sábado, 17 de abril de 2010

Sobre leituras II

Como eu já disse aqui, a lista do que deveria ter lido é gigantesca. E só aumenta. Se um dia eu escrever que estou entediada é porque não tem livro por perto, porque coisas pra ler não faltam nunca. E aí eu comecei a pós, aos sábados, o dia todo (eu deveria estar dormindo, porque amanhã acordo cedo). E o tema é meio Economia, meio Urbanismo. E, oi? Não sei nada sobre nada disso. Só lendo pra correr atrás. E mês passado foi meu aniversário. Minhas amigas que já sabiam do meu interesse pelo feminismo resolveram me presentear com livros sobre o tema (é, minhas amigas são legais). Lógico que ninguém quer que eu leia semana que vem, mas acho meio chato ganhar um livro e não voltar pra contar pra pessoa suas impressões. Então é isso. Trabalho 8 horas por dia, academia pra consertar o joelho podre (é isso ou a fisioterapia, não tenho muita escolha), pós (e sua respectiva monografia), marido, amigos (meus e dele), família (minha e dele) e livros. Claro, e Copa do Mundo pra eu passar um mês só pensando em futebol e dispersar completamente. E um blog que eu tento atualizar de vez em quando. Depois tem gente que me pergunta quando eu vou ter filhos. Humpf!

Então a lista atual das coisas que eu gostaria de ler nos próximos dois meses, mas que vou me sentir realizada se conseguir dar conta este ano ainda, está assim:

Para a pós:

- O que é cidade? Raquel Rolnik – segundo o coordenador do curso, leitura básica para os ignorantes em urbanismo;
- Formação Ecônomica do Brasil, Celso Furtado – pra entender minimamente Economia;
- Formação do Brasil Contemporâneo, Caio Prado Júnior – idem idem.

Isso fora os textos avulsos, que a gente copia, e são muitos, claro. E a bibliografia específica para o meu trabalho, que eu ainda nem fui atrás. E não, isso não é a bibliografia mínima. O mínimo do mínimo ainda incluiria a Era dos Extremos, do Hobsbawm, mas eu sei que não vai rolar agora.

Sobre feminismo:

- Le conflit – la femme et la mère, Elisabeth Badinter. Lembram do livro que a Amanda postou aqui? Foi por conta dessa discussão que eu conheci o blog dela. E mandei um link para Ma, uma amiga que além de morar na França, acabou de ser mãe. Ela achou interessante e resolveu me mandar o livro de lá, porque ela sempre me manda presentes e acha que nunca ainda não me estragou o suficiente;
- Testo Yonqui, Beatriz Preciado. Imaginem uma intelectual que resolver se auto ministrar testosterona e, ao mesmo tempo em que relata as reações do hormônio em seu corpo, faz uma análise de questões de gênero? Presente da amiga, Fe, que anunciou assim "Iarinha, trouxe uma bomba pra você de Barcelona!";
- Backlash, Susan Faludi. A Lud que colocou o link para baixar de graça lá no blog dela. Eu baixei e deixei na área de trabalho do computador. E ele fica aqui, olhando pra minha cara todo dia. Li só a introdução e tô esperando a brecha pra ler o resto.

Diversos e aleatórios:

- Disgrace, JM. Coetzee. Não li nada dele ainda e morro de curiosidade. Sei lá porque resolvi começar com esse;
- A elegância do ouriço, Muriel Barbery. Em dois dias, vi duas referências a este livro do qual eu nunca tinha falando até então. Uma no formspring da Mari, dizendo que tinha gostado (nem te falei sobre isso ontem, Mari) e uma amiga com quem conversei no msn me contou que tinha lido e se lembrou de mim. Bastou pra pulga da curiosidade picar.

Factível ler isso em 2 meses, alguém pode dizer. Eu também acho, dá 1 por semana só. O que me angustia é que eu acho que não vai ser factível pra mim de jeito nenhum. Ó, vida.

domingo, 11 de abril de 2010

Mas mulher apanhando dá audiência, né?

