volta me trouxe um presente dos melhores: meu marido. Digamos que nosso primeiro encontro não foi exatamente um sucesso, e o moço não deixou uma impressão das melhores. Mas, em algum momento, ele fez um comentário elogioso à gestão da Marta Suplicy na prefeitura e pediu desculpas por tocar no assunto se isso de alguma forma me ofendia, mas o fato é que ele era “um mocinho de esquerda” (desse jeito, olha que fofo?). E eu sorri e respondi que, tudo bem, eu também era uma mocinha de esquerda. E, ao fazer o saldo daquela noite meio desastrada, pensando se eu dava uma chance ou não pra aquela história continuar, este comentário pesou, porque é meio difícil encontrar gente de esquerda nos ambientes que eu frequento, ainda mais depois de ter terminado a faculdade. Enfim, liguei pra ele, dei mais uma chance a nós dois, e ganhei, além de um marido, o meu interlocutor mais querido. Brincamos que, se um dia oficializarmos a união, vamos ter que chamar a Marta pra madrinha...
No trabalho do marido é sabido que só ele e uma colega são eleitores do PT. E um dia um cara veio com discurso de que falam tanto que o país melhorou, mais ele ainda tem que pagar escola particular pros filhos. Marido explicou que, oi, o responsável pela escolas de Ensino Médio é o governo estadual, do partido que está há quase duas décadas no comando de São Paulo, justamente o partido do Serra que era, ele mesmo, governador até anteontem. E como marido não deixa barato, falou pro colega se informar melhor pra não passar vergonha na próxima – e de repente, quem sabe, votar no Mercadante dessa vez, se o que ele quer é mudança.
Esses casos são exemplo de uma coisa que é muito clara pra mim: as classes média e média alta paulistanas não estão acostumadas a alteridade. Não que o ser humano assim, no geral, não seja resistente à diferença. Mas é que o nível de renda e de escolaridade mais alto aqui não contribuem para visão mais ampla do mundo. Acham realmente que sua vida é o padrão, a norma, que o resto é ponto fora da curva. Daí o discurso só varia na hora de falar de futebol mesmo (e um dos colegas ainda brincou: “você é corintiana E petista?”). E a eleição do Lula, ao meu ver, trouxe mesmo esse ranço de que nós (porque se eu não compactuo com discurso, também não nego minha posição social) não somos maioria. Que há no país milhões de pessoas que não têm nossas referências, nossas prioridades, e têm direito à cidadania. E esta minoria então estranha muito quando encontra, eventualmente, alguém que não recebe Bolsa Família, fala línguas estrangeiras, frequenta restaurantes e usa perfume importado, trabalha duro, paga Imposto de Renda mas não faz coro com o discurso de lula-analfabeto-ignorante-petralha-vagabundo-etc-etc.
Em 2002 eu trabalhava naquela empresa super elitista e escrotinha. E foi o ano da eleição do Lula, então, toda uma experiência observar estes colegas. Tinha um cara que era reconhecidamente super alienado, até para os padrões de lá. Contavam que uma vez o levaram pra visitar varejo na periferia, parte de um trabalho de pesquisa de mercado, e ele ficou chocado. Em dado momento perguntou, se referindo à pobreza do bairro visitado: “nossa, mas o que é essa miséria toda?”. E alguém respondeu: “ué, isso é São Paulo, mané! achava que acabava em Moema?”. Pois então, esse cara tinha certeza de que o Lula ia “transformar o Brasil em Cuba”. Repito, em 2002, não em 89. E tinha um papo hilário do povo que não entendia como o Lula tinha aquele percentual de intenções de votos, se eles “não conheciam ninguém que ia votar nele”. Uma colega, engenheira, chegou a dizer que fizeram uma pesquisa no prédio dela e ninguém lá ia votar no cara. Alguém sabe me dizer se no curso de engenharia estuda-se alguma coisa de estatística? Porque no de Letras não, mas eu sei que um condomínio fechado em São Paulo, de um edifício com 3 vagas de garagem e nome provavelmente em inglês NÃO é um microcosmo representativo do país. Logo fica difícil fazer alguma projeção numérica confiável com essa amostragem tão pouco diversa, né?
Essa minha aversão à mentalidade tacanha à minha volta me trouxe um presente dos melhores: meu marido. Digamos que nosso primeiro encontro não foi exatamente um sucesso, e o moço não deixou uma impressão das melhores. Mas, em algum momento, ele fez um comentário elogioso à gestão da Marta Suplicy na prefeitura e pediu desculpas por tocar no assunto se isso de alguma forma me ofendia, mas o fato é que ele era “um mocinho de esquerda” (desse jeito, olha que fofo?). E eu sorri e respondi que, tudo bem, eu também era uma mocinha de esquerda. E, ao fazer o saldo daquela noite meio desastrada, pensando se eu dava uma chance ou não pra aquela história continuar, este comentário pesou, porque é meio difícil encontrar gente de esquerda nos ambientes que eu frequento, ainda mais depois de ter terminado a faculdade. Enfim, liguei pra ele, dei mais uma chance a nós dois, e ganhei, além de um marido, o meu interlocutor mais querido. Brincamos que, se um dia oficializarmos a união, vamos ter que chamar a Marta pra madrinha...
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
9 caminhos
A Aline fez este post seguindo o meme, e nos comentários disse que pensou em passá-lo pra mim. Ela disse que ficou em dúvida sobre que raio de 9 coisas. Eu também, na verdade. A solução que ela encontrou foi o post fofo sobre os bichos de estimação. A minha também vai ser monotemática, porque eu lembrei que já tinha pensado em fazer posts sobre as coisas que eu gosto ou com as quais já trabalhei. Eu já contei aqui que eu sou perdida e tal, mas nunca contei o quanto. Daí no final de semana alguém me disse que se não fosse geógrafa, teria que nascer de novo, e que tinha pena das pessoas que chegam à maturidade sem saber o que querem da vida (oi? prazer!). E eu tentei explicar que eu sou assim não porque o mundo me é indiferente, porque não tenho paixões, mas justamente porque me interesso por muitas coisas. Então pensei em contar aqui sobre as coisas que eu já pensei em estudar, os empregos que eu tive, os caminhos que eu avaliei. Periga vocês acharem quem tem algo de ficção porque, né, eu só tenho 30 anos. Mas eu juro que é tudo sério.
1. Técnica em edificações (futura arquiteta ou engenheira civil)
Quando eu tinha 14 anos meu pai ficou desempregado, e eu achei que seria uma boa mudar pra uma escola pública. Até então, a única escola técnica profissionalizante que eu tinha ouvido falar era o Senai. Mas me informei e conheci outras. Como eu ia muito bem em matemática naquela época, achava que seria engenheira. E como eu já não gostava de eletricidade naquela época, escolhi o curso que me parecia mais simpático. Cheguei a fazer estágio num escritório de arquitetura, desenhando plantas (com tinta nanquim e papel vegetal ainda, nada de computador) e divulgando os produtos de uma fábrica de metais sanitários (meus primeiros rendimentos, aos 17 anos). Alguns amigos daquela época seguiram carreira. Outros, como eu, terminaram o curso com uma única certeza: de que aquilo não era o que queriam da vida.
2. Recepcionista/ Secretária
Bom, eu não cheguei a terminar meu curso profissionalizante. Naquele tempo, cursando 3 dos 4 anos, a gente podia pegar o diploma de 2° grau (é, eu sei que hoje se chama Ensino Médio) e cair fora. Foi o que eu fiz, mas já tinha decidido trabalhar enquanto fazia cursinho e pensava na vida. Então fui procurar emprego de recepcionista bilíngue, pra fazer valer a grana investida em anos de aulas da Cultura Inglesa. Consegui. Trabalhava numa empresa que sublocava espaço para outras menores e fazia a administração da coisa, como se fosse um flat (aluguel + serviços) só que comercial, não residencial. Às vezes me sentia como caqueles chinezinhos que rolam os pratinhos nas varetas tentando equilibrar todos, manjam? Imagina ter 5 pessoas na espera do telefone e mais 3 paradas na sua frente? Depois de alguns meses fui promovida a assistente administrativa mal sabendo usar o Office. Todos os dias ficava até tarde tentando aprender, faltando às aulas do cursinho. E aprendi (e consegui passar no vestibular também). Na verdade é graças a essa trajetória que pago minhas contas até hoje, porque eu amadureci demais e me desenvolvi muito profissionalmente. Não vou colocar o meu CV aqui, mas o fato é que fui mudando pra empregos que pagavam melhor, em empresas mais bacanas. Cheguei a ser assistente de um alto executivo numa montadora. Ser secretária tem um lado sacal, que é o de ser babá de gente grande, mas tinha um lance que eu sempre curti, que era tratar com todo mundo, de todos os níveis hierárquicos da empresa. Apertar a mão do presidente e tomar um café com os boys comentando o último jogo do Corinthians era uma parte interessante.
3. Professora
Em dado momento, cheguei à conclusão de que era muito nova pra fazer carreira, que era uma bosta chegar à faculdade tão cansada e que eu não queria trabalhar neste universo corporativo escroto. Pedi demissão pra dar aulas. Eu já tinha tentado dar aulas de inglês antes de entrar na faculdade, mas o fato é que não era boa o suficiente. Já o Espanhol eu aprendia como carreira. Então passei um tempo dando aulas de Espanhol, Português para Estrangeiros, Redação e o que mais aparecesse (acho que cheguei a substituir uma professora de inglês uma vez – mas só uma). Os planos eram seguir carreira acadêmica e virar professora de Literatura. Parece que eu até fazia tudo direitinho e os alunos curtiam minhas aulas. Mas eu queria ficar um tempo fora e larguei tudo para passar um ano na França aprendendo mais um idioma. E na volta nem tava mais a fim de fazer isso.
4. Babá
O ano que passei na França me sustentei como jeune fille au pair, a moça que se instala na casa de uma família estrangeira e cuida da(s) criança(s) e de alguma tarefa doméstica (no meu caso, passar aspirador de pó na casa) em troca de abrigo, comida, uns trocados e intercâmbio cultural. É uma experiência que dificilmente tem meio termo – ou é muito bacana, ou é traumática. No meu caso foi bem tranquilo, tenho contato com a família até hoje. Chegaram a me receber por uns dias na casa deles ano passado quando estive em Paris a passeio. E foi uma tremenda lição de tolerância. Passei a ter um respeito tremendo por empregada que dorme na casa dos patrões. Imagina ouvir bronca do chefe morando na casa dele? Não é pra fracos, definitivamente.
5. Relações Internacionais
Agora começa o campo do que poderia ter sido. Cheguei a procurar um Mestrado sobre o tema na França, mas colocaram algum obstáculo em relação ao meu histórico que me fez perder o tesão. Voltando ao Brasil, me inscrevi numa pós que tinha como tema o desenvolvimento social da América Latina. Não abriram a turma por falta de interessados, nunca mais ofereceram o curso e eu fiquei bem chateada.
6. Métiers du Livre – ou Editora
Outra coisa que me interessa muito: todo o processo de edição e distribuição de livros. Também vi uma pós do assunto na França – e nessa só admitiam, pra meu infinito desgosto, gente que tinha cursado Comunicação Social ou Editoração. Quando voltei, fui procurar cursos aqui e descobri que em São Paulo o único lugar que oferece é a Universidade do Livro, ligada à Editora da Unesp. Não fui porque os planos mudaram de novo (oi?), mas recomendo, parece que a coisa é boa.
7. Gestora Ambiental
Cheguei a procurar uns cursos na área, porque produção limpa é uma coisa que muito me interessa (e agora escuto o Plínio de Arruda Sampaio me chamando de “ecocapitalista”). O interesse começou quando eu trabalhei, por longos 8 meses, numa indústria nacional. O Diretor Industrial me contratou porque se impressionou com meu CV, digamos, diversificado. Achou um luxo ter uma assistente que falava francês mas também tinha feito curso técnico – peão e lady ao mesmo tempo, segundo o ponto de vista dele. Daí ele me mandava nas reuniões de fábrica e eu viajava ouvindo o povo reclamar de máquina com defeito, achava tudo uma chatice. Eu odiava este emprego com todas as forças, mas queria muito gostar, e achei que a pós pudesse ser o caminho. Bom, cheguei à conclusão que produção mecânica está entre as coisas que eu não gosto. Depois de sair do emprego, continuei interessada por um tempo. Mas passou rápido.
8. Trabalhar com comida
Comida é uma das minha grandes paixões. Eu adoro comer, adoro ir a restaurantes, adoro cozinhar, adoro ler sobre o assunto, adoro pensar questões políticas ligadas à produção de alimentos, aos nossos hábitos, enfim. Acho que dá pano pra manga, rende teses, inspirador mesmo. O foda é que eu não sei se gosto dessas coisas profissionalmente falando. “Porra, Iara, mas você disse que é paixão!”. Veja bem: é e não é. Mas eu pesquisei uns cursos no Senac de administração de serviços de alimentação. Mas o mais legal mesmo, que quando sobrar tempo e dinheiro (ou seja, nunca) eu devo fazer, é um curso que seria como uma Sociologia da Alimentação. Sabe pensar a comida numa perspectiva histórico e cultural? Pirei. Mas, né? Sei lá. Quem sabe eu mude de ideia de novo...
