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domingo, 29 de agosto de 2010

Natureza, essa sacana

Eu queria ter feito um monte de coisas na semana que passou. Queria ter rendido mais no trabalho, ter lido o meu livro que jaz empacado, queria ter feito pelo menos uns 2 posts. Queria. Mas fui atropelada por uma TPM horrorosa. Uma das piores da minha vida.

Eu não costumo sofrer muito com TPM. O normal são uns 2 ou 3 dias meio resmungona, uma barra de chocolate devorada sem dó em algum momento, um pouco de enxaqueca na véspera (nada que um analgésico não resolva), e um pouco de cólica no dia que a menstruação chega. Mas notem só: sofrer pouco já é um conjunto de sintomas desagradáveis. Eles não chegam a paralizar minha vida, só tornam as coisas mais lentas um pouco, essa é minha referência pra dizer que é leve. Há meses até em que as coisas são bem tranquilas, e eu só lembro que vou ficar menstruada por conta de um outro sintoma que eu não mencionei acima: gases. Daí que eu arroto (desculpem as mais sensíveis), penso "nossa, o que eu comi pra arrotar assim?", e lembro que vou ficar menstruada dali há dois dias.

Já este mês a coisa foi punk-hardcore. Achei que eu não chegaria empregada e casada até o final da semana. Pra manter o casamento, fiquei sem falar com o marido dois dias, porque eu estava irritada por uma coisa pequena, mas sabia que se eu o abordasse, ia superdimensionar e me arrepender depois. Então, eu tenho a vantagem de ter essa lucidez, pelo menos. Eu sei que não estou no meu estado normal. O que não significa conseguir reverter isso, em absoluto. E o trabalho? Já falei que eu não amo de paixão meu trabalho, mas ele é ok. Essa semana fiquei o tempo todo pensando "deu. deu muito. não aguento mais essa merda, vou fugir daqui agora, etc". Na quarta-feira foi o auge. Às 4 da tarde eu queria morrer. Não tô exagerando, eu realmente queria morrer pra parar de sofrer. E tenho uma amiga querida que sofre horrores com TPM. Todo mês fica mais de 10 dias bem mal. Toma até antidepressivo, uma coisa horrorosa. Vem a menstruação e ela melhora. Na quarta eu mandei um e-mail pra ela dizendo que ela merece ser canonizada, porque não sei se suportaria, todo mês, uma semana ou mais, me sentindo como estava na quarta-feira.

Passada a crise, fiquei pensando na carga de sofrimento que nos é imposta pela natureza. Porque isso não é social. O estresse pode até ser piorado pelo estilo de vida e tal. Mas quem não tem nada de TPM também fica dias ali, sangrando. E pra que isso nos serve? A nós mulheres, como indivíduos, nada. Serve à reprodução da espécie. Se eu não tiver filhos, nada disso terá me valido de nada. Daí a religião teve que inventar a Eva, pra justificar essa injustiça natural. Porque a religiao também serve pra isso, justificar o injustificável. E toda a mitologia que constroem sobre o nosso corpo. Tipo, o útero. Não tem outra função a não ser abrigar um bebê. Minha mãe teve de tirá-lo há alguns anos. E o médico preocupado que ela não ficasse ouvindo conversa de que "você vai sentir um vazio", "vai ficar fria", porque não tem absolutamente nada a ver. E ela já tinha dois filhos, não ia ter outros, e tirou, não faz falta alguma. Fora o momento da reprodução, o útero é como o apêndice, só serve pra te dar problema.

Conversei com o marido depois. Ele no começo ficou preocupado, depois bem sensibilizado. E é chato, porque eu agradeço a ele pela paciência, claro, mas me revolto porque não fui eu que exigi essa paciência dele. Não foi voluntário, em absoluto. Eu não escolhi negligenciá-lo a semana toda. Eu tava lá, sofrendo, querendo morrer.

Passou. Sexta a gente ficou discutindo sobre os medicamentos, a discussão do livro da Preciado. Porque eu parei de tomar pílula, um pouco pra desintoxicar o organismo de hormônios. E, sem ela, parece que tudo piora um pouco. Na adolescência, eu cheguei a desmaiar de tanta dor por conta das cólicas. Acreditem, eu sou uma mulher durona e resistente, pra eu desabar é porque a coisa tá muito feia. Fiz vários exames, nada de errado comigo. Dores horrorosas mesmo estando saudável. Minhas cólicas incapacitantes só melhoraram depois da pílula (hoje a dor é leve, mesmo sem tomar pílula, porque parece que a idade faz diferença nisso). Então eu acho que a gente pode criticar os excessos, mas os remédios são muito úteis. Ficar pregando essa coisa super naturalista é atraso. Eu não quero suportar a dor, quero é uma Neosaldina, porra!

E, bom, a diferença, né? Porque tem que ser levada em conta. Eu tô aí, fazendo um esforço pra entender mais sobre feminismo. E lembrei sobre o debate sobre se vale ou não a pena menstruar. De como eu fico dividida. Porque, por um lado, acho realmente assustador querer suprimir tudo o que parece desagradável. Tem o medo da intolerância: se a possibilidade de não menstruar se generaliza, temo uma menor tolerância ao sofrimento de quem, legitimamente, escolhe continuar menstruando. Por outro lado, que semana de merda eu tive. A natureza tá me devendo uma, onde eu cobro?

domingo, 22 de agosto de 2010

Do pesar e da indignação

Daí na sexta-feira, tarde da noite, eu entrei na internet e vi que a esposa do Dado Dolabella entrou com uma medida cautelar pro cara sair de casa, alegando que estava apanhando dele. E fiquei muito triste por ela. Pensei que tem uma galera que vai julgar, porque quando ela o conheceu já era notório que ele tinha batido na Luana Piovani. Que ela deveria saber, que foi burra de ter escolhido ficar com um cara assim, etc, etc. Mas não é assim que a banda toca. O cara pode tê-la convencido que o lance com a Luana foi um mal-entendido. Afinal, como a Luana é grandona, namoradeira e arrogante, ela não se encaixa no perfil da vítima coitadinha no imaginário coletivo. Por isso foi tão importante ela ter denunciado, pra todo mundo ter certeza de que mesmo mulheres ricas e independentes podem sofrer abusos.E a condenação do Dado pelo caso da Luana pode ter dado forças à esposa pra finalmente dar um basta.

Milhares de mulheres apanham dos seus companheiros todos os dias. Mulheres das mais variadas idades, classe sociais, níveis de escolariade. Nem posso imaginar a força necessária pra dar conseguir virara mesa e superar um drama desses num mundo machista como o nosso. Imagino a vergonha do (suposto) fracasso. A primeira vez que o cara bate. A esposa do Dado acreditou no cara, achou que a história dela ia ser diferente, e um dia ela levou o primeiro tapa. Aquele que mostrou que ele não era digno de sua confiança, que ela tinha caído numa armadilha. Eu escrevo isso e me dói, me dá vontade de ir correndo dar um abraço nessa moça, em toda mulher que passe por algo parecido.

Comentando com amigos num bar ontem, uma das presentes contou que isso já aconteceu com ela, de apanhar do companheiro e ter medo de ir embora por conta das ameaças. Que, pra resolver, mudou de emprego e de bairro. Mas que a avó dela não teva a mesma sorte. Essa avó, depois de apanhar por 18 anos de um companheiro - que a certa altura já era ex, mas invadia a casa dela com frequencia para agredi-la - depois de registar inúmeros boletins de ocorrência sem nenhum efeito, um dia, aos 62 anos de idade, matou o infeliz. Ficou 1 ano presa e conseguiu ser absolvida por legítima defesa. Imaginam a merda? Ir pra cadeia porque a incompetência do Estado fez com que ela se transformasse de vítima em ré.

Todo mundo conhece uma história dessas. A Mari Biddle postou essa aqui outro dia. E sabe, as pessoas muitas vezes relacionam isso ao alcoolismo. E o alcoolismo é parte da questão, claro, mas tá cheio que caras que batem na mulher de cara limpa, e caras que enchem a cara e não batem em ninguém. O vizinho dos meus pais é alcólatra. A gente ouvia quando ele chegava em casa bêbado e quebrava os móveis da casa. Ele e a mulher gritavam um com o outro, mas ele não batia nela. Dizia coisas horríveis, ela respondia, a gente fica tenso ouvindo, mas não batia. Não tô dizendo que agressão física é a única forma possível de violência, mas a gente nunca sentiu que a vida dela estava em risco. O cara hoje parou de beber e parece que eles vivem em relativa harmonia. Minha mãe tem uma amiga cujo o marido chegava bêbado em casa com flores roubadas do quintal dos vizinhos e passava o resto da noite chorando, envergonhado do vício. Os filhos de saco cheio já, falavam pra mãe largar o pai, que ele era um pinguço sem salvação, mas ela continuou, o cara entrou no AA, e hoje eles vivem bem. Quer dizer, quando o problema é só o álcool, acho até que pode haver, depois de muita luta, um final feliz independente da separação. Mas não consigo ver final feliz ao lado de um agressor. Na minha cabeça, "ele parou de beber, e eles viveram bem depois disso" é algo possível. Mas "ele parou de espancá-la e ficou tudo bem", não é. Porque eu acho que a violência doméstica não tem nada de inconsciente. Não dá pra colocar a culpa na cachaça e condenar a mulher que casou com o cachaceiro. Não dá pra colocar a culpa na mulher nunca, aliás.

Então, toda a minha solidariedade vai pra esposa do Dado, independente dela ter acreditado nele, dela provavelmente não ter se solidarizado com a violência sofrida pela Luana Piovani. Nada disso minimiza a dor da agressão. Ela não apanhou porque acreditou no marido: apanhou porque o marido é violento. A violência não acaba se "as mulheres escolherem melhor seus companheiros", como tem gente que gosta de dizer por aí. A violência para quando o agressor para de agredir.


Update: depois de publicar este post, vi que a Vanessa publicou esse, sobre o mesmo tema. E me lembrei que sexta-feira completou 10 anos que o Pimenta Neves matou a Sandra Gomide e o cara continua aí impune. E o pai dela falou da dor de sentir que vai morrer sem ver o assassino da filha cumprir pena. Nossa sexta-feira foi, simbolicamente, um dia especialmente triste.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

A quem interessar possa

Então. É polêmico esse negócio, que eu sei. Mas eu vou comprar a Playboy da Cléo Pires porque eu acho que deve estar linda.

Não tenho nada contra a idéia de uma mulher posar nua. Nada contra imagens de corpos nus, nem mesmo nada contra a pornografia. Eu sei que a pornografia, por vezes, reproduz discursos machistas. Mas eu não acho que ela, em si, seja machista. A pornografia é a exposição explícita de sexualidade. Isso, isoladamente, não é machista, ao meu ver. Volto a dizer que, obviamente, tem representações pra todos os gostos, e muitos deles são muito machistas. Talvez a maioria, até. Mas eu não desqualificaria o resto nem por conta desta (suposta) maioria. A Beatriz Preciado conta em seu livro que houve, acho que no Canadá, uma articulação do movimento feminista pra censurar publicações pornográficas. E a primeira a ser censurada pela lei foi uma revista pornográfica lésbica. Quer dizer, é feita pra agradar a sexualidade feminina, mas não pode? Tremendo tiro no pé, na minha opinião, tal como o fechamento dos cares de strip na Islândia, como a Lu contou. Eu acho realmente temerário quando o discurso feminista coincide com o religioso. Agora, eu não tenho nada contra, mas não gosto do sexo explícito. Sei lá, aversão estética. Estética, e não moral. Acho cafona. Sério, acho cafona. Já erotismo eu acho lindo. Tipo, fotos bem produzidas, bons fotógrafos e tal. E a revista da Cléo parece que está assim.

Mas eu continuo me justificando aqui porque eu problematizo a questão, claro. Tem um lance, que eu acho que flerta com o abuso, da celebridade dizer que foi difícil, que teve que beber pra relaxar. E daí eu acho muito trash, porque parece mesmo o fetiche da humilhação, usar o poder da grana pra submeter uma mulher em escala macro. Tipo, você tá com vergonha, mas abaixa aí a calcinha que eu tô pagando. E, lógico, acho horrível essa idéia. Entendo claramente que, desse jeito, é sim muito machista. Mas a fotografada deste mês disse que A-DO-ROU posar. Que se descobriu exibicionista. Que teve a maior dificuldade de escolher as fotos da revista porque, por ela, publicava todas, achou tudo o máximo. Em outra entrevista li que a vó deu apoio, dizendo que na época dela levava puxão de orelha da professora porque subia a saia e mostrava a canela, então o fato de uma mulher poder posar nua é algo a ser celebrado. E essa discurso só me deu mais vontade de ver o resultado, porque tudo parece feito com muito prazer. Há uma troca clara aí, não uma submissão: o prazer dela em ser vista, e o do público em ver. E pra mim, quando há essa troca, há o livre exercício da autonomia. Não vejo machismo mesmo.

