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segunda-feira, 8 de março de 2010

Presentinho no Dia Internacional da Mulher? Eu passo.

Olha, se você quiser ler algo muito bom que reflete em parte minha opinião, é só clicar aqui.

Mas se você quiser saber só meu ponto de vista, não tão bem elaborado, é só continuar por aqui mesmo.

A Marjorie fala lá sobre a rosa e tal. Mas eu me incomodo muito com a história do presentinho, sabem? De promoção d'O Boticário e similares pelo Dia Internacional da Mulher.

Olha só, O Dia Internacional da Mulher é uma data quem tem 100 anos, segundo a gente pode ler aqui, numa explicação curtinha mas bem interessante. Foi um dia criado para lutarmos contra a opressão de gênero que sofremos contidianamente, umas mais, outras talvez menos. Desde que foi criado, conquistamos muitas coisas, claro. A gente vota (ainda que não tenhamos muitas representantes do nosso gênero sendo eleitas), tem direito a realização profissional (ainda que, em média nosso salário seja mais baixo do que o dos homens) e até pode ter uma vida sexual fora do casamento (mas ainda muito mais cerceadas pelos limites do julgamento moral alheio do que o dos homens). Olha quanto “mas”, né? Para as mulheres que de fato desfrutam dessas conquistas muito legítimas, e elas infelizmente ainda são minoria, as coisas são cheias de “mas”.

E o discurso que acompanha o presente é o pior. É o reconhecimento que a gente trabalha muito e faz alguém feliz, enfeita o mundo, é mãe e esposa. E aí, danou-se.

E se eu for feia, ou pelo menos não estiver interessada e empregar meus esforços em ser atraente?

E se eu não quiser ser mãe?

E se eu não quiser fazer nenhum homem feliz sexual e afetivamente porque sou homosexual?

E se eu preferir que o marido divida todos os afazeres domésticos ao invés de reconhecer o meu trabalho duro?

E se tudo o que eu quero na vida é não aceitar certas obrigações ou limitações como inerentes ao meu gênero? E se eu quero ser olhada por homens estranhos com o mesmo respeito que ele dedicam a outros homens, e não com uma simpatia cínica e supostamente carinhosa?

Porque é essa data se propõe a isso, originalmente: pensar em porque somos cidadãs de segunda classe, e não nos dar um pirulito, digo, um batom de consolação por aceitarmos essa opressão sem reclamar muito. Eu reclamo, então não mereço presente, ok? De presentes eu gosto, que fique claro. Mas prefiro recebê-los em outras circunstâncias, sem esse pseudo reconhecimento por um fardo que eu, decididamente, não escolhi carregar.

Pra ilustrar um pouco mais o cerne da questão, alguém aí já pensou em dar um presentinho pro seu amigo negro no dia 20 de novembro? Acho que não, né? Ah bom.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Maternidade e Economia


Este é um post que eu queria ter feito antes, porque se refere a uma revista do começo do ano. O fato é que eu tenho me interessado muito por Economia. Sempre me interessei, aliás, mas agora, se tudo der certo, vou fazer uma pós na área. Daí que resolvi comprar a "The Economist" da primeira semana de janeiro, porque com esse capa aí, não tinha como não me interessar.

Eu sei que a Economist é uma revista conservadora. Ainda assim, fiquei chocada. É impressionante o quanto a gente consegue jogar certos discursos no lixo sem muito trabalho depois que a gente toma a pílula vermelha. E olha só, eu não sou acadêmica, eu não sou cientista social, não tenho mil leituras feministas como base, normalmente só o desconfiômetro me guia.

Os caras contam que as mulheres já são metade da força de trabalho nos Estados Unidos. Mas, claro, ainda há muita coisa a conquistar. Principalmente porque as mulheres ainda ganham menos que seus colegas homens ainda que desempenhem a mesma função. E até aqui não há nenhuma informação nova, nenhuma novidade, mas também nada a discordar.

Segundo eles, o problema das mulheres não é o fato de serem mulheres (sério?). Sintam o drama (extraído do Editorial, ainda na página 7):
“Motherhood, not sexism, is the issue: in America, childless women earn almost as much as men, but mothers earn significantly less”

Como dizem por aí, me amarrota que eu tô passada. O problema não é o sexismo, é a maternidade, já que mulheres sem filhos ganham quase tanto quanto seus colegas homens. Oi? “Quase tanto quanto” ainda é menos, né? Just checking. Daí, os caras falam um monte sobre como as pobres crianças pagam o pato pela ausência de suas mães. E minha vontade é jogar a revista pela janela.

Olha só, é muito difícil engolir esse discurso da maternidade como uma questão feminina. A manutenção da espécie é de interesse de toda a humanidade. Mas, como quis a natureza que os bebês fossem gerados no nosso corpo e amamentados pelos nossos seios, isso passa a ser um problema nosso. Eu caí pra trás quando soube que nos Estados Unidos sequer existe licença maternidade remunerada. Parece que está previsto na legislação algumas semanas por ano de licença médica não remunerada, e é esse período usado pela mulher que tem um bebê.

