Eu gosto de futebol. E sempre gostei muito de homens que gostam de futebol. O marido é perdidamente apaixonado. E pelo Palmeiras. E eu sou corintiana. Mas não tem problema, a gente vive bem assim, principalmente quando seca o São Paulo juntos e dá certo. Dois momentos inesquecíveis do nosso relacionamento, ambos proporcionados por times cariocas, foram ver o Fluminense tirar o São Paulo da Libertadores ano passado (antes do jogo cantei a bola de que a decisão sairia no último momento do jogo, e acertei) e a linda vitória do Botafogo duas semanas atrás (jogão, gente, jogão).
E bom, Flamengo campeão. Mereceu muito. Marido super chateado porque, depois de liderarem tanto tempo, não vão nem pra Libertadores. E a graça do futebol é essa, a imprevisibilidade, o “nada como um dia após o outro”. Tanto é assim que o Flamengo é o primeiro time a ser campeão brasileiro depois de levar surra de 5 a 0. E foi do Coritiba, rebaixado hoje.
Além de futebol, eu gosto muito de homem gostoso. E, putz, me lembro a primeira vez que eu vi o Adriano (suspiro...). E além de gostar de futebol de homem gostoso, gosto quando a lógica capitalista não é determinante nas decisões das pessoas.
Considerando tudo isso, tô achando lindo o Flamengo campeão, com o Adriano ídolo e artilheiro. O Adriano é um anti-herói: joga muito, mas é um cara instável, alcóolatra, um Garrincha quase. E eu AMO essa instabilidade, sabe? E o romantismo evocado por ela. O cara tava mal lá na Europa, ganhando bem, mas motivação zero, e vontade de abandonar tudo. Aí pinta o Flamengo e a chance de continuar trabalhando com o que gosta e fazer churrasco na laje com a galera da Vila Cruzeiro de vez em quando. Tem gente que achava aposta furada do time, mas ele chegou e detonou. Não esqueço o primeiro jogo dele de volta, o Maracanã cantando: “eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci...”.
Lógico, o Adriano não ganha troco jogando aqui (se estiver recebendo direitinho, Flamengo é famoso pela inadimplência), mas seu objetivo não é se tornar o atleta mais rico da sua geração. Superada a pobreza, garantido o seu sustento e o dos filhos, ele quer ser um ídolo entre seus iguais, ser reconhecido pela maior torcida do Brasil. Então esse título pra ele é além de um sucesso profissional, um sonho de menino.
E voltando ao marido e ao sofá de casa, há uma aposta interna: verá o marido o seu Palmeiras ser campeão do Libertadores mais uma vez antes de eu ver o meu Corinthians campeão pela primeira vez? Ou será o contrário? O prêmio (além do prazer futebolístico, claro) é significativo: um sapato escândalo pra mim, o equivalente ao valor de um sapato em cerveja (Guinness, especificamente) pra ele. Como para ganhar precisa participar, tô saindo na frente. \o/
domingo, 6 de dezembro de 2009
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Semana
Tem um "empório" (leia-se: vendinha metida a besta cheia de coisas deliciosas e caras que eu não posso comer durante o regime) no caminho entre o trem e a minha casa. Ele também é meio bar, meio restaurante. Segundas e terças-feiras fecha às 18h00, mas nos outros dias fica aberto até meia-noite. De modos que, quando eu volto pra casa na quarta-feira, passo enfrente umas 7 da noite e vejo aberto, meu coraçãozinho se enche de alegria. Cai a ficha de que a semana está perto do fim...
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Leveza
Essa semana assisti a “Persépolis” com o marido, que ele não tinha visto ainda. É uma animação incrivelmente bem produzida que trata uma história triste com toda a leveza possível.
