Passou o dia da Blogagem Coletiva. Mas violência contra a mulher, e discurso que a endossa, tem todo o dia, né? Infelizmente.
Então, eu gosto de novela. Gosto mesmo, já escrevi sobre a misoginia nas novelas aqui e aqui. E acho que quem quer entender o país precisa pelo menos passar os olhos nelas, porque são o produto de ficção mais consumido pela população. Claro, não têm a mesma importância que tinham há 20 anos, mas para parte expressiva da população o passatempo principal é esse, ver televisão. Como eu já contei também, não tenho saco de ficar lá assistindo. Dou uma olhada nos sites, vejo alguns vídeos, e leio resumos. Daí esbarrei com isso hoje: http://finaestampa.globo.com/Vem-por-ai/noticia/2011/11/danielle-fraser-se-entrega-para-enzo.html
Olhem só, eu acredito mesmo que relações às vezes são mais complicadas do que discursos explícitos. E meu relacionamento só começou porque meu marido insistiu. Mas insistiu uma vez, com muito cuidado, dizendo, em outras palavras “tem certeza de que esse não é não?”. E bom, eu mudei de ideia. O primeiro “não” era só “não sei”. E ele me disse que se rolasse um segundo “não” ela ia embora. E ok, gente. Mas veja bem, a mulher dispensar o cara uma vez, ele ir atrás no trabalho dela, ela dispensá-lo de novo, e ele ainda assim agarrá-la, não é legal. Nunca, jamais, em tempo algum. Porque o que fica claro é que a palavra dela não é importante. Ele decidiu que ela precisa de homem. E é exatamente essa a lógica do estuprador. Ou do homem que “insiste” com a ex para voltar e passa a persegui-la no trabalho, na faculdade, na porta da casa da mãe. Ele ignora a opinião dela. Toda mulher quer ter um homem atrás dela – então porque não ele?
Eu sei, as pessoas dizem que isso não é importante. Que enquanto estou falando de novela tem gente morrendo por aí. Mas acho que cenas assim são emblemáticas de quanto o nosso discurso é menosprezado. Nosso “não” não é levado a sério, já que somos incapazes de dizer com clareza quando estamos afim de sexo de verdade. O sexo é algo que o homem extrai à nossa revelia, uma concessão, boas moças não dizem com todas as letras que querem transar. Cabe aos homens baterem com o tacape na cabeça e arrastá-las pra caverna. Se ele for bonitão, filhota, tirou a sorte grande. Reclama não, você tava mesmo precisada.
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sexta-feira, 25 de novembro de 2011
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
Continuando
Daí fiz um post no Blogueiras Feministas que tinha tudo pra ser só tapa buraco (e na verdade era, tava substituindo outra autora na última hora). Mas houve uma polêmica com um comentarista. E surgiu a Mary W pra ajudar. Ajudou muito. Não vou repetir aqui, vai lá.
Resumidamente, o Vinícius acha que se estou aderindo a construção social de feminismo, estou aderindo à hierarquização, logo não posso me autodeclarar feminista. E tive muita dificuldade de entender do que ele estava falando, porque ressignifico o feminino. Não acho que tenha que me oprimir. Eu brigo com olhar normativo, não com o feminino. E ele diz que não é feminismo, então. E eu acho que pode ser sim, qual é o problema? Por que essa é a régua do feminismo? Então a Mary W já tinha colocado essa preocupação dela, de colocar tudo e qualquer coisa sob o guarda-chuva do feminismo. E eu concordo. Tentei dizer isso mais ou menos neste post, que não dá pra dizer “tô feliz assim” e seguir a vida quando a gente se posiciona politicamente. Mas lentamente a ficha tá caindo mais e mais.
Porque o que ocorre é que a gente tende a pensar individualmente. E individualmente, sou muito bem resolvida com a dita “ditadura da beleza”. Vejam bem, sou uma pessoa que sai de casa maquiada, mas não tem escova de cabelo. Não, não é que eu não tenho secador, chapinha, etc. Não penteio o cabelo. Tô geral descabelada em todas as fotos. E tenho um trabalho careta e tal. Então nem me sinto obrigada a me maquiar também, faço porque gosto e quando quero. Individualmente, escolho quais as coisas desse pacote mulherzinha topo ou não topo com muita tranquilidade. Mas veja bem, quando vou à manicure e me apresento por aí com as unhas pintadas tô reforçando o discurso de que isso é o que se espera de uma mulher apresentável. E sobre isso, não tenho controle mesmo. Não posso garantir como essas unha feitas vão ser apreendidas. E se me identifico politicamente como feminista, pode ficar entendido que “olha, até feminista faz a unha, viu?”.
Já tinha entendido a questão do posicionamento político, também com atraso, quando houve uma discussão polêmica na lista em relação ao serviço doméstico. Porque no final das contas, não interessa o quanto eu pague - e se posso pagar muito bem, é porque existe uma diferença social impactante que me permite dispor dessa quantia, mas nem vou entrar nesse ponto. O que interessa é que quando contrato uma mulher pra fazer o serviço da minha casa estou reforçando dois discursos: 1) de que isso é tarefa que cabe às mulheres, 2) que é perfeitamente aceitável que haja uma classe social que não faça seu próprio serviço doméstico, e outra que faça pelas duas. Porque eu não vivo num país em que os estudantes fazem faxina pra se manter, mas num país onde quem faz faxina em geral não teve oportunidade de estudar. Então, individualmente, dentro da minha casa, as relações podem nem ser escravistas. Podem ser muito humanas e respeitosas. Mas tô eu aí colaborando pra construção de uma noção de status que passa por ter alguém limpando sua casa.
Então, essa é uma preocupação importante. Porque não dá pra aceitar toda e qualquer divergência como válida, ainda que haja sim diversidade num movimento. E como estabelecer os parâmetros mínimos? E, o mais complicado, como fazer isso sem virar polícia ideológica? Porque a gente brinca com isso da “polícia feminista”. Posicionar-se politicamente implica em ter suas posições e escolhas (pessoais, inclusive) cobradas (em público, inclusive). Daí o comentarista lá no BF tem um blog e eu entrei. E num dos posts ele tá desautorizando o discurso de uma mulher que se dizia anticapitalista e feminista, mas estava com a unha pintada de rosa. E acho equivocado demais. Porque se por um lado a gente não pode aceitar tudo, por outro acho que há um prejuízo muito maior em sair desautorizando geral. E não vejo que ganho enorme é esse que a gente tem desqualificando por questões menores. Acho bem autoritário, e desconsidera possibilidades libertárias de ressignificação.
Sobre ressignificação e suas possibilidades, me lembrei de um caso clássico: a monogamia. Que é invenção patriarcal imposta às mulheres e hoje, em círculos menos machistas, a gente consegue dar outra cara pra ela. Não é uma questão de ingenuidade, de achar que todo mundo cumpre o contrato, mas de maneira geral a gente entende que o contrato é para ambos. Ou somos monogâmicos como casal, os dois, ou não somos. Vai ter gente dizendo que não, não há essa possibilidade, todo e qualquer relação monogâmica envolve posse e é intrinsecamente machista, e só há igualdade de gêneros possível no relacionamento aberto. E apontar hipocrisia etc, etc. Claro, não é consenso. Mas acho mesmo que mudou a cara, que já não se naturaliza o privilégio masculino com a mesma força de 40 anos atrás.
Então, fica uma porção de dúvidas. Porque claro que não dá pra aceitar tudo, ressignificar tudo, até porque não há avanço sem choque. Mas onde começa a crítica pela coerência e onde começa a patrulha pessoal contraproducente? Quais são as divergências administráveis e quais as irreconciliáveis?
Resumidamente, o Vinícius acha que se estou aderindo a construção social de feminismo, estou aderindo à hierarquização, logo não posso me autodeclarar feminista. E tive muita dificuldade de entender do que ele estava falando, porque ressignifico o feminino. Não acho que tenha que me oprimir. Eu brigo com olhar normativo, não com o feminino. E ele diz que não é feminismo, então. E eu acho que pode ser sim, qual é o problema? Por que essa é a régua do feminismo? Então a Mary W já tinha colocado essa preocupação dela, de colocar tudo e qualquer coisa sob o guarda-chuva do feminismo. E eu concordo. Tentei dizer isso mais ou menos neste post, que não dá pra dizer “tô feliz assim” e seguir a vida quando a gente se posiciona politicamente. Mas lentamente a ficha tá caindo mais e mais.
Porque o que ocorre é que a gente tende a pensar individualmente. E individualmente, sou muito bem resolvida com a dita “ditadura da beleza”. Vejam bem, sou uma pessoa que sai de casa maquiada, mas não tem escova de cabelo. Não, não é que eu não tenho secador, chapinha, etc. Não penteio o cabelo. Tô geral descabelada em todas as fotos. E tenho um trabalho careta e tal. Então nem me sinto obrigada a me maquiar também, faço porque gosto e quando quero. Individualmente, escolho quais as coisas desse pacote mulherzinha topo ou não topo com muita tranquilidade. Mas veja bem, quando vou à manicure e me apresento por aí com as unhas pintadas tô reforçando o discurso de que isso é o que se espera de uma mulher apresentável. E sobre isso, não tenho controle mesmo. Não posso garantir como essas unha feitas vão ser apreendidas. E se me identifico politicamente como feminista, pode ficar entendido que “olha, até feminista faz a unha, viu?”.
Já tinha entendido a questão do posicionamento político, também com atraso, quando houve uma discussão polêmica na lista em relação ao serviço doméstico. Porque no final das contas, não interessa o quanto eu pague - e se posso pagar muito bem, é porque existe uma diferença social impactante que me permite dispor dessa quantia, mas nem vou entrar nesse ponto. O que interessa é que quando contrato uma mulher pra fazer o serviço da minha casa estou reforçando dois discursos: 1) de que isso é tarefa que cabe às mulheres, 2) que é perfeitamente aceitável que haja uma classe social que não faça seu próprio serviço doméstico, e outra que faça pelas duas. Porque eu não vivo num país em que os estudantes fazem faxina pra se manter, mas num país onde quem faz faxina em geral não teve oportunidade de estudar. Então, individualmente, dentro da minha casa, as relações podem nem ser escravistas. Podem ser muito humanas e respeitosas. Mas tô eu aí colaborando pra construção de uma noção de status que passa por ter alguém limpando sua casa.
Então, essa é uma preocupação importante. Porque não dá pra aceitar toda e qualquer divergência como válida, ainda que haja sim diversidade num movimento. E como estabelecer os parâmetros mínimos? E, o mais complicado, como fazer isso sem virar polícia ideológica? Porque a gente brinca com isso da “polícia feminista”. Posicionar-se politicamente implica em ter suas posições e escolhas (pessoais, inclusive) cobradas (em público, inclusive). Daí o comentarista lá no BF tem um blog e eu entrei. E num dos posts ele tá desautorizando o discurso de uma mulher que se dizia anticapitalista e feminista, mas estava com a unha pintada de rosa. E acho equivocado demais. Porque se por um lado a gente não pode aceitar tudo, por outro acho que há um prejuízo muito maior em sair desautorizando geral. E não vejo que ganho enorme é esse que a gente tem desqualificando por questões menores. Acho bem autoritário, e desconsidera possibilidades libertárias de ressignificação.
Sobre ressignificação e suas possibilidades, me lembrei de um caso clássico: a monogamia. Que é invenção patriarcal imposta às mulheres e hoje, em círculos menos machistas, a gente consegue dar outra cara pra ela. Não é uma questão de ingenuidade, de achar que todo mundo cumpre o contrato, mas de maneira geral a gente entende que o contrato é para ambos. Ou somos monogâmicos como casal, os dois, ou não somos. Vai ter gente dizendo que não, não há essa possibilidade, todo e qualquer relação monogâmica envolve posse e é intrinsecamente machista, e só há igualdade de gêneros possível no relacionamento aberto. E apontar hipocrisia etc, etc. Claro, não é consenso. Mas acho mesmo que mudou a cara, que já não se naturaliza o privilégio masculino com a mesma força de 40 anos atrás.
Então, fica uma porção de dúvidas. Porque claro que não dá pra aceitar tudo, ressignificar tudo, até porque não há avanço sem choque. Mas onde começa a crítica pela coerência e onde começa a patrulha pessoal contraproducente? Quais são as divergências administráveis e quais as irreconciliáveis?
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
Crônica
Maria e Ana são amigas. Ana namorava um carinha que era amigo de José. Daí José e Maria se conheceram num barzinho, aquele papo de colocar os amigos juntos e tal. José e Maria se curtiram, mas não se apaixonaram perdidamente. Rolou tesão e eles transaram. Não importa muito saber se esqueceram a camisinha ou se a camisinha estourou. Fato é que algumas semanas depois Maria descobriu que estava grávida.
Maria é católica praticante. E está desempregada. Mora com os pais conservadores. Mas como a imensa maioria das mulheres saudáveis, não importando a religião e a situação econômica e o estado civil, Maria tem tesão, ué. Antes de religiosa, desempregada, o que for, Maria é humana, como eu e você.
Maria sofre muito com a descoberta da gravidez. Sofre de culpa e de desespero. Contra a orientação de sua Igreja, resolve interromper a gestação. Mas Ana, sua amiga, não se conforma que José não seja minimamente implicado na história. Pega o telefone e liga pro moço. Diz que precisa conversar pessoalmente, mas ele enrola pra encontrá-la. Resolve então contar por telefone mesmo: Maria está grávida. Ele responde que “não quer casar com ela.” Ana pergunta: “que ano é hoje, Brasil?”. Não, José. Ninguém quer que você se case. Pra sua “sorte”, Maria provavelmente não levará a gravidez adiante. Mas você tem ser adulto e conversar com ela, porque o problema é dos dois. E ele responde que só vai se Ana estiver junto. Ela se irrita, diz que ele não precisou da ajuda dela pra gozar e bate o telefone na cara dele. José é um cara de 35 anos, e bem empregado, diga-se de passagem.
Maria tem a boa sorte de conhecer um médico de confiança que interrompe sua gestação com segurança sem lhe cobrar os olhos da cara. A gestação é interrompida, mas a culpa não. Ela sabe que, pra Igreja Católica, o que ela fez é digno de excomunhão. Ana é espírita. Quer aliviar o sofrimento da amiga, mas sabe que em sua religião vão dizer que este será um carma que ela vai carregar para o resto da vida. Daí elas conhecem uma moça que frequenta a Igreja Universal do Reino de Deus. Torcem o nariz no início, mas o sofrimento na alma de Maria é grande, e ela sente que não tem mais nada a perder. Lá ela conta sua história ao pastor, que a acolhe. Diz a ela que o que ela fez é pecado, mas Deus entende que ela agiu segundo o desespero, porque humanos e pecadores somos todos. Que Jesus diria “vá, e não peque mais”. A vida continua irmã, Jesus não quer que você sofra assim porque ele te ama mesmo em seus pecados. E Maria finalmente volta a sorrir, aliviada.
A história acima é real, só os nomes foram trocados. Sei que José não foi capaz de dar um abraço e oferecer ajuda (inclusive financeira, porque não) a Maria, como se essa gravidez indesejada fosse só dela. Sei que Ana e Maria não tem nada de feministas super libertárias, são mulheres bem conservadoras, que não concordam com a maior parte das minhas opiniões. E sei que o discurso da Igreja Universal tem sido nessa linha, não de aprovação do aborto, mas de acolhida às mulheres. Dexiando claro aqui meu ateísmo e nenhuma simpatia pela Universal, mas fico sinceramente aliviada de saber que existe algum lugar que acolha uma mulher cristã nessa situação tão triste.
