Não só de atualizar o blog – preguiça de gente. Não de todas, mas daquelas que vem com as ideiazinhas e com os preconceitos bem prontinhos e não estão afim de debater nada. Gente que acredita no roteirinho da Veja e do Jornal Nacional todinho, sem tirar nem pôr. Gente que acredita que - empresto a ideia de algum post que li nos últimos dias - o mundo é feito em programação binária, 1 e 0. Nada no meio. Nenhuma possibilidade intermediária.
Tem uma propaganda da Coca-Cola que me irrita um tanto. Já tinha pensado em fazer um post sobre ela e tal e não fiz, mas agora cabe evocá-la. A história de “os bons são maioria”. Ela diz que para cada x corruptos há xxxx doadores de sangue – veja você, os bons são maioria. Não, nunca, jamais, em tempo algum, um corrupto doou sangue. E nenhum doador de sangue subornou o guarda na blitz da lei seca.
Que discurso publicitário seja simplista assim até entendo. Mas que as pessoas comprem isso e levem pra vida, não dá. Então, é ridículo demais gente falando em “fica fumando maconha enquanto deveria estudar”, porque essas coisas não são excludentes. É perfeitamente possível ser consumidor eventual de maconha e ser um estudante dedicado, tanto quanto é possível ser um excelente pai de família tomando seu whisky depois do trabalho ou uma excelente mãe de família que toma rivotril pra dormir (ou ser uma pessoa excelente que não tem família, mas deixa quieto). Porque ninguém é uma coisa só nessa vida.
E este é só um dos temas irritantes. Tem outros tantos. Como a crítica raivosa ao auxilio reclusão pra família de detento, que é exclusivo, vejam vocês, de quem foi preso e tinha carteira de trabalho assinada (ou contribuía pro INSS como autônomo). Porque a dicotomia bandido x trabalhador também é falsa. Mesmo pessoas que acordam cedinho pra trabalhar cometem crimes. Aliás, grandes criminosos costumam ser ocupadíssimos. Isso pra nem entrar no mérito de quanta gente é presa injustamente. Enfim, milhões de possibilidades para se estar preso, milhões de combinações entre caráter x trabalho x crime. Tem pais dedicados, filhos atenciosos, que enchem a cara e atropelam e matam alguém. Tem mães dedicadas que abortam justamente para serem dedicadas só com os filhos que já tem. Tem médico que salva vidas todo dia, mas desvia dinheiro público. E todo esse pessoal pode não ser preso, mas o ladrão de galinha ser condenado. Então, só posso ter preguiça de gente que repete que bandido bom é bandido morto.
Mas continuo. Porque eu votei na Dilma nas últimas eleições. E O HORROR, O HORROR. E PT O PARTIDO MAIS CORRUPTO DO BRASIL! E olhem só, tem gente corrupta no PT, apesar dos caras terem durante anos terem reivindicado pra si o monopólio da virtude. E não, votar no PT não significa que eu ache essa questão irrelevante. A questão é: ser corrompido não é privilégio deste ou daquele partido. Acontece com integrantes de todos os partidos que estiveram no poder - com todos os partidos mas não com todos os integrantes, claro. Inclusive com o partido do seu candidato. Porque a corrupção é sistêmica, ela é mais grave do que isolar esse ou aquele safado/ladrão/bandido/_____ (preencha aqui o adjetivo negatico de sua preferência). E pouquíssimas vezes nessa discussão se menciona que, para que haja corrupto, tem que haver corruptor. E que se você já subornou guarda, inventou recibo falso pra ter desconto no imposto de renda ou tem carteirinha de estudante falsa pra ter meia entrada, você não tem lá muita moral pra botar dedo na cara de corrupto. Então repito, não endosso corrupção. E quando voto no PT (nem sempre) não significa que eu seja petista (o que não acho demérito, mas não é o caso) ou endosse tudo o que fazem. Significa só que, entre os projetos disponíveis, achei aquele o melhor (ou menos pior, mais provável). E sim, por vezes passo tanta raiva quanto você que não votou neles (principalmente quando Aldo Rebelo é promovido a ministro). Mas considerando que você sabe que política não é uma ciência exata, que nela as coisas são muito dinâmicas, que alianças são feitas e desfeitas, partidos criados, e que opositores hoje podem dar as mãos amanhã (você sabe de tudo isso, né? ah bom), pare de repetir que quem vota no PT é ignorante ou compactua com a corrupção. Fazer isso é desconsiderar a possibilidade perfeitamente possível de outra pessoa ser honesta, inteligente, mas ainda assim ter uma visão de mundo diferente da sua. E sabe como é, intolerância não traz nada de bom para o mundo.
Mas todo esse discurso não significa que eu relativize tudo. Não significa que eu não tenha meus valores inquestionáveis. Mas eles podem não ser os seus, e a gente conseguir conviver bem apesar disso, sempre e quando eles não se chocarem - e, eventualmente, até quando eles se choquem. E podem ser até que nossos valores sejam os mesmos, mas que as soluções encontradas para conciliá-los com um mundo imperfeito não sejam as mesmas. Várias possibilidades aí. Mas a boa convivência só vai ser possível se a gente tentar ouvir o que o outro tem a dizer antes de colar na testa o rótulo de “maconheiro”, “vagabundo”, “ignorante”, “vadia”. Então, pensa um pouquinho antes de ficar reproduzindo preconceitos por aí, tá? Por favor.
UPDATE: O diacho da propaganda da Coca me irrita tanto que eu já tinha falado dela. Aqui: http://foifeitopraisso.blogspot.com/2011/06/da-necessidade-de-ter-opiniao-pra-tudo.html
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quarta-feira, 9 de novembro de 2011
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
Crônica
Maria e Ana são amigas. Ana namorava um carinha que era amigo de José. Daí José e Maria se conheceram num barzinho, aquele papo de colocar os amigos juntos e tal. José e Maria se curtiram, mas não se apaixonaram perdidamente. Rolou tesão e eles transaram. Não importa muito saber se esqueceram a camisinha ou se a camisinha estourou. Fato é que algumas semanas depois Maria descobriu que estava grávida.
Maria é católica praticante. E está desempregada. Mora com os pais conservadores. Mas como a imensa maioria das mulheres saudáveis, não importando a religião e a situação econômica e o estado civil, Maria tem tesão, ué. Antes de religiosa, desempregada, o que for, Maria é humana, como eu e você.
Maria sofre muito com a descoberta da gravidez. Sofre de culpa e de desespero. Contra a orientação de sua Igreja, resolve interromper a gestação. Mas Ana, sua amiga, não se conforma que José não seja minimamente implicado na história. Pega o telefone e liga pro moço. Diz que precisa conversar pessoalmente, mas ele enrola pra encontrá-la. Resolve então contar por telefone mesmo: Maria está grávida. Ele responde que “não quer casar com ela.” Ana pergunta: “que ano é hoje, Brasil?”. Não, José. Ninguém quer que você se case. Pra sua “sorte”, Maria provavelmente não levará a gravidez adiante. Mas você tem ser adulto e conversar com ela, porque o problema é dos dois. E ele responde que só vai se Ana estiver junto. Ela se irrita, diz que ele não precisou da ajuda dela pra gozar e bate o telefone na cara dele. José é um cara de 35 anos, e bem empregado, diga-se de passagem.
Maria tem a boa sorte de conhecer um médico de confiança que interrompe sua gestação com segurança sem lhe cobrar os olhos da cara. A gestação é interrompida, mas a culpa não. Ela sabe que, pra Igreja Católica, o que ela fez é digno de excomunhão. Ana é espírita. Quer aliviar o sofrimento da amiga, mas sabe que em sua religião vão dizer que este será um carma que ela vai carregar para o resto da vida. Daí elas conhecem uma moça que frequenta a Igreja Universal do Reino de Deus. Torcem o nariz no início, mas o sofrimento na alma de Maria é grande, e ela sente que não tem mais nada a perder. Lá ela conta sua história ao pastor, que a acolhe. Diz a ela que o que ela fez é pecado, mas Deus entende que ela agiu segundo o desespero, porque humanos e pecadores somos todos. Que Jesus diria “vá, e não peque mais”. A vida continua irmã, Jesus não quer que você sofra assim porque ele te ama mesmo em seus pecados. E Maria finalmente volta a sorrir, aliviada.
A história acima é real, só os nomes foram trocados. Sei que José não foi capaz de dar um abraço e oferecer ajuda (inclusive financeira, porque não) a Maria, como se essa gravidez indesejada fosse só dela. Sei que Ana e Maria não tem nada de feministas super libertárias, são mulheres bem conservadoras, que não concordam com a maior parte das minhas opiniões. E sei que o discurso da Igreja Universal tem sido nessa linha, não de aprovação do aborto, mas de acolhida às mulheres. Dexiando claro aqui meu ateísmo e nenhuma simpatia pela Universal, mas fico sinceramente aliviada de saber que existe algum lugar que acolha uma mulher cristã nessa situação tão triste.
Este post é parte da Blogagem Coletiva do Dia Latinoamericano e Caribenho pela Descriminalização e Legalização do Aborto.
Maria é católica praticante. E está desempregada. Mora com os pais conservadores. Mas como a imensa maioria das mulheres saudáveis, não importando a religião e a situação econômica e o estado civil, Maria tem tesão, ué. Antes de religiosa, desempregada, o que for, Maria é humana, como eu e você.
Maria sofre muito com a descoberta da gravidez. Sofre de culpa e de desespero. Contra a orientação de sua Igreja, resolve interromper a gestação. Mas Ana, sua amiga, não se conforma que José não seja minimamente implicado na história. Pega o telefone e liga pro moço. Diz que precisa conversar pessoalmente, mas ele enrola pra encontrá-la. Resolve então contar por telefone mesmo: Maria está grávida. Ele responde que “não quer casar com ela.” Ana pergunta: “que ano é hoje, Brasil?”. Não, José. Ninguém quer que você se case. Pra sua “sorte”, Maria provavelmente não levará a gravidez adiante. Mas você tem ser adulto e conversar com ela, porque o problema é dos dois. E ele responde que só vai se Ana estiver junto. Ela se irrita, diz que ele não precisou da ajuda dela pra gozar e bate o telefone na cara dele. José é um cara de 35 anos, e bem empregado, diga-se de passagem.
Maria tem a boa sorte de conhecer um médico de confiança que interrompe sua gestação com segurança sem lhe cobrar os olhos da cara. A gestação é interrompida, mas a culpa não. Ela sabe que, pra Igreja Católica, o que ela fez é digno de excomunhão. Ana é espírita. Quer aliviar o sofrimento da amiga, mas sabe que em sua religião vão dizer que este será um carma que ela vai carregar para o resto da vida. Daí elas conhecem uma moça que frequenta a Igreja Universal do Reino de Deus. Torcem o nariz no início, mas o sofrimento na alma de Maria é grande, e ela sente que não tem mais nada a perder. Lá ela conta sua história ao pastor, que a acolhe. Diz a ela que o que ela fez é pecado, mas Deus entende que ela agiu segundo o desespero, porque humanos e pecadores somos todos. Que Jesus diria “vá, e não peque mais”. A vida continua irmã, Jesus não quer que você sofra assim porque ele te ama mesmo em seus pecados. E Maria finalmente volta a sorrir, aliviada.
A história acima é real, só os nomes foram trocados. Sei que José não foi capaz de dar um abraço e oferecer ajuda (inclusive financeira, porque não) a Maria, como se essa gravidez indesejada fosse só dela. Sei que Ana e Maria não tem nada de feministas super libertárias, são mulheres bem conservadoras, que não concordam com a maior parte das minhas opiniões. E sei que o discurso da Igreja Universal tem sido nessa linha, não de aprovação do aborto, mas de acolhida às mulheres. Dexiando claro aqui meu ateísmo e nenhuma simpatia pela Universal, mas fico sinceramente aliviada de saber que existe algum lugar que acolha uma mulher cristã nessa situação tão triste.
Este post é parte da Blogagem Coletiva do Dia Latinoamericano e Caribenho pela Descriminalização e Legalização do Aborto.
segunda-feira, 27 de junho de 2011
Sobre criticar pessoas e criticar discursos
Lá vou eu. Pulando de cabeça na polêmica-mamilos sem bóia. Fui.
Seguinte. Myriam Rios, ex-celebridade, ex-namorada do Roberto Carlos e atual deputada estadual pelo RJ, falou aquela tanto de besteira na assembléia legislativa de seu estado. Associou homossexualismo a pedofilia. Daí, neste contexto, uma porção de gente foi procurar as fotos sensuais que ela fez mileanos atrás (algumas de antes de eu nascer) para denunciar a sua hipocrisia e seu falso moralismo. Outros não perderam a viagem e resolveram chamá-la de puta. Bom, a Conceição Oliveira fez parte do primeiro grupo. E eu discuti o assunto com ela no twitter. Como o espaço limitado lá dificulta bastante debater o que quer que seja, resolvo trazer a discussão pra cá.
O post no Maria Frô traz algumas fotos da Myriam Rios e se dirige “aos moralistas de plantão”. Termina com a pergunta: “Moralistas cristãos de plantão que aplaudiram as bobagens ditas por Myrian Rios, vocês a contratariam como babá?”. E quando uma leitora a indaga sobre o porque recuperar essas fotos, ela responde assim:
“Quanto a mim, destaquei as fotos, porque considero que o discurso falso-moralista e detrator de Myriam Rios não orna com a sua prática. Para os moralistas de plantão, 'boas mães cristãs de família' não posam nuas em revistas masculinas, ou posam?”
Sou da turma que pensa como a leitora Ana Paula Guedes, que se incomodou com o post. E meu argumento para a Conceição foi o de que não vejo porque seria incoerente posar nua 30 anos atrás e ser homofóbica hoje. Sobre essas fotos feitas 30 anos atrás podemos supor duas coisas: que ela se arrepende de tê-las feito ou que ela não vê problema algum nisso.
Pois bem. Vamos ao primeiro. É hipócrita desfrutar de sua vida, celebridade, beleza e juventude e, ao cair no ostracismo, virar fiscal de fiofó alheio? Ô se é. Mas a gente não sabe se foi isso que aconteceu. Porque o post diz: “é uma opção real decidir ser fotografada nua e cobrar por isso”. Mas o que a gente sabe é que nem sempre nessas situações as mulheres tem todo esse poder de escolher. Que esse “escolher”, pode ser até a página dois. Uma atriz mediana pode muito bem ter tido problemas financeiros, ter feito isso sem curtir porque precisava muito do dinheiro pra pagar os remédios da mãe doente ou [insira aqui qualquer outra situação dramática em que grana faz muita diferença], e hoje ficar realmente mal aos se lembrar que teve que se submeter a isso. Quer dizer, pode ter se arrependido porque ela não tava ali desfrutando a liberdade do seu corpo que agora o seu discurso quer negar. Talvez ela nunca tenha sido livre, até porque dizem que ninguém consegue oferecer o que não tem. Ou talvez ela realmente tenha mudado muito nestes 30 anos e não se reconheça nessas fotografia. Se é assim, lembrá-la disso com certeza é um ataque a ela. Mas seria um ataque eficiente ao seu discurso?
A Conceição no seu PS 2 se dirige a mim, explicando que para ela falsos moralistas para mim são aqueles que não seguem sequer o moralismo que pregam. E eu discordo aí, de novo, que a gente pode afirmar categoricamente que se trata de uma falsa moralista.
Vamos considerar agora que ela não se arrependeu de nada. Que apesar destas fotos serem antigas, ela faria tudo outra vez. Que acha lindo e tal. Não vejo contradição. Mulher posando nua pra revista masculina é algo super heteronormativo. Não ameaça em nada o status quo. Aqueles leitores conservadores a quem o post se dirige podem até ser realmente gratos pelos filhos terem tido a chance de bater uma punheta olhando uma moça tão bonita e garantir sua virilidade. E talvez sequer achem que não serviria para ser babá. Se ninguém mais concordar comigo, “Amar verbo intransitivo” tá aí pra não parecer que eu tirei isso da minha cabeça.
Enfim, não há nada de incoerente entre ter feitos aquelas fotos 30 anos atrás e ter este discurso hoje. O problema é ser homofóbico, ponto. Se a deputada tivesse saído direto do claustro das carmelitas descalças para tomar posse na Alerj, isso não tornaria seu discurso intolerante mais legítimo. Porque nada do que ela fez ou possa ter feito no passado conseguiria isso. E acho que quando a gente começa a discutir a pessoa, tira o foco do que realmente interessa neste caso. A Conceição em nenhum momento usou adjetivos machistas para qualificar Myrian Rios, mas hoje testemunhei gente buscando “material” para construir sua detratação misógina e o coleguinha de timeline dar o link do blog dela pra isso. Porque ela pode ter pensado crítica a uma mulher + foto sensuais = falsa moralista. Mas GERAL soma crítica a uma mulher + fotos sensuais = PUTA.
Seguinte. Myriam Rios, ex-celebridade, ex-namorada do Roberto Carlos e atual deputada estadual pelo RJ, falou aquela tanto de besteira na assembléia legislativa de seu estado. Associou homossexualismo a pedofilia. Daí, neste contexto, uma porção de gente foi procurar as fotos sensuais que ela fez mileanos atrás (algumas de antes de eu nascer) para denunciar a sua hipocrisia e seu falso moralismo. Outros não perderam a viagem e resolveram chamá-la de puta. Bom, a Conceição Oliveira fez parte do primeiro grupo. E eu discuti o assunto com ela no twitter. Como o espaço limitado lá dificulta bastante debater o que quer que seja, resolvo trazer a discussão pra cá.
