Daí que eu tô fazendo essa pós que não tem nada a ver com a minha formação original, Letras, nem com o meu trabalho atual, assistente-de-quase-tudo. E, bom, tem uma monografia pra entregar no final do curso. Só que a avaliação semestral é, justamente, uma parte da monografia. O coordenador do curso diz que se dá por satisfeito se a gente entregar agora, pra esse primeiro semestre, pelo menos uma introdução, contando o que afinal a gente pretende estudar, e uma bibliografia. E, adivinhem? Nem idéia. Quer dizer, eu tenho uma idéia. O curso se chama Economia Urbana e Gestão Pública, então o trabalho tem que tangenciar algum desses aspectos, senão os dois. Eu quero falar de transporte público, acho. Quer dizer, tenho quase certeza. Mas eu não sei exatamente como abordar. E turma criou um documento pra o povo colocar os seus dados e o tema que pretende estudar. E uma colega colocou lá “Mobilidade urbana e política viária” e eu já me achei uma bosta porque só o título do dela já parece mais sério que o meu. É, eu sou tolinha demais, eu sei.
Daí que além de ler “O que é cidade”, da Raquel Rolnik, eu li “O que é Transporte Urbano”, do Charles Leslie Wright (e eu não vou colocar referência bibliográficas aqui porque este não é meu trabalho, nem links porque eu tô com preguiça, mas quem achar interessante vai no google, né? obrigada). E os dois são muito bons, mas o segundo eu achei fantástico. Porque ele começa abordando 10 mitos sobre transportes e já abalou minhas convicções. Porque um dos mitos derrubados é de que o transporte público é a resposta para o problema de transporte nas grandes cidades. E, olha só, eu acreditava nisso, por isso escolhi como tema do trabalho. E claro, o autor disse que o transporte público é importantíssimo, mas ele é só parte da soluão, não A solução.
O autor é entusiasta dos meios não mecânicos de transporte, principalmente da bicicleta. E foi coincidência porque eu li isso bem na semana em que o Valdson comentou aqui num post antigo em que eu me queixava dos transportes públicos, sugerindo que eu usasse bicicleta. Para Wright, a bicicleta é um sucesso por vários fatores, entre eles o fato de você poder levar cargas com ela (é só ter um bom cesto, supermercados fazem entregas grandes assim), não poluir nadica de nada e, olha só, já combater um outro mal moderno: a obesidade. Se a gente se deslocasse por aí pedalando uma hora por dia, ficava mais magrinho sem precisar pagar academia.
Daí eu pensei que, lógico, tem uma boa parte de escolhas individuais aí (e eu te digo que eu não uso bicicleta, mas tento fazer muita coisa a pé), mas falta muita iniciativa do poder público, ô se falta. Pra começar, existe nas grandes cidades uma concentração de postos de trabalho em determinadas regiões. Não tenho as estatísticas (nota mental: isso cabe no trabalho, tenho que pesquisar), mas aqui em São Paulo muita gente trabalha no eixo da Marginal Pinheiros, eu e marido inclusive. A gente escolheu, porque cabe no bolso, morar não muito longe e usar transporte público. Pra isso, pagamos um aluguel bem salgado em troca de qualidade de vida – caminhamos 15 minutos até a estação de trem mais próxima, andamos 4 estações, e no total levamos cerca de 40 minutos por deslocamento – ou 1h20 diárias. Isso em São Paulo é luxo, acreditem. Temos, nós dois, colegas que levam mais de 3 horas diárias dirigindo. E lógico, se estrassando e poluindo o ambiente por tabela. Dá pra todo mundo morar perto do trabalho? Não se o trabalho estiver concentrado em uma só região. Mas seria mais viável se houvesse investimento público para criar um centro corporativo moderno na zona leste, por exemplo. Diariamente, centenas de milhares de pessoas se deslocam da zona leste de São Paulo para trabalhar nas zonas sul e oeste. E Wright tem razão: não tem metrô que dê conta do recado. Nem metrô, nem ônibus fretado, nem via pra passar tanto carro. As pessoas precisam fazer trajetos mais curtos, com urgência.
Outra coisa que me ocorreu outro dia é que o poder público poderia conceder incentivos para empresas que permitem aos seus funcionários trabalharem de casa. O meu caso, como eu já contei, é um pouco mais complicado, mas vários dos meus colegas vão ao escritório pra resolver remotamente problemas de software dos clientes espalhados pela América Latina. E se vão trabalhar remotamente mesmo, que diferença faz fazer isso em casa? Sim, acho que o mínimo de contato com os colegas é importante, mas poderiam ir ao escritório uma vez por semana só. Marido é a mesma coisa. Ele é projetista. Um computador com o software e uma conexão de internet são suficientes pra ele fazer seu trabalho. Sim, de vez em quando tem que tirar dúvidas, mas a maioria um e-mail ou uma conversa telefônica resolveriam. Uma reunião física uma ou duas vezes por semana dava conta do mais complicado. Imaginem quanta gente poderia trabalhar assim? E o ganho para as próprias empresas, em energia elétrica e aluguel? Ok, alguém pode dizer, mas então o empregado é que vai arcar com essa despesa? Não exatamente, né? Porque se ele vai economizar com combustível, estacionamento, ônibus fretado e, principalmente, horas de sono e muita aporrinhação, o benefício compensa 50 pilas a mais na conta de luz.