Este post é parte da Blogagem Coletiva do Dia Latinoamericano e Caribenho pela Descriminalização e Legalização do Aborto.
Maria é católica praticante. E está desempregada. Mora com os pais conservadores. Mas como a imensa maioria das mulheres saudáveis, não importando a religião e a situação econômica e o estado civil, Maria tem tesão, ué. Antes de religiosa, desempregada, o que for, Maria é humana, como eu e você.
Maria sofre muito com a descoberta da gravidez. Sofre de culpa e de desespero. Contra a orientação de sua Igreja, resolve interromper a gestação. Mas Ana, sua amiga, não se conforma que José não seja minimamente implicado na história. Pega o telefone e liga pro moço. Diz que precisa conversar pessoalmente, mas ele enrola pra encontrá-la. Resolve então contar por telefone mesmo: Maria está grávida. Ele responde que “não quer casar com ela.” Ana pergunta: “que ano é hoje, Brasil?”. Não, José. Ninguém quer que você se case. Pra sua “sorte”, Maria provavelmente não levará a gravidez adiante. Mas você tem ser adulto e conversar com ela, porque o problema é dos dois. E ele responde que só vai se Ana estiver junto. Ela se irrita, diz que ele não precisou da ajuda dela pra gozar e bate o telefone na cara dele. José é um cara de 35 anos, e bem empregado, diga-se de passagem.
Maria tem a boa sorte de conhecer um médico de confiança que interrompe sua gestação com segurança sem lhe cobrar os olhos da cara. A gestação é interrompida, mas a culpa não. Ela sabe que, pra Igreja Católica, o que ela fez é digno de excomunhão. Ana é espírita. Quer aliviar o sofrimento da amiga, mas sabe que em sua religião vão dizer que este será um carma que ela vai carregar para o resto da vida. Daí elas conhecem uma moça que frequenta a Igreja Universal do Reino de Deus. Torcem o nariz no início, mas o sofrimento na alma de Maria é grande, e ela sente que não tem mais nada a perder. Lá ela conta sua história ao pastor, que a acolhe. Diz a ela que o que ela fez é pecado, mas Deus entende que ela agiu segundo o desespero, porque humanos e pecadores somos todos. Que Jesus diria “vá, e não peque mais”. A vida continua irmã, Jesus não quer que você sofra assim porque ele te ama mesmo em seus pecados. E Maria finalmente volta a sorrir, aliviada.
A história acima é real, só os nomes foram trocados. Sei que José não foi capaz de dar um abraço e oferecer ajuda (inclusive financeira, porque não) a Maria, como se essa gravidez indesejada fosse só dela. Sei que Ana e Maria não tem nada de feministas super libertárias, são mulheres bem conservadoras, que não concordam com a maior parte das minhas opiniões. E sei que o discurso da Igreja Universal tem sido nessa linha, não de aprovação do aborto, mas de acolhida às mulheres. Dexiando claro aqui meu ateísmo e nenhuma simpatia pela Universal, mas fico sinceramente aliviada de saber que existe algum lugar que acolha uma mulher cristã nessa situação tão triste.
Este post é parte da Blogagem Coletiva do Dia Latinoamericano e Caribenho pela Descriminalização e Legalização do Aborto.
terça-feira, 2 de agosto de 2011
Dos mitos e dos esclarecimentos
Oi gente. Tô viva. O blog tá vivo também, embora hiberne de tempos em tempos. =)
O povo lá do Blogueiras Feministas chamou uma postagem pra desmistificar o feminismo, como uma campanha de esclarecimento mesmo, e eu achei que valia a pena dar uma passadinha por aqui. Muita gente boa já escreveu pra blogagem, corre o risco de eu ser repetitiva, mas beleza. O importante é que, pra desfazer mal entendidos, eu escolhi dar a minha visão do feminismo. Que, tenho certeza, é compartilhada por outras pessoas, mas tá longe de ser única, justamente porque somos muitas e este é um movimento bem plural.
Seguinte: feminismo não é dogma. Não é cartilha. É na verdade, além de um movimento social, uma filosofia, uma maneira de olhar o mundo. Por isso me dizia feminista antes mesmo de ter lido qualquer coisa específica sobre o tema, já que reconhecia a existência de uma desvantagem social em ser mulher. Muitas dessas desvantagens são construções culturais que costumam ser naturalizadas com um “mas as coisas são assim!”. Partindo do pressuposto que se “mas as coisas são assim” fosse um argumento válido, a humanidade não teria nem criado a roda, tem que ver isso aí. Digo que sou feminista porque tô afim de analisar e discutir a condição feminina na sociedade. O que não me obriga a concordar com tudo o que outra feminista diz. Tá cheio de feminista por aí com a qual concordo em muita coisa, mas discordo frontalmente em mais ainda. E é complicado, sabe, porque as pessoas tendem a olhar pra gente como coletivo e colocar todo mundo na mesma caixinha.
Mas nem é esse o principal problema, na verdade. O complicado é preencher a frase “você é feminista, logo___” com um estereótipo qualquer. E sabe qual o problema dos estereótipos? Eles no geral, não são mentirosos, mas tendem a ser muito limitados. “Você é feminista, logo não usa maquiagem” pode ser muito válido. Há feministas que não usam maquiagem não só porque não querem, mas porque vêem a exigência social das mulheres usarem maquiagem como uma opressão. E concordo também que exigir isso das mulheres é uma exigência social bem sexista com nossa aparência. Mas uso porque gosto e quando quero, não porque me sinto obrigada.
“Ah, mas então se eu gostar de tudo na minha vida, não tenho porque ser feminista, né?”. Não, não é por aí. É preciso sair do lugar comum. É preciso ao menos questionar suas escolhas, tentar entender o porque você gosta de algo, principalmente se sustentar este gosto te traz problemas. Nossos gostos não são inerentes, mas resultados de uma construção cultural, e não há nada de errado com isso. O problema é quando nossas escolhas nos oprimem, nos fazem sofrer, e a gente não se dá conta disso. Daí entra o feminismo. Não pra dizer que “feminista não usa batom”. Mas pra te alertar que se você perde minutos preciosos de sono toda manhã pra se maquiar porque se acha feia, talvez se maquiar não seja exatamente uma escolha. E que se você não tem dinheiro pra voltar de táxi e é obrigada a aceitar carona com aquele cara pegajoso porque sua grana foi gasta na cabeleireira e na manicure pra ir pra balada, talvez você esteja refém do papel social que está desempenhando.
Então o problema não é se casar, ficar solteira, ter filhos, não ter filhos, se maquiar, se depilar, sair peluda de casa ou o que quer que seja, assim, isoladamente. A questão é questionar o porquê certas construções sociais resultam em desvantagem pra gente e buscar soluções pra isso. As feministas e seus estilos de vida serão diversas justamente porque lutamos por um mundo mais diverso, mais rico em experiências e possibilidades para todas as mulheres, incluindo aquelas que optam por caminhos mais conservadores.
O povo lá do Blogueiras Feministas chamou uma postagem pra desmistificar o feminismo, como uma campanha de esclarecimento mesmo, e eu achei que valia a pena dar uma passadinha por aqui. Muita gente boa já escreveu pra blogagem, corre o risco de eu ser repetitiva, mas beleza. O importante é que, pra desfazer mal entendidos, eu escolhi dar a minha visão do feminismo. Que, tenho certeza, é compartilhada por outras pessoas, mas tá longe de ser única, justamente porque somos muitas e este é um movimento bem plural.
Seguinte: feminismo não é dogma. Não é cartilha. É na verdade, além de um movimento social, uma filosofia, uma maneira de olhar o mundo. Por isso me dizia feminista antes mesmo de ter lido qualquer coisa específica sobre o tema, já que reconhecia a existência de uma desvantagem social em ser mulher. Muitas dessas desvantagens são construções culturais que costumam ser naturalizadas com um “mas as coisas são assim!”. Partindo do pressuposto que se “mas as coisas são assim” fosse um argumento válido, a humanidade não teria nem criado a roda, tem que ver isso aí. Digo que sou feminista porque tô afim de analisar e discutir a condição feminina na sociedade. O que não me obriga a concordar com tudo o que outra feminista diz. Tá cheio de feminista por aí com a qual concordo em muita coisa, mas discordo frontalmente em mais ainda. E é complicado, sabe, porque as pessoas tendem a olhar pra gente como coletivo e colocar todo mundo na mesma caixinha.
Mas nem é esse o principal problema, na verdade. O complicado é preencher a frase “você é feminista, logo___” com um estereótipo qualquer. E sabe qual o problema dos estereótipos? Eles no geral, não são mentirosos, mas tendem a ser muito limitados. “Você é feminista, logo não usa maquiagem” pode ser muito válido. Há feministas que não usam maquiagem não só porque não querem, mas porque vêem a exigência social das mulheres usarem maquiagem como uma opressão. E concordo também que exigir isso das mulheres é uma exigência social bem sexista com nossa aparência. Mas uso porque gosto e quando quero, não porque me sinto obrigada.
“Ah, mas então se eu gostar de tudo na minha vida, não tenho porque ser feminista, né?”. Não, não é por aí. É preciso sair do lugar comum. É preciso ao menos questionar suas escolhas, tentar entender o porque você gosta de algo, principalmente se sustentar este gosto te traz problemas. Nossos gostos não são inerentes, mas resultados de uma construção cultural, e não há nada de errado com isso. O problema é quando nossas escolhas nos oprimem, nos fazem sofrer, e a gente não se dá conta disso. Daí entra o feminismo. Não pra dizer que “feminista não usa batom”. Mas pra te alertar que se você perde minutos preciosos de sono toda manhã pra se maquiar porque se acha feia, talvez se maquiar não seja exatamente uma escolha. E que se você não tem dinheiro pra voltar de táxi e é obrigada a aceitar carona com aquele cara pegajoso porque sua grana foi gasta na cabeleireira e na manicure pra ir pra balada, talvez você esteja refém do papel social que está desempenhando.
Então o problema não é se casar, ficar solteira, ter filhos, não ter filhos, se maquiar, se depilar, sair peluda de casa ou o que quer que seja, assim, isoladamente. A questão é questionar o porquê certas construções sociais resultam em desvantagem pra gente e buscar soluções pra isso. As feministas e seus estilos de vida serão diversas justamente porque lutamos por um mundo mais diverso, mais rico em experiências e possibilidades para todas as mulheres, incluindo aquelas que optam por caminhos mais conservadores.
segunda-feira, 27 de junho de 2011
Sobre criticar pessoas e criticar discursos
Lá vou eu. Pulando de cabeça na polêmica-mamilos sem bóia. Fui.
Seguinte. Myriam Rios, ex-celebridade, ex-namorada do Roberto Carlos e atual deputada estadual pelo RJ, falou aquela tanto de besteira na assembléia legislativa de seu estado. Associou homossexualismo a pedofilia. Daí, neste contexto, uma porção de gente foi procurar as fotos sensuais que ela fez mileanos atrás (algumas de antes de eu nascer) para denunciar a sua hipocrisia e seu falso moralismo. Outros não perderam a viagem e resolveram chamá-la de puta. Bom, a Conceição Oliveira fez parte do primeiro grupo. E eu discuti o assunto com ela no twitter. Como o espaço limitado lá dificulta bastante debater o que quer que seja, resolvo trazer a discussão pra cá.
O post no Maria Frô traz algumas fotos da Myriam Rios e se dirige “aos moralistas de plantão”. Termina com a pergunta: “Moralistas cristãos de plantão que aplaudiram as bobagens ditas por Myrian Rios, vocês a contratariam como babá?”. E quando uma leitora a indaga sobre o porque recuperar essas fotos, ela responde assim:
“Quanto a mim, destaquei as fotos, porque considero que o discurso falso-moralista e detrator de Myriam Rios não orna com a sua prática. Para os moralistas de plantão, 'boas mães cristãs de família' não posam nuas em revistas masculinas, ou posam?”
Sou da turma que pensa como a leitora Ana Paula Guedes, que se incomodou com o post. E meu argumento para a Conceição foi o de que não vejo porque seria incoerente posar nua 30 anos atrás e ser homofóbica hoje. Sobre essas fotos feitas 30 anos atrás podemos supor duas coisas: que ela se arrepende de tê-las feito ou que ela não vê problema algum nisso.
Pois bem. Vamos ao primeiro. É hipócrita desfrutar de sua vida, celebridade, beleza e juventude e, ao cair no ostracismo, virar fiscal de fiofó alheio? Ô se é. Mas a gente não sabe se foi isso que aconteceu. Porque o post diz: “é uma opção real decidir ser fotografada nua e cobrar por isso”. Mas o que a gente sabe é que nem sempre nessas situações as mulheres tem todo esse poder de escolher. Que esse “escolher”, pode ser até a página dois. Uma atriz mediana pode muito bem ter tido problemas financeiros, ter feito isso sem curtir porque precisava muito do dinheiro pra pagar os remédios da mãe doente ou [insira aqui qualquer outra situação dramática em que grana faz muita diferença], e hoje ficar realmente mal aos se lembrar que teve que se submeter a isso. Quer dizer, pode ter se arrependido porque ela não tava ali desfrutando a liberdade do seu corpo que agora o seu discurso quer negar. Talvez ela nunca tenha sido livre, até porque dizem que ninguém consegue oferecer o que não tem. Ou talvez ela realmente tenha mudado muito nestes 30 anos e não se reconheça nessas fotografia. Se é assim, lembrá-la disso com certeza é um ataque a ela. Mas seria um ataque eficiente ao seu discurso?
A Conceição no seu PS 2 se dirige a mim, explicando que para ela falsos moralistas para mim são aqueles que não seguem sequer o moralismo que pregam. E eu discordo aí, de novo, que a gente pode afirmar categoricamente que se trata de uma falsa moralista.
Vamos considerar agora que ela não se arrependeu de nada. Que apesar destas fotos serem antigas, ela faria tudo outra vez. Que acha lindo e tal. Não vejo contradição. Mulher posando nua pra revista masculina é algo super heteronormativo. Não ameaça em nada o status quo. Aqueles leitores conservadores a quem o post se dirige podem até ser realmente gratos pelos filhos terem tido a chance de bater uma punheta olhando uma moça tão bonita e garantir sua virilidade. E talvez sequer achem que não serviria para ser babá. Se ninguém mais concordar comigo, “Amar verbo intransitivo” tá aí pra não parecer que eu tirei isso da minha cabeça.
Enfim, não há nada de incoerente entre ter feitos aquelas fotos 30 anos atrás e ter este discurso hoje. O problema é ser homofóbico, ponto. Se a deputada tivesse saído direto do claustro das carmelitas descalças para tomar posse na Alerj, isso não tornaria seu discurso intolerante mais legítimo. Porque nada do que ela fez ou possa ter feito no passado conseguiria isso. E acho que quando a gente começa a discutir a pessoa, tira o foco do que realmente interessa neste caso. A Conceição em nenhum momento usou adjetivos machistas para qualificar Myrian Rios, mas hoje testemunhei gente buscando “material” para construir sua detratação misógina e o coleguinha de timeline dar o link do blog dela pra isso. Porque ela pode ter pensado crítica a uma mulher + foto sensuais = falsa moralista. Mas GERAL soma crítica a uma mulher + fotos sensuais = PUTA.