9. Administração – privada e pública
Daí que hoje eu sou uma assistente administrativa. Sou responsável por uma série de tarefas, de muito práticas à essencialmente burocráticas, num escritório pequeno de uma multinacional finlandesa. Não tá uma maravilha e eu poderia ganhar mais como secretária bam-bam-bam, mas daí eu lembro que ia ter que ser babá de executivo de novo e me conformo de ganhar menos. Além de que secretária é uma criatura infeliz que depende da agenda do chefe pra tudo, do almoço às férias, muitas vezes. E secretária nunca vai a lugar algum – e eu já fui mandada pra Helsinki pra fazer um treinamento, o que não deixa de ser divertido. E, voltando à ocupação, eu gosto muito de resolver problemas práticos, fazer coisas acontecerem. Gosto mesmo. Na verdade, penso que eu queria trabalhar resolvendo problemas grandes, gerindo questões de emergência. Lembram quando caiu aquele avião da Gol na Amazônia? Uma tragédia, eu sei, mas só conseguia pensar na logística envolvendo as buscas. Mesma coisa com o socorro à vítimas de enchente – fico aqui mentalmente pensando que precisa de água, de remédios, mas também de um plantão jurídico pra tirar os documentos de quem perdeu tudo. Enfim. E o curso que eu faço hoje, a pós que eu finalmente escolhi e tô adorando, é de gestão pública e urbanismo. Então cada vez mais eu penso que eu vou ter é que considerar a possibilidade de meter a cara nos livros por um bom tempo e tentar um concurso público. Mas ainda não sei. Complicada, eu?
Nem mencionei que o meu primeiro vestibular foi pra Jornalismo, porque daí viravam 10. Acho até que vocês iam achar um pouco demais (ou não?). E bom, parece que a ideia é indicar 9 pessoas pra repassar o tema. Eu tenho medo de passar tarefas assim às pessoas, porque elas podem ficar constrangidas – embora eu tenha adorado a indicação da Aline. Então, façam o seguinte? Quem comenta aqui sempre tá convidada a me contar 9 coisas. Vou adorar saber mais sobre vocês.
1. Técnica em edificações (futura arquiteta ou engenheira civil)
Quando eu tinha 14 anos meu pai ficou desempregado, e eu achei que seria uma boa mudar pra uma escola pública. Até então, a única escola técnica profissionalizante que eu tinha ouvido falar era o Senai. Mas me informei e conheci outras. Como eu ia muito bem em matemática naquela época, achava que seria engenheira. E como eu já não gostava de eletricidade naquela época, escolhi o curso que me parecia mais simpático. Cheguei a fazer estágio num escritório de arquitetura, desenhando plantas (com tinta nanquim e papel vegetal ainda, nada de computador) e divulgando os produtos de uma fábrica de metais sanitários (meus primeiros rendimentos, aos 17 anos). Alguns amigos daquela época seguiram carreira. Outros, como eu, terminaram o curso com uma única certeza: de que aquilo não era o que queriam da vida.
2. Recepcionista/ Secretária
Bom, eu não cheguei a terminar meu curso profissionalizante. Naquele tempo, cursando 3 dos 4 anos, a gente podia pegar o diploma de 2° grau (é, eu sei que hoje se chama Ensino Médio) e cair fora. Foi o que eu fiz, mas já tinha decidido trabalhar enquanto fazia cursinho e pensava na vida. Então fui procurar emprego de recepcionista bilíngue, pra fazer valer a grana investida em anos de aulas da Cultura Inglesa. Consegui. Trabalhava numa empresa que sublocava espaço para outras menores e fazia a administração da coisa, como se fosse um flat (aluguel + serviços) só que comercial, não residencial. Às vezes me sentia como caqueles chinezinhos que rolam os pratinhos nas varetas tentando equilibrar todos, manjam? Imagina ter 5 pessoas na espera do telefone e mais 3 paradas na sua frente? Depois de alguns meses fui promovida a assistente administrativa mal sabendo usar o Office. Todos os dias ficava até tarde tentando aprender, faltando às aulas do cursinho. E aprendi (e consegui passar no vestibular também). Na verdade é graças a essa trajetória que pago minhas contas até hoje, porque eu amadureci demais e me desenvolvi muito profissionalmente. Não vou colocar o meu CV aqui, mas o fato é que fui mudando pra empregos que pagavam melhor, em empresas mais bacanas. Cheguei a ser assistente de um alto executivo numa montadora. Ser secretária tem um lado sacal, que é o de ser babá de gente grande, mas tinha um lance que eu sempre curti, que era tratar com todo mundo, de todos os níveis hierárquicos da empresa. Apertar a mão do presidente e tomar um café com os boys comentando o último jogo do Corinthians era uma parte interessante.
3. Professora
Em dado momento, cheguei à conclusão de que era muito nova pra fazer carreira, que era uma bosta chegar à faculdade tão cansada e que eu não queria trabalhar neste universo corporativo escroto. Pedi demissão pra dar aulas. Eu já tinha tentado dar aulas de inglês antes de entrar na faculdade, mas o fato é que não era boa o suficiente. Já o Espanhol eu aprendia como carreira. Então passei um tempo dando aulas de Espanhol, Português para Estrangeiros, Redação e o que mais aparecesse (acho que cheguei a substituir uma professora de inglês uma vez – mas só uma). Os planos eram seguir carreira acadêmica e virar professora de Literatura. Parece que eu até fazia tudo direitinho e os alunos curtiam minhas aulas. Mas eu queria ficar um tempo fora e larguei tudo para passar um ano na França aprendendo mais um idioma. E na volta nem tava mais a fim de fazer isso.
4. Babá
O ano que passei na França me sustentei como jeune fille au pair, a moça que se instala na casa de uma família estrangeira e cuida da(s) criança(s) e de alguma tarefa doméstica (no meu caso, passar aspirador de pó na casa) em troca de abrigo, comida, uns trocados e intercâmbio cultural. É uma experiência que dificilmente tem meio termo – ou é muito bacana, ou é traumática. No meu caso foi bem tranquilo, tenho contato com a família até hoje. Chegaram a me receber por uns dias na casa deles ano passado quando estive em Paris a passeio. E foi uma tremenda lição de tolerância. Passei a ter um respeito tremendo por empregada que dorme na casa dos patrões. Imagina ouvir bronca do chefe morando na casa dele? Não é pra fracos, definitivamente.
5. Relações Internacionais
Agora começa o campo do que poderia ter sido. Cheguei a procurar um Mestrado sobre o tema na França, mas colocaram algum obstáculo em relação ao meu histórico que me fez perder o tesão. Voltando ao Brasil, me inscrevi numa pós que tinha como tema o desenvolvimento social da América Latina. Não abriram a turma por falta de interessados, nunca mais ofereceram o curso e eu fiquei bem chateada.
6. Métiers du Livre – ou Editora
Outra coisa que me interessa muito: todo o processo de edição e distribuição de livros. Também vi uma pós do assunto na França – e nessa só admitiam, pra meu infinito desgosto, gente que tinha cursado Comunicação Social ou Editoração. Quando voltei, fui procurar cursos aqui e descobri que em São Paulo o único lugar que oferece é a Universidade do Livro, ligada à Editora da Unesp. Não fui porque os planos mudaram de novo (oi?), mas recomendo, parece que a coisa é boa.
7. Gestora Ambiental
Cheguei a procurar uns cursos na área, porque produção limpa é uma coisa que muito me interessa (e agora escuto o Plínio de Arruda Sampaio me chamando de “ecocapitalista”). O interesse começou quando eu trabalhei, por longos 8 meses, numa indústria nacional. O Diretor Industrial me contratou porque se impressionou com meu CV, digamos, diversificado. Achou um luxo ter uma assistente que falava francês mas também tinha feito curso técnico – peão e lady ao mesmo tempo, segundo o ponto de vista dele. Daí ele me mandava nas reuniões de fábrica e eu viajava ouvindo o povo reclamar de máquina com defeito, achava tudo uma chatice. Eu odiava este emprego com todas as forças, mas queria muito gostar, e achei que a pós pudesse ser o caminho. Bom, cheguei à conclusão que produção mecânica está entre as coisas que eu não gosto. Depois de sair do emprego, continuei interessada por um tempo. Mas passou rápido.
8. Trabalhar com comida
Comida é uma das minha grandes paixões. Eu adoro comer, adoro ir a restaurantes, adoro cozinhar, adoro ler sobre o assunto, adoro pensar questões políticas ligadas à produção de alimentos, aos nossos hábitos, enfim. Acho que dá pano pra manga, rende teses, inspirador mesmo. O foda é que eu não sei se gosto dessas coisas profissionalmente falando. “Porra, Iara, mas você disse que é paixão!”. Veja bem: é e não é. Mas eu pesquisei uns cursos no Senac de administração de serviços de alimentação. Mas o mais legal mesmo, que quando sobrar tempo e dinheiro (ou seja, nunca) eu devo fazer, é um curso que seria como uma Sociologia da Alimentação. Sabe pensar a comida numa perspectiva histórico e cultural? Pirei. Mas, né? Sei lá. Quem sabe eu mude de ideia de novo...
9. Administração – privada e pública
Daí que hoje eu sou uma assistente administrativa. Sou responsável por uma série de tarefas, de muito práticas à essencialmente burocráticas, num escritório pequeno de uma multinacional finlandesa. Não tá uma maravilha e eu poderia ganhar mais como secretária bam-bam-bam, mas daí eu lembro que ia ter que ser babá de executivo de novo e me conformo de ganhar menos. Além de que secretária é uma criatura infeliz que depende da agenda do chefe pra tudo, do almoço às férias, muitas vezes. E secretária nunca vai a lugar algum – e eu já fui mandada pra Helsinki pra fazer um treinamento, o que não deixa de ser divertido. E, voltando à ocupação, eu gosto muito de resolver problemas práticos, fazer coisas acontecerem. Gosto mesmo. Na verdade, penso que eu queria trabalhar resolvendo problemas grandes, gerindo questões de emergência. Lembram quando caiu aquele avião da Gol na Amazônia? Uma tragédia, eu sei, mas só conseguia pensar na logística envolvendo as buscas. Mesma coisa com o socorro à vítimas de enchente – fico aqui mentalmente pensando que precisa de água, de remédios, mas também de um plantão jurídico pra tirar os documentos de quem perdeu tudo. Enfim. E o curso que eu faço hoje, a pós que eu finalmente escolhi e tô adorando, é de gestão pública e urbanismo. Então cada vez mais eu penso que eu vou ter é que considerar a possibilidade de meter a cara nos livros por um bom tempo e tentar um concurso público. Mas ainda não sei. Complicada, eu?
Nem mencionei que o meu primeiro vestibular foi pra Jornalismo, porque daí viravam 10. Acho até que vocês iam achar um pouco demais (ou não?). E bom, parece que a ideia é indicar 9 pessoas pra repassar o tema. Eu tenho medo de passar tarefas assim às pessoas, porque elas podem ficar constrangidas – embora eu tenha adorado a indicação da Aline. Então, façam o seguinte? Quem comenta aqui sempre tá convidada a me contar 9 coisas. Vou adorar saber mais sobre vocês.
terça-feira, 7 de setembro de 2010
65 anos de subversão
Amanhã é aniversário do meu pai. E eu, que sou a super-queridinha ainda não escrevi um post sobre ele. Meu pai é assim: o sujeito mais tranquilão do mundo, e o sujeito mais subversivo ao mesmo tempo. Não fuma, parou de beber há anos, nunca se drogou, mesmo com alimentação é um sujeito comedido – só não deixe uma goiabada e um bom queijo perto dele, porque, na volta, periga não encontrar nada. Minha mãe faz um sucesso danado, porque é muito mais expansiva, mas é possível não ir com a cara dela, porque ela pode parecer invasiva pra quem for muito reservado, por conta justamente de seu excesso de entusiasmo. Como meu pai é mais na dele, é mais difícil despertar reações intensas, para o bem ou para o mal. Costumo dizer que quem não vai com a cara dele tem algum problema, porque ele simpatiza sem invadir seu espaço, sabe? E é um sujeito super tolerante. Lembro da adolescência, ir em baladas com amigas, e a gente achar um carinha bonitinho, mas elas dizerem que “já imaginou apresentar para o pai”? Pois é, meu pai nunca foi esse pai de família padrão, cidadão de bem aos moldes do Professor Hariovaldo. Nunca aconteceu, mas tenho certeza que ele não se assustaria com um genro de dreads músico alternativo. Quando eu fiz a minha tatuagem, o único comentário foi que ele achava burrice pagar caro para se auto infligir dor. Tipo, ele não conseguia conseguir entender o sentido, mas não era um problema moral, nunca foi.
Mas tem mais. Várias situações em que eu constatei que tinha um pai diferente. A primeira vez que eu anunciei que ia à Parada Gay, ele ficou pensativo e disse que não gostava muito de aglomerações, mas achava que deveria ir também pra expressar apoio, afinal a manifestação era pró direitos civis, direitos que são os dele também, oras. E bom, eu sou a conservadora lá de casa, votando na Dilma. Meu pai vai votar no Plínio e meu irmão vai anulá-lo, porque é anarquista há anos. E lembro do meu pai contemporizando sobre o anarquismo do meu irmão. Dizia que meu irmão estava certo no fundo, que se o Estado só servia pra reprimir a população, garantindo a manutenção garantindo o status quo, há que rebelar-se, afinal (!!!). Não imaginem meu pai um sujeito de longas barbas, sandálias de couro e camisetas surradas. Meu pai tem horror a camisetas surradas. Não gosta que a gente use nem pra dormir. É um senhor sem ostentação, mas muito bem apresentável, não combina com este estereótipo do comunista-sujinho.
Tem mais, quando ele se aposentou, fez uma caminhada de 300km entre Águas da Prata e Aparecida do Norte, chamada “Caminho da Fé”, e promovida como uma espécie de Santiago de Compostela brasileira. Mas meu pai é ateu, foi pra curtir o visual, e o desafio. Ele foi educado em seminário, e teve momentos e reaproximação de Igreja. E quando ele se reaproximou, foi pra participar. Ele não conseguia só ir à missa aos domingos. Não tem meio termo pra ele: um dia participa da liturgia e faz a celebrações quando o padre não está, no outro conclui que não acredita em nada disso e é ateu. Quando ele se afastou, o pessoal da Igreja achou que ele tinha se desentendido com o padre. E foram lá em casa perguntar o que rolava. Abordavam minha mãe na Igreja e tal. E ele virava pra mim, super constrangido, me perguntava como ia fazer pra contar pras pessoas que “olha só, Deus não existe. Até tentei embarcar nessa com vocês, mas não rola...”.
