Eu sou uma moça muito desligada e achava que tinha de ter escrito o post que pretendia na semana passada por conta das discussões sobre o racismo na obra do Monteiro Lobato, ainda mais de ler este post aqui no Idelber. Mas aí ontem veio de novo a inspiração e caiu a ficha de que oi, o dia da Consciência Negra é hoje, zé mané. Tem timing perdido não. Pra melhorar, O Idelber colocou outro texto fera lá, da Ana Maria Gonçalves. Se você ainda não leu, recomendo fortemente.
Enfim, pra começar eu preciso contar que minha pela é branca. Tirei lá minha foto do twitter, e se alguém não viu antes, descrevo: sou um tipo não branca germânica, mas branca mediterrânea: pele branca amarelada, cabelos e olhos bem escuros (e um nariz grande que faz o povo achar que sou descendente de árabes – mas não sou). Meu fenótipo é uma combinação de vários outros, como acontece com boa parte dos brasileiros. Minha mãe tem a pele mais escura (e um nariz delicadinho). Minha avó tinha a pela ainda mais escura, nariz e lábios finos, cabelos bem pretos e bem lisos. Minha bisavó era, pelo fenótipo, negra. Mas não só por ele: era parteira e benzedeira numa cidade do interiorzão de Minas. E fumava cachimbo. Sim, o povo na família não diz isso assim - depois comento sobre – mas vó Joaquina era a própria preta velha. Dada a miscigenação, tenho parentes de todas as cores, e meu irmão tem olhos verdes. Tem uma foto sensacional do meu irmão pequenininho, loirinho, com a bisa preta, que eu adoraria ter digitalizada pra ilustrar este post. Se achar, depois eu subo pra cá.
Bom, então, do lado materno da família, as mulheres tinham pele mais escura conforme a idade (minha avó paterna era branca, e morreu antes de eu nascer, então não era referência). Tenho claramente a memória de que em algum momento eu acreditei que seria negra quando fosse velha. Sério. Pode parecer surreal, mas imaginava que quando fosse adulta seria mais morena como minha mãe, e aos 80, negra como a bisa. Lógico que isso deve ter durado pouco e logo percebi que, olha só, há vovós por aí que são branquinhas.
A outra informação importante (vai ficar longo isso...) é que tanto meu pai como minha mãe são de famílias muito pobres, com muito pouca instrução. Mas o meu pai fez faculdade, teve a vida toda um emprego com uma remuneração bacana que o permitiu dar uma vida confortável para a família. Eu e meu irmão estudamos em colégios particulares uma parte da vida. E durante alguns anos estudei numa escola com um perfil elitizado, mas cujas mensalidades cabiam no bolso do meu pai com algum sacrifício. Bom, um dia, quando eu tinha por volta de uns 9 ou 10 anos, a professora de Estudos Sociais nos deu um trabalho interessante. Tínhamos que contar a história da nossa família, entrevistando nossos avós para saber sobre seu passado. Mas aí vinha o detalhe: o foco era o país de onde veio a família. Portugal, Itália, Japão, Líbano, enfim, estes lugares que exportaram gente pra São Paulo. Daí fui eu explicar que olha, eu até sei que tenho lá um bisavô português, alguém na família disse que tem um espanhol, mas minha avó veio de Minas mesmo. Não, não servia. Tinha que ser estrangeiro. E me sugeriu entrevistar outra pessoa que viesse do mesmo país. Acabei, muito a contragosto, entrevistando uma vizinha espanhola. Sem nenhuma identificação: a Espanha não dizia nada pra mim. Nem sabia o que era paella até a entrevista – comida de antepassado, pra mim, era frango com quiabo e angu.
Meus pais não se deram conta do problema na época, não protestaram. E não vou dizer que tenho trauma porque não é verdade: esse caso ficou mais ou menos esquecido até a minha licenciatura, quando em alguma matéria vimos a questão dos "temas transversais", que devem ser abordados em todas as disciplinas. Só então eu me lembrei. De novo, não fiquei traumatizada, mas me lembro do desconforto na época. De me sentir a orfã, aquela que não tem passado e precisa pegar emprestado do da vizinha. Fora isso, hoje tenho a consciência de que minha avó, que vivia comigo na mesma casa, não teve o direito de ter sua história reproduzida e valorizada - o que é muito mais revoltante do que meu incômodo. Dentro de casa sempre imperou o respeito e a tolerância, mas boa parte da família é racista – contavam piadas racistas e diziam que a vó e a bisa eram “morenas”. Mesmo a minha avó dizia que “de preta, já basta eu”. A falta de autoestima de quem aprendeu que, como negra, pobre e sem instrução, não tinha valor. E eu me dou conta do quanto é perversa uma atividade escolar que reforça isso. Bom, desnecessário dizer que não havia crianças negras na turma. Mas eu ouso chutar que, se houvessem seriam convidadas a entrevistar o português da padaria, com aquele papo de que todos descendem de portugueses também, né? O “embranquecimento” da população, tão defendido no começo do século XX.
A lembrança e a análise deste evento me ajudaram a amadurecer a minha defesa da cotas raciais. Eu, menina de pele branca e cabelo liso, tive o meu passado próximo discriminado e fui obrigada não a mentir (é, eu sou descendente de portugueses e espanhóis e alemães até, também) mas a editar a minha história pra que ela fosse “aceitável”. E na ocasião nem me passou pela cabeça que a escola estivesse errada: o problema era meu, ué. Fiquei imaginando então como é para a criança negra, aquela que só aprende que seus antepassados foram escravos e que a África é, olha só, a fornecedora de escravos - ponto. No geral não aprende nem de onde estes escravos vinham, de que países, a cultura deles, etc. Isso que chamam de “mesmas oportunidades para todos” os que defendem a meritocracia do vestibular sem cotas?
Enfim, o papo caiu nas cotas, mas nem é essa a questão. Fica muito claro pra mim que quem fica falando em “ditadura do politicamente correto” tá pensando só na sua infância idílica. Porque na minha infância nada romântica a escola me disse que a vovó ideal era a Dona Benta – mas a que eu tinha em casa, que teve doze filhos, trabalhou em garimpo grávida e não teve acesso à educação formal, lembrava mais a tia Anastácia. Minha avó já morreu, mas por respeito a ela e desagravo ao fato de que sua história não foi devidamente reconhecida em vida quando deveria, eu só posso condenar quem relativiza o racismo. Eu prefiro a preservação da autoestima das crianças negras à elevação da Emília a cânone intocável.
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sábado, 20 de novembro de 2010
terça-feira, 16 de novembro de 2010
Um post de links requentados, basicamente
Daí que eu planejei escrever um post bem bacana na sexta, antes do feriado. Cheguei cheia de idéias, mas aí olhei pra cara do marido e... e outras prioridades tomaram a frente - se é que vocês me entendem. Resolvida a prioridade do casal com pouco tempo juntos, passamos à pizza, marido abriu um vinho e duas taças depois eu peguei no sono. Soninho justo, bem amado e bem alimentado - às 10 e meia da noite. É, pode chamar de velha cansada.
Daí fui atropelada no últimos dias por isso (não com a mesma intensidade, mas da mesma natureza). Pouquíssima vontade de escrever. Quando a vontade reaparecer, vou ter que usá-la pra adiantar meu trabalho da pós, já que eu tenho que entregá-lo um pouco mais adiantado no dia 4 de dezembro. Ou seja, talvez eu suma, ou só faça post mequetrefes assim por uns tempos. Desculpaê.
Mas não podia deixar de agradecer à Glória e a Mari Biddle pelo selinho. Eu já havia recebido este mesmo selo há alguns meses e repassado à alguns blogs. Então, só vou retribuir a gentileza acrescentando o delas a lista, tá?
É isso.
Daí fui atropelada no últimos dias por isso (não com a mesma intensidade, mas da mesma natureza). Pouquíssima vontade de escrever. Quando a vontade reaparecer, vou ter que usá-la pra adiantar meu trabalho da pós, já que eu tenho que entregá-lo um pouco mais adiantado no dia 4 de dezembro. Ou seja, talvez eu suma, ou só faça post mequetrefes assim por uns tempos. Desculpaê.
Mas não podia deixar de agradecer à Glória e a Mari Biddle pelo selinho. Eu já havia recebido este mesmo selo há alguns meses e repassado à alguns blogs. Então, só vou retribuir a gentileza acrescentando o delas a lista, tá?
É isso.
domingo, 7 de novembro de 2010
Diversos microtemas sem nenhuma profundidade
Preguiça de escrever, mas não gosto de deixar tudo abandonado. Então, microtemas:
Algumas mulheres resolveram fazer umas fotos engajadas e sensuais e criaram uma página no Facebook chamada “gostosas pró-Dilma”. Claro que muita gente achou de mal gosto, machista e tal. Daí no Uol, noticiam a coisa tentando associá-la ao Serra pedindo ajuda pras “meninas bonitas” de Uberlândia pedindo votos pra ele . Como se fosse a mesma coisa. Como se fosse incoerência chamar o Serra de machista e postar uma foto “sensualizando” pró Dilma. E não é. A Dilma não pediu pra ninguém mostrar o decote pra fazer campanha. Muito menos sugeriu que suas eleitoras insinuassem trocar favores sexuais por votos. Mas as eleitoras da Dilma (e as do Serra, claro) são mulheres donas de seus corpos e de sua sexualidade e se resolveram misturar com política, foi por decisão própria, não por apelos externos. Sim, a gente tem o direito de não gostar se quiser. E o Serra também deu uma sugestão, não uma ordem. Mas não é a mesma coisa, nem de longe. A autonomia da mulher é a questão. Eu dispôr do meu corpo é uma coisa. Você achar que pode dispor das minhas vontades como capital político, é outra bem diferente.
***
Sexta-feira minha amiga Ma, que mora na França, veio jantar em casa. Ela ainda não conhecia o apê que eu divido com o marido. E foi tão engraçado que ela trouxe o Arthur, seu filho de 15 meses. E tomaram conta da casa. Toda uma outra dinâmica. Fosse outra pessoa, talvez eu achasse espaçosa. Mas é a Ma, e a Ma pode tudo na minha casa: já entrou dizendo que precisava dar um banho no menino, ficou descalça, pediu pra gente tirar a mesa de centro (que é dela, aliás...) e o tapete para ele não cair e abrir espaço pro cercadinho portátil, me colocou pra lavar mamadeiras, deu fralda de cocô na minha mão pra eu jogar no lixo, fez a Lu dar mamadeira pro pequeno. Enfim, ficou a vontade. Nada mais gostoso do que alguém que a gente ama ficar a vontade na nossa casa. Adorei. Uma coisa ficou cristalina: a vida com crianças é outra. Parece boa também, mas é bem diferente, e cansativa. Por enquanto gostamos muito da nossa como está, então contracepção é bom e fazemos uso. Bem engraçada essa fase em que os amigos (e no caso do marido, os irmãos também) começam a ter filhos e sua vida social se divide entre a turma do descompromisso a turma das fraldas.
***
A Ma contou um pouco sobre seus perrengues na França. Ela chegou lá em 2005, mesma época que eu. Ficou, casou, fez um master, já trabalhou, enfim, tá habituada. Mas de uns tempos pra cá tem ficado de saco cheio da condição de estrangeira, a mesma que me deixou de saco cheio em poucos meses. Ela contou que tem vontade de clinicar na França (ela é psicóloga), mas como nossa faculdade aqui não tem TCC, precisa entregar uma memoire pra conseguir sua licença. Até aí, beleza, a gente já sabe como funciona. Ela procurou uma instituição do tipo ensino à distância, pra fazer um curso on-line de psicologia do trabalho pra adquirir algum conteúdo enquanto faz o memoire. De novo, ela não precisa estudar mais, bastaria entregar o trabalho. Chegando pra fazer a matrícula, cismaram que ela não tem license. License, pra quem não leu lá na Amanda ou na Luci, são os 3 primeiros anos de faculdade, sem TCC. A Ma se formou em psicologia no Brasil (5 anos), começou um mestrado aqui mas não chegou a terminar (2 anos) e fez um mestrado em administração hospitalar na França (2 anos). Toda a documentação explicando isso. Daí ela chega lá, dizem que não, ela não pode, e quando ela vai entregar a documentação do Ministério explicando a equivalência da formação dela, a simpática secretária diz que está fazendo greve, não pode analisar documento nenhum, e que só estava lá pra adiantar trabalho atrasado. Nonsense total.
Olha, sempre que você ouviu que fulaninha casou com estrangeiro e se deu bem, releve muito. Se a ambição da fulaninha era só viver fora do país e ter um cara par pagar as contas, pode ser que tenha se dado bem mesmo. Mas se fulana quer estudar, trabalhar, fazer algo que a realize, reconsidere. Ela pode ter que ficar longe das pessoas que amam, enfrentar toda dificuldade de estar numa cultura diferente, sofrem com a língua, e depois de anos lá e muitos anos de estudo de nível superior ser encarada como a estrangeira que tem que provar que fez faculdade. Haja saco. Um beijo pra Amanda e pra Luci, que estão nesse barco. E pra Mari Biddle, que não está na França, mas imagino que passe perrengues parecidos.
***
Por fim, receitinha, porque este é um blog variado. Pra sobremesa do jantar de sexta, bati no liquidificador 400g de queijo branco fresco, creme de leite, um pouco de leite condensado (meia lata, não mais do que isso) e coloquei gelatina incolor diluída em 5 colheres de água quente. Dormiu na geladeira e no dia seguinte virei goiabada cremosa (mas dá pra derreter a goiabada em pedaços no fogo com um pouco de água). O povo adorou, mas a quantidade era muita e sobrou. E agora me engajei na árdua tarefa de acabar com essa sobremesa simples no feitio mas luxo no sabor. Recomendo a quem quer servir algo simples mas que pareça mais elaborado do que abrir uma embalagem.
Algumas mulheres resolveram fazer umas fotos engajadas e sensuais e criaram uma página no Facebook chamada “gostosas pró-Dilma”. Claro que muita gente achou de mal gosto, machista e tal. Daí no Uol, noticiam a coisa tentando associá-la ao Serra pedindo ajuda pras “meninas bonitas” de Uberlândia pedindo votos pra ele . Como se fosse a mesma coisa. Como se fosse incoerência chamar o Serra de machista e postar uma foto “sensualizando” pró Dilma. E não é. A Dilma não pediu pra ninguém mostrar o decote pra fazer campanha. Muito menos sugeriu que suas eleitoras insinuassem trocar favores sexuais por votos. Mas as eleitoras da Dilma (e as do Serra, claro) são mulheres donas de seus corpos e de sua sexualidade e se resolveram misturar com política, foi por decisão própria, não por apelos externos. Sim, a gente tem o direito de não gostar se quiser. E o Serra também deu uma sugestão, não uma ordem. Mas não é a mesma coisa, nem de longe. A autonomia da mulher é a questão. Eu dispôr do meu corpo é uma coisa. Você achar que pode dispor das minhas vontades como capital político, é outra bem diferente.
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Sexta-feira minha amiga Ma, que mora na França, veio jantar em casa. Ela ainda não conhecia o apê que eu divido com o marido. E foi tão engraçado que ela trouxe o Arthur, seu filho de 15 meses. E tomaram conta da casa. Toda uma outra dinâmica. Fosse outra pessoa, talvez eu achasse espaçosa. Mas é a Ma, e a Ma pode tudo na minha casa: já entrou dizendo que precisava dar um banho no menino, ficou descalça, pediu pra gente tirar a mesa de centro (que é dela, aliás...) e o tapete para ele não cair e abrir espaço pro cercadinho portátil, me colocou pra lavar mamadeiras, deu fralda de cocô na minha mão pra eu jogar no lixo, fez a Lu dar mamadeira pro pequeno. Enfim, ficou a vontade. Nada mais gostoso do que alguém que a gente ama ficar a vontade na nossa casa. Adorei. Uma coisa ficou cristalina: a vida com crianças é outra. Parece boa também, mas é bem diferente, e cansativa. Por enquanto gostamos muito da nossa como está, então contracepção é bom e fazemos uso. Bem engraçada essa fase em que os amigos (e no caso do marido, os irmãos também) começam a ter filhos e sua vida social se divide entre a turma do descompromisso a turma das fraldas.
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A Ma contou um pouco sobre seus perrengues na França. Ela chegou lá em 2005, mesma época que eu. Ficou, casou, fez um master, já trabalhou, enfim, tá habituada. Mas de uns tempos pra cá tem ficado de saco cheio da condição de estrangeira, a mesma que me deixou de saco cheio em poucos meses. Ela contou que tem vontade de clinicar na França (ela é psicóloga), mas como nossa faculdade aqui não tem TCC, precisa entregar uma memoire pra conseguir sua licença. Até aí, beleza, a gente já sabe como funciona. Ela procurou uma instituição do tipo ensino à distância, pra fazer um curso on-line de psicologia do trabalho pra adquirir algum conteúdo enquanto faz o memoire. De novo, ela não precisa estudar mais, bastaria entregar o trabalho. Chegando pra fazer a matrícula, cismaram que ela não tem license. License, pra quem não leu lá na Amanda ou na Luci, são os 3 primeiros anos de faculdade, sem TCC. A Ma se formou em psicologia no Brasil (5 anos), começou um mestrado aqui mas não chegou a terminar (2 anos) e fez um mestrado em administração hospitalar na França (2 anos). Toda a documentação explicando isso. Daí ela chega lá, dizem que não, ela não pode, e quando ela vai entregar a documentação do Ministério explicando a equivalência da formação dela, a simpática secretária diz que está fazendo greve, não pode analisar documento nenhum, e que só estava lá pra adiantar trabalho atrasado. Nonsense total.
Olha, sempre que você ouviu que fulaninha casou com estrangeiro e se deu bem, releve muito. Se a ambição da fulaninha era só viver fora do país e ter um cara par pagar as contas, pode ser que tenha se dado bem mesmo. Mas se fulana quer estudar, trabalhar, fazer algo que a realize, reconsidere. Ela pode ter que ficar longe das pessoas que amam, enfrentar toda dificuldade de estar numa cultura diferente, sofrem com a língua, e depois de anos lá e muitos anos de estudo de nível superior ser encarada como a estrangeira que tem que provar que fez faculdade. Haja saco. Um beijo pra Amanda e pra Luci, que estão nesse barco. E pra Mari Biddle, que não está na França, mas imagino que passe perrengues parecidos.
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Por fim, receitinha, porque este é um blog variado. Pra sobremesa do jantar de sexta, bati no liquidificador 400g de queijo branco fresco, creme de leite, um pouco de leite condensado (meia lata, não mais do que isso) e coloquei gelatina incolor diluída em 5 colheres de água quente. Dormiu na geladeira e no dia seguinte virei goiabada cremosa (mas dá pra derreter a goiabada em pedaços no fogo com um pouco de água). O povo adorou, mas a quantidade era muita e sobrou. E agora me engajei na árdua tarefa de acabar com essa sobremesa simples no feitio mas luxo no sabor. Recomendo a quem quer servir algo simples mas que pareça mais elaborado do que abrir uma embalagem.