O post no Maria Frô traz algumas fotos da Myriam Rios e se dirige “aos moralistas de plantão”. Termina com a pergunta: “Moralistas cristãos de plantão que aplaudiram as bobagens ditas por Myrian Rios, vocês a contratariam como babá?”. E quando uma leitora a indaga sobre o porque recuperar essas fotos, ela responde assim:
“Quanto a mim, destaquei as fotos, porque considero que o discurso falso-moralista e detrator de Myriam Rios não orna com a sua prática. Para os moralistas de plantão, 'boas mães cristãs de família' não posam nuas em revistas masculinas, ou posam?”
Sou da turma que pensa como a leitora Ana Paula Guedes, que se incomodou com o post. E meu argumento para a Conceição foi o de que não vejo porque seria incoerente posar nua 30 anos atrás e ser homofóbica hoje. Sobre essas fotos feitas 30 anos atrás podemos supor duas coisas: que ela se arrepende de tê-las feito ou que ela não vê problema algum nisso.
Pois bem. Vamos ao primeiro. É hipócrita desfrutar de sua vida, celebridade, beleza e juventude e, ao cair no ostracismo, virar fiscal de fiofó alheio? Ô se é. Mas a gente não sabe se foi isso que aconteceu. Porque o post diz: “é uma opção real decidir ser fotografada nua e cobrar por isso”. Mas o que a gente sabe é que nem sempre nessas situações as mulheres tem todo esse poder de escolher. Que esse “escolher”, pode ser até a página dois. Uma atriz mediana pode muito bem ter tido problemas financeiros, ter feito isso sem curtir porque precisava muito do dinheiro pra pagar os remédios da mãe doente ou [insira aqui qualquer outra situação dramática em que grana faz muita diferença], e hoje ficar realmente mal aos se lembrar que teve que se submeter a isso. Quer dizer, pode ter se arrependido porque ela não tava ali desfrutando a liberdade do seu corpo que agora o seu discurso quer negar. Talvez ela nunca tenha sido livre, até porque dizem que ninguém consegue oferecer o que não tem. Ou talvez ela realmente tenha mudado muito nestes 30 anos e não se reconheça nessas fotografia. Se é assim, lembrá-la disso com certeza é um ataque a ela. Mas seria um ataque eficiente ao seu discurso?
A Conceição no seu PS 2 se dirige a mim, explicando que para ela falsos moralistas para mim são aqueles que não seguem sequer o moralismo que pregam. E eu discordo aí, de novo, que a gente pode afirmar categoricamente que se trata de uma falsa moralista.
Vamos considerar agora que ela não se arrependeu de nada. Que apesar destas fotos serem antigas, ela faria tudo outra vez. Que acha lindo e tal. Não vejo contradição. Mulher posando nua pra revista masculina é algo super heteronormativo. Não ameaça em nada o status quo. Aqueles leitores conservadores a quem o post se dirige podem até ser realmente gratos pelos filhos terem tido a chance de bater uma punheta olhando uma moça tão bonita e garantir sua virilidade. E talvez sequer achem que não serviria para ser babá. Se ninguém mais concordar comigo, “Amar verbo intransitivo” tá aí pra não parecer que eu tirei isso da minha cabeça.
Enfim, não há nada de incoerente entre ter feitos aquelas fotos 30 anos atrás e ter este discurso hoje. O problema é ser homofóbico, ponto. Se a deputada tivesse saído direto do claustro das carmelitas descalças para tomar posse na Alerj, isso não tornaria seu discurso intolerante mais legítimo. Porque nada do que ela fez ou possa ter feito no passado conseguiria isso. E acho que quando a gente começa a discutir a pessoa, tira o foco do que realmente interessa neste caso. A Conceição em nenhum momento usou adjetivos machistas para qualificar Myrian Rios, mas hoje testemunhei gente buscando “material” para construir sua detratação misógina e o coleguinha de timeline dar o link do blog dela pra isso. Porque ela pode ter pensado crítica a uma mulher + foto sensuais = falsa moralista. Mas GERAL soma crítica a uma mulher + fotos sensuais = PUTA.
sábado, 28 de maio de 2011
Por políticas mais eficientes para a saúde da mulher
Hoje, dia 28 de maio, é dia de blogagem coletiva pró saúde da mulher. Hoje é sábado, são 6:42 da manhã, eu tô de ressaca, tenho aula na pós, mala pra fazer e ainda vou tentar aparecer na Marcha pela Liberdade. Mas senti que, pra mim, era importante sair da cama mais cedo pra falar sobre isso.
Sim, nós feministas sabemos que homens e mulheres são diferentes biologicamente. Não precisamos de nenhum artigo pseudo científico pra reafirmar isso, porque , olhem só, vivemos um tsunami hormonal mensalmente. E isso acontece por conta da reprodução, que como eu já disse lá no meu post do Blogueiras Feministas, é um trabalho social. E mesmo quem nunca se interessou por ter filhos, está sujeita a problemas de saúde relacionados ao sistema reprodutivo.
Então, como não vou conseguir elaborar muito, deixo um link para um blog sobre endometriose. A jornalista Caroline Salazar tem um blog em que expõe de maneira muito corajosa a sua batalha contra a doença, que a obrigou a se afastar do trabalho para o tratamento. Pra quem não sabe, a endometriose é uma doença crônica que leva o tecido do endométrio, o revestimento do útero, a crescer em lugares onde ele não deveria estar. Como um câncer, só que benigno. Mas o termo benigno pode levar à falsa impressão de que se trata de algo simples, quando na verdade é uma doença que pode provocar danos sérios à saúde física e emocional da mulher, porque provoca muita dor. Como há dificuldades para diagnosticá-la, a mulher pode passar anos sentindo dores lanscinantes sem saber que sofre de uma patologia. Porque tem mais essa, como é esperado que sintamos dor mesmo quando estamos saudáveis (poucas são as felizardas que nunca tiveram cólica menstrual), há profissionais de saúde que minimizam queixas de suas pacientes.
Em 2007, uma amiga minha foi diagnósticada de endometriose. Acompanhei seu sofrimento. Primeiro, 2 meses sem mentruar e o pânico de estar grávida, situação desmentida após sucessivos exames de gravidez darem negativo. Depois, crises de dores agudas confundidas com apendicite. Não me lembro de ela chegou ser operada para apendicite. Dias e dias de afastamento do trabalho dada a violência das dores, mas algumas semanas após a cirurgia. Soma-se a isso o medo de não ser capaz de engravidar.
Passados poucos meses da cirurgia, minha amiga participou de um processo de seleção para uma vaga de trabalho que oferecia, entre outros benefícios, morar do país legalmente, como ela também sonhava. Viu-se obrigada a omitir sua doença no exame médico, uma vez que isso poderia inviabilizar sua contratação mesmo estando em perfeitas condições de trabalho naquele momento. Há quem digo que isso é antiético. Pois eu digo que entre ter empatia por uma mulher com um problema de saúde tratável que precisa de trabalho e uma empresa gigantesca, não tenho dúvidas sobre quem escolho.
Minha amiga está bem agora. Foi diagnosticada cedo e logo conseguiu tratamento. Tinha um bom plano de saúde e, o mais importante, acesso à informações sobre a doença. Não é o que acontece com a maioria das mulheres. E acho realmente que há pouca divulgação sobre essa doença tão séria. E é essa negligência em disseminar a informação que faz com que milhares de mulheres, todos os dias, sejam vistas por seus empregadores como preguiçosas quando tem que se afastar do trabalho.
(ces prometem que não prestam muita atenção aos erros? é q não vou ter tempo de revisar MESMO. agradecida)
Sim, nós feministas sabemos que homens e mulheres são diferentes biologicamente. Não precisamos de nenhum artigo pseudo científico pra reafirmar isso, porque , olhem só, vivemos um tsunami hormonal mensalmente. E isso acontece por conta da reprodução, que como eu já disse lá no meu post do Blogueiras Feministas, é um trabalho social. E mesmo quem nunca se interessou por ter filhos, está sujeita a problemas de saúde relacionados ao sistema reprodutivo.
Então, como não vou conseguir elaborar muito, deixo um link para um blog sobre endometriose. A jornalista Caroline Salazar tem um blog em que expõe de maneira muito corajosa a sua batalha contra a doença, que a obrigou a se afastar do trabalho para o tratamento. Pra quem não sabe, a endometriose é uma doença crônica que leva o tecido do endométrio, o revestimento do útero, a crescer em lugares onde ele não deveria estar. Como um câncer, só que benigno. Mas o termo benigno pode levar à falsa impressão de que se trata de algo simples, quando na verdade é uma doença que pode provocar danos sérios à saúde física e emocional da mulher, porque provoca muita dor. Como há dificuldades para diagnosticá-la, a mulher pode passar anos sentindo dores lanscinantes sem saber que sofre de uma patologia. Porque tem mais essa, como é esperado que sintamos dor mesmo quando estamos saudáveis (poucas são as felizardas que nunca tiveram cólica menstrual), há profissionais de saúde que minimizam queixas de suas pacientes.
Em 2007, uma amiga minha foi diagnósticada de endometriose. Acompanhei seu sofrimento. Primeiro, 2 meses sem mentruar e o pânico de estar grávida, situação desmentida após sucessivos exames de gravidez darem negativo. Depois, crises de dores agudas confundidas com apendicite. Não me lembro de ela chegou ser operada para apendicite. Dias e dias de afastamento do trabalho dada a violência das dores, mas algumas semanas após a cirurgia. Soma-se a isso o medo de não ser capaz de engravidar.
Passados poucos meses da cirurgia, minha amiga participou de um processo de seleção para uma vaga de trabalho que oferecia, entre outros benefícios, morar do país legalmente, como ela também sonhava. Viu-se obrigada a omitir sua doença no exame médico, uma vez que isso poderia inviabilizar sua contratação mesmo estando em perfeitas condições de trabalho naquele momento. Há quem digo que isso é antiético. Pois eu digo que entre ter empatia por uma mulher com um problema de saúde tratável que precisa de trabalho e uma empresa gigantesca, não tenho dúvidas sobre quem escolho.
Minha amiga está bem agora. Foi diagnosticada cedo e logo conseguiu tratamento. Tinha um bom plano de saúde e, o mais importante, acesso à informações sobre a doença. Não é o que acontece com a maioria das mulheres. E acho realmente que há pouca divulgação sobre essa doença tão séria. E é essa negligência em disseminar a informação que faz com que milhares de mulheres, todos os dias, sejam vistas por seus empregadores como preguiçosas quando tem que se afastar do trabalho.
(ces prometem que não prestam muita atenção aos erros? é q não vou ter tempo de revisar MESMO. agradecida)
domingo, 17 de abril de 2011
Torta de climão*
Não é bonito falar mal das pessoas, ainda mais gente comum, não personalidades. Não sei se deveria fazer isso, mas aproveito que este é um blog “escondido”, sem muita visibilidade. A desculpa é que, para além de implicância pessoal, quando falo mal de alguém aqui tô tentando falar de uma situação mais ampla, como quando mencionei colegas de trabalho machistas e preconceituosos.
Já contei mais de uma vez sobre a minha pós. Um curso não muito pretensioso, uma especialização lato sensu, mas que tem me feito muito feliz. Primeiro pelo conteúdo. Finalmente estudar um pouco de economia, algo que me interessa tanto, e tratar de problemas das grandes cidades é muito estimulante para uma pessoa que curte estudar, mas passa a semana envolvida com um trabalho não necessariamente desafiador. Depois pela turma. Passo o sábado com pessoas inteligentes e talentosas de profissões e experiências de vida muito diversas. Com algumas (há moços também, mas as mais próximas são elas, por isso uso o artigo no feminino) criei um vínculo de tchurma de faculdade mesmo: almoçamos juntas, bebemos depois da aula, e já fizemos um churrasco aqui no na churrasqueira do prédio.
A turma é muito diversa. Há essa tchurma mais grudada, mas não chega a ser uma panelinha. Como em todo grupo grande, há os micro grupos, e há pessoas que não estão ligadas a ninguém especificamente. Mas no geral reina o respeito e o coleguismo. Sabe, não vale a pena acordar cedo no sábado e pagar uma mensalidade para frequentar um curso que não vai deixar ninguém mais rico (pelo menos não de maneira muito imediate, já que não é curso voltado ao mercado) se isso não for um prazer. E pra maior parte de nós é essa a relação mesmo: de prazer.
Mas há essa colega. Mal-humorada. Tão mal-humorada que eu brinco que ela não deve ter dentes, porque nunca a vi sorrindo. Até aí, problema dela. A coisa complica quando o mal-humor extrapola, a ponto de implicar com a dinâmica da aula. Foi o que aconteceu ontem, o climão do título.
Nosso curso tem um professor coordenador, que é o único docente fixo. Ele montou uma grade e convidou docentes que não necessariamente têm vínculo com a instituição na qual estudamos para dar aulas. E, pra minha grata surpresa, é um curso com uma ideologia de esquerda assumida: alguns dos nossos professores fizeram parte da gestão da Erundina como prefeita de São Paulo, por exemplo. Nem todos os colegas são super interessados por política, nem todos são super entusiastas da esquerda, mas isso só enriquece o debate. E há muito debate, que muitas vezes leva a digressões, o que eu acho bem normal num cursos com um tema tão rico, e numa aula tão longa.
Vários parágrafos pra chegar ao causo-em-si. Ufa.
Este sábado estávamos lá com um professor que trabalho no IPEA. Ele falava de dinâmicas regionais no Brasil. E falou sobre a desigualdade, que a economia do Nordeste cresceu bastante, mas continua muito menor que a do Sudeste. E o assunto caiu no Bolsa Família, porque não dá para, em 2011, falar de economia do Nordeste sem tratar de Bolsa Família. Não dá, não interessa sua orientação política. E aí falamos do preconceito contra o programa. E caímos no PSDB, e o professor falou algo muito interessantes: que a aliança do PSDB com o PFL (hoje DEM), sugou o PT pro centro, meio vácuo mesmo. E se ela não tivesse acontecido, o quadro político do país seria outro. E bom, daí falamos da carta aberta do FHC essa semana. Estávamos nessa, chamando o FHC de doido, comentando a escolha de ignorar as massas, quando a mal-humorada levantou a mão de disse, bicuda, que queria voltar ao tema da aula.
Climão, claro. Professor perguntou se ela não achava que aquele assunto era relevante para o tema abordado. Ela respondeu que a gente poderia discutir política “no bar depois da aula”, coisa que fazemos todo o sábado (e ela nunca está conosco, claro). Mas enfim. Chamou a aula do professor convidado de papo de boteco, desqualificando. Disse que estava lá para aprender Economia e Administração Pública, e não discutir política, e que há um ano “tinha que aguentar este tipo de conversa”. Que o queria na aula eram fatos e não “opiniões”
Bom, como explicar pra esta pessoa que não dá pra falar de administração pública sem falar de política? Sério, como? Não quero ser intolerante, acho críticas muito positivas, mas como fazê-la entender que se a classe está satisfeita com a dinâmica do curso, não há porque mudar o que quer que seja para atender às necessidades dela. De verdade, não quero falar “não tá satisfeita, vá embora”, mas como fazer a pessoa entender que o que ela chama de papo de boteco faz parte do curso? Claramente não era o que ela buscava, mas ok, ela não precisa ficar ali, pagar mensalidade, acordar cedo se está tão ruim assim. Nem sempre a gente faz escolhas as certas, normal.
Daí rolou um bate-boca com uma colega que perdeu a paciência com ela, chamamos o intervalo do café pro clima abrandar, e em seguida, antes que mal-humorada voltasse, uma colega mais reservada e muito sabida fez um julgamento muito bom. Disse que no fundo tem compaixão pela moça. A culpa provavelmente não é só de sua óbvia não-identificação com a turma. Há uma clara concepção de que saber é algo técnico, apostilado. Logo, este papo, esta colcha de retalhos feita a partir de perguntas dos colegas, os comentários engraçadinhos, a troca de experiências que prezamos tanto e identificamos como uma construção coletiva do aprendizado para ela é só uma fuga do “real” saber, o trazido pelo professor, que segue um roteiro determinado.
O chocante é que colega mal-humorada é jornalista. E olha, eu já contei que uma das minhas amigas mais amadas é jornalista. E algumas das minha colegas de curso mais bacanas e inteligentes também são. Mas eu fico pensando se não há aí nas redações hoje uma geração de profissionais que pensam como ela, sabe? E chamou muita atenção quando ela disse que queria “fatos, não opiniões”. Será que ela pensa mesmo que existe conhecimento neutro, sem nenhum viés ideológico? Será que ela acredita que o publicado no portal de notícias em que ela trabalha como repórter é a expressão da verdade, e não a verdade segundo o ponto de vista do patrão? Não sei mesmo. Mas uma colega disse que não está interessada em ler matérias de jornalistas não afeitos ao debate. Que acham que podem tratar de economia e urbanismo (!!!) sem tratar de política. Olha, não é porque eu não gosto de gente carrancuda, mas concordo bastante.
* vi essa expressão no twitter e achei sensacional...
Já contei mais de uma vez sobre a minha pós. Um curso não muito pretensioso, uma especialização lato sensu, mas que tem me feito muito feliz. Primeiro pelo conteúdo. Finalmente estudar um pouco de economia, algo que me interessa tanto, e tratar de problemas das grandes cidades é muito estimulante para uma pessoa que curte estudar, mas passa a semana envolvida com um trabalho não necessariamente desafiador. Depois pela turma. Passo o sábado com pessoas inteligentes e talentosas de profissões e experiências de vida muito diversas. Com algumas (há moços também, mas as mais próximas são elas, por isso uso o artigo no feminino) criei um vínculo de tchurma de faculdade mesmo: almoçamos juntas, bebemos depois da aula, e já fizemos um churrasco aqui no na churrasqueira do prédio.
