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quinta-feira, 17 de junho de 2010

A Globo e o “Cala a Boca Galvão” - ou sobre o acesso à informação

Olhem só, eu não tô no twitter, mas às vezes sei o que acontece. E isso virou notícia. Então, se por acaso alguém que passar por aqui não souber (quem sabe pode pular pro segundo parágrafo): o twitter tem lá seus “trending topics”, os assuntos mais comentados. E, de repente, “cala boca galvão” passou a ser um deles, porque de tanto retwittar, o volume de mensagens com este tema ficou enorme. E os gringos começaram a querer saber e alguém inventou uma história hilária de que Galvão era uma espécie em extinção, que se você retwitasse a mensagem contribuiria com a campanha para salvá-lo.
Mas, enfim, virou notícia fora do twitter. E a própria Globo não pode ignorar. Parece que o Galvão Bueno se fez de desentendido até ser pressionado a “entrar na brincadeira”. Só que, oi, não é brincadeira. As pessoas não suportam o cara. Mas a Globo se apropriou e quer passar a idéia de que é uma brincadeira carinhosa com o locutor tão querido, que, simpático e bonachão que só, aceitou. Ó, que meigo?
E tudo é uma bobagem (divertidíssima, claro, mas bobagem) e eu realmente não acredito que o Galvão corra o menor risco de ficar sem emprego por isso. Nem me importo, na verdade. Quem tem só TV aberta pode assistir na Bandeirantes os jogos da Copa (há quem não suporte o Neto comentando, mas eu acho engraçado), quem tem TV a cabo pode tentar a ESPN. Aliás, pra quem tem essa possibilidade, eu recomendo fortemente. Outro dia ouvi minha chefe reclamando que os caras lá não são entusiasmados, mas eles manjam muito e fazem jornalismo esportivo de qualidade, uma coisa que eu não estava muito acostumada a ver quando só assistia à Globo, aliás. Sabe gente que manja do que faz sem deslumbramento? Então.
Mas voltando. Acho que o importante dessa história é se, de repente, uma geração aí mais jovem começar a desenvolver a percepção de que a Globo deturpa as coisas à sua maneira. E se faz isso com uma coisa aparentemente inocente, mas de tanta repercussão, o que não fará com coisas menores, menos óbvias talvez, mas mais sérias?
Não sei também se todo mundo aqui sabe, mas nos anos 80 a Globo tentou dar um golpe nas eleições pra governador do RJ. O Brizola ganhou, mas noticiaram no Jornal Nacional que tinha sido o oponente (nem idéia de quem seja), que era mais de acordo com a vontade deles. Nem vou entrar aqui no episódio da edição do debate entre o Collor e o Lula feita por eles, porque acho que é bem mais controversa. Mas me lembrei da marmelada clássica: ignorar o movimento “Diretas Já!”. Enfim, eles tentam construir uma História, segundo sua conveniência. Mas quem não se dá conta, aceita a voz deles como expressão da verdade.
Além de colegas na Pós, tenho amigos queridos que são jornalistas e trabalham para grandes meios. Eu respeito muito o trabalho deles, e justamente por respeitar, sei que não é a voz deles ali publicada. É, em alguma medida, a voz deles, mas filtrada e editada pelos interesses do patrão. A liberdade de expressão até bem pouco tempo atrás era quase exclusiva dos detentores do acesso aos meios de comunicação em massa. Só que essa era está acabando. Um post modesto meu espinafrando o Manuel Carlos foi twittado por uma amiga e retwittado por mais algumas pessoas. Não tenho a menor idéia de quantas pessoas o leram, porque não tenho contador de visualizações, mas com certeza meu texto alcançou meios por onde eu não circulo e atraiu alguma atenção para a minha opinião. Projetando isso exponencialmente, eu só posso ter a esperança de que um dia tenhamos acesso a uma maior diversidade de pontos de vista, o que nos obrigue a desenvolver maior senso crítico para analizar qualquer informação recebida. Serei eu uma otimista?