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
O (não) peso das palavras
Acho que eu nunca escrevi sobre este tema, embora seja muito de meu interesse. As sutilezas dos significados que um significante pode ter (pra quem não é familiarizado: significante é a palavra sapato, significado é o objeto sapato). Uma palavra pode ter diversos pesos, impactos, provocar reações as mais diversas dependendo de quem a diz ou de como a diz. Por exemplo: referir-se a alguém carinhosamente como “meu preto” não tem nada a ver com usar a cor da pele como forma de insulto. Só quem é muito desonesto intelectualmente não aceita isso, que o contexto, se não diz tudo, diz muita coisa ao menos.
Aconteceu uma coisa engraçada esse final de semana. Eu não sabia que uma (nova) amiga era lésbica. Daí perguntei pra galera: “só eu não sabia que fulana é sapata”? Todo mundo riu. E depois eu comentei com a própria: “fulana, só eu não sabia que você era sapata!”. E ela respondeu, dando risada: “ok, me apresento de novo, prazer, sou a fulana, e sou sapatão”. E todo mundo riu mais ainda.
Meu primeiro contato próximo com a homossexualidade foi quando uma amiga da escola, que até então se relacionava com meninos, voltou das férias namorando uma garota. Tínhamos 16, 17 anos. Aquilo me intrigou um pouco, como tudo o que é novo. Depois me acostumei, mas lembro que achava a palavra “sapatão” super pejorativa. Semana passada eu ouvi, em contextos diferentes, duas mulheres se apresentando como “sapatão”, de uma maneira extremamente bem humorada. Uma delas, na verdade, disse que era “sapatã” - achei bem fofo. Então, venci o meu preconceito com o termo, chamei a amiga de sapata, e ela entendeu que, por sapata, eu tava dizendo “uma mulher que gosta de outras mulheres”, nada além.
Eu sempre achei extremamente subversivo isso de se apropriar de uma palavra teoricamente ofensiva, assumi-la, e devolver para um interlocutor como um enfrentamento, porque você desarma o preconceituoso. Sempre lembro da tal mesa redonda com profissionais do sexo no Fórum Social Mundial, que eu já mencionei aqui. Mulherada dizia: “olha, eu sou puta, gosto de ser puta, gosto muito de fazer sexo e ainda ganhar dinheiro pra isso.” Esqueçamos a discussão feminista sobre a prostituição neste momento. Quando alguém chama uma mulher de puta e ela responde, de cabeça erguida, “sou puta mesmo, e daí?”, ela desmontou o ataque. E eu acho isso lindo.
Tem um neologismo que eu uso de uma maneira bem humorada, mas que o machismo considera ofensa gravíssima: periguete. Mas eu só uso porque, na minha cabeça, registrei “periguete” como a mulher gostosa que sabe que é gostosa e adora ser gostosa. Eu não coloco nenhum julgamento moral aí. Só que, né? Preciso tomar cuidado pra usar, porque eu não vivo em Marte. Se eu me refiro a uma mulher como “periguete”, meu interlocutor pode achar que eu tô condenando, e eu não sou assim. Tem um caso engraçado de uma amiga linda e muito bem-sucedida, cargo alto em multinacional e tudo, que usa este termo pejorativamente, fala “eu não sou uma periguete qualquer”. Mas ela tá sempre usando roupas que chamam muito a atenção para seu (lindo) corpo. Sempre “vestida para matar”, decotão, roupa justa, maquiagem pesada, microssaia - em 10 anos de amizade, nunca a vi de jeans, camiseta e tênis. No dia em que eu a apresentei ao meu marido (então namorado), ela usava uma blusa meio transparente, sem sutiã, “farol aceso”. Bem periguete, segundo minha definição. Lógico que ele olhou os peitos dela. Até eu olhei, né? E nada demais, como ele é um cara bacana, olhou, achou gostosa, e não inferiu nada sobre ela só por isso. Acho que ela não é menos respeitada por ninguém por conta da maneira como se veste: é inteligente o suficiente pra se afastar gente desrespeitosa, e pra deixar claro que sim, ela é gostosona, sim, você pode olhar e não, ela não é mero objeto de apreciação, embora goste muito de ser admirada. Mas o engraçado é que faz este julgamento sobre outras mulheres. Sei lá qual o critério dela, mas acho graça.
Post sem pé nem cabeça. Só que pra dizer que, oi, você pode ser periguete, você pode ser sapata, você pode ser tudo, sua linda. O que não pode é alguém te desrespeitar por conta disso. Machismo é achar que existe um padrão aceitável de conduta para uma mulher, e que todo o resto é condenável.
Aconteceu uma coisa engraçada esse final de semana. Eu não sabia que uma (nova) amiga era lésbica. Daí perguntei pra galera: “só eu não sabia que fulana é sapata”? Todo mundo riu. E depois eu comentei com a própria: “fulana, só eu não sabia que você era sapata!”. E ela respondeu, dando risada: “ok, me apresento de novo, prazer, sou a fulana, e sou sapatão”. E todo mundo riu mais ainda.
Meu primeiro contato próximo com a homossexualidade foi quando uma amiga da escola, que até então se relacionava com meninos, voltou das férias namorando uma garota. Tínhamos 16, 17 anos. Aquilo me intrigou um pouco, como tudo o que é novo. Depois me acostumei, mas lembro que achava a palavra “sapatão” super pejorativa. Semana passada eu ouvi, em contextos diferentes, duas mulheres se apresentando como “sapatão”, de uma maneira extremamente bem humorada. Uma delas, na verdade, disse que era “sapatã” - achei bem fofo. Então, venci o meu preconceito com o termo, chamei a amiga de sapata, e ela entendeu que, por sapata, eu tava dizendo “uma mulher que gosta de outras mulheres”, nada além.
Eu sempre achei extremamente subversivo isso de se apropriar de uma palavra teoricamente ofensiva, assumi-la, e devolver para um interlocutor como um enfrentamento, porque você desarma o preconceituoso. Sempre lembro da tal mesa redonda com profissionais do sexo no Fórum Social Mundial, que eu já mencionei aqui. Mulherada dizia: “olha, eu sou puta, gosto de ser puta, gosto muito de fazer sexo e ainda ganhar dinheiro pra isso.” Esqueçamos a discussão feminista sobre a prostituição neste momento. Quando alguém chama uma mulher de puta e ela responde, de cabeça erguida, “sou puta mesmo, e daí?”, ela desmontou o ataque. E eu acho isso lindo.
Tem um neologismo que eu uso de uma maneira bem humorada, mas que o machismo considera ofensa gravíssima: periguete. Mas eu só uso porque, na minha cabeça, registrei “periguete” como a mulher gostosa que sabe que é gostosa e adora ser gostosa. Eu não coloco nenhum julgamento moral aí. Só que, né? Preciso tomar cuidado pra usar, porque eu não vivo em Marte. Se eu me refiro a uma mulher como “periguete”, meu interlocutor pode achar que eu tô condenando, e eu não sou assim. Tem um caso engraçado de uma amiga linda e muito bem-sucedida, cargo alto em multinacional e tudo, que usa este termo pejorativamente, fala “eu não sou uma periguete qualquer”. Mas ela tá sempre usando roupas que chamam muito a atenção para seu (lindo) corpo. Sempre “vestida para matar”, decotão, roupa justa, maquiagem pesada, microssaia - em 10 anos de amizade, nunca a vi de jeans, camiseta e tênis. No dia em que eu a apresentei ao meu marido (então namorado), ela usava uma blusa meio transparente, sem sutiã, “farol aceso”. Bem periguete, segundo minha definição. Lógico que ele olhou os peitos dela. Até eu olhei, né? E nada demais, como ele é um cara bacana, olhou, achou gostosa, e não inferiu nada sobre ela só por isso. Acho que ela não é menos respeitada por ninguém por conta da maneira como se veste: é inteligente o suficiente pra se afastar gente desrespeitosa, e pra deixar claro que sim, ela é gostosona, sim, você pode olhar e não, ela não é mero objeto de apreciação, embora goste muito de ser admirada. Mas o engraçado é que faz este julgamento sobre outras mulheres. Sei lá qual o critério dela, mas acho graça.
Post sem pé nem cabeça. Só que pra dizer que, oi, você pode ser periguete, você pode ser sapata, você pode ser tudo, sua linda. O que não pode é alguém te desrespeitar por conta disso. Machismo é achar que existe um padrão aceitável de conduta para uma mulher, e que todo o resto é condenável.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Mudando de assunto...
Eu tô devendo um post sobre o livro da Maria Rita Kehl que eu falei que ia fazer, até porque será sobre uma obra em que ela analisa Madame Bovary, a Rita leu faz pouco e, bom, o timing tá passando (droga!). Mas tô meio de saco cheio de assunto super sério (eleições? deu por enquanto). Daí me deu vontade de escrever sobre algo diferente. Algo sério mas não no gênero épico, no lírico.
Tenho essa amiga que está num relacionamento bem instável. Aliás, não só o relacionamento, a vida dela está muito instável e este relacionamento começado no meio da crise só reflete isso. E ela diz que gosta do cara, mas os dois não conseguem se entender. Na sua versão, não dá pra terminar porque o namoro “é a única coisa boa” na vida dela no momento. E não adianta eu argumentar que “olha, mas um relacionamento ruim não é uma coisa boa...”. Claro, cada um pensa de um jeito. Tem gente que não consegue ficar sozinha, e pode ser que seja o caso dela. Eu já estive sozinha por longos períodos e já estive em relacionamentos ruins e posso dizer que hoje eu não troco a primeira situação pela segunda. Mas sou espertinha o suficiente pra dizer que esta sou EU e isto é HOJE. Não posso garantir que sempre vou pensar assim. Mas que eu acho um desperdício uma pessoa tão jovem se apegar a algo que não a está fazendo feliz, isso eu acho.
O problema principal do casal em questão é o ciúme. Os dois sentem um ciúme absurdo um do outro. Não é caso de polícia, felizmente, mas é caso de tensão constante. E você diz: “mas Iara, sua tolinha, tem gente que acha que isso apimenta a relação”. Pode ser, mas eu acho que uma coisa é aquela briguinha boba, aquele charminho, que termina em fazer as pazes na cama. Outra é ficar o tempo todo se perguntando o que o outro está fazendo, sofrendo, fantasiando e levando a questão para guerra semana-sim-e-outra-também. Sabe gente que vai fuçar no celular alheio procurando algo pra se aborrecer? Nesse naipe.
Já falei pra ela que é bobagem. Que não funciona assim. O amor só é tão bacana porque o outro é livre. Tem que cativar, não prender. Mas ela disse que não consegue ser assim, que tem muito medo de “ser feita de trouxa”. E, né? Mandei a real pra ela. Garantia até a próxima Copa, só na televisão nova. Amor não dá garantia nenhuma. “Ser feita de trouxa”, que pode significar coisas muito diferentes pra pessoas diferentes, é um risco inerente ao sentimento. Enquanto eu escrevo isso, marido está na faculdade. Quer dizer, deve estar. Mas pode estar com outra, dizendo “sabe como é, minha mulher é frígida, nem rola nada entre a gente, etc”. Confio muito nele, nos seus sentimentos, e no seu amor e respeito por mim, mas já vivi o suficiente pra saber que as pessoas são humanas, com tudo de bom e de ruim que essa humanidade implica. Todas as pessoas que amamos têm potencial pra nos machucar.. TODAS. E olha só, também temos esse potencial e podemos machucar os outros, ainda que involuntariamente. As opção são: confiar, não pensar no assunto e extrair o máximo de felicidade da vida, ou se fechar, travar e viver angustiada por não ter o controle de tudo. Eu escolhi a primeira.
Tenho essa amiga que está num relacionamento bem instável. Aliás, não só o relacionamento, a vida dela está muito instável e este relacionamento começado no meio da crise só reflete isso. E ela diz que gosta do cara, mas os dois não conseguem se entender. Na sua versão, não dá pra terminar porque o namoro “é a única coisa boa” na vida dela no momento. E não adianta eu argumentar que “olha, mas um relacionamento ruim não é uma coisa boa...”. Claro, cada um pensa de um jeito. Tem gente que não consegue ficar sozinha, e pode ser que seja o caso dela. Eu já estive sozinha por longos períodos e já estive em relacionamentos ruins e posso dizer que hoje eu não troco a primeira situação pela segunda. Mas sou espertinha o suficiente pra dizer que esta sou EU e isto é HOJE. Não posso garantir que sempre vou pensar assim. Mas que eu acho um desperdício uma pessoa tão jovem se apegar a algo que não a está fazendo feliz, isso eu acho.
O problema principal do casal em questão é o ciúme. Os dois sentem um ciúme absurdo um do outro. Não é caso de polícia, felizmente, mas é caso de tensão constante. E você diz: “mas Iara, sua tolinha, tem gente que acha que isso apimenta a relação”. Pode ser, mas eu acho que uma coisa é aquela briguinha boba, aquele charminho, que termina em fazer as pazes na cama. Outra é ficar o tempo todo se perguntando o que o outro está fazendo, sofrendo, fantasiando e levando a questão para guerra semana-sim-e-outra-também. Sabe gente que vai fuçar no celular alheio procurando algo pra se aborrecer? Nesse naipe.
Já falei pra ela que é bobagem. Que não funciona assim. O amor só é tão bacana porque o outro é livre. Tem que cativar, não prender. Mas ela disse que não consegue ser assim, que tem muito medo de “ser feita de trouxa”. E, né? Mandei a real pra ela. Garantia até a próxima Copa, só na televisão nova. Amor não dá garantia nenhuma. “Ser feita de trouxa”, que pode significar coisas muito diferentes pra pessoas diferentes, é um risco inerente ao sentimento. Enquanto eu escrevo isso, marido está na faculdade. Quer dizer, deve estar. Mas pode estar com outra, dizendo “sabe como é, minha mulher é frígida, nem rola nada entre a gente, etc”. Confio muito nele, nos seus sentimentos, e no seu amor e respeito por mim, mas já vivi o suficiente pra saber que as pessoas são humanas, com tudo de bom e de ruim que essa humanidade implica. Todas as pessoas que amamos têm potencial pra nos machucar.. TODAS. E olha só, também temos esse potencial e podemos machucar os outros, ainda que involuntariamente. As opção são: confiar, não pensar no assunto e extrair o máximo de felicidade da vida, ou se fechar, travar e viver angustiada por não ter o controle de tudo. Eu escolhi a primeira.
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
Pontos fora da curva
Hoje aconteceu uma coisa engraçada no trabalho. Alguém veio me perguntar se eu achava que a Dilma ia ganhar no 1º turno. Assim, do nada. E eu respondi que provavelmente sim, mas que existem dois fatores cujos impactos as pesquisas não tinham condições de avaliar, cada um pendendo para um lado. Um é o fato da herança no número 13 que é muito forte como o número do Lula, mesmo entre quem ainda não sacou que a candidata é ela. Outra era a exigência de dois documentos para votar, uma novidade pouco divulgada. Daí alguém comentou com um tom meio alegrinho que “o povo ignorante que vota na Dilma e ganha bolsa família” não sabe disso. Mas todo mundo meio que mimimi e perguntaram o que eu achava. E eu disse que era suspeita porque não só ia votar nela, como já comprei minha passagem pra assistir à posse em Brasília. Ficaram com aquela cara de tacho de: “jura?”. Juro, respondi. Sou petista de pai e mãe. E alguém perguntou se eu gostava do PT ou dela e eu respondi que gosto de ambos. Silêncio. Todo mundo voltou a trabalhar, assunto encerrado.
No trabalho do marido é sabido que só ele e uma colega são eleitores do PT. E um dia um cara veio com discurso de que falam tanto que o país melhorou, mais ele ainda tem que pagar escola particular pros filhos. Marido explicou que, oi, o responsável pela escolas de Ensino Médio é o governo estadual, do partido que está há quase duas décadas no comando de São Paulo, justamente o partido do Serra que era, ele mesmo, governador até anteontem. E como marido não deixa barato, falou pro colega se informar melhor pra não passar vergonha na próxima – e de repente, quem sabe, votar no Mercadante dessa vez, se o que ele quer é mudança.
Esses casos são exemplo de uma coisa que é muito clara pra mim: as classes média e média alta paulistanas não estão acostumadas a alteridade. Não que o ser humano assim, no geral, não seja resistente à diferença. Mas é que o nível de renda e de escolaridade mais alto aqui não contribuem para visão mais ampla do mundo. Acham realmente que sua vida é o padrão, a norma, que o resto é ponto fora da curva. Daí o discurso só varia na hora de falar de futebol mesmo (e um dos colegas ainda brincou: “você é corintiana E petista?”). E a eleição do Lula, ao meu ver, trouxe mesmo esse ranço de que nós (porque se eu não compactuo com discurso, também não nego minha posição social) não somos maioria. Que há no país milhões de pessoas que não têm nossas referências, nossas prioridades, e têm direito à cidadania. E esta minoria então estranha muito quando encontra, eventualmente, alguém que não recebe Bolsa Família, fala línguas estrangeiras, frequenta restaurantes e usa perfume importado, trabalha duro, paga Imposto de Renda mas não faz coro com o discurso de lula-analfabeto-ignorante-petralha-vagabundo-etc-etc.
Em 2002 eu trabalhava naquela empresa super elitista e escrotinha. E foi o ano da eleição do Lula, então, toda uma experiência observar estes colegas. Tinha um cara que era reconhecidamente super alienado, até para os padrões de lá. Contavam que uma vez o levaram pra visitar varejo na periferia, parte de um trabalho de pesquisa de mercado, e ele ficou chocado. Em dado momento perguntou, se referindo à pobreza do bairro visitado: “nossa, mas o que é essa miséria toda?”. E alguém respondeu: “ué, isso é São Paulo, mané! achava que acabava em Moema?”. Pois então, esse cara tinha certeza de que o Lula ia “transformar o Brasil em Cuba”. Repito, em 2002, não em 89. E tinha um papo hilário do povo que não entendia como o Lula tinha aquele percentual de intenções de votos, se eles “não conheciam ninguém que ia votar nele”. Uma colega, engenheira, chegou a dizer que fizeram uma pesquisa no prédio dela e ninguém lá ia votar no cara. Alguém sabe me dizer se no curso de engenharia estuda-se alguma coisa de estatística? Porque no de Letras não, mas eu sei que um condomínio fechado em São Paulo, de um edifício com 3 vagas de garagem e nome provavelmente em inglês NÃO é um microcosmo representativo do país. Logo fica difícil fazer alguma projeção numérica confiável com essa amostragem tão pouco diversa, né?