Enfim. Acho o problema do trânsito (ou da mobilidade, pra falar bonito igual minha colega) super negligenciado, e sempre tratado com olhos conservadores demais. Mais avenidas não resolvem, isso está claro. E esse é um problema que complica a vida de todo mundo: os mais pobres sofrem mais porque vivem mais longe e seu transporte é de pior qualidade, mas a não ser os muito ricos que podem pegar um helicóptero (e acho que mesmo os muito ricos não podem se dar a este luxo todos os dias), todos sofrem com os engarrafamentos, não importa quanto dinheiro tenham. Então, mesmo quem é cabecinha de ostra e acha que só ricos tem direitos e pobre é assim porque não gosta de trabalhar (acho que ninguém passa por aqui, felizmente), há de convir que deste jeito, não dá pra ficar.
Ok. E daí, minha gente, por onde eu começo? :-)
domingo, 6 de junho de 2010
quarta-feira, 2 de junho de 2010
O caso Maristela Just
Outro dia, ouvindo uma mãe chamando a atenção de filha de 7 anos por se sentar de pernas abertas, me lembrei que desde cedo aprendemos como o mundo é machista. Mas Natália Just aprendeu isso talvez ainda mais cedo, e de maneira muito mais pesada. Quando ainda não tinha completado 5 anos, seu pai matou sua mãe. Ela, o irmão mais novo e um tio também foram seriamente feridos na mesma ocasião, mas sobreviveram. E só hoje, 21 anos depois, com a idade que sua mãe tinha quando foi assassinada, pode ver o assassino ser condenado. Em primeira instância ainda, e foragido da justiça.
O julgamento havia sido marcado para o dia 13 de maio, mas diante da ausência do acusado e de sua defesa, teve que ser adiado (ontem o julgamento ocorreu à revelia). E foi nessa época que fiquei sabendo da história pela internet. Fui fuçando na internet e descobri que Natália, que antes evitava se manifestar sobre o assunto publicamente, criou um blog, que hoje atualiza com a ajuda do irmão Zaldo. E lá achei o link para esse depoimento, que me tocou tanto.
Lembram quando eu escrevi aqui sobre justiça? Sobre processo civilizatório ser completamente oposto a linchamento? No depoimento somos apresentados a uma mulher muito forte, centrada e muito humana. Que não perdoa o assassino, mas não busca vingança. Entendemos que deve ter sido uma dor imensurável ter sido privada da mãe, saber que o pai foi o responsável, ter que crescer com isso. E que teve um processo aí, de tomar força de amadurecer, pra conseguir dar conta de se expressar. Como não sentir um profundo respeito por sua história?
Triste é saber que não é exceção. Que há muitos homens atentando contra suas companheiras por aí. Nos jornais aparecem todos os dias. E acho que não é nada difícil conhecer algum caso assim pessoalmente, nem que seja do amigo de um amigo. E rola sempre uma relativização, uma tentiva de atribuir a vítima nem que seja uma parte de sua culpa. Lembram-se do Pimenta Neves, o jornalista que matou a namorada? Na época li em alguns lugares que a vítima, muitos anos mais nova, tinha recebido inúmeras promoções em curto espaço de tempo por se relacionar com um chefão da imprensa e, estando confortavelmente instalada num cargo bom, resolver dar um pé na bunda do cara. No que eu pergunto: o que interessa? Ok, acho que não ia gostar de tê-la como colega de trabalho. Daí a justificar seu assassinato, vai uma enormidade.
Mas sim, as pessoas tentam justificar assassinatos – principalmente quando as vítimas são mulheres. O pai do assassino de Maristela, um advogado criminalista diga-se de passagem, alegou que seu filho agiu em legítima defesa da honra, com se espera de um homem com brio. Pois é. Lembram a história de que homem tem honra, mulher tem vergonha? É isso. Se a gente não tem vergonha, o homem “proprietário” (pode ser pai, marido, ex-marido, ou qualquer um que se julgue no direito) tem que lavar sua honra com sangue. A bárbarie minha gente, sempre ela.
Por isso gostei tanto do depoimento da Natália. Ela não defende a bárbarie. Ela quer a civilização, colocar a cabeça no travesseiro e saber que não vive num mundo em que assassinos transitam por aí impunemente, protegendo-se por trás de um sistema machista. Nisso com certeza estamos juntas.
O julgamento havia sido marcado para o dia 13 de maio, mas diante da ausência do acusado e de sua defesa, teve que ser adiado (ontem o julgamento ocorreu à revelia). E foi nessa época que fiquei sabendo da história pela internet. Fui fuçando na internet e descobri que Natália, que antes evitava se manifestar sobre o assunto publicamente, criou um blog, que hoje atualiza com a ajuda do irmão Zaldo. E lá achei o link para esse depoimento, que me tocou tanto.