Eu falei da misoginia do Manoel Carlos porque talvez seja a que me salta mais aos olhos, num primeiro momento. Primeiro, porque nos seus enredos nunca há um vilão (ou vilã) terrível que faz mil estripulias, mata, foge da polícia e tal. Os dramas são mais prosaicos: traições, acidentes, doenças. E por isso as mulheres que apanham, ao meu ver, só se comportaram mal do ponto de vista do autor, sem sequer serem dignas do título de vilãs odiosas. Além disso, há outras coisas machistas igualmente irritantes sempre presentes em suas tramas, como a biscate que engravida do mocinho justo quando ele ia se entender com a mocinha (lógico que o coitado é vítima na história) e a virgindade das mocinhas pobres como uma commodity a ser preservada para aumentar seu valor no mercado dos casamentos – o que mais uma moça pobre pode oferecer a um mocinho rico se não for bonita e “honesta”?

Mas como a Luna lembrou nos comentários abaixo, em “A Favorita”(2008) houve um caso de uma mulher que apanhou em público do marido quando este descobriu que estava sendo traído. E eu já tava mesmo com vontade de tratar disso: sempre há uma mulher apanhando. Mudam os autores, os enredos, as motivações, mas a surra é certa. De novo, vou tentar ficar só com exemplos recentes, dos autores das novelas das 9. Olhem só:

Sílvio de Abreu

O autor foi duramente criticado em 1995 por organizações de defesa da mulher porque e vilã Isabela Ferreto, ao ser pega em flagrante de adultério pelo seu marido (que antes era seu amante e o ex-noivo os pegou no flagra no dia do casamento) é esfaqueada no rosto. E a gente sabe o significado que tem essa coisa da cicatriz, né? Do marcar o rosto, “destruir” a beleza, já que ela está ligada a sexualidade. Depois dessa prensa, supõe-se que deveria se conscientizar e pegar mais leve. Como eu contei, eu não vi “Belíssima” (2005/2006), mas parece que a mãe traída deu uns tapas na filha pouco confiável que se meteu na cama com seu marido.

Gilberto Braga

Em “Celebridade” (2004), Maria Clara Diniz, a mocinha, deu o troco na vilã Laura, que tinha acabado com sua carreira e reputação, dando-lhe uma surra. Em Paraíso Tropical (2007) Eloísa, companheira do ourives que era explorado por Taís, também desconta sua raiva com uma surra.

Glória Perez

Em “América” (2005), a dissimulada Creusa, apanhou da sogra quando esta decobriu que ela não era exatamente uma esposa fiel. Em “Caminho das Índias” (2009) Yvone apanha de Melissa quando a perua descobre que a vilã está seduzindo seu marido.

Aguinaldo Siva

Como eu também contei antes, é o que eu menos acompanho, porque acho chatíssimas suas pretensões épicas reacionárias. Mas sei que em “Senhora do Destino” (2004/2005) a vilã Nazaré Tedesco apanhou da heroína Maria do Carmo. “Duas Caras” (2007/2008) eu não vi mesmo. Mas olhem como é fácil descobrir: entrei no Wikipedia, joguei o nome da novela lá, vi a relação de personagens. Daí lembrei que a personagem da Aline Moraes é que era a vilã. Joguei lá “Sílvia apanha em Duas Caras” no google. Batata! Apanhou da mocinha.

Nessas novelas, homens apanhando não são vendidos como espetáculo, por pior que tenham se portado. Pode ter lá uma briga e uns sopapos, mas não há essa conotação moral. A surra na vilã é atração da semana, às vezes um dos pontos altos da trama. Dá capa em revista semanal e pico de audiência. Os pecados dessas mulheres variam muito: umas foram adúlteras, outras só foram sensuais; umas são estelionatárias, outras assassinas. Então não interessa se é um crime que pode ser apurado e punido por lei, se é uma fraqueza de caráter ou um simples desvio de conduta de acordo com a moral estabelecida. A pena prevista é uma só: surra.

Como eu disse no post anterior, eu realmente acredito que as novelas são referência para sua audiência. E este público fica lá, torcendo para o momento em que a vilã será punida. É catártico isso. Então, uma emissora de televisão, que deveria estar minimamente comprometida com a qualidade da sua programação porque é uma concessão pública, dissemina a idéia de que há situações em que é aceitável que mulheres apanhem. Pior: há situações em que agredi-las é esperado e desejável.

Não adianta fazer marketing social e passar Globo Repórter sobre a Lei Maria da Penha. Para violência contra mulheres diminuir, é preciso parar de celebrar a surra a como maneira de solucionar conflitos em que estejam envolvidas.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Manoel Carlos, o misógino

Este é um assunto que estava entalado. Assim, de muito tempo. Que talvez nem pareça importante, porque afinal, é só novela. Mas as pessoas assistem novelas, desde pequenas. No Brasil, elas são referência de moda e de comportamento. E acho que moldam mais opiniões que o Jornal Nacional. Pior, a gente ainda as exporta, e elas fazem sucesso lá fora.