Essa minha aversão à mentalidade tacanha à minha volta me trouxe um presente dos melhores: meu marido. Digamos que nosso primeiro encontro não foi exatamente um sucesso, e o moço não deixou uma impressão das melhores. Mas, em algum momento, ele fez um comentário elogioso à gestão da Marta Suplicy na prefeitura e pediu desculpas por tocar no assunto se isso de alguma forma me ofendia, mas o fato é que ele era “um mocinho de esquerda” (desse jeito, olha que fofo?). E eu sorri e respondi que, tudo bem, eu também era uma mocinha de esquerda. E, ao fazer o saldo daquela noite meio desastrada, pensando se eu dava uma chance ou não pra aquela história continuar, este comentário pesou, porque é meio difícil encontrar gente de esquerda nos ambientes que eu frequento, ainda mais depois de ter terminado a faculdade. Enfim, liguei pra ele, dei mais uma chance a nós dois, e ganhei, além de um marido, o meu interlocutor mais querido. Brincamos que, se um dia oficializarmos a união, vamos ter que chamar a Marta pra madrinha...
No trabalho do marido é sabido que só ele e uma colega são eleitores do PT. E um dia um cara veio com discurso de que falam tanto que o país melhorou, mais ele ainda tem que pagar escola particular pros filhos. Marido explicou que, oi, o responsável pela escolas de Ensino Médio é o governo estadual, do partido que está há quase duas décadas no comando de São Paulo, justamente o partido do Serra que era, ele mesmo, governador até anteontem. E como marido não deixa barato, falou pro colega se informar melhor pra não passar vergonha na próxima – e de repente, quem sabe, votar no Mercadante dessa vez, se o que ele quer é mudança.
Esses casos são exemplo de uma coisa que é muito clara pra mim: as classes média e média alta paulistanas não estão acostumadas a alteridade. Não que o ser humano assim, no geral, não seja resistente à diferença. Mas é que o nível de renda e de escolaridade mais alto aqui não contribuem para visão mais ampla do mundo. Acham realmente que sua vida é o padrão, a norma, que o resto é ponto fora da curva. Daí o discurso só varia na hora de falar de futebol mesmo (e um dos colegas ainda brincou: “você é corintiana E petista?”). E a eleição do Lula, ao meu ver, trouxe mesmo esse ranço de que nós (porque se eu não compactuo com discurso, também não nego minha posição social) não somos maioria. Que há no país milhões de pessoas que não têm nossas referências, nossas prioridades, e têm direito à cidadania. E esta minoria então estranha muito quando encontra, eventualmente, alguém que não recebe Bolsa Família, fala línguas estrangeiras, frequenta restaurantes e usa perfume importado, trabalha duro, paga Imposto de Renda mas não faz coro com o discurso de lula-analfabeto-ignorante-petralha-vagabundo-etc-etc.
Em 2002 eu trabalhava naquela empresa super elitista e escrotinha. E foi o ano da eleição do Lula, então, toda uma experiência observar estes colegas. Tinha um cara que era reconhecidamente super alienado, até para os padrões de lá. Contavam que uma vez o levaram pra visitar varejo na periferia, parte de um trabalho de pesquisa de mercado, e ele ficou chocado. Em dado momento perguntou, se referindo à pobreza do bairro visitado: “nossa, mas o que é essa miséria toda?”. E alguém respondeu: “ué, isso é São Paulo, mané! achava que acabava em Moema?”. Pois então, esse cara tinha certeza de que o Lula ia “transformar o Brasil em Cuba”. Repito, em 2002, não em 89. E tinha um papo hilário do povo que não entendia como o Lula tinha aquele percentual de intenções de votos, se eles “não conheciam ninguém que ia votar nele”. Uma colega, engenheira, chegou a dizer que fizeram uma pesquisa no prédio dela e ninguém lá ia votar no cara. Alguém sabe me dizer se no curso de engenharia estuda-se alguma coisa de estatística? Porque no de Letras não, mas eu sei que um condomínio fechado em São Paulo, de um edifício com 3 vagas de garagem e nome provavelmente em inglês NÃO é um microcosmo representativo do país. Logo fica difícil fazer alguma projeção numérica confiável com essa amostragem tão pouco diversa, né?
Essa minha aversão à mentalidade tacanha à minha volta me trouxe um presente dos melhores: meu marido. Digamos que nosso primeiro encontro não foi exatamente um sucesso, e o moço não deixou uma impressão das melhores. Mas, em algum momento, ele fez um comentário elogioso à gestão da Marta Suplicy na prefeitura e pediu desculpas por tocar no assunto se isso de alguma forma me ofendia, mas o fato é que ele era “um mocinho de esquerda” (desse jeito, olha que fofo?). E eu sorri e respondi que, tudo bem, eu também era uma mocinha de esquerda. E, ao fazer o saldo daquela noite meio desastrada, pensando se eu dava uma chance ou não pra aquela história continuar, este comentário pesou, porque é meio difícil encontrar gente de esquerda nos ambientes que eu frequento, ainda mais depois de ter terminado a faculdade. Enfim, liguei pra ele, dei mais uma chance a nós dois, e ganhei, além de um marido, o meu interlocutor mais querido. Brincamos que, se um dia oficializarmos a união, vamos ter que chamar a Marta pra madrinha...
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
9 caminhos
A Aline fez este post seguindo o meme, e nos comentários disse que pensou em passá-lo pra mim. Ela disse que ficou em dúvida sobre que raio de 9 coisas. Eu também, na verdade. A solução que ela encontrou foi o post fofo sobre os bichos de estimação. A minha também vai ser monotemática, porque eu lembrei que já tinha pensado em fazer posts sobre as coisas que eu gosto ou com as quais já trabalhei. Eu já contei aqui que eu sou perdida e tal, mas nunca contei o quanto. Daí no final de semana alguém me disse que se não fosse geógrafa, teria que nascer de novo, e que tinha pena das pessoas que chegam à maturidade sem saber o que querem da vida (oi? prazer!). E eu tentei explicar que eu sou assim não porque o mundo me é indiferente, porque não tenho paixões, mas justamente porque me interesso por muitas coisas. Então pensei em contar aqui sobre as coisas que eu já pensei em estudar, os empregos que eu tive, os caminhos que eu avaliei. Periga vocês acharem quem tem algo de ficção porque, né, eu só tenho 30 anos. Mas eu juro que é tudo sério.
1. Técnica em edificações (futura arquiteta ou engenheira civil)
Quando eu tinha 14 anos meu pai ficou desempregado, e eu achei que seria uma boa mudar pra uma escola pública. Até então, a única escola técnica profissionalizante que eu tinha ouvido falar era o Senai. Mas me informei e conheci outras. Como eu ia muito bem em matemática naquela época, achava que seria engenheira. E como eu já não gostava de eletricidade naquela época, escolhi o curso que me parecia mais simpático. Cheguei a fazer estágio num escritório de arquitetura, desenhando plantas (com tinta nanquim e papel vegetal ainda, nada de computador) e divulgando os produtos de uma fábrica de metais sanitários (meus primeiros rendimentos, aos 17 anos). Alguns amigos daquela época seguiram carreira. Outros, como eu, terminaram o curso com uma única certeza: de que aquilo não era o que queriam da vida.
2. Recepcionista/ Secretária
Bom, eu não cheguei a terminar meu curso profissionalizante. Naquele tempo, cursando 3 dos 4 anos, a gente podia pegar o diploma de 2° grau (é, eu sei que hoje se chama Ensino Médio) e cair fora. Foi o que eu fiz, mas já tinha decidido trabalhar enquanto fazia cursinho e pensava na vida. Então fui procurar emprego de recepcionista bilíngue, pra fazer valer a grana investida em anos de aulas da Cultura Inglesa. Consegui. Trabalhava numa empresa que sublocava espaço para outras menores e fazia a administração da coisa, como se fosse um flat (aluguel + serviços) só que comercial, não residencial. Às vezes me sentia como caqueles chinezinhos que rolam os pratinhos nas varetas tentando equilibrar todos, manjam? Imagina ter 5 pessoas na espera do telefone e mais 3 paradas na sua frente? Depois de alguns meses fui promovida a assistente administrativa mal sabendo usar o Office. Todos os dias ficava até tarde tentando aprender, faltando às aulas do cursinho. E aprendi (e consegui passar no vestibular também). Na verdade é graças a essa trajetória que pago minhas contas até hoje, porque eu amadureci demais e me desenvolvi muito profissionalmente. Não vou colocar o meu CV aqui, mas o fato é que fui mudando pra empregos que pagavam melhor, em empresas mais bacanas. Cheguei a ser assistente de um alto executivo numa montadora. Ser secretária tem um lado sacal, que é o de ser babá de gente grande, mas tinha um lance que eu sempre curti, que era tratar com todo mundo, de todos os níveis hierárquicos da empresa. Apertar a mão do presidente e tomar um café com os boys comentando o último jogo do Corinthians era uma parte interessante.
3. Professora
Em dado momento, cheguei à conclusão de que era muito nova pra fazer carreira, que era uma bosta chegar à faculdade tão cansada e que eu não queria trabalhar neste universo corporativo escroto. Pedi demissão pra dar aulas. Eu já tinha tentado dar aulas de inglês antes de entrar na faculdade, mas o fato é que não era boa o suficiente. Já o Espanhol eu aprendia como carreira. Então passei um tempo dando aulas de Espanhol, Português para Estrangeiros, Redação e o que mais aparecesse (acho que cheguei a substituir uma professora de inglês uma vez – mas só uma). Os planos eram seguir carreira acadêmica e virar professora de Literatura. Parece que eu até fazia tudo direitinho e os alunos curtiam minhas aulas. Mas eu queria ficar um tempo fora e larguei tudo para passar um ano na França aprendendo mais um idioma. E na volta nem tava mais a fim de fazer isso.
4. Babá
O ano que passei na França me sustentei como jeune fille au pair, a moça que se instala na casa de uma família estrangeira e cuida da(s) criança(s) e de alguma tarefa doméstica (no meu caso, passar aspirador de pó na casa) em troca de abrigo, comida, uns trocados e intercâmbio cultural. É uma experiência que dificilmente tem meio termo – ou é muito bacana, ou é traumática. No meu caso foi bem tranquilo, tenho contato com a família até hoje. Chegaram a me receber por uns dias na casa deles ano passado quando estive em Paris a passeio. E foi uma tremenda lição de tolerância. Passei a ter um respeito tremendo por empregada que dorme na casa dos patrões. Imagina ouvir bronca do chefe morando na casa dele? Não é pra fracos, definitivamente.
5. Relações Internacionais
Agora começa o campo do que poderia ter sido. Cheguei a procurar um Mestrado sobre o tema na França, mas colocaram algum obstáculo em relação ao meu histórico que me fez perder o tesão. Voltando ao Brasil, me inscrevi numa pós que tinha como tema o desenvolvimento social da América Latina. Não abriram a turma por falta de interessados, nunca mais ofereceram o curso e eu fiquei bem chateada.
6. Métiers du Livre – ou Editora
Outra coisa que me interessa muito: todo o processo de edição e distribuição de livros. Também vi uma pós do assunto na França – e nessa só admitiam, pra meu infinito desgosto, gente que tinha cursado Comunicação Social ou Editoração. Quando voltei, fui procurar cursos aqui e descobri que em São Paulo o único lugar que oferece é a Universidade do Livro, ligada à Editora da Unesp. Não fui porque os planos mudaram de novo (oi?), mas recomendo, parece que a coisa é boa.
7. Gestora Ambiental
Cheguei a procurar uns cursos na área, porque produção limpa é uma coisa que muito me interessa (e agora escuto o Plínio de Arruda Sampaio me chamando de “ecocapitalista”). O interesse começou quando eu trabalhei, por longos 8 meses, numa indústria nacional. O Diretor Industrial me contratou porque se impressionou com meu CV, digamos, diversificado. Achou um luxo ter uma assistente que falava francês mas também tinha feito curso técnico – peão e lady ao mesmo tempo, segundo o ponto de vista dele. Daí ele me mandava nas reuniões de fábrica e eu viajava ouvindo o povo reclamar de máquina com defeito, achava tudo uma chatice. Eu odiava este emprego com todas as forças, mas queria muito gostar, e achei que a pós pudesse ser o caminho. Bom, cheguei à conclusão que produção mecânica está entre as coisas que eu não gosto. Depois de sair do emprego, continuei interessada por um tempo. Mas passou rápido.
8. Trabalhar com comida
Comida é uma das minha grandes paixões. Eu adoro comer, adoro ir a restaurantes, adoro cozinhar, adoro ler sobre o assunto, adoro pensar questões políticas ligadas à produção de alimentos, aos nossos hábitos, enfim. Acho que dá pano pra manga, rende teses, inspirador mesmo. O foda é que eu não sei se gosto dessas coisas profissionalmente falando. “Porra, Iara, mas você disse que é paixão!”. Veja bem: é e não é. Mas eu pesquisei uns cursos no Senac de administração de serviços de alimentação. Mas o mais legal mesmo, que quando sobrar tempo e dinheiro (ou seja, nunca) eu devo fazer, é um curso que seria como uma Sociologia da Alimentação. Sabe pensar a comida numa perspectiva histórico e cultural? Pirei. Mas, né? Sei lá. Quem sabe eu mude de ideia de novo...
9. Administração – privada e pública
Daí que hoje eu sou uma assistente administrativa. Sou responsável por uma série de tarefas, de muito práticas à essencialmente burocráticas, num escritório pequeno de uma multinacional finlandesa. Não tá uma maravilha e eu poderia ganhar mais como secretária bam-bam-bam, mas daí eu lembro que ia ter que ser babá de executivo de novo e me conformo de ganhar menos. Além de que secretária é uma criatura infeliz que depende da agenda do chefe pra tudo, do almoço às férias, muitas vezes. E secretária nunca vai a lugar algum – e eu já fui mandada pra Helsinki pra fazer um treinamento, o que não deixa de ser divertido. E, voltando à ocupação, eu gosto muito de resolver problemas práticos, fazer coisas acontecerem. Gosto mesmo. Na verdade, penso que eu queria trabalhar resolvendo problemas grandes, gerindo questões de emergência. Lembram quando caiu aquele avião da Gol na Amazônia? Uma tragédia, eu sei, mas só conseguia pensar na logística envolvendo as buscas. Mesma coisa com o socorro à vítimas de enchente – fico aqui mentalmente pensando que precisa de água, de remédios, mas também de um plantão jurídico pra tirar os documentos de quem perdeu tudo. Enfim. E o curso que eu faço hoje, a pós que eu finalmente escolhi e tô adorando, é de gestão pública e urbanismo. Então cada vez mais eu penso que eu vou ter é que considerar a possibilidade de meter a cara nos livros por um bom tempo e tentar um concurso público. Mas ainda não sei. Complicada, eu?
Nem mencionei que o meu primeiro vestibular foi pra Jornalismo, porque daí viravam 10. Acho até que vocês iam achar um pouco demais (ou não?). E bom, parece que a ideia é indicar 9 pessoas pra repassar o tema. Eu tenho medo de passar tarefas assim às pessoas, porque elas podem ficar constrangidas – embora eu tenha adorado a indicação da Aline. Então, façam o seguinte? Quem comenta aqui sempre tá convidada a me contar 9 coisas. Vou adorar saber mais sobre vocês.
1. Técnica em edificações (futura arquiteta ou engenheira civil)
Quando eu tinha 14 anos meu pai ficou desempregado, e eu achei que seria uma boa mudar pra uma escola pública. Até então, a única escola técnica profissionalizante que eu tinha ouvido falar era o Senai. Mas me informei e conheci outras. Como eu ia muito bem em matemática naquela época, achava que seria engenheira. E como eu já não gostava de eletricidade naquela época, escolhi o curso que me parecia mais simpático. Cheguei a fazer estágio num escritório de arquitetura, desenhando plantas (com tinta nanquim e papel vegetal ainda, nada de computador) e divulgando os produtos de uma fábrica de metais sanitários (meus primeiros rendimentos, aos 17 anos). Alguns amigos daquela época seguiram carreira. Outros, como eu, terminaram o curso com uma única certeza: de que aquilo não era o que queriam da vida.
2. Recepcionista/ Secretária
Bom, eu não cheguei a terminar meu curso profissionalizante. Naquele tempo, cursando 3 dos 4 anos, a gente podia pegar o diploma de 2° grau (é, eu sei que hoje se chama Ensino Médio) e cair fora. Foi o que eu fiz, mas já tinha decidido trabalhar enquanto fazia cursinho e pensava na vida. Então fui procurar emprego de recepcionista bilíngue, pra fazer valer a grana investida em anos de aulas da Cultura Inglesa. Consegui. Trabalhava numa empresa que sublocava espaço para outras menores e fazia a administração da coisa, como se fosse um flat (aluguel + serviços) só que comercial, não residencial. Às vezes me sentia como caqueles chinezinhos que rolam os pratinhos nas varetas tentando equilibrar todos, manjam? Imagina ter 5 pessoas na espera do telefone e mais 3 paradas na sua frente? Depois de alguns meses fui promovida a assistente administrativa mal sabendo usar o Office. Todos os dias ficava até tarde tentando aprender, faltando às aulas do cursinho. E aprendi (e consegui passar no vestibular também). Na verdade é graças a essa trajetória que pago minhas contas até hoje, porque eu amadureci demais e me desenvolvi muito profissionalmente. Não vou colocar o meu CV aqui, mas o fato é que fui mudando pra empregos que pagavam melhor, em empresas mais bacanas. Cheguei a ser assistente de um alto executivo numa montadora. Ser secretária tem um lado sacal, que é o de ser babá de gente grande, mas tinha um lance que eu sempre curti, que era tratar com todo mundo, de todos os níveis hierárquicos da empresa. Apertar a mão do presidente e tomar um café com os boys comentando o último jogo do Corinthians era uma parte interessante.
3. Professora
Em dado momento, cheguei à conclusão de que era muito nova pra fazer carreira, que era uma bosta chegar à faculdade tão cansada e que eu não queria trabalhar neste universo corporativo escroto. Pedi demissão pra dar aulas. Eu já tinha tentado dar aulas de inglês antes de entrar na faculdade, mas o fato é que não era boa o suficiente. Já o Espanhol eu aprendia como carreira. Então passei um tempo dando aulas de Espanhol, Português para Estrangeiros, Redação e o que mais aparecesse (acho que cheguei a substituir uma professora de inglês uma vez – mas só uma). Os planos eram seguir carreira acadêmica e virar professora de Literatura. Parece que eu até fazia tudo direitinho e os alunos curtiam minhas aulas. Mas eu queria ficar um tempo fora e larguei tudo para passar um ano na França aprendendo mais um idioma. E na volta nem tava mais a fim de fazer isso.
