quinta-feira, 4 de março de 2010

La femme de trente ans

Pois é, chegou o dia. Trinta anos. E, ó, nem doeu, viu? (Post programado, mas se tiver doído eu volto aqui pra contar, prometo).

E a gente imagina, quando é adolescente, que com essa idade será adulto, a vida vai estar resolvida, etc, etc. E putz, a minha está em muita coisa, mas não está em outras e isso não chega a ser um problema. Mas daí, pra me divertir, eu resolvi fazer um balanço, que acaba servindo também como um about me:

Carreira

Não tenho uma carreira, é essa a verdade. E tudo bem. O fato é que ainda não descobri o que eu quero ser quando crescer, mas consegui ter uma ocupação razoável, com um salário honesto. Pra ajudar o ambiente em que trabalho é bom. Tipo, nada resolvido, mas paz, sabem? Saquei logo que pouca gente nessa vida se realiza profissionalmente. Isso significa que eu me conformei em não me realizar? Não, de jeito nenhum. Só me dei conta de que, enquanto eu não acho o caminho pra essa realização (e eu tô tentando) tenho que pagar as contas o melhor possível e ser feliz, porque ser feliz é a única coisa urgente nessa vida.

Auto-imagem

Pô, eu ainda quero emagrecer, embora a ansiedade e a cara-de-pau tenham colocado a reeducação alimentar pra escanteio. Mas tem duas coisas muito importantes a serem ditas. Primeiro: eu gosto da minha imagem. Tô há muitos quilômetros de distância de ser a Gisele Bündchen, sou meio fora dos padrões mesmo, e talvez uma quantidade considerável de gente me acharia feia. Mas eu curto o espelho. Segundo, eu tenho feito enormes esforços em descolar meu “eu” da minha imagem, tal qual a Ludmila faz tão bem e como eu já tinha explicado aqui antes mesmo de conhecê-la. Então, independente do número do manequim, eu me acho muito gostosa, sem falsa modéstia. Tenho essa fome de gente, de vida e de experiências que torna as pessoas interessantes. Enquanto eu mantiver isso, tô viva pro mundo. O resto é bobagem.

Amigos

Passei a adolescência e o começo da idade adulta me sentindo meio loser porque eu nunca fui popular. Nunca tive “a galera” que liga no sábado à noite. Sempre tive alguns poucos e excelentes amigos. Depois do ano na França, vi o número aumentar um tanto, mantendo a qualidade e a diversidade. Meus amigos são muito diferentes, minha relação com cada um deles é diferente, mas são todos queridíssimos, e boa parte há mais de uma década. Se eu quero novos amigos? Claro! Mas só se forem amizades construídas com calma, e nessa certeza de que eu não tenho que agradar a todo mundo, mas posso ter uma relação muito bacana mesmo com gente muito diferente de mim. Meus amigos são o maior tesouro construído nestes 30 anos.

Dinheiro

Não tenho carro (usamos um de leasing, sabem? tipo aluguel). Não tenho apartamento. Tenho uma poupancinha só pro caso de dar uma merda, que não seria o suficiente pra dar um entrada num imóvel. E tenho guardado um quase nada de dinheiro nos últimos tempos. Também não tenho nenhuma dívida, e isso é bom. Sou desapegada sem ser irresponsável: gasto porque tenho, se não tiver, mudo pra mais longe pra pagar um aluguel mais barato. Acho bacana poder ir a um show caro, ir a um restaurante legal e viajar nas férias. Dinheiro foi feito pra me fazer feliz. Mas tenho plena consciência de que isso não vai acontecer se eu viver só em função dele.

Vida afetiva

Não encontrei o príncipe encantado. Há pouco tempo atrás, quando achei que atingiria a maturidade numa vibe Sex and the City, porque há anos eu não tinha um relacionamento estável, encontrei um cara cheio de qualidades e cheio de defeitos, assim como eu. Logo percebi que ele era a melhor companhia do mundo. E o melhor companheiro do mundo pra mim. E um dia disse: “você ainda não sabe, porque é segredo, mas vai se casar comigo.” Tinha 3 meses que estávamos juntos e eu nem tinha dito “eu te amo” ainda. Não tinha definido dentro de mim meu sentimento por ele, mas sabia que era ele. Não foi amor à primeira vista como nos filmes, mas uma construção, tijolo por tijolo. Obras em andamento ainda, claro, e sempre. E eu não quero nunca banalizar isso, nem deixar a lei do mínimo esforço tomar conta. Vai ser lindo enquanto os dois quiserem que seja. Por enquanto os dois querem, muito.