Seguinte. Myriam Rios, ex-celebridade, ex-namorada do Roberto Carlos e atual deputada estadual pelo RJ, falou aquela tanto de besteira na assembléia legislativa de seu estado. Associou homossexualismo a pedofilia. Daí, neste contexto, uma porção de gente foi procurar as fotos sensuais que ela fez mileanos atrás (algumas de antes de eu nascer) para denunciar a sua hipocrisia e seu falso moralismo. Outros não perderam a viagem e resolveram chamá-la de puta. Bom, a Conceição Oliveira fez parte do primeiro grupo. E eu discuti o assunto com ela no twitter. Como o espaço limitado lá dificulta bastante debater o que quer que seja, resolvo trazer a discussão pra cá.
O post no Maria Frô traz algumas fotos da Myriam Rios e se dirige “aos moralistas de plantão”. Termina com a pergunta: “Moralistas cristãos de plantão que aplaudiram as bobagens ditas por Myrian Rios, vocês a contratariam como babá?”. E quando uma leitora a indaga sobre o porque recuperar essas fotos, ela responde assim:
“Quanto a mim, destaquei as fotos, porque considero que o discurso falso-moralista e detrator de Myriam Rios não orna com a sua prática. Para os moralistas de plantão, 'boas mães cristãs de família' não posam nuas em revistas masculinas, ou posam?”
Sou da turma que pensa como a leitora Ana Paula Guedes, que se incomodou com o post. E meu argumento para a Conceição foi o de que não vejo porque seria incoerente posar nua 30 anos atrás e ser homofóbica hoje. Sobre essas fotos feitas 30 anos atrás podemos supor duas coisas: que ela se arrepende de tê-las feito ou que ela não vê problema algum nisso.
Pois bem. Vamos ao primeiro. É hipócrita desfrutar de sua vida, celebridade, beleza e juventude e, ao cair no ostracismo, virar fiscal de fiofó alheio? Ô se é. Mas a gente não sabe se foi isso que aconteceu. Porque o post diz: “é uma opção real decidir ser fotografada nua e cobrar por isso”. Mas o que a gente sabe é que nem sempre nessas situações as mulheres tem todo esse poder de escolher. Que esse “escolher”, pode ser até a página dois. Uma atriz mediana pode muito bem ter tido problemas financeiros, ter feito isso sem curtir porque precisava muito do dinheiro pra pagar os remédios da mãe doente ou [insira aqui qualquer outra situação dramática em que grana faz muita diferença], e hoje ficar realmente mal aos se lembrar que teve que se submeter a isso. Quer dizer, pode ter se arrependido porque ela não tava ali desfrutando a liberdade do seu corpo que agora o seu discurso quer negar. Talvez ela nunca tenha sido livre, até porque dizem que ninguém consegue oferecer o que não tem. Ou talvez ela realmente tenha mudado muito nestes 30 anos e não se reconheça nessas fotografia. Se é assim, lembrá-la disso com certeza é um ataque a ela. Mas seria um ataque eficiente ao seu discurso?
A Conceição no seu PS 2 se dirige a mim, explicando que para ela falsos moralistas para mim são aqueles que não seguem sequer o moralismo que pregam. E eu discordo aí, de novo, que a gente pode afirmar categoricamente que se trata de uma falsa moralista.
Vamos considerar agora que ela não se arrependeu de nada. Que apesar destas fotos serem antigas, ela faria tudo outra vez. Que acha lindo e tal. Não vejo contradição. Mulher posando nua pra revista masculina é algo super heteronormativo. Não ameaça em nada o status quo. Aqueles leitores conservadores a quem o post se dirige podem até ser realmente gratos pelos filhos terem tido a chance de bater uma punheta olhando uma moça tão bonita e garantir sua virilidade. E talvez sequer achem que não serviria para ser babá. Se ninguém mais concordar comigo, “Amar verbo intransitivo” tá aí pra não parecer que eu tirei isso da minha cabeça.
Enfim, não há nada de incoerente entre ter feitos aquelas fotos 30 anos atrás e ter este discurso hoje. O problema é ser homofóbico, ponto. Se a deputada tivesse saído direto do claustro das carmelitas descalças para tomar posse na Alerj, isso não tornaria seu discurso intolerante mais legítimo. Porque nada do que ela fez ou possa ter feito no passado conseguiria isso. E acho que quando a gente começa a discutir a pessoa, tira o foco do que realmente interessa neste caso. A Conceição em nenhum momento usou adjetivos machistas para qualificar Myrian Rios, mas hoje testemunhei gente buscando “material” para construir sua detratação misógina e o coleguinha de timeline dar o link do blog dela pra isso. Porque ela pode ter pensado crítica a uma mulher + foto sensuais = falsa moralista. Mas GERAL soma crítica a uma mulher + fotos sensuais = PUTA.
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Mulheres e guitarras
Nunca tinha ouvido falar da Kaki King. Daí a Babi Lopes falou dela na lista e chamou a galera pro show. Fez até uma entrevista com ela.
Bom, a companhia era ótima, o preço era bom, e depois de ver o vídeo no youtube, não foi difícil decidir:
Garanto pra vocês que ao vivo é ainda mais bacana. E o mais legal é que ela é absolutamente low profile: minutos antes antes do se apresentar tava encolhida num sofá no Sesc Belemzinho lendo um livro pra passar o tempo.
A Kaki King foi a primeira mulher nomeada pela revista Rolling Stone como uma "guittar god(ess)". Daí ela me fez lembrar um outra mulher, vinda de um contexto completamente diferente, mas que também se destacou neste ambiente ainda tão machista que é o dos guitarristas:
Imaginem quanta mulher talentosa tem por este mundo tocando pra caramba, mas tendo que trabalhar duas vezes mais do que os homens pra ser reconhecida? Chato, isso.
Bom, a companhia era ótima, o preço era bom, e depois de ver o vídeo no youtube, não foi difícil decidir:
Garanto pra vocês que ao vivo é ainda mais bacana. E o mais legal é que ela é absolutamente low profile: minutos antes antes do se apresentar tava encolhida num sofá no Sesc Belemzinho lendo um livro pra passar o tempo.
A Kaki King foi a primeira mulher nomeada pela revista Rolling Stone como uma "guittar god(ess)". Daí ela me fez lembrar um outra mulher, vinda de um contexto completamente diferente, mas que também se destacou neste ambiente ainda tão machista que é o dos guitarristas:
Imaginem quanta mulher talentosa tem por este mundo tocando pra caramba, mas tendo que trabalhar duas vezes mais do que os homens pra ser reconhecida? Chato, isso.
sábado, 28 de maio de 2011
Por políticas mais eficientes para a saúde da mulher
Hoje, dia 28 de maio, é dia de blogagem coletiva pró saúde da mulher. Hoje é sábado, são 6:42 da manhã, eu tô de ressaca, tenho aula na pós, mala pra fazer e ainda vou tentar aparecer na Marcha pela Liberdade. Mas senti que, pra mim, era importante sair da cama mais cedo pra falar sobre isso.
Sim, nós feministas sabemos que homens e mulheres são diferentes biologicamente. Não precisamos de nenhum artigo pseudo científico pra reafirmar isso, porque , olhem só, vivemos um tsunami hormonal mensalmente. E isso acontece por conta da reprodução, que como eu já disse lá no meu post do Blogueiras Feministas, é um trabalho social. E mesmo quem nunca se interessou por ter filhos, está sujeita a problemas de saúde relacionados ao sistema reprodutivo.
Então, como não vou conseguir elaborar muito, deixo um link para um blog sobre endometriose. A jornalista Caroline Salazar tem um blog em que expõe de maneira muito corajosa a sua batalha contra a doença, que a obrigou a se afastar do trabalho para o tratamento. Pra quem não sabe, a endometriose é uma doença crônica que leva o tecido do endométrio, o revestimento do útero, a crescer em lugares onde ele não deveria estar. Como um câncer, só que benigno. Mas o termo benigno pode levar à falsa impressão de que se trata de algo simples, quando na verdade é uma doença que pode provocar danos sérios à saúde física e emocional da mulher, porque provoca muita dor. Como há dificuldades para diagnosticá-la, a mulher pode passar anos sentindo dores lanscinantes sem saber que sofre de uma patologia. Porque tem mais essa, como é esperado que sintamos dor mesmo quando estamos saudáveis (poucas são as felizardas que nunca tiveram cólica menstrual), há profissionais de saúde que minimizam queixas de suas pacientes.
Em 2007, uma amiga minha foi diagnósticada de endometriose. Acompanhei seu sofrimento. Primeiro, 2 meses sem mentruar e o pânico de estar grávida, situação desmentida após sucessivos exames de gravidez darem negativo. Depois, crises de dores agudas confundidas com apendicite. Não me lembro de ela chegou ser operada para apendicite. Dias e dias de afastamento do trabalho dada a violência das dores, mas algumas semanas após a cirurgia. Soma-se a isso o medo de não ser capaz de engravidar.
Passados poucos meses da cirurgia, minha amiga participou de um processo de seleção para uma vaga de trabalho que oferecia, entre outros benefícios, morar do país legalmente, como ela também sonhava. Viu-se obrigada a omitir sua doença no exame médico, uma vez que isso poderia inviabilizar sua contratação mesmo estando em perfeitas condições de trabalho naquele momento. Há quem digo que isso é antiético. Pois eu digo que entre ter empatia por uma mulher com um problema de saúde tratável que precisa de trabalho e uma empresa gigantesca, não tenho dúvidas sobre quem escolho.
Minha amiga está bem agora. Foi diagnosticada cedo e logo conseguiu tratamento. Tinha um bom plano de saúde e, o mais importante, acesso à informações sobre a doença. Não é o que acontece com a maioria das mulheres. E acho realmente que há pouca divulgação sobre essa doença tão séria. E é essa negligência em disseminar a informação que faz com que milhares de mulheres, todos os dias, sejam vistas por seus empregadores como preguiçosas quando tem que se afastar do trabalho.
(ces prometem que não prestam muita atenção aos erros? é q não vou ter tempo de revisar MESMO. agradecida)
Sim, nós feministas sabemos que homens e mulheres são diferentes biologicamente. Não precisamos de nenhum artigo pseudo científico pra reafirmar isso, porque , olhem só, vivemos um tsunami hormonal mensalmente. E isso acontece por conta da reprodução, que como eu já disse lá no meu post do Blogueiras Feministas, é um trabalho social. E mesmo quem nunca se interessou por ter filhos, está sujeita a problemas de saúde relacionados ao sistema reprodutivo.
Então, como não vou conseguir elaborar muito, deixo um link para um blog sobre endometriose. A jornalista Caroline Salazar tem um blog em que expõe de maneira muito corajosa a sua batalha contra a doença, que a obrigou a se afastar do trabalho para o tratamento. Pra quem não sabe, a endometriose é uma doença crônica que leva o tecido do endométrio, o revestimento do útero, a crescer em lugares onde ele não deveria estar. Como um câncer, só que benigno. Mas o termo benigno pode levar à falsa impressão de que se trata de algo simples, quando na verdade é uma doença que pode provocar danos sérios à saúde física e emocional da mulher, porque provoca muita dor. Como há dificuldades para diagnosticá-la, a mulher pode passar anos sentindo dores lanscinantes sem saber que sofre de uma patologia. Porque tem mais essa, como é esperado que sintamos dor mesmo quando estamos saudáveis (poucas são as felizardas que nunca tiveram cólica menstrual), há profissionais de saúde que minimizam queixas de suas pacientes.
Em 2007, uma amiga minha foi diagnósticada de endometriose. Acompanhei seu sofrimento. Primeiro, 2 meses sem mentruar e o pânico de estar grávida, situação desmentida após sucessivos exames de gravidez darem negativo. Depois, crises de dores agudas confundidas com apendicite. Não me lembro de ela chegou ser operada para apendicite. Dias e dias de afastamento do trabalho dada a violência das dores, mas algumas semanas após a cirurgia. Soma-se a isso o medo de não ser capaz de engravidar.
Passados poucos meses da cirurgia, minha amiga participou de um processo de seleção para uma vaga de trabalho que oferecia, entre outros benefícios, morar do país legalmente, como ela também sonhava. Viu-se obrigada a omitir sua doença no exame médico, uma vez que isso poderia inviabilizar sua contratação mesmo estando em perfeitas condições de trabalho naquele momento. Há quem digo que isso é antiético. Pois eu digo que entre ter empatia por uma mulher com um problema de saúde tratável que precisa de trabalho e uma empresa gigantesca, não tenho dúvidas sobre quem escolho.
Minha amiga está bem agora. Foi diagnosticada cedo e logo conseguiu tratamento. Tinha um bom plano de saúde e, o mais importante, acesso à informações sobre a doença. Não é o que acontece com a maioria das mulheres. E acho realmente que há pouca divulgação sobre essa doença tão séria. E é essa negligência em disseminar a informação que faz com que milhares de mulheres, todos os dias, sejam vistas por seus empregadores como preguiçosas quando tem que se afastar do trabalho.
(ces prometem que não prestam muita atenção aos erros? é q não vou ter tempo de revisar MESMO. agradecida)
quarta-feira, 27 de abril de 2011
27 de abril - Dia Nacional das Trabalhadoras Domésticas
Fiquei sabendo da data pela lista de discussão das Blogueiras Feministas. Não queria deixar passar a data, porque eu acho que é importantíssimo discutir a questão desta classe de trabalhadoras. Mas daí, vocês sabem, eu sou uma sujeita meio sem-vergonha e preguiçosa. E a Bia fez este post incrível, completíssimo e cheio de informações úteis. Então, se eu fosse você, dava um pulo lá e, caso ainda não conheça, aproveite pra conhecer o blog dela que é luxo só.
Apesar da preguiça, cabe no mínimo a minha opinião sobre o assunto. Como a Bia disse lá e a gente sabe bem, o trabalho doméstico não é um trabalho como qualquer outro. É um trabalho que só existe porque existe desigualdade social, e um grupo de pessoas privilegiado pode se dar ao luxo de delegar a outrem tarefas que não lhe agradam. A desculpa que sempre ouvimos é: “mas eu preciso, não tenho tempo!”, “mas quem cuidará dos meus filhos?”. Daí que a empregada pode ser uma pessoa que também tem casa pra e filhos, mas ela que dê um jeito nisso tudo. O trabalho doméstico faz com nossas necessidades nos pareçam maiores que as necessidades alheias. Contraprodutivo para sensibilidade social, portanto.
Além disso, a terceirização destas tarefas atrasa em muito a discussão da divisão de tarefas. Porque olhem só, nas classes mais esclarecidas que poderiam ser “vanguarda”, a gente não precisa discutir nada. Os moços bem instruídos tem empregada na casa da mãe. Se saem de casa sem se casar, em geral contratam ao menos uma diarista. Se se casam, tem outra diarista lá. Sempre uma mulher cuidando das tarefas. “Mas Iara, peralá, ela só vem uma vez por semana, no resto sou eu que lavo a louça e coloco a roupa pra lavar.” Aham. Lava a cozinha? O banheiro? Limpa azulejo? Os vidros? Tira a poeira das estantes? Desengordura os armários? Provavelmente não. Faz o mínimo pra tocar a vida e a parte pesada fica com uma mulher mesmo. Logo, terceirizar essa tarefa é contraprodutivo para a discussão feminista. Como a Mary W disse em nossa lista, maridão lavar a louça no domingo não é divisão de tarefas, tá?