Em algum momento da minha vida fui acusada por uma “ex-amiga” de ser uma pessoa pesada, porque eu tava sempre vendo o lado ruim das coisas, segundo ela. Pô, tomei a pílula vermelha. Sofrimento enorme, esse, viu? Queria, como ela, conseguir fletar com o policial que estava na Sorbonne pra reprimir as manifestações dos estudantes. Mas eu não via o cara gostoso, via a repressão, não rolava mesmo. Não sou uma criatura iluminada, pelo contrário, acho que até sou bem superficial algumas vezes. Mas somo dois mais dois e sou bem crítica, e não tenho culpa disso. Taí o Caio Fernando Abreu, que não me deixa mentir:
"Você pode se recusar a ver, o tempo que quiser: até o fim de sua maldita vida, você pode recusar, sem necessidade de rever seus mitos ou movimentar-se de seu lugarzinho confortável. Mas a partir do momento em que você vê, mesmo involuntariamente, você está perdido: as coisas não voltarão a ser mais as mesmas e você próprio já não será o mesmo. O que vem depois, não se sabe.”
Por outro lado, como muito custo, aprendi que o mundo não vai ser um lugar melhor se eu for infeliz. Que eu preciso sim refletir sobre as minhas escolhas, mas que não é indigno sentir-se bem num mundo tão miserável, contanto que eu não faça de conta que esssa miséria não tem absolutamente nada a ver comigo. Antes eu achava que pra conseguir isso a gente precisava ser muito cínico. Hoje acho que basta um pouco de pragmatismo.
Mas o título fala de leveza. Tenho curtido muito filmes que tratam de temas sérios de maneira leve, mas não leviana, que a gente encara no sábado com pipoquinha assim, despretensiosamente. E o Persépolis, apesar da intensidade, tem uma narradora que faz a sua autobiografia não se levando tão a sério, o que é sensacional. Na mesma categoria, amei de paixão o “A Culpa é do Fidel”. Não assistiu ainda? Corre na locadora ou no torrent, porque é imperdível. E “O Crocodilo” do Nanni Moretti? Comédia leve, mas que faz uma denúncia pesada sobre a máfia que é o governo Berlusconi.
Gosto de filmes e de refletir sobre a realidade. Se eu puder fazer os dois ao mesmo tempo e ainda me divertir então, programa perfeito. Aceito sugestões.
Em algum momento da minha vida fui acusada por uma “ex-amiga” de ser uma pessoa pesada, porque eu tava sempre vendo o lado ruim das coisas, segundo ela. Pô, tomei a pílula vermelha. Sofrimento enorme, esse, viu? Queria, como ela, conseguir fletar com o policial que estava na Sorbonne pra reprimir as manifestações dos estudantes. Mas eu não via o cara gostoso, via a repressão, não rolava mesmo. Não sou uma criatura iluminada, pelo contrário, acho que até sou bem superficial algumas vezes. Mas somo dois mais dois e sou bem crítica, e não tenho culpa disso. Taí o Caio Fernando Abreu, que não me deixa mentir:
"Você pode se recusar a ver, o tempo que quiser: até o fim de sua maldita vida, você pode recusar, sem necessidade de rever seus mitos ou movimentar-se de seu lugarzinho confortável. Mas a partir do momento em que você vê, mesmo involuntariamente, você está perdido: as coisas não voltarão a ser mais as mesmas e você próprio já não será o mesmo. O que vem depois, não se sabe.”
Por outro lado, como muito custo, aprendi que o mundo não vai ser um lugar melhor se eu for infeliz. Que eu preciso sim refletir sobre as minhas escolhas, mas que não é indigno sentir-se bem num mundo tão miserável, contanto que eu não faça de conta que esssa miséria não tem absolutamente nada a ver comigo. Antes eu achava que pra conseguir isso a gente precisava ser muito cínico. Hoje acho que basta um pouco de pragmatismo.
Mas o título fala de leveza. Tenho curtido muito filmes que tratam de temas sérios de maneira leve, mas não leviana, que a gente encara no sábado com pipoquinha assim, despretensiosamente. E o Persépolis, apesar da intensidade, tem uma narradora que faz a sua autobiografia não se levando tão a sério, o que é sensacional. Na mesma categoria, amei de paixão o “A Culpa é do Fidel”. Não assistiu ainda? Corre na locadora ou no torrent, porque é imperdível. E “O Crocodilo” do Nanni Moretti? Comédia leve, mas que faz uma denúncia pesada sobre a máfia que é o governo Berlusconi.