domingo, 6 de junho de 2010

Vote em mim – ou pelo menos me ajude a fazer minha monografia

Daí que eu tô fazendo essa pós que não tem nada a ver com a minha formação original, Letras, nem com o meu trabalho atual, assistente-de-quase-tudo. E, bom, tem uma monografia pra entregar no final do curso. Só que a avaliação semestral é, justamente, uma parte da monografia. O coordenador do curso diz que se dá por satisfeito se a gente entregar agora, pra esse primeiro semestre, pelo menos uma introdução, contando o que afinal a gente pretende estudar, e uma bibliografia. E, adivinhem? Nem idéia. Quer dizer, eu tenho uma idéia. O curso se chama Economia Urbana e Gestão Pública, então o trabalho tem que tangenciar algum desses aspectos, senão os dois. Eu quero falar de transporte público, acho. Quer dizer, tenho quase certeza. Mas eu não sei exatamente como abordar. E turma criou um documento pra o povo colocar os seus dados e o tema que pretende estudar. E uma colega colocou lá “Mobilidade urbana e política viária” e eu já me achei uma bosta porque só o título do dela já parece mais sério que o meu. É, eu sou tolinha demais, eu sei.
Daí que além de ler “O que é cidade”, da Raquel Rolnik, eu li “O que é Transporte Urbano”, do Charles Leslie Wright (e eu não vou colocar referência bibliográficas aqui porque este não é meu trabalho, nem links porque eu tô com preguiça, mas quem achar interessante vai no google, né? obrigada). E os dois são muito bons, mas o segundo eu achei fantástico. Porque ele começa abordando 10 mitos sobre transportes e já abalou minhas convicções. Porque um dos mitos derrubados é de que o transporte público é a resposta para o problema de transporte nas grandes cidades. E, olha só, eu acreditava nisso, por isso escolhi como tema do trabalho. E claro, o autor disse que o transporte público é importantíssimo, mas ele é só parte da soluão, não A solução.
O autor é entusiasta dos meios não mecânicos de transporte, principalmente da bicicleta. E foi coincidência porque eu li isso bem na semana em que o Valdson comentou aqui num post antigo em que eu me queixava dos transportes públicos, sugerindo que eu usasse bicicleta. Para Wright, a bicicleta é um sucesso por vários fatores, entre eles o fato de você poder levar cargas com ela (é só ter um bom cesto, supermercados fazem entregas grandes assim), não poluir nadica de nada e, olha só, já combater um outro mal moderno: a obesidade. Se a gente se deslocasse por aí pedalando uma hora por dia, ficava mais magrinho sem precisar pagar academia.
Daí eu pensei que, lógico, tem uma boa parte de escolhas individuais aí (e eu te digo que eu não uso bicicleta, mas tento fazer muita coisa a pé), mas falta muita iniciativa do poder público, ô se falta. Pra começar, existe nas grandes cidades uma concentração de postos de trabalho em determinadas regiões. Não tenho as estatísticas (nota mental: isso cabe no trabalho, tenho que pesquisar), mas aqui em São Paulo muita gente trabalha no eixo da Marginal Pinheiros, eu e marido inclusive. A gente escolheu, porque cabe no bolso, morar não muito longe e usar transporte público. Pra isso, pagamos um aluguel bem salgado em troca de qualidade de vida – caminhamos 15 minutos até a estação de trem mais próxima, andamos 4 estações, e no total levamos cerca de 40 minutos por deslocamento – ou 1h20 diárias. Isso em São Paulo é luxo, acreditem. Temos, nós dois, colegas que levam mais de 3 horas diárias dirigindo. E lógico, se estrassando e poluindo o ambiente por tabela. Dá pra todo mundo morar perto do trabalho? Não se o trabalho estiver concentrado em uma só região. Mas seria mais viável se houvesse investimento público para criar um centro corporativo moderno na zona leste, por exemplo. Diariamente, centenas de milhares de pessoas se deslocam da zona leste de São Paulo para trabalhar nas zonas sul e oeste. E Wright tem razão: não tem metrô que dê conta do recado. Nem metrô, nem ônibus fretado, nem via pra passar tanto carro. As pessoas precisam fazer trajetos mais curtos, com urgência.
Outra coisa que me ocorreu outro dia é que o poder público poderia conceder incentivos para empresas que permitem aos seus funcionários trabalharem de casa. O meu caso, como eu já contei, é um pouco mais complicado, mas vários dos meus colegas vão ao escritório pra resolver remotamente problemas de software dos clientes espalhados pela América Latina. E se vão trabalhar remotamente mesmo, que diferença faz fazer isso em casa? Sim, acho que o mínimo de contato com os colegas é importante, mas poderiam ir ao escritório uma vez por semana só. Marido é a mesma coisa. Ele é projetista. Um computador com o software e uma conexão de internet são suficientes pra ele fazer seu trabalho. Sim, de vez em quando tem que tirar dúvidas, mas a maioria um e-mail ou uma conversa telefônica resolveriam. Uma reunião física uma ou duas vezes por semana dava conta do mais complicado. Imaginem quanta gente poderia trabalhar assim? E o ganho para as próprias empresas, em energia elétrica e aluguel? Ok, alguém pode dizer, mas então o empregado é que vai arcar com essa despesa? Não exatamente, né? Porque se ele vai economizar com combustível, estacionamento, ônibus fretado e, principalmente, horas de sono e muita aporrinhação, o benefício compensa 50 pilas a mais na conta de luz.
Enfim. Acho o problema do trânsito (ou da mobilidade, pra falar bonito igual minha colega) super negligenciado, e sempre tratado com olhos conservadores demais. Mais avenidas não resolvem, isso está claro. E esse é um problema que complica a vida de todo mundo: os mais pobres sofrem mais porque vivem mais longe e seu transporte é de pior qualidade, mas a não ser os muito ricos que podem pegar um helicóptero (e acho que mesmo os muito ricos não podem se dar a este luxo todos os dias), todos sofrem com os engarrafamentos, não importa quanto dinheiro tenham. Então, mesmo quem é cabecinha de ostra e acha que só ricos tem direitos e pobre é assim porque não gosta de trabalhar (acho que ninguém passa por aqui, felizmente), há de convir que deste jeito, não dá pra ficar.

Ok. E daí, minha gente, por onde eu começo? :-)

quarta-feira, 2 de junho de 2010

O caso Maristela Just

Outro dia, ouvindo uma mãe chamando a atenção de filha de 7 anos por se sentar de pernas abertas, me lembrei que desde cedo aprendemos como o mundo é machista. Mas Natália Just aprendeu isso talvez ainda mais cedo, e de maneira muito mais pesada. Quando ainda não tinha completado 5 anos, seu pai matou sua mãe. Ela, o irmão mais novo e um tio também foram seriamente feridos na mesma ocasião, mas sobreviveram. E só hoje, 21 anos depois, com a idade que sua mãe tinha quando foi assassinada, pode ver o assassino ser condenado. Em primeira instância ainda, e foragido da justiça.

O julgamento havia sido marcado para o dia 13 de maio, mas diante da ausência do acusado e de sua defesa, teve que ser adiado (ontem o julgamento ocorreu à revelia). E foi nessa época que fiquei sabendo da história pela internet. Fui fuçando na internet e descobri que Natália, que antes evitava se manifestar sobre o assunto publicamente, criou um blog, que hoje atualiza com a ajuda do irmão Zaldo. E lá achei o link para esse depoimento, que me tocou tanto.

Lembram quando eu escrevi aqui sobre justiça? Sobre processo civilizatório ser completamente oposto a linchamento? No depoimento somos apresentados a uma mulher muito forte, centrada e muito humana. Que não perdoa o assassino, mas não busca vingança. Entendemos que deve ter sido uma dor imensurável ter sido privada da mãe, saber que o pai foi o responsável, ter que crescer com isso. E que teve um processo aí, de tomar força de amadurecer, pra conseguir dar conta de se expressar. Como não sentir um profundo respeito por sua história?