Daí alguém me diz que o problema da Playboy é que dá a entender que só aquele tipo de corpo é desejável. A questão da falta da representatividade da diferença. Que é real, claro, mas não é exclusiva da Playboy. A grande mídia, de maneira geral, não prima pela diversidade mesmo. Por sorte, temos a internet como espaço pra circular outros modelos. Eu gosto muito desse tumblr: (cuidado ao abrir). Não só porque nele eu me sinto bem representada (eu sou do tamanho das fotografadas ;-)), mas porque as fotos são mesmo muito bacanas. Para meu gosto, claro. E tem o que a Aline apresentou, o adipostivity. Quer dizer a internet dá esse poder, dá gente ter acesso a outras coisas. Ok, fica uma coisa meio underground. O mainstream é a Playboy mesmo. Mas não é porque ela é o mainstream que aquela representação não é legítima. Eu me acho linda (é, modéstia passa longe aqui). E acho a Cléo linda. E, claro, não é culpa dela se a Playboy quer mulheres do tamanho dela, mas não do meu.

Mas aí tem a questão do olhar objetificador. E eu não acho que achar um corpo sexualmente atraente seja desconsiderar automaticamente o sujeito que ele carrega. A sexualidade faz parte da nossa vida, e a atração física faz parte da sexualidade. Eu acho muitos corpos por aí altamente atraentes. Olha passar, suspiro e, quando faço isso, não estou preocupada com a pessoa que mora naquele corpo. O que não signifia, em absoluto que, se tiver que abordá-la, por qualquer motivo, vou tratá-la como um objeto. Mas, se estou olhando de longe, é só o corpo que me interessa, ué. A mesma coisa se o olhar se voltar pra mim. Sim, eu sou sexualmente atraente. Sim, alguém pode me olhar e só ver um decote, ou uma bunda grande marcando o vestido. E aí? É desrespeito? Quando a gente olha, só vê um corpo, não vê um discurso. E tudo bem. Se, porque eu estou com um decote alguém achar que essa é a senha pra me desrespeitar, o problema é do machista que fez isso, não do meu decote. Eu sei que o mundo é escroto. Que o pessoal acha linda a mulher posando na revista, mas não votaria nela. Ou você é um corpo, ou tem um discurso. Não pode as duas coisas. Essa separação corpo-intelecto pra mim parece herança religiosa do modelo corpo-alma: há que negar um para valorizar o outro. E as pessoas não se dão conta, mas é o mesmíssimo lance da Geyse ou do Taleban: que, pra garantir respeito, há partes do corpo que a mulher não deve mostrar. Eu exijo tudo: o direito de se mostrar e o respeito incondicional. Pra mim, não há meio-termo possível, não há condicional aceitável.

E aí tem o outro discurso que diz que olha, tudo bem, mas quando a Cléo, que é atriz filha de atriz, posa nua, ela vai ser respeitada, mas reforça o machismo de quem tá lá olhando. Ela pode, mas a outra, que não tem o mesmo status, paga o pato. Vamos lá: eu não tenho nada contra dançarina de funk. Nada contra a Mulher Melancia. Dizer que essa mulherada que ganha dinheiro seminua contribui para a idéia que há mulheres que só servem pra isso é repetir o discurso machista com a pretensão de combatê-lo. Seguinte: eu estudei literatura. No meu trabalho, não uso nada do que estudei. Meu trabalho exige muito menos capacidade intelectual do que a que eu tenho (de novo, modéstia aqui tirou férias). Tem gente que acha mesmo que se a pessoa está ali na base, assistente de algo, é porque não tem mesmo potencial pra ser chefe e tals. E eu já tive chefes sem um pingo de cultura: o cara era bom no que ele fazia e só. Por que eu tô nesse trabalho? Porque paga minhas contas. Eu não sei nada sobre ninguém que tá ali posando nua. Nem eu, nem ninguém que se coloca numa posição de julgar. A pessoa pode estar numa condição análoga à minha: usando apenas parte dos recursos que tem pra ganhar dinheiro num mundo em que não necessariamente o mais culto é o mais bem pago, mas todos precisam sobreviver. A diferença é que ser assistente em multinacional é algo que tem algum status no meio onde eu circulo - ser dançarina de funk ou axé, não.

Não tenho essa cegueira de achar que a minha escala de valores é a única válida. E não tenho a pretensão de achar que todo mundo que é esclarecido vai chegar à mesma conclusão que eu sobre algo. Não, né? O mundo é diverso, os pontos de vista também, claro. E eu acho as dançarinas de funk muito cafonas, na verdade. Não, eu não toparia fazer o que faz a Mulher Melancia porque tenho aversão a essa estética funkeira. Mas, como no caso da pornografia, o problema, pra mim, é de gosto mesmo. E o meu gosto pessoal não tem esse poder de desligitimizar nada.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Leituras feministas - Le conflit

A história é assim: eu descobri o blog da Amanda, vendo, não sei onde, um link para este post. E, puxa, além de tudo a Amanda mora na França, então, rolou identificação. Este post dela fala do livro polêmico da não menos polêmica Elisabeth Badinter, "Le conflit - la femme et la mère" (O conflito - a mulher e a mãe). Mandei o link pra minha amiga Ma que mora na França, tem um filho que acabou de completar um ano e havia me confessado que a maternidade era muito mais extenuante do que ela tinha previsto. Minha amiga gostou do debate e resolveu me dar o livro de presente de aniversário. Consegui lê-lo naqueles dias de repouso pós-cirúrgico. A Amanda fez dois posts sobre o tema (outro link aqui), e eu não queria repeti-los, porque acho que debate lá foi bem produtivo, com muitos comentários, e a gente não ganha nada redundando. Mas, como ela mesma colocou, o livro rende muitas discussões, então vou tentar abordar outros aspectos. Vale antes dizer que Badinter parece ser daquelas pessoas que tem gosto pela polêmica, com as quais é impossível a gente com concordar em alguns momentos, mas cujas provocações são interessantíssimas.

Bom, uma questão muito abordada por ela é a da amamentação. De que existe uma pressão enorme para que as mães amamentem, ainda que isso não seja de sua vontade. Taí a Gisele Bündchen que não me deixar mentir. Tô com preguiça de buscar o link, mas a nossa super-super, linda e loira, disse essa semana que deveria haver uma lei que obrigasse as mães a amamentarem seus filhos por 6 meses, no mínimo. Parece que ela se retratou e disse que não queria julgar ninguém. Cê jura, Gisele? Imagina se quisesse, né? Mas então, minha amiga teve seu filho na França e não só não sofreu pressão para amamentar como não teve apoio para fazê-lo. As enfermeiras da maternidade não a ajudaram, ela teve muita dificuldade no começo, o que provavelmente fez com que seu leite diminuísse. E ela se sentiu muito mal por isso. Não só por ter o seu direito desrespeitado, mas por não conseguir fazer o que acreditava ser o melhor pro seu filho. Pra piorar, seu pequeno era intolerante à diversas marcas de leite industrializado. Foram meses muito duros pra ela, e boa parte ela credita a essa diferença cultural. Imagino que aqui a coisa deva ser muito diferente. Não no sentido de orientação e preparo das enfermeiras, mas na cultura que preza a amamentação como obrigatória. O que eu acho disso tudo? Que amamentar deveria ser um direito, não um dever. Como tudo na vida, a gente deveria ter todas as informações disponíveis pra tomar a melhor decisão - e essa decisão é sempre personalizada. Uma coisa que eu acho que a Badinter manda muito bem é em ressaltar a desonestidade intelectual em alguns argumentos pró-amamentação, tipo comparar dados de mortalidade infantil incluindo países paupérrimos e desenvolvidos no mesmo balaio. Por que a qualidade da água, do leite e as condições gerais de higiene são completamente diferentes na França e no Gabão, né?

Minha mãe não pode me amamentar porque quase morreu quando eu nasci. Na época, os chamados leites de substituição eram caríssimos. Devo ter tomado por pouco tempo e logo depois migrado para o leite B de saquinho. E olha só, fui uma criança bem saudável. Segundo minha mãe, meu irmão caçula "não queria mais o peito" depois dos 4 meses. Sei lá porque. Tá aí também. Então, né? Menos. Eu não concordo com o discurso da Badinter que exalta a mamadeira como uma forma de igualdade entre o sexos, porque eu não acho necessário desqualificar qualquer processo biológico para defender a igualdade de direitos, acho até um argumento muito contraproducente. Mas não cabe a ninguém ficar julgando uma mulher por não amamentar, sejam quais forem os seus motivos (né, Gisele?). Porque se a amamentação é importante, ao mesmo tempo está longe de ser imprescindível.

Mas uma outra polêmica da autora, e que eu gostei porque permite filosofar um monte sobre o corpo feminino como campo de disputas políticas, é sobre a gravidez. Nos anos 70, não haviam pesquisas que ligassem o fumo e álcool a problemas com os bebês. Minha sogra é hardcore e fumou nas 3 gestações. E bebeu. Whisky, pra ser mais exata. Estão os três moços filhos dela muito bonitos e saudáveis, obrigada. A louca aqui tá dizendo que todo mundo deve ignorar as pesquisas e fumar e beber loucamente? Não, claro que não. Mas outro dia vi na internet uma foto da atriz Juliana Paes (que pra quem não sabe, está grávida) numa mesa de restaurante esticando o braço pra dar uma bicada no chopp da irmã. E a legenda não deixava barato: não crucificou a moça, mas deu lá um puxãozinho de orelha. Percebem? Se você engravidou, todas as suas vontades ficam condicionadas ao bem supremo do bebê, senão você é uma mãe execrável. Não sou mãe, e imagino que se eu for um dia, vou querer o melhor para o meu filho, lógico. Mas isso significa que se eu tomar uma tacinha de espumante no Reveillón estou comentendo um crime? A OMS recomenda a amamentação até os 2 anos de idade. E também não pode beber enquanto amamenta. 3 anos sem cachaça. Mas que boa mãe quer cachaçar, né? Minhas concunhadas são mães excelentes, mas lembro muito bem de uma delas amamentando a pequena e dizendo "ô tempo, passa logo, porque tô doida por uma gelada!". Não gente, ela não amamentou dois anos. Passada a licença, a mãe voltou a trabalhar, e a pequena foi pra um berçário o dia todo e passou a tomar mamadeira. (Digressão: antes de ver esse caso de perto, eu achava uma tristeza os bebês irem para o berçário antes de completarem 1 ano. Hoje acho que deve ser uma preocupação pra mãe achar um lugar legal, mas se achar, é excelente. Vocês não imaginam como essa menina - que tem 2 anos e meio agora - é feliz, independente e esperta.)

Lá no post da Amanda tem uma mulher que colocou um comentário (na verdade, vários) nessa linha de que é por aí, o bebê em primeiro lugar, escolheu então tem que ser assim, sem nenhuma margem para discussão. E termina com o clássico carioquês (acho que só no Rio falam assim, né?): "não sabe brincar, não desce pro play". E, advinhem? Mais e mais mulheres no mundo escolhem não descer pro play. A teoria do livro é que, como as francesas "brincam" à sua maneira, deixam de amamentar, dão comida industrializada, voltam ao trabalho pouco tempo depois, a imensa maioria delas é ou será mãe. Muitas de mais de 1 criança. Enquanto isso, estima-se que 30% das alemãs não terão filhos. Ok, a raça humana não está correndo risco de extinção, mas eu aposto que o governo alemão se preocupa muito com esta estatística. E apesar de não terem lá a melhor fama do mundo, não me consta que os franceses sejam todos uns doentes, infelizes e sociopatas. Então, essas "mães medíocres", pra usar a expressão da autora, devem ter cumprido suas tarefas direitinho.