A turma é muito diversa. Há essa tchurma mais grudada, mas não chega a ser uma panelinha. Como em todo grupo grande, há os micro grupos, e há pessoas que não estão ligadas a ninguém especificamente. Mas no geral reina o respeito e o coleguismo. Sabe, não vale a pena acordar cedo no sábado e pagar uma mensalidade para frequentar um curso que não vai deixar ninguém mais rico (pelo menos não de maneira muito imediate, já que não é curso voltado ao mercado) se isso não for um prazer. E pra maior parte de nós é essa a relação mesmo: de prazer.
Mas há essa colega. Mal-humorada. Tão mal-humorada que eu brinco que ela não deve ter dentes, porque nunca a vi sorrindo. Até aí, problema dela. A coisa complica quando o mal-humor extrapola, a ponto de implicar com a dinâmica da aula. Foi o que aconteceu ontem, o climão do título.
Nosso curso tem um professor coordenador, que é o único docente fixo. Ele montou uma grade e convidou docentes que não necessariamente têm vínculo com a instituição na qual estudamos para dar aulas. E, pra minha grata surpresa, é um curso com uma ideologia de esquerda assumida: alguns dos nossos professores fizeram parte da gestão da Erundina como prefeita de São Paulo, por exemplo. Nem todos os colegas são super interessados por política, nem todos são super entusiastas da esquerda, mas isso só enriquece o debate. E há muito debate, que muitas vezes leva a digressões, o que eu acho bem normal num cursos com um tema tão rico, e numa aula tão longa.
Vários parágrafos pra chegar ao causo-em-si. Ufa.
Este sábado estávamos lá com um professor que trabalho no IPEA. Ele falava de dinâmicas regionais no Brasil. E falou sobre a desigualdade, que a economia do Nordeste cresceu bastante, mas continua muito menor que a do Sudeste. E o assunto caiu no Bolsa Família, porque não dá para, em 2011, falar de economia do Nordeste sem tratar de Bolsa Família. Não dá, não interessa sua orientação política. E aí falamos do preconceito contra o programa. E caímos no PSDB, e o professor falou algo muito interessantes: que a aliança do PSDB com o PFL (hoje DEM), sugou o PT pro centro, meio vácuo mesmo. E se ela não tivesse acontecido, o quadro político do país seria outro. E bom, daí falamos da carta aberta do FHC essa semana. Estávamos nessa, chamando o FHC de doido, comentando a escolha de ignorar as massas, quando a mal-humorada levantou a mão de disse, bicuda, que queria voltar ao tema da aula.
Climão, claro. Professor perguntou se ela não achava que aquele assunto era relevante para o tema abordado. Ela respondeu que a gente poderia discutir política “no bar depois da aula”, coisa que fazemos todo o sábado (e ela nunca está conosco, claro). Mas enfim. Chamou a aula do professor convidado de papo de boteco, desqualificando. Disse que estava lá para aprender Economia e Administração Pública, e não discutir política, e que há um ano “tinha que aguentar este tipo de conversa”. Que o queria na aula eram fatos e não “opiniões”
Bom, como explicar pra esta pessoa que não dá pra falar de administração pública sem falar de política? Sério, como? Não quero ser intolerante, acho críticas muito positivas, mas como fazê-la entender que se a classe está satisfeita com a dinâmica do curso, não há porque mudar o que quer que seja para atender às necessidades dela. De verdade, não quero falar “não tá satisfeita, vá embora”, mas como fazer a pessoa entender que o que ela chama de papo de boteco faz parte do curso? Claramente não era o que ela buscava, mas ok, ela não precisa ficar ali, pagar mensalidade, acordar cedo se está tão ruim assim. Nem sempre a gente faz escolhas as certas, normal.
Daí rolou um bate-boca com uma colega que perdeu a paciência com ela, chamamos o intervalo do café pro clima abrandar, e em seguida, antes que mal-humorada voltasse, uma colega mais reservada e muito sabida fez um julgamento muito bom. Disse que no fundo tem compaixão pela moça. A culpa provavelmente não é só de sua óbvia não-identificação com a turma. Há uma clara concepção de que saber é algo técnico, apostilado. Logo, este papo, esta colcha de retalhos feita a partir de perguntas dos colegas, os comentários engraçadinhos, a troca de experiências que prezamos tanto e identificamos como uma construção coletiva do aprendizado para ela é só uma fuga do “real” saber, o trazido pelo professor, que segue um roteiro determinado.
O chocante é que colega mal-humorada é jornalista. E olha, eu já contei que uma das minhas amigas mais amadas é jornalista. E algumas das minha colegas de curso mais bacanas e inteligentes também são. Mas eu fico pensando se não há aí nas redações hoje uma geração de profissionais que pensam como ela, sabe? E chamou muita atenção quando ela disse que queria “fatos, não opiniões”. Será que ela pensa mesmo que existe conhecimento neutro, sem nenhum viés ideológico? Será que ela acredita que o publicado no portal de notícias em que ela trabalha como repórter é a expressão da verdade, e não a verdade segundo o ponto de vista do patrão? Não sei mesmo. Mas uma colega disse que não está interessada em ler matérias de jornalistas não afeitos ao debate. Que acham que podem tratar de economia e urbanismo (!!!) sem tratar de política. Olha, não é porque eu não gosto de gente carrancuda, mas concordo bastante.
* vi essa expressão no twitter e achei sensacional...
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
Mulher e Mercado de Trabalho
Vocês já conhecem o blog coletivo das blogueiras feministas? Não? Então passem lá. Dia desses alguém avisou na nossa lista de discussão que a Carolina Pombo estava agitando uma blogagem coletiva hoje sobre mulheres e mercado de trabalho. Alguém criou um tópico no nosso fórum, boas idéias surgiram e a Bia editou e fez um post. Daí que eu não vou fazer um aqui, porque minha idéias já estão todas lá - assim como o crédito à outras companheiras de fórum inspiradas que contribuíram para a discussão. Visitem o blog e conheçam mulheres fantásticas com quem tenho trocado figurinhas ultimamente. E se alguém que passa por aqui quiser se juntar ao fórum, me avise, tá? Já adianto que o volume de mensagens é enlouquecedor, mas o aprendizado e a troca de experiências têm sido fantástico.
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
A posse da presidenta
Por onde começar? Foi tudo tão lindo! Primeiro, porque eu tava morrendo de ansiedade por encontrar gente que eu só conhecia pela internet. Não que isso seja tão novidade assim na minha vida, mas, né? Toda uma situação especial. Mulheres que eu aprendi a respeitar sem conhecer. E não poderia ter sido mais legal nesse aspecto. Abraços apertado e sorrisos generosos de gente que parecia amiga de longa data.
Mas vamos ao evento. O clima era lindo. Povo tirando foto com bandeira e camiseta da campanha já no aeroporto de Congonhas. No aeroporto, conhecemos uma moça que, numa demonstração de orgulho democrático do qual assumo ser incapaz, disse que não tinha votado na Dilma, mas estava indo assistir à posse por que afinal de contas “ela seria presidenta de todo mundo”. Chegando à Brasília enfim, um inferno pra quem não gosta de “petista” (leia-se todos aqueles que acham que, se votou no PT, é petista automaticamente, e isso é péssimo). Muita gente animada pra festa.
Eu sei que ao chegar na Esplanada dos Ministérios no sábado meus olhos já se encheram d'água. Vi uma moça com uma camiseta escrito “lugar de mulher é na presidência” (tem foto dessa moça aqui). E caiu a ficha legal, de que aquele era um momento histórico, que com certeza ia marcar a minha vida e a de milhões de brasileiros e de brasileiras (das últimas especialmente, claro). A Esplanada estava decorada com Banners que lembravam grande mulheres da nossa história. Nós éramos as protagonistas, isso estava claro.
Bom, a frustração maior é porque a chuva mais forte caiu 2 minutos antes dela passar de carro aberto a 3 metros de onde estávamos. Nos molhamos horrores e só vi a mão da presidenta acenando do lado de fora do carro. Ok, faz parte. Depois, fomos pra frente do Palácio do Planalto. E eu cai no choro pesado quando o Sarney disse “declaro empossada a presidenta”. E eu chorei durante o hino nacional. Vergonha de contar, parece um ufanismo à la Galvão Bueno, mas eu pensei em tanta coisa. Lembrei que o meu pai foi torturado, como ela. Lembrei do quanto esse país já melhorou, do quanto somos mais democráticos, da infância inteira ouvindo que somos o país do futuro e, olha lá, eu tenho 30 anos, o futuro chegou, e é esse momento tão cheio de esperança. E quando eu tava quase com os olhos secos, ouvi uma senhora do meu lado dizer que ela seria “uma babaca” se não fosse assistir a posse, porque ela achava que só as netas ou bisnetas veriam uma mulher presidente, um dia. Daí acontece de ser uma mulher da idade dela, e de esquerda, ela tinha que testemunhar. Voltei a chorar.
Havia toda a ansiedade pela despedida do Lula. Mas ele, generoso que só, se esforçou pra não ofuscar a estrela do dia. Foi lindo ver ele descer a rampa e, silencioso, se juntar a galera.
Bom, depois fomos com o povo comemorar. Fechamos um boteco, depois fechamos o segundo (nem foi uma super noitada, os bares lá fecham cedo). Em algum momento da noite descobrimos que a Maria Frô não iria se juntar a nós porque ela era rycah e conseguiu entrar na festa oficial no Itamaraty. E eu não tive inveja porque sou um ser evoluído (mentchira). Mas, voltando ao boteco, chamou a atenção o clima da nossa mesa. Os poucos homens num confortável papel de coadjuvantes. A festa era nossa, e eles estavam felizes pelo país e também por verem suas companheiras tão felizes juntas. O que me faz dizer a você, moça solteira a procura de companhia masculina: não se satisfaça com qualquer pão com ovo machistinha. Tem homem bacana por aí. É difícil de encontrar, mas você é brasileira e não desiste nunca, certo?
Enfim, o que mais posso contar, gente? Só que eu fiquei muito feliz, mesmo. Valeu demais a grana, o tempo, o desconforto da chuva, os tênis até agora sujos de lama e o medão de pousar em Congonhas em noite de chuva. Valeu tudo, valeu muito. Agora é torcer muito pra que ela seja bem sucedida na árdua tarefa de suceder a um dos líderes mais populares do mundo. Trabalho duro, mas né? Eu boto fé. Vocês não? ;-)
Bom, as fotos:



Eu não gosto de por fotos minhas aqui, mas a ocasião merece. Várias blogueiras e "arrobas" famosas e eu. Sou a sem capa, da direita "toda molhadinha".
Mas vamos ao evento. O clima era lindo. Povo tirando foto com bandeira e camiseta da campanha já no aeroporto de Congonhas. No aeroporto, conhecemos uma moça que, numa demonstração de orgulho democrático do qual assumo ser incapaz, disse que não tinha votado na Dilma, mas estava indo assistir à posse por que afinal de contas “ela seria presidenta de todo mundo”. Chegando à Brasília enfim, um inferno pra quem não gosta de “petista” (leia-se todos aqueles que acham que, se votou no PT, é petista automaticamente, e isso é péssimo). Muita gente animada pra festa.
Eu sei que ao chegar na Esplanada dos Ministérios no sábado meus olhos já se encheram d'água. Vi uma moça com uma camiseta escrito “lugar de mulher é na presidência” (tem foto dessa moça aqui). E caiu a ficha legal, de que aquele era um momento histórico, que com certeza ia marcar a minha vida e a de milhões de brasileiros e de brasileiras (das últimas especialmente, claro). A Esplanada estava decorada com Banners que lembravam grande mulheres da nossa história. Nós éramos as protagonistas, isso estava claro.
Bom, a frustração maior é porque a chuva mais forte caiu 2 minutos antes dela passar de carro aberto a 3 metros de onde estávamos. Nos molhamos horrores e só vi a mão da presidenta acenando do lado de fora do carro. Ok, faz parte. Depois, fomos pra frente do Palácio do Planalto. E eu cai no choro pesado quando o Sarney disse “declaro empossada a presidenta”. E eu chorei durante o hino nacional. Vergonha de contar, parece um ufanismo à la Galvão Bueno, mas eu pensei em tanta coisa. Lembrei que o meu pai foi torturado, como ela. Lembrei do quanto esse país já melhorou, do quanto somos mais democráticos, da infância inteira ouvindo que somos o país do futuro e, olha lá, eu tenho 30 anos, o futuro chegou, e é esse momento tão cheio de esperança. E quando eu tava quase com os olhos secos, ouvi uma senhora do meu lado dizer que ela seria “uma babaca” se não fosse assistir a posse, porque ela achava que só as netas ou bisnetas veriam uma mulher presidente, um dia. Daí acontece de ser uma mulher da idade dela, e de esquerda, ela tinha que testemunhar. Voltei a chorar.
Havia toda a ansiedade pela despedida do Lula. Mas ele, generoso que só, se esforçou pra não ofuscar a estrela do dia. Foi lindo ver ele descer a rampa e, silencioso, se juntar a galera.
Bom, depois fomos com o povo comemorar. Fechamos um boteco, depois fechamos o segundo (nem foi uma super noitada, os bares lá fecham cedo). Em algum momento da noite descobrimos que a Maria Frô não iria se juntar a nós porque ela era rycah e conseguiu entrar na festa oficial no Itamaraty. E eu não tive inveja porque sou um ser evoluído (mentchira). Mas, voltando ao boteco, chamou a atenção o clima da nossa mesa. Os poucos homens num confortável papel de coadjuvantes. A festa era nossa, e eles estavam felizes pelo país e também por verem suas companheiras tão felizes juntas. O que me faz dizer a você, moça solteira a procura de companhia masculina: não se satisfaça com qualquer pão com ovo machistinha. Tem homem bacana por aí. É difícil de encontrar, mas você é brasileira e não desiste nunca, certo?
Enfim, o que mais posso contar, gente? Só que eu fiquei muito feliz, mesmo. Valeu demais a grana, o tempo, o desconforto da chuva, os tênis até agora sujos de lama e o medão de pousar em Congonhas em noite de chuva. Valeu tudo, valeu muito. Agora é torcer muito pra que ela seja bem sucedida na árdua tarefa de suceder a um dos líderes mais populares do mundo. Trabalho duro, mas né? Eu boto fé. Vocês não? ;-)
Bom, as fotos:
Eu não gosto de por fotos minhas aqui, mas a ocasião merece. Várias blogueiras e "arrobas" famosas e eu. Sou a sem capa, da direita "toda molhadinha".
sábado, 20 de novembro de 2010
Dia da Consciência Negra – e respeitando o timing
Eu sou uma moça muito desligada e achava que tinha de ter escrito o post que pretendia na semana passada por conta das discussões sobre o racismo na obra do Monteiro Lobato, ainda mais de ler este post aqui no Idelber. Mas aí ontem veio de novo a inspiração e caiu a ficha de que oi, o dia da Consciência Negra é hoje, zé mané. Tem timing perdido não. Pra melhorar, O Idelber colocou outro texto fera lá, da Ana Maria Gonçalves. Se você ainda não leu, recomendo fortemente.
Enfim, pra começar eu preciso contar que minha pela é branca. Tirei lá minha foto do twitter, e se alguém não viu antes, descrevo: sou um tipo não branca germânica, mas branca mediterrânea: pele branca amarelada, cabelos e olhos bem escuros (e um nariz grande que faz o povo achar que sou descendente de árabes – mas não sou). Meu fenótipo é uma combinação de vários outros, como acontece com boa parte dos brasileiros. Minha mãe tem a pele mais escura (e um nariz delicadinho). Minha avó tinha a pela ainda mais escura, nariz e lábios finos, cabelos bem pretos e bem lisos. Minha bisavó era, pelo fenótipo, negra. Mas não só por ele: era parteira e benzedeira numa cidade do interiorzão de Minas. E fumava cachimbo. Sim, o povo na família não diz isso assim - depois comento sobre – mas vó Joaquina era a própria preta velha. Dada a miscigenação, tenho parentes de todas as cores, e meu irmão tem olhos verdes. Tem uma foto sensacional do meu irmão pequenininho, loirinho, com a bisa preta, que eu adoraria ter digitalizada pra ilustrar este post. Se achar, depois eu subo pra cá.
Bom, então, do lado materno da família, as mulheres tinham pele mais escura conforme a idade (minha avó paterna era branca, e morreu antes de eu nascer, então não era referência). Tenho claramente a memória de que em algum momento eu acreditei que seria negra quando fosse velha. Sério. Pode parecer surreal, mas imaginava que quando fosse adulta seria mais morena como minha mãe, e aos 80, negra como a bisa. Lógico que isso deve ter durado pouco e logo percebi que, olha só, há vovós por aí que são branquinhas.
A outra informação importante (vai ficar longo isso...) é que tanto meu pai como minha mãe são de famílias muito pobres, com muito pouca instrução. Mas o meu pai fez faculdade, teve a vida toda um emprego com uma remuneração bacana que o permitiu dar uma vida confortável para a família. Eu e meu irmão estudamos em colégios particulares uma parte da vida. E durante alguns anos estudei numa escola com um perfil elitizado, mas cujas mensalidades cabiam no bolso do meu pai com algum sacrifício. Bom, um dia, quando eu tinha por volta de uns 9 ou 10 anos, a professora de Estudos Sociais nos deu um trabalho interessante. Tínhamos que contar a história da nossa família, entrevistando nossos avós para saber sobre seu passado. Mas aí vinha o detalhe: o foco era o país de onde veio a família. Portugal, Itália, Japão, Líbano, enfim, estes lugares que exportaram gente pra São Paulo. Daí fui eu explicar que olha, eu até sei que tenho lá um bisavô português, alguém na família disse que tem um espanhol, mas minha avó veio de Minas mesmo. Não, não servia. Tinha que ser estrangeiro. E me sugeriu entrevistar outra pessoa que viesse do mesmo país. Acabei, muito a contragosto, entrevistando uma vizinha espanhola. Sem nenhuma identificação: a Espanha não dizia nada pra mim. Nem sabia o que era paella até a entrevista – comida de antepassado, pra mim, era frango com quiabo e angu.