Bom, daí que apesar da desigualdade de classe e de gênero me incomodar, contrato os serviços de uma diarista a cada 15 dias. Por que eu sou cínica? É uma leitura possível, claro. Mas não acredito que o fato de não contratar alguém e gastar esse dinheiro com qualquer outra coisa resolverá, por si só, estas questões. Contratar, dizer que o mundo é assim e não pensar mais no assunto resolve menos ainda. Então tô aí. Pensando. Discutindo. Enquanto isso, o mínimo que se pode fazer é trazer à luz estas discussões e não deixar que esta classe, que justamente pelas condições em que este trabalho se dá tem dificuldade de se mobilizar coletivamente para reivindicar respeito, seja invisível.
Update:
Ah, sim, né? Preguiçosa demais, eu. Isso é uma blogagem coletiva e além do post da Bia linkado aí no texto tem esses muito bacanas da Denise:
http://drang.com.br/blog/2011/04/trabalho-domestico-faca-a-sua-parte/
E da Luka:
http://bdbrasil.org/2011/04/27/seja-empregada-domestica-ou-tercerizada-a-sina-e-a-mesma-invisibilidade/
O da Luka inclusive menciona a questão da terceirização da faxina. Por coincidência eu tô com um post semi-pronto sobre terceirizações no geral. Pretendo não enrolar muito pra terminá-lo e postá-lo mas, né? Oremos.
Apesar da preguiça, cabe no mínimo a minha opinião sobre o assunto. Como a Bia disse lá e a gente sabe bem, o trabalho doméstico não é um trabalho como qualquer outro. É um trabalho que só existe porque existe desigualdade social, e um grupo de pessoas privilegiado pode se dar ao luxo de delegar a outrem tarefas que não lhe agradam. A desculpa que sempre ouvimos é: “mas eu preciso, não tenho tempo!”, “mas quem cuidará dos meus filhos?”. Daí que a empregada pode ser uma pessoa que também tem casa pra e filhos, mas ela que dê um jeito nisso tudo. O trabalho doméstico faz com nossas necessidades nos pareçam maiores que as necessidades alheias. Contraprodutivo para sensibilidade social, portanto.
Além disso, a terceirização destas tarefas atrasa em muito a discussão da divisão de tarefas. Porque olhem só, nas classes mais esclarecidas que poderiam ser “vanguarda”, a gente não precisa discutir nada. Os moços bem instruídos tem empregada na casa da mãe. Se saem de casa sem se casar, em geral contratam ao menos uma diarista. Se se casam, tem outra diarista lá. Sempre uma mulher cuidando das tarefas. “Mas Iara, peralá, ela só vem uma vez por semana, no resto sou eu que lavo a louça e coloco a roupa pra lavar.” Aham. Lava a cozinha? O banheiro? Limpa azulejo? Os vidros? Tira a poeira das estantes? Desengordura os armários? Provavelmente não. Faz o mínimo pra tocar a vida e a parte pesada fica com uma mulher mesmo. Logo, terceirizar essa tarefa é contraprodutivo para a discussão feminista. Como a Mary W disse em nossa lista, maridão lavar a louça no domingo não é divisão de tarefas, tá?
Bom, daí que apesar da desigualdade de classe e de gênero me incomodar, contrato os serviços de uma diarista a cada 15 dias. Por que eu sou cínica? É uma leitura possível, claro. Mas não acredito que o fato de não contratar alguém e gastar esse dinheiro com qualquer outra coisa resolverá, por si só, estas questões. Contratar, dizer que o mundo é assim e não pensar mais no assunto resolve menos ainda. Então tô aí. Pensando. Discutindo. Enquanto isso, o mínimo que se pode fazer é trazer à luz estas discussões e não deixar que esta classe, que justamente pelas condições em que este trabalho se dá tem dificuldade de se mobilizar coletivamente para reivindicar respeito, seja invisível.
Update:
Ah, sim, né? Preguiçosa demais, eu. Isso é uma blogagem coletiva e além do post da Bia linkado aí no texto tem esses muito bacanas da Denise:
http://drang.com.br/blog/2011/04/trabalho-domestico-faca-a-sua-parte/
E da Luka:
http://bdbrasil.org/2011/04/27/seja-empregada-domestica-ou-tercerizada-a-sina-e-a-mesma-invisibilidade/
O da Luka inclusive menciona a questão da terceirização da faxina. Por coincidência eu tô com um post semi-pronto sobre terceirizações no geral. Pretendo não enrolar muito pra terminá-lo e postá-lo mas, né? Oremos.
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
Mulher e Mercado de Trabalho
Vocês já conhecem o blog coletivo das blogueiras feministas? Não? Então passem lá. Dia desses alguém avisou na nossa lista de discussão que a Carolina Pombo estava agitando uma blogagem coletiva hoje sobre mulheres e mercado de trabalho. Alguém criou um tópico no nosso fórum, boas idéias surgiram e a Bia editou e fez um post. Daí que eu não vou fazer um aqui, porque minha idéias já estão todas lá - assim como o crédito à outras companheiras de fórum inspiradas que contribuíram para a discussão. Visitem o blog e conheçam mulheres fantásticas com quem tenho trocado figurinhas ultimamente. E se alguém que passa por aqui quiser se juntar ao fórum, me avise, tá? Já adianto que o volume de mensagens é enlouquecedor, mas o aprendizado e a troca de experiências têm sido fantástico.
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
A posse da presidenta
Por onde começar? Foi tudo tão lindo! Primeiro, porque eu tava morrendo de ansiedade por encontrar gente que eu só conhecia pela internet. Não que isso seja tão novidade assim na minha vida, mas, né? Toda uma situação especial. Mulheres que eu aprendi a respeitar sem conhecer. E não poderia ter sido mais legal nesse aspecto. Abraços apertado e sorrisos generosos de gente que parecia amiga de longa data.
Mas vamos ao evento. O clima era lindo. Povo tirando foto com bandeira e camiseta da campanha já no aeroporto de Congonhas. No aeroporto, conhecemos uma moça que, numa demonstração de orgulho democrático do qual assumo ser incapaz, disse que não tinha votado na Dilma, mas estava indo assistir à posse por que afinal de contas “ela seria presidenta de todo mundo”. Chegando à Brasília enfim, um inferno pra quem não gosta de “petista” (leia-se todos aqueles que acham que, se votou no PT, é petista automaticamente, e isso é péssimo). Muita gente animada pra festa.
Eu sei que ao chegar na Esplanada dos Ministérios no sábado meus olhos já se encheram d'água. Vi uma moça com uma camiseta escrito “lugar de mulher é na presidência” (tem foto dessa moça aqui). E caiu a ficha legal, de que aquele era um momento histórico, que com certeza ia marcar a minha vida e a de milhões de brasileiros e de brasileiras (das últimas especialmente, claro). A Esplanada estava decorada com Banners que lembravam grande mulheres da nossa história. Nós éramos as protagonistas, isso estava claro.
Bom, a frustração maior é porque a chuva mais forte caiu 2 minutos antes dela passar de carro aberto a 3 metros de onde estávamos. Nos molhamos horrores e só vi a mão da presidenta acenando do lado de fora do carro. Ok, faz parte. Depois, fomos pra frente do Palácio do Planalto. E eu cai no choro pesado quando o Sarney disse “declaro empossada a presidenta”. E eu chorei durante o hino nacional. Vergonha de contar, parece um ufanismo à la Galvão Bueno, mas eu pensei em tanta coisa. Lembrei que o meu pai foi torturado, como ela. Lembrei do quanto esse país já melhorou, do quanto somos mais democráticos, da infância inteira ouvindo que somos o país do futuro e, olha lá, eu tenho 30 anos, o futuro chegou, e é esse momento tão cheio de esperança. E quando eu tava quase com os olhos secos, ouvi uma senhora do meu lado dizer que ela seria “uma babaca” se não fosse assistir a posse, porque ela achava que só as netas ou bisnetas veriam uma mulher presidente, um dia. Daí acontece de ser uma mulher da idade dela, e de esquerda, ela tinha que testemunhar. Voltei a chorar.
Havia toda a ansiedade pela despedida do Lula. Mas ele, generoso que só, se esforçou pra não ofuscar a estrela do dia. Foi lindo ver ele descer a rampa e, silencioso, se juntar a galera.
Bom, depois fomos com o povo comemorar. Fechamos um boteco, depois fechamos o segundo (nem foi uma super noitada, os bares lá fecham cedo). Em algum momento da noite descobrimos que a Maria Frô não iria se juntar a nós porque ela era rycah e conseguiu entrar na festa oficial no Itamaraty. E eu não tive inveja porque sou um ser evoluído (mentchira). Mas, voltando ao boteco, chamou a atenção o clima da nossa mesa. Os poucos homens num confortável papel de coadjuvantes. A festa era nossa, e eles estavam felizes pelo país e também por verem suas companheiras tão felizes juntas. O que me faz dizer a você, moça solteira a procura de companhia masculina: não se satisfaça com qualquer pão com ovo machistinha. Tem homem bacana por aí. É difícil de encontrar, mas você é brasileira e não desiste nunca, certo?
Enfim, o que mais posso contar, gente? Só que eu fiquei muito feliz, mesmo. Valeu demais a grana, o tempo, o desconforto da chuva, os tênis até agora sujos de lama e o medão de pousar em Congonhas em noite de chuva. Valeu tudo, valeu muito. Agora é torcer muito pra que ela seja bem sucedida na árdua tarefa de suceder a um dos líderes mais populares do mundo. Trabalho duro, mas né? Eu boto fé. Vocês não? ;-)
Bom, as fotos:



Eu não gosto de por fotos minhas aqui, mas a ocasião merece. Várias blogueiras e "arrobas" famosas e eu. Sou a sem capa, da direita "toda molhadinha".
Mas vamos ao evento. O clima era lindo. Povo tirando foto com bandeira e camiseta da campanha já no aeroporto de Congonhas. No aeroporto, conhecemos uma moça que, numa demonstração de orgulho democrático do qual assumo ser incapaz, disse que não tinha votado na Dilma, mas estava indo assistir à posse por que afinal de contas “ela seria presidenta de todo mundo”. Chegando à Brasília enfim, um inferno pra quem não gosta de “petista” (leia-se todos aqueles que acham que, se votou no PT, é petista automaticamente, e isso é péssimo). Muita gente animada pra festa.
Eu sei que ao chegar na Esplanada dos Ministérios no sábado meus olhos já se encheram d'água. Vi uma moça com uma camiseta escrito “lugar de mulher é na presidência” (tem foto dessa moça aqui). E caiu a ficha legal, de que aquele era um momento histórico, que com certeza ia marcar a minha vida e a de milhões de brasileiros e de brasileiras (das últimas especialmente, claro). A Esplanada estava decorada com Banners que lembravam grande mulheres da nossa história. Nós éramos as protagonistas, isso estava claro.
Bom, a frustração maior é porque a chuva mais forte caiu 2 minutos antes dela passar de carro aberto a 3 metros de onde estávamos. Nos molhamos horrores e só vi a mão da presidenta acenando do lado de fora do carro. Ok, faz parte. Depois, fomos pra frente do Palácio do Planalto. E eu cai no choro pesado quando o Sarney disse “declaro empossada a presidenta”. E eu chorei durante o hino nacional. Vergonha de contar, parece um ufanismo à la Galvão Bueno, mas eu pensei em tanta coisa. Lembrei que o meu pai foi torturado, como ela. Lembrei do quanto esse país já melhorou, do quanto somos mais democráticos, da infância inteira ouvindo que somos o país do futuro e, olha lá, eu tenho 30 anos, o futuro chegou, e é esse momento tão cheio de esperança. E quando eu tava quase com os olhos secos, ouvi uma senhora do meu lado dizer que ela seria “uma babaca” se não fosse assistir a posse, porque ela achava que só as netas ou bisnetas veriam uma mulher presidente, um dia. Daí acontece de ser uma mulher da idade dela, e de esquerda, ela tinha que testemunhar. Voltei a chorar.
Havia toda a ansiedade pela despedida do Lula. Mas ele, generoso que só, se esforçou pra não ofuscar a estrela do dia. Foi lindo ver ele descer a rampa e, silencioso, se juntar a galera.
Bom, depois fomos com o povo comemorar. Fechamos um boteco, depois fechamos o segundo (nem foi uma super noitada, os bares lá fecham cedo). Em algum momento da noite descobrimos que a Maria Frô não iria se juntar a nós porque ela era rycah e conseguiu entrar na festa oficial no Itamaraty. E eu não tive inveja porque sou um ser evoluído (mentchira). Mas, voltando ao boteco, chamou a atenção o clima da nossa mesa. Os poucos homens num confortável papel de coadjuvantes. A festa era nossa, e eles estavam felizes pelo país e também por verem suas companheiras tão felizes juntas. O que me faz dizer a você, moça solteira a procura de companhia masculina: não se satisfaça com qualquer pão com ovo machistinha. Tem homem bacana por aí. É difícil de encontrar, mas você é brasileira e não desiste nunca, certo?
Enfim, o que mais posso contar, gente? Só que eu fiquei muito feliz, mesmo. Valeu demais a grana, o tempo, o desconforto da chuva, os tênis até agora sujos de lama e o medão de pousar em Congonhas em noite de chuva. Valeu tudo, valeu muito. Agora é torcer muito pra que ela seja bem sucedida na árdua tarefa de suceder a um dos líderes mais populares do mundo. Trabalho duro, mas né? Eu boto fé. Vocês não? ;-)
Bom, as fotos:
Eu não gosto de por fotos minhas aqui, mas a ocasião merece. Várias blogueiras e "arrobas" famosas e eu. Sou a sem capa, da direita "toda molhadinha".
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
O coletor menstrual – ou pequenos desastres

Até uns dois meses atrás eu nunca tinha sequer ouvido falar em coletor menstrual. Não tinha a menor ideia do que era. Você não tem? Então a parte objetiva da explicação será um oferecimento de Wikipedia.
Leu lá no link? Beleza. Eu descobri a existência dos coletores fuçando em links de blogs feministas (mas não vou lembrar onde exatamente pra dar o crédito, desculpem). Fiquei enlouquecida. Como assim eu não tinha ouvido falar daquilo? Como assim não precisar mais comprar absorvente? Como assim é seguro, a gente não sente que está lá, e é ecológico. Etc, etc. Fucei mais links, li bastante coisa, e resolvi experimentar.
Antes de contar minha experiência, um comentário importante: o fato de não ser descartável te causa nojo? Ok, você não está sozinha. Mas vamos explorar isso. Nosso corpo não é sujo. O sangue menstrual só tem aquele cheiro ruim depois de começar a se decompor, já no absorvente, por conta do contato com o ar. Ora, o coletor, pra funcionar corretamente, impede o sangue de ter contato com o ar, porque forma uma barreira. Ele deve ser sempre manipulado com as mãos limpas, lavado quando for esvaziado e fervido ao início e final de cada ciclo menstrual num recipiente exclusivo. Também é desnecessário dizer que é feito de um material inerte, ou seja, que não colabora para a proliferação de bactérias. Pessoalmente, não sei como isso pode ainda ser nojento, mas eu sei que a noção de repulsa varia muito de pessoa pra pessoa. Só convido quem passar por aqui a questionar certos preconceitos e não julgar quem pensa diferente, beleza? Você pode achar nojento pra você, mas eu não acho e continuo sendo uma pessoa bem limpinha.
Enfim, comprei o meu aqui. Carinho (R$70,00), mas chegou numa boa. O alto custo de aquisição deve ser encarado como um investimento inicial, pois dada a durabilidade do coletor, o que você economiza em absorventes compensa e muito (claro, isso se você não for nó cega como eu, mas eu explico depois). Tava super empolgada. Comecei a usar e pensava escrever sobre ele aqui assim que terminasse o meu ciclo menstrual. Como tinha lido bastante sobre, já sabia que existe um pequeno desconforto ao tirar até a gente se adaptar, que ele não deve ser colocado muito no fundo como a gente faz com absorvente interno, enfim, tinha algum contato com os macetes. E os primeiros dias não poderiam ter sido melhores. Nenhum problema pra colocar, nenhum vazamento, não o sentia dentro de mim e adeus cheiro desagradável de absorvente usado no lixo do banheiro. A felicidade existe.