Lembram quando eu escrevi aqui sobre justiça? Sobre processo civilizatório ser completamente oposto a linchamento? No depoimento somos apresentados a uma mulher muito forte, centrada e muito humana. Que não perdoa o assassino, mas não busca vingança. Entendemos que deve ter sido uma dor imensurável ter sido privada da mãe, saber que o pai foi o responsável, ter que crescer com isso. E que teve um processo aí, de tomar força de amadurecer, pra conseguir dar conta de se expressar. Como não sentir um profundo respeito por sua história?
Triste é saber que não é exceção. Que há muitos homens atentando contra suas companheiras por aí. Nos jornais aparecem todos os dias. E acho que não é nada difícil conhecer algum caso assim pessoalmente, nem que seja do amigo de um amigo. E rola sempre uma relativização, uma tentiva de atribuir a vítima nem que seja uma parte de sua culpa. Lembram-se do Pimenta Neves, o jornalista que matou a namorada? Na época li em alguns lugares que a vítima, muitos anos mais nova, tinha recebido inúmeras promoções em curto espaço de tempo por se relacionar com um chefão da imprensa e, estando confortavelmente instalada num cargo bom, resolver dar um pé na bunda do cara. No que eu pergunto: o que interessa? Ok, acho que não ia gostar de tê-la como colega de trabalho. Daí a justificar seu assassinato, vai uma enormidade.
Mas sim, as pessoas tentam justificar assassinatos – principalmente quando as vítimas são mulheres. O pai do assassino de Maristela, um advogado criminalista diga-se de passagem, alegou que seu filho agiu em legítima defesa da honra, com se espera de um homem com brio. Pois é. Lembram a história de que homem tem honra, mulher tem vergonha? É isso. Se a gente não tem vergonha, o homem “proprietário” (pode ser pai, marido, ex-marido, ou qualquer um que se julgue no direito) tem que lavar sua honra com sangue. A bárbarie minha gente, sempre ela.
Por isso gostei tanto do depoimento da Natália. Ela não defende a bárbarie. Ela quer a civilização, colocar a cabeça no travesseiro e saber que não vive num mundo em que assassinos transitam por aí impunemente, protegendo-se por trás de um sistema machista. Nisso com certeza estamos juntas.
Desabafo
Olha só, eu sou cliente do mesmo banco há mais de 10 anos. Antes dessa conta, tive uma em outro banco, que me tratou mal e cobrava taxas absurdas. Cancelei. Mas vivemos no mundo maravilhoso do capitalismo e suas fusões e aquisições, e o meu antigo banco comprou o meu atual banco.
Meu atual banco nunca me enviou cartões não solicitados. Lógico, envia aquelas cartinhas oferecendo crédito a juros módicos, me tratando pelo primeiro nome, na maior intimidade, pra tentar me ludibriar e me fazer crer que sou trouxa por não aceitar dinheiro fácil: "Iara, tem 25 mil reais esperando por você!". Aham. Só que cartinha assim a gente nem precisa abrir, né? Pode xingar os caras por aumentar o lixo do planeta, mas fazer o quê?
Hoje cheguei em casa e tinha uma correspondência pra mim do banco (assinada pelo atual e pelo ex que agora é futuro - acompanhou?), sem cara de propaganda, com a senha do "meu" cartão Mastercard. Estranhei e comparei com o Mastercard que eu já tenho - da conta com o marido. Números diferentes. Os infelizes me mandando cartão novo!
Lembrei que recebi uma ligação há uns 10 dias oferecendo um Mastercard. Expliquei que eu tenho um Visa pra conta pessoal e um Master pra conjunta, fora o Amex que fizeram pra mim na única vez que eu viajei a trabalho (e agora você vai achar que eu sou rica, mas eu tenho mais cartão que dinheiro, acredite), e não estou interessada, de maneira nenhuma, em ter outros, obrigada. Mas a correspondência com a senha diz que eu devo recebê-lo em 7 dias.
Daí que eu liguei querendo cancelar. Dificuldade imensa até atender uma pessoa. Cinco minutos tentando decifrar qual dos números me levaria a uma atendente, não a uma gravação. E quando eu consegui fui informada de que eu não posso cancelar o cartão neste momento. Tenho que esperá-lo chegar. Eu não pedi a porra do cartão e tenho que perder tempo e gastar telefone cancelando, senão pago uma tarifa cara por ele. Sim, o Procon proibiu essa palhaçada. Mas cadê que os caras respeitam!
Vou ligar na sexta pra minha gerente quebrando tudo. Se vou.
Ok. Voltamos em instantes com nossa programação normal
Meu atual banco nunca me enviou cartões não solicitados. Lógico, envia aquelas cartinhas oferecendo crédito a juros módicos, me tratando pelo primeiro nome, na maior intimidade, pra tentar me ludibriar e me fazer crer que sou trouxa por não aceitar dinheiro fácil: "Iara, tem 25 mil reais esperando por você!". Aham. Só que cartinha assim a gente nem precisa abrir, né? Pode xingar os caras por aumentar o lixo do planeta, mas fazer o quê?
Hoje cheguei em casa e tinha uma correspondência pra mim do banco (assinada pelo atual e pelo ex que agora é futuro - acompanhou?), sem cara de propaganda, com a senha do "meu" cartão Mastercard. Estranhei e comparei com o Mastercard que eu já tenho - da conta com o marido. Números diferentes. Os infelizes me mandando cartão novo!