Gosto de filmes e de refletir sobre a realidade. Se eu puder fazer os dois ao mesmo tempo e ainda me divertir então, programa perfeito. Aceito sugestões.
sábado, 28 de novembro de 2009
O jornalismo do não fato
A história só merece desprezo, mas eu resolvi dar pitaco e tentar contextualizá-la na pauta das reinvindicações feministas. Não vou atrás do link (mas no Azenha tem o texto completo), mas é a papo do fulano que ouviu, 15 anos atrás, que o Lula teria tentado molestar um carinha outros 15 anos antes, quando estava preso.
Olha, a gente reclama muito porque sabe que vítimas de estupro têm sua moral julgada, e por isso evitam denunciar. Sabe o quanto isso é horroroso, triste, o quanto a lógica machista impera e cala as mulheres. Nesse ponto, homens estuprados, ou como quer a lei, vítimas de atentados violentos ao pudor, também sofrem por conta do machismo. Agora... sem vítima não tem crime, né, galera? E a Folha da ditabranda, virando a campeã universal do bola-fora (Veja e boimate são hours concours, gente), publica uma coisa dessas, tão golpe baixo, tão sem pé nem cabeça.
Então, se a vítima aparece, 15 anos, 30 anos depois, é uma coisa. Não tem como comprovar a materialidade dos fatos, algo fundamental num processo justo, mas ainda tem uma palavra ali. Mas, assim, “o menino do MEP”? O Lula não é o Polanski. E com isso não estou colocando a mão no fogo por nosso presidente, pelo qual não nutro nenhuma simpatia pessoal (apesar de apoiar este governo). Se aparecesse agora uma mulher dizendo que foi estuprada pelo Polanski 30 anos atrás, ele não teria sido preso, porque é muito difícil comprovar um estupro tanto tempo depois, ainda mais quando não se trata de um estuprador em série.
Só que é ainda pior. É “tentou molestar”. Materialidade nenhuma mesmo. De novo: se foi verdade, é horrível, claro. Mas, como saber? É uma palavra contra a outra. Aliás, uma contra várias, porque lá no Azenha mesmo e no Nassif já apareceu um monte de gente pra dizer que essa história não tem pé nem cabeça.
Minha opinião, assim, muuuuito pessoal, é que o fato não é verdade, mas o Lula pode ter contado a história. Porque falastrão ele é, né? Inventar uma história sórdida e contar assim, numa boa, num ambiente privado, como se não tivesse consequências, até combina com ele. Mas o babaca repetir 15 anos depois e a Folha publicar é o fim.
Lembrei do caso Luísa. Olha só, o cara publicou aquilo na Trip. Disse que fez, e depois disse que era ficção. Mas ninguém inventou que ele fez: a gente leu um discurso em primeira pessoa banalizando a coisa, e chegou a uma conclusão. De qualquer maneira, a não ser que a Luísa aparecesse pra denunciá-lo, só se pode repudiar o texto do cara, mas não processá-lo por estupro. No caso do Lula, a não ser que o “menino do Mep” apareça e a gente ouça a versão dele dos fatos, a gente só pode concluir que o César Benjamin é um tremendo safado e/ou (porque uma coisa não exclui a outra) que o Lula fez uma piada de mal gosto e o cara resolveu valorizá-la.
Agora, a Folha querer fazer jornalismo com "ouvi falar 15 anos atrás que 15 anos antes..." é de lascar, né?
Update em 28/11: segundo está dito aqui, era como eu imaginava. A história foi contada, mas era brincadeira. De muitíssimo mau-gosto, aliás: assédio sexual não é nem um pouco engraçado. Lógico que motivo nenhum pra se orgulhar disso, shame on you, Lula. Mas ele contou isso em um encontro privado, não publicou na Trip, e atire a primeira merda quem nunca fez uma piada mórbida qualquer. Então, quem é canalha, o cara que contou a piada ou o que quer usar isso politicamente 15 anos depois?
Olha, a gente reclama muito porque sabe que vítimas de estupro têm sua moral julgada, e por isso evitam denunciar. Sabe o quanto isso é horroroso, triste, o quanto a lógica machista impera e cala as mulheres. Nesse ponto, homens estuprados, ou como quer a lei, vítimas de atentados violentos ao pudor, também sofrem por conta do machismo. Agora... sem vítima não tem crime, né, galera? E a Folha da ditabranda, virando a campeã universal do bola-fora (Veja e boimate são hours concours, gente), publica uma coisa dessas, tão golpe baixo, tão sem pé nem cabeça.