4. Babá
O ano que passei na França me sustentei como jeune fille au pair, a moça que se instala na casa de uma família estrangeira e cuida da(s) criança(s) e de alguma tarefa doméstica (no meu caso, passar aspirador de pó na casa) em troca de abrigo, comida, uns trocados e intercâmbio cultural. É uma experiência que dificilmente tem meio termo – ou é muito bacana, ou é traumática. No meu caso foi bem tranquilo, tenho contato com a família até hoje. Chegaram a me receber por uns dias na casa deles ano passado quando estive em Paris a passeio. E foi uma tremenda lição de tolerância. Passei a ter um respeito tremendo por empregada que dorme na casa dos patrões. Imagina ouvir bronca do chefe morando na casa dele? Não é pra fracos, definitivamente.
5. Relações Internacionais
Agora começa o campo do que poderia ter sido. Cheguei a procurar um Mestrado sobre o tema na França, mas colocaram algum obstáculo em relação ao meu histórico que me fez perder o tesão. Voltando ao Brasil, me inscrevi numa pós que tinha como tema o desenvolvimento social da América Latina. Não abriram a turma por falta de interessados, nunca mais ofereceram o curso e eu fiquei bem chateada.
6. Métiers du Livre – ou Editora
Outra coisa que me interessa muito: todo o processo de edição e distribuição de livros. Também vi uma pós do assunto na França – e nessa só admitiam, pra meu infinito desgosto, gente que tinha cursado Comunicação Social ou Editoração. Quando voltei, fui procurar cursos aqui e descobri que em São Paulo o único lugar que oferece é a Universidade do Livro, ligada à Editora da Unesp. Não fui porque os planos mudaram de novo (oi?), mas recomendo, parece que a coisa é boa.
7. Gestora Ambiental
Cheguei a procurar uns cursos na área, porque produção limpa é uma coisa que muito me interessa (e agora escuto o Plínio de Arruda Sampaio me chamando de “ecocapitalista”). O interesse começou quando eu trabalhei, por longos 8 meses, numa indústria nacional. O Diretor Industrial me contratou porque se impressionou com meu CV, digamos, diversificado. Achou um luxo ter uma assistente que falava francês mas também tinha feito curso técnico – peão e lady ao mesmo tempo, segundo o ponto de vista dele. Daí ele me mandava nas reuniões de fábrica e eu viajava ouvindo o povo reclamar de máquina com defeito, achava tudo uma chatice. Eu odiava este emprego com todas as forças, mas queria muito gostar, e achei que a pós pudesse ser o caminho. Bom, cheguei à conclusão que produção mecânica está entre as coisas que eu não gosto. Depois de sair do emprego, continuei interessada por um tempo. Mas passou rápido.
8. Trabalhar com comida
Comida é uma das minha grandes paixões. Eu adoro comer, adoro ir a restaurantes, adoro cozinhar, adoro ler sobre o assunto, adoro pensar questões políticas ligadas à produção de alimentos, aos nossos hábitos, enfim. Acho que dá pano pra manga, rende teses, inspirador mesmo. O foda é que eu não sei se gosto dessas coisas profissionalmente falando. “Porra, Iara, mas você disse que é paixão!”. Veja bem: é e não é. Mas eu pesquisei uns cursos no Senac de administração de serviços de alimentação. Mas o mais legal mesmo, que quando sobrar tempo e dinheiro (ou seja, nunca) eu devo fazer, é um curso que seria como uma Sociologia da Alimentação. Sabe pensar a comida numa perspectiva histórico e cultural? Pirei. Mas, né? Sei lá. Quem sabe eu mude de ideia de novo...
9. Administração – privada e pública
Daí que hoje eu sou uma assistente administrativa. Sou responsável por uma série de tarefas, de muito práticas à essencialmente burocráticas, num escritório pequeno de uma multinacional finlandesa. Não tá uma maravilha e eu poderia ganhar mais como secretária bam-bam-bam, mas daí eu lembro que ia ter que ser babá de executivo de novo e me conformo de ganhar menos. Além de que secretária é uma criatura infeliz que depende da agenda do chefe pra tudo, do almoço às férias, muitas vezes. E secretária nunca vai a lugar algum – e eu já fui mandada pra Helsinki pra fazer um treinamento, o que não deixa de ser divertido. E, voltando à ocupação, eu gosto muito de resolver problemas práticos, fazer coisas acontecerem. Gosto mesmo. Na verdade, penso que eu queria trabalhar resolvendo problemas grandes, gerindo questões de emergência. Lembram quando caiu aquele avião da Gol na Amazônia? Uma tragédia, eu sei, mas só conseguia pensar na logística envolvendo as buscas. Mesma coisa com o socorro à vítimas de enchente – fico aqui mentalmente pensando que precisa de água, de remédios, mas também de um plantão jurídico pra tirar os documentos de quem perdeu tudo. Enfim. E o curso que eu faço hoje, a pós que eu finalmente escolhi e tô adorando, é de gestão pública e urbanismo. Então cada vez mais eu penso que eu vou ter é que considerar a possibilidade de meter a cara nos livros por um bom tempo e tentar um concurso público. Mas ainda não sei. Complicada, eu?
Nem mencionei que o meu primeiro vestibular foi pra Jornalismo, porque daí viravam 10. Acho até que vocês iam achar um pouco demais (ou não?). E bom, parece que a ideia é indicar 9 pessoas pra repassar o tema. Eu tenho medo de passar tarefas assim às pessoas, porque elas podem ficar constrangidas – embora eu tenha adorado a indicação da Aline. Então, façam o seguinte? Quem comenta aqui sempre tá convidada a me contar 9 coisas. Vou adorar saber mais sobre vocês.
terça-feira, 7 de setembro de 2010
65 anos de subversão
Amanhã é aniversário do meu pai. E eu, que sou a super-queridinha ainda não escrevi um post sobre ele. Meu pai é assim: o sujeito mais tranquilão do mundo, e o sujeito mais subversivo ao mesmo tempo. Não fuma, parou de beber há anos, nunca se drogou, mesmo com alimentação é um sujeito comedido – só não deixe uma goiabada e um bom queijo perto dele, porque, na volta, periga não encontrar nada. Minha mãe faz um sucesso danado, porque é muito mais expansiva, mas é possível não ir com a cara dela, porque ela pode parecer invasiva pra quem for muito reservado, por conta justamente de seu excesso de entusiasmo. Como meu pai é mais na dele, é mais difícil despertar reações intensas, para o bem ou para o mal. Costumo dizer que quem não vai com a cara dele tem algum problema, porque ele simpatiza sem invadir seu espaço, sabe? E é um sujeito super tolerante. Lembro da adolescência, ir em baladas com amigas, e a gente achar um carinha bonitinho, mas elas dizerem que “já imaginou apresentar para o pai”? Pois é, meu pai nunca foi esse pai de família padrão, cidadão de bem aos moldes do Professor Hariovaldo. Nunca aconteceu, mas tenho certeza que ele não se assustaria com um genro de dreads músico alternativo. Quando eu fiz a minha tatuagem, o único comentário foi que ele achava burrice pagar caro para se auto infligir dor. Tipo, ele não conseguia conseguir entender o sentido, mas não era um problema moral, nunca foi.
Mas tem mais. Várias situações em que eu constatei que tinha um pai diferente. A primeira vez que eu anunciei que ia à Parada Gay, ele ficou pensativo e disse que não gostava muito de aglomerações, mas achava que deveria ir também pra expressar apoio, afinal a manifestação era pró direitos civis, direitos que são os dele também, oras. E bom, eu sou a conservadora lá de casa, votando na Dilma. Meu pai vai votar no Plínio e meu irmão vai anulá-lo, porque é anarquista há anos. E lembro do meu pai contemporizando sobre o anarquismo do meu irmão. Dizia que meu irmão estava certo no fundo, que se o Estado só servia pra reprimir a população, garantindo a manutenção garantindo o status quo, há que rebelar-se, afinal (!!!). Não imaginem meu pai um sujeito de longas barbas, sandálias de couro e camisetas surradas. Meu pai tem horror a camisetas surradas. Não gosta que a gente use nem pra dormir. É um senhor sem ostentação, mas muito bem apresentável, não combina com este estereótipo do comunista-sujinho.
Tem mais, quando ele se aposentou, fez uma caminhada de 300km entre Águas da Prata e Aparecida do Norte, chamada “Caminho da Fé”, e promovida como uma espécie de Santiago de Compostela brasileira. Mas meu pai é ateu, foi pra curtir o visual, e o desafio. Ele foi educado em seminário, e teve momentos e reaproximação de Igreja. E quando ele se reaproximou, foi pra participar. Ele não conseguia só ir à missa aos domingos. Não tem meio termo pra ele: um dia participa da liturgia e faz a celebrações quando o padre não está, no outro conclui que não acredita em nada disso e é ateu. Quando ele se afastou, o pessoal da Igreja achou que ele tinha se desentendido com o padre. E foram lá em casa perguntar o que rolava. Abordavam minha mãe na Igreja e tal. E ele virava pra mim, super constrangido, me perguntava como ia fazer pra contar pras pessoas que “olha só, Deus não existe. Até tentei embarcar nessa com vocês, mas não rola...”.
Meu irmão usou cabelos compridos por anos. Dos 13 aos 22, mais ou menos. E as pessoas achavam que meu pai poderia se incomodar com aquilo. E nunca se incomodou, nunca achou aquilo importante. Quando meu irmão tinha uns 14, começou a fazer um curso técnico numa escola que, dizem, era financiada pela Opus Dei. E tava nas regras deles que todos os ingressos não poderiam ter cabelos longos. E todo mundo que entrava lá, cortava, e as famílias achavam bacana, porque era um bom pretexto. Só que meu irmão não queria cortar de jeito nenhum. E meu pai foi lá, com a Constituição nas mãos, defender meu irmão, dizer que eles não podiam fazer isso. Que lamentava por quem tinha sofrido a pressão, mas que era inconstitucional essa interferência na aparência das pessoas. Lógico que meu pai achava roubada o lance da Opus Dei, mas meu irmão teve que chegar a essa conclusão sozinho (e se hoje ele é anarquista, vocês podem concluir que sim, ele chegou).
Ah e tem outra ótima. Semestre passado meu pai concluiu o curso de Ciências Sociais. A quarta faculdade dele, mas ele achava que as outras (Filosofia no seminário, Administração e Contábeis numa particular bem ruinzinha) não tinha dado uma formação bacana, e queria ter essa experiência. E ele passou no vestibular com 60 anos. Os colegas mais novos do que eu, claro. Mas ele sempre teve um tremendo simancol, nunca tentou bancar o garotão, mas fazia um esforço sincero pra se integrar aos colegas sem estabelecer nenhuma espécie de hierarquia. Lembro de uma vez ele angustiado porque o grupo com o qual trabalhava tava meio devagar pra começar o trabalho, e ele não queria tomar a frente da coisa pra não parecer etarista. E durante a faculdade uma das minhas primas se casou no religioso. Irônico que só, meu pai não se segurou quando o cunhado entrou conduzindo a noiva ao altar, me cutucou e falou baixinho “lição de Antropologia: agora a gente vende a mulher pro outro clã”. Eu mereço?
Mas talvez a história mais marcante pra mim tenha sido sobre sua participação na militância. Eu sabia que meu pai tinha lecionado História quando era mais jovem, logo depois da faculdade de Filosofia. E muitos professores meus na escola diziam ter fugido da polícia durante a ditadura. Mas apesar de meu pai votar desde sempre no PT, quando pequena eu ainda tinha uma imagem dele como pacífico e careta, até. Um dia eu perguntei se ele tinha fugido, meio que tirando um barato. E ele contou que não fugiu porque não tinha conseguido, foi preso antes. Aos poucos eu fui sabendo dos detalhes, foi em 74, ele estava circulando um abaixo-assinado contra a carestia, ficou 4 meses preso, foi submetido à torturas, teve os tímpanos estourados (e portanto não suporta som alto não por ser careta, mas por uma espécie de sequela). Foi julgado e absolvido. Só recentemente fiquei sabendo que meu tios mais novos foram também presos e sofreram humilhações, como uma maneira de coagir meu pai. E ele delatou companheiros, porque não podia arriscar que machucassem seus irmãos (sua irmã, em especial - e vocês podem imaginar que tipo de ameaça fizeram). Meu pai estava sendo preparado para entrar na luta armada, mas depois do trauma da prisão, e principalmente da culpa pelo sofrimento dos irmãos, abandonou a militância. Mas é muito enfático em dizer que, sim, ia pegar em armas se fosse o caso, porque os tempos eram outros. E alguém acha que vai mudar meu voto me mandando e-mail que chama a Dilma de terrorista... Em 2004, quando o golpe completou 40 anos, vi o meu pai chorar pela 1ª vez na vida. Chorou 2 vezes na mesma semana, lembrando da tortura a que pessoas conhecidas foram submetidas.
Como o último parágrafo foi pesado, deixo uma coisa leve pro final. Porque meu pai é muito leve, apesar de tudo; ele não arrasta peso pela vida. Por conta de um erro, coisas da roça, de quando se registravam as crianças todos juntas depois de muitos anos, a certidão de nascimento do meu pai traz a data de 02 de setembro, e não 8, como comemoramos. E dia 3 liguei pra minha mãe pra tirar um barato, perguntar se meu pai sabia que podia pegar ônibus de graça. E ele já tinha ido lá, providenciar a carteirinha de gratuidade para idosos. É ou não é um subversivo fofo?
(Marido fez aniversário ontem. E não ganhou post exclusivo, pelo menos não ainda. Marido, fica com ciúme não, tá?).
Mas tem mais. Várias situações em que eu constatei que tinha um pai diferente. A primeira vez que eu anunciei que ia à Parada Gay, ele ficou pensativo e disse que não gostava muito de aglomerações, mas achava que deveria ir também pra expressar apoio, afinal a manifestação era pró direitos civis, direitos que são os dele também, oras. E bom, eu sou a conservadora lá de casa, votando na Dilma. Meu pai vai votar no Plínio e meu irmão vai anulá-lo, porque é anarquista há anos. E lembro do meu pai contemporizando sobre o anarquismo do meu irmão. Dizia que meu irmão estava certo no fundo, que se o Estado só servia pra reprimir a população, garantindo a manutenção garantindo o status quo, há que rebelar-se, afinal (!!!). Não imaginem meu pai um sujeito de longas barbas, sandálias de couro e camisetas surradas. Meu pai tem horror a camisetas surradas. Não gosta que a gente use nem pra dormir. É um senhor sem ostentação, mas muito bem apresentável, não combina com este estereótipo do comunista-sujinho.
Tem mais, quando ele se aposentou, fez uma caminhada de 300km entre Águas da Prata e Aparecida do Norte, chamada “Caminho da Fé”, e promovida como uma espécie de Santiago de Compostela brasileira. Mas meu pai é ateu, foi pra curtir o visual, e o desafio. Ele foi educado em seminário, e teve momentos e reaproximação de Igreja. E quando ele se reaproximou, foi pra participar. Ele não conseguia só ir à missa aos domingos. Não tem meio termo pra ele: um dia participa da liturgia e faz a celebrações quando o padre não está, no outro conclui que não acredita em nada disso e é ateu. Quando ele se afastou, o pessoal da Igreja achou que ele tinha se desentendido com o padre. E foram lá em casa perguntar o que rolava. Abordavam minha mãe na Igreja e tal. E ele virava pra mim, super constrangido, me perguntava como ia fazer pra contar pras pessoas que “olha só, Deus não existe. Até tentei embarcar nessa com vocês, mas não rola...”.
Meu irmão usou cabelos compridos por anos. Dos 13 aos 22, mais ou menos. E as pessoas achavam que meu pai poderia se incomodar com aquilo. E nunca se incomodou, nunca achou aquilo importante. Quando meu irmão tinha uns 14, começou a fazer um curso técnico numa escola que, dizem, era financiada pela Opus Dei. E tava nas regras deles que todos os ingressos não poderiam ter cabelos longos. E todo mundo que entrava lá, cortava, e as famílias achavam bacana, porque era um bom pretexto. Só que meu irmão não queria cortar de jeito nenhum. E meu pai foi lá, com a Constituição nas mãos, defender meu irmão, dizer que eles não podiam fazer isso. Que lamentava por quem tinha sofrido a pressão, mas que era inconstitucional essa interferência na aparência das pessoas. Lógico que meu pai achava roubada o lance da Opus Dei, mas meu irmão teve que chegar a essa conclusão sozinho (e se hoje ele é anarquista, vocês podem concluir que sim, ele chegou).
Ah e tem outra ótima. Semestre passado meu pai concluiu o curso de Ciências Sociais. A quarta faculdade dele, mas ele achava que as outras (Filosofia no seminário, Administração e Contábeis numa particular bem ruinzinha) não tinha dado uma formação bacana, e queria ter essa experiência. E ele passou no vestibular com 60 anos. Os colegas mais novos do que eu, claro. Mas ele sempre teve um tremendo simancol, nunca tentou bancar o garotão, mas fazia um esforço sincero pra se integrar aos colegas sem estabelecer nenhuma espécie de hierarquia. Lembro de uma vez ele angustiado porque o grupo com o qual trabalhava tava meio devagar pra começar o trabalho, e ele não queria tomar a frente da coisa pra não parecer etarista. E durante a faculdade uma das minhas primas se casou no religioso. Irônico que só, meu pai não se segurou quando o cunhado entrou conduzindo a noiva ao altar, me cutucou e falou baixinho “lição de Antropologia: agora a gente vende a mulher pro outro clã”. Eu mereço?
Mas talvez a história mais marcante pra mim tenha sido sobre sua participação na militância. Eu sabia que meu pai tinha lecionado História quando era mais jovem, logo depois da faculdade de Filosofia. E muitos professores meus na escola diziam ter fugido da polícia durante a ditadura. Mas apesar de meu pai votar desde sempre no PT, quando pequena eu ainda tinha uma imagem dele como pacífico e careta, até. Um dia eu perguntei se ele tinha fugido, meio que tirando um barato. E ele contou que não fugiu porque não tinha conseguido, foi preso antes. Aos poucos eu fui sabendo dos detalhes, foi em 74, ele estava circulando um abaixo-assinado contra a carestia, ficou 4 meses preso, foi submetido à torturas, teve os tímpanos estourados (e portanto não suporta som alto não por ser careta, mas por uma espécie de sequela). Foi julgado e absolvido. Só recentemente fiquei sabendo que meu tios mais novos foram também presos e sofreram humilhações, como uma maneira de coagir meu pai. E ele delatou companheiros, porque não podia arriscar que machucassem seus irmãos (sua irmã, em especial - e vocês podem imaginar que tipo de ameaça fizeram). Meu pai estava sendo preparado para entrar na luta armada, mas depois do trauma da prisão, e principalmente da culpa pelo sofrimento dos irmãos, abandonou a militância. Mas é muito enfático em dizer que, sim, ia pegar em armas se fosse o caso, porque os tempos eram outros. E alguém acha que vai mudar meu voto me mandando e-mail que chama a Dilma de terrorista... Em 2004, quando o golpe completou 40 anos, vi o meu pai chorar pela 1ª vez na vida. Chorou 2 vezes na mesma semana, lembrando da tortura a que pessoas conhecidas foram submetidas.