Bom, alguns países europeus tem uma dificuldade danada para repor sua população. Seus governos estão se dando conta de que as mulheres (e seus parceiros, claro) podem escolher não ter filhos, considerando as dificuldades envolvidas. Estes países não são mais legais ou mais humanos mas sabem que se não oferecem suporte, não terão como continuar existindo. Em lugares religiosos como os Estados Unidos esse risco não existe por enquanto: as mulheres tem filhos com ou sem suporte. Já o caso do Brasil é atípico: entre os mais pobres a natalidade ainda é considerável (embora esteja caindo bastante também), na classe mais alta, mal garante a reposição.

Eu acho que não há igualdade de direitos enquanto não se considerar que uma mulher presta um tremendo serviço à sociedade quando põe um filho no mundo. E que essa sociedade, em contrapartida, deveria dar todo o suporte possível a ela na educação desta(s) criança(s). E isso está tão longe de acontecer. Tanta gente condenando mulheres que abortam, mas cadê as vagas nas creches? Não têm, né? E paternidade, gente? Sabe, eu não quero julgar a mulheres que resolvem ter um filho em produção independente, mas acho isso tão contraproducente. Os homens precisam ser implicados, precisam ser responsáveis. Porque pensão alimentícia pode até pesar no bolso de quem paga, mas não resolve tudo. Quem leva a criança ao médico quando fica doente? Quem perde o dia no trabalho quando o caso é grave? Tem cara que não consegue entender que ele não corre o risco de ser demitido porque se tornou pai, mas que esse é um risco inerente à condição de mãe.

A Simone de Beauvoir me pareceu tão dura e amarga quando diz que nossos corpos são escravos da reprodução. Claro, ela escreve isso antes da pílua anticoncepcional e antes do aborto ser legalizado na França. Mas, puxa, depois da "The Economist" fiquei pensando se ela está tão errada assim.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O meu machismo

Então, eu acho que machistas somos todos. O mundo é machista, nós vivemos neste mundo, então não estamos livres de exprimir alguma idéia retrógrada, por mais progressistas que sejamos. O mesmo vale com o racismo e a homofobia, claro. A gente tem que trabalhar, se conscientizar, aceitar discutir. Numa boa, não acho que nenhum ser humano é coerente o tempo todo, mas considero sim uma tremenda qualidade a pessoa reconhecer suas mancadas. Eu tento, viu?

Dito isso, aqui em casa eu faço um pouco mais de tarefas domésticas que o marido. E esse pouco é bem pouco mesmo: sou eu quem coloca a roupa pra lavar. Mas só porque eu gosto de separar algumas coisas que mancham, lavar umas poucas coisas delicadas a mão, enfim, quero o controle do processo. Ser control freak faz com que muitas mulheres monopolizem as tarefas domésticas mesmo tendo homens dispostos a compartilhá-las. Como se o espaço doméstico fosse realmente seu “reino”, o lugar onde ela tem o domínio, se sai melhor. Para os homens, uma maravilha, claro. Então, ok, eu não deveria ser assim, mas é só com a roupa, né? Não me culpo, em absoluto. No mais, marido lava a louça quando eu cozinho (quando ele cozinha, quem lava sou eu), organiza as coisas (porque eu deixo a casa uma zona se deixar), enfim, é só a máquina de lavar mesmo. Podemos viver em harmonia assim.

Acontece que há algumas semanas atrás, eu fiquei meio adoentada. Nem lembro o que era, acho que uma virose chata. E, bom, todas as minhas energias se esgotavam no trabalho. Chegava em casa e não fazia nada (minto: fazia uma chazinho pra mim, e só). Daí que um dia cheguei, fui direto pra cama e, ao acordar, lá pelas 9 da noite percebi que marido tinha chegado e lavado a roupa. Diálogo patético:

“- Marido, você lavou roupa?
- É, lavei, porque eu não tinha mais cuecas limpas.”

Sabem o que aconteceu? Eu me senti culpada. Por um único minuto, mas me senti. Pensei: “que tipo de esposa sou eu que deixa o marido sem cuecas limpas?”. Juro, eu pensei nisso. Vergonha, né? Depois fiquei com vergonha de ter pensado. E no dia seguinte fui contar pro marido. Disse que ia contar algo engraçado, mas que eu não o perdoaria se ele usasse isso contra mim num momento de fraqueza. Ele riu e disse que também se sentiu culpado, por esperar que a esposa se responsabilizasse por suas cuecas, como se ele não fose capaz de fazê-lo. Sentiu-se um machista também, tadinho.

E a história termina com um jovem casal dando risada de como o mundo funciona, e o quanto gente tem que estar atento pra não reproduzir modelos que definitivamente, não nos servem.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Sobre liberdade, livre arbítrio, escolhas...

Ainda sobre o Haiti. Apesar de ter ficado irritada com o Azenha por conta disso, ainda gosto muito do “Vi o mundo”. A cobertura que vem fazendo sobre a tragédia é a mais completa e humana que tenho visto por aí. Além de problematizar a miséria do país, questiona a cobertura da mídia tradicional. Porque não faz sentido, por exemplo, falar de saqueadores num país em que todos estão passando fome. Fazer isso é ter mais apreço pela ordem do que pelos dramas humanos, atitude coerente com a criminalização dos movimentos sociais que se faz cotidianamente por aqui, e insensível até dizer chega.