Lembrei que recebi uma ligação há uns 10 dias oferecendo um Mastercard. Expliquei que eu tenho um Visa pra conta pessoal e um Master pra conjunta, fora o Amex que fizeram pra mim na única vez que eu viajei a trabalho (e agora você vai achar que eu sou rica, mas eu tenho mais cartão que dinheiro, acredite), e não estou interessada, de maneira nenhuma, em ter outros, obrigada. Mas a correspondência com a senha diz que eu devo recebê-lo em 7 dias.
Daí que eu liguei querendo cancelar. Dificuldade imensa até atender uma pessoa. Cinco minutos tentando decifrar qual dos números me levaria a uma atendente, não a uma gravação. E quando eu consegui fui informada de que eu não posso cancelar o cartão neste momento. Tenho que esperá-lo chegar. Eu não pedi a porra do cartão e tenho que perder tempo e gastar telefone cancelando, senão pago uma tarifa cara por ele. Sim, o Procon proibiu essa palhaçada. Mas cadê que os caras respeitam!
Vou ligar na sexta pra minha gerente quebrando tudo. Se vou.
Ok. Voltamos em instantes com nossa programação normal
segunda-feira, 31 de maio de 2010
Ando devagar porque já tive pressa - ou quem entende a Mafalda?
O stress crônico parece estar sendo controlado, finalmente.
Hoje fui à academia, depois de duas semanas sem dar as caras. Nada contra exercícios, mas eu decidi que não preciso de mais pressão do que a que o mundo já exerce naturalmente sobre mim, obrigada. Então, quando não quiser, não vou. Simples assim.
O dia foi corrido e cheio de trabalho. Mas ainda assim saí de lá inteira - e no horário.
Durante o dia pensei na sopa que eu tinha plajeado fazer, nos legumes que comprei no mercado, no frango que eu tirei do congelador. Como que coroando dias mais tranquilos, minha sopa ficou um espatáculo. Na hora em que provei, antes do marido chegar da faculdade, tive certeza de que tinha ficado sensacional - uma das melhores que eu já fiz. Sabe quando você se alimenta exatamente com a única coisa que você quer naquele momento? Quando nada mais faria sentido? Pois então. Há uns 10 dias que a minha ansiedade tem me feito atacar o pote de nutella sem compaixão todas as noites. Hoje não vai ser assim, porque a minha sopinha já liberou serotonina o suficiente. Comfort food mesmo.
Sou fã da Mafalda , mas nunca pude entender sua resistência obstinada a sopas. A mãe dela devia cozinhar mal. Só isso explica.
Hoje fui à academia, depois de duas semanas sem dar as caras. Nada contra exercícios, mas eu decidi que não preciso de mais pressão do que a que o mundo já exerce naturalmente sobre mim, obrigada. Então, quando não quiser, não vou. Simples assim.
O dia foi corrido e cheio de trabalho. Mas ainda assim saí de lá inteira - e no horário.
Durante o dia pensei na sopa que eu tinha plajeado fazer, nos legumes que comprei no mercado, no frango que eu tirei do congelador. Como que coroando dias mais tranquilos, minha sopa ficou um espatáculo. Na hora em que provei, antes do marido chegar da faculdade, tive certeza de que tinha ficado sensacional - uma das melhores que eu já fiz. Sabe quando você se alimenta exatamente com a única coisa que você quer naquele momento? Quando nada mais faria sentido? Pois então. Há uns 10 dias que a minha ansiedade tem me feito atacar o pote de nutella sem compaixão todas as noites. Hoje não vai ser assim, porque a minha sopinha já liberou serotonina o suficiente. Comfort food mesmo.
Sou fã da Mafalda , mas nunca pude entender sua resistência obstinada a sopas. A mãe dela devia cozinhar mal. Só isso explica.
terça-feira, 25 de maio de 2010
Várias coisas
Meu irmão teve alta hoje, portanto antes do que os médicos tinham previsto anteriormente. \o/ Agradeço mais uma vez a quem se manifestou carinhosamente aqui torcendo por ele. Valeu mesmo.
Uma grande amiga minha se casou no sábado. Daí eu passei a semana envolta em emoções tão opostas que eu tô exausta. Algumas reflexões sobre saúde pública, sobre casamento, idéias pra post. A semana tendo e amadurecendo idéias. Várias coisas mais interessantes que meus devaneios sobre minha vida. Mas quem disse que, nesse momento, depois deste rali emocional, eu sou fisicamente capaz?
Preciso de férias tipo, pra ontem. Tenho 10 dias pra tirar em julho. 7 semanas até lá. Ao contrário do ano passado, em que achei que a sanidade mental não duraria até as férias (eu emendei quase um ano no emprego anterior com o atual, tava há quase 2 anos sem férias), esse ano eu temo pelo físico mesmo. Eu tô podre.