Meus pais não se deram conta do problema na época, não protestaram. E não vou dizer que tenho trauma porque não é verdade: esse caso ficou mais ou menos esquecido até a minha licenciatura, quando em alguma matéria vimos a questão dos "temas transversais", que devem ser abordados em todas as disciplinas. Só então eu me lembrei. De novo, não fiquei traumatizada, mas me lembro do desconforto na época. De me sentir a orfã, aquela que não tem passado e precisa pegar emprestado do da vizinha. Fora isso, hoje tenho a consciência de que minha avó, que vivia comigo na mesma casa, não teve o direito de ter sua história reproduzida e valorizada - o que é muito mais revoltante do que meu incômodo. Dentro de casa sempre imperou o respeito e a tolerância, mas boa parte da família é racista – contavam piadas racistas e diziam que a vó e a bisa eram “morenas”. Mesmo a minha avó dizia que “de preta, já basta eu”. A falta de autoestima de quem aprendeu que, como negra, pobre e sem instrução, não tinha valor. E eu me dou conta do quanto é perversa uma atividade escolar que reforça isso. Bom, desnecessário dizer que não havia crianças negras na turma. Mas eu ouso chutar que, se houvessem seriam convidadas a entrevistar o português da padaria, com aquele papo de que todos descendem de portugueses também, né? O “embranquecimento” da população, tão defendido no começo do século XX.
A lembrança e a análise deste evento me ajudaram a amadurecer a minha defesa da cotas raciais. Eu, menina de pele branca e cabelo liso, tive o meu passado próximo discriminado e fui obrigada não a mentir (é, eu sou descendente de portugueses e espanhóis e alemães até, também) mas a editar a minha história pra que ela fosse “aceitável”. E na ocasião nem me passou pela cabeça que a escola estivesse errada: o problema era meu, ué. Fiquei imaginando então como é para a criança negra, aquela que só aprende que seus antepassados foram escravos e que a África é, olha só, a fornecedora de escravos - ponto. No geral não aprende nem de onde estes escravos vinham, de que países, a cultura deles, etc. Isso que chamam de “mesmas oportunidades para todos” os que defendem a meritocracia do vestibular sem cotas?
Enfim, o papo caiu nas cotas, mas nem é essa a questão. Fica muito claro pra mim que quem fica falando em “ditadura do politicamente correto” tá pensando só na sua infância idílica. Porque na minha infância nada romântica a escola me disse que a vovó ideal era a Dona Benta – mas a que eu tinha em casa, que teve doze filhos, trabalhou em garimpo grávida e não teve acesso à educação formal, lembrava mais a tia Anastácia. Minha avó já morreu, mas por respeito a ela e desagravo ao fato de que sua história não foi devidamente reconhecida em vida quando deveria, eu só posso condenar quem relativiza o racismo. Eu prefiro a preservação da autoestima das crianças negras à elevação da Emília a cânone intocável.
Enfim, pra começar eu preciso contar que minha pela é branca. Tirei lá minha foto do twitter, e se alguém não viu antes, descrevo: sou um tipo não branca germânica, mas branca mediterrânea: pele branca amarelada, cabelos e olhos bem escuros (e um nariz grande que faz o povo achar que sou descendente de árabes – mas não sou). Meu fenótipo é uma combinação de vários outros, como acontece com boa parte dos brasileiros. Minha mãe tem a pele mais escura (e um nariz delicadinho). Minha avó tinha a pela ainda mais escura, nariz e lábios finos, cabelos bem pretos e bem lisos. Minha bisavó era, pelo fenótipo, negra. Mas não só por ele: era parteira e benzedeira numa cidade do interiorzão de Minas. E fumava cachimbo. Sim, o povo na família não diz isso assim - depois comento sobre – mas vó Joaquina era a própria preta velha. Dada a miscigenação, tenho parentes de todas as cores, e meu irmão tem olhos verdes. Tem uma foto sensacional do meu irmão pequenininho, loirinho, com a bisa preta, que eu adoraria ter digitalizada pra ilustrar este post. Se achar, depois eu subo pra cá.
Bom, então, do lado materno da família, as mulheres tinham pele mais escura conforme a idade (minha avó paterna era branca, e morreu antes de eu nascer, então não era referência). Tenho claramente a memória de que em algum momento eu acreditei que seria negra quando fosse velha. Sério. Pode parecer surreal, mas imaginava que quando fosse adulta seria mais morena como minha mãe, e aos 80, negra como a bisa. Lógico que isso deve ter durado pouco e logo percebi que, olha só, há vovós por aí que são branquinhas.
A outra informação importante (vai ficar longo isso...) é que tanto meu pai como minha mãe são de famílias muito pobres, com muito pouca instrução. Mas o meu pai fez faculdade, teve a vida toda um emprego com uma remuneração bacana que o permitiu dar uma vida confortável para a família. Eu e meu irmão estudamos em colégios particulares uma parte da vida. E durante alguns anos estudei numa escola com um perfil elitizado, mas cujas mensalidades cabiam no bolso do meu pai com algum sacrifício. Bom, um dia, quando eu tinha por volta de uns 9 ou 10 anos, a professora de Estudos Sociais nos deu um trabalho interessante. Tínhamos que contar a história da nossa família, entrevistando nossos avós para saber sobre seu passado. Mas aí vinha o detalhe: o foco era o país de onde veio a família. Portugal, Itália, Japão, Líbano, enfim, estes lugares que exportaram gente pra São Paulo. Daí fui eu explicar que olha, eu até sei que tenho lá um bisavô português, alguém na família disse que tem um espanhol, mas minha avó veio de Minas mesmo. Não, não servia. Tinha que ser estrangeiro. E me sugeriu entrevistar outra pessoa que viesse do mesmo país. Acabei, muito a contragosto, entrevistando uma vizinha espanhola. Sem nenhuma identificação: a Espanha não dizia nada pra mim. Nem sabia o que era paella até a entrevista – comida de antepassado, pra mim, era frango com quiabo e angu.
Meus pais não se deram conta do problema na época, não protestaram. E não vou dizer que tenho trauma porque não é verdade: esse caso ficou mais ou menos esquecido até a minha licenciatura, quando em alguma matéria vimos a questão dos "temas transversais", que devem ser abordados em todas as disciplinas. Só então eu me lembrei. De novo, não fiquei traumatizada, mas me lembro do desconforto na época. De me sentir a orfã, aquela que não tem passado e precisa pegar emprestado do da vizinha. Fora isso, hoje tenho a consciência de que minha avó, que vivia comigo na mesma casa, não teve o direito de ter sua história reproduzida e valorizada - o que é muito mais revoltante do que meu incômodo. Dentro de casa sempre imperou o respeito e a tolerância, mas boa parte da família é racista – contavam piadas racistas e diziam que a vó e a bisa eram “morenas”. Mesmo a minha avó dizia que “de preta, já basta eu”. A falta de autoestima de quem aprendeu que, como negra, pobre e sem instrução, não tinha valor. E eu me dou conta do quanto é perversa uma atividade escolar que reforça isso. Bom, desnecessário dizer que não havia crianças negras na turma. Mas eu ouso chutar que, se houvessem seriam convidadas a entrevistar o português da padaria, com aquele papo de que todos descendem de portugueses também, né? O “embranquecimento” da população, tão defendido no começo do século XX.
A lembrança e a análise deste evento me ajudaram a amadurecer a minha defesa da cotas raciais. Eu, menina de pele branca e cabelo liso, tive o meu passado próximo discriminado e fui obrigada não a mentir (é, eu sou descendente de portugueses e espanhóis e alemães até, também) mas a editar a minha história pra que ela fosse “aceitável”. E na ocasião nem me passou pela cabeça que a escola estivesse errada: o problema era meu, ué. Fiquei imaginando então como é para a criança negra, aquela que só aprende que seus antepassados foram escravos e que a África é, olha só, a fornecedora de escravos - ponto. No geral não aprende nem de onde estes escravos vinham, de que países, a cultura deles, etc. Isso que chamam de “mesmas oportunidades para todos” os que defendem a meritocracia do vestibular sem cotas?
Enfim, o papo caiu nas cotas, mas nem é essa a questão. Fica muito claro pra mim que quem fica falando em “ditadura do politicamente correto” tá pensando só na sua infância idílica. Porque na minha infância nada romântica a escola me disse que a vovó ideal era a Dona Benta – mas a que eu tinha em casa, que teve doze filhos, trabalhou em garimpo grávida e não teve acesso à educação formal, lembrava mais a tia Anastácia. Minha avó já morreu, mas por respeito a ela e desagravo ao fato de que sua história não foi devidamente reconhecida em vida quando deveria, eu só posso condenar quem relativiza o racismo. Eu prefiro a preservação da autoestima das crianças negras à elevação da Emília a cânone intocável.
domingo, 31 de outubro de 2010
=D
Não, o país não deixará de ser machista em 1º de janeiro, tal qual os EUA não deixaram de ser racistas. Mas é um passo importante, pra quebrar paradigmas. Para as novas gerações crescerem acostumadas às novas possibilidades. Disse no twitter, disse em comentários por aí e repito: eu nasci num país governado pelo general Figueiredo, que gostava mais de cavalo do que gente. E hoje vejo uma mulher divorciada ser eleita, apesar de uma campanha machista retrógrada apoiada pela imprensa. É um outro país, não há como negar. Por ele, pelas possibilidades que ele traz, eu comemoro.
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Elaborando um pouco a indignação desta manhã
De manhã eu estava com uma enxaqueca daquelas terríveis. Daí, abri o Uol, vi o link, achei que nunca mais fosse ficar em bem na vida. Mas a Neosaldina* ajuda gente a concatenar as ideias.
Enfim, eu tava satisfeita com a maneira com que a Dilma tava levando as coisas antes dos boatos. Não dá pra dizer que é super a favor, tem que jogar no colo da saúde pública. Acho que dizer assim fica claro. E acho que faltou orientação da campanha, de dizer que é o congresso que decide, que presidente sozinha não faz nada, que ela precisa repetir isso. Sim, no meu mundo ideal ela poderia ser mais enfática, claro, mas no meu mundo ideal aborto nunca teria sido criminalizado. Então achava que isso era o suficiente pra não desagradar ninguém. E daí entrava o pessoal religioso, Crivela, Benedita (e agora no segundo turno, o Chalita), que já que estão lá, tem que prestar pra alguma coisa. Pelo menos pra usar sua comunicação com este público pra dizer que ela não é o bicho-papão.
Mas aí vai o bosta do André Vargas falar aquela bobagem no twitter. Que abortista é o Serra por conta da pílula do dia seguinte. O que além de ser uma campanha de tão baixo nível quanto o que a gente critica, traz a pauta uma questão já conquistada. Tem como ser mais revoltante? Ah, tem. Lembra que eu disse ontem que tem gente do nosso lado com quem eu não confraternizaria para nada? Paulo Henrique Amorim, por exemplo. Olha só, o Serra, como Ministro da Saúde, assinou uma política pública pra fazer com que o SUS atenda as mulheres que tem direito a interromper a gestação legalmente, de acordo com a nossa legislação. Porque apesar de terem este direito desde 1940, não conseguiam exercê-lo pelo SUS. Quer dizer, bola dentro. O que um Ministro da Saúde sério deve fazer. Apesar de chamar quem aborta de “carniceiro”, o cara deu a cara a tapa pra garantir um direito adquirido. Algo a ser comemorado, pois. Daí o que PHA faz? Sugere transformar em spam pro outro lado. Tipo, “abortista é ele, não somos nós”. Se isso não é desonestidade das mais baixas e desrespeito com uma bandeira tão cara ao feminismo, eu não sei o que é.
Sabe o que me incomoda demais? É que Luiz Buassuma está ado-ran-do o rumo dessa prosa. Luiz Buassuma é um dos defensores daquela aberração do Estatuto no Nascituro. O cara foi expulso do PT por suas posições, e imagino que as feministas do partido devem ter feito pressões neste sentido. E sabe que partido o acolheu de braços abertos? Surprise, suprise: o PV da Marina. Daí sai uma notícia dizendo que o PT está disposto a pôr as feministas de lado. E, olhem só, o PT tá precisando de alguns votos que, no 1º turno, foram pra Marina. E a Dilma aparece no JN dizendo que é super pró-vida, sem ninguém ter nem perguntado. Você pode achar que eu estou exagerando, mas lembre-se que o Estatuto do Nascituro a redação do Estatuto foi aprovada pela Comissão de Seguridade e Família da Câmara, o que já o torna mais do que um devaneio. Eu quero crer que daqui a pouco alguém engaveta isso, até porque eu não acho mesmo que a sociedade deseja esse retrocesso. Além disso o Bassuma, o Miguel Martini e a Solange Almeida, que são os 3 cabeças da coisa, não se reelegeram - nem tudo na vida são más notícias. Mas alguém vem aqui por favor dizer que eu estou mucholoka de ter relacionado tudo isso, que uma coisa não tem nada a ver com a outra.
* isto não é um publieditorial
Enfim, eu tava satisfeita com a maneira com que a Dilma tava levando as coisas antes dos boatos. Não dá pra dizer que é super a favor, tem que jogar no colo da saúde pública. Acho que dizer assim fica claro. E acho que faltou orientação da campanha, de dizer que é o congresso que decide, que presidente sozinha não faz nada, que ela precisa repetir isso. Sim, no meu mundo ideal ela poderia ser mais enfática, claro, mas no meu mundo ideal aborto nunca teria sido criminalizado. Então achava que isso era o suficiente pra não desagradar ninguém. E daí entrava o pessoal religioso, Crivela, Benedita (e agora no segundo turno, o Chalita), que já que estão lá, tem que prestar pra alguma coisa. Pelo menos pra usar sua comunicação com este público pra dizer que ela não é o bicho-papão.
Mas aí vai o bosta do André Vargas falar aquela bobagem no twitter. Que abortista é o Serra por conta da pílula do dia seguinte. O que além de ser uma campanha de tão baixo nível quanto o que a gente critica, traz a pauta uma questão já conquistada. Tem como ser mais revoltante? Ah, tem. Lembra que eu disse ontem que tem gente do nosso lado com quem eu não confraternizaria para nada? Paulo Henrique Amorim, por exemplo. Olha só, o Serra, como Ministro da Saúde, assinou uma política pública pra fazer com que o SUS atenda as mulheres que tem direito a interromper a gestação legalmente, de acordo com a nossa legislação. Porque apesar de terem este direito desde 1940, não conseguiam exercê-lo pelo SUS. Quer dizer, bola dentro. O que um Ministro da Saúde sério deve fazer. Apesar de chamar quem aborta de “carniceiro”, o cara deu a cara a tapa pra garantir um direito adquirido. Algo a ser comemorado, pois. Daí o que PHA faz? Sugere transformar em spam pro outro lado. Tipo, “abortista é ele, não somos nós”. Se isso não é desonestidade das mais baixas e desrespeito com uma bandeira tão cara ao feminismo, eu não sei o que é.
Sabe o que me incomoda demais? É que Luiz Buassuma está ado-ran-do o rumo dessa prosa. Luiz Buassuma é um dos defensores daquela aberração do Estatuto no Nascituro. O cara foi expulso do PT por suas posições, e imagino que as feministas do partido devem ter feito pressões neste sentido. E sabe que partido o acolheu de braços abertos? Surprise, suprise: o PV da Marina. Daí sai uma notícia dizendo que o PT está disposto a pôr as feministas de lado. E, olhem só, o PT tá precisando de alguns votos que, no 1º turno, foram pra Marina. E a Dilma aparece no JN dizendo que é super pró-vida, sem ninguém ter nem perguntado. Você pode achar que eu estou exagerando, mas lembre-se que o Estatuto do Nascituro a redação do Estatuto foi aprovada pela Comissão de Seguridade e Família da Câmara, o que já o torna mais do que um devaneio. Eu quero crer que daqui a pouco alguém engaveta isso, até porque eu não acho mesmo que a sociedade deseja esse retrocesso. Além disso o Bassuma, o Miguel Martini e a Solange Almeida, que são os 3 cabeças da coisa, não se reelegeram - nem tudo na vida são más notícias. Mas alguém vem aqui por favor dizer que eu estou mucholoka de ter relacionado tudo isso, que uma coisa não tem nada a ver com a outra.
* isto não é um publieditorial
Do desabafo
O desabafo se fez urgente, por conta disso aqui. O recado tá dado: ou a gente tem uma mulher lá, ou a gente discute aborto. Os dois juntos não pode. Impressionante com a pauta feminista é sempre a que vai ser sacrificada. SEMPRE. Notem que tirar a discriminalização do aborto de pauta não vai garantir a eleição, mas pode enterrar a discussão por muito tempo. Tempo que as mulheres que estão morrendo de hemorragia em clínicas clandestinas não têm.
Eu tava animada, juro. Eu tava me organizando pra escrever um post bacana convocando os eleitores da Marina a passarem para o nosso lado. Mas essa notícia acabou com o meu dia. Não estranhem se eu der uma sumida. Eu tenho um emprego, um marido, uma pós pra cursar, família, amigos, e eu preciso estar bem pra tudo isso idependentemente do resultado das urnas dia 31, porque a minha vida continua. E por isso, pra manter a minha sanidade, talvez eu tenha que me afastar um pouco da discussão. Porque eu entrei na internet, li isso e me deu uma imensa vontade de chorar, mas minha mesa tá cheia de trabalho, e é isso que eu tenho que fazer agora.