Enfim, o livro não é contra os pobres bebezinhos. E, caso alguém desconfie do contrário, eu também não sou. Mas é fundamental que as mães não sejam vistas como egoístas se não estão se portando segundo um ideal social. Aliás, é importante desmontar esse ideal mesmo, porque ele só gera frustrações. Os bebês são seres humanos imperfeitos, filhos de mulheres imperfeitas, nascidos num mundo imperfeito. Se nada nessa relação é perfeita, porque o ônus todo tem que ficar com a mulher, sempre? Porque tudo nela tem que ser renúncia e resignação? Ok, as crianças não pediram pra vir ao mundo e não podem se manifestar. Mas eu tenho certeza que, se pudessem, muitos se horrorizariam com maneira como a sociedade os usa como justificativa pra oprimir suas mamães.

PS, de madrugada: vocês não morrem de vergonha quando, depois do post revisado umas 3 vezes e publicado, vocês encontram vários erros? Muitos deles? Alguns grotescos? Aff!

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Diversas

Estou com vontade de fazer outra tatuagem. A minha completa 10 anos ano que vem. E daí me dei conta de que eu não posso mesmo criticar quem faz plásticas. Tatuagem dói, é caro e não serve pra nada. Alguém pode argumentar que não dá pra comparar, porque a plástica exige internação no hospital, mais riscos, tem o lance machista de exigir corpo perfeito das mulheres e até que poder fazer tatuagem é uma conquista recente nossa. Tudo isso faz sentido, mas o fato é que, racionalmente falando, tanto colocar peito quanto tatuar as costas são coisas que não trazem nenhum benefício senão o estético. E do mesmo jeito que não quero que ninguém dê palpite nos meus rabisco, não vou dar nas turbinadas alheias. Só acho, como já disse aqui, que essa deveria ser uma decisão menos mediada pela expectativa da aprovação alheia.

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Antes de entrar no trem, comprei uma pipoquinha de uma carrinho enfrente à estação. Tinha bacon na danada. Deve ser muito difícil ser vegetariano num mundo em que nem as pipoquinhas são 100% vegetais.

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A cirurgia me deu uma desculpa legítima para não ir à academia, apesar de estar pagando. De quebra, minha colega de malhação acha que ser solidária a minha licença médica também é uma desculpa legítima para faltar às aulas. Né, gata?

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Não vou ficar aqui falando de novela, mas eu tenho que dizer que eu sou team Melina. Porque entre a moça que usa um cabelinho à la Louise Brooks e uma personagem interpretada pela Chatolina Dieckman que resolve trocar de namorado só porque deu uma voltinha de stock car, se casa com o ricaço em 2 semanas, se arrepende, e quer voltar para o Raj (o que foi trocado), pra quem eu poderia torcer? Ok, o fato é que os personagens dessa novela são chatos demais em seus dramas, e não me sentaria num bar com ninguém ali. Nem com a mocinha do cabelo Chanel. Mas eu sempre vou torcer pela outsider cool, nunca pela namoradinha. Por que todas as mocinhas são chatinhas? Por que nenhuma delas tem sal? Gente, entre Lara Croft e a Rachel, qual a dúvida? Lara Croft, claro! Conseguem imaginar a Jennifer Aniston interpretando um papel que inicialmente tinha sido escrito para o Tom Cruise? Não, né? Só que os caras costumam gostar das mocinhas-pra-casar, não das porra-loucas outsiders. Brad Pitt tem meu eterno respeito por ter escolhido a fodona-tatuada com o menino do Camboja a tira-colo.

***

Falando em novela, a Mariana Ximenes deve apanhar daqui a pouco, viu? Vigarista e já deu pra 3, incluindo o Cauã. Questão de tempo, que a gente sabe como funciona, né? E eu tenho que dizer que, apesar das porradas inevitáveis, meu sonho na vida era ser vilã de novela. Teve uma em que a Alessandra Negrini pegou o Anthony, o Fábio Assunção, o Bruno Gagliasso e o Wagner Moura. Imagina você chegar de manhã no trabalho e sua "tarefa" ser alisar o peito do Marcelo Anthony? Sendo bem paga pra isso! Marido vai me desculpar, mas se este não é o melhor emprego do mundo, não sei qual é. Pronto, olha que fácil! Já decidi o que eu quero ser na vida! ;-)

domingo, 25 de julho de 2010

Leituras feministas - A Dominação Masculina

Continuando, o segundo livro lido nos dias em que tive de ficar em repouso absoluto foi "A Dominação Masculina", do Bourdieu. Este foi presente de aniversário do meu pai que, depois de aposentado, ao 60 anos de idade, prestou vestibular, voltou pra faculdade e este semestre se formou em Ciências Sociais na USP. Então, faz muito sentido pra ele me presentear com uma obra de um sociólogo.
Enfim, mas o livro explica como o patriarcado está arraigado em nossas relações e nossos costumes de um maneira muito mais poderosa do que normalmente identificamos. Que toda a nossa organização de mundo parte de papéis masculinos e femininos bem definidos e hierarquizados. Daí que só a conscientização das mulheres de sua condição de dominadas não seria suficiente para reverter sua condição, sem que fossem feitos importantes mudanças na estrutura do mundo.
Eu sei que o Bourdieu enfrenta muita resistência de algumas feministas. E eu acho que sei porque, mas não sei se vou conseguir explicar. A questão, pelo meu ponto de vista, é este rótulo aí de dominadas. Como se isto fosse realmente imutável e definisse nossa condição no mundo. Eu entendo muito bem o que ele quer dizer quando foca na estrutura e eu concordo bastante. Se não olharmos as coisas assim, repetimos aquele discurso supostamente bem intencionado de que "homem machista é horroroso, mas mulher machista é pior". Essa atribuição de toda responsabilidade à nós, como se pudéssemos gente acordar um dia, ler "O Segundo Sexo" e concluir: "mas que canalhas estes meninos, a mim não enganam mais". Eu já falei aqui que este mundo é machista e a gente não vive teorias. Eu me esforço bastante para refletir sobre minhas atitudes, pra me questionar, mas minha vida é conservadora e me pego agindo tal qual o mundo machista acha que eu devo me portar. Nossas referências são externas e é um exercício desconstrui-las, criticá-las. Ainda que nos esforcemos para passar valores diferentes às novas gerações, a família ou mesmo a escola nunca são a única referência de uma criança. E ela vai, a cada dia, se deparar com mais e mais mensagens, explícitas ou não, que demarcam seu espaço na sociedade. O Bourdieu tem até uma teoria, que eu achei bem sacada, que a suposta intuição feminina viria daí: pra ter aceitação social a gente tem que se submeter a mais condições do que os homens, e essas condições nem sempre estão explicitadas. Logo, passamos a ser especialistas em comunicação não-verbal,
Mas ao mesmo tempo em que entendo o discurso do autor e acho muito válido, no me gusta pensar que não temos poder pra mudar isso. Porque se o poder não está todo em nossas mãos, com certeza há uma parte que está. E eu não posso mudar o mundo, mas posso criar conflitos que obriguem as pessoas a se posicionarem, posso desnudar o que está muito bem escondido. Eu sei, pra milhares de pessoas lendo blogs feministas que escancaram o machismo de como a mídia está tratando o caso Eliza, há milhões de pessoas vendo a grande mídia e atirando suas pedras a mais essa Madalena. Então não mudaremos o mundo e o patriarcado de maneira imediata. Mas as vozes dissonantes são importantes, porque elas marcam o conflito. Por isso, não gosto de me pensar "vítima" ou "dominada". Acho que as mulheres que querem resistir devem ser pensadas como resistentes mesmo, como tripulantes de um barquinho modesto que remam contra a corrente. Uma corrente poderosa e hostil, mas cada vez que alguém se dispõe a remar junto para o lado "errado", dá a sua contribuição para irmos mais longe. Acabei de pensar que esta é uma analogia péssima porque o fluxo de um rio é algo natural, tentar alterá-lo pode causar um desastre natural e esse é exatamente o argumento do patriarcado: que o feminismo quer alterar regras impostas pela natureza. Mas vocês vão me dar um desconto, sei que entenderam que eu defendo sermos nós parte da transformação, e não passivas nestas circunstâncias. Aliás, este lugar da passividade é tudo o que não queremos.
Ok. Estou sendo um pouco injusta com o Bourdieu, porque no livro ele trata de enfatizar que é preciso, justamente, historicizar o discurso da dominação, para que ele não seja visto como eterno e com isso, imutável e absoluto. Que o serviço prestado pelas instituições (escola, igreja, estado) ao patriarcado é justamente naturalizar nossa condição de inferioridade, enquanto o discurso feminista o quetiona, forçando sua entrada à esfera do, como ele diz, "politicamente discutível". Mas ficou pra mim a impressão de que ele é bem cético em relação ao ativismo feminista, ainda que reconheça alguns de sucessos.
Enfim, texto modesto para um livro importante. Pra quem não leu, recomendo. Este é traduzido e fácil de encontrar.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Leituras feministas - "Testo Yonqui"