Meu irmão usou cabelos compridos por anos. Dos 13 aos 22, mais ou menos. E as pessoas achavam que meu pai poderia se incomodar com aquilo. E nunca se incomodou, nunca achou aquilo importante. Quando meu irmão tinha uns 14, começou a fazer um curso técnico numa escola que, dizem, era financiada pela Opus Dei. E tava nas regras deles que todos os ingressos não poderiam ter cabelos longos. E todo mundo que entrava lá, cortava, e as famílias achavam bacana, porque era um bom pretexto. Só que meu irmão não queria cortar de jeito nenhum. E meu pai foi lá, com a Constituição nas mãos, defender meu irmão, dizer que eles não podiam fazer isso. Que lamentava por quem tinha sofrido a pressão, mas que era inconstitucional essa interferência na aparência das pessoas. Lógico que meu pai achava roubada o lance da Opus Dei, mas meu irmão teve que chegar a essa conclusão sozinho (e se hoje ele é anarquista, vocês podem concluir que sim, ele chegou).
Ah e tem outra ótima. Semestre passado meu pai concluiu o curso de Ciências Sociais. A quarta faculdade dele, mas ele achava que as outras (Filosofia no seminário, Administração e Contábeis numa particular bem ruinzinha) não tinha dado uma formação bacana, e queria ter essa experiência. E ele passou no vestibular com 60 anos. Os colegas mais novos do que eu, claro. Mas ele sempre teve um tremendo simancol, nunca tentou bancar o garotão, mas fazia um esforço sincero pra se integrar aos colegas sem estabelecer nenhuma espécie de hierarquia. Lembro de uma vez ele angustiado porque o grupo com o qual trabalhava tava meio devagar pra começar o trabalho, e ele não queria tomar a frente da coisa pra não parecer etarista. E durante a faculdade uma das minhas primas se casou no religioso. Irônico que só, meu pai não se segurou quando o cunhado entrou conduzindo a noiva ao altar, me cutucou e falou baixinho “lição de Antropologia: agora a gente vende a mulher pro outro clã”. Eu mereço?
Mas talvez a história mais marcante pra mim tenha sido sobre sua participação na militância. Eu sabia que meu pai tinha lecionado História quando era mais jovem, logo depois da faculdade de Filosofia. E muitos professores meus na escola diziam ter fugido da polícia durante a ditadura. Mas apesar de meu pai votar desde sempre no PT, quando pequena eu ainda tinha uma imagem dele como pacífico e careta, até. Um dia eu perguntei se ele tinha fugido, meio que tirando um barato. E ele contou que não fugiu porque não tinha conseguido, foi preso antes. Aos poucos eu fui sabendo dos detalhes, foi em 74, ele estava circulando um abaixo-assinado contra a carestia, ficou 4 meses preso, foi submetido à torturas, teve os tímpanos estourados (e portanto não suporta som alto não por ser careta, mas por uma espécie de sequela). Foi julgado e absolvido. Só recentemente fiquei sabendo que meu tios mais novos foram também presos e sofreram humilhações, como uma maneira de coagir meu pai. E ele delatou companheiros, porque não podia arriscar que machucassem seus irmãos (sua irmã, em especial - e vocês podem imaginar que tipo de ameaça fizeram). Meu pai estava sendo preparado para entrar na luta armada, mas depois do trauma da prisão, e principalmente da culpa pelo sofrimento dos irmãos, abandonou a militância. Mas é muito enfático em dizer que, sim, ia pegar em armas se fosse o caso, porque os tempos eram outros. E alguém acha que vai mudar meu voto me mandando e-mail que chama a Dilma de terrorista... Em 2004, quando o golpe completou 40 anos, vi o meu pai chorar pela 1ª vez na vida. Chorou 2 vezes na mesma semana, lembrando da tortura a que pessoas conhecidas foram submetidas.
Como o último parágrafo foi pesado, deixo uma coisa leve pro final. Porque meu pai é muito leve, apesar de tudo; ele não arrasta peso pela vida. Por conta de um erro, coisas da roça, de quando se registravam as crianças todos juntas depois de muitos anos, a certidão de nascimento do meu pai traz a data de 02 de setembro, e não 8, como comemoramos. E dia 3 liguei pra minha mãe pra tirar um barato, perguntar se meu pai sabia que podia pegar ônibus de graça. E ele já tinha ido lá, providenciar a carteirinha de gratuidade para idosos. É ou não é um subversivo fofo?
(Marido fez aniversário ontem. E não ganhou post exclusivo, pelo menos não ainda. Marido, fica com ciúme não, tá?).
Mas tem mais. Várias situações em que eu constatei que tinha um pai diferente. A primeira vez que eu anunciei que ia à Parada Gay, ele ficou pensativo e disse que não gostava muito de aglomerações, mas achava que deveria ir também pra expressar apoio, afinal a manifestação era pró direitos civis, direitos que são os dele também, oras. E bom, eu sou a conservadora lá de casa, votando na Dilma. Meu pai vai votar no Plínio e meu irmão vai anulá-lo, porque é anarquista há anos. E lembro do meu pai contemporizando sobre o anarquismo do meu irmão. Dizia que meu irmão estava certo no fundo, que se o Estado só servia pra reprimir a população, garantindo a manutenção garantindo o status quo, há que rebelar-se, afinal (!!!). Não imaginem meu pai um sujeito de longas barbas, sandálias de couro e camisetas surradas. Meu pai tem horror a camisetas surradas. Não gosta que a gente use nem pra dormir. É um senhor sem ostentação, mas muito bem apresentável, não combina com este estereótipo do comunista-sujinho.
Tem mais, quando ele se aposentou, fez uma caminhada de 300km entre Águas da Prata e Aparecida do Norte, chamada “Caminho da Fé”, e promovida como uma espécie de Santiago de Compostela brasileira. Mas meu pai é ateu, foi pra curtir o visual, e o desafio. Ele foi educado em seminário, e teve momentos e reaproximação de Igreja. E quando ele se reaproximou, foi pra participar. Ele não conseguia só ir à missa aos domingos. Não tem meio termo pra ele: um dia participa da liturgia e faz a celebrações quando o padre não está, no outro conclui que não acredita em nada disso e é ateu. Quando ele se afastou, o pessoal da Igreja achou que ele tinha se desentendido com o padre. E foram lá em casa perguntar o que rolava. Abordavam minha mãe na Igreja e tal. E ele virava pra mim, super constrangido, me perguntava como ia fazer pra contar pras pessoas que “olha só, Deus não existe. Até tentei embarcar nessa com vocês, mas não rola...”.
Meu irmão usou cabelos compridos por anos. Dos 13 aos 22, mais ou menos. E as pessoas achavam que meu pai poderia se incomodar com aquilo. E nunca se incomodou, nunca achou aquilo importante. Quando meu irmão tinha uns 14, começou a fazer um curso técnico numa escola que, dizem, era financiada pela Opus Dei. E tava nas regras deles que todos os ingressos não poderiam ter cabelos longos. E todo mundo que entrava lá, cortava, e as famílias achavam bacana, porque era um bom pretexto. Só que meu irmão não queria cortar de jeito nenhum. E meu pai foi lá, com a Constituição nas mãos, defender meu irmão, dizer que eles não podiam fazer isso. Que lamentava por quem tinha sofrido a pressão, mas que era inconstitucional essa interferência na aparência das pessoas. Lógico que meu pai achava roubada o lance da Opus Dei, mas meu irmão teve que chegar a essa conclusão sozinho (e se hoje ele é anarquista, vocês podem concluir que sim, ele chegou).
Ah e tem outra ótima. Semestre passado meu pai concluiu o curso de Ciências Sociais. A quarta faculdade dele, mas ele achava que as outras (Filosofia no seminário, Administração e Contábeis numa particular bem ruinzinha) não tinha dado uma formação bacana, e queria ter essa experiência. E ele passou no vestibular com 60 anos. Os colegas mais novos do que eu, claro. Mas ele sempre teve um tremendo simancol, nunca tentou bancar o garotão, mas fazia um esforço sincero pra se integrar aos colegas sem estabelecer nenhuma espécie de hierarquia. Lembro de uma vez ele angustiado porque o grupo com o qual trabalhava tava meio devagar pra começar o trabalho, e ele não queria tomar a frente da coisa pra não parecer etarista. E durante a faculdade uma das minhas primas se casou no religioso. Irônico que só, meu pai não se segurou quando o cunhado entrou conduzindo a noiva ao altar, me cutucou e falou baixinho “lição de Antropologia: agora a gente vende a mulher pro outro clã”. Eu mereço?
Mas talvez a história mais marcante pra mim tenha sido sobre sua participação na militância. Eu sabia que meu pai tinha lecionado História quando era mais jovem, logo depois da faculdade de Filosofia. E muitos professores meus na escola diziam ter fugido da polícia durante a ditadura. Mas apesar de meu pai votar desde sempre no PT, quando pequena eu ainda tinha uma imagem dele como pacífico e careta, até. Um dia eu perguntei se ele tinha fugido, meio que tirando um barato. E ele contou que não fugiu porque não tinha conseguido, foi preso antes. Aos poucos eu fui sabendo dos detalhes, foi em 74, ele estava circulando um abaixo-assinado contra a carestia, ficou 4 meses preso, foi submetido à torturas, teve os tímpanos estourados (e portanto não suporta som alto não por ser careta, mas por uma espécie de sequela). Foi julgado e absolvido. Só recentemente fiquei sabendo que meu tios mais novos foram também presos e sofreram humilhações, como uma maneira de coagir meu pai. E ele delatou companheiros, porque não podia arriscar que machucassem seus irmãos (sua irmã, em especial - e vocês podem imaginar que tipo de ameaça fizeram). Meu pai estava sendo preparado para entrar na luta armada, mas depois do trauma da prisão, e principalmente da culpa pelo sofrimento dos irmãos, abandonou a militância. Mas é muito enfático em dizer que, sim, ia pegar em armas se fosse o caso, porque os tempos eram outros. E alguém acha que vai mudar meu voto me mandando e-mail que chama a Dilma de terrorista... Em 2004, quando o golpe completou 40 anos, vi o meu pai chorar pela 1ª vez na vida. Chorou 2 vezes na mesma semana, lembrando da tortura a que pessoas conhecidas foram submetidas.
Como o último parágrafo foi pesado, deixo uma coisa leve pro final. Porque meu pai é muito leve, apesar de tudo; ele não arrasta peso pela vida. Por conta de um erro, coisas da roça, de quando se registravam as crianças todos juntas depois de muitos anos, a certidão de nascimento do meu pai traz a data de 02 de setembro, e não 8, como comemoramos. E dia 3 liguei pra minha mãe pra tirar um barato, perguntar se meu pai sabia que podia pegar ônibus de graça. E ele já tinha ido lá, providenciar a carteirinha de gratuidade para idosos. É ou não é um subversivo fofo?
(Marido fez aniversário ontem. E não ganhou post exclusivo, pelo menos não ainda. Marido, fica com ciúme não, tá?).
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
Quando a vítima vira ré – ou Badinter na prática
Então meu lado B é ler notícias sobre celebridades e subcelebridades de vez em quando. Eu tenho mais o que fazer e deveria gastar meu tempo em algo que preste, eu sei, mas entre um relatório do Excel e outro, as vezes a gente precisa ver coisas que não exijam reflexões profundas, nem comentários elaborados. Famosinhos tem esse efeito sobre mim, geralmente: descontraem por alguns minutinhos. Daí esvazio a cabeça um pouco e volto pra terminar aquele relatório chato que ninguém vai ler. Ó ,vida.
Mas então, sobre o Dado eu já comentei. E a gente sabe que a lógica machista diz que nenhuma mulher apanha sem motivo. Quer dizer, o motivo nunca é porque o agressor é violento, a vítima tem que ter alguma responsabilidade. No caso do Luana era fácil, porque ela não prima pela simpatia nem pela auto-repressão, mas e essa pobre moça que casou com ele no religioso, mãe de uma criança de colo? Como culpá-la? Eu tava esperando, e nem demorou.
Apesar de dar um entrevista pra Veja em que diz que “nunca bateu pra machucar” (oi?), publicaram por aí que as testemunhas contra o Dado foram coagidas a depor. Considerando meu horror a condenações prévias, tive meio segundo de dúvida se deveria ter feito um post chamando o cara de agressor. Meio segundo porque eu lembrei, em seguida, que ele já foi condenado por agressão. Quer dizer, pode não ter batido na atual, mas na anterior com certeza, o que isenta minha acusação de leviandade. E, claro, ele pode perfeitamente ter batido na esposa sem as empregadas terem visto.
Mas, enfim, tem a cereja do bolo, né? Aqui a gente fica sabendo que o marido agressor só estava preocupado com a alimentação do filho. Se você não tá afim de clicar lá, eu explico: as mesmas funcionárias que disseram que foram coagidas a depor contra o Dado afirmam que o motivo das brigas do casal era a alimentação da esposa, que está amamentando. Em tão poucas linhas a gente vê a teoria da Badinter se afirmar com “dicumforça”. Quer dizer, o cara não pode dizer que ele é opressor. Mas quem vai ser contra as necessidades de um bebê, minha gente! E, olha, eu não li os comentários, mas certeza de que tem gente endossando este discurso. Que “onde já se viu ficar se entupindo de refrigerante quando se tem um filho pra amamentar”. Pra completar, a testemunha das brigas diz que o zeloso pai cobrava da esposa sua obrigação de amamentar o bebê até os dois anos porque ela “não faz mais nada”.