Update: Ah, sim. E o horrível. O imbecil do secretário de comunicação dizer que o demônio é o Serra, que implantou a pílula do dia seguinte. E parece que nem foi. Mas, se fosse, é pra dar um beijo na careca dele, porque é uma tremenda conquista.
Eu tava animada, juro. Eu tava me organizando pra escrever um post bacana convocando os eleitores da Marina a passarem para o nosso lado. Mas essa notícia acabou com o meu dia. Não estranhem se eu der uma sumida. Eu tenho um emprego, um marido, uma pós pra cursar, família, amigos, e eu preciso estar bem pra tudo isso idependentemente do resultado das urnas dia 31, porque a minha vida continua. E por isso, pra manter a minha sanidade, talvez eu tenha que me afastar um pouco da discussão. Porque eu entrei na internet, li isso e me deu uma imensa vontade de chorar, mas minha mesa tá cheia de trabalho, e é isso que eu tenho que fazer agora.
Update: Ah, sim. E o horrível. O imbecil do secretário de comunicação dizer que o demônio é o Serra, que implantou a pílula do dia seguinte. E parece que nem foi. Mas, se fosse, é pra dar um beijo na careca dele, porque é uma tremenda conquista.
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
E depois do susto...
Olha só, eu pensei muito, li muito e passado o susto e o medo reginaduartísco de não rolar no final das contas, tô achando é bom que a eleição foi pro 2º turno. Porque a gente aprende um monte com isso. E a principal lição, pra quem não tinha se ligado, é que arrogância e presunção não são exclusividade da direita. Que como eu coloquei aqui esse “nós x eles”, essa trincheira, é péssima pra democracia. Porque a primeira coisa que muita gente fez foi o quê? Desqualificar o voto na Marina. Olha só, eu não estou dizendo que questionar ou tentar entender é desqualificar, pelo contrário. Acho que é este questionamento que é importante. O que não pode é, como eu vi muita gente fazendo, dizer que é um voto despolitizado, de mauricinho. Sabe aquele lance de dizer que petista é ignorante e tal? Mesmíssima coisa, com o sinal invertido. É interessante porque ao mesmo tempo que tem amigos bacanas mandando e-mails babacas, a gente se dá conta de que tem gente na esquerda que não dá vontade nem de apertar a mão, quanto mais confraternizar em algum sentido. Mas isso é maturidade, perceber que o mundo diverso, há gente bacana e babaca em todos os lados e olha só, a gente tem um país a construir e precisa da ajuda de todo mundo.
Mas o voto na Marina é o caso aqui. Sem nenhuma ofensa, é razoável dizer que ele é muito diverso. Tem gente que acreditou em spam que a Dilma disse que nem Jesus a derrotaria, tem gente anti-PT mas sem especial simpatia pelo PSDB, e tem gente que simplesmente não quer endossar o governo assim, de saída, porque ele tem uma série de defeitos. E, oi? Não reconhecer que há problemas é sério. Há muitos. Ainda acho que há mais acertos, por isso votei na Dilma no 1º turno. Mas eu mesma sou da turma de mais de 6 milhões de eleitores que não votou no Lula em 2006 no 1º turno. Votei na Heloísa. E eu sei que agora dá mais medo porque a Dilma não é o Lula e o Serra não é o Alckmin. Só que 2010 também não é 2006. E acho que todo mundo concorda que o 2º mandato foi muito melhor que o 1º, que os resultados foram mais visíveis mesmo.
Por outro lado, a urgência dessa autocrítica. Que tem que ser feita pra ontem, e se a gente ganhasse no 1º turno talvez não viesse. Em time que se ganha não se mexe, né? Pois é pra continuar ganhando o governo vai ter que ouvir mais os porquês de quem não está com ele. E isso é excelente pro Brasil. Olha só, aqui em São Paulo o governo estadual conta com o voto anti-PT e não faz autocrítica nunca. Fica aí, fazendo o mínimo do mínimo do mínimo no estado mais rico do país e já tá indo pra 20 anos no poder. Lei do menor esforço, saca? E você agora vai falar que o PT não é o PSDB. Mas não é por isso que eu quero o PT no poder por anos a fio achando que está abafando. Colocando um cara sem experiência e agressor de mulheres e achando que vai levar o Senado com isso, que não vai se queimar. Que vai apoiar Roseana Sarney e vai ficar tudo belezinha (fosse eu maranhense, acho que votava na Marina também). Menos, né, gente?
Enfim. Muito a ser discutido, muito a batalhar. Mas comemoremos a democracia, comemoremos Marina, comemoremos a possibilidade de abrir nova discussões.
PS: Continuo com medo da baixaria, claro. Mas se o PSDB aprendeu alguma coisa nessa campanha foi que o eleitor não curte baixaria, não. Tanto que ele não ganhou nada com ela. E se apelar muito, só tende a se queimar mais. Mas, eu posso estar enganada. E o meu medo mora aí, claro.
Mas o voto na Marina é o caso aqui. Sem nenhuma ofensa, é razoável dizer que ele é muito diverso. Tem gente que acreditou em spam que a Dilma disse que nem Jesus a derrotaria, tem gente anti-PT mas sem especial simpatia pelo PSDB, e tem gente que simplesmente não quer endossar o governo assim, de saída, porque ele tem uma série de defeitos. E, oi? Não reconhecer que há problemas é sério. Há muitos. Ainda acho que há mais acertos, por isso votei na Dilma no 1º turno. Mas eu mesma sou da turma de mais de 6 milhões de eleitores que não votou no Lula em 2006 no 1º turno. Votei na Heloísa. E eu sei que agora dá mais medo porque a Dilma não é o Lula e o Serra não é o Alckmin. Só que 2010 também não é 2006. E acho que todo mundo concorda que o 2º mandato foi muito melhor que o 1º, que os resultados foram mais visíveis mesmo.
Por outro lado, a urgência dessa autocrítica. Que tem que ser feita pra ontem, e se a gente ganhasse no 1º turno talvez não viesse. Em time que se ganha não se mexe, né? Pois é pra continuar ganhando o governo vai ter que ouvir mais os porquês de quem não está com ele. E isso é excelente pro Brasil. Olha só, aqui em São Paulo o governo estadual conta com o voto anti-PT e não faz autocrítica nunca. Fica aí, fazendo o mínimo do mínimo do mínimo no estado mais rico do país e já tá indo pra 20 anos no poder. Lei do menor esforço, saca? E você agora vai falar que o PT não é o PSDB. Mas não é por isso que eu quero o PT no poder por anos a fio achando que está abafando. Colocando um cara sem experiência e agressor de mulheres e achando que vai levar o Senado com isso, que não vai se queimar. Que vai apoiar Roseana Sarney e vai ficar tudo belezinha (fosse eu maranhense, acho que votava na Marina também). Menos, né, gente?
Enfim. Muito a ser discutido, muito a batalhar. Mas comemoremos a democracia, comemoremos Marina, comemoremos a possibilidade de abrir nova discussões.
PS: Continuo com medo da baixaria, claro. Mas se o PSDB aprendeu alguma coisa nessa campanha foi que o eleitor não curte baixaria, não. Tanto que ele não ganhou nada com ela. E se apelar muito, só tende a se queimar mais. Mas, eu posso estar enganada. E o meu medo mora aí, claro.
domingo, 3 de outubro de 2010
Ansiedade
Tá difícil. Eu achei que rolaria hoje mesmo (marido ainda acha que dá, talvez), mas tá muito difícil. A primeira parcial, que dava Dilma 41 e Serra 37 quase me matou do coração. Tô tremendo até agora, sério. Em nenhuma pesquisa o careca aparecia tão bem votado. Faltam pouco menos de 20% enquanto eu escrevo isso. Eu quero muito voltar aqui e dar um update de que, ufa, deu, mas acho muito, muito difícil. E mil coisas. Muito medo do saco de baixarias que se seguirá, porque agora que os caras viram que podem ter chances (acho que nos últimos dias eles estavam bem desanimados), vão apelar geral, porque nem a dignidade eles tem a perder.
E a Marina, 20% até agora. Grande vitória pra ela, por estar disputando com a candidata do governo e o figurão da oposição. E a grande dúvida: o que será desses votos? Eu não consigo ver a Marina apoiando o Serra, mas o partido dela é outra coisa, né? E tem muito voto nela que é conservador.
Princípio de pânico de não haver continuidade do governo Lula. Mas acho que dá, né? Tem que dar, pelamor.
Não sei como vou dormir esta noite. Muita adrenalina. Mas se conseguisse, queria acordar só no dia 31.
E a Marina, 20% até agora. Grande vitória pra ela, por estar disputando com a candidata do governo e o figurão da oposição. E a grande dúvida: o que será desses votos? Eu não consigo ver a Marina apoiando o Serra, mas o partido dela é outra coisa, né? E tem muito voto nela que é conservador.
Princípio de pânico de não haver continuidade do governo Lula. Mas acho que dá, né? Tem que dar, pelamor.
Não sei como vou dormir esta noite. Muita adrenalina. Mas se conseguisse, queria acordar só no dia 31.
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Sobre o voto pra senador em São Paulo
Sumi, eu sei. Se mais alguém além da fofa da Luci, que até cobrou, sentiu falta, desculpaê. Assunto não falta, nunca. Aliás, eu não sei se alguma vez eu contei aqui mas eu sou uma pessoa prolixa e que fala pelos cotovelos. E que tem que cortar às vezes parágrafos inteiros pros posts ficarem razoáveis. Mas além de tagarela eu sou também preguiçosa e instável. Então de vez em quando perco o tesão de escrever por uns dias.
Como eu continuo com preguiça, resolvi fazer um post pra linkar um debate que eu vi primeiro no post do Idelber. Depois eu fui lá na Mary W, depois na Camila e na Kellen (cujos blogs não conhecia). E o causo é que aqui em São Paulo a gente tem um problema pra escolher o 2º voto pra senador. O primeiro vai pra Marta. Mas, se for seguir a coligação, o 2º voto seria do Netinho, que se filiou ao PC do B. Netinho, pra quem não se lembra, é um pagodeiro que depois foi fazer programa de auditório. Admito que eu conheço pouco de sua trajetória, e admito até que tenho muita simpatia por ser uma liderança vinda de periferia. Só que ele é um agressor de mulheres reincidente. Daí, complica.
E bom, a discussão nestes blogs é excelente sobre os porquês de votar ou não no cara. E há coisas bem pragmáticas, que eu acho que são muito válidas, até. Respeito muito os argumentos, mas pra mim, não rola. E quero deixar claro que isso não é um dogma. Não estou dizendo que nunca, jamais, em tempo algum, votaria num cara que algum dia na vida agrediu um mulher. Não estou dizendo que o arrependimento dele não é válido e ele deve queimar no fogo do inferno. Longe de mim, que sou humano e tenho aí a minha listinha das coisas das quais eu não me orgulho de ter feito na vida. O caso é que o cara não virou um tapa numa namorada uma-vez-na-vida-durante-um-discussão-acalorada-lá-pelos-idos-de-93. Fosse essa história e, depois disso, ele arrependido, tivesse uma série de coisas muito bacanas pra colocar no seu cv, é lógico que eu olhava as coisas de outra forma. Mas o cara bateu na mulher em 2005. Tipo, anteontem. Daí se arrependeu, levou a Maria da Penha no programa dele, fez mea culpa e tal. E não tem aí uma história política consistente além de seu interesse (que eu considero muito legítimo, aliás) pela juventude da periferia.
Mas, bom, tem todo o argumento anti- Romeu Tuma. Que é mais do que válido, ô se é. Bater em mulher é horroroso, mas ser pró violência policial institucionalizada é pior. O potencial de danos à sociedade de um cara como o Tuma é incomparavelmente maior do que o do Netinho, claro. Mas o que eu estou dizendo é que eu, Iara, não consigo ser pragmática assim, de votar simplesmente porque é menos pior. E eu sou super pragmática, pra muita coisa. Meu voto na Dilma é muito mais pragmático do que ideológico, acreditem.
O que eu quero dizer, e tenho muita tranquilidade nisso, é que eu não tenho nenhum compromisso a não ser com a minha cidadania. Daí que, por mais que eu entenda que o Netinho representa um projeto político para o país que eu endosso, eu não me conformo do PC do B não ter quadros melhores. Tipo, talvez tenha, mas esse quadros não teriam tanto apelo popular, né? Beleza, eu entendo a lógica da coisa, mas não conte comigo pra fazer parte disso. Muita chance do Netinho ser eleito e não acho que isso vai ser um mau negócio. Mas fico mais tranquila se meu voto, que me é tão caro, não endossá-lo.
Como eu continuo com preguiça, resolvi fazer um post pra linkar um debate que eu vi primeiro no post do Idelber. Depois eu fui lá na Mary W, depois na Camila e na Kellen (cujos blogs não conhecia). E o causo é que aqui em São Paulo a gente tem um problema pra escolher o 2º voto pra senador. O primeiro vai pra Marta. Mas, se for seguir a coligação, o 2º voto seria do Netinho, que se filiou ao PC do B. Netinho, pra quem não se lembra, é um pagodeiro que depois foi fazer programa de auditório. Admito que eu conheço pouco de sua trajetória, e admito até que tenho muita simpatia por ser uma liderança vinda de periferia. Só que ele é um agressor de mulheres reincidente. Daí, complica.
E bom, a discussão nestes blogs é excelente sobre os porquês de votar ou não no cara. E há coisas bem pragmáticas, que eu acho que são muito válidas, até. Respeito muito os argumentos, mas pra mim, não rola. E quero deixar claro que isso não é um dogma. Não estou dizendo que nunca, jamais, em tempo algum, votaria num cara que algum dia na vida agrediu um mulher. Não estou dizendo que o arrependimento dele não é válido e ele deve queimar no fogo do inferno. Longe de mim, que sou humano e tenho aí a minha listinha das coisas das quais eu não me orgulho de ter feito na vida. O caso é que o cara não virou um tapa numa namorada uma-vez-na-vida-durante-um-discussão-acalorada-lá-pelos-idos-de-93. Fosse essa história e, depois disso, ele arrependido, tivesse uma série de coisas muito bacanas pra colocar no seu cv, é lógico que eu olhava as coisas de outra forma. Mas o cara bateu na mulher em 2005. Tipo, anteontem. Daí se arrependeu, levou a Maria da Penha no programa dele, fez mea culpa e tal. E não tem aí uma história política consistente além de seu interesse (que eu considero muito legítimo, aliás) pela juventude da periferia.
Mas, bom, tem todo o argumento anti- Romeu Tuma. Que é mais do que válido, ô se é. Bater em mulher é horroroso, mas ser pró violência policial institucionalizada é pior. O potencial de danos à sociedade de um cara como o Tuma é incomparavelmente maior do que o do Netinho, claro. Mas o que eu estou dizendo é que eu, Iara, não consigo ser pragmática assim, de votar simplesmente porque é menos pior. E eu sou super pragmática, pra muita coisa. Meu voto na Dilma é muito mais pragmático do que ideológico, acreditem.
O que eu quero dizer, e tenho muita tranquilidade nisso, é que eu não tenho nenhum compromisso a não ser com a minha cidadania. Daí que, por mais que eu entenda que o Netinho representa um projeto político para o país que eu endosso, eu não me conformo do PC do B não ter quadros melhores. Tipo, talvez tenha, mas esse quadros não teriam tanto apelo popular, né? Beleza, eu entendo a lógica da coisa, mas não conte comigo pra fazer parte disso. Muita chance do Netinho ser eleito e não acho que isso vai ser um mau negócio. Mas fico mais tranquila se meu voto, que me é tão caro, não endossá-lo.
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
Adendo importante ao último post
Eu preciso sair pro trabalho e hoje prometi a mim mesma ficar menos tempo na internet, mas tem algo que eu preciso comentar a respeito do post anterior. É que eu falo isso sobre o conservadorismo da classe média paulistana, e fica parecendo que eu coloquei uma trincheira aí, um "nós x eles", o que me incomodou bastante. Ninguém reclamou, mas acho bom esclarecer: eu não acho que exista só uma caminho bom, só uma resposta válida, tipo messianismo. Eu não acho que todo mundo que lê, se informa e questiona vai votar na Dilma porque ela é a melhor e ponto. Não acho que o eleitor do Serra seja ignorante, apolitizado, voto de manada, reacinha. Eu tenho na verdade muita preguiça de gente de esquerda que pensa assim. Acho perfeitamente possível que duas pessoas inteligentes, bem informadas e, principalmente, bem intencionadas, tenham divergências sobre o que seria o melhor para o mundo, até porque estamos falando de planos que envolvem muitas variáveis. E nesse ponto eu volto atrás ao que respondi pra Amanda nos comentários: acho que até dá pra ser casado tendo visões politicas diferentes, e pode até ser um exercício interessante, mas isso depende de um respeito profundo à individualidade do outro, respeito quem nem todo mundo tem. Que talvez eu mesma não tenha: pelo menos no casamento, prefiro que as divergências sejam menores mesmo, o que não significa em absoluto que eu e marido façamos eco pra tudo, estamos bem longe disso.
O post anterior é principalmente pra criticar o discurso no sentido contrário, de que quem vota no PT é ignorante ou mal-intencionado, que se beneficia diretamente de alguma forma de corrupção. Crítica a quem, votando no Serra, acha que o eleitor do Lula é analfabeto assim como o próprio também seria. E sei que muita gente vota no Serra não pensa assim, claro. Muita gente em São Paulo, inclusive. Mas o discurso que eu, no meu meio, mais escuto, é o primeiro mesmo, infelizmente
Então, este adendo foi pra isso, pra dizer que eu respeito muito a divergência de pontos de vista. Que acredito quando uma pessoa me diz que tem argumentos bem fundamentados pra votar no Serrra, tal qual eu os tenho pra votar na Dilma. Tô aqui defendendo o meu lado, mas respeito tem que ser uma via de mão dupla, né? Sempre.