Daí que a gente sabe que os Estados Unidos tem a sua parcela de responsabilidade pela miséria haitiana, e ela é enorme. Mas agora eles estão lá pra fazer ajuda humanitária. E só quem gosta mais de ideologia do que de gente vai achar que eles não deveriam estar lá. Os haitianos precisam de toda a ajuda possível, não estão em condições de escolher. E isso é devastador, porque no final das contas, essa ajuda vai ter um preço, e o preço é a sua autonomia entregue. Mas, existe liberdade na fome? Essa é a grande questão, a gente não pode perder isso de vista nunca. Sem essa ajuda, não há como sair do lugar, não há esperança possível, e só se poderá falar no futuro quando o presente estiver minimamente organizado: mortos enterrados, sobreviventes tratados, os habitantes minimamente alimentados.

Por isso me incomoda muita essa defesa inconteste do capitalismo feita por algumas pessoas. É lógico que a liberdade do capitalismo é bacana. Mas é bacana pra quem tá incluído. Não se pode falar de escolha quando o que se apresenta como possibilidade é cortar cana ou morrer de fome. Ou, falando em feminismo, se as opções são aguentar surras de um marido violento ou não ter como sustentar os filhos. Tive uma conversa com uma amiga minha uma vez sobre aquele lance do que é melhor, dar o peixe ou ensinar a pescar. Quem tem fome tem pressa, e não dá pra pegar o barquinho e se lançar ao mar de estômago vazio. É preciso dar o peixe e ensinar a pescar, não há outra possibilidade.

Lembrando do meu último post, eu já fui uma pessoa crente. Mas me incomodava o discurso de que tinhamos sido criados para louvar a Deus, com livre arbítrio para escolher fazê-lo. Só que a punição para quem exercicia o seu direito de escolha e não louvava o todo poderoso era o inferno. Oi? Cadê a liberdade aí? Quer dizer, eu sou livre, contanto que siga a cartilha direitinho, senão, sofrimento por toda a eternidade. Então Deus me criou pra ser escrava da sua vaidade? Mesmo quem é religioso há de concordar que esse papinho tem a perna quebrada...

Mas, voltando, o Haiti não pode, nesse momento, dar uma banana para os colonizadores externos como fez com os franceses há mais de duzentos anos. Torço porém para que consigam fazer isso quando se reorganizarem. Desta vez, com mais sucesso.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Agnes

A preguiça de postar é muita. Assunto eu tenho, mas o final do ano tá foda e eu continuo trabalhando feito doida.Mas me cortou o coração ler isso.

Depois daquele post foda da Aline, recebi uma amiga em casa. Essa amiga é feminista também, e começamos a conversar sobre aborto. E eu não sabia que ela tinha feito um. Parece que encontraram (ela e o ex-namorado) um contato. Daí marcaram, o cara explicou o procedimento. No dia, se encontraram num lugar público, e minha amiga entrou no carro do cara. Sozinha. E foi para a clínica sozinha. E contou que, quando voltou da anestesia, se deu conta de que o corpo dela tinha estado por algumas horas a mercê de gente em quem ela não confiava. Que podiam ter feito qualquer coisa com ela.

Quando ela me contou, me senti culpada. Queria ter estado ao lado dela, segurando a sua mão, mas sequer soube que ela passou por isso. Tive uma imensa vontade de chorar pensando que alguém pode ter abusado da sua fragilidade naquele momento. E um desespero enorme de imaginar que ela poderia estar morta agora. Mas minha amiga sobreviveu e vive uma vida plena e feliz.

Minha sogra teve o primeiro filho, que vem a ser o meu amor, aos 17 anos. Os outros dois filhos são frutos da família que teve que se formar às pressas. Eles (ela e o meu sogro, que tinha 20 anos na época) passaram uma barra, abriram mão de muitas coisas pra serem pais tão jovens. Eu me emocionei muito ouvindo ela contar o susto quando ouviu o coraçãozinho bater dentro dela, porque este coraçãozinho é o que bate ao meu lado agora. Diante da surpresa, minha sogra recalculou a rota de sua vida. Uma escolha legítima, que não tira a legitimidade de quem escolheu outra coisa.

E eu vou sempre defender que essa escolha possa ser feita por todas as mulheres, da maneira mais tranqüila possível. Respeito à alteridade, como eu já disse aqui. Mas como não é assim que funcionam as coisas no nosso país, a Agnes é mais uma das vítimas dessa hipocrisia silenciosa e assassina.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Diálogos e monólogos

de: W

para: D , Iara , m <@yahoo.com.br>data: 4 de dezembro de 2009 15:22
assunto: Isso tem cara de Iara!

Olá pessoal!

Estava a ler os comentários sobre o texto "Um deserto de idéias" do Azenha e vi o seguinte post:

Iara (03/12/2009 - 21:57)
'Minha esperança, francamente, é de que a engenheira "desenvolvimentista" tenha preservado suficientemente em si a mulher e mãe.'