Experiências diversas

Aos 30 anos, eu achei que daria pra ter aprendido alemão também, ou pelo menos italiano, que não é tão difícil. Mas me comunico razoavelmente bem em inglês, espanhol e francês, além do português. Sou semianalfabeta nas 4, como boa corintiana, mas tá valendo. Pra quem ainda é monolíngue, recomendo: falar um idioma estrangeiro é uma das coisas que mais abrem horizontes nessa vida, em todos os campos. Li muitíssimo menos do que gostaria e deveria. Dei pelo menos uma passadinha rápida em mais de metade dos estados brasileiros e em sete países. Ainda quero viajar muito, mas se não rolar muita chance mais, essa frustração já não vou ter. Gostaria de ter tido mais relacionamentos de média duração, mas já “experimentei” um bocadinho. E já beijei uma mocinha na boca (lembram da Kate Perry? “I kissed a girl and I like it”).

Sobre o futuro

Talvez a realização profissional? Talvez mais uma(s) língua(s) (alemão e árabe – quero alguma coisa bem difícil agora). Talvez, em alguns anos, um lugar para chamar de nosso? Talvez mais viagens? Talvez filhos? Talvez nada disso?

É bom não saber o que vai acontecer com a gente (né, Mari?). Que venham os próximos 30.

terça-feira, 2 de março de 2010

Inferno astral é assim

Imagina que no domingo, você deixa na rodoviária alguém amado que está num momento muito difícil da vida. Imagina o vazio e a sensação de impotência de não poder ajudar essa pessoa como gostaria.

Imagina que, depois disso, você tem sua maior crise de ansiedade dos últimos anos e chora sem parar por mais de meia hora, achando que não vai dar conta do resto da semana. E sente medo do marido se assustar e resolver pular fora porque ele nunca te viu desse jeito.

Imagina que na segunda-feira você tem avaliação de desempenho no trabalho, e precisa dar conta de expressar toda a sua insatisfação. Imagina que sua chefe concorda com o seu ponto de vista, que acha que você merece muito, mas que, dado o momento da empresa, ela não pode prometer nada. E o pior é que você sabe que ela não está enrolando e que corre o risco de não ver nada mudar nos próximos meses.

Chato, né?

Agora imagina que no Natal o marido fez uma listinha de coisas que ele poderia gostar de ganhar, das mais varidas faixas de preço, pra você ter opção. E você olha lá ingressos pra um show bacana. E como ele te deu um show bacana de presente, você quer retribuir porque apesar de shows bacanas custarem os “zóidacara” pra quem não é estudante (e pra quem é também, ainda que seja metade do “zóidacara” do preço da inteira), o 13º taí, não há crianças a serem sustentadas e bom, o marido merece.

Agora imagina você esperar meses pelo show, torcer pra não chover, São Pedro colaborar, você se empolgar pensando que vai ser muito legal, saber que galera pretende cantar parabéns pro vocalista que faz aniversário só 2 dias antes de você e, quando o show começa, você descobrir que contrataram o pior engenheiro de som do universo.

Pausa aqui. O vizinho do apartamento enfrente ao nosso é surdo e ouve a novela no talo. Dá pra ouvir da nossa sala.

Ouço a novela do vizinho com maior qualidade de som do que ouvi o show que paguei “zóidacara” e foi presente de Natal pro marido. Saímos na metade, quando nos demos conta de que nem no bis os som ia ser arrumado, depois de passar muita raiva com as tentativas de equalização.

Outra pausa. Acabo de receber um sms de uma amiga que estava lá, mas na pista vip (daí é “zóidacara” meeeesmo, “dicumforça”). Segundo ela, lá se ouvia perfeitamente.

Ó, se isso não é inferno astral, eu não sei o que é. Sério, tô boa não.



(Chris Martin, pisciano querido, juro que as vaias não eram pra você, tá?)

