Post que eu queria ter escrito na quinta-feira mas não consegui porque teve uma tempestade (oi Kassab e Serra, beijonãomeliguem ) e eu fui “obrigada” a fazer um happy hour com a rapaziada e cheguei de pilequinho. Queria ter feito ontem, mas o cansaço me derrubou. Hoje a preguiça é muita, mas eu sou mais forte. Acho.Marido passou no vestibular. Ele começou Física quando era mais novinho, na idade em que as pessoas entram na faculdade, mas por uma série de motivos teve que parar. E agora vai fazer Letras. Tentou Sociais ano passado, não rolou, e esse ano mudou. E eu tô achando um barato, porque eu entrei em Letras 10 anos atrás, e eu achei a faculdade um tesão. Lógico que eu o influenciei muito. E vou me segurar pra não virar uma chata, pra deixá-lo curtir sua experiência independentemente da minha, sem comparações. Eu fiz Português e Espanhol, e ele quer Alemão, porque ele já fala, morou lá, faz Goethe, tem afinidade com a língua. Vai ser bacana.
Daí lembrei que a gente vê na faculdade a definição de “clássico”. Tem até uma matéria optativa (quer dizer, “no meu tempo” tinha), chamada “Porque ler os clássicos?”. E tem um professor que dizia que claśsicos são aqueles livros que a gente tem vergonha de dizer que não leu depois dos 30 anos. Quer dizer, os mais ou menos obrigatórios, ou como diria Harold Bloom (que eu sempre confundo com o Orlando Bloom, que cá entre nós é mais gateenho), o tal Cânone Ocidental.
E, putz, eu me formei em Letras na USP, mas li muito menos do que se esperaria de alguém nessa “condição”. E um professor dizia que a gente tinha que ler, que se a gente não lesse, quem mais leria nesse país? Eu leio muito mais do que a média nacional, óbvio. Mas não é difícil, né, porque a média tende a 0, mesmo entre a suposta elite do país. Eu sou formada em Espanhol mas só li o primeiro volume do
Dom Quixote (vergonha!). E outro professor dizia que deveria existir um dispositivo que incinerasse o diploma de quem sai da faculdade sem ter lido o
Formação da Literatura Brasileira do Antônio Cândido. Leitura básica, né? E, adivinhem, eu não li. Vergonha total.
E lembrei muito disso recentemente, dessa coisa da idade, porque eu sempre achei que a maturidade pode fazer muita diferença na formação, pode colaborar pra certas leituras. Então eu entrei na faculdade com 20 anos, enquanto muita gente entra com 18, mas acho que só “caiu a ficha” no 2° ou 3° ano. E eu sempre fui uma aluna aplicada, mas parece que rolou um refinamento mesmo. Pode não ter nada a ver com idade, e sim com a fomação: simplesmente aprendi a organizar o pensamento de acordo com o esperado pela Academia. O fato é que fluiu melhor depois de um tempo.
E numas de que agora não estou estudando e posso ler o que quiser, tô indo atrás dos gaps da minha formação, sem critério acadêmico, pensando só no que me interessa, o que é uma delícia. E nisso, li na últimas férias
O Apanhador no Campo de Centeio. E foi engraçado. Porque eu não me empolgava, e fiquei pensando se não era como Saramago ou como o
Grande Sertão Veredas, que só envolvem de verdade 50 páginas depois. Não me envolveu em momento algum. Eu me sentindo uma anta completa porque, pô, é um clássico. E o Salinger morreu no final de janeiro e todo mundo postando que, uau, o livro é o máximo.
Mary W dizendo que o livro mudou a vida dela, quando ela o leu, aos14 anos. E eu pensei, “será?”. Será que há idade para ler certas coisas? Virei uma velha chata e conservadora, por isso “não bateu”? Ou sou só estúpida mesmo? Marido não se conforma de eu não ter curtido o
On the road, por exemplo. Nem terminei, achei chatésimo, me dava sono. Entendo que o estilo de vida desse povo era super revolucionário em contraponto com o
american way of life dos anos 50, mas, putz, não me empolgou. Pra sorte minha meu pai achou chato também, então se o problema for estupidez, pelo menos tenho a desculpa de ser genético. Fato é que eu prefiro Machadão a qualquer um desses caras aí, fazer o quê.
Falando sério, não acho que eu seja estúpida. Pelo menos não por isso. Há quem estude na faculade teoria da recepção, porque a obra é construída não só pelo autor, mas pelo leitor. Essa coisa de que, no começo, ninguém colocava em dúvida a infielidade de Capitu porque a única leitura possível para o público era que ela era uma vadia arrivista mesmo. Não tô querendo dizer que o rei está nu, eu descobri isso e tudo o que eu não gostei é uma bosta. Mas a leitura é uma experiência única pra cada leitor, nossa recepção tem a ver com a nossa história, as leituras prévias, etc. Por isso que o curso do marido vai ser completamente diferente do meu. Mesmo que cursássemos juntos a mesma matéria já dormindo na mesma cama, a experiência da leitura seria única. E por isso é um tesão, aliás.