O post anterior é principalmente pra criticar o discurso no sentido contrário, de que quem vota no PT é ignorante ou mal-intencionado, que se beneficia diretamente de alguma forma de corrupção. Crítica a quem, votando no Serra, acha que o eleitor do Lula é analfabeto assim como o próprio também seria. E sei que muita gente vota no Serra não pensa assim, claro. Muita gente em São Paulo, inclusive. Mas o discurso que eu, no meu meio, mais escuto, é o primeiro mesmo, infelizmente
Então, este adendo foi pra isso, pra dizer que eu respeito muito a divergência de pontos de vista. Que acredito quando uma pessoa me diz que tem argumentos bem fundamentados pra votar no Serrra, tal qual eu os tenho pra votar na Dilma. Tô aqui defendendo o meu lado, mas respeito tem que ser uma via de mão dupla, né? Sempre.
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
Pontos fora da curva
Hoje aconteceu uma coisa engraçada no trabalho. Alguém veio me perguntar se eu achava que a Dilma ia ganhar no 1º turno. Assim, do nada. E eu respondi que provavelmente sim, mas que existem dois fatores cujos impactos as pesquisas não tinham condições de avaliar, cada um pendendo para um lado. Um é o fato da herança no número 13 que é muito forte como o número do Lula, mesmo entre quem ainda não sacou que a candidata é ela. Outra era a exigência de dois documentos para votar, uma novidade pouco divulgada. Daí alguém comentou com um tom meio alegrinho que “o povo ignorante que vota na Dilma e ganha bolsa família” não sabe disso. Mas todo mundo meio que mimimi e perguntaram o que eu achava. E eu disse que era suspeita porque não só ia votar nela, como já comprei minha passagem pra assistir à posse em Brasília. Ficaram com aquela cara de tacho de: “jura?”. Juro, respondi. Sou petista de pai e mãe. E alguém perguntou se eu gostava do PT ou dela e eu respondi que gosto de ambos. Silêncio. Todo mundo voltou a trabalhar, assunto encerrado.
No trabalho do marido é sabido que só ele e uma colega são eleitores do PT. E um dia um cara veio com discurso de que falam tanto que o país melhorou, mais ele ainda tem que pagar escola particular pros filhos. Marido explicou que, oi, o responsável pela escolas de Ensino Médio é o governo estadual, do partido que está há quase duas décadas no comando de São Paulo, justamente o partido do Serra que era, ele mesmo, governador até anteontem. E como marido não deixa barato, falou pro colega se informar melhor pra não passar vergonha na próxima – e de repente, quem sabe, votar no Mercadante dessa vez, se o que ele quer é mudança.
Esses casos são exemplo de uma coisa que é muito clara pra mim: as classes média e média alta paulistanas não estão acostumadas a alteridade. Não que o ser humano assim, no geral, não seja resistente à diferença. Mas é que o nível de renda e de escolaridade mais alto aqui não contribuem para visão mais ampla do mundo. Acham realmente que sua vida é o padrão, a norma, que o resto é ponto fora da curva. Daí o discurso só varia na hora de falar de futebol mesmo (e um dos colegas ainda brincou: “você é corintiana E petista?”). E a eleição do Lula, ao meu ver, trouxe mesmo esse ranço de que nós (porque se eu não compactuo com discurso, também não nego minha posição social) não somos maioria. Que há no país milhões de pessoas que não têm nossas referências, nossas prioridades, e têm direito à cidadania. E esta minoria então estranha muito quando encontra, eventualmente, alguém que não recebe Bolsa Família, fala línguas estrangeiras, frequenta restaurantes e usa perfume importado, trabalha duro, paga Imposto de Renda mas não faz coro com o discurso de lula-analfabeto-ignorante-petralha-vagabundo-etc-etc.
Em 2002 eu trabalhava naquela empresa super elitista e escrotinha. E foi o ano da eleição do Lula, então, toda uma experiência observar estes colegas. Tinha um cara que era reconhecidamente super alienado, até para os padrões de lá. Contavam que uma vez o levaram pra visitar varejo na periferia, parte de um trabalho de pesquisa de mercado, e ele ficou chocado. Em dado momento perguntou, se referindo à pobreza do bairro visitado: “nossa, mas o que é essa miséria toda?”. E alguém respondeu: “ué, isso é São Paulo, mané! achava que acabava em Moema?”. Pois então, esse cara tinha certeza de que o Lula ia “transformar o Brasil em Cuba”. Repito, em 2002, não em 89. E tinha um papo hilário do povo que não entendia como o Lula tinha aquele percentual de intenções de votos, se eles “não conheciam ninguém que ia votar nele”. Uma colega, engenheira, chegou a dizer que fizeram uma pesquisa no prédio dela e ninguém lá ia votar no cara. Alguém sabe me dizer se no curso de engenharia estuda-se alguma coisa de estatística? Porque no de Letras não, mas eu sei que um condomínio fechado em São Paulo, de um edifício com 3 vagas de garagem e nome provavelmente em inglês NÃO é um microcosmo representativo do país. Logo fica difícil fazer alguma projeção numérica confiável com essa amostragem tão pouco diversa, né?
Essa minha aversão à mentalidade tacanha à minha volta me trouxe um presente dos melhores: meu marido. Digamos que nosso primeiro encontro não foi exatamente um sucesso, e o moço não deixou uma impressão das melhores. Mas, em algum momento, ele fez um comentário elogioso à gestão da Marta Suplicy na prefeitura e pediu desculpas por tocar no assunto se isso de alguma forma me ofendia, mas o fato é que ele era “um mocinho de esquerda” (desse jeito, olha que fofo?). E eu sorri e respondi que, tudo bem, eu também era uma mocinha de esquerda. E, ao fazer o saldo daquela noite meio desastrada, pensando se eu dava uma chance ou não pra aquela história continuar, este comentário pesou, porque é meio difícil encontrar gente de esquerda nos ambientes que eu frequento, ainda mais depois de ter terminado a faculdade. Enfim, liguei pra ele, dei mais uma chance a nós dois, e ganhei, além de um marido, o meu interlocutor mais querido. Brincamos que, se um dia oficializarmos a união, vamos ter que chamar a Marta pra madrinha...
No trabalho do marido é sabido que só ele e uma colega são eleitores do PT. E um dia um cara veio com discurso de que falam tanto que o país melhorou, mais ele ainda tem que pagar escola particular pros filhos. Marido explicou que, oi, o responsável pela escolas de Ensino Médio é o governo estadual, do partido que está há quase duas décadas no comando de São Paulo, justamente o partido do Serra que era, ele mesmo, governador até anteontem. E como marido não deixa barato, falou pro colega se informar melhor pra não passar vergonha na próxima – e de repente, quem sabe, votar no Mercadante dessa vez, se o que ele quer é mudança.
Esses casos são exemplo de uma coisa que é muito clara pra mim: as classes média e média alta paulistanas não estão acostumadas a alteridade. Não que o ser humano assim, no geral, não seja resistente à diferença. Mas é que o nível de renda e de escolaridade mais alto aqui não contribuem para visão mais ampla do mundo. Acham realmente que sua vida é o padrão, a norma, que o resto é ponto fora da curva. Daí o discurso só varia na hora de falar de futebol mesmo (e um dos colegas ainda brincou: “você é corintiana E petista?”). E a eleição do Lula, ao meu ver, trouxe mesmo esse ranço de que nós (porque se eu não compactuo com discurso, também não nego minha posição social) não somos maioria. Que há no país milhões de pessoas que não têm nossas referências, nossas prioridades, e têm direito à cidadania. E esta minoria então estranha muito quando encontra, eventualmente, alguém que não recebe Bolsa Família, fala línguas estrangeiras, frequenta restaurantes e usa perfume importado, trabalha duro, paga Imposto de Renda mas não faz coro com o discurso de lula-analfabeto-ignorante-petralha-vagabundo-etc-etc.
Em 2002 eu trabalhava naquela empresa super elitista e escrotinha. E foi o ano da eleição do Lula, então, toda uma experiência observar estes colegas. Tinha um cara que era reconhecidamente super alienado, até para os padrões de lá. Contavam que uma vez o levaram pra visitar varejo na periferia, parte de um trabalho de pesquisa de mercado, e ele ficou chocado. Em dado momento perguntou, se referindo à pobreza do bairro visitado: “nossa, mas o que é essa miséria toda?”. E alguém respondeu: “ué, isso é São Paulo, mané! achava que acabava em Moema?”. Pois então, esse cara tinha certeza de que o Lula ia “transformar o Brasil em Cuba”. Repito, em 2002, não em 89. E tinha um papo hilário do povo que não entendia como o Lula tinha aquele percentual de intenções de votos, se eles “não conheciam ninguém que ia votar nele”. Uma colega, engenheira, chegou a dizer que fizeram uma pesquisa no prédio dela e ninguém lá ia votar no cara. Alguém sabe me dizer se no curso de engenharia estuda-se alguma coisa de estatística? Porque no de Letras não, mas eu sei que um condomínio fechado em São Paulo, de um edifício com 3 vagas de garagem e nome provavelmente em inglês NÃO é um microcosmo representativo do país. Logo fica difícil fazer alguma projeção numérica confiável com essa amostragem tão pouco diversa, né?
Essa minha aversão à mentalidade tacanha à minha volta me trouxe um presente dos melhores: meu marido. Digamos que nosso primeiro encontro não foi exatamente um sucesso, e o moço não deixou uma impressão das melhores. Mas, em algum momento, ele fez um comentário elogioso à gestão da Marta Suplicy na prefeitura e pediu desculpas por tocar no assunto se isso de alguma forma me ofendia, mas o fato é que ele era “um mocinho de esquerda” (desse jeito, olha que fofo?). E eu sorri e respondi que, tudo bem, eu também era uma mocinha de esquerda. E, ao fazer o saldo daquela noite meio desastrada, pensando se eu dava uma chance ou não pra aquela história continuar, este comentário pesou, porque é meio difícil encontrar gente de esquerda nos ambientes que eu frequento, ainda mais depois de ter terminado a faculdade. Enfim, liguei pra ele, dei mais uma chance a nós dois, e ganhei, além de um marido, o meu interlocutor mais querido. Brincamos que, se um dia oficializarmos a união, vamos ter que chamar a Marta pra madrinha...
terça-feira, 31 de agosto de 2010
Centenário \o/ e inquietações políticas
Então, 100 anos de Corinthians. E eu nem sei porque me tornei corintiana. Meu pai é sãopaulino, mas nunca foi muito empolgado com futebol. Acho que não tem ninguém próximo que justifique meu afeto. Lembranças mais antigas me remetem ao Sócrates. Devo ter ouvido algum comentário elogioso à Democracia Corintiana quando eu era bem pequena, e ficou a simpatia. Que virou amor. Não é nem paixão, é amor mesmo, daqueles que ocupa um lugar certo mesmo sem queimar. E lógico, casar com um palmeirense louco por futebol, viver a coisa da rivalidade dentro de casa todo dia, tornou tudo mais apimentado. Mas é assim independentemente do marido. Eu sei: não tem estádio, não tem Libertadores, e hexa e blábláblá. Não me venham com argumentos racionais. Não é assim que o amor funciona. Eu não deixei de amar quando viramos lavanderia de dinheiro da máfia russa, nem quando caímos. Lamentei muito, mas continuei amando e continuei fiel. E posso reconhecer que deve ser luxo ter galeria de títulos ou um presidente professor da Unicamp. Mas meu coração tem dono.
***
Então vem o lance do estádio. A Mary W postou aqui. E eu acho que ela tem razão em se indignar. É o seguinte: pra quem ainda não sabe, parece que o Lula, notório corintiano, pediu “uma força” pra Odebrecht pra sair esse estádio. Pedir uma força pode não ser crime, mas não existe almoço grátis, e o Lula deve saber disso. Então, se meter numa dessas assim, com sua sucessão quase garantida, é no mínimo temerário. O pior é que eu acredito muito que tenha sido assim. Não tenho esses preconceitos burgueses contra o Lula, mas tenho lá meu pé atrás. Acho que ele é um fanfarrão, e essa é o tipo de fanfarronice que é a cara dele. Então, dei uma broxada geral. Não queria nem o Lula nem o Corinthians envolvidos com isso. Fiquei com dupla vergonha alheia. E chego no trabalho e minha chefe, conservadora e palmeirense, diz que vão chamar o tal estádio de “Luiz Inácio Lula da Silva”. Argumento pra dizer que ela tá falando bobagem? Não tenho. Se acharem aí, me emprestem, por favor. E eu posso até zoar com marido, dizer que eu sou corintiana como o Lula, e ele palmeirense como o Serra, dizer que minha companhia é melhor, mas não é assim que a banda toca. Como eu disse acima, futebol é paixão – e política, pra mim pelo menos, é razão. Uma razão bem dura, aliás.
Meu consolo é que eu acho a Dilma muito diferente disso. Não se parece em nada com ela esse tipo de coisa. Então eu realmente acho que ela pode ser melhor do que o Lula em muitos aspectos. Que a eleição dele foi importante historicamente e tal eu não tenho dúvida. Mas pra mim, deu. Muita popularidade, muito poder, não sei aonde isso leva. Tem gente que vai chiar, dizer que torce pra ele voltar em 2014, como já ouvi por aí. Eu não. O governo Lula não é só o Lula, a gente tem que lembrar disso. A gente não precisa dele no poder pra garantir nada de bom do que foi feito - e nossa democracia só vai estar madura quando isso estiver claro. Ele tem qualidades inegáveis, mas não quero esse super líder populista. Não quero um mito. Tá bom assim, já.
Daí eu lembrei que uns dias atrás eu falei por telefone com meu melhor amigo, que tá envolvido com o PSOL. E foi muito legal a conversa. Marido tinha aberto um vinho, mas ficou pacientemente me olhando e esperando a ligação terminar pra conversarmos, porque ele sabia que eu ia vir com boas observações. E como a gente sabe que tem a Reinaldos Azevedos e Mainardis por aí, trabalha em multinacional com coleguinhas reaças, fica achando que é de esquerda. Mas meu amigo veio, me deu um safanão e me mostrou que eu, na verdade, tô na centro-esquerda. E eu tinha perdido isso de vista mesmo, sabem? E na conversa com ele surgiu uma série de pontos importantes. Que as pessoas estão comprando TV de plasma, mas não têm atendimento médico decente. Que se gasta mais com comida, comprando supérfluos, mas as pessoas estão ficando obesas e subnutridas ao mesmo tempo. Isso porque a gente nem falou do saneamento, esse horror. Enfim, uma série de críticas que precisam ser feitas, que precisam ser ouvidas. Mas meu amigo faz de um ponto de vista marxista com o qual meu discurso já não se afina. Além disso, devo admitir que tenho imensa preguiça de um partido pequeno e já rachado. Se não conseguem se entender entre os próprios quadros, como esperam administrar esse país tão grande? Mas ainda assim, tendo a votar no PSOL no legislativo, porque ando com sede de oposição bem fundamentada. Acho indispensável pra democracia essa oposição tomar corpo pra ontem, viu? Se até o Serra tá tentando convencer a gente que não é oposição, é porque tem um discurso único aí que não é bacana. Longe de ser ameaçador porque a imprensa trata de malhar bastante o governo. Mas que a falta de críticas construtivas é um problema, isso é.
***
No mais: TIMÃO-Ê-Ô, TIMÃO-Ê-Ô! \o/
***
Então vem o lance do estádio. A Mary W postou aqui. E eu acho que ela tem razão em se indignar. É o seguinte: pra quem ainda não sabe, parece que o Lula, notório corintiano, pediu “uma força” pra Odebrecht pra sair esse estádio. Pedir uma força pode não ser crime, mas não existe almoço grátis, e o Lula deve saber disso. Então, se meter numa dessas assim, com sua sucessão quase garantida, é no mínimo temerário. O pior é que eu acredito muito que tenha sido assim. Não tenho esses preconceitos burgueses contra o Lula, mas tenho lá meu pé atrás. Acho que ele é um fanfarrão, e essa é o tipo de fanfarronice que é a cara dele. Então, dei uma broxada geral. Não queria nem o Lula nem o Corinthians envolvidos com isso. Fiquei com dupla vergonha alheia. E chego no trabalho e minha chefe, conservadora e palmeirense, diz que vão chamar o tal estádio de “Luiz Inácio Lula da Silva”. Argumento pra dizer que ela tá falando bobagem? Não tenho. Se acharem aí, me emprestem, por favor. E eu posso até zoar com marido, dizer que eu sou corintiana como o Lula, e ele palmeirense como o Serra, dizer que minha companhia é melhor, mas não é assim que a banda toca. Como eu disse acima, futebol é paixão – e política, pra mim pelo menos, é razão. Uma razão bem dura, aliás.
Meu consolo é que eu acho a Dilma muito diferente disso. Não se parece em nada com ela esse tipo de coisa. Então eu realmente acho que ela pode ser melhor do que o Lula em muitos aspectos. Que a eleição dele foi importante historicamente e tal eu não tenho dúvida. Mas pra mim, deu. Muita popularidade, muito poder, não sei aonde isso leva. Tem gente que vai chiar, dizer que torce pra ele voltar em 2014, como já ouvi por aí. Eu não. O governo Lula não é só o Lula, a gente tem que lembrar disso. A gente não precisa dele no poder pra garantir nada de bom do que foi feito - e nossa democracia só vai estar madura quando isso estiver claro. Ele tem qualidades inegáveis, mas não quero esse super líder populista. Não quero um mito. Tá bom assim, já.