Então eu não assisto novela quase nunca porque não tenho muito saco de ficar uma hora ali parada. Mas desde que a Globo começou a colocar na internet os resumos de capítulos, eu passei a acompanhar os da novela das 9. Não de todas, mas da maioria. E tem gente que nem se liga, mas eu conheço os autores, o estilo e tal. E sei que adoro o Silvio de Abreu (perdi “Belíssima” porque passou quando eu estava na França), amo de paixão o cinismo do Gilberto Braga e seus vilões super charmosos e canalhas (a última novela que eu acompanhei mesmo na televisão foi “Celebridade”), acho que a Glória Perez completamente surreal (mas gostava da história de “Caminho das Índias”) e não tenho estômago pro reacionário de carteirinha que é o Aguinaldo Silva.

Mas o Manoel Carlos é especial. Porque eu tenho aversão mesmo. E a Globo o vende como o sujeito que ama as mulheres, com suas Helenas sempre chatíssimas como modelo de força e tal. Mas na verdade ele odeia mulheres. Ou só ama as que se comportam direitinho. Em todas as novelas do Manoel Carlos há uma mulher apanhando por conta de sua conduta sexual. T-O-D-A-S. E não é levar um tapa na cara da rival que a pegou com o marido. É surra pesada, e normalmente com o pretexto de educá-la. Quer dizer, não é briga, é "corretivo". Houve uma delas, a “Mulheres Apaixonadas” que tratou da violência doméstica. A personagem era uma professora paulistana que tinha fugido para o Rio por conta de um ex-marido violento, e o cara a encontrava e espancava ela mais um pouco. Mas aí o merchandising social, tava claro: marido não pode bater na mulher. O marido não, mas o resto...

Pra não ficar mais longo, vou pegar só 3 casos, das mais recentes, com direito a links para os vídeos para ilustrar.

Mulheres Apaixonadas, 2003

Dóris é adulta, porque já não está na escola. Pelas minhas contas, deve ter aí 19 ou 20 anos. E é mimada e prepotente. Destrata os avós. Quer que os pais os internem num asilo pra não ter que dividir o quarto com o irmão. Enfim, gente boa ela não é. Só que no último capítulo, o pai vai buscá-la num hotel em que está com um cara, pagando de rica, e dá uma surra nela e a expõe para os hóspedes na recepção. Veja bem, o pai passa a novela inteira sem se manifestar quando a víbora está destratando velhinhos, e resolve puni-la quando ela está dando. Minha revolta foi enorme quando assisti. Se eu vejo alguém fazendo algo parecido, chamo a polícia. Mas pelos comentários no youtube, vocês entendem o perigo da coisa: todo mundo ali parece que achou bonito.

Páginas da Vida, 2006

Sandra vive na casa dos patrões dos pais como “agregada”. Manja o lance do favor, dos pobres que orbitavam os ricos no século XIX? Igualzinho. Daí ela acha que tem direito à mesma boa vida. Ô, audácia. Não enxerga o seu lugar. E ela iniciou o filho do patrão sexualmente, e parece que se apaixonou por ele ou viu nele seu caminho para a ascensão social - talvez as duas coisas. Ah! Como o autor é coerente em criar suas vilãs, ficamos sabendo que essa já fez um aborto de um filho do patrão. Coisa horrorosa. Ele só não explica porque cargas d'água uma arrivista não teria esse filho que lhe daria acesso a tudo que sempre sonhou, mas tudo bem. Rejeitada, porque não é mulher pra casar, passa a “causar” nos jantares cada vez que o mocinho leva uma moça de família pra ser apresentada à casa grande. Enfim, um dia uma das patroinhas se irrita e coloca ela no tronco. E pra completar a cereja no bolo, no final da novela, o patrãozinho se casa com a irmã da “piriguete”, que virgem e santa, se manteve na senzala e de pernas fechadas até subir ao altar. Lindo, né?

Viver a vida, 2010

A menina mimada Isabel, feita de puro sarcasmo e atrevimento, já levou um esculacho da mãe, saindo do banho, porque negligenciou um vídeo enviado do exterior pela irmã mais bonita e modelo por puro despeito. No mundo em que eu vivo, bastaria cortar o cartão de crédito pra patricinha se alinhar. Mas não, tem que apanhar. E nua. É fetiche ou não é, minha gente?