Então, se a vítima aparece, 15 anos, 30 anos depois, é uma coisa. Não tem como comprovar a materialidade dos fatos, algo fundamental num processo justo, mas ainda tem uma palavra ali. Mas, assim, “o menino do MEP”? O Lula não é o Polanski. E com isso não estou colocando a mão no fogo por nosso presidente, pelo qual não nutro nenhuma simpatia pessoal (apesar de apoiar este governo). Se aparecesse agora uma mulher dizendo que foi estuprada pelo Polanski 30 anos atrás, ele não teria sido preso, porque é muito difícil comprovar um estupro tanto tempo depois, ainda mais quando não se trata de um estuprador em série.
Só que é ainda pior. É “tentou molestar”. Materialidade nenhuma mesmo. De novo: se foi verdade, é horrível, claro. Mas, como saber? É uma palavra contra a outra. Aliás, uma contra várias, porque lá no Azenha mesmo e no Nassif já apareceu um monte de gente pra dizer que essa história não tem pé nem cabeça.
Minha opinião, assim, muuuuito pessoal, é que o fato não é verdade, mas o Lula pode ter contado a história. Porque falastrão ele é, né? Inventar uma história sórdida e contar assim, numa boa, num ambiente privado, como se não tivesse consequências, até combina com ele. Mas o babaca repetir 15 anos depois e a Folha publicar é o fim.
Lembrei do caso Luísa. Olha só, o cara publicou aquilo na Trip. Disse que fez, e depois disse que era ficção. Mas ninguém inventou que ele fez: a gente leu um discurso em primeira pessoa banalizando a coisa, e chegou a uma conclusão. De qualquer maneira, a não ser que a Luísa aparecesse pra denunciá-lo, só se pode repudiar o texto do cara, mas não processá-lo por estupro. No caso do Lula, a não ser que o “menino do Mep” apareça e a gente ouça a versão dele dos fatos, a gente só pode concluir que o César Benjamin é um tremendo safado e/ou (porque uma coisa não exclui a outra) que o Lula fez uma piada de mal gosto e o cara resolveu valorizá-la.
Agora, a Folha querer fazer jornalismo com "ouvi falar 15 anos atrás que 15 anos antes..." é de lascar, né?
Update em 28/11: segundo está dito aqui, era como eu imaginava. A história foi contada, mas era brincadeira. De muitíssimo mau-gosto, aliás: assédio sexual não é nem um pouco engraçado. Lógico que motivo nenhum pra se orgulhar disso, shame on you, Lula. Mas ele contou isso em um encontro privado, não publicou na Trip, e atire a primeira merda quem nunca fez uma piada mórbida qualquer. Então, quem é canalha, o cara que contou a piada ou o que quer usar isso politicamente 15 anos depois?
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Mea culpa, ou sobre a incoerência cotidiana
A coisa mais comum do mundo é encontrar gente se comportando de maneira oposta ao seu discurso. A gente chama isso de incoerência. Quando a gente indetifica, costuma apontar lá o dedão no incoerente. Eu acho que às vezes até é bem válido, quando o incoerente usa o seu discurso para julgar nossas ações, mas se dá ao direito de ter seus próprios critérios. Porque além de incoerente, a pessoa vira uma hipócrita. Mas o ser humano é cheio de incoerências, né?
A família lá da França tinha um discurso politicamente correto e tal, mas não separava o lixo reciclável. E um dia minha “patroa” contou que, numa conversa com os colegas do trabalho, todo mundo deu uma desculpa para não separá-lo, ainda que achasse reciclagem uma idéia fantástica. Uma vez, almoçando com ex-colegas de trabalho, comentou-se o absurdo da quantidade de veículos em São Paulo circulando ocupados por somente uma pessoa. Daí Fulano lembrou que era vizinho do Sicrano, e do Beltrano. E todo mundo se deu conta de que tinha um colega de trabalho morando em seu bairro. Mas apesar disso, concluiram que dar carona não funcionaria porque “tolheria a nossa liberdade de ir e vir nos horários mais convenientes”.