Como o último parágrafo foi pesado, deixo uma coisa leve pro final. Porque meu pai é muito leve, apesar de tudo; ele não arrasta peso pela vida. Por conta de um erro, coisas da roça, de quando se registravam as crianças todos juntas depois de muitos anos, a certidão de nascimento do meu pai traz a data de 02 de setembro, e não 8, como comemoramos. E dia 3 liguei pra minha mãe pra tirar um barato, perguntar se meu pai sabia que podia pegar ônibus de graça. E ele já tinha ido lá, providenciar a carteirinha de gratuidade para idosos. É ou não é um subversivo fofo?
(Marido fez aniversário ontem. E não ganhou post exclusivo, pelo menos não ainda. Marido, fica com ciúme não, tá?).
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
Quando a vítima vira ré – ou Badinter na prática
Então meu lado B é ler notícias sobre celebridades e subcelebridades de vez em quando. Eu tenho mais o que fazer e deveria gastar meu tempo em algo que preste, eu sei, mas entre um relatório do Excel e outro, as vezes a gente precisa ver coisas que não exijam reflexões profundas, nem comentários elaborados. Famosinhos tem esse efeito sobre mim, geralmente: descontraem por alguns minutinhos. Daí esvazio a cabeça um pouco e volto pra terminar aquele relatório chato que ninguém vai ler. Ó ,vida.
Mas então, sobre o Dado eu já comentei. E a gente sabe que a lógica machista diz que nenhuma mulher apanha sem motivo. Quer dizer, o motivo nunca é porque o agressor é violento, a vítima tem que ter alguma responsabilidade. No caso do Luana era fácil, porque ela não prima pela simpatia nem pela auto-repressão, mas e essa pobre moça que casou com ele no religioso, mãe de uma criança de colo? Como culpá-la? Eu tava esperando, e nem demorou.
Apesar de dar um entrevista pra Veja em que diz que “nunca bateu pra machucar” (oi?), publicaram por aí que as testemunhas contra o Dado foram coagidas a depor. Considerando meu horror a condenações prévias, tive meio segundo de dúvida se deveria ter feito um post chamando o cara de agressor. Meio segundo porque eu lembrei, em seguida, que ele já foi condenado por agressão. Quer dizer, pode não ter batido na atual, mas na anterior com certeza, o que isenta minha acusação de leviandade. E, claro, ele pode perfeitamente ter batido na esposa sem as empregadas terem visto.
Mas, enfim, tem a cereja do bolo, né? Aqui a gente fica sabendo que o marido agressor só estava preocupado com a alimentação do filho. Se você não tá afim de clicar lá, eu explico: as mesmas funcionárias que disseram que foram coagidas a depor contra o Dado afirmam que o motivo das brigas do casal era a alimentação da esposa, que está amamentando. Em tão poucas linhas a gente vê a teoria da Badinter se afirmar com “dicumforça”. Quer dizer, o cara não pode dizer que ele é opressor. Mas quem vai ser contra as necessidades de um bebê, minha gente! E, olha, eu não li os comentários, mas certeza de que tem gente endossando este discurso. Que “onde já se viu ficar se entupindo de refrigerante quando se tem um filho pra amamentar”. Pra completar, a testemunha das brigas diz que o zeloso pai cobrava da esposa sua obrigação de amamentar o bebê até os dois anos porque ela “não faz mais nada”.
Isso tudo tinha link na home globo.com. Globo, aliás, grande incentivadora da porradas educativas em mulheres mal comportadas. Quer dizer, notícia de massa, o tipo de coisa com potencial pra formar opinião mesmo. Então fica claro como o dia a condenação e o estigma de quem apanha, não de quem bate. Eu tô muito otimista com a eleição da Dilma, já comprei minha passagem pra Brasília, até. Acho que vai ser um momento importantíssimo para as mulheres deste país. Mas não me iludo: uma cultura machista como a nossa, com tanto respaldo midiático pra continuar reproduzindo certos modelos, não se muda da noite pro dia.
Mas então, sobre o Dado eu já comentei. E a gente sabe que a lógica machista diz que nenhuma mulher apanha sem motivo. Quer dizer, o motivo nunca é porque o agressor é violento, a vítima tem que ter alguma responsabilidade. No caso do Luana era fácil, porque ela não prima pela simpatia nem pela auto-repressão, mas e essa pobre moça que casou com ele no religioso, mãe de uma criança de colo? Como culpá-la? Eu tava esperando, e nem demorou.
Apesar de dar um entrevista pra Veja em que diz que “nunca bateu pra machucar” (oi?), publicaram por aí que as testemunhas contra o Dado foram coagidas a depor. Considerando meu horror a condenações prévias, tive meio segundo de dúvida se deveria ter feito um post chamando o cara de agressor. Meio segundo porque eu lembrei, em seguida, que ele já foi condenado por agressão. Quer dizer, pode não ter batido na atual, mas na anterior com certeza, o que isenta minha acusação de leviandade. E, claro, ele pode perfeitamente ter batido na esposa sem as empregadas terem visto.
Mas, enfim, tem a cereja do bolo, né? Aqui a gente fica sabendo que o marido agressor só estava preocupado com a alimentação do filho. Se você não tá afim de clicar lá, eu explico: as mesmas funcionárias que disseram que foram coagidas a depor contra o Dado afirmam que o motivo das brigas do casal era a alimentação da esposa, que está amamentando. Em tão poucas linhas a gente vê a teoria da Badinter se afirmar com “dicumforça”. Quer dizer, o cara não pode dizer que ele é opressor. Mas quem vai ser contra as necessidades de um bebê, minha gente! E, olha, eu não li os comentários, mas certeza de que tem gente endossando este discurso. Que “onde já se viu ficar se entupindo de refrigerante quando se tem um filho pra amamentar”. Pra completar, a testemunha das brigas diz que o zeloso pai cobrava da esposa sua obrigação de amamentar o bebê até os dois anos porque ela “não faz mais nada”.
Isso tudo tinha link na home globo.com. Globo, aliás, grande incentivadora da porradas educativas em mulheres mal comportadas. Quer dizer, notícia de massa, o tipo de coisa com potencial pra formar opinião mesmo. Então fica claro como o dia a condenação e o estigma de quem apanha, não de quem bate. Eu tô muito otimista com a eleição da Dilma, já comprei minha passagem pra Brasília, até. Acho que vai ser um momento importantíssimo para as mulheres deste país. Mas não me iludo: uma cultura machista como a nossa, com tanto respaldo midiático pra continuar reproduzindo certos modelos, não se muda da noite pro dia.
terça-feira, 31 de agosto de 2010
Centenário \o/ e inquietações políticas
Então, 100 anos de Corinthians. E eu nem sei porque me tornei corintiana. Meu pai é sãopaulino, mas nunca foi muito empolgado com futebol. Acho que não tem ninguém próximo que justifique meu afeto. Lembranças mais antigas me remetem ao Sócrates. Devo ter ouvido algum comentário elogioso à Democracia Corintiana quando eu era bem pequena, e ficou a simpatia. Que virou amor. Não é nem paixão, é amor mesmo, daqueles que ocupa um lugar certo mesmo sem queimar. E lógico, casar com um palmeirense louco por futebol, viver a coisa da rivalidade dentro de casa todo dia, tornou tudo mais apimentado. Mas é assim independentemente do marido. Eu sei: não tem estádio, não tem Libertadores, e hexa e blábláblá. Não me venham com argumentos racionais. Não é assim que o amor funciona. Eu não deixei de amar quando viramos lavanderia de dinheiro da máfia russa, nem quando caímos. Lamentei muito, mas continuei amando e continuei fiel. E posso reconhecer que deve ser luxo ter galeria de títulos ou um presidente professor da Unicamp. Mas meu coração tem dono.
***
Então vem o lance do estádio. A Mary W postou aqui. E eu acho que ela tem razão em se indignar. É o seguinte: pra quem ainda não sabe, parece que o Lula, notório corintiano, pediu “uma força” pra Odebrecht pra sair esse estádio. Pedir uma força pode não ser crime, mas não existe almoço grátis, e o Lula deve saber disso. Então, se meter numa dessas assim, com sua sucessão quase garantida, é no mínimo temerário. O pior é que eu acredito muito que tenha sido assim. Não tenho esses preconceitos burgueses contra o Lula, mas tenho lá meu pé atrás. Acho que ele é um fanfarrão, e essa é o tipo de fanfarronice que é a cara dele. Então, dei uma broxada geral. Não queria nem o Lula nem o Corinthians envolvidos com isso. Fiquei com dupla vergonha alheia. E chego no trabalho e minha chefe, conservadora e palmeirense, diz que vão chamar o tal estádio de “Luiz Inácio Lula da Silva”. Argumento pra dizer que ela tá falando bobagem? Não tenho. Se acharem aí, me emprestem, por favor. E eu posso até zoar com marido, dizer que eu sou corintiana como o Lula, e ele palmeirense como o Serra, dizer que minha companhia é melhor, mas não é assim que a banda toca. Como eu disse acima, futebol é paixão – e política, pra mim pelo menos, é razão. Uma razão bem dura, aliás.
Meu consolo é que eu acho a Dilma muito diferente disso. Não se parece em nada com ela esse tipo de coisa. Então eu realmente acho que ela pode ser melhor do que o Lula em muitos aspectos. Que a eleição dele foi importante historicamente e tal eu não tenho dúvida. Mas pra mim, deu. Muita popularidade, muito poder, não sei aonde isso leva. Tem gente que vai chiar, dizer que torce pra ele voltar em 2014, como já ouvi por aí. Eu não. O governo Lula não é só o Lula, a gente tem que lembrar disso. A gente não precisa dele no poder pra garantir nada de bom do que foi feito - e nossa democracia só vai estar madura quando isso estiver claro. Ele tem qualidades inegáveis, mas não quero esse super líder populista. Não quero um mito. Tá bom assim, já.
Daí eu lembrei que uns dias atrás eu falei por telefone com meu melhor amigo, que tá envolvido com o PSOL. E foi muito legal a conversa. Marido tinha aberto um vinho, mas ficou pacientemente me olhando e esperando a ligação terminar pra conversarmos, porque ele sabia que eu ia vir com boas observações. E como a gente sabe que tem a Reinaldos Azevedos e Mainardis por aí, trabalha em multinacional com coleguinhas reaças, fica achando que é de esquerda. Mas meu amigo veio, me deu um safanão e me mostrou que eu, na verdade, tô na centro-esquerda. E eu tinha perdido isso de vista mesmo, sabem? E na conversa com ele surgiu uma série de pontos importantes. Que as pessoas estão comprando TV de plasma, mas não têm atendimento médico decente. Que se gasta mais com comida, comprando supérfluos, mas as pessoas estão ficando obesas e subnutridas ao mesmo tempo. Isso porque a gente nem falou do saneamento, esse horror. Enfim, uma série de críticas que precisam ser feitas, que precisam ser ouvidas. Mas meu amigo faz de um ponto de vista marxista com o qual meu discurso já não se afina. Além disso, devo admitir que tenho imensa preguiça de um partido pequeno e já rachado. Se não conseguem se entender entre os próprios quadros, como esperam administrar esse país tão grande? Mas ainda assim, tendo a votar no PSOL no legislativo, porque ando com sede de oposição bem fundamentada. Acho indispensável pra democracia essa oposição tomar corpo pra ontem, viu? Se até o Serra tá tentando convencer a gente que não é oposição, é porque tem um discurso único aí que não é bacana. Longe de ser ameaçador porque a imprensa trata de malhar bastante o governo. Mas que a falta de críticas construtivas é um problema, isso é.
***
No mais: TIMÃO-Ê-Ô, TIMÃO-Ê-Ô! \o/
***
Então vem o lance do estádio. A Mary W postou aqui. E eu acho que ela tem razão em se indignar. É o seguinte: pra quem ainda não sabe, parece que o Lula, notório corintiano, pediu “uma força” pra Odebrecht pra sair esse estádio. Pedir uma força pode não ser crime, mas não existe almoço grátis, e o Lula deve saber disso. Então, se meter numa dessas assim, com sua sucessão quase garantida, é no mínimo temerário. O pior é que eu acredito muito que tenha sido assim. Não tenho esses preconceitos burgueses contra o Lula, mas tenho lá meu pé atrás. Acho que ele é um fanfarrão, e essa é o tipo de fanfarronice que é a cara dele. Então, dei uma broxada geral. Não queria nem o Lula nem o Corinthians envolvidos com isso. Fiquei com dupla vergonha alheia. E chego no trabalho e minha chefe, conservadora e palmeirense, diz que vão chamar o tal estádio de “Luiz Inácio Lula da Silva”. Argumento pra dizer que ela tá falando bobagem? Não tenho. Se acharem aí, me emprestem, por favor. E eu posso até zoar com marido, dizer que eu sou corintiana como o Lula, e ele palmeirense como o Serra, dizer que minha companhia é melhor, mas não é assim que a banda toca. Como eu disse acima, futebol é paixão – e política, pra mim pelo menos, é razão. Uma razão bem dura, aliás.
Meu consolo é que eu acho a Dilma muito diferente disso. Não se parece em nada com ela esse tipo de coisa. Então eu realmente acho que ela pode ser melhor do que o Lula em muitos aspectos. Que a eleição dele foi importante historicamente e tal eu não tenho dúvida. Mas pra mim, deu. Muita popularidade, muito poder, não sei aonde isso leva. Tem gente que vai chiar, dizer que torce pra ele voltar em 2014, como já ouvi por aí. Eu não. O governo Lula não é só o Lula, a gente tem que lembrar disso. A gente não precisa dele no poder pra garantir nada de bom do que foi feito - e nossa democracia só vai estar madura quando isso estiver claro. Ele tem qualidades inegáveis, mas não quero esse super líder populista. Não quero um mito. Tá bom assim, já.
Daí eu lembrei que uns dias atrás eu falei por telefone com meu melhor amigo, que tá envolvido com o PSOL. E foi muito legal a conversa. Marido tinha aberto um vinho, mas ficou pacientemente me olhando e esperando a ligação terminar pra conversarmos, porque ele sabia que eu ia vir com boas observações. E como a gente sabe que tem a Reinaldos Azevedos e Mainardis por aí, trabalha em multinacional com coleguinhas reaças, fica achando que é de esquerda. Mas meu amigo veio, me deu um safanão e me mostrou que eu, na verdade, tô na centro-esquerda. E eu tinha perdido isso de vista mesmo, sabem? E na conversa com ele surgiu uma série de pontos importantes. Que as pessoas estão comprando TV de plasma, mas não têm atendimento médico decente. Que se gasta mais com comida, comprando supérfluos, mas as pessoas estão ficando obesas e subnutridas ao mesmo tempo. Isso porque a gente nem falou do saneamento, esse horror. Enfim, uma série de críticas que precisam ser feitas, que precisam ser ouvidas. Mas meu amigo faz de um ponto de vista marxista com o qual meu discurso já não se afina. Além disso, devo admitir que tenho imensa preguiça de um partido pequeno e já rachado. Se não conseguem se entender entre os próprios quadros, como esperam administrar esse país tão grande? Mas ainda assim, tendo a votar no PSOL no legislativo, porque ando com sede de oposição bem fundamentada. Acho indispensável pra democracia essa oposição tomar corpo pra ontem, viu? Se até o Serra tá tentando convencer a gente que não é oposição, é porque tem um discurso único aí que não é bacana. Longe de ser ameaçador porque a imprensa trata de malhar bastante o governo. Mas que a falta de críticas construtivas é um problema, isso é.
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No mais: TIMÃO-Ê-Ô, TIMÃO-Ê-Ô! \o/
domingo, 29 de agosto de 2010
Natureza, essa sacana
Eu queria ter feito um monte de coisas na semana que passou. Queria ter rendido mais no trabalho, ter lido o meu livro que jaz empacado, queria ter feito pelo menos uns 2 posts. Queria. Mas fui atropelada por uma TPM horrorosa. Uma das piores da minha vida.
Eu não costumo sofrer muito com TPM. O normal são uns 2 ou 3 dias meio resmungona, uma barra de chocolate devorada sem dó em algum momento, um pouco de enxaqueca na véspera (nada que um analgésico não resolva), e um pouco de cólica no dia que a menstruação chega. Mas notem só: sofrer pouco já é um conjunto de sintomas desagradáveis. Eles não chegam a paralizar minha vida, só tornam as coisas mais lentas um pouco, essa é minha referência pra dizer que é leve. Há meses até em que as coisas são bem tranquilas, e eu só lembro que vou ficar menstruada por conta de um outro sintoma que eu não mencionei acima: gases. Daí que eu arroto (desculpem as mais sensíveis), penso "nossa, o que eu comi pra arrotar assim?", e lembro que vou ficar menstruada dali há dois dias.
Já este mês a coisa foi punk-hardcore. Achei que eu não chegaria empregada e casada até o final da semana. Pra manter o casamento, fiquei sem falar com o marido dois dias, porque eu estava irritada por uma coisa pequena, mas sabia que se eu o abordasse, ia superdimensionar e me arrepender depois. Então, eu tenho a vantagem de ter essa lucidez, pelo menos. Eu sei que não estou no meu estado normal. O que não significa conseguir reverter isso, em absoluto. E o trabalho? Já falei que eu não amo de paixão meu trabalho, mas ele é ok. Essa semana fiquei o tempo todo pensando "deu. deu muito. não aguento mais essa merda, vou fugir daqui agora, etc". Na quarta-feira foi o auge. Às 4 da tarde eu queria morrer. Não tô exagerando, eu realmente queria morrer pra parar de sofrer. E tenho uma amiga querida que sofre horrores com TPM. Todo mês fica mais de 10 dias bem mal. Toma até antidepressivo, uma coisa horrorosa. Vem a menstruação e ela melhora. Na quarta eu mandei um e-mail pra ela dizendo que ela merece ser canonizada, porque não sei se suportaria, todo mês, uma semana ou mais, me sentindo como estava na quarta-feira.
Passada a crise, fiquei pensando na carga de sofrimento que nos é imposta pela natureza. Porque isso não é social. O estresse pode até ser piorado pelo estilo de vida e tal. Mas quem não tem nada de TPM também fica dias ali, sangrando. E pra que isso nos serve? A nós mulheres, como indivíduos, nada. Serve à reprodução da espécie. Se eu não tiver filhos, nada disso terá me valido de nada. Daí a religião teve que inventar a Eva, pra justificar essa injustiça natural. Porque a religiao também serve pra isso, justificar o injustificável. E toda a mitologia que constroem sobre o nosso corpo. Tipo, o útero. Não tem outra função a não ser abrigar um bebê. Minha mãe teve de tirá-lo há alguns anos. E o médico preocupado que ela não ficasse ouvindo conversa de que "você vai sentir um vazio", "vai ficar fria", porque não tem absolutamente nada a ver. E ela já tinha dois filhos, não ia ter outros, e tirou, não faz falta alguma. Fora o momento da reprodução, o útero é como o apêndice, só serve pra te dar problema.