Um caso irônico pra encerrar: eu costumo carregar meu bilhete único quando ainda tenho um pouco de crédito (tão ligadas como funciona o transporte público em São Paulo, né? Você coloca créditos num bilhete magnético e, quando passa a catraca, eles vão sendo descontados). Pelas minhas contas, tava na hora. Saquei R$100,00 pra carregar pro mês. E só depois de sacar tive a brilhante idéia de verificar o saldo da minha conta. Depois de sacar 100, fiquei com 60 negativos. Na hora de carregar, descobri que ainda tinha 16 no cartão, que não é muito, mas era o suficiente pra me locomover até sexta, quando cai o salário. Pensei, ok, meu banco é o tal dos “10 dias sem juros”. Vai rolar só uma cacaquinha de IOF, mas beleza. Nem preciso de dinheiro até sexta-feira mesmo. Daí lembrei que quinta tenho uma consulta médica no meio da manhã. E como eu tô enroladíssima no trabalho, a idéia é voltar de táxi. E o táxi não aceita bilhete único, né? E eu me sinto uma trouxa com 116 reais no cartão e devendo pro banco. E às vezes eu acho que meu mau humor não vai passar nunca...
Uma grande amiga minha se casou no sábado. Daí eu passei a semana envolta em emoções tão opostas que eu tô exausta. Algumas reflexões sobre saúde pública, sobre casamento, idéias pra post. A semana tendo e amadurecendo idéias. Várias coisas mais interessantes que meus devaneios sobre minha vida. Mas quem disse que, nesse momento, depois deste rali emocional, eu sou fisicamente capaz?
Preciso de férias tipo, pra ontem. Tenho 10 dias pra tirar em julho. 7 semanas até lá. Ao contrário do ano passado, em que achei que a sanidade mental não duraria até as férias (eu emendei quase um ano no emprego anterior com o atual, tava há quase 2 anos sem férias), esse ano eu temo pelo físico mesmo. Eu tô podre.
Um caso irônico pra encerrar: eu costumo carregar meu bilhete único quando ainda tenho um pouco de crédito (tão ligadas como funciona o transporte público em São Paulo, né? Você coloca créditos num bilhete magnético e, quando passa a catraca, eles vão sendo descontados). Pelas minhas contas, tava na hora. Saquei R$100,00 pra carregar pro mês. E só depois de sacar tive a brilhante idéia de verificar o saldo da minha conta. Depois de sacar 100, fiquei com 60 negativos. Na hora de carregar, descobri que ainda tinha 16 no cartão, que não é muito, mas era o suficiente pra me locomover até sexta, quando cai o salário. Pensei, ok, meu banco é o tal dos “10 dias sem juros”. Vai rolar só uma cacaquinha de IOF, mas beleza. Nem preciso de dinheiro até sexta-feira mesmo. Daí lembrei que quinta tenho uma consulta médica no meio da manhã. E como eu tô enroladíssima no trabalho, a idéia é voltar de táxi. E o táxi não aceita bilhete único, né? E eu me sinto uma trouxa com 116 reais no cartão e devendo pro banco. E às vezes eu acho que meu mau humor não vai passar nunca...
domingo, 9 de maio de 2010
Sem querer ser piegas... mas talvez sendo
Daí que marido vai ganhar mais um sobrinho ou sobrinha (e eu também por tabela). E rola aquela pergunta de quando daremos nossa contribuição para aumentar a família, ao que respondemos que, por enquanto, não daremos, sorry.
Antes de conhecer meu moço, eu não pensava em ser mãe. Hoje esse não é um assunto decidido, mas posso dizer que boas possibilidades de acontecer no futuro, embora não me pareça essencial para justificar minha passagem pela terra.
Acho que minha relutância vem – além, claro, do feminismo que me faz acreditar que maternidade é escolha e não destino inevitável - da minha relação com minha mãe, nem sempre fácil. Reconheço nela uma generosidade do tamanho do mundo. Porque eu não sou o que ela sonhou pra mim. Minha mãe veio de uma família pobre, sem instrução e muito machista. Para nossa sorte, encontrou meu pai. Ela tinha parado de estudar quando era novinha, porque sua saúde não dava conta de trabalhar de dia e estudar a noite. Quando se casou com meu pai e foi demitida de seu emprego como operária, ele a incentivou a continuar seus estudos. Minha mãe só não fez faculdade porque não se animou: apoio do meu pai nunca faltou. E eu presenciei na infância e na adolescência uma disputa ferrenha entre as idéias arejadas do meu pai e o machismo da minha avó materna, que vivia conosco. Ele achava que minha mãe deveria estudar, ela achava que isso poderia atrapalhar o “andamento da casa”; ele insistiu pra que minha mãe dirigisse, ela tinha tremenda dificuldade em confiar na minha mãe ao volante; ele sempre se ocupou de tarefas domésticas, ela achava que minha mãe deveria se envergonhar por permitir que o marido lavasse um prato; ele só achava que estava sendo um cara razoável, minha avó achava que ele era um semi-deus por ser “bom” com a filha dela. Minha avó já faleceu e eu não quero jogar na conta dela o machismo, de jeito nenhum. Ela também foi educada assim.