Mas eu falei de conduta sexual, e este não foi o caso da Isabel (pelo menos ainda). Além da sexualidade, outro fator a ser punido nas mulheres é sua ambição. Querer ascender à elite do Leblon quando são no máximo, de classe média. E daí vem a novidade, o motivador deste post. Ou tava achando que era só prato requentado?

Capítulo de hoje: Soraia é a filha do caseiro. Bonitinha, novinha, gostosinha. Tá “afins” de descolar um trouxa pra pagar suas contas. Daí ela vai a um coquetel cheio de grã-finos, enche a cara de vodca, faz beicinho, trança as pernas, e sai falando bobagem. Nada demais, né? Vexamezinho básico. Mas o Manoel Carlos acha que ela merece uma surra. Ele até pinta o pai da moça como um ogro intolerante, pra tentar tirar a culpa das suas costas, mas não me convence, não. Personagem não tem vontade, "seu" autor. Eu sei que quem curte ver mulher apanhando é você.

Maneco, querido: galerinha da Uniban manda aquele abraço!

Update: A novela com merchandising contra violência doméstica era "Mulheres Apaixonadas" e não "Páginas da Vida". A Anna me corrigiu nos comentários (obrigada, Anna!), e eu acabei de corrigir no texto. Sabem como é: Leblon, Helena, José Mayer "pegando" geral, mulher apanhando. Mesmo quem é fã do gênero como eu se confunde. :)

segunda-feira, 5 de abril de 2010

A orgulhosa individualista que se casou

E aí que eu tenho essa enorme dificuldade de entender que o feminismo não é individualista e que brigar pela autonomia da mulher não significa, de maneira nenhuma, dizer que ela tem que “se bastar” em tudo. Que não pode aceitar ajuda e etc. A intransigentemente orgulhosa sou eu, não a agenda feminista. Isso tem de estar claro.

Daí que quando o marido me conheceu eu dividia uma apartamento com outras 3 meninas que eu conheci pela internet. Montamos uma república meio no susto, e a coisa até que funcionou muito bem por um tempo. Eu achava bacana, sabe? O meu lado ecológico sabe que é insustentável para o planeta todo mundo ter uma geladeira tanto quanto é insustentável todo mundo usar carro todo dia (eu vou trabalhar de trem). Um ano e tanto depois, relacionamento estável entre eu e mocinho, resolvemos dividir o teto.

E, puxa, o meu lado orgulhoso tem sofrido pra entender isso. Porque eu não tinha dinheiro para pagar o aluguel do apartamento na república sozinha, mas se alguém saísse, era só fazer uma seleção e colocar outra pessoa no lugar (sim, passamos por isso, e interessadas não faltavam). Mas aqui eu não dou conta do aluguel sozinha e às vezes me incomodo. Com o agravante de que o marido daria conta do aluguel sozinho, se fosse o caso. Ele nem ganha assim taaaanto mais do que eu. Mas é a diferença entre fechar a conta e não fechar.

E lógico que ele não me cobra isso, tão loucas? Nem faria sentido. E, racionalmente, eu sei que ele não me sustenta. Que a gente tá nessa juntos. Que se uma hora der errado, eu não pago o aluguel desse, mas pago o de outro, ué? Mas tem o demônio do orgulho. Semanas atrás, numa crise, cheguei a cogitar procurar um lugar mais barato só pra me sentir mais em paz, mas racionalmente falando, seria ridículo. Teríamos que mudar de bairro, de repente ir pra mais longe, ter menos conforto. Mais fácil eu deixar de ser cabeça dura e entender que, poxa, casamento também é isso.