Isso tudo tinha link na home globo.com. Globo, aliás, grande incentivadora da porradas educativas em mulheres mal comportadas. Quer dizer, notícia de massa, o tipo de coisa com potencial pra formar opinião mesmo. Então fica claro como o dia a condenação e o estigma de quem apanha, não de quem bate. Eu tô muito otimista com a eleição da Dilma, já comprei minha passagem pra Brasília, até. Acho que vai ser um momento importantíssimo para as mulheres deste país. Mas não me iludo: uma cultura machista como a nossa, com tanto respaldo midiático pra continuar reproduzindo certos modelos, não se muda da noite pro dia.
Mas então, sobre o Dado eu já comentei. E a gente sabe que a lógica machista diz que nenhuma mulher apanha sem motivo. Quer dizer, o motivo nunca é porque o agressor é violento, a vítima tem que ter alguma responsabilidade. No caso do Luana era fácil, porque ela não prima pela simpatia nem pela auto-repressão, mas e essa pobre moça que casou com ele no religioso, mãe de uma criança de colo? Como culpá-la? Eu tava esperando, e nem demorou.
Apesar de dar um entrevista pra Veja em que diz que “nunca bateu pra machucar” (oi?), publicaram por aí que as testemunhas contra o Dado foram coagidas a depor. Considerando meu horror a condenações prévias, tive meio segundo de dúvida se deveria ter feito um post chamando o cara de agressor. Meio segundo porque eu lembrei, em seguida, que ele já foi condenado por agressão. Quer dizer, pode não ter batido na atual, mas na anterior com certeza, o que isenta minha acusação de leviandade. E, claro, ele pode perfeitamente ter batido na esposa sem as empregadas terem visto.
Mas, enfim, tem a cereja do bolo, né? Aqui a gente fica sabendo que o marido agressor só estava preocupado com a alimentação do filho. Se você não tá afim de clicar lá, eu explico: as mesmas funcionárias que disseram que foram coagidas a depor contra o Dado afirmam que o motivo das brigas do casal era a alimentação da esposa, que está amamentando. Em tão poucas linhas a gente vê a teoria da Badinter se afirmar com “dicumforça”. Quer dizer, o cara não pode dizer que ele é opressor. Mas quem vai ser contra as necessidades de um bebê, minha gente! E, olha, eu não li os comentários, mas certeza de que tem gente endossando este discurso. Que “onde já se viu ficar se entupindo de refrigerante quando se tem um filho pra amamentar”. Pra completar, a testemunha das brigas diz que o zeloso pai cobrava da esposa sua obrigação de amamentar o bebê até os dois anos porque ela “não faz mais nada”.
Isso tudo tinha link na home globo.com. Globo, aliás, grande incentivadora da porradas educativas em mulheres mal comportadas. Quer dizer, notícia de massa, o tipo de coisa com potencial pra formar opinião mesmo. Então fica claro como o dia a condenação e o estigma de quem apanha, não de quem bate. Eu tô muito otimista com a eleição da Dilma, já comprei minha passagem pra Brasília, até. Acho que vai ser um momento importantíssimo para as mulheres deste país. Mas não me iludo: uma cultura machista como a nossa, com tanto respaldo midiático pra continuar reproduzindo certos modelos, não se muda da noite pro dia.
terça-feira, 31 de agosto de 2010
Centenário \o/ e inquietações políticas
Então, 100 anos de Corinthians. E eu nem sei porque me tornei corintiana. Meu pai é sãopaulino, mas nunca foi muito empolgado com futebol. Acho que não tem ninguém próximo que justifique meu afeto. Lembranças mais antigas me remetem ao Sócrates. Devo ter ouvido algum comentário elogioso à Democracia Corintiana quando eu era bem pequena, e ficou a simpatia. Que virou amor. Não é nem paixão, é amor mesmo, daqueles que ocupa um lugar certo mesmo sem queimar. E lógico, casar com um palmeirense louco por futebol, viver a coisa da rivalidade dentro de casa todo dia, tornou tudo mais apimentado. Mas é assim independentemente do marido. Eu sei: não tem estádio, não tem Libertadores, e hexa e blábláblá. Não me venham com argumentos racionais. Não é assim que o amor funciona. Eu não deixei de amar quando viramos lavanderia de dinheiro da máfia russa, nem quando caímos. Lamentei muito, mas continuei amando e continuei fiel. E posso reconhecer que deve ser luxo ter galeria de títulos ou um presidente professor da Unicamp. Mas meu coração tem dono.
***
Então vem o lance do estádio. A Mary W postou aqui. E eu acho que ela tem razão em se indignar. É o seguinte: pra quem ainda não sabe, parece que o Lula, notório corintiano, pediu “uma força” pra Odebrecht pra sair esse estádio. Pedir uma força pode não ser crime, mas não existe almoço grátis, e o Lula deve saber disso. Então, se meter numa dessas assim, com sua sucessão quase garantida, é no mínimo temerário. O pior é que eu acredito muito que tenha sido assim. Não tenho esses preconceitos burgueses contra o Lula, mas tenho lá meu pé atrás. Acho que ele é um fanfarrão, e essa é o tipo de fanfarronice que é a cara dele. Então, dei uma broxada geral. Não queria nem o Lula nem o Corinthians envolvidos com isso. Fiquei com dupla vergonha alheia. E chego no trabalho e minha chefe, conservadora e palmeirense, diz que vão chamar o tal estádio de “Luiz Inácio Lula da Silva”. Argumento pra dizer que ela tá falando bobagem? Não tenho. Se acharem aí, me emprestem, por favor. E eu posso até zoar com marido, dizer que eu sou corintiana como o Lula, e ele palmeirense como o Serra, dizer que minha companhia é melhor, mas não é assim que a banda toca. Como eu disse acima, futebol é paixão – e política, pra mim pelo menos, é razão. Uma razão bem dura, aliás.
Meu consolo é que eu acho a Dilma muito diferente disso. Não se parece em nada com ela esse tipo de coisa. Então eu realmente acho que ela pode ser melhor do que o Lula em muitos aspectos. Que a eleição dele foi importante historicamente e tal eu não tenho dúvida. Mas pra mim, deu. Muita popularidade, muito poder, não sei aonde isso leva. Tem gente que vai chiar, dizer que torce pra ele voltar em 2014, como já ouvi por aí. Eu não. O governo Lula não é só o Lula, a gente tem que lembrar disso. A gente não precisa dele no poder pra garantir nada de bom do que foi feito - e nossa democracia só vai estar madura quando isso estiver claro. Ele tem qualidades inegáveis, mas não quero esse super líder populista. Não quero um mito. Tá bom assim, já.
Daí eu lembrei que uns dias atrás eu falei por telefone com meu melhor amigo, que tá envolvido com o PSOL. E foi muito legal a conversa. Marido tinha aberto um vinho, mas ficou pacientemente me olhando e esperando a ligação terminar pra conversarmos, porque ele sabia que eu ia vir com boas observações. E como a gente sabe que tem a Reinaldos Azevedos e Mainardis por aí, trabalha em multinacional com coleguinhas reaças, fica achando que é de esquerda. Mas meu amigo veio, me deu um safanão e me mostrou que eu, na verdade, tô na centro-esquerda. E eu tinha perdido isso de vista mesmo, sabem? E na conversa com ele surgiu uma série de pontos importantes. Que as pessoas estão comprando TV de plasma, mas não têm atendimento médico decente. Que se gasta mais com comida, comprando supérfluos, mas as pessoas estão ficando obesas e subnutridas ao mesmo tempo. Isso porque a gente nem falou do saneamento, esse horror. Enfim, uma série de críticas que precisam ser feitas, que precisam ser ouvidas. Mas meu amigo faz de um ponto de vista marxista com o qual meu discurso já não se afina. Além disso, devo admitir que tenho imensa preguiça de um partido pequeno e já rachado. Se não conseguem se entender entre os próprios quadros, como esperam administrar esse país tão grande? Mas ainda assim, tendo a votar no PSOL no legislativo, porque ando com sede de oposição bem fundamentada. Acho indispensável pra democracia essa oposição tomar corpo pra ontem, viu? Se até o Serra tá tentando convencer a gente que não é oposição, é porque tem um discurso único aí que não é bacana. Longe de ser ameaçador porque a imprensa trata de malhar bastante o governo. Mas que a falta de críticas construtivas é um problema, isso é.
***
No mais: TIMÃO-Ê-Ô, TIMÃO-Ê-Ô! \o/
***
Então vem o lance do estádio. A Mary W postou aqui. E eu acho que ela tem razão em se indignar. É o seguinte: pra quem ainda não sabe, parece que o Lula, notório corintiano, pediu “uma força” pra Odebrecht pra sair esse estádio. Pedir uma força pode não ser crime, mas não existe almoço grátis, e o Lula deve saber disso. Então, se meter numa dessas assim, com sua sucessão quase garantida, é no mínimo temerário. O pior é que eu acredito muito que tenha sido assim. Não tenho esses preconceitos burgueses contra o Lula, mas tenho lá meu pé atrás. Acho que ele é um fanfarrão, e essa é o tipo de fanfarronice que é a cara dele. Então, dei uma broxada geral. Não queria nem o Lula nem o Corinthians envolvidos com isso. Fiquei com dupla vergonha alheia. E chego no trabalho e minha chefe, conservadora e palmeirense, diz que vão chamar o tal estádio de “Luiz Inácio Lula da Silva”. Argumento pra dizer que ela tá falando bobagem? Não tenho. Se acharem aí, me emprestem, por favor. E eu posso até zoar com marido, dizer que eu sou corintiana como o Lula, e ele palmeirense como o Serra, dizer que minha companhia é melhor, mas não é assim que a banda toca. Como eu disse acima, futebol é paixão – e política, pra mim pelo menos, é razão. Uma razão bem dura, aliás.
Meu consolo é que eu acho a Dilma muito diferente disso. Não se parece em nada com ela esse tipo de coisa. Então eu realmente acho que ela pode ser melhor do que o Lula em muitos aspectos. Que a eleição dele foi importante historicamente e tal eu não tenho dúvida. Mas pra mim, deu. Muita popularidade, muito poder, não sei aonde isso leva. Tem gente que vai chiar, dizer que torce pra ele voltar em 2014, como já ouvi por aí. Eu não. O governo Lula não é só o Lula, a gente tem que lembrar disso. A gente não precisa dele no poder pra garantir nada de bom do que foi feito - e nossa democracia só vai estar madura quando isso estiver claro. Ele tem qualidades inegáveis, mas não quero esse super líder populista. Não quero um mito. Tá bom assim, já.
Daí eu lembrei que uns dias atrás eu falei por telefone com meu melhor amigo, que tá envolvido com o PSOL. E foi muito legal a conversa. Marido tinha aberto um vinho, mas ficou pacientemente me olhando e esperando a ligação terminar pra conversarmos, porque ele sabia que eu ia vir com boas observações. E como a gente sabe que tem a Reinaldos Azevedos e Mainardis por aí, trabalha em multinacional com coleguinhas reaças, fica achando que é de esquerda. Mas meu amigo veio, me deu um safanão e me mostrou que eu, na verdade, tô na centro-esquerda. E eu tinha perdido isso de vista mesmo, sabem? E na conversa com ele surgiu uma série de pontos importantes. Que as pessoas estão comprando TV de plasma, mas não têm atendimento médico decente. Que se gasta mais com comida, comprando supérfluos, mas as pessoas estão ficando obesas e subnutridas ao mesmo tempo. Isso porque a gente nem falou do saneamento, esse horror. Enfim, uma série de críticas que precisam ser feitas, que precisam ser ouvidas. Mas meu amigo faz de um ponto de vista marxista com o qual meu discurso já não se afina. Além disso, devo admitir que tenho imensa preguiça de um partido pequeno e já rachado. Se não conseguem se entender entre os próprios quadros, como esperam administrar esse país tão grande? Mas ainda assim, tendo a votar no PSOL no legislativo, porque ando com sede de oposição bem fundamentada. Acho indispensável pra democracia essa oposição tomar corpo pra ontem, viu? Se até o Serra tá tentando convencer a gente que não é oposição, é porque tem um discurso único aí que não é bacana. Longe de ser ameaçador porque a imprensa trata de malhar bastante o governo. Mas que a falta de críticas construtivas é um problema, isso é.
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No mais: TIMÃO-Ê-Ô, TIMÃO-Ê-Ô! \o/
domingo, 29 de agosto de 2010
Natureza, essa sacana
Eu queria ter feito um monte de coisas na semana que passou. Queria ter rendido mais no trabalho, ter lido o meu livro que jaz empacado, queria ter feito pelo menos uns 2 posts. Queria. Mas fui atropelada por uma TPM horrorosa. Uma das piores da minha vida.
Eu não costumo sofrer muito com TPM. O normal são uns 2 ou 3 dias meio resmungona, uma barra de chocolate devorada sem dó em algum momento, um pouco de enxaqueca na véspera (nada que um analgésico não resolva), e um pouco de cólica no dia que a menstruação chega. Mas notem só: sofrer pouco já é um conjunto de sintomas desagradáveis. Eles não chegam a paralizar minha vida, só tornam as coisas mais lentas um pouco, essa é minha referência pra dizer que é leve. Há meses até em que as coisas são bem tranquilas, e eu só lembro que vou ficar menstruada por conta de um outro sintoma que eu não mencionei acima: gases. Daí que eu arroto (desculpem as mais sensíveis), penso "nossa, o que eu comi pra arrotar assim?", e lembro que vou ficar menstruada dali há dois dias.