Triste é saber que não é exceção. Que há muitos homens atentando contra suas companheiras por aí. Nos jornais aparecem todos os dias. E acho que não é nada difícil conhecer algum caso assim pessoalmente, nem que seja do amigo de um amigo. E rola sempre uma relativização, uma tentiva de atribuir a vítima nem que seja uma parte de sua culpa. Lembram-se do Pimenta Neves, o jornalista que matou a namorada? Na época li em alguns lugares que a vítima, muitos anos mais nova, tinha recebido inúmeras promoções em curto espaço de tempo por se relacionar com um chefão da imprensa e, estando confortavelmente instalada num cargo bom, resolver dar um pé na bunda do cara. No que eu pergunto: o que interessa? Ok, acho que não ia gostar de tê-la como colega de trabalho. Daí a justificar seu assassinato, vai uma enormidade.

Mas sim, as pessoas tentam justificar assassinatos – principalmente quando as vítimas são mulheres. O pai do assassino de Maristela, um advogado criminalista diga-se de passagem, alegou que seu filho agiu em legítima defesa da honra, com se espera de um homem com brio. Pois é. Lembram a história de que homem tem honra, mulher tem vergonha? É isso. Se a gente não tem vergonha, o homem “proprietário” (pode ser pai, marido, ex-marido, ou qualquer um que se julgue no direito) tem que lavar sua honra com sangue. A bárbarie minha gente, sempre ela.

Por isso gostei tanto do depoimento da Natália. Ela não defende a bárbarie. Ela quer a civilização, colocar a cabeça no travesseiro e saber que não vive num mundo em que assassinos transitam por aí impunemente, protegendo-se por trás de um sistema machista. Nisso com certeza estamos juntas.

sábado, 1 de maio de 2010

A prática da tortura no Brasil

Quinta-feira teve um happy hour da empresa. Na saída, dois colegas meus voltavam de trem, mais ou menos 10 da noite, quando um grupo deu uma trombada em um deles no momento em que as portas do vagão estavam se fechando em uma das estações. Levaram sua carteira. Aí começa a saga policial da qual só não foi testemunha porque não fui ao happy hour, já que o trem é meu meio de transporte também.
Enfim, saíram com a carteira. Três pessoas: duas mulheres por volta de 25 anos e um homem de 30. Fechadas as portas, quando olharam para o vagão ao lado (alguns dos trens tem uma janelinha que permite a visualização do vagão contíguo) viram que uma das mulheres estava lá. Na estação seguinte, tentaram trocar de vagão, mas a mulher saiu e, em vez de ir em direção à saída da estação, foi até a ponta da plataforma. Importante esclarecer que meus dois colegas são educadíssimos e jamais abordariam uma pessoa simplesmente desconfiando de sua responsabilidade pelo furto, por mais suspeitas que fossem suas atitudes. Mas, enfim, dali a dois minutos um senhor estava se sentando para aguardar o trem e viu que a carteira de nosso colega estava lá, intacta. Nem o dinheiro tiveram tempo de levar. Entenderam que a mulher a havia descartado quando notou que estava sendo seguida, para não ser pega em flagrante.
Bom, foram comunicar os ocorridos ao agente da estação. Contaram lá que um grupo assim e assim, com tais características, estava furtando carteiras. Dali há pouco, passaram um rádio avisando que um suspeito tinha sido detido na estação seguinte. Foram todos pra lá.
Ouvi a história no café na empresa, tá? Então não entendi bem se o que se seguiu aconteceu ainda na estação, ou parte na estação e parte numa delegacia. O rapaz detido foi reconhecido pelos meus colegas, mas não tinha nenhum produto de furto com ele. Como em um furto não há coação e nem abordagem direta, fica uma palavra contra a outra. Ok para meus colegas. Eles só estavam interessados em alertar para o risco. Mas, por conta disso, tiveram que assistir à truculência policial.
O suspeito era colombiano. A polícia passou a humilhá-lo, dizendo que o fato dele vir “de uma país de merda dominado por terroristas e traficantes” não o dá direito de roubar carteiras no Brasil. Perguntados sobre o que aconteceriam com o rapaz detido, avisaram que “dariam um corretivo” antes de soltá-lo, porque não poderiam prendê-lo em flagrante. Para comprovar sua responsabilidade seria necessário abrir um processo, acessar os registros da câmera de segurança, enfim, algo bem mais demorado. A surra e mais rápida.
Meus colegas sabem que seria inútil pensar em procurar entidades de defesa dos Direitos Humanos para defender um estrangeiro de uma surra policial às 2 da manhã (é, a coisa toda foi longe...). Reforço, conheço os dois o suficiente pra saber que ninguém achou “bem feito” que o sujeito tenha apanhado. Não procuravam punição de culpados, só queriam resolver seu problema imediato (recuperar a carteira) e depois contribuir para segurança coletiva comunicando o risco às autoridades. Mas parece que, para a polícia, não é possível que não haja punição. E o enorme constrangimento de ser reconhecido como criminoso não é punição suficiente.
Fiz a ponte, inevitável, sobre a manutenção da anistia aos torturadores, julgada pelo STF essa semana. Sou filha de torturado, e estou muito chateada que nosso país tenha ido na contramão do restante da América Latina e tenha dicidido que, ok, se meu pai foi preso, apanhou, teve a casa revirada, viu seus irmãos mais novos serem presos e humilhados também por suas idéias políticas das quais não compartilhavam (é não bastou torturar o "subversivo", tinha que impor sofrimento à família toda), isso fez parte de um contexto histórico e deve ser perdoado e esquecido.
Abomino a tortura provavelmente sofrida por este estrangeiro batedor de carteira tanto quanto abomino o sofrimento do motoboy morto covardemente pela polícia de São Paulo mês passado e os sofrimentos físicos e psicológios impostos ao meu pai e aos meus tios 36 anos atrás. Como já comentei aqui, não vejo cidadania possível fora do Estado de Direito. Se há uma lei, não deveria ser aqueles que agem em nome do Estado os primeiros a fazê-la cumprir?