Hoje era o teste de fogo. Isso porque eu tenho um ciclo meio esquisito. Parece que 70% do fluxo desce num intervalo de algumas horas no meio do ciclo, e antes de depois é bem pouco. Daí que o momento da enxurrada foi a manhã de hoje. O coletor tem capacidade para 40ml* e li por aí que, como o volume de fluxo por ciclo menstrual é de 80 ml dividido por todos os dias, é possível ficar com o coletor entre 8 e 12 horas sem trocar. Pois bem, eu me troquei às 7:30 da manhã e as 11:00 ele estava quase cheio. Joguei o sangue na privada e fui lavar o coletor com a ajuda da ducha higiênica que temos em um dos reservados do banheiro. O jato estava fortíssimo, o coletor escorregou da minha mão e sequer o vi na privada: com a força do jato foi pra fossa direto. Como eu estava toda empolgada com minha nova aquisição, sequer tinha absorventes na bolsa: tive que fazer aquele bolinho de papel higiênico e correr na farmácia mas próxima (caríssima) e comprar um pacote de emergência. Setenta reais fossa abaixo que eu praticamente não usufruí e a imensa frustração de estar usando moddess de novo. :\
Apesar da minha primeira experiência atrapalhada, recomendo muito. Tô muito puta com o dinheiro que foi pela privada, mas assim que passar o bode e o medo de fazer burrada de novo, vou voltar a comprá-lo (tô toda trabalhada no 13º, mas eu sou pãodura e a raiva de gastar com isso de novo vai me impedir de resolver isso hoje). O coletor é prático e mais confortável que o absorvente interno, e muitíssimo mais barato (uma caixa de tampax custa uns 10 reais, né?) a longo prazo. Se como eu você ficou curiosa, leia, pesquise, pergunte. Desconfie sempre do senso comum, até nas coisas pequenas. É muito interessante pra indústria que a gente ache que higiene = descarte. Fico pensando que os coletores poderiam ser muito mais baratos se a escala de produção fosse maior, e em quanto a indústria farmacêutica perderia com isso. Penso também no tabu que é pra muitas mulheres manipular a região genital, em quanto a gente perde não conhecendo o próprio corpo. Não tô afim de me aprofundar nisso agora, nem teria conhecimento suficiente pra dar conta, mas toda essa relação da associação do sangue menstrual à sujeira e o tabu em relação a penetração de qualquer coisa em nossas vaginas que não seja o pênis do sacrossanto marido me fazem pensar na questão do corpo feminino como objeto de disputas políticas. Toda a construção cultural sobre como a gente deve lidar com um processo natural como a menstruação é uma questão antropológica importante, ao meu ver.
(E este final inspiradinho foi só pra eu fingir pra mim mesmo que sou uma mulher inteligente, não uma anta que deixa 70 pilas iram com a descarga. Ô, raiva!)
*Update: no site que vende o Meluna eu vi que a capacidade do coletor médio, o que eu tinha, é só de 15ml (logo, eu não tenho uma semi-hemorragia, só um ciclo forte - que bom). Mas na internet vi comparações com outras marcas e parece que o Meluna é o menorzinho deles, que o grande do Meluna é do tamanho do pequeno de outras marcas. O meu próximo com certeza será maior, pra ter um pouco mais de tranquilidade.
**Update 2: Trocando informações sobre o assunto num fórum feminista, fiquei sabendo que dá pra comprar muito mais barato pelo eBay. Segue um link pra um modelo por 18 dólares: aqui.
(Obrigada, Vanessa! =D
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Sobre ferros de passar - entre outras coisas

Lembram de mim? Pois é, esse blog está abandonado não por falta de assunto, nem por conta do trabalho da pós – que aliás, eu escrevi só mais 2 páginas além do que tinha feito no semestre passado e entreguei. Bateu foi um cansaço enorme de um ano corrido e sem férias (licença de 10 dias pra fazer uma cirurgia e ficar de molho não é exatamente férias, né?), e o saco cheio de um trabalho que não chega ser ruim, mas também tá longe de ser animador. Ok, eu sobrevivo, e pra compensar, senta que o assunto é longo.
Segunda fui ao shopping, antes dele virar um inferno, comprar os presentes de Natal. Tenho duas sobrinhas (do marido, na verdade, mas já adotei, né?), com menos de 1 ano de diferença entre elas. São primas, bem diferentes tanto fisicamente quanto na personalidade, mas tem em comum a fofurice extrema – ok, corujice mode off. E eu acho uma dificuldade comprar presentes pra elas no shopping. A imensa maioria dos brinquedos é muito sexista. Nas lojas, tirando os brinquedos para bebezinhos, os outros são separados por gênero. E, puxa, vou chover no molhado aqui, mas como isso é carregado de ideologia. Aos 3 anos de idade essas crianças são doutrinadas pra ocupar seu lugar no mundo. E isso acontece não só com as meninas, claro. Com os meninos é a mesma coisa. Porque tantos carrinhos, gente? Quando crescerem, já vão ter internalizados que carro = pernas. Ou, em muitos casos, carro = pau. Mas voltando às meninas. A vendedora nos ofereceu um joguinho cujo nome deveria ser algo do tipo “beauty make-up”, algo pra ensiná-las a se maquiarem desde cedo. E também um conjunto de ferro + tábua de passar. Pausa aqui. Nada contra a ideia de brincar de panelinha, por exemplo. Comidas são lúdicas, claro, e emular tarefas de adulto não é necessariamente ruim. Mas duvideodó que alguém desse um jogo de ferro + tábua pra um menino, né?
Daí, sou obrigada a contar da minha experiência na França. A menina que eu cuidava lá era bem mimada, ganhava muitos brinquedos. Pilhas deles na verdade, e além disso acho que tinha mais livros aos 6 anos do que eu do que eu tenho aos 30. Mas uma coisa eu achava o máximo: ela era estimulada a brincar de tudo. Nada era proibido. Ela tinha algumas bonecas, tinha panelinhas, mas tinha também um castelo medieval Playmobil. E tinha um joguinho de ferramentas mecânicas de plástico para montar carrinhos. No Natal que eu passei lá, ela disse que queria, entre outros presentes, uma fantasia de princesa. E a mãe levou-a a loja pra escolher a fantasia mais bonita. Mas ela viu do rei Arthur, que vinha com espada e escudo, e gostou mais. Nada de “isso é de menino, não pode” nem de “mas vestido de princesa é machista e fútil!”. Liberdade pra descobrir o mundo, sabem como é? Lembrei dela na segunda-feira porque a mãe me contou uma história engraçada uma vez. A professora tinha achado curioso porque a Lola viu um ferro de passar num livro e não conhecia, apesar de ser uma menina tão viva e inteligente. A mãe explicou pra professora que era natural, porque a área de serviço era no porão, a Lola tinha medo de ir lá, então não tinha contato com o ato de passar roupas mesmo. Daí a professora retrucou: “ué, mas ela não tem um ferro de passar de brinquedo?”.
Bom, neste ponto eu mudo um pouco o assunto. Eu não sei passar roupa. Sou péssima, mesmo. Então compro roupas que não amassam, coloco pra secarem esticadinhas no cabide, e vamos vivendo. Marido não precisa trabalhar de camisa social, então apesar de termos uma tábua em casa, ela é pouco utilizada. Ah, sim, temos uma faxineira trabalhando pra gente a cada 15 dias. Não vou me aprofundar aqui na questão social do trabalhador doméstico, mas cabe dizer que apesar de ser muito crítica do modelo de desigualdade social brasileiro que permite às pessoas terem semi escravos, não me sinto culpada por ter alguém trabalhando aqui em casa. E um dos motivos, entre outras coisas, é porque não peço a ela pra fazer nada do que eu mesma não faria. Ela não é mão de obra desqualificada fazendo coisas que eu sou muito nobre para fazer. Então, se passar roupa não é importante a ponto de eu não fazer isso quando não posso pagar alguém pra fazê-lo, ela também não faz. Questão de coerência, pra mim.
Mas olhem só, eu penso assim porque minha agenda tem algumas prioridades. A gente vai amadurecendo e vai dando valor a algumas coisas, deixando outras de lado, e tentando conciliar tudo neste mundo pouco razoável. E na minha agenda pessoal, o feminismo e justiça social não podem se chocar, por exemplo. Se a condição pra que eu seja feminista é ter uma semi escrava em casa, não funciona. Então, essas duas coisas estão acima do meu relacionamento com meu marido, até. Se ele achasse 1) que eu sou obrigada a fazer tudo sozinha, porque eu sou mulher ou 2) serviço domésticos são trabalhos inferiores a serem desempenhados por pessoas inferiores, ele não seria meu marido. Bem, só depois disso tudo vem a qualidade das tarefas domésticas. Logo, quando por qualquer motivo estes valores não podem ser conciliados, a casa fica uma zona. Sem a menor culpa porque apesar de no dia 8 de março louvarmos A Mulher, este ser multitarefa que dá conta de tudo, eu sou uma só e vim ao mundo pra ser feliz.
Eu não sou a fodona desencanada. Esta tranquilidade não é inerente. Eu achava sim as casas na Europa muito porcas, até entender que lá custa caro pagar alguém pra limpar, porque não há essa cultura escravista daqui, então o padrão de exigência passa a ser outro. Ok, as pessoas podem viver numa casa com janelas empoeiradas, qual o drama afinal? Logo quando virei dona-de-casa, no sentido de alguém que não pode delegar a outrem a manutenção do espaço em que vive, estava falando com minha mãe ao telefone e reclamei de cansaço de trabalhar o dia inteiro e ainda ter coisas pra me preocupar quando chego em casa. Ela me disse que, se eu tava cansada, “não precisava limpar casa todo dia, né?”. E eu explique a ela que além da grande limpeza quinzenal, essa casa só vê um aspirador de pó eventualmente, quando um de nós se incomoda muito com a sujeira, que o cansaço era por estas coisas que não podem ser adiadas, tipo fazer supermercado e cozinhar. Achei a conversa engraçada na hora, mas ela é ilustrativa de como a dominação funciona. Meu marido não precisa me cobrar nada. A cultura , representada pela minha mãe, me cobra. Se a gente for receber uma visita em casa, serei eu a me preocupar o que vão pensar se encontrarem tudo uma zona, porque todas as propagandas de material de limpeza tem uma mulher como protagonista.
Enfim, desencanar desta imposição dá muito trabalho, mas é preciso. E fica muito mais difícil se dar conta de que não é obrigatório passar roupas sempre, se aos 3 anos de idade alguém te oferece um ferro e uma tábua como presentes. Desta vez compramos presentes iguais pras duas: uma maletinha de médico, com estetoscópio, seringa, termômetro e mais umas coisinhas. Marido se derreteu imaginando uma destas pequenas médicas. Queremos muito que elas cresçam num mundo de possibilidades, em que passar roupa seja uma tarefa chata, não um destino inevitável.
* a imagem que ilustra este post veio daqui, e o link eu recebi via twitter do Alex Castro (@alexcatrolll)
domingo, 21 de novembro de 2010
O post que se fez sozinho
Tô eu aqui na poltroninha nova, enrolado, tomando vinho branco, esperando o jogo do Corinthians começar e pensando que deveria estar estudando.
Daí pensei que o tema é importantíssimo, mas que não tinha nenhuma inspiração para escrever sobre isso (e por isso é difícil seguir proposta de blogagens coletivas, porque inspiração não é negociável):

Mas eu disse que tava de bobeira. Daí fui ver uns vídeos no youtube. E fui ver umas coisas de umas bandas não conhecidas aqui no Brasil, mas que eu conhecia porque dava aulas de espanhol. E achei esse aqui:
E, puxa, achava divertido há uns anos atrás, mas nunca tinha prestado atenção na letra, né? Daí, no final fez-se o meu post. Saca só como termina a música:
"Por eso ahora tendré que obsequiarte
un par de balazos, pa' que te duela.
Y aunque estoy triste por ya no tenerte
voy a estar contigo en tu funeral."
Balazos é bala, gente. Ingrata, você me deixou e eu te mato. Não preciso nem comentar que a violência contra a mulher, o tal amor passional, taí, glamurizado, engraçadinho. Pra ficar mais signficativo, este é um grupo mexicano, e é no México que fica Ciudad Juarez, cidade tristemente célebre por sua violência contra a mulher.
Deveria estar contente porque fiz este post em 10 minutos? Tô não. Tô indignada porque violência contra a mulher é um assunto tão corriqueiro que a gente esbarra com ele até quando não tá procurando.
Daí pensei que o tema é importantíssimo, mas que não tinha nenhuma inspiração para escrever sobre isso (e por isso é difícil seguir proposta de blogagens coletivas, porque inspiração não é negociável):

Mas eu disse que tava de bobeira. Daí fui ver uns vídeos no youtube. E fui ver umas coisas de umas bandas não conhecidas aqui no Brasil, mas que eu conhecia porque dava aulas de espanhol. E achei esse aqui:
E, puxa, achava divertido há uns anos atrás, mas nunca tinha prestado atenção na letra, né? Daí, no final fez-se o meu post. Saca só como termina a música:
"Por eso ahora tendré que obsequiarte
un par de balazos, pa' que te duela.
Y aunque estoy triste por ya no tenerte
voy a estar contigo en tu funeral."
Balazos é bala, gente. Ingrata, você me deixou e eu te mato. Não preciso nem comentar que a violência contra a mulher, o tal amor passional, taí, glamurizado, engraçadinho. Pra ficar mais signficativo, este é um grupo mexicano, e é no México que fica Ciudad Juarez, cidade tristemente célebre por sua violência contra a mulher.
Deveria estar contente porque fiz este post em 10 minutos? Tô não. Tô indignada porque violência contra a mulher é um assunto tão corriqueiro que a gente esbarra com ele até quando não tá procurando.
domingo, 31 de outubro de 2010
=D
Não, o país não deixará de ser machista em 1º de janeiro, tal qual os EUA não deixaram de ser racistas. Mas é um passo importante, pra quebrar paradigmas. Para as novas gerações crescerem acostumadas às novas possibilidades. Disse no twitter, disse em comentários por aí e repito: eu nasci num país governado pelo general Figueiredo, que gostava mais de cavalo do que gente. E hoje vejo uma mulher divorciada ser eleita, apesar de uma campanha machista retrógrada apoiada pela imprensa. É um outro país, não há como negar. Por ele, pelas possibilidades que ele traz, eu comemoro.
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
O (não) peso das palavras
Acho que eu nunca escrevi sobre este tema, embora seja muito de meu interesse. As sutilezas dos significados que um significante pode ter (pra quem não é familiarizado: significante é a palavra sapato, significado é o objeto sapato). Uma palavra pode ter diversos pesos, impactos, provocar reações as mais diversas dependendo de quem a diz ou de como a diz. Por exemplo: referir-se a alguém carinhosamente como “meu preto” não tem nada a ver com usar a cor da pele como forma de insulto. Só quem é muito desonesto intelectualmente não aceita isso, que o contexto, se não diz tudo, diz muita coisa ao menos.