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Maternidade e Economia


Este é um post que eu queria ter feito antes, porque se refere a uma revista do começo do ano. O fato é que eu tenho me interessado muito por Economia. Sempre me interessei, aliás, mas agora, se tudo der certo, vou fazer uma pós na área. Daí que resolvi comprar a "The Economist" da primeira semana de janeiro, porque com esse capa aí, não tinha como não me interessar.

Eu sei que a Economist é uma revista conservadora. Ainda assim, fiquei chocada. É impressionante o quanto a gente consegue jogar certos discursos no lixo sem muito trabalho depois que a gente toma a pílula vermelha. E olha só, eu não sou acadêmica, eu não sou cientista social, não tenho mil leituras feministas como base, normalmente só o desconfiômetro me guia.

Os caras contam que as mulheres já são metade da força de trabalho nos Estados Unidos. Mas, claro, ainda há muita coisa a conquistar. Principalmente porque as mulheres ainda ganham menos que seus colegas homens ainda que desempenhem a mesma função. E até aqui não há nenhuma informação nova, nenhuma novidade, mas também nada a discordar.

Segundo eles, o problema das mulheres não é o fato de serem mulheres (sério?). Sintam o drama (extraído do Editorial, ainda na página 7):
“Motherhood, not sexism, is the issue: in America, childless women earn almost as much as men, but mothers earn significantly less”

Como dizem por aí, me amarrota que eu tô passada. O problema não é o sexismo, é a maternidade, já que mulheres sem filhos ganham quase tanto quanto seus colegas homens. Oi? “Quase tanto quanto” ainda é menos, né? Just checking. Daí, os caras falam um monte sobre como as pobres crianças pagam o pato pela ausência de suas mães. E minha vontade é jogar a revista pela janela.

Olha só, é muito difícil engolir esse discurso da maternidade como uma questão feminina. A manutenção da espécie é de interesse de toda a humanidade. Mas, como quis a natureza que os bebês fossem gerados no nosso corpo e amamentados pelos nossos seios, isso passa a ser um problema nosso. Eu caí pra trás quando soube que nos Estados Unidos sequer existe licença maternidade remunerada. Parece que está previsto na legislação algumas semanas por ano de licença médica não remunerada, e é esse período usado pela mulher que tem um bebê.

Bom, alguns países europeus tem uma dificuldade danada para repor sua população. Seus governos estão se dando conta de que as mulheres (e seus parceiros, claro) podem escolher não ter filhos, considerando as dificuldades envolvidas. Estes países não são mais legais ou mais humanos mas sabem que se não oferecem suporte, não terão como continuar existindo. Em lugares religiosos como os Estados Unidos esse risco não existe por enquanto: as mulheres tem filhos com ou sem suporte. Já o caso do Brasil é atípico: entre os mais pobres a natalidade ainda é considerável (embora esteja caindo bastante também), na classe mais alta, mal garante a reposição.

Eu acho que não há igualdade de direitos enquanto não se considerar que uma mulher presta um tremendo serviço à sociedade quando põe um filho no mundo. E que essa sociedade, em contrapartida, deveria dar todo o suporte possível a ela na educação desta(s) criança(s). E isso está tão longe de acontecer. Tanta gente condenando mulheres que abortam, mas cadê as vagas nas creches? Não têm, né? E paternidade, gente? Sabe, eu não quero julgar a mulheres que resolvem ter um filho em produção independente, mas acho isso tão contraproducente. Os homens precisam ser implicados, precisam ser responsáveis. Porque pensão alimentícia pode até pesar no bolso de quem paga, mas não resolve tudo. Quem leva a criança ao médico quando fica doente? Quem perde o dia no trabalho quando o caso é grave? Tem cara que não consegue entender que ele não corre o risco de ser demitido porque se tornou pai, mas que esse é um risco inerente à condição de mãe.

A Simone de Beauvoir me pareceu tão dura e amarga quando diz que nossos corpos são escravos da reprodução. Claro, ela escreve isso antes da pílua anticoncepcional e antes do aborto ser legalizado na França. Mas, puxa, depois da "The Economist" fiquei pensando se ela está tão errada assim.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O meu machismo

Então, eu acho que machistas somos todos. O mundo é machista, nós vivemos neste mundo, então não estamos livres de exprimir alguma idéia retrógrada, por mais progressistas que sejamos. O mesmo vale com o racismo e a homofobia, claro. A gente tem que trabalhar, se conscientizar, aceitar discutir. Numa boa, não acho que nenhum ser humano é coerente o tempo todo, mas considero sim uma tremenda qualidade a pessoa reconhecer suas mancadas. Eu tento, viu?