O título já é instigante. Só lá pela metade eu saquei que a idéia era ser "junkie" de Testosterona, no sentido de se viciar. Que "yonqui" é a gíria espanhola equivalente ao "junkie" inglês. Enfim, a Beatriz Preciado é uma filósofa que estuda gênero e teoria "queer", que vem a ser o comportamento de quem não é, ainda segundo o inglês, "straight". Ou seja, quem foge a equação pênis = homem = masculino / vagina = mulher = feminino e heterossexual. Ela é espanhola. Quem me deu o livro foi a Fe, amiga minha inteligentíssima que fez um mestrado no museu de arte contemporânea de Barcelona. A Beatriz foi foi professora dela.
E eu adoro livros que me provoquem muito. Porque eu posso escrever um blog, ter umas idéias mais arejadas e tal, mas eu não tenho nem dúvida de que o meu modelo de vida é super conservador. Sou funcionária de multinacional, heterossexual, vivendo numa relação estável e monogâmica com um homem um pouco mais velho, mais alto e que ganha mais do que eu. Já fui secretária, estudei francês na França e me sustentei como babá, enquanto marido, antes de me conhecer, morou na Alemanha e projetando aviões. Sentem os modelinhos padrão masculino e feminino bem desenhadinhos? Então não é porque não somos dependentes de automóvel, não temos discurso retrógrado que somos "modernos" ou revolucionários.
Mas a Beatriz Preciado é, e como dizem por aí, "dicumforça". Ela é lésbica, se identifica mais com o gênero masculino (pelo o que eu entendi), mas acha que essas definições de gênero são autoristarismo estatal. Então não, ela não pretende fazer nenhuma cirurgia de mudança de sexo, nem deixar de ser Beatriz. Mas ela começa a se aplicar testosterona como experiência, meio que revivendo o percurso de Freud com a cocaína e de Walter Benjamin com o haxixe. Não sei se todo mundo sabe, mas homens e mulheres fabricam testosterona e estrogênio, o que muda é só a quantidade destes hormônios. Então, a testosterona não vai tranformá-la num homem, mas reforçar certas características consideradas como masculinas, como a quantidade de pelos no corpo, o cheiro do suor e a voz, por exemplo. E ela reivindica esta experiência como um direito inalienável de qualquer cidadão, o de poder se relacionar com seu corpo à sua maneira.
Enquanto se aplica testosterona, ela defende sua tese de que vivemos numa sociedade "farmacopornográfica". O que o carro representou para a economia e o comportamento no século XX, a pornografia e a indústria farmacêutica o fazem no século XXI. E eu não poderia concordar mais, principalmente quando ela, numa analogia das melhores, diz que as drogas ilegais são para a indústria farmacêutica o mesmo que a pornografia é para a indústria do entrenenimento. Ambas são variantes extremas e carentes de "status", mas subproduto de instituições sólidas. Muitos filmes não são pornográficos, não explicitam nada, mas as fantasias estão ali, o objetivo continua sendo gerar excitação sexual no espectador. Na TV a cabo essa semana tava passando um filme com o Tommy Lee Jones em que ele faz um policial que tem que proteger 5 cheerleaders gostosonas testemunhas de um crime. Ce vai me dizer que isso não é fantasia erótica de marmanjo? As moças de sainha e o cara com a arma sempre na mão? Só porque tá todo mundo vestidinho e pode passar na sessão da tarde não é de sexo que estamos falando?
E os remédios. Aqui é onde o livro manda melhor, na minha opinião. Porque se o transgênero toma hormônios, a irmão toma anticoncepcionais, mamãe na menopausa faz reposição hormonal, papai toma Viagra e o caçulinha Ritalina (pra quem não sabe, é o remédio mais popular pra crianças diagnosticadas como portadoras de déficiit de atenção e hiperatividade). Sem esquecer, claro, os antidepressivos. Preciado critica o feminismo por ter acolhido e celebrado a pílula anticoncepcional, sem pressionar pelo desenvolvimento e adoção de outras políticas contraceptivas. E aqui ela força a barra, na minha opinião. Porque a pílula não é bacaninha e inocente mas acho que ela é uma conquista, sim.
Mas a pílula. Então, meu problema de varizes foi agravado por ela. Eu sei disso. Fiz uma escolha consciente. Não me arrependo, prefiro ter feito essa cirurgia agora mas ter passado os últimos ano sabendo que estava protegida de uma gravidez não desejada. Mas com isso, só duas vezes cliente da indústria farmacêutica, exponho o meu corpo duas vezes. Ainda que ela esteja se aperfeiçoando e os efeitos colaterais sejam menores agora, eles existem. Entre eles, adivinhem? A queda da libido. Quem vem a ser um efeito colateral do uso de antidepressivos também. Lembro de um dia, anos atrás, em que jantava com um grupo de amigas. Todas inteligentes, viajadas, independentes. Todas a seis já tinham tomado antidepressivo em algum momento da vida (eu inclusive). Muita gente toma antidepressivo no mundo, e acho que são as mulheres as maiores usuárias. E muitas mulheres tomam pílulas. A gente comenta do absurdo de antigamente, quando se lobotomizava mocinhas inconvenientes. Hoje não precisa: a gente dopa todo mundo e beleza. Somos uma geração de mulheres infertéis quimicamente e que só tem tesão pra transar com o namorado - quando tem. Não é o paraíso machista por excelência? Ela questiona porque nunca se pensou em ministrar pequenas doses de testosterona para mulheres que tomam pílulas, para resgatar a libido. Mas é super mal visto politicamente. Como se a testosterona e a excitação sexual decorrente dela nos fossem proibidos. E a desculpa par não terem chegado a um equivalente feminino do Viagra é que nossa sexualidade é muito complexa. Mas doses mínimas de testosterona poderiam ser eficientes sem grandes alterações físicas. O livro conta (pág 144-146) que em 2004 o FDA, orgão amaricano responsável pela fiscalização de medicamentos, não autorizou o lançamento no mrcado de um patch de testosterona que seria ministrado pra mulheres que estivessem com a libido em baixa por conta da menopausa - mas claro que as que usam anticoncepcionais poderiam ser futuras consumidoras. Enfim, é o estado quem te diz que drogas a gente pode consumir ou não, a decisão é sempre política.
Olhem só, acho o uso de medicamentos muito legitimo em diversas circunstâncias. Acho que são muito úteis, e já vi pessoas queridas que estavam muita mal consiguirem se recuperar com a ajuda deles. Mas a última vez que me prescreveram antidepressivos eu estava só ansiosa e angustiada por questões externas, mas especificamente por não saber o que fazer quando terminasse a faculdade, coisa que acontece com todo mundo. E eu não tomei, continuo uma pessoa ansiosa e angustiada por diferentes motivos, mas posso viver com isso. Hoje, quando minha ansiedade bate forte, tomo um fitoterápico a base de maracujá, daqueles que não precisa nem de receita e pode dar até pra criança.
Enfim, não era pra ser tão longo esse post. E nem é uma resenha de verdade. Mas o livro traz reflexões interessantes sobre fenômenos contemporâneos da maior importância. Se alguém se interessar, só achei disponível no original em espanhol, infelizmente.

sábado, 17 de julho de 2010

A cirurgia

Eu não sumi por conta do meu trabalho. No final das contas, eu entreguei só 4 páginas, solidária ao resto da minha turma que, no geral, não tinha nem escolhido o tema dias antes da data da entrega (mas uma das colegas entregou 32 páginas, já!). Sumi principalmente porque o computador deu pau e foi pro conserto (estou escrevendo do do marido) e porque eu tava concentrada em me preparar para o que aconteceu na última quarta-feira: minha primeira cirurgia.

Eu tenho problemas leves de circulação desde a infância. Vasinhos que se tornaram varizes. Imaginem uma menina de 11 anos sofrendo bullying porque tem varizes. Foi bem chato, viu? Eu já tinha feito diversas vezes a parte estética, de "queimar" os vasinhos aparentes, desde a pré-adolescência. Na idade adulta a pílula piorou um pouco a situação. E eu cresci morrendo de vergonha das minhas pernas. Na minha primeira viagem à Espanha, quase 10 anos atrás, passei os 30 dias de calor de 40 graus usando calça jeans. Eu jamais usava saias, bermudas, vestidos. Nem tinha nada disso no meu guarda-roupa. Até que um dia me caiu a ficha de que as pessoas tinham muito mais o que fazer do que olhar para as minhas pernas. Então mandei tudo a merda e desencanei. Hoje tenho um montão de saias e vestidos, que eu acho que me vestem melhor do que as calças, aliás.

Mas recentemente descobri que o problema não era só estético. Minha circulação estava ficando comprometida. E isso, com a idade, só tende a piorar. Eu tinha que fazer mesmo a cirurgia ou corria o risco de, a médio prazo, ter problemas mais sérios. Não vou ser hipócrita: eu ainda me incomodava com a parte estética, mas muitíssimo menos do que na adolescência. E a parte estética só exige este procedimento clínico de injetar uma substância que "queima" os microvazos, quase indolor e sem risco. O convênio não cobria mas nem era muito caro, então aproveitei que ia estar anestesiada pra fazer tudo de uma vez.

E, bom, a anestesia. Eu tava morrendo de medo. Muito mesmo. Nunca tinha tomado, a não ser no dentista. Não precisei da geral, só a "raqui", aquela que te desliga da cintura pra baixo. Mas eu tinha muito medo mesmo. Nos últimos dias eu fiquei pensando que, fosse só pela parte estética, eu desistiria. Olha só, eu sou vaidosa e tal, mas passar batom e rímel é muito diferente de se internar num hospital voluntariamente. E, por favor, eu não estou julgando ninguém. Eu tenho amigas queridas, mulheres muito inteligentes e bem resolvidas, que fizeram cirurgias plásticas. Uma delas fez lipoaspiração, que é um troço invasivo pra caramba, muito mais do que as minha de varizes. Eu realmente acho que o discurso de que ninguém deve fazer é tão reacionário quanto o discurso de que todo mundo pode/deve fazer. A nossa relação com o próprio corpo deveria ser o mais pessoal e o menos mediada possível. Não cabe a mídia nem ao discurso feminista de esquerda me dizer como eu devo me relacionar com o meu corpo. Mas eu sei que boa parte das mulheres que se submetem a procedimentos caros e arriscados estão agindo sob muita influência externa ao tomar sua decisão - e não é o discurso feminista que as influencia, vale ressaltar.

Quando eu era mais nova, dizia que odiava minhas pernas. Além dos vazinhos, e também por conta da má circulação, eu tenho muita celulite. Sempre tive. E um dia eu me dei conta que são as minha pernas gordinhas, riscadinhas de vermelho, azul e roxo tal qual o mapa rodoviário federal e tortinhas como as do Garrincha (sem falar do joelho meio podre, claro) que me levam pra cima e pra baixo. Que eu já andei quilômetros por aí com elas, que elas já carregaram muito peso (meu e das minhas mochilas), e que na verdade é essa a função delas. Elas estão aqui pra me carregar, não pra servir de enfeite para os olhos alheios. Então, cabe a mim respeitá-las, poxa vida!

Mas pra que continuassem cumprindo sua função eficientemente, eu tive que operá-las. Ok. E foi tudo muito tranquilo, apesar de parecer meio surreal. Nem lembro da anestesia (eu já estava sedada quando aplicaram), voltei pra casa no mesmo dia, tudo numa boa. Por sorte, está fazendo frio em São Paulo, já que eu tenho que ficar deitada, com as pernas pra cima e usando meias kendall. O repouso está terminando, a dor está passando e só as meias piniquentas me acompanharão por mais umas 2 semanas. Nem é um pós operatório dos piores. Tirei 10 dias de férias do trabalho e estou pondo a leitura feminista em dia. Enquanto isso, tenho a sorte de ter um maridão dedicado cuidando de mim com todo o carinho do mundo. Maridão esse que conta só ter reparado que as coxas grossas eram "uma delícia" quando me viu de saias. Nem notou as varizes lá. E eu acredito, viu? O olhar do outro pode ser mais generoso do que o nosso.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Somos todas Elizas

Sumi, né? Meu computador tá uma droga. Fica desligando enquanto eu escrevo. Foi um custo fazer meu trabalho.

Mas eu sou quero dizer uma coisa: Eliza somos todas nós. A gente não pode nunca comprar essa história de que fez isso, aquilo, era maria-chuteira, o que seja. Que qualquer coisa que ela tenha feito possa justificar seu assassinato.

Quem aí briga pra viver sua sexualidade livremente apesar do machismo da sociedade? o/

Quem aí acha que filhos, planejados ou não, não foram feitos só por suas mães, e que portanto têm o direito de terem pai? o/

Viu?

"Dividir para conquistar", a gente tem que estar atenta e lembrar sempre que é disso que se trata. Que o Bruno deu entrevista tentando convencer de que a Eliza não era como as filhas dele. Que não era como a leitora de classe média conservadora. Que sua vida valia menos. Que eu e você não corremos esse risco porque não somos "maria-chuteiras", não fazemos sexo grupal nem filme pornô.

Mas é verdade é que corremos, viu? Eu, você, a Eliza, a Mércia, a Eloá, a Maristela. Porque a gente vive neste mundo, só por isso.

E teve gente no site d'O Globo condenando a intervenção do Lula no Irã, já que uma mulher pode ser apedrejada por ter sido condenada em última instância por crime de adultério. (quer fazer algo pra se manifestar contra? tem aqui o link da petição online). Então tá, a partir de hoje só vamos manter relações diplomáticas com países onde mulheres e homens são tratados como equivalentes na sociedade, beleza?



Oi? Não tem nenhum, né? Pois é, nem a Suécia...

terça-feira, 22 de junho de 2010

Introdução

Esse é mais um ensaio, pra organizar as idéias. Mas é que no post em que eu divide com vocês as minha dúvidas as contribuições foram tão boas, que nada mais justo (e útil, claro), que continuar dividindo.
Como eu tinha contado, eu só preciso apresentar um projeto de pesquisa agora, nada muito extenso, factível de ser feito até dia 3 de julho considerando o que já venho amadurecendo na cabeça. Acabei não contando no último post sobre leituras que um dos livros que estava na minha lista, e agora já está pelo menos começado, é o Desenvolvimento como Liberdade, do Amartya Sen, Nobel de Economia. E eu tô gostando muito porque ele basicamente defende que o foco do desenvolvimento deveria ser a expansão da liberdade. Segundo ele, não existiria país desenvolvido sem democracia plena, por exemplo. Então, o milagre econômico da época da ditadura passa a ser uma falácia. Da mesma maneira que não é possível pensar em desenvolvimento no patriarcado, já que metade da população é relegada à uma condição de segunda classe. Bom, meu pai leu o livro inteiro e, subversivo que só, acho o autor “muito comprmetido com o capitalismo”. Eu não li tudo, mas confesso que isso não me incomoda tanto. Sou muito pragmática e acredito que, se o mundo que temos é esse, é preciso que as pessoas vivam melhor nele. Se uma revolução derrubar toda a forma de opressão, fantástico, mas senão, o Bolsa Família e a Lei Maria da Penha são, sem dúvida, melhores do que nada.
Enfim, e eu pensei em trabalhar com transporte porque eu acho que pega no cerne dessa questão. Não adianta você ter dinheiro pra comprar carro do ano, se vai ficar preso no congestionamento e chegar em casa tarde demais pra usufruir da companhia do seus filhos. Na linha “tem coisas que o dinheiro não compra” mesmo.