Daí eu lembrei que uns dias atrás eu falei por telefone com meu melhor amigo, que tá envolvido com o PSOL. E foi muito legal a conversa. Marido tinha aberto um vinho, mas ficou pacientemente me olhando e esperando a ligação terminar pra conversarmos, porque ele sabia que eu ia vir com boas observações. E como a gente sabe que tem a Reinaldos Azevedos e Mainardis por aí, trabalha em multinacional com coleguinhas reaças, fica achando que é de esquerda. Mas meu amigo veio, me deu um safanão e me mostrou que eu, na verdade, tô na centro-esquerda. E eu tinha perdido isso de vista mesmo, sabem? E na conversa com ele surgiu uma série de pontos importantes. Que as pessoas estão comprando TV de plasma, mas não têm atendimento médico decente. Que se gasta mais com comida, comprando supérfluos, mas as pessoas estão ficando obesas e subnutridas ao mesmo tempo. Isso porque a gente nem falou do saneamento, esse horror. Enfim, uma série de críticas que precisam ser feitas, que precisam ser ouvidas. Mas meu amigo faz de um ponto de vista marxista com o qual meu discurso já não se afina. Além disso, devo admitir que tenho imensa preguiça de um partido pequeno e já rachado. Se não conseguem se entender entre os próprios quadros, como esperam administrar esse país tão grande? Mas ainda assim, tendo a votar no PSOL no legislativo, porque ando com sede de oposição bem fundamentada. Acho indispensável pra democracia essa oposição tomar corpo pra ontem, viu? Se até o Serra tá tentando convencer a gente que não é oposição, é porque tem um discurso único aí que não é bacana. Longe de ser ameaçador porque a imprensa trata de malhar bastante o governo. Mas que a falta de críticas construtivas é um problema, isso é.
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No mais: TIMÃO-Ê-Ô, TIMÃO-Ê-Ô! \o/
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
A ideologia e o pragmatismo
Comentário atrasado, mas parece que o Plínio arrasou no debate, né? Assisti só um pouquinho, porque tinha esquecido completamente e tava vendo o futebol. E vi lá a experiência e segurança do Plínio. Parece que ele fez sucesso no twitter depois, trending topics brasil e tal. E criaram lá os #plínioarrudafacts, pra tirar um sarro com o quanto ele é velhinho. Aí rolava uns lances de que ele tem experiência com portos, porque projetou a Arca de Noé, e experiência legislativa, porque tava na comissão que redigiu os 10 mandamentos. Acho que galerinha mais nova nem sabe que o que mais impressiona na experiência do Plínio é um fato bem real: o Ato Institucional nº 1, de 64, cassava os direitos políticos dele - e de outros contemporâneos, claro.
Tenho o maior respeito pelo Plínio. Fui lá fuçar o twitter dele. Achei especialmente sensível por ele, católico praticante, ter muito clara a divisão entre o estado e a fé. Vi lá ele comentando que duas pessoas do mesmo sexo compartilhando a vida constituem uma parceria civil que deveria ser reconhecida pela lei. E eu já tive a oportunidade de conversar com gente muito próxima a ele. Trata-se de um senhor bem conservador quanto à sexualidade dentro de casa: se incomodava com os filhos levarem namoradas para o quarto. Não estamos falando de um libertário, portanto, mas de um senhor de 80 anos que vai à missa aos domingos. O que não o impede de respeitar estilos de vida e convicções diferentes. Acho lindo, e tenho pra mim que o mundo seria um lugar muito mais agradável se houvesse mais gente assim por aí.
O Plínio aproveitou o debate pra marcar suas posições de maneira muito firme, com críticas ácidas a todos os presentes. Sua postura só me faz ter mais certeza de que a oposição séria no Brasil acabou quando o PT virou vidraça, digo, governo. Quer dizer, há oposição séria, como faz o próprio Plínio, mas ela ainda é muito pequena. Eu torço muito pra essa oposição crescer, criar corpo, porque o que não falta é coisa pra se criticar no governo Lula. E crítica de verdade, não discurso preconceituoso. Alguém aí ainda agüenta ouvir gente esperneando pra dizer que o Lula é analfabeto? Cara, que preguiça.
Mas nas considerações finais o Plínio disse que ele representava a divergência, e seus oponentes, a convergência. E puxa, é legal no discurso, mas não é assim que a banda toca. Não dá pra achar que, sendo eleito num cargo executivo, o cara (ou a cara) vai fazer o que quiser ali, porque não vai. Há um legislativo a ser respeitado. E um legislativo cuja importância as pessoas ainda não entederam, então vota-se no Lula pra presidente e num coronel do DEM pra deputado federal e tudo bem. Não sei se eu já disse aqui, mas acho um absurdo tentarem enfiar na nossa cabeça inequações com logaritmos e sairmos da escola sem ter claro pra que serve um senador.
Esta fala do Plínio me fez lembrar de um filme que assisti numa das aulas da pós, e recomendo muito. É a cinebiografia do Celso Furtado, chamada "Um Longo Amanhecer". O Celso Furtado, se alguém por acaso não sabe, foi um grande economista, um homem realmente comprometido com o país. Destacou-se tanto como acadêmico, quanto como político. E há neste filme um depoimento da Maria da Conceição Tavares que me marcou. Ela dizia que é muito diferente o mundo da academia, teórico, da prática política. Que um acadêmico sério pode ser inflexível, mas um bom político jamais. Pra fazer política, é preciso saber ceder, negociar sem abrir mão do essencial. E o Celso Furtado sabia fazer isso muito bem, mas que ela, segundo seu próprio ponto de vista, não. Então, o lugar dela era o da crítica acadêmica. E fazer essa crítica não significa desqualificar o trabalho do outro, pelo contrário - a boa crítica pode enriquecer.
Vejo o Plínio desempenhando um papel importantíssimo: o de criticar. Queria mais forças políticas de esquerda fazendo críticas ao governo, críticas que reverberassem. E por hora, por pragmatismo, eu fico com a continuidade, por que se não está tudo tão lindo quando querem nos fazer crer, está muito melhor que 8 anos trás. Disso eu não tenho dúvida.
Tenho o maior respeito pelo Plínio. Fui lá fuçar o twitter dele. Achei especialmente sensível por ele, católico praticante, ter muito clara a divisão entre o estado e a fé. Vi lá ele comentando que duas pessoas do mesmo sexo compartilhando a vida constituem uma parceria civil que deveria ser reconhecida pela lei. E eu já tive a oportunidade de conversar com gente muito próxima a ele. Trata-se de um senhor bem conservador quanto à sexualidade dentro de casa: se incomodava com os filhos levarem namoradas para o quarto. Não estamos falando de um libertário, portanto, mas de um senhor de 80 anos que vai à missa aos domingos. O que não o impede de respeitar estilos de vida e convicções diferentes. Acho lindo, e tenho pra mim que o mundo seria um lugar muito mais agradável se houvesse mais gente assim por aí.
O Plínio aproveitou o debate pra marcar suas posições de maneira muito firme, com críticas ácidas a todos os presentes. Sua postura só me faz ter mais certeza de que a oposição séria no Brasil acabou quando o PT virou vidraça, digo, governo. Quer dizer, há oposição séria, como faz o próprio Plínio, mas ela ainda é muito pequena. Eu torço muito pra essa oposição crescer, criar corpo, porque o que não falta é coisa pra se criticar no governo Lula. E crítica de verdade, não discurso preconceituoso. Alguém aí ainda agüenta ouvir gente esperneando pra dizer que o Lula é analfabeto? Cara, que preguiça.
Mas nas considerações finais o Plínio disse que ele representava a divergência, e seus oponentes, a convergência. E puxa, é legal no discurso, mas não é assim que a banda toca. Não dá pra achar que, sendo eleito num cargo executivo, o cara (ou a cara) vai fazer o que quiser ali, porque não vai. Há um legislativo a ser respeitado. E um legislativo cuja importância as pessoas ainda não entederam, então vota-se no Lula pra presidente e num coronel do DEM pra deputado federal e tudo bem. Não sei se eu já disse aqui, mas acho um absurdo tentarem enfiar na nossa cabeça inequações com logaritmos e sairmos da escola sem ter claro pra que serve um senador.
Esta fala do Plínio me fez lembrar de um filme que assisti numa das aulas da pós, e recomendo muito. É a cinebiografia do Celso Furtado, chamada "Um Longo Amanhecer". O Celso Furtado, se alguém por acaso não sabe, foi um grande economista, um homem realmente comprometido com o país. Destacou-se tanto como acadêmico, quanto como político. E há neste filme um depoimento da Maria da Conceição Tavares que me marcou. Ela dizia que é muito diferente o mundo da academia, teórico, da prática política. Que um acadêmico sério pode ser inflexível, mas um bom político jamais. Pra fazer política, é preciso saber ceder, negociar sem abrir mão do essencial. E o Celso Furtado sabia fazer isso muito bem, mas que ela, segundo seu próprio ponto de vista, não. Então, o lugar dela era o da crítica acadêmica. E fazer essa crítica não significa desqualificar o trabalho do outro, pelo contrário - a boa crítica pode enriquecer.
Vejo o Plínio desempenhando um papel importantíssimo: o de criticar. Queria mais forças políticas de esquerda fazendo críticas ao governo, críticas que reverberassem. E por hora, por pragmatismo, eu fico com a continuidade, por que se não está tudo tão lindo quando querem nos fazer crer, está muito melhor que 8 anos trás. Disso eu não tenho dúvida.
sexta-feira, 23 de julho de 2010
Leituras feministas - "Testo Yonqui"
O título já é instigante. Só lá pela metade eu saquei que a idéia era ser "junkie" de Testosterona, no sentido de se viciar. Que "yonqui" é a gíria espanhola equivalente ao "junkie" inglês. Enfim, a Beatriz Preciado é uma filósofa que estuda gênero e teoria "queer", que vem a ser o comportamento de quem não é, ainda segundo o inglês, "straight". Ou seja, quem foge a equação pênis = homem = masculino / vagina = mulher = feminino e heterossexual. Ela é espanhola. Quem me deu o livro foi a Fe, amiga minha inteligentíssima que fez um mestrado no museu de arte contemporânea de Barcelona. A Beatriz foi foi professora dela.
E eu adoro livros que me provoquem muito. Porque eu posso escrever um blog, ter umas idéias mais arejadas e tal, mas eu não tenho nem dúvida de que o meu modelo de vida é super conservador. Sou funcionária de multinacional, heterossexual, vivendo numa relação estável e monogâmica com um homem um pouco mais velho, mais alto e que ganha mais do que eu. Já fui secretária, estudei francês na França e me sustentei como babá, enquanto marido, antes de me conhecer, morou na Alemanha e projetando aviões. Sentem os modelinhos padrão masculino e feminino bem desenhadinhos? Então não é porque não somos dependentes de automóvel, não temos discurso retrógrado que somos "modernos" ou revolucionários.
Mas a Beatriz Preciado é, e como dizem por aí, "dicumforça". Ela é lésbica, se identifica mais com o gênero masculino (pelo o que eu entendi), mas acha que essas definições de gênero são autoristarismo estatal. Então não, ela não pretende fazer nenhuma cirurgia de mudança de sexo, nem deixar de ser Beatriz. Mas ela começa a se aplicar testosterona como experiência, meio que revivendo o percurso de Freud com a cocaína e de Walter Benjamin com o haxixe. Não sei se todo mundo sabe, mas homens e mulheres fabricam testosterona e estrogênio, o que muda é só a quantidade destes hormônios. Então, a testosterona não vai tranformá-la num homem, mas reforçar certas características consideradas como masculinas, como a quantidade de pelos no corpo, o cheiro do suor e a voz, por exemplo. E ela reivindica esta experiência como um direito inalienável de qualquer cidadão, o de poder se relacionar com seu corpo à sua maneira.
Enquanto se aplica testosterona, ela defende sua tese de que vivemos numa sociedade "farmacopornográfica". O que o carro representou para a economia e o comportamento no século XX, a pornografia e a indústria farmacêutica o fazem no século XXI. E eu não poderia concordar mais, principalmente quando ela, numa analogia das melhores, diz que as drogas ilegais são para a indústria farmacêutica o mesmo que a pornografia é para a indústria do entrenenimento. Ambas são variantes extremas e carentes de "status", mas subproduto de instituições sólidas. Muitos filmes não são pornográficos, não explicitam nada, mas as fantasias estão ali, o objetivo continua sendo gerar excitação sexual no espectador. Na TV a cabo essa semana tava passando um filme com o Tommy Lee Jones em que ele faz um policial que tem que proteger 5 cheerleaders gostosonas testemunhas de um crime. Ce vai me dizer que isso não é fantasia erótica de marmanjo? As moças de sainha e o cara com a arma sempre na mão? Só porque tá todo mundo vestidinho e pode passar na sessão da tarde não é de sexo que estamos falando?
E os remédios. Aqui é onde o livro manda melhor, na minha opinião. Porque se o transgênero toma hormônios, a irmão toma anticoncepcionais, mamãe na menopausa faz reposição hormonal, papai toma Viagra e o caçulinha Ritalina (pra quem não sabe, é o remédio mais popular pra crianças diagnosticadas como portadoras de déficiit de atenção e hiperatividade). Sem esquecer, claro, os antidepressivos. Preciado critica o feminismo por ter acolhido e celebrado a pílula anticoncepcional, sem pressionar pelo desenvolvimento e adoção de outras políticas contraceptivas. E aqui ela força a barra, na minha opinião. Porque a pílula não é bacaninha e inocente mas acho que ela é uma conquista, sim.
Mas a pílula. Então, meu problema de varizes foi agravado por ela. Eu sei disso. Fiz uma escolha consciente. Não me arrependo, prefiro ter feito essa cirurgia agora mas ter passado os últimos ano sabendo que estava protegida de uma gravidez não desejada. Mas com isso, só duas vezes cliente da indústria farmacêutica, exponho o meu corpo duas vezes. Ainda que ela esteja se aperfeiçoando e os efeitos colaterais sejam menores agora, eles existem. Entre eles, adivinhem? A queda da libido. Quem vem a ser um efeito colateral do uso de antidepressivos também. Lembro de um dia, anos atrás, em que jantava com um grupo de amigas. Todas inteligentes, viajadas, independentes. Todas a seis já tinham tomado antidepressivo em algum momento da vida (eu inclusive). Muita gente toma antidepressivo no mundo, e acho que são as mulheres as maiores usuárias. E muitas mulheres tomam pílulas. A gente comenta do absurdo de antigamente, quando se lobotomizava mocinhas inconvenientes. Hoje não precisa: a gente dopa todo mundo e beleza. Somos uma geração de mulheres infertéis quimicamente e que só tem tesão pra transar com o namorado - quando tem. Não é o paraíso machista por excelência? Ela questiona porque nunca se pensou em ministrar pequenas doses de testosterona para mulheres que tomam pílulas, para resgatar a libido. Mas é super mal visto politicamente. Como se a testosterona e a excitação sexual decorrente dela nos fossem proibidos. E a desculpa par não terem chegado a um equivalente feminino do Viagra é que nossa sexualidade é muito complexa. Mas doses mínimas de testosterona poderiam ser eficientes sem grandes alterações físicas. O livro conta (pág 144-146) que em 2004 o FDA, orgão amaricano responsável pela fiscalização de medicamentos, não autorizou o lançamento no mrcado de um patch de testosterona que seria ministrado pra mulheres que estivessem com a libido em baixa por conta da menopausa - mas claro que as que usam anticoncepcionais poderiam ser futuras consumidoras. Enfim, é o estado quem te diz que drogas a gente pode consumir ou não, a decisão é sempre política.
Olhem só, acho o uso de medicamentos muito legitimo em diversas circunstâncias. Acho que são muito úteis, e já vi pessoas queridas que estavam muita mal consiguirem se recuperar com a ajuda deles. Mas a última vez que me prescreveram antidepressivos eu estava só ansiosa e angustiada por questões externas, mas especificamente por não saber o que fazer quando terminasse a faculdade, coisa que acontece com todo mundo. E eu não tomei, continuo uma pessoa ansiosa e angustiada por diferentes motivos, mas posso viver com isso. Hoje, quando minha ansiedade bate forte, tomo um fitoterápico a base de maracujá, daqueles que não precisa nem de receita e pode dar até pra criança.
Enfim, não era pra ser tão longo esse post. E nem é uma resenha de verdade. Mas o livro traz reflexões interessantes sobre fenômenos contemporâneos da maior importância. Se alguém se interessar, só achei disponível no original em espanhol, infelizmente.
E eu adoro livros que me provoquem muito. Porque eu posso escrever um blog, ter umas idéias mais arejadas e tal, mas eu não tenho nem dúvida de que o meu modelo de vida é super conservador. Sou funcionária de multinacional, heterossexual, vivendo numa relação estável e monogâmica com um homem um pouco mais velho, mais alto e que ganha mais do que eu. Já fui secretária, estudei francês na França e me sustentei como babá, enquanto marido, antes de me conhecer, morou na Alemanha e projetando aviões. Sentem os modelinhos padrão masculino e feminino bem desenhadinhos? Então não é porque não somos dependentes de automóvel, não temos discurso retrógrado que somos "modernos" ou revolucionários.