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Nota breve sobre o racismo

A notícia é velha, mas como fala de futebol e o jogo de volta foi na quarta-feira, eu fiquei matutando. Porque na semana passada, no jogo Palmeiras e Atlética Paranaense, um jogador atleticano deu uma cabeçada num palmeirense, os dois se enfezaram, e o último cuspiu no primeiro e o chamou de “macaco”. Findo o jogo, o ofendido foi prestar queixa na delegacia e abriu-se um processo por injúria de teor racista, que é diferente de racismo. Racismo é exercer seu poder pra excluir o outro diretamente (numa entrevista de emprego ou num elevador, por exemplo), diferente deste caso, em que houve ofensa verbal.
Uma vez eu li, no contexto da discussão sobre a legitimidade das cotas, algo bem interessante. Que essa historinha de que “não dá pra saber quem é negro no Brasil” é uma tremenda balela. É só o cara bater no seu carro. Aí você vai lá e chama de “criolo filho da puta”. E eu achei a definição muito precisa e ilustra bem este caso do jogo. O cara não deveria ter dado a cabeçada. Mas deu. E qual é a primeira coisa que o agredido lembra? Que o cara é negro. É foda, por que não existe xingamento politicamente correto, né? Mas se eu chamo alguém de “imbecil” ou “desgraçado”, é muito particular. Não tô desqualificando todo seu grupo social por tabela.
Meu caso específico, se alguém me sacanear, não consigo me imaginar sequer pensando “tinha que ser preto, judeu, japa, whatever”. Mas consigo me imaginar chamando de “filho da puta”. E, olha só, não tenho orgulho de assumir isso, porque eu me identifico aqui como feminista. No Fórum Social Mundial de 2005 assisti a um debate com profissionais do sexo que diziam o quanto o estigma do “filho da puta” era ofensivo à categoria. Só faço um aparte pra dizer que acredito que a expressão ficou tão universal que ninguém, quando a usa, deve ter em mente “você é desonrado porque sua mãe tem uma conduta sexual reprovável”, o real significado - o que não tira a legitimidade da queixa das prostituas, claro. Mas quando alguém chama um negro de “macaco”, não dá pra dizer que “abstraiu” o significado. Não acredito de jeito nenhum.
E fiquei pensando que o jogador do Palmeiras (meio que) se desculpou. Eu acho que dá pra gente se desculpar pelo que a gente faz, mas não pelo que a gente pensa. E o cara pensa, nem que seja no fundo do subconsciente, que a cabeçada cretina tem alguma coisa a ver com a cor.

Enfim. Acho triste.

domingo, 14 de março de 2010

A nossa (falta) de noção de justiça

Taí uma coisa que me incomoda na sociedade brasileira até mais do que o machismo: essa igorância sobre a justiça, ou sobre o que deveria ser justiça, a que se propõe, etc. Sabe essa história de achar que Direitos Humanos são invenção de ONG's que tem pena de “bandido”? (a propósito, eu odeio a palavra “bandido”, acho “criminoso” um termo mais preciso, com menos julgamento moral, mas pode ser só impressão minha).

E eu tô pensando nisso agora por três motivos especificamente:

1) O destaque da mídia sobre o Arruda na cadeia. Pra mim, a condição do cara na cadeia, se tem mais ou menos mordomia, não deveria ser notícia. Qual é a preocupação de o Arruda tá numa masmorra ou se tem TV na cela? A não ser que a discussão seja, especificamente, sobre os privilégios que os poderosos tem na cadeia. Pra esse caso de corrupção só deveria interessar se o cara não está mais no poder, se a justiça está agindo, etc. Mas o cara tem que virar bode expiatório e sofrer, vira um vilão. E, putz, a que leva esse revanchismo? O esquema tem que ser investigado, o cargos cassados, etc. Mas o Arruda queimar no fogo do inferno não me interessa como cidadã. E se, legalmente, ele tiver direito a um habeas corpus, isso não significa necessariamente que no país reina a impunidade.

1b) Ok, eram três. Mas esse lance do habeas corpus merece um anexo. Porque ninguém entende que o cara responder o processo em liberdade é um direito constitucional. O problema é que a justiça é muito lenta, então, realmente, dá essa impressão de quem não está preso agora, não será preso nunca. Mas aí é um problema da lentidão da justiça, não do direito constitucional, poxa.

2) Daqui a alguns dias é o julgamento do casal Nardoni. E eu lembro que, quando o crime aconteceu, trabalhava num lugar onde as pessoas eram menos esclarecidas do que meus atuais colegas. E o papo era que advogado de “bandido” é tudo “bandido” também, porque imagina, defender quem faz uma barbaridade dessas. E daí eu tentei explicar que olha, julgamento justo é direito de todo mundo. Ok, tem que ter estômago, concordo. Mas não há julgamento justo sem direto à defesa. E garantir isso é o mínimo que se espera de um Estado que se pretende democrático. E, bom, as colegas de lá ficaram bem “mimimi” com meus argumentos, meio que engoliram a contragosto mesmo.

3) Marido leu uma matéria chamando o rapaz que provavelmente atirou no Glauco de “o assassino do cartunista”. Sim, deve ter sido o cara mesmo, né? Mas ele não foi julgado ainda. E nem foi pego em flagrante. Presunção de inocência é direito também. Em outra chamada “O Globo” fez certinho, chamou o cara de “o principal suspeito de”, o que faz mas sentido. Enquanto o cara sequer for ouvido, mesmo que haja testemunhas, a imprensa não deveria de maneira nenhuma, incriminá-lo assim. Não é responsável, e colabora para essse sentimento de “pega pra capar” que toma conta do cidadão médio nessas ocasiões.