O blog 7 x 7 da Época tem umas coisas muita machistas e retrógradas às vezes, como o post sobre a Dilma, mas a mesma Ruth de Aquino, capaz daquele discurso reaça de carteirinha, fez um post que me comoveu bastante. Fala de um documentário sobre mulheres de diferentes idades e classes sociais que contraíram Aids de seus maridos. E aí eu percebi uma enorme incoerência minha, e me incomodei muito. Com todos ex-namorados, ficantes, one-night-stand e etc, sempre usei camisinha. Conheci o namorido há dois anos, quando eu e ele já tinhamos “aproveitado bastante a vida”. Quando começamos a sair, usávamos camisinha, mas um dia deixamos de usar. Conversamos sobre o assunto, mas pra ser honesta, não consigo me lembrar de todos os termos. Não fizemos exame antes. Deixo muito claro que também não foi uma imposição machista dele: só deixamos a camisinha porque eu concordei sem nenhuma resistência. Como sou doadora de sangue, ele ainda tinha essa garantia de que, muito provavelmente, eu estava “bem”. Eu, nem isso. Há um acordo de que, se um dia (ou quando, pra ser mais realista) transarmos com outras pessoas ainda estando juntos, vamos ter o cuidado de usá-la.
Mas, putz, e daí, né? Quer dizer, o namorido pode ficar chateado ao ler isso (mas acho que não), mas quem me garantiu que ele não tinha HIV quando a gente se conheceu? A palavra dele, que talvez nem soubesse também? E quem o garantiu que eu não fosse HIV positiva? A última doação de sangue que eu fiz 6 meses antes de conhecê-lo? Não, né. A gente fica romântico, e fica burro. Honestamente, não acho que “isso nunca vai acontecer comigo”. Sei, muito conscientemente, dos riscos que corremos, eu e ele, até porque “mulher contrair HIV do marido” não é uma ficção, há um caso assim no nosso círculo de relações. Porque se comportar assim, então? Não sei responder.
E me sinto ainda pior porque eu não aponto o dedo na cara, mas muitas vezes julgo a falta de cuidado do outro, sabe? Apesar de ser pró-aborto, tendo a, no meu íntimo, acreditar que a pessoa que engravidou sem ter se planejado não fez o suficiente para evitar a gravidez, porque eu sempre usei pílula E camisinha. Não uso agora porque um filho não planejado neste momento seria bem vindo. Mas contrair uma doença venérea não seria bacana em momento algum, óbvio, e isso eu não estou evitando. E este post é um mea culpa: não posso julgar. Nunca, jamais em tempo algum, porque eu também sou humana.
Não sou insensível a ponto de dizer “bem-feito!”. Nem pra quem se descuidou engravidou sem se planejar, nem para a mulher que aceitou voltar para o marido violento e apanhou de novo e, nem pra quem contraiu câncer de pele de tanto torrar no branzeamento artificial. Tenho a delicadeza de me solidarizar com os dramas do outro mesmo sendo decorrentes de atitudes que não combinam com o meu discurso, porque o respeito a alteridade, ao direito do outro de ser outro, é fundamental pra mim. Só demorei a me dar conta de que o outro do meu discurso, às vezes, é a minha ação.
A família lá da França tinha um discurso politicamente correto e tal, mas não separava o lixo reciclável. E um dia minha “patroa” contou que, numa conversa com os colegas do trabalho, todo mundo deu uma desculpa para não separá-lo, ainda que achasse reciclagem uma idéia fantástica. Uma vez, almoçando com ex-colegas de trabalho, comentou-se o absurdo da quantidade de veículos em São Paulo circulando ocupados por somente uma pessoa. Daí Fulano lembrou que era vizinho do Sicrano, e do Beltrano. E todo mundo se deu conta de que tinha um colega de trabalho morando em seu bairro. Mas apesar disso, concluiram que dar carona não funcionaria porque “tolheria a nossa liberdade de ir e vir nos horários mais convenientes”.