Daí tem outra coisa engraçada. Por sugestão do marido (ele adora créditos, então estou dando), abrimos uma conta conjunta, que funciona assim: cada um deposita lá parte do salário, pra nossas despesas de casal, e mantém separado o seu dinheiro de “caixa 2”. Então a gente não fica fazendo contas: são os dois que pagam por tudo. Mas, puxa, até isso me incomoda. Primeiro que, centralista que sou, tenho a maior dificuldade de compartilhar organização com alguém. E maridinho é organizadíssimo pra tudo nessa vida, menos pra dinheiro. E eu sou o inverso. Na república, eu é quem pagava todas as contas, e depois cobrava das meninas. Mas aqui resolvi relaxar um pouco. Entro em casa hoje e encontro aviso de cobrança da Net. Valor em aberto. Ligo pro marido: “mas não tá no débito automático?”. Não tá, marido. Tá escrito lá: pagamento com boleto. E ele já esqueceu outra vez, e já recebemos outra cartinha (mas foi só uma, nas outras ele pagou na data). Pra piorar, a conta é conjunta, mas só mandam um cartão de senhas pra operações pela internet. E eu quero resolver logo isso, mas o cartão está com quem? Com o marido. E ele está onde? Na faculdade. Isso, respira, control freak. Vai surtar por tão pouco?

Agora, humilhação mór, é que na conta conjunta ele é o “titular 1”, e eu o “titular 2”. Felizmente não usam o termo “dependente”. Mas um dia precisei checar informações por telefone e me pediram o CPF e o RG dele. E eu argumentava que eu era titular também, caráleo. Não. Uns são mais titulares que outros. Ah, e o cartão de crédito é dele, o meu é “adicional”. E a primeira vez que fui lá transferir dinheiro pra nossa conta, acessei a função “para contas do mesmo CPF”. Não funciona. O CPF titular da conta é o dele.

Moral da história: eu sou cabeça duríssima. Apesar de racionalmente entender que eu não sou dependente de ninguém, que somos duas pessoas que colaboram uma com a outra para a felicidade mútua, o subconsciente orgulhoso ainda tem muitas dificuldades de assimilar. Mas, ó, falando sério: o sistema bancário também não colabora.

domingo, 28 de março de 2010

Admirável mundo novo e sua face sórdida

Eu sou uma pessoa que não pode fazer nada de errado nessa vida. Nada. Eu nem sou suuuuper popular, mas vivo reencontrando pessoas em contextos diferentes. Conhecendo gente que conhece gente que eu conheço e tal. Ok, eu sei, acontece com todo mundo. Mas comigo é demais, juro. E não é o mundo que é pequeno, né? É a renda que é muito mal distribuída e as pessoas de classe média e média-alta, universitárias, que trabalham ou trabalharam algum dia em multinacionais são poucas, no fim das contas (um dos motivos, aliás, pelos quais nem minha foto nem meu sobrenome aparecem aqui). São Paulo é a maior cidade do interior do Brasil.
Daí que eu tô fazendo uma pós de conteúdo nada corporativo (não é um MBA nem nada), mas ainda assim uma das minhas colegas trabalhou numa multinacional em que eu trabalhei, mas antes dela. Tipo, em fiquei de 2001 a 2003, ela entrou em 2003 e saiu em 2005, parece. E é toda uma história essa empresa. Ela tem uma cultura de arrogância tão forte, que eu sai de lá traumatizada. Achava que nunca mais na vida ia trabalhar em algo parecido. Porque as pessoas tinham certeza de que eram as melhores do mundo e todo o resto era merda. O percurso d@s executiv@s lá era o seguinte: entrava-se como estagiári@ trabalhando meio período e ganhando uma graninha que não era excelente, mas não era ruim, mais um pacote interessante de benefícios. Daí a pessoa desenvolvia um projeto nesses seis meses. E, se fosse aprovad@ era efetivad@ como supervisor e ganhando algo que hoje deve equivaler, no mínimo, uns 5 mil reais.
Nem tô aqui pra discutir a capacidade gerencial dessa galera. No geral tinham estudado nas melhores escolas, tinham muita capacidade mesmo e trabalhavam duro. Mas o fato é que tinha gente lá que, como nunca tinha comido merda (leia-se trabalhar feito burro de carga pra ganhar salário medíocre), tinha certeza absoluta de que era o máximo. Darwinismo social mesmo. Li “Admirável Mundo Novo” muito depois disso, mas é inevitável associá-los aos alphas. Gente como eu, que fazia um serviço mais secundário (eu era assistente de equipe, uma secretária de toda a galera), seria no máximo, sei lá, alpha menos ou beta mais.
Entre os bons benefícios que essa empresa oferecia, estava a possibilidade de uma licença maternidade extendida. A mulher poderia voltar ao trabalho por meio período, ganhando metade do salário, mas mantendo os outros benefícios integralmente, até o bebê completar 1 ano. Além disso, vi uma mulher ser promovida à diretoria durante sua licença maternidade. E diretora de logística, uma área considerada “masculina”. Então, várias colegas grávidas, porque nunca vi ninguém lá ser demitida por isso. Vários casais felizes entre os empregados, porque não rolava aquela baixaria de, descoberto que fulana e sicrano namoram, fulana é demitida. E aí você pensa que é o paraíso da igualdade de gênero, uma ilha de paz para as cidadãs alphas que passaram no processo de seleção. Parece, né?