Aconteceu uma coisa engraçada esse final de semana. Eu não sabia que uma (nova) amiga era lésbica. Daí perguntei pra galera: “só eu não sabia que fulana é sapata”? Todo mundo riu. E depois eu comentei com a própria: “fulana, só eu não sabia que você era sapata!”. E ela respondeu, dando risada: “ok, me apresento de novo, prazer, sou a fulana, e sou sapatão”. E todo mundo riu mais ainda.
Meu primeiro contato próximo com a homossexualidade foi quando uma amiga da escola, que até então se relacionava com meninos, voltou das férias namorando uma garota. Tínhamos 16, 17 anos. Aquilo me intrigou um pouco, como tudo o que é novo. Depois me acostumei, mas lembro que achava a palavra “sapatão” super pejorativa. Semana passada eu ouvi, em contextos diferentes, duas mulheres se apresentando como “sapatão”, de uma maneira extremamente bem humorada. Uma delas, na verdade, disse que era “sapatã” - achei bem fofo. Então, venci o meu preconceito com o termo, chamei a amiga de sapata, e ela entendeu que, por sapata, eu tava dizendo “uma mulher que gosta de outras mulheres”, nada além.
Eu sempre achei extremamente subversivo isso de se apropriar de uma palavra teoricamente ofensiva, assumi-la, e devolver para um interlocutor como um enfrentamento, porque você desarma o preconceituoso. Sempre lembro da tal mesa redonda com profissionais do sexo no Fórum Social Mundial, que eu já mencionei aqui. Mulherada dizia: “olha, eu sou puta, gosto de ser puta, gosto muito de fazer sexo e ainda ganhar dinheiro pra isso.” Esqueçamos a discussão feminista sobre a prostituição neste momento. Quando alguém chama uma mulher de puta e ela responde, de cabeça erguida, “sou puta mesmo, e daí?”, ela desmontou o ataque. E eu acho isso lindo.
Tem um neologismo que eu uso de uma maneira bem humorada, mas que o machismo considera ofensa gravíssima: periguete. Mas eu só uso porque, na minha cabeça, registrei “periguete” como a mulher gostosa que sabe que é gostosa e adora ser gostosa. Eu não coloco nenhum julgamento moral aí. Só que, né? Preciso tomar cuidado pra usar, porque eu não vivo em Marte. Se eu me refiro a uma mulher como “periguete”, meu interlocutor pode achar que eu tô condenando, e eu não sou assim. Tem um caso engraçado de uma amiga linda e muito bem-sucedida, cargo alto em multinacional e tudo, que usa este termo pejorativamente, fala “eu não sou uma periguete qualquer”. Mas ela tá sempre usando roupas que chamam muito a atenção para seu (lindo) corpo. Sempre “vestida para matar”, decotão, roupa justa, maquiagem pesada, microssaia - em 10 anos de amizade, nunca a vi de jeans, camiseta e tênis. No dia em que eu a apresentei ao meu marido (então namorado), ela usava uma blusa meio transparente, sem sutiã, “farol aceso”. Bem periguete, segundo minha definição. Lógico que ele olhou os peitos dela. Até eu olhei, né? E nada demais, como ele é um cara bacana, olhou, achou gostosa, e não inferiu nada sobre ela só por isso. Acho que ela não é menos respeitada por ninguém por conta da maneira como se veste: é inteligente o suficiente pra se afastar gente desrespeitosa, e pra deixar claro que sim, ela é gostosona, sim, você pode olhar e não, ela não é mero objeto de apreciação, embora goste muito de ser admirada. Mas o engraçado é que faz este julgamento sobre outras mulheres. Sei lá qual o critério dela, mas acho graça.
Post sem pé nem cabeça. Só que pra dizer que, oi, você pode ser periguete, você pode ser sapata, você pode ser tudo, sua linda. O que não pode é alguém te desrespeitar por conta disso. Machismo é achar que existe um padrão aceitável de conduta para uma mulher, e que todo o resto é condenável.
Aconteceu uma coisa engraçada esse final de semana. Eu não sabia que uma (nova) amiga era lésbica. Daí perguntei pra galera: “só eu não sabia que fulana é sapata”? Todo mundo riu. E depois eu comentei com a própria: “fulana, só eu não sabia que você era sapata!”. E ela respondeu, dando risada: “ok, me apresento de novo, prazer, sou a fulana, e sou sapatão”. E todo mundo riu mais ainda.
Meu primeiro contato próximo com a homossexualidade foi quando uma amiga da escola, que até então se relacionava com meninos, voltou das férias namorando uma garota. Tínhamos 16, 17 anos. Aquilo me intrigou um pouco, como tudo o que é novo. Depois me acostumei, mas lembro que achava a palavra “sapatão” super pejorativa. Semana passada eu ouvi, em contextos diferentes, duas mulheres se apresentando como “sapatão”, de uma maneira extremamente bem humorada. Uma delas, na verdade, disse que era “sapatã” - achei bem fofo. Então, venci o meu preconceito com o termo, chamei a amiga de sapata, e ela entendeu que, por sapata, eu tava dizendo “uma mulher que gosta de outras mulheres”, nada além.
Eu sempre achei extremamente subversivo isso de se apropriar de uma palavra teoricamente ofensiva, assumi-la, e devolver para um interlocutor como um enfrentamento, porque você desarma o preconceituoso. Sempre lembro da tal mesa redonda com profissionais do sexo no Fórum Social Mundial, que eu já mencionei aqui. Mulherada dizia: “olha, eu sou puta, gosto de ser puta, gosto muito de fazer sexo e ainda ganhar dinheiro pra isso.” Esqueçamos a discussão feminista sobre a prostituição neste momento. Quando alguém chama uma mulher de puta e ela responde, de cabeça erguida, “sou puta mesmo, e daí?”, ela desmontou o ataque. E eu acho isso lindo.
Tem um neologismo que eu uso de uma maneira bem humorada, mas que o machismo considera ofensa gravíssima: periguete. Mas eu só uso porque, na minha cabeça, registrei “periguete” como a mulher gostosa que sabe que é gostosa e adora ser gostosa. Eu não coloco nenhum julgamento moral aí. Só que, né? Preciso tomar cuidado pra usar, porque eu não vivo em Marte. Se eu me refiro a uma mulher como “periguete”, meu interlocutor pode achar que eu tô condenando, e eu não sou assim. Tem um caso engraçado de uma amiga linda e muito bem-sucedida, cargo alto em multinacional e tudo, que usa este termo pejorativamente, fala “eu não sou uma periguete qualquer”. Mas ela tá sempre usando roupas que chamam muito a atenção para seu (lindo) corpo. Sempre “vestida para matar”, decotão, roupa justa, maquiagem pesada, microssaia - em 10 anos de amizade, nunca a vi de jeans, camiseta e tênis. No dia em que eu a apresentei ao meu marido (então namorado), ela usava uma blusa meio transparente, sem sutiã, “farol aceso”. Bem periguete, segundo minha definição. Lógico que ele olhou os peitos dela. Até eu olhei, né? E nada demais, como ele é um cara bacana, olhou, achou gostosa, e não inferiu nada sobre ela só por isso. Acho que ela não é menos respeitada por ninguém por conta da maneira como se veste: é inteligente o suficiente pra se afastar gente desrespeitosa, e pra deixar claro que sim, ela é gostosona, sim, você pode olhar e não, ela não é mero objeto de apreciação, embora goste muito de ser admirada. Mas o engraçado é que faz este julgamento sobre outras mulheres. Sei lá qual o critério dela, mas acho graça.
Post sem pé nem cabeça. Só que pra dizer que, oi, você pode ser periguete, você pode ser sapata, você pode ser tudo, sua linda. O que não pode é alguém te desrespeitar por conta disso. Machismo é achar que existe um padrão aceitável de conduta para uma mulher, e que todo o resto é condenável.
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Leituras Feministas - Deslocamentos do Feminino
Este o nome do livro originado da tese de doutorado da Maria Rita Kehl, que eu tinha prometido pra Rita comentar, já que ela leu Madame Bovary não tem muito tempo. Prometi isso em setembro ainda, quando o Corinthians era líder do campeonato e a gente nem sonhava que a eleição ia virar essa baixaria. Tipo, parece que foi o ano passado. Nesse “não tem muito tempo” a Rita já deve ter lidos mais meia-dúzia de livros (ok, exagerei), a autora já entrou e saiu dos TT's do twitter e, bom, nada do meu post. Veio o segundo turno, o desânimo, semana que vem vou me matar de trabalhar num evento, tenho que ler 4 livros e avançar um pouco na minha monografia e, se enrolar muito, nunca mais escrevo sobre isso. Mas divago. Você não veio até aqui pra ler mimimi, né? O post já vai ficar longo sem este parágrafo altamente dispensavel... Preparem-se para um leitura confusa (no mínimo).
Neste livro a autora analisa a suposta identidade feminina do ponto de vista freudiano. Freud acreditava que o sofrimento de suas “histéricas” se dava por seu não ajustamento ao seu papel - no que a autora concorda. E acreditava que só haveria possibilidade de cura para seu sofrimento psicológico se este papel fosse aceito de bom-grado – no que discordamos eu, a autora e provavelmente todo o movimento feminista.
No primeiro capítulo, Kehl (engraçado, né? Parece apelido de “raquel”) trata de uma questão fundamental para a psicanálise, para a obra de Flaubert e para o feminismo: a construção do discurso. As mulheres são objeto de um discurso do feminino que não foi elaborado por elas. Falando em português claro, ninguém perguntou pra mim ou pra você o que é ser mulher. Você pode argumentar que, Iara, mas ninguém perguntou aos homens também. A diferença é que o homem é o “sujeito zero”, digamos assim. O cidadão básico, que não precisa de definição. Nem precisa ir muito longe na história: acho que todo mundo sabe que os redatores das revistas femininas do começo do século XX eram todos homens. O discurso que as moças liam sobre como deveriam se portar não era elaborado por mulheres mais velhas e supostamente experientes, mas por eles. E assim tem sido desde sempre: nosso lugar é aquele que nos foi reservado pelos outros. Uma das minha melhores amigas, psicóloga de formação, uma vez disse que eu era muito radical, que nem tudo construído socialmente é ruim. E eu concordo: sou monogâmica e não acho isso ruim, só pra dar um exemplo banal. Ruim é quando querem te empurrar todo um modelo, composto por uma série de atributos, goela abaixo (ou cabeça adentro, como preferirem). Então, este é o primeiro ponto fundamental: não foi a mulher que inventou o que é ser mulher. A gente vive com isso, algumas melhor do que outras. E, bom, a matéria da psicanálise é a fala do paciente, né? O discurso faz parte do tratamento. Freud tinha um desafio imenso de tentar fazer falar aquelas que não tinham voz. E lógico, ao falar, revelaram coisas inéditas ao seu ouvinte.
Bom, mas vamos a Madame Bovary um pouco. Ela faz parte de uma geração pós Revolução Francesa, evento que trouxe uma grande mudança na expectativas dos homens burgueses, mas não de suas mulheres. Pra tentar ser curta grossa: até a Revolução, os filhos de sapateiro cresciam sabendo que seriam filhos sapateiros. Não havia mobilidade social. Logo, como esposa do sapateiro, a mulher era seu igual. Ok, não era e nem é até hoje, mas não vamos falar da dominação doméstica, foco no papel social de maneira mais ampla: ambos, marido e mulher, já tinham suas cartas marcadas, seu lugar estabelecido. A Revolução agitou as coisas e trouxe a expectativa e a possibilidade de novos empreendimentos. Lógico, a mobilidade social ainda hoje é muito restrita. Mas somos uma nação que elegeu um retirante torneiro mecânico presidente, então, né, a possibilidade existe, e já existia (em menor medida, claro) no século XIX. Mas, para as mulheres burguesas desta época, as cartas continuaram sendo marcadas. Com um agravante: antes, se a moça se casava com o médico do vilarejo, sabia que seria, para sempre, a esposa do médico do vilarejo, ok. Depois da Revolução, passou a ser a esposa do médico do vilarejo que até poderia ter se destacado, mas não o fez por mediocridade. Havia uma expectativa a ser frustrada. A mulher só chegava até onde a levasse seu marido, e nunca poderia ser mais inteligente que ele. Assim, fosse minimamente mais “arejada” e imaginativa, como Emma Bovary, estaria condenada, para sempre, à opacidade social de seu companheiro.
E, bom, o que faz Emma para preencher seu tempo? Lê romances. Que não só não a ajudam a sublimar sua energia subempregada, como também alimentam suas fantasias. Emma Bovary é Dom Quixote de saias: de tanto ler, passou a se fantasiar como protagonista de suas próprias histórias. O problema é que o protagonismo lhe era, justamente, negado. Não havia essa possibilidade para ela, em nenhuma circunstância. A Kehl, em seu livro, menciona algumas mulheres que se destacaram no século XIX justamente pela literatura. Jane Austen é a mais famosa que eu me lembro agora. Uma das poucas mulheres que podiam se sustentar com seu trabalho intelectual, e uma ironia que este trabalho seja, justamente, seu discurso. Curioso este duplo papel da literatura, alienando e resgatando da alienação por vezes. Nossa autora menciona ainda outros casos bem sucedidos de mulheres que, compreendendo bem o papel do casamento em suas vidas, conseguiram se unir a maridos que incentivavam seu desenvolvimento intelectual. Mas Emma Bovary não tem potencial para ser Jane Austen. E seu sofrimento é porque, justamente, não havia a menor possibilidade de contar com seu marido para essa transcendência almejada. Fosse uma mulher pobre, operária, talvez vivesse com alguma dignidade como criada numa família rica, sem necessariamente sujeitar-se a um marido. Mas Emma é pequeno-burguesa, inteligente, sem contudo chegar a ser brilhante. Fosse no século XXI, viraria assistente administrativa em multinacional, pra ganhar seu pão com dignidade e sem maiores intempéries enquanto sonhava em dominar o mundo (oi? o/). Sendo o século XIX, o que lhe restou foi procurar amantes e tentar, por meio deles, se realizar. No romance ficam claros seus diferentes papéis nas relações em que se envolveu. Se não é bem-sucedida, é mais por culpa da dificuldade da empreitada do que por sua capacidade de empreendê-la. Mas, segundo Kehl, se podemos determinar o poder de decidir seu próprio destino como medida de sucesso, talvez Emma Bovary tenha sido sim bem-sucedida de alguma forma.
Kehl afirma que não pode, como profissional, dar um diagnóstico de Emma Bovary assim, sem mais. Mas tudo nos leva a crer de que era uma histérica, segundo a definição freudiana, e sua condição a infligia grande sofrimento. Como eu disse acima, para Freud, o caminho para a cura seria a resignação sincera. Kehl acredita que não. Freud, como homem do seu tempo, não foi capaz de visualizar uma mudança na sociedade que permitisse às mulheres não sofrerem pela inveja do falo. E aí eu aprendi um coisa que não sabia (acho que até sabia, mas não lembrava, ou não tinha ficado tão claro): que o falo não é o pênis. Mulher não tem inveja do pênis, tem inveja do falo, tem inveja do poder de ação e de discurso que aqueles dotados de pênis têm na sociedade patriarcal. Porque, né? Eu acha viagem mesmo essa coisa do pênis, que só me faz falta mesmo em banheiro de rodoviária e boteco copo-sujo. Lógico que a castração só é simbólica. Serei eu a única lesada? Tenho a impressão de que a própria autora diz que o Freud confunde essas ideias às vezes - mas pode ser viagem da pessoa que escreve sobre um livro 2 meses depois de ter terminado a leitura e sem ter feito nenhuma anotação (é, nenhuma vocação acadêmica, fato). Sim, um falo, para algumas mulheres, poderia ser um filho, a realização através da nova geração. Neste contexto, faz sentido o desinteresse de Emma pela filha, já que uma mulher não poderia transcender por ela, seria só mais uma a ser esposa de alguém. A sedução também é poder, claro. Freud acreditava que suas pacientes poderiam ficar livres de sofrimento se entendessem que sua transcendência estava nesse binômio sedução-maternidade. Binômio que a gente sabe que é super atual, é o que nos vendem como “combo mulher nota 10”. E a autora não o nega nem o desqualifica. Mas, né? É muito pouco. São só dois caminhos, tem mulheres que não querem nada disso, tem mulheres que querem isso e muito mais. Tem mulher que quer ser até Presidente da República, olhem só a audácia.