O blog 7 x 7 da Época tem umas coisas muita machistas e retrógradas às vezes, como o post sobre a Dilma, mas a mesma Ruth de Aquino, capaz daquele discurso reaça de carteirinha, fez um post que me comoveu bastante. Fala de um documentário sobre mulheres de diferentes idades e classes sociais que contraíram Aids de seus maridos. E aí eu percebi uma enorme incoerência minha, e me incomodei muito. Com todos ex-namorados, ficantes, one-night-stand e etc, sempre usei camisinha. Conheci o namorido há dois anos, quando eu e ele já tinhamos “aproveitado bastante a vida”. Quando começamos a sair, usávamos camisinha, mas um dia deixamos de usar. Conversamos sobre o assunto, mas pra ser honesta, não consigo me lembrar de todos os termos. Não fizemos exame antes. Deixo muito claro que também não foi uma imposição machista dele: só deixamos a camisinha porque eu concordei sem nenhuma resistência. Como sou doadora de sangue, ele ainda tinha essa garantia de que, muito provavelmente, eu estava “bem”. Eu, nem isso. Há um acordo de que, se um dia (ou quando, pra ser mais realista) transarmos com outras pessoas ainda estando juntos, vamos ter o cuidado de usá-la.
Mas, putz, e daí, né? Quer dizer, o namorido pode ficar chateado ao ler isso (mas acho que não), mas quem me garantiu que ele não tinha HIV quando a gente se conheceu? A palavra dele, que talvez nem soubesse também? E quem o garantiu que eu não fosse HIV positiva? A última doação de sangue que eu fiz 6 meses antes de conhecê-lo? Não, né. A gente fica romântico, e fica burro. Honestamente, não acho que “isso nunca vai acontecer comigo”. Sei, muito conscientemente, dos riscos que corremos, eu e ele, até porque “mulher contrair HIV do marido” não é uma ficção, há um caso assim no nosso círculo de relações. Porque se comportar assim, então? Não sei responder.
E me sinto ainda pior porque eu não aponto o dedo na cara, mas muitas vezes julgo a falta de cuidado do outro, sabe? Apesar de ser pró-aborto, tendo a, no meu íntimo, acreditar que a pessoa que engravidou sem ter se planejado não fez o suficiente para evitar a gravidez, porque eu sempre usei pílula E camisinha. Não uso agora porque um filho não planejado neste momento seria bem vindo. Mas contrair uma doença venérea não seria bacana em momento algum, óbvio, e isso eu não estou evitando. E este post é um mea culpa: não posso julgar. Nunca, jamais em tempo algum, porque eu também sou humana.
Não sou insensível a ponto de dizer “bem-feito!”. Nem pra quem se descuidou engravidou sem se planejar, nem para a mulher que aceitou voltar para o marido violento e apanhou de novo e, nem pra quem contraiu câncer de pele de tanto torrar no branzeamento artificial. Tenho a delicadeza de me solidarizar com os dramas do outro mesmo sendo decorrentes de atitudes que não combinam com o meu discurso, porque o respeito a alteridade, ao direito do outro de ser outro, é fundamental pra mim. Só demorei a me dar conta de que o outro do meu discurso, às vezes, é a minha ação.
domingo, 15 de novembro de 2009
Contemporaneidades
"Mesmo se desobedece às leis da comunidade, o homem continua a pertencer-lhe; não passa de um menino levado que não ameaça a ordem coletiva. Ao contrário, se a mulher se evade da sociedade, retorna à Natureza e ao demônio, desencadeia no seio da coletividade foças incontroláveis e perniciosas"
BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo, 1949
Só eu fico assustada quando certos clássicos parecem ter sido publicados tipo assim, essa semana?
BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo, 1949
Só eu fico assustada quando certos clássicos parecem ter sido publicados tipo assim, essa semana?
sábado, 14 de novembro de 2009
Ode à comida!
Três anos atrás eu pesava 10kg menos que agora. Ao contrário de todas as amigas na mesma situação, voltei da França com 4kg menos do que quando cheguei lá. Engordei quase 2kg no inverno, mas quando começou a esquentar eu fui emagrecendo entre 1kg e 1,5kg por mês. Tomando vinho, comendo chocolate, pão com manteiga (eu poderia passar o resto da vida comendo baguete francesa e manteiga Président). A família pra quem eu trabalhava tinha uma balança no banheiro. Às segundas, dia em que eu limpava a casa, eu ia me pesar. Lembrava do sorvete do final de semana e pensava: "já era, engordei". Mas não, tava sempre um pouquinho menos do que na semana anterior.