Conversei com o marido depois. Ele no começo ficou preocupado, depois bem sensibilizado. E é chato, porque eu agradeço a ele pela paciência, claro, mas me revolto porque não fui eu que exigi essa paciência dele. Não foi voluntário, em absoluto. Eu não escolhi negligenciá-lo a semana toda. Eu tava lá, sofrendo, querendo morrer.
Passou. Sexta a gente ficou discutindo sobre os medicamentos, a discussão do livro da Preciado. Porque eu parei de tomar pílula, um pouco pra desintoxicar o organismo de hormônios. E, sem ela, parece que tudo piora um pouco. Na adolescência, eu cheguei a desmaiar de tanta dor por conta das cólicas. Acreditem, eu sou uma mulher durona e resistente, pra eu desabar é porque a coisa tá muito feia. Fiz vários exames, nada de errado comigo. Dores horrorosas mesmo estando saudável. Minhas cólicas incapacitantes só melhoraram depois da pílula (hoje a dor é leve, mesmo sem tomar pílula, porque parece que a idade faz diferença nisso). Então eu acho que a gente pode criticar os excessos, mas os remédios são muito úteis. Ficar pregando essa coisa super naturalista é atraso. Eu não quero suportar a dor, quero é uma Neosaldina, porra!
E, bom, a diferença, né? Porque tem que ser levada em conta. Eu tô aí, fazendo um esforço pra entender mais sobre feminismo. E lembrei sobre o debate sobre se vale ou não a pena menstruar. De como eu fico dividida. Porque, por um lado, acho realmente assustador querer suprimir tudo o que parece desagradável. Tem o medo da intolerância: se a possibilidade de não menstruar se generaliza, temo uma menor tolerância ao sofrimento de quem, legitimamente, escolhe continuar menstruando. Por outro lado, que semana de merda eu tive. A natureza tá me devendo uma, onde eu cobro?
Eu não costumo sofrer muito com TPM. O normal são uns 2 ou 3 dias meio resmungona, uma barra de chocolate devorada sem dó em algum momento, um pouco de enxaqueca na véspera (nada que um analgésico não resolva), e um pouco de cólica no dia que a menstruação chega. Mas notem só: sofrer pouco já é um conjunto de sintomas desagradáveis. Eles não chegam a paralizar minha vida, só tornam as coisas mais lentas um pouco, essa é minha referência pra dizer que é leve. Há meses até em que as coisas são bem tranquilas, e eu só lembro que vou ficar menstruada por conta de um outro sintoma que eu não mencionei acima: gases. Daí que eu arroto (desculpem as mais sensíveis), penso "nossa, o que eu comi pra arrotar assim?", e lembro que vou ficar menstruada dali há dois dias.
Já este mês a coisa foi punk-hardcore. Achei que eu não chegaria empregada e casada até o final da semana. Pra manter o casamento, fiquei sem falar com o marido dois dias, porque eu estava irritada por uma coisa pequena, mas sabia que se eu o abordasse, ia superdimensionar e me arrepender depois. Então, eu tenho a vantagem de ter essa lucidez, pelo menos. Eu sei que não estou no meu estado normal. O que não significa conseguir reverter isso, em absoluto. E o trabalho? Já falei que eu não amo de paixão meu trabalho, mas ele é ok. Essa semana fiquei o tempo todo pensando "deu. deu muito. não aguento mais essa merda, vou fugir daqui agora, etc". Na quarta-feira foi o auge. Às 4 da tarde eu queria morrer. Não tô exagerando, eu realmente queria morrer pra parar de sofrer. E tenho uma amiga querida que sofre horrores com TPM. Todo mês fica mais de 10 dias bem mal. Toma até antidepressivo, uma coisa horrorosa. Vem a menstruação e ela melhora. Na quarta eu mandei um e-mail pra ela dizendo que ela merece ser canonizada, porque não sei se suportaria, todo mês, uma semana ou mais, me sentindo como estava na quarta-feira.
Passada a crise, fiquei pensando na carga de sofrimento que nos é imposta pela natureza. Porque isso não é social. O estresse pode até ser piorado pelo estilo de vida e tal. Mas quem não tem nada de TPM também fica dias ali, sangrando. E pra que isso nos serve? A nós mulheres, como indivíduos, nada. Serve à reprodução da espécie. Se eu não tiver filhos, nada disso terá me valido de nada. Daí a religião teve que inventar a Eva, pra justificar essa injustiça natural. Porque a religiao também serve pra isso, justificar o injustificável. E toda a mitologia que constroem sobre o nosso corpo. Tipo, o útero. Não tem outra função a não ser abrigar um bebê. Minha mãe teve de tirá-lo há alguns anos. E o médico preocupado que ela não ficasse ouvindo conversa de que "você vai sentir um vazio", "vai ficar fria", porque não tem absolutamente nada a ver. E ela já tinha dois filhos, não ia ter outros, e tirou, não faz falta alguma. Fora o momento da reprodução, o útero é como o apêndice, só serve pra te dar problema.
Conversei com o marido depois. Ele no começo ficou preocupado, depois bem sensibilizado. E é chato, porque eu agradeço a ele pela paciência, claro, mas me revolto porque não fui eu que exigi essa paciência dele. Não foi voluntário, em absoluto. Eu não escolhi negligenciá-lo a semana toda. Eu tava lá, sofrendo, querendo morrer.
Passou. Sexta a gente ficou discutindo sobre os medicamentos, a discussão do livro da Preciado. Porque eu parei de tomar pílula, um pouco pra desintoxicar o organismo de hormônios. E, sem ela, parece que tudo piora um pouco. Na adolescência, eu cheguei a desmaiar de tanta dor por conta das cólicas. Acreditem, eu sou uma mulher durona e resistente, pra eu desabar é porque a coisa tá muito feia. Fiz vários exames, nada de errado comigo. Dores horrorosas mesmo estando saudável. Minhas cólicas incapacitantes só melhoraram depois da pílula (hoje a dor é leve, mesmo sem tomar pílula, porque parece que a idade faz diferença nisso). Então eu acho que a gente pode criticar os excessos, mas os remédios são muito úteis. Ficar pregando essa coisa super naturalista é atraso. Eu não quero suportar a dor, quero é uma Neosaldina, porra!
E, bom, a diferença, né? Porque tem que ser levada em conta. Eu tô aí, fazendo um esforço pra entender mais sobre feminismo. E lembrei sobre o debate sobre se vale ou não a pena menstruar. De como eu fico dividida. Porque, por um lado, acho realmente assustador querer suprimir tudo o que parece desagradável. Tem o medo da intolerância: se a possibilidade de não menstruar se generaliza, temo uma menor tolerância ao sofrimento de quem, legitimamente, escolhe continuar menstruando. Por outro lado, que semana de merda eu tive. A natureza tá me devendo uma, onde eu cobro?
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
A quem interessar possa
Então. É polêmico esse negócio, que eu sei. Mas eu vou comprar a Playboy da Cléo Pires porque eu acho que deve estar linda.
Não tenho nada contra a idéia de uma mulher posar nua. Nada contra imagens de corpos nus, nem mesmo nada contra a pornografia. Eu sei que a pornografia, por vezes, reproduz discursos machistas. Mas eu não acho que ela, em si, seja machista. A pornografia é a exposição explícita de sexualidade. Isso, isoladamente, não é machista, ao meu ver. Volto a dizer que, obviamente, tem representações pra todos os gostos, e muitos deles são muito machistas. Talvez a maioria, até. Mas eu não desqualificaria o resto nem por conta desta (suposta) maioria. A Beatriz Preciado conta em seu livro que houve, acho que no Canadá, uma articulação do movimento feminista pra censurar publicações pornográficas. E a primeira a ser censurada pela lei foi uma revista pornográfica lésbica. Quer dizer, é feita pra agradar a sexualidade feminina, mas não pode? Tremendo tiro no pé, na minha opinião, tal como o fechamento dos cares de strip na Islândia, como a Lu contou. Eu acho realmente temerário quando o discurso feminista coincide com o religioso. Agora, eu não tenho nada contra, mas não gosto do sexo explícito. Sei lá, aversão estética. Estética, e não moral. Acho cafona. Sério, acho cafona. Já erotismo eu acho lindo. Tipo, fotos bem produzidas, bons fotógrafos e tal. E a revista da Cléo parece que está assim.
Mas eu continuo me justificando aqui porque eu problematizo a questão, claro. Tem um lance, que eu acho que flerta com o abuso, da celebridade dizer que foi difícil, que teve que beber pra relaxar. E daí eu acho muito trash, porque parece mesmo o fetiche da humilhação, usar o poder da grana pra submeter uma mulher em escala macro. Tipo, você tá com vergonha, mas abaixa aí a calcinha que eu tô pagando. E, lógico, acho horrível essa idéia. Entendo claramente que, desse jeito, é sim muito machista. Mas a fotografada deste mês disse que A-DO-ROU posar. Que se descobriu exibicionista. Que teve a maior dificuldade de escolher as fotos da revista porque, por ela, publicava todas, achou tudo o máximo. Em outra entrevista li que a vó deu apoio, dizendo que na época dela levava puxão de orelha da professora porque subia a saia e mostrava a canela, então o fato de uma mulher poder posar nua é algo a ser celebrado. E essa discurso só me deu mais vontade de ver o resultado, porque tudo parece feito com muito prazer. Há uma troca clara aí, não uma submissão: o prazer dela em ser vista, e o do público em ver. E pra mim, quando há essa troca, há o livre exercício da autonomia. Não vejo machismo mesmo.
Daí alguém me diz que o problema da Playboy é que dá a entender que só aquele tipo de corpo é desejável. A questão da falta da representatividade da diferença. Que é real, claro, mas não é exclusiva da Playboy. A grande mídia, de maneira geral, não prima pela diversidade mesmo. Por sorte, temos a internet como espaço pra circular outros modelos. Eu gosto muito desse tumblr: (cuidado ao abrir). Não só porque nele eu me sinto bem representada (eu sou do tamanho das fotografadas ;-)), mas porque as fotos são mesmo muito bacanas. Para meu gosto, claro. E tem o que a Aline apresentou, o adipostivity. Quer dizer a internet dá esse poder, dá gente ter acesso a outras coisas. Ok, fica uma coisa meio underground. O mainstream é a Playboy mesmo. Mas não é porque ela é o mainstream que aquela representação não é legítima. Eu me acho linda (é, modéstia passa longe aqui). E acho a Cléo linda. E, claro, não é culpa dela se a Playboy quer mulheres do tamanho dela, mas não do meu.
Mas aí tem a questão do olhar objetificador. E eu não acho que achar um corpo sexualmente atraente seja desconsiderar automaticamente o sujeito que ele carrega. A sexualidade faz parte da nossa vida, e a atração física faz parte da sexualidade. Eu acho muitos corpos por aí altamente atraentes. Olha passar, suspiro e, quando faço isso, não estou preocupada com a pessoa que mora naquele corpo. O que não signifia, em absoluto que, se tiver que abordá-la, por qualquer motivo, vou tratá-la como um objeto. Mas, se estou olhando de longe, é só o corpo que me interessa, ué. A mesma coisa se o olhar se voltar pra mim. Sim, eu sou sexualmente atraente. Sim, alguém pode me olhar e só ver um decote, ou uma bunda grande marcando o vestido. E aí? É desrespeito? Quando a gente olha, só vê um corpo, não vê um discurso. E tudo bem. Se, porque eu estou com um decote alguém achar que essa é a senha pra me desrespeitar, o problema é do machista que fez isso, não do meu decote. Eu sei que o mundo é escroto. Que o pessoal acha linda a mulher posando na revista, mas não votaria nela. Ou você é um corpo, ou tem um discurso. Não pode as duas coisas. Essa separação corpo-intelecto pra mim parece herança religiosa do modelo corpo-alma: há que negar um para valorizar o outro. E as pessoas não se dão conta, mas é o mesmíssimo lance da Geyse ou do Taleban: que, pra garantir respeito, há partes do corpo que a mulher não deve mostrar. Eu exijo tudo: o direito de se mostrar e o respeito incondicional. Pra mim, não há meio-termo possível, não há condicional aceitável.
E aí tem o outro discurso que diz que olha, tudo bem, mas quando a Cléo, que é atriz filha de atriz, posa nua, ela vai ser respeitada, mas reforça o machismo de quem tá lá olhando. Ela pode, mas a outra, que não tem o mesmo status, paga o pato. Vamos lá: eu não tenho nada contra dançarina de funk. Nada contra a Mulher Melancia. Dizer que essa mulherada que ganha dinheiro seminua contribui para a idéia que há mulheres que só servem pra isso é repetir o discurso machista com a pretensão de combatê-lo. Seguinte: eu estudei literatura. No meu trabalho, não uso nada do que estudei. Meu trabalho exige muito menos capacidade intelectual do que a que eu tenho (de novo, modéstia aqui tirou férias). Tem gente que acha mesmo que se a pessoa está ali na base, assistente de algo, é porque não tem mesmo potencial pra ser chefe e tals. E eu já tive chefes sem um pingo de cultura: o cara era bom no que ele fazia e só. Por que eu tô nesse trabalho? Porque paga minhas contas. Eu não sei nada sobre ninguém que tá ali posando nua. Nem eu, nem ninguém que se coloca numa posição de julgar. A pessoa pode estar numa condição análoga à minha: usando apenas parte dos recursos que tem pra ganhar dinheiro num mundo em que não necessariamente o mais culto é o mais bem pago, mas todos precisam sobreviver. A diferença é que ser assistente em multinacional é algo que tem algum status no meio onde eu circulo - ser dançarina de funk ou axé, não.
Não tenho essa cegueira de achar que a minha escala de valores é a única válida. E não tenho a pretensão de achar que todo mundo que é esclarecido vai chegar à mesma conclusão que eu sobre algo. Não, né? O mundo é diverso, os pontos de vista também, claro. E eu acho as dançarinas de funk muito cafonas, na verdade. Não, eu não toparia fazer o que faz a Mulher Melancia porque tenho aversão a essa estética funkeira. Mas, como no caso da pornografia, o problema, pra mim, é de gosto mesmo. E o meu gosto pessoal não tem esse poder de desligitimizar nada.
Não tenho nada contra a idéia de uma mulher posar nua. Nada contra imagens de corpos nus, nem mesmo nada contra a pornografia. Eu sei que a pornografia, por vezes, reproduz discursos machistas. Mas eu não acho que ela, em si, seja machista. A pornografia é a exposição explícita de sexualidade. Isso, isoladamente, não é machista, ao meu ver. Volto a dizer que, obviamente, tem representações pra todos os gostos, e muitos deles são muito machistas. Talvez a maioria, até. Mas eu não desqualificaria o resto nem por conta desta (suposta) maioria. A Beatriz Preciado conta em seu livro que houve, acho que no Canadá, uma articulação do movimento feminista pra censurar publicações pornográficas. E a primeira a ser censurada pela lei foi uma revista pornográfica lésbica. Quer dizer, é feita pra agradar a sexualidade feminina, mas não pode? Tremendo tiro no pé, na minha opinião, tal como o fechamento dos cares de strip na Islândia, como a Lu contou. Eu acho realmente temerário quando o discurso feminista coincide com o religioso. Agora, eu não tenho nada contra, mas não gosto do sexo explícito. Sei lá, aversão estética. Estética, e não moral. Acho cafona. Sério, acho cafona. Já erotismo eu acho lindo. Tipo, fotos bem produzidas, bons fotógrafos e tal. E a revista da Cléo parece que está assim.
Mas eu continuo me justificando aqui porque eu problematizo a questão, claro. Tem um lance, que eu acho que flerta com o abuso, da celebridade dizer que foi difícil, que teve que beber pra relaxar. E daí eu acho muito trash, porque parece mesmo o fetiche da humilhação, usar o poder da grana pra submeter uma mulher em escala macro. Tipo, você tá com vergonha, mas abaixa aí a calcinha que eu tô pagando. E, lógico, acho horrível essa idéia. Entendo claramente que, desse jeito, é sim muito machista. Mas a fotografada deste mês disse que A-DO-ROU posar. Que se descobriu exibicionista. Que teve a maior dificuldade de escolher as fotos da revista porque, por ela, publicava todas, achou tudo o máximo. Em outra entrevista li que a vó deu apoio, dizendo que na época dela levava puxão de orelha da professora porque subia a saia e mostrava a canela, então o fato de uma mulher poder posar nua é algo a ser celebrado. E essa discurso só me deu mais vontade de ver o resultado, porque tudo parece feito com muito prazer. Há uma troca clara aí, não uma submissão: o prazer dela em ser vista, e o do público em ver. E pra mim, quando há essa troca, há o livre exercício da autonomia. Não vejo machismo mesmo.
Daí alguém me diz que o problema da Playboy é que dá a entender que só aquele tipo de corpo é desejável. A questão da falta da representatividade da diferença. Que é real, claro, mas não é exclusiva da Playboy. A grande mídia, de maneira geral, não prima pela diversidade mesmo. Por sorte, temos a internet como espaço pra circular outros modelos. Eu gosto muito desse tumblr: (cuidado ao abrir). Não só porque nele eu me sinto bem representada (eu sou do tamanho das fotografadas ;-)), mas porque as fotos são mesmo muito bacanas. Para meu gosto, claro. E tem o que a Aline apresentou, o adipostivity. Quer dizer a internet dá esse poder, dá gente ter acesso a outras coisas. Ok, fica uma coisa meio underground. O mainstream é a Playboy mesmo. Mas não é porque ela é o mainstream que aquela representação não é legítima. Eu me acho linda (é, modéstia passa longe aqui). E acho a Cléo linda. E, claro, não é culpa dela se a Playboy quer mulheres do tamanho dela, mas não do meu.
Mas aí tem a questão do olhar objetificador. E eu não acho que achar um corpo sexualmente atraente seja desconsiderar automaticamente o sujeito que ele carrega. A sexualidade faz parte da nossa vida, e a atração física faz parte da sexualidade. Eu acho muitos corpos por aí altamente atraentes. Olha passar, suspiro e, quando faço isso, não estou preocupada com a pessoa que mora naquele corpo. O que não signifia, em absoluto que, se tiver que abordá-la, por qualquer motivo, vou tratá-la como um objeto. Mas, se estou olhando de longe, é só o corpo que me interessa, ué. A mesma coisa se o olhar se voltar pra mim. Sim, eu sou sexualmente atraente. Sim, alguém pode me olhar e só ver um decote, ou uma bunda grande marcando o vestido. E aí? É desrespeito? Quando a gente olha, só vê um corpo, não vê um discurso. E tudo bem. Se, porque eu estou com um decote alguém achar que essa é a senha pra me desrespeitar, o problema é do machista que fez isso, não do meu decote. Eu sei que o mundo é escroto. Que o pessoal acha linda a mulher posando na revista, mas não votaria nela. Ou você é um corpo, ou tem um discurso. Não pode as duas coisas. Essa separação corpo-intelecto pra mim parece herança religiosa do modelo corpo-alma: há que negar um para valorizar o outro. E as pessoas não se dão conta, mas é o mesmíssimo lance da Geyse ou do Taleban: que, pra garantir respeito, há partes do corpo que a mulher não deve mostrar. Eu exijo tudo: o direito de se mostrar e o respeito incondicional. Pra mim, não há meio-termo possível, não há condicional aceitável.