Já este mês a coisa foi punk-hardcore. Achei que eu não chegaria empregada e casada até o final da semana. Pra manter o casamento, fiquei sem falar com o marido dois dias, porque eu estava irritada por uma coisa pequena, mas sabia que se eu o abordasse, ia superdimensionar e me arrepender depois. Então, eu tenho a vantagem de ter essa lucidez, pelo menos. Eu sei que não estou no meu estado normal. O que não significa conseguir reverter isso, em absoluto. E o trabalho? Já falei que eu não amo de paixão meu trabalho, mas ele é ok. Essa semana fiquei o tempo todo pensando "deu. deu muito. não aguento mais essa merda, vou fugir daqui agora, etc". Na quarta-feira foi o auge. Às 4 da tarde eu queria morrer. Não tô exagerando, eu realmente queria morrer pra parar de sofrer. E tenho uma amiga querida que sofre horrores com TPM. Todo mês fica mais de 10 dias bem mal. Toma até antidepressivo, uma coisa horrorosa. Vem a menstruação e ela melhora. Na quarta eu mandei um e-mail pra ela dizendo que ela merece ser canonizada, porque não sei se suportaria, todo mês, uma semana ou mais, me sentindo como estava na quarta-feira.
Passada a crise, fiquei pensando na carga de sofrimento que nos é imposta pela natureza. Porque isso não é social. O estresse pode até ser piorado pelo estilo de vida e tal. Mas quem não tem nada de TPM também fica dias ali, sangrando. E pra que isso nos serve? A nós mulheres, como indivíduos, nada. Serve à reprodução da espécie. Se eu não tiver filhos, nada disso terá me valido de nada. Daí a religião teve que inventar a Eva, pra justificar essa injustiça natural. Porque a religiao também serve pra isso, justificar o injustificável. E toda a mitologia que constroem sobre o nosso corpo. Tipo, o útero. Não tem outra função a não ser abrigar um bebê. Minha mãe teve de tirá-lo há alguns anos. E o médico preocupado que ela não ficasse ouvindo conversa de que "você vai sentir um vazio", "vai ficar fria", porque não tem absolutamente nada a ver. E ela já tinha dois filhos, não ia ter outros, e tirou, não faz falta alguma. Fora o momento da reprodução, o útero é como o apêndice, só serve pra te dar problema.
Conversei com o marido depois. Ele no começo ficou preocupado, depois bem sensibilizado. E é chato, porque eu agradeço a ele pela paciência, claro, mas me revolto porque não fui eu que exigi essa paciência dele. Não foi voluntário, em absoluto. Eu não escolhi negligenciá-lo a semana toda. Eu tava lá, sofrendo, querendo morrer.
Passou. Sexta a gente ficou discutindo sobre os medicamentos, a discussão do livro da Preciado. Porque eu parei de tomar pílula, um pouco pra desintoxicar o organismo de hormônios. E, sem ela, parece que tudo piora um pouco. Na adolescência, eu cheguei a desmaiar de tanta dor por conta das cólicas. Acreditem, eu sou uma mulher durona e resistente, pra eu desabar é porque a coisa tá muito feia. Fiz vários exames, nada de errado comigo. Dores horrorosas mesmo estando saudável. Minhas cólicas incapacitantes só melhoraram depois da pílula (hoje a dor é leve, mesmo sem tomar pílula, porque parece que a idade faz diferença nisso). Então eu acho que a gente pode criticar os excessos, mas os remédios são muito úteis. Ficar pregando essa coisa super naturalista é atraso. Eu não quero suportar a dor, quero é uma Neosaldina, porra!
E, bom, a diferença, né? Porque tem que ser levada em conta. Eu tô aí, fazendo um esforço pra entender mais sobre feminismo. E lembrei sobre o debate sobre se vale ou não a pena menstruar. De como eu fico dividida. Porque, por um lado, acho realmente assustador querer suprimir tudo o que parece desagradável. Tem o medo da intolerância: se a possibilidade de não menstruar se generaliza, temo uma menor tolerância ao sofrimento de quem, legitimamente, escolhe continuar menstruando. Por outro lado, que semana de merda eu tive. A natureza tá me devendo uma, onde eu cobro?
Eu não costumo sofrer muito com TPM. O normal são uns 2 ou 3 dias meio resmungona, uma barra de chocolate devorada sem dó em algum momento, um pouco de enxaqueca na véspera (nada que um analgésico não resolva), e um pouco de cólica no dia que a menstruação chega. Mas notem só: sofrer pouco já é um conjunto de sintomas desagradáveis. Eles não chegam a paralizar minha vida, só tornam as coisas mais lentas um pouco, essa é minha referência pra dizer que é leve. Há meses até em que as coisas são bem tranquilas, e eu só lembro que vou ficar menstruada por conta de um outro sintoma que eu não mencionei acima: gases. Daí que eu arroto (desculpem as mais sensíveis), penso "nossa, o que eu comi pra arrotar assim?", e lembro que vou ficar menstruada dali há dois dias.
Já este mês a coisa foi punk-hardcore. Achei que eu não chegaria empregada e casada até o final da semana. Pra manter o casamento, fiquei sem falar com o marido dois dias, porque eu estava irritada por uma coisa pequena, mas sabia que se eu o abordasse, ia superdimensionar e me arrepender depois. Então, eu tenho a vantagem de ter essa lucidez, pelo menos. Eu sei que não estou no meu estado normal. O que não significa conseguir reverter isso, em absoluto. E o trabalho? Já falei que eu não amo de paixão meu trabalho, mas ele é ok. Essa semana fiquei o tempo todo pensando "deu. deu muito. não aguento mais essa merda, vou fugir daqui agora, etc". Na quarta-feira foi o auge. Às 4 da tarde eu queria morrer. Não tô exagerando, eu realmente queria morrer pra parar de sofrer. E tenho uma amiga querida que sofre horrores com TPM. Todo mês fica mais de 10 dias bem mal. Toma até antidepressivo, uma coisa horrorosa. Vem a menstruação e ela melhora. Na quarta eu mandei um e-mail pra ela dizendo que ela merece ser canonizada, porque não sei se suportaria, todo mês, uma semana ou mais, me sentindo como estava na quarta-feira.
Passada a crise, fiquei pensando na carga de sofrimento que nos é imposta pela natureza. Porque isso não é social. O estresse pode até ser piorado pelo estilo de vida e tal. Mas quem não tem nada de TPM também fica dias ali, sangrando. E pra que isso nos serve? A nós mulheres, como indivíduos, nada. Serve à reprodução da espécie. Se eu não tiver filhos, nada disso terá me valido de nada. Daí a religião teve que inventar a Eva, pra justificar essa injustiça natural. Porque a religiao também serve pra isso, justificar o injustificável. E toda a mitologia que constroem sobre o nosso corpo. Tipo, o útero. Não tem outra função a não ser abrigar um bebê. Minha mãe teve de tirá-lo há alguns anos. E o médico preocupado que ela não ficasse ouvindo conversa de que "você vai sentir um vazio", "vai ficar fria", porque não tem absolutamente nada a ver. E ela já tinha dois filhos, não ia ter outros, e tirou, não faz falta alguma. Fora o momento da reprodução, o útero é como o apêndice, só serve pra te dar problema.
Conversei com o marido depois. Ele no começo ficou preocupado, depois bem sensibilizado. E é chato, porque eu agradeço a ele pela paciência, claro, mas me revolto porque não fui eu que exigi essa paciência dele. Não foi voluntário, em absoluto. Eu não escolhi negligenciá-lo a semana toda. Eu tava lá, sofrendo, querendo morrer.
Passou. Sexta a gente ficou discutindo sobre os medicamentos, a discussão do livro da Preciado. Porque eu parei de tomar pílula, um pouco pra desintoxicar o organismo de hormônios. E, sem ela, parece que tudo piora um pouco. Na adolescência, eu cheguei a desmaiar de tanta dor por conta das cólicas. Acreditem, eu sou uma mulher durona e resistente, pra eu desabar é porque a coisa tá muito feia. Fiz vários exames, nada de errado comigo. Dores horrorosas mesmo estando saudável. Minhas cólicas incapacitantes só melhoraram depois da pílula (hoje a dor é leve, mesmo sem tomar pílula, porque parece que a idade faz diferença nisso). Então eu acho que a gente pode criticar os excessos, mas os remédios são muito úteis. Ficar pregando essa coisa super naturalista é atraso. Eu não quero suportar a dor, quero é uma Neosaldina, porra!
E, bom, a diferença, né? Porque tem que ser levada em conta. Eu tô aí, fazendo um esforço pra entender mais sobre feminismo. E lembrei sobre o debate sobre se vale ou não a pena menstruar. De como eu fico dividida. Porque, por um lado, acho realmente assustador querer suprimir tudo o que parece desagradável. Tem o medo da intolerância: se a possibilidade de não menstruar se generaliza, temo uma menor tolerância ao sofrimento de quem, legitimamente, escolhe continuar menstruando. Por outro lado, que semana de merda eu tive. A natureza tá me devendo uma, onde eu cobro?
domingo, 22 de agosto de 2010
Do pesar e da indignação
Daí na sexta-feira, tarde da noite, eu entrei na internet e vi que a esposa do Dado Dolabella entrou com uma medida cautelar pro cara sair de casa, alegando que estava apanhando dele. E fiquei muito triste por ela. Pensei que tem uma galera que vai julgar, porque quando ela o conheceu já era notório que ele tinha batido na Luana Piovani. Que ela deveria saber, que foi burra de ter escolhido ficar com um cara assim, etc, etc. Mas não é assim que a banda toca. O cara pode tê-la convencido que o lance com a Luana foi um mal-entendido. Afinal, como a Luana é grandona, namoradeira e arrogante, ela não se encaixa no perfil da vítima coitadinha no imaginário coletivo. Por isso foi tão importante ela ter denunciado, pra todo mundo ter certeza de que mesmo mulheres ricas e independentes podem sofrer abusos.E a condenação do Dado pelo caso da Luana pode ter dado forças à esposa pra finalmente dar um basta.
Milhares de mulheres apanham dos seus companheiros todos os dias. Mulheres das mais variadas idades, classe sociais, níveis de escolariade. Nem posso imaginar a força necessária pra dar conseguir virara mesa e superar um drama desses num mundo machista como o nosso. Imagino a vergonha do (suposto) fracasso. A primeira vez que o cara bate. A esposa do Dado acreditou no cara, achou que a história dela ia ser diferente, e um dia ela levou o primeiro tapa. Aquele que mostrou que ele não era digno de sua confiança, que ela tinha caído numa armadilha. Eu escrevo isso e me dói, me dá vontade de ir correndo dar um abraço nessa moça, em toda mulher que passe por algo parecido.
Comentando com amigos num bar ontem, uma das presentes contou que isso já aconteceu com ela, de apanhar do companheiro e ter medo de ir embora por conta das ameaças. Que, pra resolver, mudou de emprego e de bairro. Mas que a avó dela não teva a mesma sorte. Essa avó, depois de apanhar por 18 anos de um companheiro - que a certa altura já era ex, mas invadia a casa dela com frequencia para agredi-la - depois de registar inúmeros boletins de ocorrência sem nenhum efeito, um dia, aos 62 anos de idade, matou o infeliz. Ficou 1 ano presa e conseguiu ser absolvida por legítima defesa. Imaginam a merda? Ir pra cadeia porque a incompetência do Estado fez com que ela se transformasse de vítima em ré.
Todo mundo conhece uma história dessas. A Mari Biddle postou essa aqui outro dia. E sabe, as pessoas muitas vezes relacionam isso ao alcoolismo. E o alcoolismo é parte da questão, claro, mas tá cheio que caras que batem na mulher de cara limpa, e caras que enchem a cara e não batem em ninguém. O vizinho dos meus pais é alcólatra. A gente ouvia quando ele chegava em casa bêbado e quebrava os móveis da casa. Ele e a mulher gritavam um com o outro, mas ele não batia nela. Dizia coisas horríveis, ela respondia, a gente fica tenso ouvindo, mas não batia. Não tô dizendo que agressão física é a única forma possível de violência, mas a gente nunca sentiu que a vida dela estava em risco. O cara hoje parou de beber e parece que eles vivem em relativa harmonia. Minha mãe tem uma amiga cujo o marido chegava bêbado em casa com flores roubadas do quintal dos vizinhos e passava o resto da noite chorando, envergonhado do vício. Os filhos de saco cheio já, falavam pra mãe largar o pai, que ele era um pinguço sem salvação, mas ela continuou, o cara entrou no AA, e hoje eles vivem bem. Quer dizer, quando o problema é só o álcool, acho até que pode haver, depois de muita luta, um final feliz independente da separação. Mas não consigo ver final feliz ao lado de um agressor. Na minha cabeça, "ele parou de beber, e eles viveram bem depois disso" é algo possível. Mas "ele parou de espancá-la e ficou tudo bem", não é. Porque eu acho que a violência doméstica não tem nada de inconsciente. Não dá pra colocar a culpa na cachaça e condenar a mulher que casou com o cachaceiro. Não dá pra colocar a culpa na mulher nunca, aliás.
Então, toda a minha solidariedade vai pra esposa do Dado, independente dela ter acreditado nele, dela provavelmente não ter se solidarizado com a violência sofrida pela Luana Piovani. Nada disso minimiza a dor da agressão. Ela não apanhou porque acreditou no marido: apanhou porque o marido é violento. A violência não acaba se "as mulheres escolherem melhor seus companheiros", como tem gente que gosta de dizer por aí. A violência para quando o agressor para de agredir.