Cuidado, Azenha, porque aqui você foi sexista, mesmo com a melhor das intenções. A sensibilidade é uma qualidade independente do gênero, e concordo que deveria ser requisito mínimo para quem aspira o cargo de presidência. E há milhares de mulheres insensíveis, muitas delas mães, inclusive. Não são menos mulheres por conta disso.


Aí pergunto: é você Iara?
Digo isso porque a gente conversou sobre a Dilma lá no Gogó e você falou sobre essa questão sexista. No nosso bate papo o tema foi o fato da imprensa descer o sarrafo porque a Dilma é durona, não é linda e fez plástica.

Abraços

W


de:Iara

para: W
cc: D ,m
data: 4 de dezembro de 2009 15:37
assunto: Re: Isso tem cara de Iara!


Bingo! Eu mesma!

A questão é simples: não aceito que exijam de uma mulher o que não se exige de um homem na vida pública (nem vou entrar na particular, porque é pano pra manga e a idéia não é polemizar). Fora que é ingênuo, né? Se você viu nos comentários, alguém citou Margareth Tatcher, Golda Meyer... Vamos combinar que poder e meiguice não combinam, né? Agora sensibilidade é importante pra todo mundo, poxa vida!

E minha frustração é que o cara deu a resposta preguiçosa padrão "Iara, acredito que homens e mulheres são diferentes." Fraca essa, viu? Preguiça mental mesmo.

Bjo!

;-)

O remetente do e-mail é um amigo do marido, que agora é meu amigo também. Tempos atrás, quando ele se referiu a não sei quem como “mau-comida”, levou um pito meu. E ouviu, não porque eu sou a rainha da cocada preta e tenho sempre razão, mas porque acha minha opinião relevante.

O post ao qual nos referimos é esse. Sabe o que é muito chato? Essa coisa do cara ter um blog, ser conceituado e tals, você entra, lê, prestigia, e quando levanta um debate, ele te responde do jeito mais preguiçoso do mundo. Lógico, quem tem trocentos comentários na caixa não pode se dar ao luxo de dar atenção a todo mundo. Nem esperava que o Azenha fosse “fofinho” como meu amigo, né? Mas, poxa, se resolveu responder, responde direito, porra! Homens e mulheres são diferentes, essa parte eu já sabia desde os dois anos de idade quando vi o pipi do meu irmãozinho recém-nascido. Responder assim é desrespeitar minha capacidade intelectual. Ok, o blog é bom e não vou deixar de lê-lo por conta disso. Mas se até o Azenha utiliza esse recurso, porque a gente estranha o Marcelo Coelho cobrar meiguice da Dilma, né? (não achei o post original dele pra linkar aqui, só a crítica da Marjorie, que é excelente, aliás)

A Dilma tem mais é que ser durona mesmo. Porque ano que vem o chumbo vai vir grosso...

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Mea culpa, ou sobre a incoerência cotidiana

A coisa mais comum do mundo é encontrar gente se comportando de maneira oposta ao seu discurso. A gente chama isso de incoerência. Quando a gente indetifica, costuma apontar lá o dedão no incoerente. Eu acho que às vezes até é bem válido, quando o incoerente usa o seu discurso para julgar nossas ações, mas se dá ao direito de ter seus próprios critérios. Porque além de incoerente, a pessoa vira uma hipócrita. Mas o ser humano é cheio de incoerências, né?

A família lá da França tinha um discurso politicamente correto e tal, mas não separava o lixo reciclável. E um dia minha “patroa” contou que, numa conversa com os colegas do trabalho, todo mundo deu uma desculpa para não separá-lo, ainda que achasse reciclagem uma idéia fantástica. Uma vez, almoçando com ex-colegas de trabalho, comentou-se o absurdo da quantidade de veículos em São Paulo circulando ocupados por somente uma pessoa. Daí Fulano lembrou que era vizinho do Sicrano, e do Beltrano. E todo mundo se deu conta de que tinha um colega de trabalho morando em seu bairro. Mas apesar disso, concluiram que dar carona não funcionaria porque “tolheria a nossa liberdade de ir e vir nos horários mais convenientes”.

O blog 7 x 7 da Época tem umas coisas muita machistas e retrógradas às vezes, como o post sobre a Dilma, mas a mesma Ruth de Aquino, capaz daquele discurso reaça de carteirinha, fez um post que me comoveu bastante. Fala de um documentário sobre mulheres de diferentes idades e classes sociais que contraíram Aids de seus maridos. E aí eu percebi uma enorme incoerência minha, e me incomodei muito. Com todos ex-namorados, ficantes, one-night-stand e etc, sempre usei camisinha. Conheci o namorido há dois anos, quando eu e ele já tinhamos “aproveitado bastante a vida”. Quando começamos a sair, usávamos camisinha, mas um dia deixamos de usar. Conversamos sobre o assunto, mas pra ser honesta, não consigo me lembrar de todos os termos. Não fizemos exame antes. Deixo muito claro que também não foi uma imposição machista dele: só deixamos a camisinha porque eu concordei sem nenhuma resistência. Como sou doadora de sangue, ele ainda tinha essa garantia de que, muito provavelmente, eu estava “bem”. Eu, nem isso. Há um acordo de que, se um dia (ou quando, pra ser mais realista) transarmos com outras pessoas ainda estando juntos, vamos ter o cuidado de usá-la.