Enfim, me incomoda essa percepção de que um grupo merece a civilização, e o outro barbárie. E não é possível isso. A Mary W fez um post (excelente, como sempre) sobre isso, falando sobre o Estatudo da Criança e do Adolescente, tão demonizado quando a imprensa noticia crimes cometidos por menores. Civilização é garantir o acesso à Justiça por todos os cidadãos, inclusive àqueles que se portaram de maneira pouco civilizada. Eu não tenho a menor piedade cristã por assassinos. Mas sou contra a pena de morte porque, na minha concepção de Estado, há que se admitir a falibilidade da Justiça. Simples assim. E tem gente que não entende que pena de morte não é linchamento nem execução sumária. Que em lugares que se pretendem minimamente civilizados, como os Estados Unidos, há um processo criminal, um julgamento, um advogado. E ainda assim, muitos erros, todos os dias. Se há problemas com a civilização, imaginem com a bárbarie?

É, eu sei. Eu não deveria perder meu tempo lendo os comentários das notícias do “O Globo”. Faz mal e a gente se obriga a escrever um post inteiro só pra desopilar...

UPDATE em 24 de março: Li que o advogado dos Nardoni foi agredido hoje na entrada do fórum. Puxa. Questão de civilidade respeitar o trabalho do cara. Ok, ele tá ganhando dinheiro pra defender assassinos, mas se não fosse ele ia ser outro. É direito deles. É parte do processo civilizatório. Fico passada que as pessoas não entendam.

terça-feira, 9 de março de 2010

E na ressaca do "nosso" dia...

Pois é, toda essa história do DEMóstenes Torres, DEMétrio Magnoli, os DEMos todos. Que você pode acompanhar no Azenha, (a Mary W colocou os links diretos para as reportagens). O cara fala que foram negros também os caras que venderam outros negros. E não tem nem o que discordar dessa parte. Mas aqui, no Brasil, foram os brancos que exploraram essa mão-de-obra. Sim, houve (poucos) casos de negros alforriados que tinham lá seus escravos. Mas é na estrutura que a gente tem que pensar, e estruturalmente falando eram brancos explorando negros aqui no Brasil. Qual a dúvida?

E essa gente que diz que ok, foi lamentável mesmo, mas que passou. Lembro da escola, a professora falando que depois da abolição vieram os imigrantes, pra suprir a necessidade de mão-de-obra. E eu juro que já pensava nessa época “mas, ué, os negros continuaram lá, só deixaram de ser escravos”. Sei lá porque não perguntei. Será que a professora ia mandar a real, que ninguém queria pagar salário pra negro? E a mocinha da classe média paulista que diz: “pô, meo, mas o meu avô veio no navio suuuuper pobre e batalhou muito pra comprar a casa dele lá Móoca”? Será que ela não entende que, por mais modesto que fosse, o Nonno ganhava o seu trocado? Era um operário explorado, claro, longe de mim dizer que o Nonno não passou perrengue na vida. Mas os negros nem como operários eram aceitos. E não dá pra se inserir na sociedade sem ocupação. Sei lá, não sou socióloga, mas acho que é inviável, né? Se você só pode comer pelas beiradas, a marginalização é inevitável. Pode ser superada, claro, mas só a muito custo.

Mas nem era disso que eu ia falar. Era do relacionamento entre negros e brancas “consentido, ainda que sob dominação”. E aí eu lembro a história da Trip, da Luisa, lembram? Do cara que escreveu a suposta ficção sobre o menino que “convence” a empregada a “dar pra ele”, e achou que ia ser engraçadinho. E de como a gente precisa ainda desenhar o que é estupro. Que não é só arma na cabeça. Que não precisa nem ameaçar: qualquer mulher que some dois mais dois sabe que se não der pro patrão, pode ser demitida. Imagina a escrava? Consentimento sob dominação é quase uma impossibilidade semântica pra mim.

E aí eu fico imaginando seu “Dem” batendo na porta do quarto da empregada. A moça abrindo, sorriso amarelo no rosto. E como ela sorri e corresponde ao beijo, ainda que sem muito entusiasmo, o patrão crê que é sexo consentido. E ele todo pimpão, se achando o macho alfa, termina a noite pensando assim: “essas mulatas são mesmo quentes”. E acha linda a história da miscigenação do povo brasileiro!

Os caras oferecem flores, mas sequer entederam o conceito de estupro. Preguiça, viu.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Sobre liberdade, livre arbítrio, escolhas...

Ainda sobre o Haiti. Apesar de ter ficado irritada com o Azenha por conta disso, ainda gosto muito do “Vi o mundo”. A cobertura que vem fazendo sobre a tragédia é a mais completa e humana que tenho visto por aí. Além de problematizar a miséria do país, questiona a cobertura da mídia tradicional. Porque não faz sentido, por exemplo, falar de saqueadores num país em que todos estão passando fome. Fazer isso é ter mais apreço pela ordem do que pelos dramas humanos, atitude coerente com a criminalização dos movimentos sociais que se faz cotidianamente por aqui, e insensível até dizer chega.

Daí que a gente sabe que os Estados Unidos tem a sua parcela de responsabilidade pela miséria haitiana, e ela é enorme. Mas agora eles estão lá pra fazer ajuda humanitária. E só quem gosta mais de ideologia do que de gente vai achar que eles não deveriam estar lá. Os haitianos precisam de toda a ajuda possível, não estão em condições de escolher. E isso é devastador, porque no final das contas, essa ajuda vai ter um preço, e o preço é a sua autonomia entregue. Mas, existe liberdade na fome? Essa é a grande questão, a gente não pode perder isso de vista nunca. Sem essa ajuda, não há como sair do lugar, não há esperança possível, e só se poderá falar no futuro quando o presente estiver minimamente organizado: mortos enterrados, sobreviventes tratados, os habitantes minimamente alimentados.