Mas, conversando com a colega de pós, quis confirmar com ela os detalhes de uma história sórdida que aconteceu depois que eu saí de lá e fiquei sabendo por terceiros – foi parar na comunidade da empresa no Orkut. De virar o estômago.

Um grupinho de colegas alpha passava seu tempo entre trabalhar muito, ir à academia, e de lá pra balada. Recebiam promoção atrás de promoção porque eram talentosos mesmo, e se sentiam mais arrogantes e mais superiores à humanidade a cada dia. E parece que eles apostavam entre si quem ia “pegar” cada estagiária nova. Um desses caras, que saía com uma dessas estagiárias, um dia cheirou até não mais poder e deu uma surra na menina. Coisa muito feia mesmo, ela foi parar no hospital. O pai dela era um diretor de empresa bam-bam-bam também (por sinal, de um lugar onde meu marido trabalhou, olha o mundo pequeno de novo). Ele telefonou pro RH da nossa ex-empregadora, contou o que tinha acontecido, disse que estava abrindo um processo, e exigiu uma posição oficial.
Sabem o que aconteceu? O agressor recebeu, do dia para noite, uma promoção pra ocupar um cargo no exterior. Legal, né? Tiraram o cara do Brasil pra ele não responder processo. Não foram indiferentes: tomaram claramente o partido do agressor. Segundo minha colega, quando a vítima voltou (acho que ela não ficou trabalhando lá, mas tinha que aparecer nem que fosse pra acertar sua saída), colocaram ela sozinha numa sala e a intimidaram. Disseram que ela não tinha o direito de atrapalhar a carreira dele, senão a carreira dela é que acabaria. Sem testemunhas na sala. Ela foi pega de surpresa e não teve como tentar gravar. E esse detalhe eu soube ontem, porque minha atual colega era muito amiga dessa moça. E minha colaga terminou contando que, pouco tempo depois dessa história, pediu demissão, porque não teve estômago pra continuar. O agressor é um dos próximos na linha de sucessão pra diretoria. Antes do ocorrido, que eu me lembre, era um dos queridinhos da tal diretora que foi promovida durante a licença maternidade. Não me surpreenderia se soubesse que continou sendo, até porque, se ainda era ela a diretoria, não consiguiriam realocá-lo sem sua aprovação.
Ficou longo o post. Mas, puxa, eu tinha que contar. Eu já era feminista antes deste episódio, mas ele sem dúvida me indignou mais. Formou caráter mesmo, e relendo o que eu mesma escrevi, percebo que me revolta muito ainda. E tem gente que realmente acredita em ilha da fantasia, que mulheres “bem educadas”, que estudaram nas "melhores faculdades" e ricas, vivem nesse mundo a parte, conhecem igualdade gênero, não sofrem com o machismo e tal. Lógico, nem todo lugar é tão baixo. Mas a baixaria tá aí, disseminada. Entre os alphas, inclusive.

quarta-feira, 24 de março de 2010

A História da diferença. Sempre ela.

Marido mandou este link. Sobre a história de que homens e mulheres são diferentes, e tendo a possibilidade de escolher, mulheres, em geral, preferem ter mais tempo livre (principalmente se tiverem filhos) e homens preferem ter mais dinheiro. E puxa, é difícil comentar uma pesquisa que a gente não conhece, baseada só num recorte. Porque se a pesquisa em si já é um recorte da realidade, feito a partir de um ponto de vista xyz, a matéria sempre vai ser o recorte do recorte. Mas incomoda como as coisas podem ser interpretadas de um jeito tão enviesado, só pra reforçar certos preconceitos.

Eu acho que, no geral, todo mundo gostaria de trabalhar menos. Mas do que isso, todo mundo deveria trabalhar menos. No meu mundo ideal, as crianças ficariam mais tempo na escola, os pais menos tempo no trabalho, e a conta fechava. E, lógico, quem não tivesse filhos preencheria aí sua vida com outras coisas bacanas. Mas segundo a matéria, a pesquisa chegou a conclusão de que os homens não querem isso. Eles querem trabalhar muito mesmo pra ter mais grana. E as mulheres, mesmo que não tenham crianças, acham que há outras coisas importantes em suas vidas além do trabalho. Por isso os salários mais baixos, porque o trabalho não é importante para nós como é para eles.