Update: depois de publicar este post, vi que a Vanessa publicou esse, sobre o mesmo tema. E me lembrei que sexta-feira completou 10 anos que o Pimenta Neves matou a Sandra Gomide e o cara continua aí impune. E o pai dela falou da dor de sentir que vai morrer sem ver o assassino da filha cumprir pena. Nossa sexta-feira foi, simbolicamente, um dia especialmente triste.
Milhares de mulheres apanham dos seus companheiros todos os dias. Mulheres das mais variadas idades, classe sociais, níveis de escolariade. Nem posso imaginar a força necessária pra dar conseguir virara mesa e superar um drama desses num mundo machista como o nosso. Imagino a vergonha do (suposto) fracasso. A primeira vez que o cara bate. A esposa do Dado acreditou no cara, achou que a história dela ia ser diferente, e um dia ela levou o primeiro tapa. Aquele que mostrou que ele não era digno de sua confiança, que ela tinha caído numa armadilha. Eu escrevo isso e me dói, me dá vontade de ir correndo dar um abraço nessa moça, em toda mulher que passe por algo parecido.
Comentando com amigos num bar ontem, uma das presentes contou que isso já aconteceu com ela, de apanhar do companheiro e ter medo de ir embora por conta das ameaças. Que, pra resolver, mudou de emprego e de bairro. Mas que a avó dela não teva a mesma sorte. Essa avó, depois de apanhar por 18 anos de um companheiro - que a certa altura já era ex, mas invadia a casa dela com frequencia para agredi-la - depois de registar inúmeros boletins de ocorrência sem nenhum efeito, um dia, aos 62 anos de idade, matou o infeliz. Ficou 1 ano presa e conseguiu ser absolvida por legítima defesa. Imaginam a merda? Ir pra cadeia porque a incompetência do Estado fez com que ela se transformasse de vítima em ré.
Todo mundo conhece uma história dessas. A Mari Biddle postou essa aqui outro dia. E sabe, as pessoas muitas vezes relacionam isso ao alcoolismo. E o alcoolismo é parte da questão, claro, mas tá cheio que caras que batem na mulher de cara limpa, e caras que enchem a cara e não batem em ninguém. O vizinho dos meus pais é alcólatra. A gente ouvia quando ele chegava em casa bêbado e quebrava os móveis da casa. Ele e a mulher gritavam um com o outro, mas ele não batia nela. Dizia coisas horríveis, ela respondia, a gente fica tenso ouvindo, mas não batia. Não tô dizendo que agressão física é a única forma possível de violência, mas a gente nunca sentiu que a vida dela estava em risco. O cara hoje parou de beber e parece que eles vivem em relativa harmonia. Minha mãe tem uma amiga cujo o marido chegava bêbado em casa com flores roubadas do quintal dos vizinhos e passava o resto da noite chorando, envergonhado do vício. Os filhos de saco cheio já, falavam pra mãe largar o pai, que ele era um pinguço sem salvação, mas ela continuou, o cara entrou no AA, e hoje eles vivem bem. Quer dizer, quando o problema é só o álcool, acho até que pode haver, depois de muita luta, um final feliz independente da separação. Mas não consigo ver final feliz ao lado de um agressor. Na minha cabeça, "ele parou de beber, e eles viveram bem depois disso" é algo possível. Mas "ele parou de espancá-la e ficou tudo bem", não é. Porque eu acho que a violência doméstica não tem nada de inconsciente. Não dá pra colocar a culpa na cachaça e condenar a mulher que casou com o cachaceiro. Não dá pra colocar a culpa na mulher nunca, aliás.
Então, toda a minha solidariedade vai pra esposa do Dado, independente dela ter acreditado nele, dela provavelmente não ter se solidarizado com a violência sofrida pela Luana Piovani. Nada disso minimiza a dor da agressão. Ela não apanhou porque acreditou no marido: apanhou porque o marido é violento. A violência não acaba se "as mulheres escolherem melhor seus companheiros", como tem gente que gosta de dizer por aí. A violência para quando o agressor para de agredir.
Update: depois de publicar este post, vi que a Vanessa publicou esse, sobre o mesmo tema. E me lembrei que sexta-feira completou 10 anos que o Pimenta Neves matou a Sandra Gomide e o cara continua aí impune. E o pai dela falou da dor de sentir que vai morrer sem ver o assassino da filha cumprir pena. Nossa sexta-feira foi, simbolicamente, um dia especialmente triste.
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
A quem interessar possa
Então. É polêmico esse negócio, que eu sei. Mas eu vou comprar a Playboy da Cléo Pires porque eu acho que deve estar linda.
Não tenho nada contra a idéia de uma mulher posar nua. Nada contra imagens de corpos nus, nem mesmo nada contra a pornografia. Eu sei que a pornografia, por vezes, reproduz discursos machistas. Mas eu não acho que ela, em si, seja machista. A pornografia é a exposição explícita de sexualidade. Isso, isoladamente, não é machista, ao meu ver. Volto a dizer que, obviamente, tem representações pra todos os gostos, e muitos deles são muito machistas. Talvez a maioria, até. Mas eu não desqualificaria o resto nem por conta desta (suposta) maioria. A Beatriz Preciado conta em seu livro que houve, acho que no Canadá, uma articulação do movimento feminista pra censurar publicações pornográficas. E a primeira a ser censurada pela lei foi uma revista pornográfica lésbica. Quer dizer, é feita pra agradar a sexualidade feminina, mas não pode? Tremendo tiro no pé, na minha opinião, tal como o fechamento dos cares de strip na Islândia, como a Lu contou. Eu acho realmente temerário quando o discurso feminista coincide com o religioso. Agora, eu não tenho nada contra, mas não gosto do sexo explícito. Sei lá, aversão estética. Estética, e não moral. Acho cafona. Sério, acho cafona. Já erotismo eu acho lindo. Tipo, fotos bem produzidas, bons fotógrafos e tal. E a revista da Cléo parece que está assim.
Mas eu continuo me justificando aqui porque eu problematizo a questão, claro. Tem um lance, que eu acho que flerta com o abuso, da celebridade dizer que foi difícil, que teve que beber pra relaxar. E daí eu acho muito trash, porque parece mesmo o fetiche da humilhação, usar o poder da grana pra submeter uma mulher em escala macro. Tipo, você tá com vergonha, mas abaixa aí a calcinha que eu tô pagando. E, lógico, acho horrível essa idéia. Entendo claramente que, desse jeito, é sim muito machista. Mas a fotografada deste mês disse que A-DO-ROU posar. Que se descobriu exibicionista. Que teve a maior dificuldade de escolher as fotos da revista porque, por ela, publicava todas, achou tudo o máximo. Em outra entrevista li que a vó deu apoio, dizendo que na época dela levava puxão de orelha da professora porque subia a saia e mostrava a canela, então o fato de uma mulher poder posar nua é algo a ser celebrado. E essa discurso só me deu mais vontade de ver o resultado, porque tudo parece feito com muito prazer. Há uma troca clara aí, não uma submissão: o prazer dela em ser vista, e o do público em ver. E pra mim, quando há essa troca, há o livre exercício da autonomia. Não vejo machismo mesmo.
Daí alguém me diz que o problema da Playboy é que dá a entender que só aquele tipo de corpo é desejável. A questão da falta da representatividade da diferença. Que é real, claro, mas não é exclusiva da Playboy. A grande mídia, de maneira geral, não prima pela diversidade mesmo. Por sorte, temos a internet como espaço pra circular outros modelos. Eu gosto muito desse tumblr: (cuidado ao abrir). Não só porque nele eu me sinto bem representada (eu sou do tamanho das fotografadas ;-)), mas porque as fotos são mesmo muito bacanas. Para meu gosto, claro. E tem o que a Aline apresentou, o adipostivity. Quer dizer a internet dá esse poder, dá gente ter acesso a outras coisas. Ok, fica uma coisa meio underground. O mainstream é a Playboy mesmo. Mas não é porque ela é o mainstream que aquela representação não é legítima. Eu me acho linda (é, modéstia passa longe aqui). E acho a Cléo linda. E, claro, não é culpa dela se a Playboy quer mulheres do tamanho dela, mas não do meu.
Mas aí tem a questão do olhar objetificador. E eu não acho que achar um corpo sexualmente atraente seja desconsiderar automaticamente o sujeito que ele carrega. A sexualidade faz parte da nossa vida, e a atração física faz parte da sexualidade. Eu acho muitos corpos por aí altamente atraentes. Olha passar, suspiro e, quando faço isso, não estou preocupada com a pessoa que mora naquele corpo. O que não signifia, em absoluto que, se tiver que abordá-la, por qualquer motivo, vou tratá-la como um objeto. Mas, se estou olhando de longe, é só o corpo que me interessa, ué. A mesma coisa se o olhar se voltar pra mim. Sim, eu sou sexualmente atraente. Sim, alguém pode me olhar e só ver um decote, ou uma bunda grande marcando o vestido. E aí? É desrespeito? Quando a gente olha, só vê um corpo, não vê um discurso. E tudo bem. Se, porque eu estou com um decote alguém achar que essa é a senha pra me desrespeitar, o problema é do machista que fez isso, não do meu decote. Eu sei que o mundo é escroto. Que o pessoal acha linda a mulher posando na revista, mas não votaria nela. Ou você é um corpo, ou tem um discurso. Não pode as duas coisas. Essa separação corpo-intelecto pra mim parece herança religiosa do modelo corpo-alma: há que negar um para valorizar o outro. E as pessoas não se dão conta, mas é o mesmíssimo lance da Geyse ou do Taleban: que, pra garantir respeito, há partes do corpo que a mulher não deve mostrar. Eu exijo tudo: o direito de se mostrar e o respeito incondicional. Pra mim, não há meio-termo possível, não há condicional aceitável.
E aí tem o outro discurso que diz que olha, tudo bem, mas quando a Cléo, que é atriz filha de atriz, posa nua, ela vai ser respeitada, mas reforça o machismo de quem tá lá olhando. Ela pode, mas a outra, que não tem o mesmo status, paga o pato. Vamos lá: eu não tenho nada contra dançarina de funk. Nada contra a Mulher Melancia. Dizer que essa mulherada que ganha dinheiro seminua contribui para a idéia que há mulheres que só servem pra isso é repetir o discurso machista com a pretensão de combatê-lo. Seguinte: eu estudei literatura. No meu trabalho, não uso nada do que estudei. Meu trabalho exige muito menos capacidade intelectual do que a que eu tenho (de novo, modéstia aqui tirou férias). Tem gente que acha mesmo que se a pessoa está ali na base, assistente de algo, é porque não tem mesmo potencial pra ser chefe e tals. E eu já tive chefes sem um pingo de cultura: o cara era bom no que ele fazia e só. Por que eu tô nesse trabalho? Porque paga minhas contas. Eu não sei nada sobre ninguém que tá ali posando nua. Nem eu, nem ninguém que se coloca numa posição de julgar. A pessoa pode estar numa condição análoga à minha: usando apenas parte dos recursos que tem pra ganhar dinheiro num mundo em que não necessariamente o mais culto é o mais bem pago, mas todos precisam sobreviver. A diferença é que ser assistente em multinacional é algo que tem algum status no meio onde eu circulo - ser dançarina de funk ou axé, não.
Não tenho essa cegueira de achar que a minha escala de valores é a única válida. E não tenho a pretensão de achar que todo mundo que é esclarecido vai chegar à mesma conclusão que eu sobre algo. Não, né? O mundo é diverso, os pontos de vista também, claro. E eu acho as dançarinas de funk muito cafonas, na verdade. Não, eu não toparia fazer o que faz a Mulher Melancia porque tenho aversão a essa estética funkeira. Mas, como no caso da pornografia, o problema, pra mim, é de gosto mesmo. E o meu gosto pessoal não tem esse poder de desligitimizar nada.
Não tenho nada contra a idéia de uma mulher posar nua. Nada contra imagens de corpos nus, nem mesmo nada contra a pornografia. Eu sei que a pornografia, por vezes, reproduz discursos machistas. Mas eu não acho que ela, em si, seja machista. A pornografia é a exposição explícita de sexualidade. Isso, isoladamente, não é machista, ao meu ver. Volto a dizer que, obviamente, tem representações pra todos os gostos, e muitos deles são muito machistas. Talvez a maioria, até. Mas eu não desqualificaria o resto nem por conta desta (suposta) maioria. A Beatriz Preciado conta em seu livro que houve, acho que no Canadá, uma articulação do movimento feminista pra censurar publicações pornográficas. E a primeira a ser censurada pela lei foi uma revista pornográfica lésbica. Quer dizer, é feita pra agradar a sexualidade feminina, mas não pode? Tremendo tiro no pé, na minha opinião, tal como o fechamento dos cares de strip na Islândia, como a Lu contou. Eu acho realmente temerário quando o discurso feminista coincide com o religioso. Agora, eu não tenho nada contra, mas não gosto do sexo explícito. Sei lá, aversão estética. Estética, e não moral. Acho cafona. Sério, acho cafona. Já erotismo eu acho lindo. Tipo, fotos bem produzidas, bons fotógrafos e tal. E a revista da Cléo parece que está assim.
Mas eu continuo me justificando aqui porque eu problematizo a questão, claro. Tem um lance, que eu acho que flerta com o abuso, da celebridade dizer que foi difícil, que teve que beber pra relaxar. E daí eu acho muito trash, porque parece mesmo o fetiche da humilhação, usar o poder da grana pra submeter uma mulher em escala macro. Tipo, você tá com vergonha, mas abaixa aí a calcinha que eu tô pagando. E, lógico, acho horrível essa idéia. Entendo claramente que, desse jeito, é sim muito machista. Mas a fotografada deste mês disse que A-DO-ROU posar. Que se descobriu exibicionista. Que teve a maior dificuldade de escolher as fotos da revista porque, por ela, publicava todas, achou tudo o máximo. Em outra entrevista li que a vó deu apoio, dizendo que na época dela levava puxão de orelha da professora porque subia a saia e mostrava a canela, então o fato de uma mulher poder posar nua é algo a ser celebrado. E essa discurso só me deu mais vontade de ver o resultado, porque tudo parece feito com muito prazer. Há uma troca clara aí, não uma submissão: o prazer dela em ser vista, e o do público em ver. E pra mim, quando há essa troca, há o livre exercício da autonomia. Não vejo machismo mesmo.