Por isso me incomoda muita essa defesa inconteste do capitalismo feita por algumas pessoas. É lógico que a liberdade do capitalismo é bacana. Mas é bacana pra quem tá incluído. Não se pode falar de escolha quando o que se apresenta como possibilidade é cortar cana ou morrer de fome. Ou, falando em feminismo, se as opções são aguentar surras de um marido violento ou não ter como sustentar os filhos. Tive uma conversa com uma amiga minha uma vez sobre aquele lance do que é melhor, dar o peixe ou ensinar a pescar. Quem tem fome tem pressa, e não dá pra pegar o barquinho e se lançar ao mar de estômago vazio. É preciso dar o peixe e ensinar a pescar, não há outra possibilidade.

Lembrando do meu último post, eu já fui uma pessoa crente. Mas me incomodava o discurso de que tinhamos sido criados para louvar a Deus, com livre arbítrio para escolher fazê-lo. Só que a punição para quem exercicia o seu direito de escolha e não louvava o todo poderoso era o inferno. Oi? Cadê a liberdade aí? Quer dizer, eu sou livre, contanto que siga a cartilha direitinho, senão, sofrimento por toda a eternidade. Então Deus me criou pra ser escrava da sua vaidade? Mesmo quem é religioso há de concordar que esse papinho tem a perna quebrada...

Mas, voltando, o Haiti não pode, nesse momento, dar uma banana para os colonizadores externos como fez com os franceses há mais de duzentos anos. Torço porém para que consigam fazer isso quando se reorganizarem. Desta vez, com mais sucesso.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

O Haiti - ou porque sou cética

Um dos livros que eu mais gostei de ler na faculdade foi "El Reino de Este Mundo", de Alejo Carpentier, que fala do processo de independência do Haiti. Ao contrário da maior parte dos países latino americanos, cuja independência foi um processo conduzido pela elite, ou, no caso do Brasil, o corte de cordão umbilical de pai pra filho (nossa história não é ridícula às vezes?), os haitianos conheceram uma revolução popular, liderado por escravos.

O Haiti é um país miserável, o mais pobre das Américas. Quando alguém te falar que o socialismo é uma droga, "é só olhar Cuba", a resposta perfeita é dar o Haiti como exemplo de como o capitalismo pode ser cruel também. Ou até pior, já que, ao que parece, em Cuba há escassez de recursos mas não há fome (ó, não tô defendendo Cuba nem o Fidel, mas é diferente ser pobre e não ter o que comer - e tem gente que não se atenta a isso). No Haiti o que impera e a fome e a desesperança. Daí vem um terremoto e arrasa com tudo que já é super precário, termina de jogar na miséria a meia dúzia que estava acima da linha de pobreza.

Desculpem o post baixo astral, mas nessas horas fica claro pra mim que não existe Deus, pelo menos não essse ser supremo que decide pela vida das pessoas. Porque seria uma sacanagem sem tamanho determinar que um sujeito vai nascer na Dinamarca e o outro no Haiti. E não quero ouvir que Deus tem lá seus propósitos. Tem que ser muito insensível pra achar alguma explicação plausível que justifique condenar alguém a vir ao mundo para uma vida de tragédias e miséria.

Mas, se sou descrente em Deus, acredito muito em todos os sentimentos humanos e na sua força de transformação, para o bem e para o mal. Por isso vou deixar o link para o post do Alex Castro em que ele agradece as pessoas que o ajudaram depois da passagem do Katrina, que me comoveu muito: http://www.interney.net/blogs/lll/2009/11/25/dia_de_acao_de_gracas/

Triste é saber que os cidadãos haitianos tem muito menos recursos para ajudarem uns aos outros numa situação de tragédia do que os americanos ou mesmo os brasileiros.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Diálogos e monólogos

de: W

para: D , Iara , m <@yahoo.com.br>data: 4 de dezembro de 2009 15:22
assunto: Isso tem cara de Iara!

Olá pessoal!

Estava a ler os comentários sobre o texto "Um deserto de idéias" do Azenha e vi o seguinte post:

Iara (03/12/2009 - 21:57)
'Minha esperança, francamente, é de que a engenheira "desenvolvimentista" tenha preservado suficientemente em si a mulher e mãe.'

Cuidado, Azenha, porque aqui você foi sexista, mesmo com a melhor das intenções. A sensibilidade é uma qualidade independente do gênero, e concordo que deveria ser requisito mínimo para quem aspira o cargo de presidência. E há milhares de mulheres insensíveis, muitas delas mães, inclusive. Não são menos mulheres por conta disso.


Aí pergunto: é você Iara?
Digo isso porque a gente conversou sobre a Dilma lá no Gogó e você falou sobre essa questão sexista. No nosso bate papo o tema foi o fato da imprensa descer o sarrafo porque a Dilma é durona, não é linda e fez plástica.

Abraços

W


de:Iara

para: W
cc: D ,m
data: 4 de dezembro de 2009 15:37
assunto: Re: Isso tem cara de Iara!


Bingo! Eu mesma!

A questão é simples: não aceito que exijam de uma mulher o que não se exige de um homem na vida pública (nem vou entrar na particular, porque é pano pra manga e a idéia não é polemizar). Fora que é ingênuo, né? Se você viu nos comentários, alguém citou Margareth Tatcher, Golda Meyer... Vamos combinar que poder e meiguice não combinam, né? Agora sensibilidade é importante pra todo mundo, poxa vida!

E minha frustração é que o cara deu a resposta preguiçosa padrão "Iara, acredito que homens e mulheres são diferentes." Fraca essa, viu? Preguiça mental mesmo.

Bjo!

;-)

O remetente do e-mail é um amigo do marido, que agora é meu amigo também. Tempos atrás, quando ele se referiu a não sei quem como “mau-comida”, levou um pito meu. E ouviu, não porque eu sou a rainha da cocada preta e tenho sempre razão, mas porque acha minha opinião relevante.