Mas meu pai é diferente e os tempos são outros. E pra minha mãe era muito difícil perceber que meu pai não me reprimiria, como normalmente se espera dos pais. Apesar de ter sido adolescente nos anos 70, minha mãe não viveu a revolução sexual. Isso era coisa de moças de classe média e nível universitário. Moças pobres e vindas “da roça” tinham que se casar virgens. Assim foi com a minha ela. E assim ela esperava que tivesse sido comigo, apesar de saber que o mundo tinha mudado muito e minhas perspectivas eram outras. Eu soube por uma tia que minha mãe chorou quando se deu conta de que eu não era virgem mais. Não fui eu que contei, não presenciei a cena, mas conhecendo minha mãe, faz sentido.
Pra resumir, ela teve que aceitar tudo. Que eu não me casaria virgem, que eu não me casaria na igreja, que eu não ficaria em casa até me casar e pior: que eu sequer estaria muito interessada em casamento. Que tinha vontade de ir viver fora do país (e fui!). Que quando eu dizia que ia dormir na casa de uma amiga, talvez eu estivesse passando a noite com um cara que não era importante a ponto de ser apresentado (ela nunca foi boba, sabia bem quando eu estava mentindo). Ela sofreu muito. Sofreu muitíssimo. E eu não alivei nada pra ela me sentindo culpada. Nunca me culpei por ser livre. E ela aprendeu a aceitar.
Ela sofre até hoje. Eu não sou casada, né? Sou de fato, mas não de direito. Daí, quando eu juntei os trapos, ela dizia pras pessoas, principalmente a família machista que “a Iara está casada”. Tipo, repetia, como um mantra. Cada vez que ia lá, contava: "fulano perguntou e eu disse que você está casada". Pra dizer que eu não estava “morando com o namorado”. Nem “amigada”, nem “amaziada”. Eu sou é casada, só não tenho papel. E pra ela é importante. E não me cobra nada, aceitou meu marido, acredito que também muito diferente do genro com o qual sonhava, com um amor imenso. Ele me ama e me faz feliz, pra ela é o suficiente.
Enfim. Eu sei que não é de graça pra ela. Por mais que se diga que “filho a gente tem é pro mundo”, não deve ser nada fácil ver aquele ser nascido de você se tornar alguém muito diferente dos seus sonhos. Amar assim tão desprendidamente, sem fazer cobranças, sem chantagens emocionais, sem reclamar que eu vou mais a casa da sogra do que a dela. Ela transborda generosidade aceitando que eu escolhi meu caminho e continua me amando e repetindo que sente um enorme orgulho de mim. E eu só quero ser mãe se me sentir capaz disso.
Antes de conhecer meu moço, eu não pensava em ser mãe. Hoje esse não é um assunto decidido, mas posso dizer que boas possibilidades de acontecer no futuro, embora não me pareça essencial para justificar minha passagem pela terra.
Acho que minha relutância vem – além, claro, do feminismo que me faz acreditar que maternidade é escolha e não destino inevitável - da minha relação com minha mãe, nem sempre fácil. Reconheço nela uma generosidade do tamanho do mundo. Porque eu não sou o que ela sonhou pra mim. Minha mãe veio de uma família pobre, sem instrução e muito machista. Para nossa sorte, encontrou meu pai. Ela tinha parado de estudar quando era novinha, porque sua saúde não dava conta de trabalhar de dia e estudar a noite. Quando se casou com meu pai e foi demitida de seu emprego como operária, ele a incentivou a continuar seus estudos. Minha mãe só não fez faculdade porque não se animou: apoio do meu pai nunca faltou. E eu presenciei na infância e na adolescência uma disputa ferrenha entre as idéias arejadas do meu pai e o machismo da minha avó materna, que vivia conosco. Ele achava que minha mãe deveria estudar, ela achava que isso poderia atrapalhar o “andamento da casa”; ele insistiu pra que minha mãe dirigisse, ela tinha tremenda dificuldade em confiar na minha mãe ao volante; ele sempre se ocupou de tarefas domésticas, ela achava que minha mãe deveria se envergonhar por permitir que o marido lavasse um prato; ele só achava que estava sendo um cara razoável, minha avó achava que ele era um semi-deus por ser “bom” com a filha dela. Minha avó já faleceu e eu não quero jogar na conta dela o machismo, de jeito nenhum. Ela também foi educada assim.
Mas meu pai é diferente e os tempos são outros. E pra minha mãe era muito difícil perceber que meu pai não me reprimiria, como normalmente se espera dos pais. Apesar de ter sido adolescente nos anos 70, minha mãe não viveu a revolução sexual. Isso era coisa de moças de classe média e nível universitário. Moças pobres e vindas “da roça” tinham que se casar virgens. Assim foi com a minha ela. E assim ela esperava que tivesse sido comigo, apesar de saber que o mundo tinha mudado muito e minhas perspectivas eram outras. Eu soube por uma tia que minha mãe chorou quando se deu conta de que eu não era virgem mais. Não fui eu que contei, não presenciei a cena, mas conhecendo minha mãe, faz sentido.