Esses bons tempos acabaram. Chegando ao Brasil, ganhei uns 2kg logo na primeira semana: não conseguia parar de comer goiabada com queijo. Deve ter uns bons meses que eu não como goiabada com queijo, mas na época a privação por 1 ano despertou uma compulsão sem precedentes. Ganhei mais alguns quilos depois disso e achei que tinha chegado a um teto. É que eu sempre tive tetos, aquele limite que, mesmo comendo sem critério, dali não passava. E eu nunca na vida fui muito gorda, nem fui magra. Não sou muito alta (tenho 1,67), mas tenho pernas grossas, costar largas, um pulso grosso. Não sou nada mignon, então não dá pra ser magrinha mesmo. Ah! E nunca tive barriga saliente, o que é uma tremenda vantagem estética. Sempre vivi feliz usando manequim 42.
Voltando, de uns tempos pra cá, a coisa desandou e eu comecei a engordar mesmo sem exagerar. Mentira: eu não sou compulsiva, mas sou gulosa. E a balança tem sido implacável. Um dia me pesei e vi que, bastava um final de semana mais glutão, e eu chegaria aos 80kg (antes disso já tinha notado que as calças 44 estão apertaaaaadas). Aí acendou uma luz amarela e eu resolvi marcar uma consulta com uma endocrinologista. Ela me pediu uns exames e chegou à conclusão mais provável: nada de errado comigo, mas o meu metabolismo mudou. Ano que vem faço 30 anos, e as coisas resolveram ser mais lentas. E pior: segundo a médica, minha glicemia está no limite então, se eu não me cuidar, não serei uma gordinha saudável, serei uma gordinha diabética.
Bom, regime então. Fiquei morrendo de medo da médica insistir em remédios, porque eu não quero, acho que meu caso não é sério assim. Pra minha surpresa, ela só rabiscou um cardápio no receituário mesmo. E, bacana, é comida pra caramba! Umas 3 frutas por dia, arroz com feijão, pão integral com queijo de manhã (e nem precisa ser daqueles brancos sem gosto, pode ser o Minas Padrão, mais cremosinho, que eu adoro). O lanche da tarde por de ser uma banana nanica, ou um iogurte, ou uma xícara grandona de capuccino. Não vou passar fome, mesmo sendo comilona. Mas vou passar vontade: sem docinhos, sem petisco de boteco, sem ceveja. Segundo ela, sem academia nem nada, dá pra perder uns 3kg por mês, o que significaria chegar bem mais elegante ao meu aniversário em março. Vale o esforço.
Hoje fui ao mercado e à feira. Comprei muitas frutas e legumes e verduras e queijo e barrinhas de cereal. Passei os últimos dias me despedindo do cardápio trash. Sexta rolou hamburguer e cheesecake, até amanhã rolam as últimas cervejinhas. Vai rolar também uma visita providencial à minha mãe amanhã, pra almoçar. Tenho que confessar que estes 10kg extras ao mesmo tempo que me incomodam, são a recordação de muitos momentos bacanas, sabem? Muito chopp trincando, muita coxinha do Veloso e do Frangó, muita pizza da Brás, muita costelinha do Outback, barras de chocolate importadas e nacionais, muita picanha nos churrasco na casa da sogra, lautos jantares (em geral risotos, adoro risotos) preparados com carinho para os meus amigos, regados à vinho tinto, feijoadas com os amigos do marido em São José. De acordo com a médica, a dieta deve ser seguida de segunda a segunda. Final de semana livre, só quando eu estiver no peso ideal, na fase de manutenção. Então este post é uma homenagem a todas as coisas que eu adoro comer e que não vão fugir: vão só ficar mais distantes de mim por alguns meses. Se eu me comportar diretinho, vou reencontrá-las em breve. A coxinha olhará pra mim e nem me reconhecerá: "nossa, Iara, como você tá elegante!". Ok, viajei agora, desculpaê.