Se você é homem aprendeu, desde pequenininho, que o cara bem sucedido é o que tem grana. Mesmo que sua família tenha te dado uma educação mais humanista, a sociedade vai repetir essa mensagem. (Quase) ninguém acha que sucesso é ter tempo para os filhos. Ou até acha, mas só se a a Mercedes estiver garantida na garagem. Tempo virou um luxo – e luxo é só pra quem pode. Então, qual o espanto se, ao ser peguntado se prefere trabalhar menos, o cara disser que honestamente e “do fundo do coração”, quer continuar ralando mais horas lá, pra ganhar mais grana? Pode ser que nem seja fruto de uma ambição desmedida. Ele muitas vezes acredita que ganhar mais grana é o melhor que ele pode fazer para sua família.

Pra mulher a coisa funciona de uma maneira diferente. Sim, bacana que você tenha um trabalho. Aliás, sensacional, você fica independente e pode comprar quantos sapatos quiser sem pedir dinheiro pro marido. Puxa, o máximo. Mas, ó, as crianças são tão mais felizes com a mãe por perto. Você quer ser uma mulher completa, não quer? Tipo, dar conta de tudo, né? Afinal, você é homenageada no dia 8 de março por isso, porque você dá conta. Então, continuar trabalhando, mas ter uma jornada menor (no escritório, que fique bem claro) e ter mais tempo para os filhos é realmente o ideal.

Ah, sobre o comentário lá do cara de Harvard. Pode ser sim que boa parte das mulheres não goste tanto de exatas. Mas entre gostar e não ser lá muito apto, vai uma enorme diferença. Olha só, eu também sou da turma das Humanas. Até hoje não entendo Física direito (embora meu raciocínio lógico matemático seja bem competente). E isso prova o quê? Só que aquilo não era essencial pra mim. Se fosse, eu dava conta, pode ter certeza. Como muita gente por aí dá conta das coisas mais improváveis. Então, o fato das mulheres terem se estabelecido primordialmente em profissões em que são bem aceitas, e mais, o fato de se sentirem à vontade assim, não significa em absoluto que é “natural” do ponto de vista biológico e não exista um condicionamento social. E a princípio tudo bem agir de acordo com o este condicionamento, contanto que: a) a gente não remunere mal uma categoria por ser formada essencialmente de mulheres e b) que a gente não olhe com desconfiança uma mulher que queira fazer algo completamente fora desse espectro. O problema nem é o condicionamento em si, mas a consequente discriminação, tanto pra quem o segue, quanto pra quem escolhe outro caminho.

E, bom, se fala lá que isso é estatístico, mas lógico, as experiências individuais podem ser diferentes. Sempre há pontos fora da curva e tal. Mas não vejo “naonde” isso pode ser biológico. A matéria fala de sentimentos. Que as pessoas realmente “se sentem assim”. Olha só, eu também tenho um ponto de vista crítico sobre o sexismo e isso não me impede de me sentir culpada nas situações mais improváveis, né? Eu não vivo nas leituras feministas. Eu vivo neste mundo machista e consumista, e é neste mundo que eu faço minhas escolhas, que tento equilibrar a realidade e as minha expectativas pra ser feliz. Eu e todo mundo que foi entrevistado pela pesquisa.

E lógico, a matéria (e talvez a pesquisa) não dá conta do óbvio: porque mulheres que têm a mesma profissão que os homens e se dedicam da mesma maneira, em geral, tem salários mais baixos? Marido contou outro dia que rolou uma equiparação salarial na empresa onde ele trabalha. Por conta de uma discussão que não deveria ser aberta, mas a rádio-peão tomou conta, galera ficou sabendo que a única colega engenheira numa área cheia de homens ganhava menos que os seus colegas com a mesma experiência. Ah, ela é solteira, e sem filhos. Não tô lá com eles, mas até onde eu sei, não trabalha menos que ninguém.

domingo, 14 de março de 2010

A nossa (falta) de noção de justiça

Taí uma coisa que me incomoda na sociedade brasileira até mais do que o machismo: essa igorância sobre a justiça, ou sobre o que deveria ser justiça, a que se propõe, etc. Sabe essa história de achar que Direitos Humanos são invenção de ONG's que tem pena de “bandido”? (a propósito, eu odeio a palavra “bandido”, acho “criminoso” um termo mais preciso, com menos julgamento moral, mas pode ser só impressão minha).