Pra resumir, ela teve que aceitar tudo. Que eu não me casaria virgem, que eu não me casaria na igreja, que eu não ficaria em casa até me casar e pior: que eu sequer estaria muito interessada em casamento. Que tinha vontade de ir viver fora do país (e fui!). Que quando eu dizia que ia dormir na casa de uma amiga, talvez eu estivesse passando a noite com um cara que não era importante a ponto de ser apresentado (ela nunca foi boba, sabia bem quando eu estava mentindo). Ela sofreu muito. Sofreu muitíssimo. E eu não alivei nada pra ela me sentindo culpada. Nunca me culpei por ser livre. E ela aprendeu a aceitar.
Ela sofre até hoje. Eu não sou casada, né? Sou de fato, mas não de direito. Daí, quando eu juntei os trapos, ela dizia pras pessoas, principalmente a família machista que “a Iara está casada”. Tipo, repetia, como um mantra. Cada vez que ia lá, contava: "fulano perguntou e eu disse que você está casada". Pra dizer que eu não estava “morando com o namorado”. Nem “amigada”, nem “amaziada”. Eu sou é casada, só não tenho papel. E pra ela é importante. E não me cobra nada, aceitou meu marido, acredito que também muito diferente do genro com o qual sonhava, com um amor imenso. Ele me ama e me faz feliz, pra ela é o suficiente.
Enfim. Eu sei que não é de graça pra ela. Por mais que se diga que “filho a gente tem é pro mundo”, não deve ser nada fácil ver aquele ser nascido de você se tornar alguém muito diferente dos seus sonhos. Amar assim tão desprendidamente, sem fazer cobranças, sem chantagens emocionais, sem reclamar que eu vou mais a casa da sogra do que a dela. Ela transborda generosidade aceitando que eu escolhi meu caminho e continua me amando e repetindo que sente um enorme orgulho de mim. E eu só quero ser mãe se me sentir capaz disso.
quinta-feira, 6 de maio de 2010
Várias coisas sobre gênero – ou pensamentos muitos e confusos
Às vezes eu fico pensando se vale a pena fazer um post meio maluco só com associações que passam pela minha cabeça, sem trazer nada novo, não colocar nenhum questão nova, nem chegar a uma conclusão, só com referências externas e links, meio colagem mesmo. Mas, enfim, os macaquinhos tão aqui sapateando, né?
Tô pensando no livro da Beatriz Preciado, que eu ganhei e não li ainda, e na Judith Butler, que eu também não li, e a maneira como (sei de ouvir falar e ler outras coisas por aí), problematizam gênero. E, puxa, muito legal. E um nó. Eu gosto bastante. Porque se você me encontrar na rua vai ter certeza que, por mais que conteste muita coisa, por mais que não corresponda a todos os modelos de vaidade e feminilidade postos, eu sou uma mulher. Mas lembro de já ter sofrido muito por não me encaixar. Nada a ver com transexualidade, nem com homossexualismo sequer. O problema é o modelo cor-de-rosa-Barbie. A passividade. Enfim, muitas coisas. Mas pegava muito no visual mesmo. A coisa da delicadeza, porque eu não sou delicada pra nada nessa vida. Sou carinhosa e tal, mas não delicada. E é por isso que eu pirei lá na Espanha. Lógico que o Almodóvar já tinha me dado uma pista. Mas a coisa foi mais prosaica até: quando eu vi nas lojas as roupas de Flamenco para a “feria” de Málaga. Aqueles babados, aqueles brincos enormes, aquelas cores fortes. É isso, eu sou over. Eu sou pombagira. Depois de ler “Bodas de Sangre”, a noiva se justificando, dizendo que o noivo era um riozinho que não dava conta de apagar seu incêndio, eu pensei: é isso! Eu sou essa mulher.
Mas divago (e este post não é mera divagação?). Eu lembrei disso, dessa questão do problema do gênero, de definição, da dificudade, por algumas razões.
Li outro dia isso. A pessoa que conseguiu um documento escrito “sexo indefinido”. Péssimo estar na página de bizarrices do Globo porque o assunto é muito interessante. Mas me chamou a atenção esse lance de que não era possível determinar características físicas, psicológicas ou comportamentais de um dos gêneros. Físicas, ok. Mas fico pensando em como determinar caraterísticas “psicológicas ou comportamentais” de um gênero. Dá pra fazer isso sem usar lugares comuns? Quer dizer, eu aceito quando minha amiga psicóloga me diz que “não é porque algo é socialmente construído que é necessariamente ruim”. E imagino que é um conjunto de fatores que deveria determinar essa performance de gênero, mas não tiverema sucesso aí. Enfim, curioso, né?
Outra coisa: o post da Lu que fala do Irã. Quer dizer, transexual, pode. Homossexual, não. Porque tem que definir, ficar dentro do limite. Extremamente violento, claro, e me faz lembrar do argumento mais frequente entre religiosos, mesmo os locais, quando condenam o homossualismo: Deus criou o homem e a mulher, um para o outro. Sistema binário mesmo, nenhum questionamento possível.
Por fim (como se houvesse um fim), a matéria da Piuaí sobre o médico especialista em cirurgias de mudanças de sexo. Recomendo a leitura da matéria inteira. Como a coisa é complexa. Em algum momento, a especialista em direito civil consultada fala de como os transexuais são conservadores. Quer querem corresponder a um modelo de mulher bem tradicional. Mas é o ponto de vista dela, porque aparece lá os casos de homens que queriam ser mulheres lésbicas. Quer dizer, se relacionar-se sexualmente com uma mulher e ter um pênis fosse o suficiente para definir um homem, usando um ponto de vista conservador, essas pessoas não teriam conflitos.