Dito isso, aqui em casa eu faço um pouco mais de tarefas domésticas que o marido. E esse pouco é bem pouco mesmo: sou eu quem coloca a roupa pra lavar. Mas só porque eu gosto de separar algumas coisas que mancham, lavar umas poucas coisas delicadas a mão, enfim, quero o controle do processo. Ser control freak faz com que muitas mulheres monopolizem as tarefas domésticas mesmo tendo homens dispostos a compartilhá-las. Como se o espaço doméstico fosse realmente seu “reino”, o lugar onde ela tem o domínio, se sai melhor. Para os homens, uma maravilha, claro. Então, ok, eu não deveria ser assim, mas é só com a roupa, né? Não me culpo, em absoluto. No mais, marido lava a louça quando eu cozinho (quando ele cozinha, quem lava sou eu), organiza as coisas (porque eu deixo a casa uma zona se deixar), enfim, é só a máquina de lavar mesmo. Podemos viver em harmonia assim.

Acontece que há algumas semanas atrás, eu fiquei meio adoentada. Nem lembro o que era, acho que uma virose chata. E, bom, todas as minhas energias se esgotavam no trabalho. Chegava em casa e não fazia nada (minto: fazia uma chazinho pra mim, e só). Daí que um dia cheguei, fui direto pra cama e, ao acordar, lá pelas 9 da noite percebi que marido tinha chegado e lavado a roupa. Diálogo patético:

“- Marido, você lavou roupa?
- É, lavei, porque eu não tinha mais cuecas limpas.”

Sabem o que aconteceu? Eu me senti culpada. Por um único minuto, mas me senti. Pensei: “que tipo de esposa sou eu que deixa o marido sem cuecas limpas?”. Juro, eu pensei nisso. Vergonha, né? Depois fiquei com vergonha de ter pensado. E no dia seguinte fui contar pro marido. Disse que ia contar algo engraçado, mas que eu não o perdoaria se ele usasse isso contra mim num momento de fraqueza. Ele riu e disse que também se sentiu culpado, por esperar que a esposa se responsabilizasse por suas cuecas, como se ele não fose capaz de fazê-lo. Sentiu-se um machista também, tadinho.

E a história termina com um jovem casal dando risada de como o mundo funciona, e o quanto gente tem que estar atento pra não reproduzir modelos que definitivamente, não nos servem.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Sobre leituras

Post que eu queria ter escrito na quinta-feira mas não consegui porque teve uma tempestade (oi Kassab e Serra, beijonãomeliguem ) e eu fui “obrigada” a fazer um happy hour com a rapaziada e cheguei de pilequinho. Queria ter feito ontem, mas o cansaço me derrubou. Hoje a preguiça é muita, mas eu sou mais forte. Acho.

Marido passou no vestibular. Ele começou Física quando era mais novinho, na idade em que as pessoas entram na faculdade, mas por uma série de motivos teve que parar. E agora vai fazer Letras. Tentou Sociais ano passado, não rolou, e esse ano mudou. E eu tô achando um barato, porque eu entrei em Letras 10 anos atrás, e eu achei a faculdade um tesão. Lógico que eu o influenciei muito. E vou me segurar pra não virar uma chata, pra deixá-lo curtir sua experiência independentemente da minha, sem comparações. Eu fiz Português e Espanhol, e ele quer Alemão, porque ele já fala, morou lá, faz Goethe, tem afinidade com a língua. Vai ser bacana.

Daí lembrei que a gente vê na faculdade a definição de “clássico”. Tem até uma matéria optativa (quer dizer, “no meu tempo” tinha), chamada “Porque ler os clássicos?”. E tem um professor que dizia que claśsicos são aqueles livros que a gente tem vergonha de dizer que não leu depois dos 30 anos. Quer dizer, os mais ou menos obrigatórios, ou como diria Harold Bloom (que eu sempre confundo com o Orlando Bloom, que cá entre nós é mais gateenho), o tal Cânone Ocidental.