Pronto, pari o post. Desculpem se ficou confuso. Recomendo a leitura do livro, porque é muito denso, mas didático e esclarecedor. A Editora é a Imago.
PS: Acabo de me dar conta de que este blog completou 1 ano no dia 5, bem no meio da depressão pós segudo turno. Nem lembrei...
Update, no dia seguinte: vocês também tem vergonha de seus textos publicados com sono? Corrigi uma porção de coisas já, mas ainda tá confuso. Desculpaê, pessoal...
Neste livro a autora analisa a suposta identidade feminina do ponto de vista freudiano. Freud acreditava que o sofrimento de suas “histéricas” se dava por seu não ajustamento ao seu papel - no que a autora concorda. E acreditava que só haveria possibilidade de cura para seu sofrimento psicológico se este papel fosse aceito de bom-grado – no que discordamos eu, a autora e provavelmente todo o movimento feminista.
No primeiro capítulo, Kehl (engraçado, né? Parece apelido de “raquel”) trata de uma questão fundamental para a psicanálise, para a obra de Flaubert e para o feminismo: a construção do discurso. As mulheres são objeto de um discurso do feminino que não foi elaborado por elas. Falando em português claro, ninguém perguntou pra mim ou pra você o que é ser mulher. Você pode argumentar que, Iara, mas ninguém perguntou aos homens também. A diferença é que o homem é o “sujeito zero”, digamos assim. O cidadão básico, que não precisa de definição. Nem precisa ir muito longe na história: acho que todo mundo sabe que os redatores das revistas femininas do começo do século XX eram todos homens. O discurso que as moças liam sobre como deveriam se portar não era elaborado por mulheres mais velhas e supostamente experientes, mas por eles. E assim tem sido desde sempre: nosso lugar é aquele que nos foi reservado pelos outros. Uma das minha melhores amigas, psicóloga de formação, uma vez disse que eu era muito radical, que nem tudo construído socialmente é ruim. E eu concordo: sou monogâmica e não acho isso ruim, só pra dar um exemplo banal. Ruim é quando querem te empurrar todo um modelo, composto por uma série de atributos, goela abaixo (ou cabeça adentro, como preferirem). Então, este é o primeiro ponto fundamental: não foi a mulher que inventou o que é ser mulher. A gente vive com isso, algumas melhor do que outras. E, bom, a matéria da psicanálise é a fala do paciente, né? O discurso faz parte do tratamento. Freud tinha um desafio imenso de tentar fazer falar aquelas que não tinham voz. E lógico, ao falar, revelaram coisas inéditas ao seu ouvinte.
Bom, mas vamos a Madame Bovary um pouco. Ela faz parte de uma geração pós Revolução Francesa, evento que trouxe uma grande mudança na expectativas dos homens burgueses, mas não de suas mulheres. Pra tentar ser curta grossa: até a Revolução, os filhos de sapateiro cresciam sabendo que seriam filhos sapateiros. Não havia mobilidade social. Logo, como esposa do sapateiro, a mulher era seu igual. Ok, não era e nem é até hoje, mas não vamos falar da dominação doméstica, foco no papel social de maneira mais ampla: ambos, marido e mulher, já tinham suas cartas marcadas, seu lugar estabelecido. A Revolução agitou as coisas e trouxe a expectativa e a possibilidade de novos empreendimentos. Lógico, a mobilidade social ainda hoje é muito restrita. Mas somos uma nação que elegeu um retirante torneiro mecânico presidente, então, né, a possibilidade existe, e já existia (em menor medida, claro) no século XIX. Mas, para as mulheres burguesas desta época, as cartas continuaram sendo marcadas. Com um agravante: antes, se a moça se casava com o médico do vilarejo, sabia que seria, para sempre, a esposa do médico do vilarejo, ok. Depois da Revolução, passou a ser a esposa do médico do vilarejo que até poderia ter se destacado, mas não o fez por mediocridade. Havia uma expectativa a ser frustrada. A mulher só chegava até onde a levasse seu marido, e nunca poderia ser mais inteligente que ele. Assim, fosse minimamente mais “arejada” e imaginativa, como Emma Bovary, estaria condenada, para sempre, à opacidade social de seu companheiro.
E, bom, o que faz Emma para preencher seu tempo? Lê romances. Que não só não a ajudam a sublimar sua energia subempregada, como também alimentam suas fantasias. Emma Bovary é Dom Quixote de saias: de tanto ler, passou a se fantasiar como protagonista de suas próprias histórias. O problema é que o protagonismo lhe era, justamente, negado. Não havia essa possibilidade para ela, em nenhuma circunstância. A Kehl, em seu livro, menciona algumas mulheres que se destacaram no século XIX justamente pela literatura. Jane Austen é a mais famosa que eu me lembro agora. Uma das poucas mulheres que podiam se sustentar com seu trabalho intelectual, e uma ironia que este trabalho seja, justamente, seu discurso. Curioso este duplo papel da literatura, alienando e resgatando da alienação por vezes. Nossa autora menciona ainda outros casos bem sucedidos de mulheres que, compreendendo bem o papel do casamento em suas vidas, conseguiram se unir a maridos que incentivavam seu desenvolvimento intelectual. Mas Emma Bovary não tem potencial para ser Jane Austen. E seu sofrimento é porque, justamente, não havia a menor possibilidade de contar com seu marido para essa transcendência almejada. Fosse uma mulher pobre, operária, talvez vivesse com alguma dignidade como criada numa família rica, sem necessariamente sujeitar-se a um marido. Mas Emma é pequeno-burguesa, inteligente, sem contudo chegar a ser brilhante. Fosse no século XXI, viraria assistente administrativa em multinacional, pra ganhar seu pão com dignidade e sem maiores intempéries enquanto sonhava em dominar o mundo (oi? o/). Sendo o século XIX, o que lhe restou foi procurar amantes e tentar, por meio deles, se realizar. No romance ficam claros seus diferentes papéis nas relações em que se envolveu. Se não é bem-sucedida, é mais por culpa da dificuldade da empreitada do que por sua capacidade de empreendê-la. Mas, segundo Kehl, se podemos determinar o poder de decidir seu próprio destino como medida de sucesso, talvez Emma Bovary tenha sido sim bem-sucedida de alguma forma.
Kehl afirma que não pode, como profissional, dar um diagnóstico de Emma Bovary assim, sem mais. Mas tudo nos leva a crer de que era uma histérica, segundo a definição freudiana, e sua condição a infligia grande sofrimento. Como eu disse acima, para Freud, o caminho para a cura seria a resignação sincera. Kehl acredita que não. Freud, como homem do seu tempo, não foi capaz de visualizar uma mudança na sociedade que permitisse às mulheres não sofrerem pela inveja do falo. E aí eu aprendi um coisa que não sabia (acho que até sabia, mas não lembrava, ou não tinha ficado tão claro): que o falo não é o pênis. Mulher não tem inveja do pênis, tem inveja do falo, tem inveja do poder de ação e de discurso que aqueles dotados de pênis têm na sociedade patriarcal. Porque, né? Eu acha viagem mesmo essa coisa do pênis, que só me faz falta mesmo em banheiro de rodoviária e boteco copo-sujo. Lógico que a castração só é simbólica. Serei eu a única lesada? Tenho a impressão de que a própria autora diz que o Freud confunde essas ideias às vezes - mas pode ser viagem da pessoa que escreve sobre um livro 2 meses depois de ter terminado a leitura e sem ter feito nenhuma anotação (é, nenhuma vocação acadêmica, fato). Sim, um falo, para algumas mulheres, poderia ser um filho, a realização através da nova geração. Neste contexto, faz sentido o desinteresse de Emma pela filha, já que uma mulher não poderia transcender por ela, seria só mais uma a ser esposa de alguém. A sedução também é poder, claro. Freud acreditava que suas pacientes poderiam ficar livres de sofrimento se entendessem que sua transcendência estava nesse binômio sedução-maternidade. Binômio que a gente sabe que é super atual, é o que nos vendem como “combo mulher nota 10”. E a autora não o nega nem o desqualifica. Mas, né? É muito pouco. São só dois caminhos, tem mulheres que não querem nada disso, tem mulheres que querem isso e muito mais. Tem mulher que quer ser até Presidente da República, olhem só a audácia.
Pronto, pari o post. Desculpem se ficou confuso. Recomendo a leitura do livro, porque é muito denso, mas didático e esclarecedor. A Editora é a Imago.
PS: Acabo de me dar conta de que este blog completou 1 ano no dia 5, bem no meio da depressão pós segudo turno. Nem lembrei...
Update, no dia seguinte: vocês também tem vergonha de seus textos publicados com sono? Corrigi uma porção de coisas já, mas ainda tá confuso. Desculpaê, pessoal...
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Elaborando um pouco a indignação desta manhã
De manhã eu estava com uma enxaqueca daquelas terríveis. Daí, abri o Uol, vi o link, achei que nunca mais fosse ficar em bem na vida. Mas a Neosaldina* ajuda gente a concatenar as ideias.
Enfim, eu tava satisfeita com a maneira com que a Dilma tava levando as coisas antes dos boatos. Não dá pra dizer que é super a favor, tem que jogar no colo da saúde pública. Acho que dizer assim fica claro. E acho que faltou orientação da campanha, de dizer que é o congresso que decide, que presidente sozinha não faz nada, que ela precisa repetir isso. Sim, no meu mundo ideal ela poderia ser mais enfática, claro, mas no meu mundo ideal aborto nunca teria sido criminalizado. Então achava que isso era o suficiente pra não desagradar ninguém. E daí entrava o pessoal religioso, Crivela, Benedita (e agora no segundo turno, o Chalita), que já que estão lá, tem que prestar pra alguma coisa. Pelo menos pra usar sua comunicação com este público pra dizer que ela não é o bicho-papão.
Mas aí vai o bosta do André Vargas falar aquela bobagem no twitter. Que abortista é o Serra por conta da pílula do dia seguinte. O que além de ser uma campanha de tão baixo nível quanto o que a gente critica, traz a pauta uma questão já conquistada. Tem como ser mais revoltante? Ah, tem. Lembra que eu disse ontem que tem gente do nosso lado com quem eu não confraternizaria para nada? Paulo Henrique Amorim, por exemplo. Olha só, o Serra, como Ministro da Saúde, assinou uma política pública pra fazer com que o SUS atenda as mulheres que tem direito a interromper a gestação legalmente, de acordo com a nossa legislação. Porque apesar de terem este direito desde 1940, não conseguiam exercê-lo pelo SUS. Quer dizer, bola dentro. O que um Ministro da Saúde sério deve fazer. Apesar de chamar quem aborta de “carniceiro”, o cara deu a cara a tapa pra garantir um direito adquirido. Algo a ser comemorado, pois. Daí o que PHA faz? Sugere transformar em spam pro outro lado. Tipo, “abortista é ele, não somos nós”. Se isso não é desonestidade das mais baixas e desrespeito com uma bandeira tão cara ao feminismo, eu não sei o que é.
Sabe o que me incomoda demais? É que Luiz Buassuma está ado-ran-do o rumo dessa prosa. Luiz Buassuma é um dos defensores daquela aberração do Estatuto no Nascituro. O cara foi expulso do PT por suas posições, e imagino que as feministas do partido devem ter feito pressões neste sentido. E sabe que partido o acolheu de braços abertos? Surprise, suprise: o PV da Marina. Daí sai uma notícia dizendo que o PT está disposto a pôr as feministas de lado. E, olhem só, o PT tá precisando de alguns votos que, no 1º turno, foram pra Marina. E a Dilma aparece no JN dizendo que é super pró-vida, sem ninguém ter nem perguntado. Você pode achar que eu estou exagerando, mas lembre-se que o Estatuto do Nascituro a redação do Estatuto foi aprovada pela Comissão de Seguridade e Família da Câmara, o que já o torna mais do que um devaneio. Eu quero crer que daqui a pouco alguém engaveta isso, até porque eu não acho mesmo que a sociedade deseja esse retrocesso. Além disso o Bassuma, o Miguel Martini e a Solange Almeida, que são os 3 cabeças da coisa, não se reelegeram - nem tudo na vida são más notícias. Mas alguém vem aqui por favor dizer que eu estou mucholoka de ter relacionado tudo isso, que uma coisa não tem nada a ver com a outra.
* isto não é um publieditorial
Enfim, eu tava satisfeita com a maneira com que a Dilma tava levando as coisas antes dos boatos. Não dá pra dizer que é super a favor, tem que jogar no colo da saúde pública. Acho que dizer assim fica claro. E acho que faltou orientação da campanha, de dizer que é o congresso que decide, que presidente sozinha não faz nada, que ela precisa repetir isso. Sim, no meu mundo ideal ela poderia ser mais enfática, claro, mas no meu mundo ideal aborto nunca teria sido criminalizado. Então achava que isso era o suficiente pra não desagradar ninguém. E daí entrava o pessoal religioso, Crivela, Benedita (e agora no segundo turno, o Chalita), que já que estão lá, tem que prestar pra alguma coisa. Pelo menos pra usar sua comunicação com este público pra dizer que ela não é o bicho-papão.
Mas aí vai o bosta do André Vargas falar aquela bobagem no twitter. Que abortista é o Serra por conta da pílula do dia seguinte. O que além de ser uma campanha de tão baixo nível quanto o que a gente critica, traz a pauta uma questão já conquistada. Tem como ser mais revoltante? Ah, tem. Lembra que eu disse ontem que tem gente do nosso lado com quem eu não confraternizaria para nada? Paulo Henrique Amorim, por exemplo. Olha só, o Serra, como Ministro da Saúde, assinou uma política pública pra fazer com que o SUS atenda as mulheres que tem direito a interromper a gestação legalmente, de acordo com a nossa legislação. Porque apesar de terem este direito desde 1940, não conseguiam exercê-lo pelo SUS. Quer dizer, bola dentro. O que um Ministro da Saúde sério deve fazer. Apesar de chamar quem aborta de “carniceiro”, o cara deu a cara a tapa pra garantir um direito adquirido. Algo a ser comemorado, pois. Daí o que PHA faz? Sugere transformar em spam pro outro lado. Tipo, “abortista é ele, não somos nós”. Se isso não é desonestidade das mais baixas e desrespeito com uma bandeira tão cara ao feminismo, eu não sei o que é.