Por fim, o que define o que é mulher, né? Se você responder que é a vagina, vai desconsiderar os transexuais, e o Buck Angel vai rir na sua cara. Se você considerar que é um conjunto de comportamentos tais e tais, pode soar bem sexista. Mas lembro de ler num blog uma vez que se a única coisa que nós, mulheres, tivermos em comum for a opressão, pára o mundo que eu quero descer. Acho que a coisa é fascinante porque é muito mais complexa do que parece. E o médico diz lá na reportagem que só dá pra dizer quem tem falo e quem não tem, mas eu não aceito ser definida por uma ausência – a que não tem falo. Só posso concordar com a Judith Butler quando diz que gênero é performance. A gente deveria poder ser o que é sem que isso implicasse em determinismo e discriminação.
Tô pensando no livro da Beatriz Preciado, que eu ganhei e não li ainda, e na Judith Butler, que eu também não li, e a maneira como (sei de ouvir falar e ler outras coisas por aí), problematizam gênero. E, puxa, muito legal. E um nó. Eu gosto bastante. Porque se você me encontrar na rua vai ter certeza que, por mais que conteste muita coisa, por mais que não corresponda a todos os modelos de vaidade e feminilidade postos, eu sou uma mulher. Mas lembro de já ter sofrido muito por não me encaixar. Nada a ver com transexualidade, nem com homossexualismo sequer. O problema é o modelo cor-de-rosa-Barbie. A passividade. Enfim, muitas coisas. Mas pegava muito no visual mesmo. A coisa da delicadeza, porque eu não sou delicada pra nada nessa vida. Sou carinhosa e tal, mas não delicada. E é por isso que eu pirei lá na Espanha. Lógico que o Almodóvar já tinha me dado uma pista. Mas a coisa foi mais prosaica até: quando eu vi nas lojas as roupas de Flamenco para a “feria” de Málaga. Aqueles babados, aqueles brincos enormes, aquelas cores fortes. É isso, eu sou over. Eu sou pombagira. Depois de ler “Bodas de Sangre”, a noiva se justificando, dizendo que o noivo era um riozinho que não dava conta de apagar seu incêndio, eu pensei: é isso! Eu sou essa mulher.
Mas divago (e este post não é mera divagação?). Eu lembrei disso, dessa questão do problema do gênero, de definição, da dificudade, por algumas razões.
Li outro dia isso. A pessoa que conseguiu um documento escrito “sexo indefinido”. Péssimo estar na página de bizarrices do Globo porque o assunto é muito interessante. Mas me chamou a atenção esse lance de que não era possível determinar características físicas, psicológicas ou comportamentais de um dos gêneros. Físicas, ok. Mas fico pensando em como determinar caraterísticas “psicológicas ou comportamentais” de um gênero. Dá pra fazer isso sem usar lugares comuns? Quer dizer, eu aceito quando minha amiga psicóloga me diz que “não é porque algo é socialmente construído que é necessariamente ruim”. E imagino que é um conjunto de fatores que deveria determinar essa performance de gênero, mas não tiverema sucesso aí. Enfim, curioso, né?
Outra coisa: o post da Lu que fala do Irã. Quer dizer, transexual, pode. Homossexual, não. Porque tem que definir, ficar dentro do limite. Extremamente violento, claro, e me faz lembrar do argumento mais frequente entre religiosos, mesmo os locais, quando condenam o homossualismo: Deus criou o homem e a mulher, um para o outro. Sistema binário mesmo, nenhum questionamento possível.
Por fim (como se houvesse um fim), a matéria da Piuaí sobre o médico especialista em cirurgias de mudanças de sexo. Recomendo a leitura da matéria inteira. Como a coisa é complexa. Em algum momento, a especialista em direito civil consultada fala de como os transexuais são conservadores. Quer querem corresponder a um modelo de mulher bem tradicional. Mas é o ponto de vista dela, porque aparece lá os casos de homens que queriam ser mulheres lésbicas. Quer dizer, se relacionar-se sexualmente com uma mulher e ter um pênis fosse o suficiente para definir um homem, usando um ponto de vista conservador, essas pessoas não teriam conflitos.
Por fim, o que define o que é mulher, né? Se você responder que é a vagina, vai desconsiderar os transexuais, e o Buck Angel vai rir na sua cara. Se você considerar que é um conjunto de comportamentos tais e tais, pode soar bem sexista. Mas lembro de ler num blog uma vez que se a única coisa que nós, mulheres, tivermos em comum for a opressão, pára o mundo que eu quero descer. Acho que a coisa é fascinante porque é muito mais complexa do que parece. E o médico diz lá na reportagem que só dá pra dizer quem tem falo e quem não tem, mas eu não aceito ser definida por uma ausência – a que não tem falo. Só posso concordar com a Judith Butler quando diz que gênero é performance. A gente deveria poder ser o que é sem que isso implicasse em determinismo e discriminação.
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