Daí alguém me diz que o problema da Playboy é que dá a entender que só aquele tipo de corpo é desejável. A questão da falta da representatividade da diferença. Que é real, claro, mas não é exclusiva da Playboy. A grande mídia, de maneira geral, não prima pela diversidade mesmo. Por sorte, temos a internet como espaço pra circular outros modelos. Eu gosto muito desse tumblr: (cuidado ao abrir). Não só porque nele eu me sinto bem representada (eu sou do tamanho das fotografadas ;-)), mas porque as fotos são mesmo muito bacanas. Para meu gosto, claro. E tem o que a Aline apresentou, o adipostivity. Quer dizer a internet dá esse poder, dá gente ter acesso a outras coisas. Ok, fica uma coisa meio underground. O mainstream é a Playboy mesmo. Mas não é porque ela é o mainstream que aquela representação não é legítima. Eu me acho linda (é, modéstia passa longe aqui). E acho a Cléo linda. E, claro, não é culpa dela se a Playboy quer mulheres do tamanho dela, mas não do meu.
Mas aí tem a questão do olhar objetificador. E eu não acho que achar um corpo sexualmente atraente seja desconsiderar automaticamente o sujeito que ele carrega. A sexualidade faz parte da nossa vida, e a atração física faz parte da sexualidade. Eu acho muitos corpos por aí altamente atraentes. Olha passar, suspiro e, quando faço isso, não estou preocupada com a pessoa que mora naquele corpo. O que não signifia, em absoluto que, se tiver que abordá-la, por qualquer motivo, vou tratá-la como um objeto. Mas, se estou olhando de longe, é só o corpo que me interessa, ué. A mesma coisa se o olhar se voltar pra mim. Sim, eu sou sexualmente atraente. Sim, alguém pode me olhar e só ver um decote, ou uma bunda grande marcando o vestido. E aí? É desrespeito? Quando a gente olha, só vê um corpo, não vê um discurso. E tudo bem. Se, porque eu estou com um decote alguém achar que essa é a senha pra me desrespeitar, o problema é do machista que fez isso, não do meu decote. Eu sei que o mundo é escroto. Que o pessoal acha linda a mulher posando na revista, mas não votaria nela. Ou você é um corpo, ou tem um discurso. Não pode as duas coisas. Essa separação corpo-intelecto pra mim parece herança religiosa do modelo corpo-alma: há que negar um para valorizar o outro. E as pessoas não se dão conta, mas é o mesmíssimo lance da Geyse ou do Taleban: que, pra garantir respeito, há partes do corpo que a mulher não deve mostrar. Eu exijo tudo: o direito de se mostrar e o respeito incondicional. Pra mim, não há meio-termo possível, não há condicional aceitável.
E aí tem o outro discurso que diz que olha, tudo bem, mas quando a Cléo, que é atriz filha de atriz, posa nua, ela vai ser respeitada, mas reforça o machismo de quem tá lá olhando. Ela pode, mas a outra, que não tem o mesmo status, paga o pato. Vamos lá: eu não tenho nada contra dançarina de funk. Nada contra a Mulher Melancia. Dizer que essa mulherada que ganha dinheiro seminua contribui para a idéia que há mulheres que só servem pra isso é repetir o discurso machista com a pretensão de combatê-lo. Seguinte: eu estudei literatura. No meu trabalho, não uso nada do que estudei. Meu trabalho exige muito menos capacidade intelectual do que a que eu tenho (de novo, modéstia aqui tirou férias). Tem gente que acha mesmo que se a pessoa está ali na base, assistente de algo, é porque não tem mesmo potencial pra ser chefe e tals. E eu já tive chefes sem um pingo de cultura: o cara era bom no que ele fazia e só. Por que eu tô nesse trabalho? Porque paga minhas contas. Eu não sei nada sobre ninguém que tá ali posando nua. Nem eu, nem ninguém que se coloca numa posição de julgar. A pessoa pode estar numa condição análoga à minha: usando apenas parte dos recursos que tem pra ganhar dinheiro num mundo em que não necessariamente o mais culto é o mais bem pago, mas todos precisam sobreviver. A diferença é que ser assistente em multinacional é algo que tem algum status no meio onde eu circulo - ser dançarina de funk ou axé, não.
Não tenho essa cegueira de achar que a minha escala de valores é a única válida. E não tenho a pretensão de achar que todo mundo que é esclarecido vai chegar à mesma conclusão que eu sobre algo. Não, né? O mundo é diverso, os pontos de vista também, claro. E eu acho as dançarinas de funk muito cafonas, na verdade. Não, eu não toparia fazer o que faz a Mulher Melancia porque tenho aversão a essa estética funkeira. Mas, como no caso da pornografia, o problema, pra mim, é de gosto mesmo. E o meu gosto pessoal não tem esse poder de desligitimizar nada.
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
A ideologia e o pragmatismo
Comentário atrasado, mas parece que o Plínio arrasou no debate, né? Assisti só um pouquinho, porque tinha esquecido completamente e tava vendo o futebol. E vi lá a experiência e segurança do Plínio. Parece que ele fez sucesso no twitter depois, trending topics brasil e tal. E criaram lá os #plínioarrudafacts, pra tirar um sarro com o quanto ele é velhinho. Aí rolava uns lances de que ele tem experiência com portos, porque projetou a Arca de Noé, e experiência legislativa, porque tava na comissão que redigiu os 10 mandamentos. Acho que galerinha mais nova nem sabe que o que mais impressiona na experiência do Plínio é um fato bem real: o Ato Institucional nº 1, de 64, cassava os direitos políticos dele - e de outros contemporâneos, claro.
Tenho o maior respeito pelo Plínio. Fui lá fuçar o twitter dele. Achei especialmente sensível por ele, católico praticante, ter muito clara a divisão entre o estado e a fé. Vi lá ele comentando que duas pessoas do mesmo sexo compartilhando a vida constituem uma parceria civil que deveria ser reconhecida pela lei. E eu já tive a oportunidade de conversar com gente muito próxima a ele. Trata-se de um senhor bem conservador quanto à sexualidade dentro de casa: se incomodava com os filhos levarem namoradas para o quarto. Não estamos falando de um libertário, portanto, mas de um senhor de 80 anos que vai à missa aos domingos. O que não o impede de respeitar estilos de vida e convicções diferentes. Acho lindo, e tenho pra mim que o mundo seria um lugar muito mais agradável se houvesse mais gente assim por aí.
O Plínio aproveitou o debate pra marcar suas posições de maneira muito firme, com críticas ácidas a todos os presentes. Sua postura só me faz ter mais certeza de que a oposição séria no Brasil acabou quando o PT virou vidraça, digo, governo. Quer dizer, há oposição séria, como faz o próprio Plínio, mas ela ainda é muito pequena. Eu torço muito pra essa oposição crescer, criar corpo, porque o que não falta é coisa pra se criticar no governo Lula. E crítica de verdade, não discurso preconceituoso. Alguém aí ainda agüenta ouvir gente esperneando pra dizer que o Lula é analfabeto? Cara, que preguiça.
Mas nas considerações finais o Plínio disse que ele representava a divergência, e seus oponentes, a convergência. E puxa, é legal no discurso, mas não é assim que a banda toca. Não dá pra achar que, sendo eleito num cargo executivo, o cara (ou a cara) vai fazer o que quiser ali, porque não vai. Há um legislativo a ser respeitado. E um legislativo cuja importância as pessoas ainda não entederam, então vota-se no Lula pra presidente e num coronel do DEM pra deputado federal e tudo bem. Não sei se eu já disse aqui, mas acho um absurdo tentarem enfiar na nossa cabeça inequações com logaritmos e sairmos da escola sem ter claro pra que serve um senador.
Esta fala do Plínio me fez lembrar de um filme que assisti numa das aulas da pós, e recomendo muito. É a cinebiografia do Celso Furtado, chamada "Um Longo Amanhecer". O Celso Furtado, se alguém por acaso não sabe, foi um grande economista, um homem realmente comprometido com o país. Destacou-se tanto como acadêmico, quanto como político. E há neste filme um depoimento da Maria da Conceição Tavares que me marcou. Ela dizia que é muito diferente o mundo da academia, teórico, da prática política. Que um acadêmico sério pode ser inflexível, mas um bom político jamais. Pra fazer política, é preciso saber ceder, negociar sem abrir mão do essencial. E o Celso Furtado sabia fazer isso muito bem, mas que ela, segundo seu próprio ponto de vista, não. Então, o lugar dela era o da crítica acadêmica. E fazer essa crítica não significa desqualificar o trabalho do outro, pelo contrário - a boa crítica pode enriquecer.
Vejo o Plínio desempenhando um papel importantíssimo: o de criticar. Queria mais forças políticas de esquerda fazendo críticas ao governo, críticas que reverberassem. E por hora, por pragmatismo, eu fico com a continuidade, por que se não está tudo tão lindo quando querem nos fazer crer, está muito melhor que 8 anos trás. Disso eu não tenho dúvida.
Tenho o maior respeito pelo Plínio. Fui lá fuçar o twitter dele. Achei especialmente sensível por ele, católico praticante, ter muito clara a divisão entre o estado e a fé. Vi lá ele comentando que duas pessoas do mesmo sexo compartilhando a vida constituem uma parceria civil que deveria ser reconhecida pela lei. E eu já tive a oportunidade de conversar com gente muito próxima a ele. Trata-se de um senhor bem conservador quanto à sexualidade dentro de casa: se incomodava com os filhos levarem namoradas para o quarto. Não estamos falando de um libertário, portanto, mas de um senhor de 80 anos que vai à missa aos domingos. O que não o impede de respeitar estilos de vida e convicções diferentes. Acho lindo, e tenho pra mim que o mundo seria um lugar muito mais agradável se houvesse mais gente assim por aí.
O Plínio aproveitou o debate pra marcar suas posições de maneira muito firme, com críticas ácidas a todos os presentes. Sua postura só me faz ter mais certeza de que a oposição séria no Brasil acabou quando o PT virou vidraça, digo, governo. Quer dizer, há oposição séria, como faz o próprio Plínio, mas ela ainda é muito pequena. Eu torço muito pra essa oposição crescer, criar corpo, porque o que não falta é coisa pra se criticar no governo Lula. E crítica de verdade, não discurso preconceituoso. Alguém aí ainda agüenta ouvir gente esperneando pra dizer que o Lula é analfabeto? Cara, que preguiça.
Mas nas considerações finais o Plínio disse que ele representava a divergência, e seus oponentes, a convergência. E puxa, é legal no discurso, mas não é assim que a banda toca. Não dá pra achar que, sendo eleito num cargo executivo, o cara (ou a cara) vai fazer o que quiser ali, porque não vai. Há um legislativo a ser respeitado. E um legislativo cuja importância as pessoas ainda não entederam, então vota-se no Lula pra presidente e num coronel do DEM pra deputado federal e tudo bem. Não sei se eu já disse aqui, mas acho um absurdo tentarem enfiar na nossa cabeça inequações com logaritmos e sairmos da escola sem ter claro pra que serve um senador.
Esta fala do Plínio me fez lembrar de um filme que assisti numa das aulas da pós, e recomendo muito. É a cinebiografia do Celso Furtado, chamada "Um Longo Amanhecer". O Celso Furtado, se alguém por acaso não sabe, foi um grande economista, um homem realmente comprometido com o país. Destacou-se tanto como acadêmico, quanto como político. E há neste filme um depoimento da Maria da Conceição Tavares que me marcou. Ela dizia que é muito diferente o mundo da academia, teórico, da prática política. Que um acadêmico sério pode ser inflexível, mas um bom político jamais. Pra fazer política, é preciso saber ceder, negociar sem abrir mão do essencial. E o Celso Furtado sabia fazer isso muito bem, mas que ela, segundo seu próprio ponto de vista, não. Então, o lugar dela era o da crítica acadêmica. E fazer essa crítica não significa desqualificar o trabalho do outro, pelo contrário - a boa crítica pode enriquecer.
Vejo o Plínio desempenhando um papel importantíssimo: o de criticar. Queria mais forças políticas de esquerda fazendo críticas ao governo, críticas que reverberassem. E por hora, por pragmatismo, eu fico com a continuidade, por que se não está tudo tão lindo quando querem nos fazer crer, está muito melhor que 8 anos trás. Disso eu não tenho dúvida.
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
Leituras feministas - Le conflit
A história é assim: eu descobri o blog da Amanda, vendo, não sei onde, um link para este post. E, puxa, além de tudo a Amanda mora na França, então, rolou identificação. Este post dela fala do livro polêmico da não menos polêmica Elisabeth Badinter, "Le conflit - la femme et la mère" (O conflito - a mulher e a mãe). Mandei o link pra minha amiga Ma que mora na França, tem um filho que acabou de completar um ano e havia me confessado que a maternidade era muito mais extenuante do que ela tinha previsto. Minha amiga gostou do debate e resolveu me dar o livro de presente de aniversário. Consegui lê-lo naqueles dias de repouso pós-cirúrgico. A Amanda fez dois posts sobre o tema (outro link aqui), e eu não queria repeti-los, porque acho que debate lá foi bem produtivo, com muitos comentários, e a gente não ganha nada redundando. Mas, como ela mesma colocou, o livro rende muitas discussões, então vou tentar abordar outros aspectos. Vale antes dizer que Badinter parece ser daquelas pessoas que tem gosto pela polêmica, com as quais é impossível a gente com concordar em alguns momentos, mas cujas provocações são interessantíssimas.