E, putz, eu me formei em Letras na USP, mas li muito menos do que se esperaria de alguém nessa “condição”. E um professor dizia que a gente tinha que ler, que se a gente não lesse, quem mais leria nesse país? Eu leio muito mais do que a média nacional, óbvio. Mas não é difícil, né, porque a média tende a 0, mesmo entre a suposta elite do país. Eu sou formada em Espanhol mas só li o primeiro volume do Dom Quixote (vergonha!). E outro professor dizia que deveria existir um dispositivo que incinerasse o diploma de quem sai da faculdade sem ter lido o Formação da Literatura Brasileira do Antônio Cândido. Leitura básica, né? E, adivinhem, eu não li. Vergonha total.

E lembrei muito disso recentemente, dessa coisa da idade, porque eu sempre achei que a maturidade pode fazer muita diferença na formação, pode colaborar pra certas leituras. Então eu entrei na faculdade com 20 anos, enquanto muita gente entra com 18, mas acho que só “caiu a ficha” no 2° ou 3° ano. E eu sempre fui uma aluna aplicada, mas parece que rolou um refinamento mesmo. Pode não ter nada a ver com idade, e sim com a fomação: simplesmente aprendi a organizar o pensamento de acordo com o esperado pela Academia. O fato é que fluiu melhor depois de um tempo.

E numas de que agora não estou estudando e posso ler o que quiser, tô indo atrás dos gaps da minha formação, sem critério acadêmico, pensando só no que me interessa, o que é uma delícia. E nisso, li na últimas férias O Apanhador no Campo de Centeio. E foi engraçado. Porque eu não me empolgava, e fiquei pensando se não era como Saramago ou como o Grande Sertão Veredas, que só envolvem de verdade 50 páginas depois. Não me envolveu em momento algum. Eu me sentindo uma anta completa porque, pô, é um clássico. E o Salinger morreu no final de janeiro e todo mundo postando que, uau, o livro é o máximo. Mary W dizendo que o livro mudou a vida dela, quando ela o leu, aos14 anos. E eu pensei, “será?”. Será que há idade para ler certas coisas? Virei uma velha chata e conservadora, por isso “não bateu”? Ou sou só estúpida mesmo? Marido não se conforma de eu não ter curtido o On the road, por exemplo. Nem terminei, achei chatésimo, me dava sono. Entendo que o estilo de vida desse povo era super revolucionário em contraponto com o american way of life dos anos 50, mas, putz, não me empolgou. Pra sorte minha meu pai achou chato também, então se o problema for estupidez, pelo menos tenho a desculpa de ser genético. Fato é que eu prefiro Machadão a qualquer um desses caras aí, fazer o quê.

Falando sério, não acho que eu seja estúpida. Pelo menos não por isso. Há quem estude na faculade teoria da recepção, porque a obra é construída não só pelo autor, mas pelo leitor. Essa coisa de que, no começo, ninguém colocava em dúvida a infielidade de Capitu porque a única leitura possível para o público era que ela era uma vadia arrivista mesmo. Não tô querendo dizer que o rei está nu, eu descobri isso e tudo o que eu não gostei é uma bosta. Mas a leitura é uma experiência única pra cada leitor, nossa recepção tem a ver com a nossa história, as leituras prévias, etc. Por isso que o curso do marido vai ser completamente diferente do meu. Mesmo que cursássemos juntos a mesma matéria já dormindo na mesma cama, a experiência da leitura seria única. E por isso é um tesão, aliás.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Sobre liberdade, livre arbítrio, escolhas...

Ainda sobre o Haiti. Apesar de ter ficado irritada com o Azenha por conta disso, ainda gosto muito do “Vi o mundo”. A cobertura que vem fazendo sobre a tragédia é a mais completa e humana que tenho visto por aí. Além de problematizar a miséria do país, questiona a cobertura da mídia tradicional. Porque não faz sentido, por exemplo, falar de saqueadores num país em que todos estão passando fome. Fazer isso é ter mais apreço pela ordem do que pelos dramas humanos, atitude coerente com a criminalização dos movimentos sociais que se faz cotidianamente por aqui, e insensível até dizer chega.