Mas a Ingrid lá nos comentários me sugeriu tratar da questão das restrições à mobilidade. E eu adorei. Confesso que já tinha pensado a respeito, mas como o Manoel Carlos fez merchandising social para este tema e, vocês sabem, eu odeio o Manoel Carlos, fiquei com medo de parecer que olha, escolhi o tema da moda por conta da novela. É, eu sou bem bestinha às vezes.
O tema do trabalho, por enquanto, ficou sendo políticas públicas de inclusão de pessoas com restrição à mobilidade. Mandei um e-mail para o coordenador do curso, que achou interessante, mas não tem a menor idéia de que bibliografia me indicar. Então comecei, de novo, com o básico do básico, coleção Primeiros Passos, O que é deficiência?, da Débora Diniz.
Nossa, eu preciso dizer que eu tô muito empolgada. Primeiro porque é realmente um tema pouco estudado. O livro é de 2007, pra vocês terem uma idéia do quanto é pertinente. E lá no lattes descobri que Débora Diniz é estudiosa de questões de gênero. Como entusiasta deste tema, fiquei muito curiosa pra ver qual seria o ponto de intersecção.
No livro ela conta sobre a elaboração a teoria social da deficiência, que se contrapõe ao ponto de vista médico. E tudo faz um tremendo sentido, porque a teoria social diz que o deficiente tem uma lesão que pode limitá-lo, mas se não pode ser incluído não é culpa da lesão, mas da sociedade que é excludente. E que os teóricos desenvolveram essa teoria usando como base o feminismo, já que a mulher é discriminada por ter uma realidade física diferente do homem que, sozinha, não a desqualifica. Gente, eu tô sendo muuuuito simplista, tá? A coisa é muito mais complexa, claro, e o próprio livro diz que a pontos a serem refutados nessa teoria, até porque, para um tetraplégico, por exemplo, não há acessibilidade que supere todas as suas limitações, há a necessidade de uma pessoa ajudando em muitos momentos. Mas o cerne é questionar uma sociedade que isola as pessoas e trata suas dificuldades do ponto de vista do liberalismo individualista da “tragédia pessoal” - não por acaso a teoria social é orientada pelo materialismo histórico. E eu jamais olharia a questão sob esse prisma não fosse este trabalho. Então, pra mim, já valeu o curso.
Então, meu trabalho vai ser, basicamente, analizar o que é feito hoje no Brasil, mas mais especificamente de São Paulo, para incluir as pessoas do ponto de vista de suas limitações físicas. Não vou abordar uma deficiência em especial porque a teoria social diz que separar as coisas desse jeito é “dividir para conquistar”. Mas vou focar em um aspecto, o da mobilidade, tentando relacionar com outro, o do trabalho. Não sei se todo mundo sabe, mas São Paulo tem um orgão público chamado Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida, criada em 2005 pelo Serra. E, pelo o que eu pude ler, o trabalho deles tem sido muito bem feito: quando a secretaria foi criada, em 2005, só 300 ônibus de toda a frota paulistana eram acessíveis. A partir de 2009, todo ônibus novo comprado pela prefeitura de São Paulo é acessível. Uma vitória importante, sem dúvida (ó, eu nem gosto de Serra, Kassab e afins, mas trabalho bom a gente tem que reconhecer).
Mas, enfim, os idealizadores da teoria social eram, eu sua imensa maioria, deficientes. Muitos enfrentaram a descofiança da própria família em relação às suas reais capacidades. E, principalmente, reinvindicavam o direito à voz. A fala do deficiente, não sobre o deficiente. Substitua “deficiente” por “mulher” e “teoria social” por “feminismo” nas duas últimas frases neste começo de parágrafo e veja se não tem associação. Meu trabalho não é antropológico nem literário e não pretende abordar o discurso do deficiente propriamente, só talvez suas reivindicações políticas mais imediatas. Ainda assim, tem me feito pensar sobre a necessidade de buscar diferentes pontos de vista para se entender uma realidade, principalmente quando tratamos da alteridade, em conhecer o outro. E hoje, por coincidência, assisti aos vídeos que a Daniela colocou neste post, em que a escritora nigeriana Chimamanda Nzogi Adichie fala sobre os perigos de basearmos toda nossa visão de mundo em um único relato (recomendo fortemente, viu? a lucidez dela é encantadora). Porque, no fundo, a gente percebe que a filosofia por trás do machismo, do racismo, da homofobia é a mesma da insensibilidade às questões dos deficientes: a de que só há um modo de vida legítimo, e que todo o mais deve ser destruído, ignorado ou, no mínimo, privado de poder.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Sex and the City

Então, eu não vi o segundo filme e acho que não vou ver. Não no cinema, pelo menos. A não ser que alguma amiga sugira um programinha luluzinha em que a sessão de cinema esteja inclusa- e daí eu vou pela companhia. E nada contra. Mas só não consigo ser entusiasta. Eu tenho amigas superhiperultramegamaxi fãs, que têm todas as temporadas, conhecem episódios de cor, etc, etc. E eu mal sei das histórias, porque só assisti reprises – só fui ter TV a cabo em casa há 3 anos, e a série já tinha acabado.
Mas eu respeito. Muito. Porque se eu tenho uma certa gastura com o consumismo e os deslumbres por grifes – ok, eu tenho mais pares de sapato do que eu precisaria, mas não sou deslumbrada com isso – a gente tem que reconhecer que em termos de comportamento a série foi revolucionária. Uma coisa que sempre me chamou a atenção foi falarem abertamente de mulheres se masturbando. E é impressionante como ninguém falava. Aliás, quase ninguém fala ainda. Nem entre amigas. Recentemente, uma amiga se queixava do quanto era chato estar sem companhia masculina e eu falei que tem horas que a gente se cansa de se satisfazer só com os dedos. Visivelmente constrangida, ela disse que “não gostava disso”. Olha só, da minha geração, fala sobre homens numa boa, mas prazer solitário “não gosta”. E eu acho bizarro mesmo. Consegue imaginar um cara falando pro outro: “ô, nem gosto de punheta?”. Pois é.
Mas as moças lá gostam. E eu lembro da faxineira que a Miranda arranjou que trocou o vibrador dela por uma imagem religiosa. E penso que nunca antes de SATC a gente veria algo assim. E penso na Samantha e toda a sua voracidade, como ela destrói todas as previsões machistas de que a mulher “rodada” tá “condenada” (todas as aspas do mundo, né?) a ficar sozinha. Por ela termina a série ao lado de um homem gato, apaixonado e companheiro, disposto a ficar ao lado dela no momento mais difícil de sua vida, não importa com quantos homens ela tenha transado antes. Lembro da Charlotte que nunca tinha pegado um espelhinho pra olhar sua própria vagina e penso em quantas Charlottes encontramos por aí... Daí meu respeito, porque olha, não deveria ter nada de chocante nada disso, mas todo mundo fazia de conta que a nossa sexualidade só existia orbitando um homem, e para o prazer dele. Então, na ficção assim cotidiana, as mulheres nunca foram tão autônomas.
Daí lembro de ter visto em algum site feminista uma crítica ao primeiro filme. Mas o que eu mais gostei foi justamente o que muita gente achou machista pra caramba. Tipo, a Miranda é a minha personagem favorita. E, desculpe quem não viu o filme, lá ela tá há muitos meses sem transar com o marido. E daí ele a trai e eles se separam. E contando parece mesmo que o lance é que a gente tem obrigação de transar e tal. Mas eu não entendi assim. Porque sexo é carinho em muitos contextos, e a gente vê que não era sexo que Miranda recusava a Steve – era intimidade. E que ele sofre muito por isso. E ele conta a ela que a traiu arrasado, destruído. Não há um pingo de intenção de humilhá-la no ato dele, ele é quem se sente humilhado de ter que esmolar carinho fora da relação. E, por ser feminista, eu deveria acreditar que mulheres não tem reponsabilidade nenhuma pela felicidade dos seus parceiros só pra fazer oposição a quando se acreditava que tudo estava nas nossas mãos? Não, né? Então, bobona que sou, chorei horrores. Pra mim, o filme marcou por essa história: a tentativa de reconstruir uma relação abalada, de fazer o amor valer mais do que a mágoa. E a trilha desta trama é “How can you mend a broken heart”, só pra eu chorar mais ainda. E eu tava no comecinho do namoro com o marido, mas já fiquei pensando o quanto o perdão é matéria-prima essencial dos relacionamentos, especialmente aqueles que se pretendem longos.

Ok, a Carrie, o Big e tal. Isso dá preguiça mesmo. Aliás, desculpaê quem é fã, mas eu acho a Carrie uma chata, sempre achei. Mas quem disse que são os protagonistas que sempre contam as melhores histórias?

quarta-feira, 2 de junho de 2010

O caso Maristela Just

Outro dia, ouvindo uma mãe chamando a atenção de filha de 7 anos por se sentar de pernas abertas, me lembrei que desde cedo aprendemos como o mundo é machista. Mas Natália Just aprendeu isso talvez ainda mais cedo, e de maneira muito mais pesada. Quando ainda não tinha completado 5 anos, seu pai matou sua mãe. Ela, o irmão mais novo e um tio também foram seriamente feridos na mesma ocasião, mas sobreviveram. E só hoje, 21 anos depois, com a idade que sua mãe tinha quando foi assassinada, pode ver o assassino ser condenado. Em primeira instância ainda, e foragido da justiça.

O julgamento havia sido marcado para o dia 13 de maio, mas diante da ausência do acusado e de sua defesa, teve que ser adiado (ontem o julgamento ocorreu à revelia). E foi nessa época que fiquei sabendo da história pela internet. Fui fuçando na internet e descobri que Natália, que antes evitava se manifestar sobre o assunto publicamente, criou um blog, que hoje atualiza com a ajuda do irmão Zaldo. E lá achei o link para esse depoimento, que me tocou tanto.

Lembram quando eu escrevi aqui sobre justiça? Sobre processo civilizatório ser completamente oposto a linchamento? No depoimento somos apresentados a uma mulher muito forte, centrada e muito humana. Que não perdoa o assassino, mas não busca vingança. Entendemos que deve ter sido uma dor imensurável ter sido privada da mãe, saber que o pai foi o responsável, ter que crescer com isso. E que teve um processo aí, de tomar força de amadurecer, pra conseguir dar conta de se expressar. Como não sentir um profundo respeito por sua história?

Triste é saber que não é exceção. Que há muitos homens atentando contra suas companheiras por aí. Nos jornais aparecem todos os dias. E acho que não é nada difícil conhecer algum caso assim pessoalmente, nem que seja do amigo de um amigo. E rola sempre uma relativização, uma tentiva de atribuir a vítima nem que seja uma parte de sua culpa. Lembram-se do Pimenta Neves, o jornalista que matou a namorada? Na época li em alguns lugares que a vítima, muitos anos mais nova, tinha recebido inúmeras promoções em curto espaço de tempo por se relacionar com um chefão da imprensa e, estando confortavelmente instalada num cargo bom, resolver dar um pé na bunda do cara. No que eu pergunto: o que interessa? Ok, acho que não ia gostar de tê-la como colega de trabalho. Daí a justificar seu assassinato, vai uma enormidade.

Mas sim, as pessoas tentam justificar assassinatos – principalmente quando as vítimas são mulheres. O pai do assassino de Maristela, um advogado criminalista diga-se de passagem, alegou que seu filho agiu em legítima defesa da honra, com se espera de um homem com brio. Pois é. Lembram a história de que homem tem honra, mulher tem vergonha? É isso. Se a gente não tem vergonha, o homem “proprietário” (pode ser pai, marido, ex-marido, ou qualquer um que se julgue no direito) tem que lavar sua honra com sangue. A bárbarie minha gente, sempre ela.

Por isso gostei tanto do depoimento da Natália. Ela não defende a bárbarie. Ela quer a civilização, colocar a cabeça no travesseiro e saber que não vive num mundo em que assassinos transitam por aí impunemente, protegendo-se por trás de um sistema machista. Nisso com certeza estamos juntas.

domingo, 9 de maio de 2010

Sem querer ser piegas... mas talvez sendo

Daí que marido vai ganhar mais um sobrinho ou sobrinha (e eu também por tabela). E rola aquela pergunta de quando daremos nossa contribuição para aumentar a família, ao que respondemos que, por enquanto, não daremos, sorry.

Antes de conhecer meu moço, eu não pensava em ser mãe. Hoje esse não é um assunto decidido, mas posso dizer que boas possibilidades de acontecer no futuro, embora não me pareça essencial para justificar minha passagem pela terra.