E aí tem o outro discurso que diz que olha, tudo bem, mas quando a Cléo, que é atriz filha de atriz, posa nua, ela vai ser respeitada, mas reforça o machismo de quem tá lá olhando. Ela pode, mas a outra, que não tem o mesmo status, paga o pato. Vamos lá: eu não tenho nada contra dançarina de funk. Nada contra a Mulher Melancia. Dizer que essa mulherada que ganha dinheiro seminua contribui para a idéia que há mulheres que só servem pra isso é repetir o discurso machista com a pretensão de combatê-lo. Seguinte: eu estudei literatura. No meu trabalho, não uso nada do que estudei. Meu trabalho exige muito menos capacidade intelectual do que a que eu tenho (de novo, modéstia aqui tirou férias). Tem gente que acha mesmo que se a pessoa está ali na base, assistente de algo, é porque não tem mesmo potencial pra ser chefe e tals. E eu já tive chefes sem um pingo de cultura: o cara era bom no que ele fazia e só. Por que eu tô nesse trabalho? Porque paga minhas contas. Eu não sei nada sobre ninguém que tá ali posando nua. Nem eu, nem ninguém que se coloca numa posição de julgar. A pessoa pode estar numa condição análoga à minha: usando apenas parte dos recursos que tem pra ganhar dinheiro num mundo em que não necessariamente o mais culto é o mais bem pago, mas todos precisam sobreviver. A diferença é que ser assistente em multinacional é algo que tem algum status no meio onde eu circulo - ser dançarina de funk ou axé, não.
Não tenho essa cegueira de achar que a minha escala de valores é a única válida. E não tenho a pretensão de achar que todo mundo que é esclarecido vai chegar à mesma conclusão que eu sobre algo. Não, né? O mundo é diverso, os pontos de vista também, claro. E eu acho as dançarinas de funk muito cafonas, na verdade. Não, eu não toparia fazer o que faz a Mulher Melancia porque tenho aversão a essa estética funkeira. Mas, como no caso da pornografia, o problema, pra mim, é de gosto mesmo. E o meu gosto pessoal não tem esse poder de desligitimizar nada.
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Diversas
Estou com vontade de fazer outra tatuagem. A minha completa 10 anos ano que vem. E daí me dei conta de que eu não posso mesmo criticar quem faz plásticas. Tatuagem dói, é caro e não serve pra nada. Alguém pode argumentar que não dá pra comparar, porque a plástica exige internação no hospital, mais riscos, tem o lance machista de exigir corpo perfeito das mulheres e até que poder fazer tatuagem é uma conquista recente nossa. Tudo isso faz sentido, mas o fato é que, racionalmente falando, tanto colocar peito quanto tatuar as costas são coisas que não trazem nenhum benefício senão o estético. E do mesmo jeito que não quero que ninguém dê palpite nos meus rabisco, não vou dar nas turbinadas alheias. Só acho, como já disse aqui, que essa deveria ser uma decisão menos mediada pela expectativa da aprovação alheia.
***
Antes de entrar no trem, comprei uma pipoquinha de uma carrinho enfrente à estação. Tinha bacon na danada. Deve ser muito difícil ser vegetariano num mundo em que nem as pipoquinhas são 100% vegetais.
***
A cirurgia me deu uma desculpa legítima para não ir à academia, apesar de estar pagando. De quebra, minha colega de malhação acha que ser solidária a minha licença médica também é uma desculpa legítima para faltar às aulas. Né, gata?
***
Não vou ficar aqui falando de novela, mas eu tenho que dizer que eu sou team Melina. Porque entre a moça que usa um cabelinho à la Louise Brooks e uma personagem interpretada pela Chatolina Dieckman que resolve trocar de namorado só porque deu uma voltinha de stock car, se casa com o ricaço em 2 semanas, se arrepende, e quer voltar para o Raj (o que foi trocado), pra quem eu poderia torcer? Ok, o fato é que os personagens dessa novela são chatos demais em seus dramas, e não me sentaria num bar com ninguém ali. Nem com a mocinha do cabelo Chanel. Mas eu sempre vou torcer pela outsider cool, nunca pela namoradinha. Por que todas as mocinhas são chatinhas? Por que nenhuma delas tem sal? Gente, entre Lara Croft e a Rachel, qual a dúvida? Lara Croft, claro! Conseguem imaginar a Jennifer Aniston interpretando um papel que inicialmente tinha sido escrito para o Tom Cruise? Não, né? Só que os caras costumam gostar das mocinhas-pra-casar, não das porra-loucas outsiders. Brad Pitt tem meu eterno respeito por ter escolhido a fodona-tatuada com o menino do Camboja a tira-colo.
***
Falando em novela, a Mariana Ximenes deve apanhar daqui a pouco, viu? Vigarista e já deu pra 3, incluindo o Cauã. Questão de tempo, que a gente sabe como funciona, né? E eu tenho que dizer que, apesar das porradas inevitáveis, meu sonho na vida era ser vilã de novela. Teve uma em que a Alessandra Negrini pegou o Anthony, o Fábio Assunção, o Bruno Gagliasso e o Wagner Moura. Imagina você chegar de manhã no trabalho e sua "tarefa" ser alisar o peito do Marcelo Anthony? Sendo bem paga pra isso! Marido vai me desculpar, mas se este não é o melhor emprego do mundo, não sei qual é. Pronto, olha que fácil! Já decidi o que eu quero ser na vida! ;-)
***
Antes de entrar no trem, comprei uma pipoquinha de uma carrinho enfrente à estação. Tinha bacon na danada. Deve ser muito difícil ser vegetariano num mundo em que nem as pipoquinhas são 100% vegetais.
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A cirurgia me deu uma desculpa legítima para não ir à academia, apesar de estar pagando. De quebra, minha colega de malhação acha que ser solidária a minha licença médica também é uma desculpa legítima para faltar às aulas. Né, gata?
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Não vou ficar aqui falando de novela, mas eu tenho que dizer que eu sou team Melina. Porque entre a moça que usa um cabelinho à la Louise Brooks e uma personagem interpretada pela Chatolina Dieckman que resolve trocar de namorado só porque deu uma voltinha de stock car, se casa com o ricaço em 2 semanas, se arrepende, e quer voltar para o Raj (o que foi trocado), pra quem eu poderia torcer? Ok, o fato é que os personagens dessa novela são chatos demais em seus dramas, e não me sentaria num bar com ninguém ali. Nem com a mocinha do cabelo Chanel. Mas eu sempre vou torcer pela outsider cool, nunca pela namoradinha. Por que todas as mocinhas são chatinhas? Por que nenhuma delas tem sal? Gente, entre Lara Croft e a Rachel, qual a dúvida? Lara Croft, claro! Conseguem imaginar a Jennifer Aniston interpretando um papel que inicialmente tinha sido escrito para o Tom Cruise? Não, né? Só que os caras costumam gostar das mocinhas-pra-casar, não das porra-loucas outsiders. Brad Pitt tem meu eterno respeito por ter escolhido a fodona-tatuada com o menino do Camboja a tira-colo.
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Falando em novela, a Mariana Ximenes deve apanhar daqui a pouco, viu? Vigarista e já deu pra 3, incluindo o Cauã. Questão de tempo, que a gente sabe como funciona, né? E eu tenho que dizer que, apesar das porradas inevitáveis, meu sonho na vida era ser vilã de novela. Teve uma em que a Alessandra Negrini pegou o Anthony, o Fábio Assunção, o Bruno Gagliasso e o Wagner Moura. Imagina você chegar de manhã no trabalho e sua "tarefa" ser alisar o peito do Marcelo Anthony? Sendo bem paga pra isso! Marido vai me desculpar, mas se este não é o melhor emprego do mundo, não sei qual é. Pronto, olha que fácil! Já decidi o que eu quero ser na vida! ;-)
domingo, 1 de agosto de 2010
Escolhas
Pois é. A vida é feita delas. Quando a gente é livre, pode e deve fazê-las, mas tem que arcar com as consequências delas. E há pessoas que nem dão conta de serem livres justamente por isso: porque gostam que poder jogar em ombros alheios suas frustrações.
Considerando que vivemos numa sociedade machista, que minha mãe tem lá seus dogmas religiosos e tal, eu sou bem livre, até. E leve, no geral. Definitivamente há escolhas das quais eu me arrependo, mas sem nenhum peso: toda escolha é uma renúncia, e tento não focar nas ausências, mas nas presenças.
Estudei Letras. Amei o curso com todas as forças. Agora, na pós, lembrei que algum dia eu pensei em prestar Economia, mas não tive coragem de sair de São Paulo pra estudar na Unicamp (o curso da USP é mais neoliberal, e eu definitivamente não queria isso pra mim). Meu primeiro vestibular foi pra Jornalismo, eu passei numa particular, não passei na USP e não quis pagar. Passei pra Letras no ano seguinte, comecei a faculdade um pouquinho mais tarde (já com 20 anos) e gostei.
Eu trabalhava em multinacional durante o dia, e vivia divida entre dois universos. Dividida modo de dizer: eu amava o acadêmico, rejeitava o corporativo, mas não queria abrir mão da grana. E tive lá minhas recompensas. Quantas pessoas você conhece que podem pagar 1 mês de curso na Espanha (mais passagem, estadadias e passeios) com as próprias economias aos 21 anos de idade? Pois é, eu pude.
Só que eu sempre tive (e continuo tendo, aliás) uma insegurança intelectual enorme. Eu até sonhei durante algum tempo com a carreira acadêmica, mas achava que o mundo corporativo é que era meu lugar. No mundo corporativo a gente não precisa ser super inteligente, basta ser um pouco capaz e minimamente espertinha. E isso eu sou. E eu achava que esta história de professores que "apadrinham" alunos só acontecia com gente brilhante, ou quem batalhasse muito para ser reconhecido. Mas um professor muito bacana gostou de mim. A ponto de me incentivar muito. A ponto de me convidar para um grupo de estudos com gente da pós. E, puxa, isso aumenta as inseguranças de quem é insegura, viu? Porque a gente surta com o medo de não corresponder.
Num sábado qualquer, ainda na época da faculdade, encontrei esse professor na fila do cinema. Foi como ver uma assombração. Eu lá, sem graça, assustada, e o cara puxou papo e disse: "Iara, quando você vai explorar seu potencial para os estudos literários?". Ok, pergunta inocente. Mas feita pausadamente, numa voz meio soturna, sabem? Juro, virou um fantasma. Meu potencial me perseguindo.
Ainda assim, eu achei que quando voltasse de França, ia começar meu mestrado em literatura. Quando viajei, pensei que talvez até ficasse para fazer na França mesmo. Mas eu voltei e procurei emprego de novo como secretária (e acho que meu pai lamentou por isso). Só que eu tive que ir a USP pegar algum documento logo quando cheguei (nem lembro mais o que). E vi esse professor saindo da biblioteca. Vindo em minha direção. Ele não me viu, então eu me escondi. Tive vergonha e dizer: "tudo bom? então, eu não vou explorar meu potencial para os estudos literários, viu? resolvi voltar a ser secretária porque, apesar de ser um trabalhinho bem cretininho, paga melhor do que a 'pochete-de-estudos' da 'c-n-pouquinho'".
Ok, dito assim, parece bem "mimimi" e covarde, e não é esse o ponto. Se eu tivesse certeza que era a literatura, eu tava lá. Se hoje eu chegasse a essa conclusão, recalculava a rota e voltava pra lá. Se eu decidir amanhã, faço isso, acreditem. Eu posso fazer isso, mas a dificuldade é, justamente, não saber o que eu quero ser quando crescer apesar de ter 30 anos, 1 metro e 67 e quase 80 quilos. Fico em dúvida ser astronauta, policial ou jogadora de futebol. A verdade é que eu gosto de muita coisa, o que no fundo é bom. Ou não. Sei lá.
Mas porque tudo isso agora, então? É porque eu lembrei do Caio Fernando Abreu. E Caio Fernando Abreu me lembra este professor também, mas não só, pelo fato de serem os dois gaúchos. Mas principalmente porque este professor já orientou trabalhos sobre o CFA. Eu já coloquei aqui uma citação dele (do CFA, não do professor) inspiradora. Tive que procurar nos posts antigos pra ter certeza, achei lá em novembro.
Enfim. Eu continuo aqui. Sem "explorar o meu potencial para os estudos literários". Mas lendo, ainda assim.
Considerando que vivemos numa sociedade machista, que minha mãe tem lá seus dogmas religiosos e tal, eu sou bem livre, até. E leve, no geral. Definitivamente há escolhas das quais eu me arrependo, mas sem nenhum peso: toda escolha é uma renúncia, e tento não focar nas ausências, mas nas presenças.
Estudei Letras. Amei o curso com todas as forças. Agora, na pós, lembrei que algum dia eu pensei em prestar Economia, mas não tive coragem de sair de São Paulo pra estudar na Unicamp (o curso da USP é mais neoliberal, e eu definitivamente não queria isso pra mim). Meu primeiro vestibular foi pra Jornalismo, eu passei numa particular, não passei na USP e não quis pagar. Passei pra Letras no ano seguinte, comecei a faculdade um pouquinho mais tarde (já com 20 anos) e gostei.
Eu trabalhava em multinacional durante o dia, e vivia divida entre dois universos. Dividida modo de dizer: eu amava o acadêmico, rejeitava o corporativo, mas não queria abrir mão da grana. E tive lá minhas recompensas. Quantas pessoas você conhece que podem pagar 1 mês de curso na Espanha (mais passagem, estadadias e passeios) com as próprias economias aos 21 anos de idade? Pois é, eu pude.
Só que eu sempre tive (e continuo tendo, aliás) uma insegurança intelectual enorme. Eu até sonhei durante algum tempo com a carreira acadêmica, mas achava que o mundo corporativo é que era meu lugar. No mundo corporativo a gente não precisa ser super inteligente, basta ser um pouco capaz e minimamente espertinha. E isso eu sou. E eu achava que esta história de professores que "apadrinham" alunos só acontecia com gente brilhante, ou quem batalhasse muito para ser reconhecido. Mas um professor muito bacana gostou de mim. A ponto de me incentivar muito. A ponto de me convidar para um grupo de estudos com gente da pós. E, puxa, isso aumenta as inseguranças de quem é insegura, viu? Porque a gente surta com o medo de não corresponder.
Num sábado qualquer, ainda na época da faculdade, encontrei esse professor na fila do cinema. Foi como ver uma assombração. Eu lá, sem graça, assustada, e o cara puxou papo e disse: "Iara, quando você vai explorar seu potencial para os estudos literários?". Ok, pergunta inocente. Mas feita pausadamente, numa voz meio soturna, sabem? Juro, virou um fantasma. Meu potencial me perseguindo.
Ainda assim, eu achei que quando voltasse de França, ia começar meu mestrado em literatura. Quando viajei, pensei que talvez até ficasse para fazer na França mesmo. Mas eu voltei e procurei emprego de novo como secretária (e acho que meu pai lamentou por isso). Só que eu tive que ir a USP pegar algum documento logo quando cheguei (nem lembro mais o que). E vi esse professor saindo da biblioteca. Vindo em minha direção. Ele não me viu, então eu me escondi. Tive vergonha e dizer: "tudo bom? então, eu não vou explorar meu potencial para os estudos literários, viu? resolvi voltar a ser secretária porque, apesar de ser um trabalhinho bem cretininho, paga melhor do que a 'pochete-de-estudos' da 'c-n-pouquinho'".
Ok, dito assim, parece bem "mimimi" e covarde, e não é esse o ponto. Se eu tivesse certeza que era a literatura, eu tava lá. Se hoje eu chegasse a essa conclusão, recalculava a rota e voltava pra lá. Se eu decidir amanhã, faço isso, acreditem. Eu posso fazer isso, mas a dificuldade é, justamente, não saber o que eu quero ser quando crescer apesar de ter 30 anos, 1 metro e 67 e quase 80 quilos. Fico em dúvida ser astronauta, policial ou jogadora de futebol. A verdade é que eu gosto de muita coisa, o que no fundo é bom. Ou não. Sei lá.
Mas porque tudo isso agora, então? É porque eu lembrei do Caio Fernando Abreu. E Caio Fernando Abreu me lembra este professor também, mas não só, pelo fato de serem os dois gaúchos. Mas principalmente porque este professor já orientou trabalhos sobre o CFA. Eu já coloquei aqui uma citação dele (do CFA, não do professor) inspiradora. Tive que procurar nos posts antigos pra ter certeza, achei lá em novembro.
Enfim. Eu continuo aqui. Sem "explorar o meu potencial para os estudos literários". Mas lendo, ainda assim.
segunda-feira, 26 de julho de 2010
Tudo jóia?
Quinta-feira passada, ainda de férias (voltei a trabalhar hoje) resolvi dar uma volta. Acabei no Shopping Iguatemi. Pra quem nunca ouviu falar, ele foi o primeiro construído em São Paulo (então é provável que tenha sido o primeiro do país). Até outro dia, era o mais caro e elegante. Eu tenho uma certa relação afetiva com ele porque o meu primeiro emprego de verdade, mais de 10 anos atrás, era na região, e eu almoçava lá de vez em quando. Era engraçado, porque apesar da pompa, tem duas lojas bem populares na entrada. Aquela coisa, né? Se tem MacDonald's e C&A mesmo os funcionários mais modestos dos prédios ali por perto conseguem consumir alguma coisa lá dentro.
Só que este shopping fica numa avenida movimentada e servida por muitas linhas de ônibus. Apesar da elegância que pode ser opressiva para alguns, o prédio é acessível, geograficamente falando, pra qualquer pessoa. Por isso mesmo desconfio que ele perdeu o posto de bambambam: há um agora em que só se entra de carro. Deve ter uma entrada nos fundos pra funcionários, mas a coisa é bem hierarquizada mesmo. O estacionamento custa uns 30 reais a primeira hora. E fica num grande empreendimento com edifícios residenciais e comerciais também. A idéia é que você saia o mínimo possível, e só conviva com quem tem outra realidade quando estas pessoas estiverem te servindo, claro. Do tipo de coisa que me faz ter muita vergonha alheia por quem escolhe isso pra si, sabe? Colocam um muro enorme entre eles e o resto do mundo e se espantam com a violência depois. Eu sei, eu sei, outras cidades podem ter aberrações neste sentido também, mas às vezes parece que São Paulo é hour concours em facismo.