Daí que a gente sabe que os Estados Unidos tem a sua parcela de responsabilidade pela miséria haitiana, e ela é enorme. Mas agora eles estão lá pra fazer ajuda humanitária. E só quem gosta mais de ideologia do que de gente vai achar que eles não deveriam estar lá. Os haitianos precisam de toda a ajuda possível, não estão em condições de escolher. E isso é devastador, porque no final das contas, essa ajuda vai ter um preço, e o preço é a sua autonomia entregue. Mas, existe liberdade na fome? Essa é a grande questão, a gente não pode perder isso de vista nunca. Sem essa ajuda, não há como sair do lugar, não há esperança possível, e só se poderá falar no futuro quando o presente estiver minimamente organizado: mortos enterrados, sobreviventes tratados, os habitantes minimamente alimentados.

Por isso me incomoda muita essa defesa inconteste do capitalismo feita por algumas pessoas. É lógico que a liberdade do capitalismo é bacana. Mas é bacana pra quem tá incluído. Não se pode falar de escolha quando o que se apresenta como possibilidade é cortar cana ou morrer de fome. Ou, falando em feminismo, se as opções são aguentar surras de um marido violento ou não ter como sustentar os filhos. Tive uma conversa com uma amiga minha uma vez sobre aquele lance do que é melhor, dar o peixe ou ensinar a pescar. Quem tem fome tem pressa, e não dá pra pegar o barquinho e se lançar ao mar de estômago vazio. É preciso dar o peixe e ensinar a pescar, não há outra possibilidade.

Lembrando do meu último post, eu já fui uma pessoa crente. Mas me incomodava o discurso de que tinhamos sido criados para louvar a Deus, com livre arbítrio para escolher fazê-lo. Só que a punição para quem exercicia o seu direito de escolha e não louvava o todo poderoso era o inferno. Oi? Cadê a liberdade aí? Quer dizer, eu sou livre, contanto que siga a cartilha direitinho, senão, sofrimento por toda a eternidade. Então Deus me criou pra ser escrava da sua vaidade? Mesmo quem é religioso há de concordar que esse papinho tem a perna quebrada...

Mas, voltando, o Haiti não pode, nesse momento, dar uma banana para os colonizadores externos como fez com os franceses há mais de duzentos anos. Torço porém para que consigam fazer isso quando se reorganizarem. Desta vez, com mais sucesso.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

O Haiti - ou porque sou cética

Um dos livros que eu mais gostei de ler na faculdade foi "El Reino de Este Mundo", de Alejo Carpentier, que fala do processo de independência do Haiti. Ao contrário da maior parte dos países latino americanos, cuja independência foi um processo conduzido pela elite, ou, no caso do Brasil, o corte de cordão umbilical de pai pra filho (nossa história não é ridícula às vezes?), os haitianos conheceram uma revolução popular, liderado por escravos.

O Haiti é um país miserável, o mais pobre das Américas. Quando alguém te falar que o socialismo é uma droga, "é só olhar Cuba", a resposta perfeita é dar o Haiti como exemplo de como o capitalismo pode ser cruel também. Ou até pior, já que, ao que parece, em Cuba há escassez de recursos mas não há fome (ó, não tô defendendo Cuba nem o Fidel, mas é diferente ser pobre e não ter o que comer - e tem gente que não se atenta a isso). No Haiti o que impera e a fome e a desesperança. Daí vem um terremoto e arrasa com tudo que já é super precário, termina de jogar na miséria a meia dúzia que estava acima da linha de pobreza.

Desculpem o post baixo astral, mas nessas horas fica claro pra mim que não existe Deus, pelo menos não essse ser supremo que decide pela vida das pessoas. Porque seria uma sacanagem sem tamanho determinar que um sujeito vai nascer na Dinamarca e o outro no Haiti. E não quero ouvir que Deus tem lá seus propósitos. Tem que ser muito insensível pra achar alguma explicação plausível que justifique condenar alguém a vir ao mundo para uma vida de tragédias e miséria.

Mas, se sou descrente em Deus, acredito muito em todos os sentimentos humanos e na sua força de transformação, para o bem e para o mal. Por isso vou deixar o link para o post do Alex Castro em que ele agradece as pessoas que o ajudaram depois da passagem do Katrina, que me comoveu muito: http://www.interney.net/blogs/lll/2009/11/25/dia_de_acao_de_gracas/

Triste é saber que os cidadãos haitianos tem muito menos recursos para ajudarem uns aos outros numa situação de tragédia do que os americanos ou mesmo os brasileiros.