Acho que minha relutância vem – além, claro, do feminismo que me faz acreditar que maternidade é escolha e não destino inevitável - da minha relação com minha mãe, nem sempre fácil. Reconheço nela uma generosidade do tamanho do mundo. Porque eu não sou o que ela sonhou pra mim. Minha mãe veio de uma família pobre, sem instrução e muito machista. Para nossa sorte, encontrou meu pai. Ela tinha parado de estudar quando era novinha, porque sua saúde não dava conta de trabalhar de dia e estudar a noite. Quando se casou com meu pai e foi demitida de seu emprego como operária, ele a incentivou a continuar seus estudos. Minha mãe só não fez faculdade porque não se animou: apoio do meu pai nunca faltou. E eu presenciei na infância e na adolescência uma disputa ferrenha entre as idéias arejadas do meu pai e o machismo da minha avó materna, que vivia conosco. Ele achava que minha mãe deveria estudar, ela achava que isso poderia atrapalhar o “andamento da casa”; ele insistiu pra que minha mãe dirigisse, ela tinha tremenda dificuldade em confiar na minha mãe ao volante; ele sempre se ocupou de tarefas domésticas, ela achava que minha mãe deveria se envergonhar por permitir que o marido lavasse um prato; ele só achava que estava sendo um cara razoável, minha avó achava que ele era um semi-deus por ser “bom” com a filha dela. Minha avó já faleceu e eu não quero jogar na conta dela o machismo, de jeito nenhum. Ela também foi educada assim.

Mas meu pai é diferente e os tempos são outros. E pra minha mãe era muito difícil perceber que meu pai não me reprimiria, como normalmente se espera dos pais. Apesar de ter sido adolescente nos anos 70, minha mãe não viveu a revolução sexual. Isso era coisa de moças de classe média e nível universitário. Moças pobres e vindas “da roça” tinham que se casar virgens. Assim foi com a minha ela. E assim ela esperava que tivesse sido comigo, apesar de saber que o mundo tinha mudado muito e minhas perspectivas eram outras. Eu soube por uma tia que minha mãe chorou quando se deu conta de que eu não era virgem mais. Não fui eu que contei, não presenciei a cena, mas conhecendo minha mãe, faz sentido.

Pra resumir, ela teve que aceitar tudo. Que eu não me casaria virgem, que eu não me casaria na igreja, que eu não ficaria em casa até me casar e pior: que eu sequer estaria muito interessada em casamento. Que tinha vontade de ir viver fora do país (e fui!). Que quando eu dizia que ia dormir na casa de uma amiga, talvez eu estivesse passando a noite com um cara que não era importante a ponto de ser apresentado (ela nunca foi boba, sabia bem quando eu estava mentindo). Ela sofreu muito. Sofreu muitíssimo. E eu não alivei nada pra ela me sentindo culpada. Nunca me culpei por ser livre. E ela aprendeu a aceitar.

Ela sofre até hoje. Eu não sou casada, né? Sou de fato, mas não de direito. Daí, quando eu juntei os trapos, ela dizia pras pessoas, principalmente a família machista que “a Iara está casada”. Tipo, repetia, como um mantra. Cada vez que ia lá, contava: "fulano perguntou e eu disse que você está casada". Pra dizer que eu não estava “morando com o namorado”. Nem “amigada”, nem “amaziada”. Eu sou é casada, só não tenho papel. E pra ela é importante. E não me cobra nada, aceitou meu marido, acredito que também muito diferente do genro com o qual sonhava, com um amor imenso. Ele me ama e me faz feliz, pra ela é o suficiente.

Enfim. Eu sei que não é de graça pra ela. Por mais que se diga que “filho a gente tem é pro mundo”, não deve ser nada fácil ver aquele ser nascido de você se tornar alguém muito diferente dos seus sonhos. Amar assim tão desprendidamente, sem fazer cobranças, sem chantagens emocionais, sem reclamar que eu vou mais a casa da sogra do que a dela. Ela transborda generosidade aceitando que eu escolhi meu caminho e continua me amando e repetindo que sente um enorme orgulho de mim. E eu só quero ser mãe se me sentir capaz disso.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Várias coisas sobre gênero – ou pensamentos muitos e confusos

Às vezes eu fico pensando se vale a pena fazer um post meio maluco só com associações que passam pela minha cabeça, sem trazer nada novo, não colocar nenhum questão nova, nem chegar a uma conclusão, só com referências externas e links, meio colagem mesmo. Mas, enfim, os macaquinhos tão aqui sapateando, né?

Tô pensando no livro da Beatriz Preciado, que eu ganhei e não li ainda, e na Judith Butler, que eu também não li, e a maneira como (sei de ouvir falar e ler outras coisas por aí), problematizam gênero. E, puxa, muito legal. E um nó. Eu gosto bastante. Porque se você me encontrar na rua vai ter certeza que, por mais que conteste muita coisa, por mais que não corresponda a todos os modelos de vaidade e feminilidade postos, eu sou uma mulher. Mas lembro de já ter sofrido muito por não me encaixar. Nada a ver com transexualidade, nem com homossexualismo sequer. O problema é o modelo cor-de-rosa-Barbie. A passividade. Enfim, muitas coisas. Mas pegava muito no visual mesmo. A coisa da delicadeza, porque eu não sou delicada pra nada nessa vida. Sou carinhosa e tal, mas não delicada. E é por isso que eu pirei lá na Espanha. Lógico que o Almodóvar já tinha me dado uma pista. Mas a coisa foi mais prosaica até: quando eu vi nas lojas as roupas de Flamenco para a “feria” de Málaga. Aqueles babados, aqueles brincos enormes, aquelas cores fortes. É isso, eu sou over. Eu sou pombagira. Depois de ler “Bodas de Sangre”, a noiva se justificando, dizendo que o noivo era um riozinho que não dava conta de apagar seu incêndio, eu pensei: é isso! Eu sou essa mulher.

Mas divago (e este post não é mera divagação?). Eu lembrei disso, dessa questão do problema do gênero, de definição, da dificudade, por algumas razões.

Li outro dia isso. A pessoa que conseguiu um documento escrito “sexo indefinido”. Péssimo estar na página de bizarrices do Globo porque o assunto é muito interessante. Mas me chamou a atenção esse lance de que não era possível determinar características físicas, psicológicas ou comportamentais de um dos gêneros. Físicas, ok. Mas fico pensando em como determinar caraterísticas “psicológicas ou comportamentais” de um gênero. Dá pra fazer isso sem usar lugares comuns? Quer dizer, eu aceito quando minha amiga psicóloga me diz que “não é porque algo é socialmente construído que é necessariamente ruim”. E imagino que é um conjunto de fatores que deveria determinar essa performance de gênero, mas não tiverema sucesso aí. Enfim, curioso, né?

Outra coisa: o post da Lu que fala do Irã. Quer dizer, transexual, pode. Homossexual, não. Porque tem que definir, ficar dentro do limite. Extremamente violento, claro, e me faz lembrar do argumento mais frequente entre religiosos, mesmo os locais, quando condenam o homossualismo: Deus criou o homem e a mulher, um para o outro. Sistema binário mesmo, nenhum questionamento possível.

Por fim (como se houvesse um fim), a matéria da Piuaí sobre o médico especialista em cirurgias de mudanças de sexo. Recomendo a leitura da matéria inteira. Como a coisa é complexa. Em algum momento, a especialista em direito civil consultada fala de como os transexuais são conservadores. Quer querem corresponder a um modelo de mulher bem tradicional. Mas é o ponto de vista dela, porque aparece lá os casos de homens que queriam ser mulheres lésbicas. Quer dizer, se relacionar-se sexualmente com uma mulher e ter um pênis fosse o suficiente para definir um homem, usando um ponto de vista conservador, essas pessoas não teriam conflitos.

Por fim, o que define o que é mulher, né? Se você responder que é a vagina, vai desconsiderar os transexuais, e o Buck Angel vai rir na sua cara. Se você considerar que é um conjunto de comportamentos tais e tais, pode soar bem sexista. Mas lembro de ler num blog uma vez que se a única coisa que nós, mulheres, tivermos em comum for a opressão, pára o mundo que eu quero descer. Acho que a coisa é fascinante porque é muito mais complexa do que parece. E o médico diz lá na reportagem que só dá pra dizer quem tem falo e quem não tem, mas eu não aceito ser definida por uma ausência – a que não tem falo. Só posso concordar com a Judith Butler quando diz que gênero é performance. A gente deveria poder ser o que é sem que isso implicasse em determinismo e discriminação.

domingo, 11 de abril de 2010

Mas mulher apanhando dá audiência, né?

Eu falei da misoginia do Manoel Carlos porque talvez seja a que me salta mais aos olhos, num primeiro momento. Primeiro, porque nos seus enredos nunca há um vilão (ou vilã) terrível que faz mil estripulias, mata, foge da polícia e tal. Os dramas são mais prosaicos: traições, acidentes, doenças. E por isso as mulheres que apanham, ao meu ver, só se comportaram mal do ponto de vista do autor, sem sequer serem dignas do título de vilãs odiosas. Além disso, há outras coisas machistas igualmente irritantes sempre presentes em suas tramas, como a biscate que engravida do mocinho justo quando ele ia se entender com a mocinha (lógico que o coitado é vítima na história) e a virgindade das mocinhas pobres como uma commodity a ser preservada para aumentar seu valor no mercado dos casamentos – o que mais uma moça pobre pode oferecer a um mocinho rico se não for bonita e “honesta”?

Mas como a Luna lembrou nos comentários abaixo, em “A Favorita”(2008) houve um caso de uma mulher que apanhou em público do marido quando este descobriu que estava sendo traído. E eu já tava mesmo com vontade de tratar disso: sempre há uma mulher apanhando. Mudam os autores, os enredos, as motivações, mas a surra é certa. De novo, vou tentar ficar só com exemplos recentes, dos autores das novelas das 9. Olhem só:

Sílvio de Abreu

O autor foi duramente criticado em 1995 por organizações de defesa da mulher porque e vilã Isabela Ferreto, ao ser pega em flagrante de adultério pelo seu marido (que antes era seu amante e o ex-noivo os pegou no flagra no dia do casamento) é esfaqueada no rosto. E a gente sabe o significado que tem essa coisa da cicatriz, né? Do marcar o rosto, “destruir” a beleza, já que ela está ligada a sexualidade. Depois dessa prensa, supõe-se que deveria se conscientizar e pegar mais leve. Como eu contei, eu não vi “Belíssima” (2005/2006), mas parece que a mãe traída deu uns tapas na filha pouco confiável que se meteu na cama com seu marido.

Gilberto Braga

Em “Celebridade” (2004), Maria Clara Diniz, a mocinha, deu o troco na vilã Laura, que tinha acabado com sua carreira e reputação, dando-lhe uma surra. Em Paraíso Tropical (2007) Eloísa, companheira do ourives que era explorado por Taís, também desconta sua raiva com uma surra.

Glória Perez

Em “América” (2005), a dissimulada Creusa, apanhou da sogra quando esta decobriu que ela não era exatamente uma esposa fiel. Em “Caminho das Índias” (2009) Yvone apanha de Melissa quando a perua descobre que a vilã está seduzindo seu marido.

Aguinaldo Siva

Como eu também contei antes, é o que eu menos acompanho, porque acho chatíssimas suas pretensões épicas reacionárias. Mas sei que em “Senhora do Destino” (2004/2005) a vilã Nazaré Tedesco apanhou da heroína Maria do Carmo. “Duas Caras” (2007/2008) eu não vi mesmo. Mas olhem como é fácil descobrir: entrei no Wikipedia, joguei o nome da novela lá, vi a relação de personagens. Daí lembrei que a personagem da Aline Moraes é que era a vilã. Joguei lá “Sílvia apanha em Duas Caras” no google. Batata! Apanhou da mocinha.

Nessas novelas, homens apanhando não são vendidos como espetáculo, por pior que tenham se portado. Pode ter lá uma briga e uns sopapos, mas não há essa conotação moral. A surra na vilã é atração da semana, às vezes um dos pontos altos da trama. Dá capa em revista semanal e pico de audiência. Os pecados dessas mulheres variam muito: umas foram adúlteras, outras só foram sensuais; umas são estelionatárias, outras assassinas. Então não interessa se é um crime que pode ser apurado e punido por lei, se é uma fraqueza de caráter ou um simples desvio de conduta de acordo com a moral estabelecida. A pena prevista é uma só: surra.