O post ao qual nos referimos é esse. Sabe o que é muito chato? Essa coisa do cara ter um blog, ser conceituado e tals, você entra, lê, prestigia, e quando levanta um debate, ele te responde do jeito mais preguiçoso do mundo. Lógico, quem tem trocentos comentários na caixa não pode se dar ao luxo de dar atenção a todo mundo. Nem esperava que o Azenha fosse “fofinho” como meu amigo, né? Mas, poxa, se resolveu responder, responde direito, porra! Homens e mulheres são diferentes, essa parte eu já sabia desde os dois anos de idade quando vi o pipi do meu irmãozinho recém-nascido. Responder assim é desrespeitar minha capacidade intelectual. Ok, o blog é bom e não vou deixar de lê-lo por conta disso. Mas se até o Azenha utiliza esse recurso, porque a gente estranha o Marcelo Coelho cobrar meiguice da Dilma, né? (não achei o post original dele pra linkar aqui, só a crítica da Marjorie, que é excelente, aliás)

A Dilma tem mais é que ser durona mesmo. Porque ano que vem o chumbo vai vir grosso...

sábado, 28 de novembro de 2009

O jornalismo do não fato

A história só merece desprezo, mas eu resolvi dar pitaco e tentar contextualizá-la na pauta das reinvindicações feministas. Não vou atrás do link (mas no Azenha tem o texto completo), mas é a papo do fulano que ouviu, 15 anos atrás, que o Lula teria tentado molestar um carinha outros 15 anos antes, quando estava preso.

Olha, a gente reclama muito porque sabe que vítimas de estupro têm sua moral julgada, e por isso evitam denunciar. Sabe o quanto isso é horroroso, triste, o quanto a lógica machista impera e cala as mulheres. Nesse ponto, homens estuprados, ou como quer a lei, vítimas de atentados violentos ao pudor, também sofrem por conta do machismo. Agora... sem vítima não tem crime, né, galera? E a Folha da ditabranda, virando a campeã universal do bola-fora (Veja e boimate são hours concours, gente), publica uma coisa dessas, tão golpe baixo, tão sem pé nem cabeça.

Então, se a vítima aparece, 15 anos, 30 anos depois, é uma coisa. Não tem como comprovar a materialidade dos fatos, algo fundamental num processo justo, mas ainda tem uma palavra ali. Mas, assim, “o menino do MEP”? O Lula não é o Polanski. E com isso não estou colocando a mão no fogo por nosso presidente, pelo qual não nutro nenhuma simpatia pessoal (apesar de apoiar este governo). Se aparecesse agora uma mulher dizendo que foi estuprada pelo Polanski 30 anos atrás, ele não teria sido preso, porque é muito difícil comprovar um estupro tanto tempo depois, ainda mais quando não se trata de um estuprador em série.

Só que é ainda pior. É “tentou molestar”. Materialidade nenhuma mesmo. De novo: se foi verdade, é horrível, claro. Mas, como saber? É uma palavra contra a outra. Aliás, uma contra várias, porque lá no Azenha mesmo e no Nassif já apareceu um monte de gente pra dizer que essa história não tem pé nem cabeça.

Minha opinião, assim, muuuuito pessoal, é que o fato não é verdade, mas o Lula pode ter contado a história. Porque falastrão ele é, né? Inventar uma história sórdida e contar assim, numa boa, num ambiente privado, como se não tivesse consequências, até combina com ele. Mas o babaca repetir 15 anos depois e a Folha publicar é o fim.

Lembrei do caso Luísa. Olha só, o cara publicou aquilo na Trip. Disse que fez, e depois disse que era ficção. Mas ninguém inventou que ele fez: a gente leu um discurso em primeira pessoa banalizando a coisa, e chegou a uma conclusão. De qualquer maneira, a não ser que a Luísa aparecesse pra denunciá-lo, só se pode repudiar o texto do cara, mas não processá-lo por estupro. No caso do Lula, a não ser que o “menino do Mep” apareça e a gente ouça a versão dele dos fatos, a gente só pode concluir que o César Benjamin é um tremendo safado e/ou (porque uma coisa não exclui a outra) que o Lula fez uma piada de mal gosto e o cara resolveu valorizá-la.

Agora, a Folha querer fazer jornalismo com "ouvi falar 15 anos atrás que 15 anos antes..." é de lascar, né?

Update em 28/11: segundo está dito aqui, era como eu imaginava. A história foi contada, mas era brincadeira. De muitíssimo mau-gosto, aliás: assédio sexual não é nem um pouco engraçado. Lógico que motivo nenhum pra se orgulhar disso, shame on you, Lula. Mas ele contou isso em um encontro privado, não publicou na Trip, e atire a primeira merda quem nunca fez uma piada mórbida qualquer. Então, quem é canalha, o cara que contou a piada ou o que quer usar isso politicamente 15 anos depois?

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Caso de polícia, problema de saúde pública e escolhas

Essa semana os sites da Globo tão superexplorando a história do rapaz viciado em crack que matou uma colega. O pai dele escreveu uma carta-desabafo, muito triste, sobre a situação do filho. Semana passada tinham lá um link para uma matéria de uma mãe resolvou trancafiar um filho viciado em crack em uma jaula. Pra completar, a capa da Veja, com a sutileza de pata-de-elefante habitual diz, sem rodeios: “quem cheira, mata”.

Eu conheço dois lados das drogas: tenho amigos com uma vida produtiva usando drogas habitualmente de maneira recreativa. Mas também tive uma pessoa bem próxima que se viciou. A família buscou ajuda num grupo de apoio chamado “Amor Exigente”, para co-dependentes, e são voluntários até hoje, muitos anos depois do furacão.