Mas, putz, e daí, né? Quer dizer, o namorido pode ficar chateado ao ler isso (mas acho que não), mas quem me garantiu que ele não tinha HIV quando a gente se conheceu? A palavra dele, que talvez nem soubesse também? E quem o garantiu que eu não fosse HIV positiva? A última doação de sangue que eu fiz 6 meses antes de conhecê-lo? Não, né. A gente fica romântico, e fica burro. Honestamente, não acho que “isso nunca vai acontecer comigo”. Sei, muito conscientemente, dos riscos que corremos, eu e ele, até porque “mulher contrair HIV do marido” não é uma ficção, há um caso assim no nosso círculo de relações. Porque se comportar assim, então? Não sei responder.

E me sinto ainda pior porque eu não aponto o dedo na cara, mas muitas vezes julgo a falta de cuidado do outro, sabe? Apesar de ser pró-aborto, tendo a, no meu íntimo, acreditar que a pessoa que engravidou sem ter se planejado não fez o suficiente para evitar a gravidez, porque eu sempre usei pílula E camisinha. Não uso agora porque um filho não planejado neste momento seria bem vindo. Mas contrair uma doença venérea não seria bacana em momento algum, óbvio, e isso eu não estou evitando. E este post é um mea culpa: não posso julgar. Nunca, jamais em tempo algum, porque eu também sou humana.

Não sou insensível a ponto de dizer “bem-feito!”. Nem pra quem se descuidou engravidou sem se planejar, nem para a mulher que aceitou voltar para o marido violento e apanhou de novo e, nem pra quem contraiu câncer de pele de tanto torrar no branzeamento artificial. Tenho a delicadeza de me solidarizar com os dramas do outro mesmo sendo decorrentes de atitudes que não combinam com o meu discurso, porque o respeito a alteridade, ao direito do outro de ser outro, é fundamental pra mim. Só demorei a me dar conta de que o outro do meu discurso, às vezes, é a minha ação.

domingo, 15 de novembro de 2009

Contemporaneidades

"Mesmo se desobedece às leis da comunidade, o homem continua a pertencer-lhe; não passa de um menino levado que não ameaça a ordem coletiva. Ao contrário, se a mulher se evade da sociedade, retorna à Natureza e ao demônio, desencadeia no seio da coletividade foças incontroláveis e perniciosas"

BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo, 1949

Só eu fico assustada quando certos clássicos parecem ter sido publicados tipo assim, essa semana?

terça-feira, 10 de novembro de 2009

A playboy da Fernanda Young

Eu não gosto da Fernanda Young. Assumo mesmo, acho muito chata, do tipo que se acha muito inteligente. Sabe rebelde de botique? Pois é, tenho preguiça de quem diz coisas pra ser polêmico, trabalhando para instituições mainstream. Sabe assim, a pessoa se acha moderna porque tem a "coragem" de raspar a cabeça e usar tatuagens (longo bocejo....)?

Não tenho absolutamente nada contra ela posar pra Playboy. Nem sei se eu tenho algo contra a Playboy em si, eu teria que pensar um pouco - e eu tô compreguiça agora. Porque se eu defendo que a mulher pode dispor de seu corpo como quiser, porque ganhar uma grana com ele seria ilegítimo?

O que me irrita nessa história é sua vontade de parecer "superior" às ex-BBBs porque, afinal, ela é uma pessoa que publicou 8 livros. Pra começar que publicar livro não prova porra nenhuma, que a gente sabe. Essa coisa de se afirmar mais inteligente que suas colegas capa é tão insegura e arrogante! Porque eu tenho que acreditar que ela é mais inteligente que, sei lá, a mulher-melancia? Só porque a mulher-melancia é famosa pela bunda, não quer dizer que ela seja uma estúpida. Só quem conclui isso assim, sem uma análise mais profunda, pode assumir que o fato da Fernanda Young ter publicado 8 livros atesta sua inteligência. Então, ela entrar pro clube, mas afirmar que é melhor do as outras é péssimo (aliás, ela já é do mesmo clube das ex-BBBs: é todo mundo funcionária da Globo). Fica pior ainda porque ela disse que "seria bonito" vender mais do que as ex-BBBs, o que eu li uma vibe de inteligência x reality shows. Como se a suposta inteligência dela devesse ser cultuada até na Playboy.