Sabe o que me incomoda demais? É que Luiz Buassuma está ado-ran-do o rumo dessa prosa. Luiz Buassuma é um dos defensores daquela aberração do Estatuto no Nascituro. O cara foi expulso do PT por suas posições, e imagino que as feministas do partido devem ter feito pressões neste sentido. E sabe que partido o acolheu de braços abertos? Surprise, suprise: o PV da Marina. Daí sai uma notícia dizendo que o PT está disposto a pôr as feministas de lado. E, olhem só, o PT tá precisando de alguns votos que, no 1º turno, foram pra Marina. E a Dilma aparece no JN dizendo que é super pró-vida, sem ninguém ter nem perguntado. Você pode achar que eu estou exagerando, mas lembre-se que o Estatuto do Nascituro a redação do Estatuto foi aprovada pela Comissão de Seguridade e Família da Câmara, o que já o torna mais do que um devaneio. Eu quero crer que daqui a pouco alguém engaveta isso, até porque eu não acho mesmo que a sociedade deseja esse retrocesso. Além disso o Bassuma, o Miguel Martini e a Solange Almeida, que são os 3 cabeças da coisa, não se reelegeram - nem tudo na vida são más notícias. Mas alguém vem aqui por favor dizer que eu estou mucholoka de ter relacionado tudo isso, que uma coisa não tem nada a ver com a outra.
* isto não é um publieditorial
Do desabafo
O desabafo se fez urgente, por conta disso aqui. O recado tá dado: ou a gente tem uma mulher lá, ou a gente discute aborto. Os dois juntos não pode. Impressionante com a pauta feminista é sempre a que vai ser sacrificada. SEMPRE. Notem que tirar a discriminalização do aborto de pauta não vai garantir a eleição, mas pode enterrar a discussão por muito tempo. Tempo que as mulheres que estão morrendo de hemorragia em clínicas clandestinas não têm.
Eu tava animada, juro. Eu tava me organizando pra escrever um post bacana convocando os eleitores da Marina a passarem para o nosso lado. Mas essa notícia acabou com o meu dia. Não estranhem se eu der uma sumida. Eu tenho um emprego, um marido, uma pós pra cursar, família, amigos, e eu preciso estar bem pra tudo isso idependentemente do resultado das urnas dia 31, porque a minha vida continua. E por isso, pra manter a minha sanidade, talvez eu tenha que me afastar um pouco da discussão. Porque eu entrei na internet, li isso e me deu uma imensa vontade de chorar, mas minha mesa tá cheia de trabalho, e é isso que eu tenho que fazer agora.
Update: Ah, sim. E o horrível. O imbecil do secretário de comunicação dizer que o demônio é o Serra, que implantou a pílula do dia seguinte. E parece que nem foi. Mas, se fosse, é pra dar um beijo na careca dele, porque é uma tremenda conquista.
Eu tava animada, juro. Eu tava me organizando pra escrever um post bacana convocando os eleitores da Marina a passarem para o nosso lado. Mas essa notícia acabou com o meu dia. Não estranhem se eu der uma sumida. Eu tenho um emprego, um marido, uma pós pra cursar, família, amigos, e eu preciso estar bem pra tudo isso idependentemente do resultado das urnas dia 31, porque a minha vida continua. E por isso, pra manter a minha sanidade, talvez eu tenha que me afastar um pouco da discussão. Porque eu entrei na internet, li isso e me deu uma imensa vontade de chorar, mas minha mesa tá cheia de trabalho, e é isso que eu tenho que fazer agora.
Update: Ah, sim. E o horrível. O imbecil do secretário de comunicação dizer que o demônio é o Serra, que implantou a pílula do dia seguinte. E parece que nem foi. Mas, se fosse, é pra dar um beijo na careca dele, porque é uma tremenda conquista.
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Sobre o voto pra senador em São Paulo
Sumi, eu sei. Se mais alguém além da fofa da Luci, que até cobrou, sentiu falta, desculpaê. Assunto não falta, nunca. Aliás, eu não sei se alguma vez eu contei aqui mas eu sou uma pessoa prolixa e que fala pelos cotovelos. E que tem que cortar às vezes parágrafos inteiros pros posts ficarem razoáveis. Mas além de tagarela eu sou também preguiçosa e instável. Então de vez em quando perco o tesão de escrever por uns dias.
Como eu continuo com preguiça, resolvi fazer um post pra linkar um debate que eu vi primeiro no post do Idelber. Depois eu fui lá na Mary W, depois na Camila e na Kellen (cujos blogs não conhecia). E o causo é que aqui em São Paulo a gente tem um problema pra escolher o 2º voto pra senador. O primeiro vai pra Marta. Mas, se for seguir a coligação, o 2º voto seria do Netinho, que se filiou ao PC do B. Netinho, pra quem não se lembra, é um pagodeiro que depois foi fazer programa de auditório. Admito que eu conheço pouco de sua trajetória, e admito até que tenho muita simpatia por ser uma liderança vinda de periferia. Só que ele é um agressor de mulheres reincidente. Daí, complica.
E bom, a discussão nestes blogs é excelente sobre os porquês de votar ou não no cara. E há coisas bem pragmáticas, que eu acho que são muito válidas, até. Respeito muito os argumentos, mas pra mim, não rola. E quero deixar claro que isso não é um dogma. Não estou dizendo que nunca, jamais, em tempo algum, votaria num cara que algum dia na vida agrediu um mulher. Não estou dizendo que o arrependimento dele não é válido e ele deve queimar no fogo do inferno. Longe de mim, que sou humano e tenho aí a minha listinha das coisas das quais eu não me orgulho de ter feito na vida. O caso é que o cara não virou um tapa numa namorada uma-vez-na-vida-durante-um-discussão-acalorada-lá-pelos-idos-de-93. Fosse essa história e, depois disso, ele arrependido, tivesse uma série de coisas muito bacanas pra colocar no seu cv, é lógico que eu olhava as coisas de outra forma. Mas o cara bateu na mulher em 2005. Tipo, anteontem. Daí se arrependeu, levou a Maria da Penha no programa dele, fez mea culpa e tal. E não tem aí uma história política consistente além de seu interesse (que eu considero muito legítimo, aliás) pela juventude da periferia.
Mas, bom, tem todo o argumento anti- Romeu Tuma. Que é mais do que válido, ô se é. Bater em mulher é horroroso, mas ser pró violência policial institucionalizada é pior. O potencial de danos à sociedade de um cara como o Tuma é incomparavelmente maior do que o do Netinho, claro. Mas o que eu estou dizendo é que eu, Iara, não consigo ser pragmática assim, de votar simplesmente porque é menos pior. E eu sou super pragmática, pra muita coisa. Meu voto na Dilma é muito mais pragmático do que ideológico, acreditem.
O que eu quero dizer, e tenho muita tranquilidade nisso, é que eu não tenho nenhum compromisso a não ser com a minha cidadania. Daí que, por mais que eu entenda que o Netinho representa um projeto político para o país que eu endosso, eu não me conformo do PC do B não ter quadros melhores. Tipo, talvez tenha, mas esse quadros não teriam tanto apelo popular, né? Beleza, eu entendo a lógica da coisa, mas não conte comigo pra fazer parte disso. Muita chance do Netinho ser eleito e não acho que isso vai ser um mau negócio. Mas fico mais tranquila se meu voto, que me é tão caro, não endossá-lo.
Como eu continuo com preguiça, resolvi fazer um post pra linkar um debate que eu vi primeiro no post do Idelber. Depois eu fui lá na Mary W, depois na Camila e na Kellen (cujos blogs não conhecia). E o causo é que aqui em São Paulo a gente tem um problema pra escolher o 2º voto pra senador. O primeiro vai pra Marta. Mas, se for seguir a coligação, o 2º voto seria do Netinho, que se filiou ao PC do B. Netinho, pra quem não se lembra, é um pagodeiro que depois foi fazer programa de auditório. Admito que eu conheço pouco de sua trajetória, e admito até que tenho muita simpatia por ser uma liderança vinda de periferia. Só que ele é um agressor de mulheres reincidente. Daí, complica.
E bom, a discussão nestes blogs é excelente sobre os porquês de votar ou não no cara. E há coisas bem pragmáticas, que eu acho que são muito válidas, até. Respeito muito os argumentos, mas pra mim, não rola. E quero deixar claro que isso não é um dogma. Não estou dizendo que nunca, jamais, em tempo algum, votaria num cara que algum dia na vida agrediu um mulher. Não estou dizendo que o arrependimento dele não é válido e ele deve queimar no fogo do inferno. Longe de mim, que sou humano e tenho aí a minha listinha das coisas das quais eu não me orgulho de ter feito na vida. O caso é que o cara não virou um tapa numa namorada uma-vez-na-vida-durante-um-discussão-acalorada-lá-pelos-idos-de-93. Fosse essa história e, depois disso, ele arrependido, tivesse uma série de coisas muito bacanas pra colocar no seu cv, é lógico que eu olhava as coisas de outra forma. Mas o cara bateu na mulher em 2005. Tipo, anteontem. Daí se arrependeu, levou a Maria da Penha no programa dele, fez mea culpa e tal. E não tem aí uma história política consistente além de seu interesse (que eu considero muito legítimo, aliás) pela juventude da periferia.
Mas, bom, tem todo o argumento anti- Romeu Tuma. Que é mais do que válido, ô se é. Bater em mulher é horroroso, mas ser pró violência policial institucionalizada é pior. O potencial de danos à sociedade de um cara como o Tuma é incomparavelmente maior do que o do Netinho, claro. Mas o que eu estou dizendo é que eu, Iara, não consigo ser pragmática assim, de votar simplesmente porque é menos pior. E eu sou super pragmática, pra muita coisa. Meu voto na Dilma é muito mais pragmático do que ideológico, acreditem.
O que eu quero dizer, e tenho muita tranquilidade nisso, é que eu não tenho nenhum compromisso a não ser com a minha cidadania. Daí que, por mais que eu entenda que o Netinho representa um projeto político para o país que eu endosso, eu não me conformo do PC do B não ter quadros melhores. Tipo, talvez tenha, mas esse quadros não teriam tanto apelo popular, né? Beleza, eu entendo a lógica da coisa, mas não conte comigo pra fazer parte disso. Muita chance do Netinho ser eleito e não acho que isso vai ser um mau negócio. Mas fico mais tranquila se meu voto, que me é tão caro, não endossá-lo.
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
Quando a vítima vira ré – ou Badinter na prática
Então meu lado B é ler notícias sobre celebridades e subcelebridades de vez em quando. Eu tenho mais o que fazer e deveria gastar meu tempo em algo que preste, eu sei, mas entre um relatório do Excel e outro, as vezes a gente precisa ver coisas que não exijam reflexões profundas, nem comentários elaborados. Famosinhos tem esse efeito sobre mim, geralmente: descontraem por alguns minutinhos. Daí esvazio a cabeça um pouco e volto pra terminar aquele relatório chato que ninguém vai ler. Ó ,vida.
Mas então, sobre o Dado eu já comentei. E a gente sabe que a lógica machista diz que nenhuma mulher apanha sem motivo. Quer dizer, o motivo nunca é porque o agressor é violento, a vítima tem que ter alguma responsabilidade. No caso do Luana era fácil, porque ela não prima pela simpatia nem pela auto-repressão, mas e essa pobre moça que casou com ele no religioso, mãe de uma criança de colo? Como culpá-la? Eu tava esperando, e nem demorou.
Apesar de dar um entrevista pra Veja em que diz que “nunca bateu pra machucar” (oi?), publicaram por aí que as testemunhas contra o Dado foram coagidas a depor. Considerando meu horror a condenações prévias, tive meio segundo de dúvida se deveria ter feito um post chamando o cara de agressor. Meio segundo porque eu lembrei, em seguida, que ele já foi condenado por agressão. Quer dizer, pode não ter batido na atual, mas na anterior com certeza, o que isenta minha acusação de leviandade. E, claro, ele pode perfeitamente ter batido na esposa sem as empregadas terem visto.
Mas, enfim, tem a cereja do bolo, né? Aqui a gente fica sabendo que o marido agressor só estava preocupado com a alimentação do filho. Se você não tá afim de clicar lá, eu explico: as mesmas funcionárias que disseram que foram coagidas a depor contra o Dado afirmam que o motivo das brigas do casal era a alimentação da esposa, que está amamentando. Em tão poucas linhas a gente vê a teoria da Badinter se afirmar com “dicumforça”. Quer dizer, o cara não pode dizer que ele é opressor. Mas quem vai ser contra as necessidades de um bebê, minha gente! E, olha, eu não li os comentários, mas certeza de que tem gente endossando este discurso. Que “onde já se viu ficar se entupindo de refrigerante quando se tem um filho pra amamentar”. Pra completar, a testemunha das brigas diz que o zeloso pai cobrava da esposa sua obrigação de amamentar o bebê até os dois anos porque ela “não faz mais nada”.
Isso tudo tinha link na home globo.com. Globo, aliás, grande incentivadora da porradas educativas em mulheres mal comportadas. Quer dizer, notícia de massa, o tipo de coisa com potencial pra formar opinião mesmo. Então fica claro como o dia a condenação e o estigma de quem apanha, não de quem bate. Eu tô muito otimista com a eleição da Dilma, já comprei minha passagem pra Brasília, até. Acho que vai ser um momento importantíssimo para as mulheres deste país. Mas não me iludo: uma cultura machista como a nossa, com tanto respaldo midiático pra continuar reproduzindo certos modelos, não se muda da noite pro dia.
Mas então, sobre o Dado eu já comentei. E a gente sabe que a lógica machista diz que nenhuma mulher apanha sem motivo. Quer dizer, o motivo nunca é porque o agressor é violento, a vítima tem que ter alguma responsabilidade. No caso do Luana era fácil, porque ela não prima pela simpatia nem pela auto-repressão, mas e essa pobre moça que casou com ele no religioso, mãe de uma criança de colo? Como culpá-la? Eu tava esperando, e nem demorou.
Apesar de dar um entrevista pra Veja em que diz que “nunca bateu pra machucar” (oi?), publicaram por aí que as testemunhas contra o Dado foram coagidas a depor. Considerando meu horror a condenações prévias, tive meio segundo de dúvida se deveria ter feito um post chamando o cara de agressor. Meio segundo porque eu lembrei, em seguida, que ele já foi condenado por agressão. Quer dizer, pode não ter batido na atual, mas na anterior com certeza, o que isenta minha acusação de leviandade. E, claro, ele pode perfeitamente ter batido na esposa sem as empregadas terem visto.
Mas, enfim, tem a cereja do bolo, né? Aqui a gente fica sabendo que o marido agressor só estava preocupado com a alimentação do filho. Se você não tá afim de clicar lá, eu explico: as mesmas funcionárias que disseram que foram coagidas a depor contra o Dado afirmam que o motivo das brigas do casal era a alimentação da esposa, que está amamentando. Em tão poucas linhas a gente vê a teoria da Badinter se afirmar com “dicumforça”. Quer dizer, o cara não pode dizer que ele é opressor. Mas quem vai ser contra as necessidades de um bebê, minha gente! E, olha, eu não li os comentários, mas certeza de que tem gente endossando este discurso. Que “onde já se viu ficar se entupindo de refrigerante quando se tem um filho pra amamentar”. Pra completar, a testemunha das brigas diz que o zeloso pai cobrava da esposa sua obrigação de amamentar o bebê até os dois anos porque ela “não faz mais nada”.
Isso tudo tinha link na home globo.com. Globo, aliás, grande incentivadora da porradas educativas em mulheres mal comportadas. Quer dizer, notícia de massa, o tipo de coisa com potencial pra formar opinião mesmo. Então fica claro como o dia a condenação e o estigma de quem apanha, não de quem bate. Eu tô muito otimista com a eleição da Dilma, já comprei minha passagem pra Brasília, até. Acho que vai ser um momento importantíssimo para as mulheres deste país. Mas não me iludo: uma cultura machista como a nossa, com tanto respaldo midiático pra continuar reproduzindo certos modelos, não se muda da noite pro dia.
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