Como eu disse no post anterior, eu realmente acredito que as novelas são referência para sua audiência. E este público fica lá, torcendo para o momento em que a vilã será punida. É catártico isso. Então, uma emissora de televisão, que deveria estar minimamente comprometida com a qualidade da sua programação porque é uma concessão pública, dissemina a idéia de que há situações em que é aceitável que mulheres apanhem. Pior: há situações em que agredi-las é esperado e desejável.

Não adianta fazer marketing social e passar Globo Repórter sobre a Lei Maria da Penha. Para violência contra mulheres diminuir, é preciso parar de celebrar a surra a como maneira de solucionar conflitos em que estejam envolvidas.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Manoel Carlos, o misógino

Este é um assunto que estava entalado. Assim, de muito tempo. Que talvez nem pareça importante, porque afinal, é só novela. Mas as pessoas assistem novelas, desde pequenas. No Brasil, elas são referência de moda e de comportamento. E acho que moldam mais opiniões que o Jornal Nacional. Pior, a gente ainda as exporta, e elas fazem sucesso lá fora.

Então eu não assisto novela quase nunca porque não tenho muito saco de ficar uma hora ali parada. Mas desde que a Globo começou a colocar na internet os resumos de capítulos, eu passei a acompanhar os da novela das 9. Não de todas, mas da maioria. E tem gente que nem se liga, mas eu conheço os autores, o estilo e tal. E sei que adoro o Silvio de Abreu (perdi “Belíssima” porque passou quando eu estava na França), amo de paixão o cinismo do Gilberto Braga e seus vilões super charmosos e canalhas (a última novela que eu acompanhei mesmo na televisão foi “Celebridade”), acho que a Glória Perez completamente surreal (mas gostava da história de “Caminho das Índias”) e não tenho estômago pro reacionário de carteirinha que é o Aguinaldo Silva.

Mas o Manoel Carlos é especial. Porque eu tenho aversão mesmo. E a Globo o vende como o sujeito que ama as mulheres, com suas Helenas sempre chatíssimas como modelo de força e tal. Mas na verdade ele odeia mulheres. Ou só ama as que se comportam direitinho. Em todas as novelas do Manoel Carlos há uma mulher apanhando por conta de sua conduta sexual. T-O-D-A-S. E não é levar um tapa na cara da rival que a pegou com o marido. É surra pesada, e normalmente com o pretexto de educá-la. Quer dizer, não é briga, é "corretivo". Houve uma delas, a “Mulheres Apaixonadas” que tratou da violência doméstica. A personagem era uma professora paulistana que tinha fugido para o Rio por conta de um ex-marido violento, e o cara a encontrava e espancava ela mais um pouco. Mas aí o merchandising social, tava claro: marido não pode bater na mulher. O marido não, mas o resto...

Pra não ficar mais longo, vou pegar só 3 casos, das mais recentes, com direito a links para os vídeos para ilustrar.

Mulheres Apaixonadas, 2003

Dóris é adulta, porque já não está na escola. Pelas minhas contas, deve ter aí 19 ou 20 anos. E é mimada e prepotente. Destrata os avós. Quer que os pais os internem num asilo pra não ter que dividir o quarto com o irmão. Enfim, gente boa ela não é. Só que no último capítulo, o pai vai buscá-la num hotel em que está com um cara, pagando de rica, e dá uma surra nela e a expõe para os hóspedes na recepção. Veja bem, o pai passa a novela inteira sem se manifestar quando a víbora está destratando velhinhos, e resolve puni-la quando ela está dando. Minha revolta foi enorme quando assisti. Se eu vejo alguém fazendo algo parecido, chamo a polícia. Mas pelos comentários no youtube, vocês entendem o perigo da coisa: todo mundo ali parece que achou bonito.

Páginas da Vida, 2006

Sandra vive na casa dos patrões dos pais como “agregada”. Manja o lance do favor, dos pobres que orbitavam os ricos no século XIX? Igualzinho. Daí ela acha que tem direito à mesma boa vida. Ô, audácia. Não enxerga o seu lugar. E ela iniciou o filho do patrão sexualmente, e parece que se apaixonou por ele ou viu nele seu caminho para a ascensão social - talvez as duas coisas. Ah! Como o autor é coerente em criar suas vilãs, ficamos sabendo que essa já fez um aborto de um filho do patrão. Coisa horrorosa. Ele só não explica porque cargas d'água uma arrivista não teria esse filho que lhe daria acesso a tudo que sempre sonhou, mas tudo bem. Rejeitada, porque não é mulher pra casar, passa a “causar” nos jantares cada vez que o mocinho leva uma moça de família pra ser apresentada à casa grande. Enfim, um dia uma das patroinhas se irrita e coloca ela no tronco. E pra completar a cereja no bolo, no final da novela, o patrãozinho se casa com a irmã da “piriguete”, que virgem e santa, se manteve na senzala e de pernas fechadas até subir ao altar. Lindo, né?

Viver a vida, 2010

A menina mimada Isabel, feita de puro sarcasmo e atrevimento, já levou um esculacho da mãe, saindo do banho, porque negligenciou um vídeo enviado do exterior pela irmã mais bonita e modelo por puro despeito. No mundo em que eu vivo, bastaria cortar o cartão de crédito pra patricinha se alinhar. Mas não, tem que apanhar. E nua. É fetiche ou não é, minha gente?

Mas eu falei de conduta sexual, e este não foi o caso da Isabel (pelo menos ainda). Além da sexualidade, outro fator a ser punido nas mulheres é sua ambição. Querer ascender à elite do Leblon quando são no máximo, de classe média. E daí vem a novidade, o motivador deste post. Ou tava achando que era só prato requentado?

Capítulo de hoje: Soraia é a filha do caseiro. Bonitinha, novinha, gostosinha. Tá “afins” de descolar um trouxa pra pagar suas contas. Daí ela vai a um coquetel cheio de grã-finos, enche a cara de vodca, faz beicinho, trança as pernas, e sai falando bobagem. Nada demais, né? Vexamezinho básico. Mas o Manoel Carlos acha que ela merece uma surra. Ele até pinta o pai da moça como um ogro intolerante, pra tentar tirar a culpa das suas costas, mas não me convence, não. Personagem não tem vontade, "seu" autor. Eu sei que quem curte ver mulher apanhando é você.

Maneco, querido: galerinha da Uniban manda aquele abraço!

Update: A novela com merchandising contra violência doméstica era "Mulheres Apaixonadas" e não "Páginas da Vida". A Anna me corrigiu nos comentários (obrigada, Anna!), e eu acabei de corrigir no texto. Sabem como é: Leblon, Helena, José Mayer "pegando" geral, mulher apanhando. Mesmo quem é fã do gênero como eu se confunde. :)

segunda-feira, 5 de abril de 2010

A orgulhosa individualista que se casou

E aí que eu tenho essa enorme dificuldade de entender que o feminismo não é individualista e que brigar pela autonomia da mulher não significa, de maneira nenhuma, dizer que ela tem que “se bastar” em tudo. Que não pode aceitar ajuda e etc. A intransigentemente orgulhosa sou eu, não a agenda feminista. Isso tem de estar claro.

Daí que quando o marido me conheceu eu dividia uma apartamento com outras 3 meninas que eu conheci pela internet. Montamos uma república meio no susto, e a coisa até que funcionou muito bem por um tempo. Eu achava bacana, sabe? O meu lado ecológico sabe que é insustentável para o planeta todo mundo ter uma geladeira tanto quanto é insustentável todo mundo usar carro todo dia (eu vou trabalhar de trem). Um ano e tanto depois, relacionamento estável entre eu e mocinho, resolvemos dividir o teto.

E, puxa, o meu lado orgulhoso tem sofrido pra entender isso. Porque eu não tinha dinheiro para pagar o aluguel do apartamento na república sozinha, mas se alguém saísse, era só fazer uma seleção e colocar outra pessoa no lugar (sim, passamos por isso, e interessadas não faltavam). Mas aqui eu não dou conta do aluguel sozinha e às vezes me incomodo. Com o agravante de que o marido daria conta do aluguel sozinho, se fosse o caso. Ele nem ganha assim taaaanto mais do que eu. Mas é a diferença entre fechar a conta e não fechar.

E lógico que ele não me cobra isso, tão loucas? Nem faria sentido. E, racionalmente, eu sei que ele não me sustenta. Que a gente tá nessa juntos. Que se uma hora der errado, eu não pago o aluguel desse, mas pago o de outro, ué? Mas tem o demônio do orgulho. Semanas atrás, numa crise, cheguei a cogitar procurar um lugar mais barato só pra me sentir mais em paz, mas racionalmente falando, seria ridículo. Teríamos que mudar de bairro, de repente ir pra mais longe, ter menos conforto. Mais fácil eu deixar de ser cabeça dura e entender que, poxa, casamento também é isso.

Daí tem outra coisa engraçada. Por sugestão do marido (ele adora créditos, então estou dando), abrimos uma conta conjunta, que funciona assim: cada um deposita lá parte do salário, pra nossas despesas de casal, e mantém separado o seu dinheiro de “caixa 2”. Então a gente não fica fazendo contas: são os dois que pagam por tudo. Mas, puxa, até isso me incomoda. Primeiro que, centralista que sou, tenho a maior dificuldade de compartilhar organização com alguém. E maridinho é organizadíssimo pra tudo nessa vida, menos pra dinheiro. E eu sou o inverso. Na república, eu é quem pagava todas as contas, e depois cobrava das meninas. Mas aqui resolvi relaxar um pouco. Entro em casa hoje e encontro aviso de cobrança da Net. Valor em aberto. Ligo pro marido: “mas não tá no débito automático?”. Não tá, marido. Tá escrito lá: pagamento com boleto. E ele já esqueceu outra vez, e já recebemos outra cartinha (mas foi só uma, nas outras ele pagou na data). Pra piorar, a conta é conjunta, mas só mandam um cartão de senhas pra operações pela internet. E eu quero resolver logo isso, mas o cartão está com quem? Com o marido. E ele está onde? Na faculdade. Isso, respira, control freak. Vai surtar por tão pouco?

Agora, humilhação mór, é que na conta conjunta ele é o “titular 1”, e eu o “titular 2”. Felizmente não usam o termo “dependente”. Mas um dia precisei checar informações por telefone e me pediram o CPF e o RG dele. E eu argumentava que eu era titular também, caráleo. Não. Uns são mais titulares que outros. Ah, e o cartão de crédito é dele, o meu é “adicional”. E a primeira vez que fui lá transferir dinheiro pra nossa conta, acessei a função “para contas do mesmo CPF”. Não funciona. O CPF titular da conta é o dele.

Moral da história: eu sou cabeça duríssima. Apesar de racionalmente entender que eu não sou dependente de ninguém, que somos duas pessoas que colaboram uma com a outra para a felicidade mútua, o subconsciente orgulhoso ainda tem muitas dificuldades de assimilar. Mas, ó, falando sério: o sistema bancário também não colabora.

domingo, 28 de março de 2010

Admirável mundo novo e sua face sórdida

Eu sou uma pessoa que não pode fazer nada de errado nessa vida. Nada. Eu nem sou suuuuper popular, mas vivo reencontrando pessoas em contextos diferentes. Conhecendo gente que conhece gente que eu conheço e tal. Ok, eu sei, acontece com todo mundo. Mas comigo é demais, juro. E não é o mundo que é pequeno, né? É a renda que é muito mal distribuída e as pessoas de classe média e média-alta, universitárias, que trabalham ou trabalharam algum dia em multinacionais são poucas, no fim das contas (um dos motivos, aliás, pelos quais nem minha foto nem meu sobrenome aparecem aqui). São Paulo é a maior cidade do interior do Brasil.
Daí que eu tô fazendo uma pós de conteúdo nada corporativo (não é um MBA nem nada), mas ainda assim uma das minhas colegas trabalhou numa multinacional em que eu trabalhei, mas antes dela. Tipo, em fiquei de 2001 a 2003, ela entrou em 2003 e saiu em 2005, parece. E é toda uma história essa empresa. Ela tem uma cultura de arrogância tão forte, que eu sai de lá traumatizada. Achava que nunca mais na vida ia trabalhar em algo parecido. Porque as pessoas tinham certeza de que eram as melhores do mundo e todo o resto era merda. O percurso d@s executiv@s lá era o seguinte: entrava-se como estagiári@ trabalhando meio período e ganhando uma graninha que não era excelente, mas não era ruim, mais um pacote interessante de benefícios. Daí a pessoa desenvolvia um projeto nesses seis meses. E, se fosse aprovad@ era efetivad@ como supervisor e ganhando algo que hoje deve equivaler, no mínimo, uns 5 mil reais.
Nem tô aqui pra discutir a capacidade gerencial dessa galera. No geral tinham estudado nas melhores escolas, tinham muita capacidade mesmo e trabalhavam duro. Mas o fato é que tinha gente lá que, como nunca tinha comido merda (leia-se trabalhar feito burro de carga pra ganhar salário medíocre), tinha certeza absoluta de que era o máximo. Darwinismo social mesmo. Li “Admirável Mundo Novo” muito depois disso, mas é inevitável associá-los aos alphas. Gente como eu, que fazia um serviço mais secundário (eu era assistente de equipe, uma secretária de toda a galera), seria no máximo, sei lá, alpha menos ou beta mais.
Entre os bons benefícios que essa empresa oferecia, estava a possibilidade de uma licença maternidade extendida. A mulher poderia voltar ao trabalho por meio período, ganhando metade do salário, mas mantendo os outros benefícios integralmente, até o bebê completar 1 ano. Além disso, vi uma mulher ser promovida à diretoria durante sua licença maternidade. E diretora de logística, uma área considerada “masculina”. Então, várias colegas grávidas, porque nunca vi ninguém lá ser demitida por isso. Vários casais felizes entre os empregados, porque não rolava aquela baixaria de, descoberto que fulana e sicrano namoram, fulana é demitida. E aí você pensa que é o paraíso da igualdade de gênero, uma ilha de paz para as cidadãs alphas que passaram no processo de seleção. Parece, né?