A cereja do bolo foi quando eu li, acho que ontem, que posar para Playboy uma vingança "a uns 3 babacas que a deixaram". Fico imaginando a cabeça de uma mulher, que se autoproclama inteligente e bem-resolvida, fantasiando que o ex vai olhar a Playboy e dizer: "Como eu sou burro de ter dado um pontapé na chata da Fernanda! Ela é mó gostosa, virou a até coelhinha da Playboy". Só posso ter muita vergonha alheia pela pessoa que expõe seu corpo para obter a aprovação de homens com quem se relacionou no passado. As ex-BBBs são mais espertas: elas, dizem, pra quem quiser ouvir, que vai ser legal ganhar essa grana pra comprar um apartamento. Quem é mais inteligente e independente aí?

domingo, 8 de novembro de 2009

Sobre a Uniban, ainda

Pois é. Fizeram o que pra muita gente pode parecer absurdo, mas que faz todo sentido, como está bem explicado aqui. Sabe aquela piada que a gente faz dizendo que, pra estudar em certos lugares, é só deixar o CPF cair na porta, que já vão te matriculando? É mais fácil mandar uma aluna embora, do que encher o saco dos outros "clientes". Choca especialmente, no anúncio publicado, quando dizem que a reação foi uma "defesa do ambiente escolar".

A namorada do meu irmão, que estuda na UEL, em Londrina, contou que há um colega homossexual que vai travestido assitir às aulas. Quer dizer, não exatamente: ele não usa saias, mas shorts cor-de-rosa minúsculos. Tem cabelos curtos e usa batom. Não tem seios de silicone, mas às vezes está de salto. Nunca está vestido de mulher de uma maneira a ser confundindo e misturar-se entre as alunas, como um transexual. Não, ele deixa claro que é um homem com adereços femininos, provoca a noção de gênero dos colegas mesmo. Ainda segundo minha cunhada o cara, no geral, é respeitado por colegas e professores. Algumas vezes, dentro do campus, pára um carro e diz uma gracinha, em especial os caras de veterinária em sua maioria filhos de fazendeiro mais conservadores. Mas nunca sofreu algo parecido com a Geyse, cuja suposta provocação é seguramente menor.

Quisesse se afirmar como Universidade, a Uniban marcaria pra ontem uma semana de debates sobre tolerância, cidadania, violência de gênero, mídia. Não puniria ninguém, nem os agressores de Geyse: os convidaria a debater sobre suas atitudes, a manifestar sua insatisfação pelo comportamento da colega de maneira racional para que, em grupo, entendessem onde está o incômodo. Dada a repercussão da mídia, tenho certeza de que muita gente notória aceitaria estar presente. Com um gasto mínimo (talvez menos do que custaram os anúncios para comunicar a decisão de expulsar Geyse), inverteria a situação a seu favor.

Mas, da mesma maneira que muita gente só vai à Universidade comprar um diploma pago em prestações, a Uniban deixa claro seu papel de "impressora de diplomas". Não vou julgar ou discriminar que estuda lá, porque já conheci um fulano que se orgulhava por ter concluído o curso de Filosofia da USP sem nunca na vida ter lido um livro até o fim. Acredito que tem gente brilhante e gente rasa em qualquer lugar. O papel da Universidade é estimular a busca do conhecimento, não entregá-lo pronto. Pra mim, a formação acadêmica depende da vontade do aluno, de seu esforço pessoal, mais do que qualquer outra coisa. A Universidade é um facilitador importante, mas não é tudo. Considerando meu ponto de vista, penso em que tipo de contribuição para a construção do conhecimento oferece um lugar onde, frente a um conflito, escolhe-se como solução defesnestrar seu agente mais frágil e mais exposto.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Sou fã da Elisângela

O caso é o seguinte: hospedada na casa dos meus sogros, fomos domingo à padaria comprar pão-presunto-queijo pro café da manhã. Mal-humoradíssima e sonolenta, preferi ficar sentadinha no carro, de olhos fechados. Nem o cinto de segurança eu tirei. Só que marido estacionou ao lado de um orelhão (pausa: há quantos milhões de anos não escrevo a palavra “orelhão”?). E a fila dos frios demorou horrores, tipo uns 10 ou 15 minutos. Daí fiquei quietinha, ouvindo a conversa de um sujeito com a família no nordeste. E é impressionante como, ouvindo só um dos lados do papo, deu pra inferir todo um modo de vida, e todo um conflito familiar. Vai ficar longo, mas juro que é legal:

“- Gilson, quantos sacos de milho... já deu a parte dela? Divide a parte dela! Fala pra sua mãe que não quero mais ela trabalhando no roçado, porque ela já trabalha demais em casa.”

Pelo sotaque, é nordeste, mas não sei exatamente onde. Há uma pequena lavoura na propriedade da família, talvez mais alguém trabalhe lá pra receber sua parte em milho, mas o marido quer poupar a esposa.

“- Deixa eu falar com sua mãe... Oi minha flor! Tudo bom... melhor se eu tivesse com você... mas chega logo, né?”


Deve voltar pra terra no Natal. Como o sotaque é bem suave, não acho improvável que o pai-de-família esteja há muitos anos no sudeste.

O papo volta para o Gilson que, imagino, seja o filho mais velho. Daí a coisa começa a ficar boa:

“- ... num vai, num vai pra forró coisa nenhuma. Que coisa é essa, que história é essa? Num tem que dar a chave pra ela... deixa eu falar com sua mãe de novo! Que história é essa de Elisângela ir pra forró. Num tem que dar a chave pra ela não. Só se for uma precisão. Quem manda sou eu. Na minha ausência, quem manda é você. Eu me enfio em forró aí? E você vai pra forró? Num tem que ir pra forró!”.