Mas a Beatriz Preciado é, e como dizem por aí, "dicumforça". Ela é lésbica, se identifica mais com o gênero masculino (pelo o que eu entendi), mas acha que essas definições de gênero são autoristarismo estatal. Então não, ela não pretende fazer nenhuma cirurgia de mudança de sexo, nem deixar de ser Beatriz. Mas ela começa a se aplicar testosterona como experiência, meio que revivendo o percurso de Freud com a cocaína e de Walter Benjamin com o haxixe. Não sei se todo mundo sabe, mas homens e mulheres fabricam testosterona e estrogênio, o que muda é só a quantidade destes hormônios. Então, a testosterona não vai tranformá-la num homem, mas reforçar certas características consideradas como masculinas, como a quantidade de pelos no corpo, o cheiro do suor e a voz, por exemplo. E ela reivindica esta experiência como um direito inalienável de qualquer cidadão, o de poder se relacionar com seu corpo à sua maneira.
Enquanto se aplica testosterona, ela defende sua tese de que vivemos numa sociedade "farmacopornográfica". O que o carro representou para a economia e o comportamento no século XX, a pornografia e a indústria farmacêutica o fazem no século XXI. E eu não poderia concordar mais, principalmente quando ela, numa analogia das melhores, diz que as drogas ilegais são para a indústria farmacêutica o mesmo que a pornografia é para a indústria do entrenenimento. Ambas são variantes extremas e carentes de "status", mas subproduto de instituições sólidas. Muitos filmes não são pornográficos, não explicitam nada, mas as fantasias estão ali, o objetivo continua sendo gerar excitação sexual no espectador. Na TV a cabo essa semana tava passando um filme com o Tommy Lee Jones em que ele faz um policial que tem que proteger 5 cheerleaders gostosonas testemunhas de um crime. Ce vai me dizer que isso não é fantasia erótica de marmanjo? As moças de sainha e o cara com a arma sempre na mão? Só porque tá todo mundo vestidinho e pode passar na sessão da tarde não é de sexo que estamos falando?
E os remédios. Aqui é onde o livro manda melhor, na minha opinião. Porque se o transgênero toma hormônios, a irmão toma anticoncepcionais, mamãe na menopausa faz reposição hormonal, papai toma Viagra e o caçulinha Ritalina (pra quem não sabe, é o remédio mais popular pra crianças diagnosticadas como portadoras de déficiit de atenção e hiperatividade). Sem esquecer, claro, os antidepressivos. Preciado critica o feminismo por ter acolhido e celebrado a pílula anticoncepcional, sem pressionar pelo desenvolvimento e adoção de outras políticas contraceptivas. E aqui ela força a barra, na minha opinião. Porque a pílula não é bacaninha e inocente mas acho que ela é uma conquista, sim.
Mas a pílula. Então, meu problema de varizes foi agravado por ela. Eu sei disso. Fiz uma escolha consciente. Não me arrependo, prefiro ter feito essa cirurgia agora mas ter passado os últimos ano sabendo que estava protegida de uma gravidez não desejada. Mas com isso, só duas vezes cliente da indústria farmacêutica, exponho o meu corpo duas vezes. Ainda que ela esteja se aperfeiçoando e os efeitos colaterais sejam menores agora, eles existem. Entre eles, adivinhem? A queda da libido. Quem vem a ser um efeito colateral do uso de antidepressivos também. Lembro de um dia, anos atrás, em que jantava com um grupo de amigas. Todas inteligentes, viajadas, independentes. Todas a seis já tinham tomado antidepressivo em algum momento da vida (eu inclusive). Muita gente toma antidepressivo no mundo, e acho que são as mulheres as maiores usuárias. E muitas mulheres tomam pílulas. A gente comenta do absurdo de antigamente, quando se lobotomizava mocinhas inconvenientes. Hoje não precisa: a gente dopa todo mundo e beleza. Somos uma geração de mulheres infertéis quimicamente e que só tem tesão pra transar com o namorado - quando tem. Não é o paraíso machista por excelência? Ela questiona porque nunca se pensou em ministrar pequenas doses de testosterona para mulheres que tomam pílulas, para resgatar a libido. Mas é super mal visto politicamente. Como se a testosterona e a excitação sexual decorrente dela nos fossem proibidos. E a desculpa par não terem chegado a um equivalente feminino do Viagra é que nossa sexualidade é muito complexa. Mas doses mínimas de testosterona poderiam ser eficientes sem grandes alterações físicas. O livro conta (pág 144-146) que em 2004 o FDA, orgão amaricano responsável pela fiscalização de medicamentos, não autorizou o lançamento no mrcado de um patch de testosterona que seria ministrado pra mulheres que estivessem com a libido em baixa por conta da menopausa - mas claro que as que usam anticoncepcionais poderiam ser futuras consumidoras. Enfim, é o estado quem te diz que drogas a gente pode consumir ou não, a decisão é sempre política.
Olhem só, acho o uso de medicamentos muito legitimo em diversas circunstâncias. Acho que são muito úteis, e já vi pessoas queridas que estavam muita mal consiguirem se recuperar com a ajuda deles. Mas a última vez que me prescreveram antidepressivos eu estava só ansiosa e angustiada por questões externas, mas especificamente por não saber o que fazer quando terminasse a faculdade, coisa que acontece com todo mundo. E eu não tomei, continuo uma pessoa ansiosa e angustiada por diferentes motivos, mas posso viver com isso. Hoje, quando minha ansiedade bate forte, tomo um fitoterápico a base de maracujá, daqueles que não precisa nem de receita e pode dar até pra criança.
Enfim, não era pra ser tão longo esse post. E nem é uma resenha de verdade. Mas o livro traz reflexões interessantes sobre fenômenos contemporâneos da maior importância. Se alguém se interessar, só achei disponível no original em espanhol, infelizmente.
terça-feira, 22 de junho de 2010
Introdução
Esse é mais um ensaio, pra organizar as idéias. Mas é que no post em que eu divide com vocês as minha dúvidas as contribuições foram tão boas, que nada mais justo (e útil, claro), que continuar dividindo.
Como eu tinha contado, eu só preciso apresentar um projeto de pesquisa agora, nada muito extenso, factível de ser feito até dia 3 de julho considerando o que já venho amadurecendo na cabeça. Acabei não contando no último post sobre leituras que um dos livros que estava na minha lista, e agora já está pelo menos começado, é o Desenvolvimento como Liberdade, do Amartya Sen, Nobel de Economia. E eu tô gostando muito porque ele basicamente defende que o foco do desenvolvimento deveria ser a expansão da liberdade. Segundo ele, não existiria país desenvolvido sem democracia plena, por exemplo. Então, o milagre econômico da época da ditadura passa a ser uma falácia. Da mesma maneira que não é possível pensar em desenvolvimento no patriarcado, já que metade da população é relegada à uma condição de segunda classe. Bom, meu pai leu o livro inteiro e, subversivo que só, acho o autor “muito comprmetido com o capitalismo”. Eu não li tudo, mas confesso que isso não me incomoda tanto. Sou muito pragmática e acredito que, se o mundo que temos é esse, é preciso que as pessoas vivam melhor nele. Se uma revolução derrubar toda a forma de opressão, fantástico, mas senão, o Bolsa Família e a Lei Maria da Penha são, sem dúvida, melhores do que nada.
Enfim, e eu pensei em trabalhar com transporte porque eu acho que pega no cerne dessa questão. Não adianta você ter dinheiro pra comprar carro do ano, se vai ficar preso no congestionamento e chegar em casa tarde demais pra usufruir da companhia do seus filhos. Na linha “tem coisas que o dinheiro não compra” mesmo.
Mas a Ingrid lá nos comentários me sugeriu tratar da questão das restrições à mobilidade. E eu adorei. Confesso que já tinha pensado a respeito, mas como o Manoel Carlos fez merchandising social para este tema e, vocês sabem, eu odeio o Manoel Carlos, fiquei com medo de parecer que olha, escolhi o tema da moda por conta da novela. É, eu sou bem bestinha às vezes.
O tema do trabalho, por enquanto, ficou sendo políticas públicas de inclusão de pessoas com restrição à mobilidade. Mandei um e-mail para o coordenador do curso, que achou interessante, mas não tem a menor idéia de que bibliografia me indicar. Então comecei, de novo, com o básico do básico, coleção Primeiros Passos, O que é deficiência?, da Débora Diniz.
Nossa, eu preciso dizer que eu tô muito empolgada. Primeiro porque é realmente um tema pouco estudado. O livro é de 2007, pra vocês terem uma idéia do quanto é pertinente. E lá no lattes descobri que Débora Diniz é estudiosa de questões de gênero. Como entusiasta deste tema, fiquei muito curiosa pra ver qual seria o ponto de intersecção.
No livro ela conta sobre a elaboração a teoria social da deficiência, que se contrapõe ao ponto de vista médico. E tudo faz um tremendo sentido, porque a teoria social diz que o deficiente tem uma lesão que pode limitá-lo, mas se não pode ser incluído não é culpa da lesão, mas da sociedade que é excludente. E que os teóricos desenvolveram essa teoria usando como base o feminismo, já que a mulher é discriminada por ter uma realidade física diferente do homem que, sozinha, não a desqualifica. Gente, eu tô sendo muuuuito simplista, tá? A coisa é muito mais complexa, claro, e o próprio livro diz que a pontos a serem refutados nessa teoria, até porque, para um tetraplégico, por exemplo, não há acessibilidade que supere todas as suas limitações, há a necessidade de uma pessoa ajudando em muitos momentos. Mas o cerne é questionar uma sociedade que isola as pessoas e trata suas dificuldades do ponto de vista do liberalismo individualista da “tragédia pessoal” - não por acaso a teoria social é orientada pelo materialismo histórico. E eu jamais olharia a questão sob esse prisma não fosse este trabalho. Então, pra mim, já valeu o curso.
Então, meu trabalho vai ser, basicamente, analizar o que é feito hoje no Brasil, mas mais especificamente de São Paulo, para incluir as pessoas do ponto de vista de suas limitações físicas. Não vou abordar uma deficiência em especial porque a teoria social diz que separar as coisas desse jeito é “dividir para conquistar”. Mas vou focar em um aspecto, o da mobilidade, tentando relacionar com outro, o do trabalho. Não sei se todo mundo sabe, mas São Paulo tem um orgão público chamado Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida, criada em 2005 pelo Serra. E, pelo o que eu pude ler, o trabalho deles tem sido muito bem feito: quando a secretaria foi criada, em 2005, só 300 ônibus de toda a frota paulistana eram acessíveis. A partir de 2009, todo ônibus novo comprado pela prefeitura de São Paulo é acessível. Uma vitória importante, sem dúvida (ó, eu nem gosto de Serra, Kassab e afins, mas trabalho bom a gente tem que reconhecer).
Mas, enfim, os idealizadores da teoria social eram, eu sua imensa maioria, deficientes. Muitos enfrentaram a descofiança da própria família em relação às suas reais capacidades. E, principalmente, reinvindicavam o direito à voz. A fala do deficiente, não sobre o deficiente. Substitua “deficiente” por “mulher” e “teoria social” por “feminismo” nas duas últimas frases neste começo de parágrafo e veja se não tem associação. Meu trabalho não é antropológico nem literário e não pretende abordar o discurso do deficiente propriamente, só talvez suas reivindicações políticas mais imediatas. Ainda assim, tem me feito pensar sobre a necessidade de buscar diferentes pontos de vista para se entender uma realidade, principalmente quando tratamos da alteridade, em conhecer o outro. E hoje, por coincidência, assisti aos vídeos que a Daniela colocou neste post, em que a escritora nigeriana Chimamanda Nzogi Adichie fala sobre os perigos de basearmos toda nossa visão de mundo em um único relato (recomendo fortemente, viu? a lucidez dela é encantadora). Porque, no fundo, a gente percebe que a filosofia por trás do machismo, do racismo, da homofobia é a mesma da insensibilidade às questões dos deficientes: a de que só há um modo de vida legítimo, e que todo o mais deve ser destruído, ignorado ou, no mínimo, privado de poder.
Como eu tinha contado, eu só preciso apresentar um projeto de pesquisa agora, nada muito extenso, factível de ser feito até dia 3 de julho considerando o que já venho amadurecendo na cabeça. Acabei não contando no último post sobre leituras que um dos livros que estava na minha lista, e agora já está pelo menos começado, é o Desenvolvimento como Liberdade, do Amartya Sen, Nobel de Economia. E eu tô gostando muito porque ele basicamente defende que o foco do desenvolvimento deveria ser a expansão da liberdade. Segundo ele, não existiria país desenvolvido sem democracia plena, por exemplo. Então, o milagre econômico da época da ditadura passa a ser uma falácia. Da mesma maneira que não é possível pensar em desenvolvimento no patriarcado, já que metade da população é relegada à uma condição de segunda classe. Bom, meu pai leu o livro inteiro e, subversivo que só, acho o autor “muito comprmetido com o capitalismo”. Eu não li tudo, mas confesso que isso não me incomoda tanto. Sou muito pragmática e acredito que, se o mundo que temos é esse, é preciso que as pessoas vivam melhor nele. Se uma revolução derrubar toda a forma de opressão, fantástico, mas senão, o Bolsa Família e a Lei Maria da Penha são, sem dúvida, melhores do que nada.
Enfim, e eu pensei em trabalhar com transporte porque eu acho que pega no cerne dessa questão. Não adianta você ter dinheiro pra comprar carro do ano, se vai ficar preso no congestionamento e chegar em casa tarde demais pra usufruir da companhia do seus filhos. Na linha “tem coisas que o dinheiro não compra” mesmo.
Mas a Ingrid lá nos comentários me sugeriu tratar da questão das restrições à mobilidade. E eu adorei. Confesso que já tinha pensado a respeito, mas como o Manoel Carlos fez merchandising social para este tema e, vocês sabem, eu odeio o Manoel Carlos, fiquei com medo de parecer que olha, escolhi o tema da moda por conta da novela. É, eu sou bem bestinha às vezes.
O tema do trabalho, por enquanto, ficou sendo políticas públicas de inclusão de pessoas com restrição à mobilidade. Mandei um e-mail para o coordenador do curso, que achou interessante, mas não tem a menor idéia de que bibliografia me indicar. Então comecei, de novo, com o básico do básico, coleção Primeiros Passos, O que é deficiência?, da Débora Diniz.
Nossa, eu preciso dizer que eu tô muito empolgada. Primeiro porque é realmente um tema pouco estudado. O livro é de 2007, pra vocês terem uma idéia do quanto é pertinente. E lá no lattes descobri que Débora Diniz é estudiosa de questões de gênero. Como entusiasta deste tema, fiquei muito curiosa pra ver qual seria o ponto de intersecção.
No livro ela conta sobre a elaboração a teoria social da deficiência, que se contrapõe ao ponto de vista médico. E tudo faz um tremendo sentido, porque a teoria social diz que o deficiente tem uma lesão que pode limitá-lo, mas se não pode ser incluído não é culpa da lesão, mas da sociedade que é excludente. E que os teóricos desenvolveram essa teoria usando como base o feminismo, já que a mulher é discriminada por ter uma realidade física diferente do homem que, sozinha, não a desqualifica. Gente, eu tô sendo muuuuito simplista, tá? A coisa é muito mais complexa, claro, e o próprio livro diz que a pontos a serem refutados nessa teoria, até porque, para um tetraplégico, por exemplo, não há acessibilidade que supere todas as suas limitações, há a necessidade de uma pessoa ajudando em muitos momentos. Mas o cerne é questionar uma sociedade que isola as pessoas e trata suas dificuldades do ponto de vista do liberalismo individualista da “tragédia pessoal” - não por acaso a teoria social é orientada pelo materialismo histórico. E eu jamais olharia a questão sob esse prisma não fosse este trabalho. Então, pra mim, já valeu o curso.
Então, meu trabalho vai ser, basicamente, analizar o que é feito hoje no Brasil, mas mais especificamente de São Paulo, para incluir as pessoas do ponto de vista de suas limitações físicas. Não vou abordar uma deficiência em especial porque a teoria social diz que separar as coisas desse jeito é “dividir para conquistar”. Mas vou focar em um aspecto, o da mobilidade, tentando relacionar com outro, o do trabalho. Não sei se todo mundo sabe, mas São Paulo tem um orgão público chamado Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida, criada em 2005 pelo Serra. E, pelo o que eu pude ler, o trabalho deles tem sido muito bem feito: quando a secretaria foi criada, em 2005, só 300 ônibus de toda a frota paulistana eram acessíveis. A partir de 2009, todo ônibus novo comprado pela prefeitura de São Paulo é acessível. Uma vitória importante, sem dúvida (ó, eu nem gosto de Serra, Kassab e afins, mas trabalho bom a gente tem que reconhecer).
Mas, enfim, os idealizadores da teoria social eram, eu sua imensa maioria, deficientes. Muitos enfrentaram a descofiança da própria família em relação às suas reais capacidades. E, principalmente, reinvindicavam o direito à voz. A fala do deficiente, não sobre o deficiente. Substitua “deficiente” por “mulher” e “teoria social” por “feminismo” nas duas últimas frases neste começo de parágrafo e veja se não tem associação. Meu trabalho não é antropológico nem literário e não pretende abordar o discurso do deficiente propriamente, só talvez suas reivindicações políticas mais imediatas. Ainda assim, tem me feito pensar sobre a necessidade de buscar diferentes pontos de vista para se entender uma realidade, principalmente quando tratamos da alteridade, em conhecer o outro. E hoje, por coincidência, assisti aos vídeos que a Daniela colocou neste post, em que a escritora nigeriana Chimamanda Nzogi Adichie fala sobre os perigos de basearmos toda nossa visão de mundo em um único relato (recomendo fortemente, viu? a lucidez dela é encantadora). Porque, no fundo, a gente percebe que a filosofia por trás do machismo, do racismo, da homofobia é a mesma da insensibilidade às questões dos deficientes: a de que só há um modo de vida legítimo, e que todo o mais deve ser destruído, ignorado ou, no mínimo, privado de poder.
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