Mas, conversando com a colega de pós, quis confirmar com ela os detalhes de uma história sórdida que aconteceu depois que eu saí de lá e fiquei sabendo por terceiros – foi parar na comunidade da empresa no Orkut. De virar o estômago.

Um grupinho de colegas alpha passava seu tempo entre trabalhar muito, ir à academia, e de lá pra balada. Recebiam promoção atrás de promoção porque eram talentosos mesmo, e se sentiam mais arrogantes e mais superiores à humanidade a cada dia. E parece que eles apostavam entre si quem ia “pegar” cada estagiária nova. Um desses caras, que saía com uma dessas estagiárias, um dia cheirou até não mais poder e deu uma surra na menina. Coisa muito feia mesmo, ela foi parar no hospital. O pai dela era um diretor de empresa bam-bam-bam também (por sinal, de um lugar onde meu marido trabalhou, olha o mundo pequeno de novo). Ele telefonou pro RH da nossa ex-empregadora, contou o que tinha acontecido, disse que estava abrindo um processo, e exigiu uma posição oficial.
Sabem o que aconteceu? O agressor recebeu, do dia para noite, uma promoção pra ocupar um cargo no exterior. Legal, né? Tiraram o cara do Brasil pra ele não responder processo. Não foram indiferentes: tomaram claramente o partido do agressor. Segundo minha colega, quando a vítima voltou (acho que ela não ficou trabalhando lá, mas tinha que aparecer nem que fosse pra acertar sua saída), colocaram ela sozinha numa sala e a intimidaram. Disseram que ela não tinha o direito de atrapalhar a carreira dele, senão a carreira dela é que acabaria. Sem testemunhas na sala. Ela foi pega de surpresa e não teve como tentar gravar. E esse detalhe eu soube ontem, porque minha atual colega era muito amiga dessa moça. E minha colaga terminou contando que, pouco tempo depois dessa história, pediu demissão, porque não teve estômago pra continuar. O agressor é um dos próximos na linha de sucessão pra diretoria. Antes do ocorrido, que eu me lembre, era um dos queridinhos da tal diretora que foi promovida durante a licença maternidade. Não me surpreenderia se soubesse que continou sendo, até porque, se ainda era ela a diretoria, não consiguiriam realocá-lo sem sua aprovação.
Ficou longo o post. Mas, puxa, eu tinha que contar. Eu já era feminista antes deste episódio, mas ele sem dúvida me indignou mais. Formou caráter mesmo, e relendo o que eu mesma escrevi, percebo que me revolta muito ainda. E tem gente que realmente acredita em ilha da fantasia, que mulheres “bem educadas”, que estudaram nas "melhores faculdades" e ricas, vivem nesse mundo a parte, conhecem igualdade gênero, não sofrem com o machismo e tal. Lógico, nem todo lugar é tão baixo. Mas a baixaria tá aí, disseminada. Entre os alphas, inclusive.

quarta-feira, 24 de março de 2010

A História da diferença. Sempre ela.

Marido mandou este link. Sobre a história de que homens e mulheres são diferentes, e tendo a possibilidade de escolher, mulheres, em geral, preferem ter mais tempo livre (principalmente se tiverem filhos) e homens preferem ter mais dinheiro. E puxa, é difícil comentar uma pesquisa que a gente não conhece, baseada só num recorte. Porque se a pesquisa em si já é um recorte da realidade, feito a partir de um ponto de vista xyz, a matéria sempre vai ser o recorte do recorte. Mas incomoda como as coisas podem ser interpretadas de um jeito tão enviesado, só pra reforçar certos preconceitos.

Eu acho que, no geral, todo mundo gostaria de trabalhar menos. Mas do que isso, todo mundo deveria trabalhar menos. No meu mundo ideal, as crianças ficariam mais tempo na escola, os pais menos tempo no trabalho, e a conta fechava. E, lógico, quem não tivesse filhos preencheria aí sua vida com outras coisas bacanas. Mas segundo a matéria, a pesquisa chegou a conclusão de que os homens não querem isso. Eles querem trabalhar muito mesmo pra ter mais grana. E as mulheres, mesmo que não tenham crianças, acham que há outras coisas importantes em suas vidas além do trabalho. Por isso os salários mais baixos, porque o trabalho não é importante para nós como é para eles.

Se você é homem aprendeu, desde pequenininho, que o cara bem sucedido é o que tem grana. Mesmo que sua família tenha te dado uma educação mais humanista, a sociedade vai repetir essa mensagem. (Quase) ninguém acha que sucesso é ter tempo para os filhos. Ou até acha, mas só se a a Mercedes estiver garantida na garagem. Tempo virou um luxo – e luxo é só pra quem pode. Então, qual o espanto se, ao ser peguntado se prefere trabalhar menos, o cara disser que honestamente e “do fundo do coração”, quer continuar ralando mais horas lá, pra ganhar mais grana? Pode ser que nem seja fruto de uma ambição desmedida. Ele muitas vezes acredita que ganhar mais grana é o melhor que ele pode fazer para sua família.

Pra mulher a coisa funciona de uma maneira diferente. Sim, bacana que você tenha um trabalho. Aliás, sensacional, você fica independente e pode comprar quantos sapatos quiser sem pedir dinheiro pro marido. Puxa, o máximo. Mas, ó, as crianças são tão mais felizes com a mãe por perto. Você quer ser uma mulher completa, não quer? Tipo, dar conta de tudo, né? Afinal, você é homenageada no dia 8 de março por isso, porque você dá conta. Então, continuar trabalhando, mas ter uma jornada menor (no escritório, que fique bem claro) e ter mais tempo para os filhos é realmente o ideal.

Ah, sobre o comentário lá do cara de Harvard. Pode ser sim que boa parte das mulheres não goste tanto de exatas. Mas entre gostar e não ser lá muito apto, vai uma enorme diferença. Olha só, eu também sou da turma das Humanas. Até hoje não entendo Física direito (embora meu raciocínio lógico matemático seja bem competente). E isso prova o quê? Só que aquilo não era essencial pra mim. Se fosse, eu dava conta, pode ter certeza. Como muita gente por aí dá conta das coisas mais improváveis. Então, o fato das mulheres terem se estabelecido primordialmente em profissões em que são bem aceitas, e mais, o fato de se sentirem à vontade assim, não significa em absoluto que é “natural” do ponto de vista biológico e não exista um condicionamento social. E a princípio tudo bem agir de acordo com o este condicionamento, contanto que: a) a gente não remunere mal uma categoria por ser formada essencialmente de mulheres e b) que a gente não olhe com desconfiança uma mulher que queira fazer algo completamente fora desse espectro. O problema nem é o condicionamento em si, mas a consequente discriminação, tanto pra quem o segue, quanto pra quem escolhe outro caminho.

E, bom, se fala lá que isso é estatístico, mas lógico, as experiências individuais podem ser diferentes. Sempre há pontos fora da curva e tal. Mas não vejo “naonde” isso pode ser biológico. A matéria fala de sentimentos. Que as pessoas realmente “se sentem assim”. Olha só, eu também tenho um ponto de vista crítico sobre o sexismo e isso não me impede de me sentir culpada nas situações mais improváveis, né? Eu não vivo nas leituras feministas. Eu vivo neste mundo machista e consumista, e é neste mundo que eu faço minhas escolhas, que tento equilibrar a realidade e as minha expectativas pra ser feliz. Eu e todo mundo que foi entrevistado pela pesquisa.

E lógico, a matéria (e talvez a pesquisa) não dá conta do óbvio: porque mulheres que têm a mesma profissão que os homens e se dedicam da mesma maneira, em geral, tem salários mais baixos? Marido contou outro dia que rolou uma equiparação salarial na empresa onde ele trabalha. Por conta de uma discussão que não deveria ser aberta, mas a rádio-peão tomou conta, galera ficou sabendo que a única colega engenheira numa área cheia de homens ganhava menos que os seus colegas com a mesma experiência. Ah, ela é solteira, e sem filhos. Não tô lá com eles, mas até onde eu sei, não trabalha menos que ninguém.

terça-feira, 9 de março de 2010

E na ressaca do "nosso" dia...

Pois é, toda essa história do DEMóstenes Torres, DEMétrio Magnoli, os DEMos todos. Que você pode acompanhar no Azenha, (a Mary W colocou os links diretos para as reportagens). O cara fala que foram negros também os caras que venderam outros negros. E não tem nem o que discordar dessa parte. Mas aqui, no Brasil, foram os brancos que exploraram essa mão-de-obra. Sim, houve (poucos) casos de negros alforriados que tinham lá seus escravos. Mas é na estrutura que a gente tem que pensar, e estruturalmente falando eram brancos explorando negros aqui no Brasil. Qual a dúvida?

E essa gente que diz que ok, foi lamentável mesmo, mas que passou. Lembro da escola, a professora falando que depois da abolição vieram os imigrantes, pra suprir a necessidade de mão-de-obra. E eu juro que já pensava nessa época “mas, ué, os negros continuaram lá, só deixaram de ser escravos”. Sei lá porque não perguntei. Será que a professora ia mandar a real, que ninguém queria pagar salário pra negro? E a mocinha da classe média paulista que diz: “pô, meo, mas o meu avô veio no navio suuuuper pobre e batalhou muito pra comprar a casa dele lá Móoca”? Será que ela não entende que, por mais modesto que fosse, o Nonno ganhava o seu trocado? Era um operário explorado, claro, longe de mim dizer que o Nonno não passou perrengue na vida. Mas os negros nem como operários eram aceitos. E não dá pra se inserir na sociedade sem ocupação. Sei lá, não sou socióloga, mas acho que é inviável, né? Se você só pode comer pelas beiradas, a marginalização é inevitável. Pode ser superada, claro, mas só a muito custo.

Mas nem era disso que eu ia falar. Era do relacionamento entre negros e brancas “consentido, ainda que sob dominação”. E aí eu lembro a história da Trip, da Luisa, lembram? Do cara que escreveu a suposta ficção sobre o menino que “convence” a empregada a “dar pra ele”, e achou que ia ser engraçadinho. E de como a gente precisa ainda desenhar o que é estupro. Que não é só arma na cabeça. Que não precisa nem ameaçar: qualquer mulher que some dois mais dois sabe que se não der pro patrão, pode ser demitida. Imagina a escrava? Consentimento sob dominação é quase uma impossibilidade semântica pra mim.

E aí eu fico imaginando seu “Dem” batendo na porta do quarto da empregada. A moça abrindo, sorriso amarelo no rosto. E como ela sorri e corresponde ao beijo, ainda que sem muito entusiasmo, o patrão crê que é sexo consentido. E ele todo pimpão, se achando o macho alfa, termina a noite pensando assim: “essas mulatas são mesmo quentes”. E acha linda a história da miscigenação do povo brasileiro!

Os caras oferecem flores, mas sequer entederam o conceito de estupro. Preguiça, viu.