Ó, com todo respeito à palavra do moço, mas dado o visual caprichado (manjam meio rústico, meio macho-alfa?), duvido que ele não pegue um forrózinho no final de semana. Fica sem sexo o ano inteiro? Du-vi-do. E possível que vá procurar companhia num rasta-pé. Mas essa não foi uma suposição assim, baseada em coisas muito precisas, só um palpite mesmo. Pode ser desconsiderada sem prejuízo pro resto da história.

Enfim, mais alguns minutos dessa lenga-lenga “num vai pra forró”.

“- Ela tá indo pra 15 anos de idade e nunca me viu em forró. Quando ela casar, tiver a vida dela, ela vai pra forró, se quiser. Enquanto estiver na minha casa, quem manda sou eu. Eu batalho aqui pra fazer as vontades dela, ela tem de tudo, tem que fazer as minha vontades também.”

Como veremos, Elisângela não é de se deixar dominar, apesar da pouquíssima idade.

“- Como é que ela tá com a moto? Tá andando direito com a moto... oi? Certeza? Num quero que ela te derrube... Então, dia 15 ela é que te leva na comadre Nena ou na comadre Maria, porque eu vou falar com ela. Qualquer uma das duas”.

Bom, ouvi a conversa dia 1º. O que me fez concluir que essas conversas telefônica acontecem a cada 15 dias, na casa de uma comadre, porque a família não tem telefone. Gilson coloca a mãe na garupa da moto, geralmente. Mas, se da próxima vez quem vai é Elisângela, o fato dela ser menor de idade e tecnicamente não poder dirigir não é a questão: o problema é o forró mesmo.


“- Outra coisa que eu queria te falar flor. Fala pra Gilson ver que celular pega melhor em casa, se Tim, se Oi, e eu mando dinheiro pra comprar
um celular. Daí não tem que amolar os outros, ficar nessa precisão de ir na casa de comadre.”

Boa! É a modernidade chegando na roça.

“- Como é que é?!?! Elisângela tem celular? Quem foi que deu celular pra Elisângela?!?!”


Muito viva essa garota!

“- Mas desde quando minha moto é táxi?!”

Tive que me segurar muito pra não rir nessa hora e denunciar minha indiscrição. Elisângela, 15 anos, lá na roça, decidiu que a moto do pai é um ativo pra gerar renda. Faz corridas de moto táxi pelas redondezas e tira uma grana. Conseguiu comprar um celular, e garante um troco pro forró (ou pra se enfeitar pro forró, que eu tô ligada que mulher deve entrar de graça). O irmão mais velho e a mãe não têm autoridade o suficiente pra segurá-la em casa, pra desespero do pai machista e conservador que mora há centenas de quilômetros de distância.

Tem como não amar a Elisângela?

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Dia de amar seu corpo

A Haline fez esse post bacana ontem. E hoje eu descobri isso. E putz, justamente este é um assunto que me interessa muito.

O fato é que eu tenho uma amiga queridíssima que tem distúrbios alimentares. Já esteve internada, toma antidepressivo há anos. Quando eu a conheci ela estava melhor, mas recentemente teve uma recaída. E uma amiga comum nossa é psicóloga. Não quer mais clinicar, mas não consegue evitar ajudar amigas em apuros. Daí um dia a Má pediu para a Fá fazer uma relação de todas as idéias que ela associava a “gorda”. O resultado foi uma lista bem grande, mas eu só me lembro de alguns termos:

- Feia;
- Fracassada;
- Não-amada;
- Frustrada;
- Menor;
- Infeliz;

Enfim, todos depreciativos. Só que essa relação não é fruto da mente doente de algumas mulheres anoréxicas. Elas não inventaram isso, assim, do nada. O delírio delas é se enxergarem gordas quando não estão, mas a associação da gordura com tudo o que há de negativo tá aí, pronta. O curioso é que a Fá, sofrendo tanto, é uma das minhas amigas mais bonitas. E é muito mais magra do que eu e a Má. A Fá não está deprimida porque se acha gorda. A relação é inversa, a baixa auto-estima e a depressão a fazem ter uma imagem distorcida de si mesma. O caso dela é patológico, ela sabe, e se trata.

Casos como o da minha amiga são cada vez mais numerosos, mas ainda são exceção, felizmente. Mas o que é assustador é que, ainda que em menor intensidade, esse sofrimento pela não aceitação da auto-imagem é uma epidemia, principalmente entre as mulheres.

Eu entendo muito o corpo como a representação do que eu sou, mas não o que eu sou. Ele materializa a minha identidade. Então, é o mais óbvio jogar para o corpo todas as nossas frustrações. O corpo é superfície e ele pode ser “consertado”. A gente estica, puxa, se mutila, e, no extremo, corrige a foto no photoshop depois.