Realmente acho que tem muito, muito moralismo quando se fala de drogas ilícitas. Sim, o dinheiro do consumidor vai para nas mãos do traficante, mas o Estado queria o quê? Acho tão irreal reprimir uma relação comercial onde, supostamente, as duas partes saem ganhando. O discurso que diz “não compre porque o seu dinheiro alimenta o tráfico” não está direcionado aos dependentes. Estes, na verdade, tão pouco se lixando (depois volto a falar deles). O suposto receptor desta moral é o estudante que queima um baseado na FFLCH, ou o cara que cheira uma carreira numa festinha numa festinha eventualmente. Estes, volto a repetir, vão em busca de um ganho quando compram as drogas: o prazer imediato proporcionado por elas. Tal qual o cara que contrata a prostituta. Ou qualquer um de nós quando compra uma cerveja. Então, este é um crime onde não há vítimas. Quer dizer, eu sei que há, muitas. Mas a imensa maioria é vítima do negócio ilícito e lucrativo da venda das drogas, não do ato de vender drogas sozinho.

Nesse sábado eu saí com um cara que eu conheço desde o colégio. Temos um amigo em comum, que estava junto. Programinha tranqüilo: museu, café, boteco depois. Pois bem, esse carinha se auto-define junkie. E eu sei que ele já tinha esse perfil desde a escola (há bons anos atrás). Não sei exatamente o que significa essa definição pra ele, mas tenho idéia, pelas conversas: bastante álcool, bastante maconha, cocaína com alguma frequencia. Talvez otras cositas más. O fato que ele é um cara produtivo: tradutor uma área especializada e de extrema responsabilidade, além de professor de inglês e de português para estrangeiros. E passa natais pacificamente com a família, com direito a “Amigo Secreto” com os primos e tudo mais. Eu o conheço só superficialmente, mas jamais diria que ele é antissocial. Como eu estudei Letras na USP, desnecessário dizer aqui que muitos dos meus amigos eram usuários mais ou menos eventuais de maconha. Alguns ainda são. E todo mundo é trabalhador, naquele sentido operário mesmo, de acordar cedo, estudar, batalhar sua vida. Tem gente até que formou família já. Por tudo isso, não posso aceitar o discurso simplista que diz que todo usuário de drogas ilícitas tem um problema social.

Por outro lado, tem esse pessoal que me traz os problemas compartilhados no grupo de apoio (eles podem me contar as histórias, contanto que não revelem nomes). Histórias muito tristes, de gente escravizada pelo vício dos parentes. Filhos expulsando mães velhinhas de casa, ameaças constantes de traficantes, dramas difíceis de serem medidos por quem não está nessa situação. A orientação deste grupo, muito polêmica, é a de não proteger o viciado. Se a pessoa já é adulta e está infernizando a vida da família, deve ser excluído do convívio familiar. Eles não mandam ninguém expulsar o filho de casa, mas se esta for a única alternativa para o resto da família conseguir dormir, eles o encorajarão a fazê-lo. A questão colocada é que o doente escolheu esse caminho. Pode não ter escolhido o vício, mas dificilmente não conhecia os riscos quando experimentou uma droga, mesmo as lícitas. A família, por outro lado, não escolheu nada e não pode arcar com a responsabilidade do outro. Se não pode resgatar o outro, tem que se salvar como pode, porque não é justo com o resto da família (ouros filhos, irmãos, netos) condernar-se a infelicidade por uma problema que não pode ser resolvido.

Não tenho aqui a menor pretensão minimizar o drama de famílias que não sabem mais como lidar com seus filhos dependentes químicos, nem de dizer “eureka”, ó como e fácil. Aliás, acho que ninguém em sã consciência tem, nem meu amigo junkie. Mas uma coisa é meio clara, pra mim, pelo menos: num certo nível de dependência, o dependent está morto socialmente. Já não interessa mais o amor da família, as obrigações do dia-a-dia, o futuro, as leis. Como a família vai lidar com um morto-vivo? Com a morte social de um corpo físico? Seria essa morte reversível? Ouvi falar de um sujeito de 42 anos internado numa clínica de recuperação pela 24ª vez. Alguém aí acredita que um sujeito que vai pela 24ª para a rehab, vai ficar bom? É tudo triste demais pra ser negligenciado.

Só que eu acho que o buraco do vício é bem mais embaixo. As drogas ilícita alteram a consciência, viciam, fazem com que as pessoas coloquem sua vida e a dos outros em risco. Só que o álcool, servido até em batizado de criança, faz a mesma coisa. Mesmíssima. O que muda é o perfil: como consumir drogas ilícitas é uma trangressão, de maneira geral, o tiozinho “cidadão de bem” vai preferir a cachaça ou o whisky. E tem outra: comportamentos compulsivos e antissociais não dependem da ingestão de substâncias químicas. Tem gente que perde a casa da família no jogo. Há quem se vicie em sexo. Outros, em comida. Como controlar tudo isso?

A minha (pouca) experiência na área, fruto de alguma observação, é que a dependência química e uma das consequências de um problema, e não a origem de todos os males. Alguma coisa mal resolvida fez com que o prazer virasse fuga. Algo a ser observado e tratado, mas que se não se manifestasse com cocaína, se manifestaria com cartão de crédito. Daí alguém me diz que “ah, pode ser assim com cocaína até, mas com crack, o cara vicia na primeira”. Eu realmente não acredito que alguém prove crack por curiosidade, como quem prova um baseado.

O fato é que o discurso super moralizante é mentiroso e ineficiente. Porque se eu disser pra um adolescente que todo cara que prova cocaína se vicia em morre, e na outra semana ele conhecer um cara como meu amigo, cheirando numa festa no sábado e trabalhando numa boa na segunda, vai ficar clara a minha ignorância na realidade dos fatos. Enquanto a gente não falar claro sobre drogas, com gente de todas as idades, sem julgamentos, e admitindo que as pessoas se drogam porque dá barato, as pessoas não vão ter informações suficientes pra fazer suas escolhas de maneira consciente. Penso em ter filh@s e vai ser difícil desempenhar papel de mãe sem ser hipócrita, porque nunca fui junkie, mas nunca fui santa também. Vou ser obrigada a falar a verdade: que tem coisas muito divertidas por aí, mas talvez não valha a pena correr certos riscos para prová-las.