Bom, uma questão muito abordada por ela é a da amamentação. De que existe uma pressão enorme para que as mães amamentem, ainda que isso não seja de sua vontade. Taí a Gisele Bündchen que não me deixar mentir. Tô com preguiça de buscar o link, mas a nossa super-super, linda e loira, disse essa semana que deveria haver uma lei que obrigasse as mães a amamentarem seus filhos por 6 meses, no mínimo. Parece que ela se retratou e disse que não queria julgar ninguém. Cê jura, Gisele? Imagina se quisesse, né? Mas então, minha amiga teve seu filho na França e não só não sofreu pressão para amamentar como não teve apoio para fazê-lo. As enfermeiras da maternidade não a ajudaram, ela teve muita dificuldade no começo, o que provavelmente fez com que seu leite diminuísse. E ela se sentiu muito mal por isso. Não só por ter o seu direito desrespeitado, mas por não conseguir fazer o que acreditava ser o melhor pro seu filho. Pra piorar, seu pequeno era intolerante à diversas marcas de leite industrializado. Foram meses muito duros pra ela, e boa parte ela credita a essa diferença cultural. Imagino que aqui a coisa deva ser muito diferente. Não no sentido de orientação e preparo das enfermeiras, mas na cultura que preza a amamentação como obrigatória. O que eu acho disso tudo? Que amamentar deveria ser um direito, não um dever. Como tudo na vida, a gente deveria ter todas as informações disponíveis pra tomar a melhor decisão - e essa decisão é sempre personalizada. Uma coisa que eu acho que a Badinter manda muito bem é em ressaltar a desonestidade intelectual em alguns argumentos pró-amamentação, tipo comparar dados de mortalidade infantil incluindo países paupérrimos e desenvolvidos no mesmo balaio. Por que a qualidade da água, do leite e as condições gerais de higiene são completamente diferentes na França e no Gabão, né?
Minha mãe não pode me amamentar porque quase morreu quando eu nasci. Na época, os chamados leites de substituição eram caríssimos. Devo ter tomado por pouco tempo e logo depois migrado para o leite B de saquinho. E olha só, fui uma criança bem saudável. Segundo minha mãe, meu irmão caçula "não queria mais o peito" depois dos 4 meses. Sei lá porque. Tá aí também. Então, né? Menos. Eu não concordo com o discurso da Badinter que exalta a mamadeira como uma forma de igualdade entre o sexos, porque eu não acho necessário desqualificar qualquer processo biológico para defender a igualdade de direitos, acho até um argumento muito contraproducente. Mas não cabe a ninguém ficar julgando uma mulher por não amamentar, sejam quais forem os seus motivos (né, Gisele?). Porque se a amamentação é importante, ao mesmo tempo está longe de ser imprescindível.
Mas uma outra polêmica da autora, e que eu gostei porque permite filosofar um monte sobre o corpo feminino como campo de disputas políticas, é sobre a gravidez. Nos anos 70, não haviam pesquisas que ligassem o fumo e álcool a problemas com os bebês. Minha sogra é hardcore e fumou nas 3 gestações. E bebeu. Whisky, pra ser mais exata. Estão os três moços filhos dela muito bonitos e saudáveis, obrigada. A louca aqui tá dizendo que todo mundo deve ignorar as pesquisas e fumar e beber loucamente? Não, claro que não. Mas outro dia vi na internet uma foto da atriz Juliana Paes (que pra quem não sabe, está grávida) numa mesa de restaurante esticando o braço pra dar uma bicada no chopp da irmã. E a legenda não deixava barato: não crucificou a moça, mas deu lá um puxãozinho de orelha. Percebem? Se você engravidou, todas as suas vontades ficam condicionadas ao bem supremo do bebê, senão você é uma mãe execrável. Não sou mãe, e imagino que se eu for um dia, vou querer o melhor para o meu filho, lógico. Mas isso significa que se eu tomar uma tacinha de espumante no Reveillón estou comentendo um crime? A OMS recomenda a amamentação até os 2 anos de idade. E também não pode beber enquanto amamenta. 3 anos sem cachaça. Mas que boa mãe quer cachaçar, né? Minhas concunhadas são mães excelentes, mas lembro muito bem de uma delas amamentando a pequena e dizendo "ô tempo, passa logo, porque tô doida por uma gelada!". Não gente, ela não amamentou dois anos. Passada a licença, a mãe voltou a trabalhar, e a pequena foi pra um berçário o dia todo e passou a tomar mamadeira. (Digressão: antes de ver esse caso de perto, eu achava uma tristeza os bebês irem para o berçário antes de completarem 1 ano. Hoje acho que deve ser uma preocupação pra mãe achar um lugar legal, mas se achar, é excelente. Vocês não imaginam como essa menina - que tem 2 anos e meio agora - é feliz, independente e esperta.)
Lá no post da Amanda tem uma mulher que colocou um comentário (na verdade, vários) nessa linha de que é por aí, o bebê em primeiro lugar, escolheu então tem que ser assim, sem nenhuma margem para discussão. E termina com o clássico carioquês (acho que só no Rio falam assim, né?): "não sabe brincar, não desce pro play". E, advinhem? Mais e mais mulheres no mundo escolhem não descer pro play. A teoria do livro é que, como as francesas "brincam" à sua maneira, deixam de amamentar, dão comida industrializada, voltam ao trabalho pouco tempo depois, a imensa maioria delas é ou será mãe. Muitas de mais de 1 criança. Enquanto isso, estima-se que 30% das alemãs não terão filhos. Ok, a raça humana não está correndo risco de extinção, mas eu aposto que o governo alemão se preocupa muito com esta estatística. E apesar de não terem lá a melhor fama do mundo, não me consta que os franceses sejam todos uns doentes, infelizes e sociopatas. Então, essas "mães medíocres", pra usar a expressão da autora, devem ter cumprido suas tarefas direitinho.
Enfim, o livro não é contra os pobres bebezinhos. E, caso alguém desconfie do contrário, eu também não sou. Mas é fundamental que as mães não sejam vistas como egoístas se não estão se portando segundo um ideal social. Aliás, é importante desmontar esse ideal mesmo, porque ele só gera frustrações. Os bebês são seres humanos imperfeitos, filhos de mulheres imperfeitas, nascidos num mundo imperfeito. Se nada nessa relação é perfeita, porque o ônus todo tem que ficar com a mulher, sempre? Porque tudo nela tem que ser renúncia e resignação? Ok, as crianças não pediram pra vir ao mundo e não podem se manifestar. Mas eu tenho certeza que, se pudessem, muitos se horrorizariam com maneira como a sociedade os usa como justificativa pra oprimir suas mamães.
PS, de madrugada: vocês não morrem de vergonha quando, depois do post revisado umas 3 vezes e publicado, vocês encontram vários erros? Muitos deles? Alguns grotescos? Aff!
Bom, uma questão muito abordada por ela é a da amamentação. De que existe uma pressão enorme para que as mães amamentem, ainda que isso não seja de sua vontade. Taí a Gisele Bündchen que não me deixar mentir. Tô com preguiça de buscar o link, mas a nossa super-super, linda e loira, disse essa semana que deveria haver uma lei que obrigasse as mães a amamentarem seus filhos por 6 meses, no mínimo. Parece que ela se retratou e disse que não queria julgar ninguém. Cê jura, Gisele? Imagina se quisesse, né? Mas então, minha amiga teve seu filho na França e não só não sofreu pressão para amamentar como não teve apoio para fazê-lo. As enfermeiras da maternidade não a ajudaram, ela teve muita dificuldade no começo, o que provavelmente fez com que seu leite diminuísse. E ela se sentiu muito mal por isso. Não só por ter o seu direito desrespeitado, mas por não conseguir fazer o que acreditava ser o melhor pro seu filho. Pra piorar, seu pequeno era intolerante à diversas marcas de leite industrializado. Foram meses muito duros pra ela, e boa parte ela credita a essa diferença cultural. Imagino que aqui a coisa deva ser muito diferente. Não no sentido de orientação e preparo das enfermeiras, mas na cultura que preza a amamentação como obrigatória. O que eu acho disso tudo? Que amamentar deveria ser um direito, não um dever. Como tudo na vida, a gente deveria ter todas as informações disponíveis pra tomar a melhor decisão - e essa decisão é sempre personalizada. Uma coisa que eu acho que a Badinter manda muito bem é em ressaltar a desonestidade intelectual em alguns argumentos pró-amamentação, tipo comparar dados de mortalidade infantil incluindo países paupérrimos e desenvolvidos no mesmo balaio. Por que a qualidade da água, do leite e as condições gerais de higiene são completamente diferentes na França e no Gabão, né?
Minha mãe não pode me amamentar porque quase morreu quando eu nasci. Na época, os chamados leites de substituição eram caríssimos. Devo ter tomado por pouco tempo e logo depois migrado para o leite B de saquinho. E olha só, fui uma criança bem saudável. Segundo minha mãe, meu irmão caçula "não queria mais o peito" depois dos 4 meses. Sei lá porque. Tá aí também. Então, né? Menos. Eu não concordo com o discurso da Badinter que exalta a mamadeira como uma forma de igualdade entre o sexos, porque eu não acho necessário desqualificar qualquer processo biológico para defender a igualdade de direitos, acho até um argumento muito contraproducente. Mas não cabe a ninguém ficar julgando uma mulher por não amamentar, sejam quais forem os seus motivos (né, Gisele?). Porque se a amamentação é importante, ao mesmo tempo está longe de ser imprescindível.
Mas uma outra polêmica da autora, e que eu gostei porque permite filosofar um monte sobre o corpo feminino como campo de disputas políticas, é sobre a gravidez. Nos anos 70, não haviam pesquisas que ligassem o fumo e álcool a problemas com os bebês. Minha sogra é hardcore e fumou nas 3 gestações. E bebeu. Whisky, pra ser mais exata. Estão os três moços filhos dela muito bonitos e saudáveis, obrigada. A louca aqui tá dizendo que todo mundo deve ignorar as pesquisas e fumar e beber loucamente? Não, claro que não. Mas outro dia vi na internet uma foto da atriz Juliana Paes (que pra quem não sabe, está grávida) numa mesa de restaurante esticando o braço pra dar uma bicada no chopp da irmã. E a legenda não deixava barato: não crucificou a moça, mas deu lá um puxãozinho de orelha. Percebem? Se você engravidou, todas as suas vontades ficam condicionadas ao bem supremo do bebê, senão você é uma mãe execrável. Não sou mãe, e imagino que se eu for um dia, vou querer o melhor para o meu filho, lógico. Mas isso significa que se eu tomar uma tacinha de espumante no Reveillón estou comentendo um crime? A OMS recomenda a amamentação até os 2 anos de idade. E também não pode beber enquanto amamenta. 3 anos sem cachaça. Mas que boa mãe quer cachaçar, né? Minhas concunhadas são mães excelentes, mas lembro muito bem de uma delas amamentando a pequena e dizendo "ô tempo, passa logo, porque tô doida por uma gelada!". Não gente, ela não amamentou dois anos. Passada a licença, a mãe voltou a trabalhar, e a pequena foi pra um berçário o dia todo e passou a tomar mamadeira. (Digressão: antes de ver esse caso de perto, eu achava uma tristeza os bebês irem para o berçário antes de completarem 1 ano. Hoje acho que deve ser uma preocupação pra mãe achar um lugar legal, mas se achar, é excelente. Vocês não imaginam como essa menina - que tem 2 anos e meio agora - é feliz, independente e esperta.)
Lá no post da Amanda tem uma mulher que colocou um comentário (na verdade, vários) nessa linha de que é por aí, o bebê em primeiro lugar, escolheu então tem que ser assim, sem nenhuma margem para discussão. E termina com o clássico carioquês (acho que só no Rio falam assim, né?): "não sabe brincar, não desce pro play". E, advinhem? Mais e mais mulheres no mundo escolhem não descer pro play. A teoria do livro é que, como as francesas "brincam" à sua maneira, deixam de amamentar, dão comida industrializada, voltam ao trabalho pouco tempo depois, a imensa maioria delas é ou será mãe. Muitas de mais de 1 criança. Enquanto isso, estima-se que 30% das alemãs não terão filhos. Ok, a raça humana não está correndo risco de extinção, mas eu aposto que o governo alemão se preocupa muito com esta estatística. E apesar de não terem lá a melhor fama do mundo, não me consta que os franceses sejam todos uns doentes, infelizes e sociopatas. Então, essas "mães medíocres", pra usar a expressão da autora, devem ter cumprido suas tarefas direitinho.
Enfim, o livro não é contra os pobres bebezinhos. E, caso alguém desconfie do contrário, eu também não sou. Mas é fundamental que as mães não sejam vistas como egoístas se não estão se portando segundo um ideal social. Aliás, é importante desmontar esse ideal mesmo, porque ele só gera frustrações. Os bebês são seres humanos imperfeitos, filhos de mulheres imperfeitas, nascidos num mundo imperfeito. Se nada nessa relação é perfeita, porque o ônus todo tem que ficar com a mulher, sempre? Porque tudo nela tem que ser renúncia e resignação? Ok, as crianças não pediram pra vir ao mundo e não podem se manifestar. Mas eu tenho certeza que, se pudessem, muitos se horrorizariam com maneira como a sociedade os usa como justificativa pra oprimir suas mamães.
PS, de madrugada: vocês não morrem de vergonha quando, depois do post revisado umas 3 vezes e publicado, vocês encontram vários erros? Muitos deles? Alguns grotescos? Aff!
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