Mas, de novo, a nós não somos nossos corpos. E quem deposita toda a auto-estima no corpo tende se frustrar, porque ele, sozinho, não determina uma vida. Lógico que se ser gorda demais te traz problemas de saúde, sua imagem está impactando na sua vida de maneira prática. Sofrer bullying por conta da aparência também impacta bastante (eu sofri). Ainda assim dificilmente bulling e colesterol alto vão ser a essência da existência de alguém.

Então eu estou um bom tanto acima do peso. E tenho os dentes separados. E varizes, desde adolescência. E uma pele luxuosa, praticamente um pêssego, além de olhos grandes e expresssivos. E tudo isso é parte de mim, mas não me resume. Porque eu sou amiga da Má e da Fá (e de mais uma porção de gente bacana), fiz Letras, tenho “quase 30 anos”, trabalho numa empresa de tecnologia, gosto de cozinhar, leio blogs feministas, de culinária e de maquiagem, corintiana casada com um palmeirense (que acabou de desligar a televisão porque não suportou ver seu time tomar o segundo gol do Santo André) e já fui a Helsinki (em fevereiro, pra ser mais divertido). Pra quem eventualmente passar por aqui e ler este post, a minha imagem não terá a menor importância porque muito provavelmente, se fosse magra, de dentes certinhos e rosto cheio de espinhas, seria diferente fisicamente, mas ainda seria a Iara. Eu sou minhas experiências. E meu corpo é protagonista da minha vida em alguns momentos, é claro, mas em outros ele é mera ferramenta.

Com essa lucidez, eu quero perder uns 10 kg, mas ainda assim, “meigordinha”, sou bonita, feliz, bem-amada, realizada em algumas coisas - em outras nem tanto; recuso todos os termos que minha amiga atribui automaticamente a esses quilos a mais. Pra sorte minha, não encaro a ausência de perfeição estética do meu corpo como questão existencial. Pela felicidade da minha amiga, e de mulheres que sofrem como ela, torço pra que mais mulheres consigam se enxergar além de seus corpos. E claro, olharem pra si mesmas com mais amor e menos rigidez.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Padrões

Daí que eu li que, por conta da Taís Araújo na novela, entre outras coisas, existe um movimento para resgatar a dignidade dos cabelos crespos. E eu li isso na Época. Não rejeito nenhum veículo de comunicação assim, de saída. Nem mesmo depois de ler algo tão desonesto como o que escreveram contra a Dilma. No final das contas, até conheço um cara muito bacana que trabalha na Época São Paulo. Então nada é “do mal” pra mim, como um rótulo.

É maravilhoso ler uma reportagem expondo o racismo embutido nessa coisa de alisar o cabelo a qualquer custo. Questionando isso, da baixa auto-estima da mulheres de cabelo crespo. E tem tudo a ver com a indústria que ganha milhões fazendo as mulheres se sentirem feias. Nada contra cosméticos no geral, porque eu curto muito alguns deles. Já fiz até escova progressiva, daquelas com formol, que deixam os olhos ardendo (meu cabelo é liso, mas bem grosso e volumoso, estilo “doida que saiu ao vento”, então a idéia era deixá-lo mais arrumadinho). Pra mim é claro que técnicas e produtos em si não são vilões. O problema é o arsenal todo ser vendido como “obrigatório”. Meu cabelo “liso pero no mucho” não é inaceitável. Como o crespo não é. Cabelo “não liso” não deveria ser defeito. Mudar algo na aparência deveria ser um exercício de liberdade, de construção de identidade. Nossa relação com nossa imagem deveria ser muito mais pessoal. Óbvio que o olhar do outro influencia, não sou arrogante a ponto de bater no peito e dizer “tô cagando e andando”. Mas a verdade é que essas opiniões relevantes são (ou deveriam ser) poucas.

Finalmente fico triste porque, para o cabelo crespo ser aceito, as Organizações Globo precisam promover isso, assinar embaixo, colocar a Taís Araújo lá. E eu não vou negar a importância de ver a Taís Araújo protagonista de novela, do que isso significa. Nem vou entrar numas de que “a massa não pensa e obdece à Globo; inteligente sou só eu”. Mas a gente sabe que não é um “movimento”. A Época não está reportando uma mudança, ela está ditando: o lance agora é comprar shampoo pra cabelos cacheados e não mais chapinha, de acordo com o anunciante em potencial para a novela. O mercado é dinâmico, né? O problema é o caminho: não se cria um produto pensando numa necessidade das pessoas. Se cria uma necessidade pra vender um produto (ok, neste caso o exemplo não é dos melhores, sempre houve cabelos crespos no mundo). Não acredito que algum dia o cabelo liso vai ser rotulado como “ruim”, invertendo a equação. Mas apesar de a matéria dizer algo como “liso ou crespo, a opinião é somente delas”, deixa claro que Michelle Obama e Oprah estão sendo pressionadas a “assumir seus cabelos crespos”, por uma questão “política”. E apesar de concordar desde o começo com o conteúdo político do alisamento, pra mim é claro que, se alguém ainda se dá ao direito de pressionar outrem a mudar o cabelo em nome de uma “causa”, não há muito aí o que celebrar.