Pra minha sorte, eu sou tão gulosa que gosto das coisas saudáveis e magrinhas também: adoro salada fresquinha, quase todas as frutas, pão integral, salmão grelhado...
Esses bons tempos acabaram. Chegando ao Brasil, ganhei uns 2kg logo na primeira semana: não conseguia parar de comer goiabada com queijo. Deve ter uns bons meses que eu não como goiabada com queijo, mas na época a privação por 1 ano despertou uma compulsão sem precedentes. Ganhei mais alguns quilos depois disso e achei que tinha chegado a um teto. É que eu sempre tive tetos, aquele limite que, mesmo comendo sem critério, dali não passava. E eu nunca na vida fui muito gorda, nem fui magra. Não sou muito alta (tenho 1,67), mas tenho pernas grossas, costar largas, um pulso grosso. Não sou nada mignon, então não dá pra ser magrinha mesmo. Ah! E nunca tive barriga saliente, o que é uma tremenda vantagem estética. Sempre vivi feliz usando manequim 42.
Voltando, de uns tempos pra cá, a coisa desandou e eu comecei a engordar mesmo sem exagerar. Mentira: eu não sou compulsiva, mas sou gulosa. E a balança tem sido implacável. Um dia me pesei e vi que, bastava um final de semana mais glutão, e eu chegaria aos 80kg (antes disso já tinha notado que as calças 44 estão apertaaaaadas). Aí acendou uma luz amarela e eu resolvi marcar uma consulta com uma endocrinologista. Ela me pediu uns exames e chegou à conclusão mais provável: nada de errado comigo, mas o meu metabolismo mudou. Ano que vem faço 30 anos, e as coisas resolveram ser mais lentas. E pior: segundo a médica, minha glicemia está no limite então, se eu não me cuidar, não serei uma gordinha saudável, serei uma gordinha diabética.
Bom, regime então. Fiquei morrendo de medo da médica insistir em remédios, porque eu não quero, acho que meu caso não é sério assim. Pra minha surpresa, ela só rabiscou um cardápio no receituário mesmo. E, bacana, é comida pra caramba! Umas 3 frutas por dia, arroz com feijão, pão integral com queijo de manhã (e nem precisa ser daqueles brancos sem gosto, pode ser o Minas Padrão, mais cremosinho, que eu adoro). O lanche da tarde por de ser uma banana nanica, ou um iogurte, ou uma xícara grandona de capuccino. Não vou passar fome, mesmo sendo comilona. Mas vou passar vontade: sem docinhos, sem petisco de boteco, sem ceveja. Segundo ela, sem academia nem nada, dá pra perder uns 3kg por mês, o que significaria chegar bem mais elegante ao meu aniversário em março. Vale o esforço.
Hoje fui ao mercado e à feira. Comprei muitas frutas e legumes e verduras e queijo e barrinhas de cereal. Passei os últimos dias me despedindo do cardápio trash. Sexta rolou hamburguer e cheesecake, até amanhã rolam as últimas cervejinhas. Vai rolar também uma visita providencial à minha mãe amanhã, pra almoçar. Tenho que confessar que estes 10kg extras ao mesmo tempo que me incomodam, são a recordação de muitos momentos bacanas, sabem? Muito chopp trincando, muita coxinha do Veloso e do Frangó, muita pizza da Brás, muita costelinha do Outback, barras de chocolate importadas e nacionais, muita picanha nos churrasco na casa da sogra, lautos jantares (em geral risotos, adoro risotos) preparados com carinho para os meus amigos, regados à vinho tinto, feijoadas com os amigos do marido em São José. De acordo com a médica, a dieta deve ser seguida de segunda a segunda. Final de semana livre, só quando eu estiver no peso ideal, na fase de manutenção. Então este post é uma homenagem a todas as coisas que eu adoro comer e que não vão fugir: vão só ficar mais distantes de mim por alguns meses. Se eu me comportar diretinho, vou reencontrá-las em breve. A coxinha olhará pra mim e nem me reconhecerá: "nossa, Iara, como você tá elegante!". Ok, viajei agora, desculpaê.
Pra minha sorte, eu sou tão gulosa que gosto das coisas saudáveis e magrinhas também: adoro salada fresquinha, quase todas as frutas, pão integral, salmão grelhado...
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