E eu tô pensando nisso agora por três motivos especificamente:

1) O destaque da mídia sobre o Arruda na cadeia. Pra mim, a condição do cara na cadeia, se tem mais ou menos mordomia, não deveria ser notícia. Qual é a preocupação de o Arruda tá numa masmorra ou se tem TV na cela? A não ser que a discussão seja, especificamente, sobre os privilégios que os poderosos tem na cadeia. Pra esse caso de corrupção só deveria interessar se o cara não está mais no poder, se a justiça está agindo, etc. Mas o cara tem que virar bode expiatório e sofrer, vira um vilão. E, putz, a que leva esse revanchismo? O esquema tem que ser investigado, o cargos cassados, etc. Mas o Arruda queimar no fogo do inferno não me interessa como cidadã. E se, legalmente, ele tiver direito a um habeas corpus, isso não significa necessariamente que no país reina a impunidade.

1b) Ok, eram três. Mas esse lance do habeas corpus merece um anexo. Porque ninguém entende que o cara responder o processo em liberdade é um direito constitucional. O problema é que a justiça é muito lenta, então, realmente, dá essa impressão de quem não está preso agora, não será preso nunca. Mas aí é um problema da lentidão da justiça, não do direito constitucional, poxa.

2) Daqui a alguns dias é o julgamento do casal Nardoni. E eu lembro que, quando o crime aconteceu, trabalhava num lugar onde as pessoas eram menos esclarecidas do que meus atuais colegas. E o papo era que advogado de “bandido” é tudo “bandido” também, porque imagina, defender quem faz uma barbaridade dessas. E daí eu tentei explicar que olha, julgamento justo é direito de todo mundo. Ok, tem que ter estômago, concordo. Mas não há julgamento justo sem direto à defesa. E garantir isso é o mínimo que se espera de um Estado que se pretende democrático. E, bom, as colegas de lá ficaram bem “mimimi” com meus argumentos, meio que engoliram a contragosto mesmo.

3) Marido leu uma matéria chamando o rapaz que provavelmente atirou no Glauco de “o assassino do cartunista”. Sim, deve ter sido o cara mesmo, né? Mas ele não foi julgado ainda. E nem foi pego em flagrante. Presunção de inocência é direito também. Em outra chamada “O Globo” fez certinho, chamou o cara de “o principal suspeito de”, o que faz mas sentido. Enquanto o cara sequer for ouvido, mesmo que haja testemunhas, a imprensa não deveria de maneira nenhuma, incriminá-lo assim. Não é responsável, e colabora para essse sentimento de “pega pra capar” que toma conta do cidadão médio nessas ocasiões.

Enfim, me incomoda essa percepção de que um grupo merece a civilização, e o outro barbárie. E não é possível isso. A Mary W fez um post (excelente, como sempre) sobre isso, falando sobre o Estatudo da Criança e do Adolescente, tão demonizado quando a imprensa noticia crimes cometidos por menores. Civilização é garantir o acesso à Justiça por todos os cidadãos, inclusive àqueles que se portaram de maneira pouco civilizada. Eu não tenho a menor piedade cristã por assassinos. Mas sou contra a pena de morte porque, na minha concepção de Estado, há que se admitir a falibilidade da Justiça. Simples assim. E tem gente que não entende que pena de morte não é linchamento nem execução sumária. Que em lugares que se pretendem minimamente civilizados, como os Estados Unidos, há um processo criminal, um julgamento, um advogado. E ainda assim, muitos erros, todos os dias. Se há problemas com a civilização, imaginem com a bárbarie?

É, eu sei. Eu não deveria perder meu tempo lendo os comentários das notícias do “O Globo”. Faz mal e a gente se obriga a escrever um post inteiro só pra desopilar...

UPDATE em 24 de março: Li que o advogado dos Nardoni foi agredido hoje na entrada do fórum. Puxa. Questão de civilidade respeitar o trabalho do cara. Ok, ele tá ganhando dinheiro pra defender assassinos, mas se não fosse ele ia ser outro. É direito deles. É parte do processo civilizatório. Fico passada que as pessoas não entendam.