Mas, enfim, o Iguatemi não ficou popular por ser menos esnobe. Muitas grifes de alto luxo estão lá. Você acha caro um sapato de 200 reais? Lá tem de 2 mil ou mais. Mas o motivador deste post foi uma vitrine de joalheria. Olha só, eu sou super crítica a respeito da acumulação, acabei de assistir "Diamante de Sangue", mas eu acho jóias bonitas. Não como objeto de desejo, entendem? Acho bonito o trabalho de criação, o design mesmo. Nem olho desejando, pensando: "ó, um dia eu quero ter isso", porque não vou e não quero. Nada a ver comigo. Consigo excluir toda a ideologia por trás e achar bonito de ver, como quem vê uma obra num museu. Só.
Se mais alguém tem essa curiosidade, já deve ter reparado que os preços das coisas realmente sensacionais não são mostrados, mesmo que as peças estejam expostas na vitrine. Essa loja do Shopping Iguatemi tinha uns anéis com solitário de brilhante. Sabe daqueles de filme do mocinho que pede a mocinha em casamento e dá o engagement ring?. Então, tinha uns três assim lá. Os mais simples custavam 20 mil reais. O maior custava 200 mil. O preço tava lá, pra quem quisesse ver.
Eu fiquei muito triste depois de ver o preço deste anel. Bateu aquela coisa ingênua até de "tanta criança aí passando fome e madame colocando 200 paus no dedo". Depois fui mais longe nas reflexões e pensei que nada impede um cara de comprar um destes de presente pra uma mulher e tratá-la como lixo - embora de maneira nenhuma eu esteja estabelecendo alguma relação de causa e consequencia entre as duas coisas, que fique claro. Tem uma música do Skank, Os Ofendidos, que diz assim: "o mundo não me assusta/ o mundo só me insulta". No meu caso, as duas coisas, viu? Assusta muito e insulta mais ainda.
Só que este shopping fica numa avenida movimentada e servida por muitas linhas de ônibus. Apesar da elegância que pode ser opressiva para alguns, o prédio é acessível, geograficamente falando, pra qualquer pessoa. Por isso mesmo desconfio que ele perdeu o posto de bambambam: há um agora em que só se entra de carro. Deve ter uma entrada nos fundos pra funcionários, mas a coisa é bem hierarquizada mesmo. O estacionamento custa uns 30 reais a primeira hora. E fica num grande empreendimento com edifícios residenciais e comerciais também. A idéia é que você saia o mínimo possível, e só conviva com quem tem outra realidade quando estas pessoas estiverem te servindo, claro. Do tipo de coisa que me faz ter muita vergonha alheia por quem escolhe isso pra si, sabe? Colocam um muro enorme entre eles e o resto do mundo e se espantam com a violência depois. Eu sei, eu sei, outras cidades podem ter aberrações neste sentido também, mas às vezes parece que São Paulo é hour concours em facismo.
Mas, enfim, o Iguatemi não ficou popular por ser menos esnobe. Muitas grifes de alto luxo estão lá. Você acha caro um sapato de 200 reais? Lá tem de 2 mil ou mais. Mas o motivador deste post foi uma vitrine de joalheria. Olha só, eu sou super crítica a respeito da acumulação, acabei de assistir "Diamante de Sangue", mas eu acho jóias bonitas. Não como objeto de desejo, entendem? Acho bonito o trabalho de criação, o design mesmo. Nem olho desejando, pensando: "ó, um dia eu quero ter isso", porque não vou e não quero. Nada a ver comigo. Consigo excluir toda a ideologia por trás e achar bonito de ver, como quem vê uma obra num museu. Só.
Se mais alguém tem essa curiosidade, já deve ter reparado que os preços das coisas realmente sensacionais não são mostrados, mesmo que as peças estejam expostas na vitrine. Essa loja do Shopping Iguatemi tinha uns anéis com solitário de brilhante. Sabe daqueles de filme do mocinho que pede a mocinha em casamento e dá o engagement ring?. Então, tinha uns três assim lá. Os mais simples custavam 20 mil reais. O maior custava 200 mil. O preço tava lá, pra quem quisesse ver.
Eu fiquei muito triste depois de ver o preço deste anel. Bateu aquela coisa ingênua até de "tanta criança aí passando fome e madame colocando 200 paus no dedo". Depois fui mais longe nas reflexões e pensei que nada impede um cara de comprar um destes de presente pra uma mulher e tratá-la como lixo - embora de maneira nenhuma eu esteja estabelecendo alguma relação de causa e consequencia entre as duas coisas, que fique claro. Tem uma música do Skank, Os Ofendidos, que diz assim: "o mundo não me assusta/ o mundo só me insulta". No meu caso, as duas coisas, viu? Assusta muito e insulta mais ainda.
segunda-feira, 19 de julho de 2010
O surreal, o selo e as leituras
Eu queria comentar aqui do quanto é tudo meio surreal no hospital. Primeiro, porque se internar assim, passando bem, entregar o seu corpo pra ser manipulado com plena consciência é muito estranho. Fiquei quase uma hora numa sala de pré-cirurgia. Levei um livro bom (vou falar dele mais abaixo), que me fez companhia. Depois entrou a enfermeira com a camisola de cirurgia. Aberta atrás, como vocês sabem, mas descartável, de um tecido ridiculamente fino e completamente transparente. E tive que tirar toda a roupa e vestir aquilo. Daí veio um cara numa maca me buscar, e eu lá, quase pelada, bunda de fora. Deitei na maca e, no passeio até o centro cirúrgico, olhando pro teto, como nos seriados médicos, fui vendo as luminárias passarem. Depois da cirurgia, acordei da sedação, mas ainda estava anestesiada. Vi o meu médico segurando uma perna enorme, enquanto a instrumentadora a enfaixava. Uma perna comprida, grossa, com um pé bem grande (38 ou 39, parecia). Daí me dei conta de que era a minha perna... Quando marido chegou do trabalho e foi ao quarto me encontrou com a camisola cirúrgica e falou: "olha, você tá quase pelada". Pra ele eu sou alguém, pro resto do pessoal que me viu assim, só um corpo.
***
Olha, eu realmente sou péssima com a história dos selos, mas eu juro que eu tento ser uma pessoa legal e corresponder ao carinho das pessoas porque é o mínimo que elas merecem. Daí que a Rita me deu esse aqui quando eu estava meio offline.

E a Ingrid me deu esse.

Que acompanha este texto:
"O Prêmio Dardos é um reconhecimento dos valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc... que em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, e suas palavras.
Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar o carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web".
Obrigada mesmo, gente. Acho que o ideal é que eu indique alguns blogs, né? Então, eu leio coisas muito diversas entre si, como dá pra ver ao lado. E eu gosto muito do blog da Rita, e acho que ela é uma boa cronista. Fala do cotidiano de uma maneira deliciosa, me faz bem lê-la. Eu adoro o desbocamento da Luci. A lucidez da Dani. Mas tem um que eu acho que pouca gente aqui conhece e eu tenho que indicar. O da Aline. A Aline tinha outro e fechou, descurtiu de escrever por um tempo. E eu era assídua lá. Tava sempre comentando, comentários enormes. Meus debates com ela me ensinaram muito, principalmente quando discordávamos. Não tem nada que nos ensine tanto como buscar argumentos para discordar de alguém inteligente num debate respeitoso. Depois de um tempo, resolvi criar o meu blog porque cheguei a conclusão de quem, sim, eu tinha coisas a dizer, e eu queria eu mesma "puxar" o papo para dizê-las (e a maior prova de que valeu a pena são, justamente, estes selos). Então, a Aline me inspirou e eu recomendo que vocês passem lá pra serem inspiradas também.
***
Por fim, leituras. Eu não comentei no último post sobre livros, mas eu tenho um novo sonho de consumo. Há uma coleção que se chama "Mar de Histórias", coletânea de contos organizada por Aurélio Buarque de Hollanda e Paulo Rónai. Eu li um conto na faculdade e me encantei com a ambiciosa idéia de uma antologia do conto mundial em 9 volumes, até porque conto é meu gênero literário preferido. Só que esta coleção está fora de catálogo. Mas outro dia me apresentaram ao estante virtual, um site para buscar livros em sebos de todo o país. Daí achei exemplares de todos os volumes, por preços honestos. Vou comprando aos poucos, que eu não sou rica, e porque também é mais gostoso assim. O primeiro chegou direitinho, e me fez companhia no hospital. Companhia excelente, vale dizer. Essa semana acho que vou encomendar o segundo. O plano é completar a coleção em 1 ano mais ou menos.
E o devaneio: o conto que eu tive que ler no meu primeiro ano na faculdade, 10 anos atrás, se chamava "Terremoto no Chile". Daí, esse ano, quando teve o terremoto, eu entrei na internet, vi um link discreto ainda (daqueles que colocam quando não tem maiores informações) e cliquei achando que era uma resenha do conto, não a notícia de um desastre natural real. Lembrei da coleção e me despertou a vontade adormecida de ter os livros. As associações que nossa cabeça faz...
***
Olha, eu realmente sou péssima com a história dos selos, mas eu juro que eu tento ser uma pessoa legal e corresponder ao carinho das pessoas porque é o mínimo que elas merecem. Daí que a Rita me deu esse aqui quando eu estava meio offline.

E a Ingrid me deu esse.

Que acompanha este texto:
"O Prêmio Dardos é um reconhecimento dos valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc... que em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, e suas palavras.
Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar o carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web".
Obrigada mesmo, gente. Acho que o ideal é que eu indique alguns blogs, né? Então, eu leio coisas muito diversas entre si, como dá pra ver ao lado. E eu gosto muito do blog da Rita, e acho que ela é uma boa cronista. Fala do cotidiano de uma maneira deliciosa, me faz bem lê-la. Eu adoro o desbocamento da Luci. A lucidez da Dani. Mas tem um que eu acho que pouca gente aqui conhece e eu tenho que indicar. O da Aline. A Aline tinha outro e fechou, descurtiu de escrever por um tempo. E eu era assídua lá. Tava sempre comentando, comentários enormes. Meus debates com ela me ensinaram muito, principalmente quando discordávamos. Não tem nada que nos ensine tanto como buscar argumentos para discordar de alguém inteligente num debate respeitoso. Depois de um tempo, resolvi criar o meu blog porque cheguei a conclusão de quem, sim, eu tinha coisas a dizer, e eu queria eu mesma "puxar" o papo para dizê-las (e a maior prova de que valeu a pena são, justamente, estes selos). Então, a Aline me inspirou e eu recomendo que vocês passem lá pra serem inspiradas também.
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Por fim, leituras. Eu não comentei no último post sobre livros, mas eu tenho um novo sonho de consumo. Há uma coleção que se chama "Mar de Histórias", coletânea de contos organizada por Aurélio Buarque de Hollanda e Paulo Rónai. Eu li um conto na faculdade e me encantei com a ambiciosa idéia de uma antologia do conto mundial em 9 volumes, até porque conto é meu gênero literário preferido. Só que esta coleção está fora de catálogo. Mas outro dia me apresentaram ao estante virtual, um site para buscar livros em sebos de todo o país. Daí achei exemplares de todos os volumes, por preços honestos. Vou comprando aos poucos, que eu não sou rica, e porque também é mais gostoso assim. O primeiro chegou direitinho, e me fez companhia no hospital. Companhia excelente, vale dizer. Essa semana acho que vou encomendar o segundo. O plano é completar a coleção em 1 ano mais ou menos.
E o devaneio: o conto que eu tive que ler no meu primeiro ano na faculdade, 10 anos atrás, se chamava "Terremoto no Chile". Daí, esse ano, quando teve o terremoto, eu entrei na internet, vi um link discreto ainda (daqueles que colocam quando não tem maiores informações) e cliquei achando que era uma resenha do conto, não a notícia de um desastre natural real. Lembrei da coleção e me despertou a vontade adormecida de ter os livros. As associações que nossa cabeça faz...
sábado, 17 de julho de 2010
A cirurgia
Eu não sumi por conta do meu trabalho. No final das contas, eu entreguei só 4 páginas, solidária ao resto da minha turma que, no geral, não tinha nem escolhido o tema dias antes da data da entrega (mas uma das colegas entregou 32 páginas, já!). Sumi principalmente porque o computador deu pau e foi pro conserto (estou escrevendo do do marido) e porque eu tava concentrada em me preparar para o que aconteceu na última quarta-feira: minha primeira cirurgia.
Eu tenho problemas leves de circulação desde a infância. Vasinhos que se tornaram varizes. Imaginem uma menina de 11 anos sofrendo bullying porque tem varizes. Foi bem chato, viu? Eu já tinha feito diversas vezes a parte estética, de "queimar" os vasinhos aparentes, desde a pré-adolescência. Na idade adulta a pílula piorou um pouco a situação. E eu cresci morrendo de vergonha das minhas pernas. Na minha primeira viagem à Espanha, quase 10 anos atrás, passei os 30 dias de calor de 40 graus usando calça jeans. Eu jamais usava saias, bermudas, vestidos. Nem tinha nada disso no meu guarda-roupa. Até que um dia me caiu a ficha de que as pessoas tinham muito mais o que fazer do que olhar para as minhas pernas. Então mandei tudo a merda e desencanei. Hoje tenho um montão de saias e vestidos, que eu acho que me vestem melhor do que as calças, aliás.
Mas recentemente descobri que o problema não era só estético. Minha circulação estava ficando comprometida. E isso, com a idade, só tende a piorar. Eu tinha que fazer mesmo a cirurgia ou corria o risco de, a médio prazo, ter problemas mais sérios. Não vou ser hipócrita: eu ainda me incomodava com a parte estética, mas muitíssimo menos do que na adolescência. E a parte estética só exige este procedimento clínico de injetar uma substância que "queima" os microvazos, quase indolor e sem risco. O convênio não cobria mas nem era muito caro, então aproveitei que ia estar anestesiada pra fazer tudo de uma vez.
E, bom, a anestesia. Eu tava morrendo de medo. Muito mesmo. Nunca tinha tomado, a não ser no dentista. Não precisei da geral, só a "raqui", aquela que te desliga da cintura pra baixo. Mas eu tinha muito medo mesmo. Nos últimos dias eu fiquei pensando que, fosse só pela parte estética, eu desistiria. Olha só, eu sou vaidosa e tal, mas passar batom e rímel é muito diferente de se internar num hospital voluntariamente. E, por favor, eu não estou julgando ninguém. Eu tenho amigas queridas, mulheres muito inteligentes e bem resolvidas, que fizeram cirurgias plásticas. Uma delas fez lipoaspiração, que é um troço invasivo pra caramba, muito mais do que as minha de varizes. Eu realmente acho que o discurso de que ninguém deve fazer é tão reacionário quanto o discurso de que todo mundo pode/deve fazer. A nossa relação com o próprio corpo deveria ser o mais pessoal e o menos mediada possível. Não cabe a mídia nem ao discurso feminista de esquerda me dizer como eu devo me relacionar com o meu corpo. Mas eu sei que boa parte das mulheres que se submetem a procedimentos caros e arriscados estão agindo sob muita influência externa ao tomar sua decisão - e não é o discurso feminista que as influencia, vale ressaltar.
Quando eu era mais nova, dizia que odiava minhas pernas. Além dos vazinhos, e também por conta da má circulação, eu tenho muita celulite. Sempre tive. E um dia eu me dei conta que são as minha pernas gordinhas, riscadinhas de vermelho, azul e roxo tal qual o mapa rodoviário federal e tortinhas como as do Garrincha (sem falar do joelho meio podre, claro) que me levam pra cima e pra baixo. Que eu já andei quilômetros por aí com elas, que elas já carregaram muito peso (meu e das minhas mochilas), e que na verdade é essa a função delas. Elas estão aqui pra me carregar, não pra servir de enfeite para os olhos alheios. Então, cabe a mim respeitá-las, poxa vida!
Mas pra que continuassem cumprindo sua função eficientemente, eu tive que operá-las. Ok. E foi tudo muito tranquilo, apesar de parecer meio surreal. Nem lembro da anestesia (eu já estava sedada quando aplicaram), voltei pra casa no mesmo dia, tudo numa boa. Por sorte, está fazendo frio em São Paulo, já que eu tenho que ficar deitada, com as pernas pra cima e usando meias kendall. O repouso está terminando, a dor está passando e só as meias piniquentas me acompanharão por mais umas 2 semanas. Nem é um pós operatório dos piores. Tirei 10 dias de férias do trabalho e estou pondo a leitura feminista em dia. Enquanto isso, tenho a sorte de ter um maridão dedicado cuidando de mim com todo o carinho do mundo. Maridão esse que conta só ter reparado que as coxas grossas eram "uma delícia" quando me viu de saias. Nem notou as varizes lá. E eu acredito, viu? O olhar do outro pode ser mais generoso do que o nosso.
Eu tenho problemas leves de circulação desde a infância. Vasinhos que se tornaram varizes. Imaginem uma menina de 11 anos sofrendo bullying porque tem varizes. Foi bem chato, viu? Eu já tinha feito diversas vezes a parte estética, de "queimar" os vasinhos aparentes, desde a pré-adolescência. Na idade adulta a pílula piorou um pouco a situação. E eu cresci morrendo de vergonha das minhas pernas. Na minha primeira viagem à Espanha, quase 10 anos atrás, passei os 30 dias de calor de 40 graus usando calça jeans. Eu jamais usava saias, bermudas, vestidos. Nem tinha nada disso no meu guarda-roupa. Até que um dia me caiu a ficha de que as pessoas tinham muito mais o que fazer do que olhar para as minhas pernas. Então mandei tudo a merda e desencanei. Hoje tenho um montão de saias e vestidos, que eu acho que me vestem melhor do que as calças, aliás.
Mas recentemente descobri que o problema não era só estético. Minha circulação estava ficando comprometida. E isso, com a idade, só tende a piorar. Eu tinha que fazer mesmo a cirurgia ou corria o risco de, a médio prazo, ter problemas mais sérios. Não vou ser hipócrita: eu ainda me incomodava com a parte estética, mas muitíssimo menos do que na adolescência. E a parte estética só exige este procedimento clínico de injetar uma substância que "queima" os microvazos, quase indolor e sem risco. O convênio não cobria mas nem era muito caro, então aproveitei que ia estar anestesiada pra fazer tudo de uma vez.
E, bom, a anestesia. Eu tava morrendo de medo. Muito mesmo. Nunca tinha tomado, a não ser no dentista. Não precisei da geral, só a "raqui", aquela que te desliga da cintura pra baixo. Mas eu tinha muito medo mesmo. Nos últimos dias eu fiquei pensando que, fosse só pela parte estética, eu desistiria. Olha só, eu sou vaidosa e tal, mas passar batom e rímel é muito diferente de se internar num hospital voluntariamente. E, por favor, eu não estou julgando ninguém. Eu tenho amigas queridas, mulheres muito inteligentes e bem resolvidas, que fizeram cirurgias plásticas. Uma delas fez lipoaspiração, que é um troço invasivo pra caramba, muito mais do que as minha de varizes. Eu realmente acho que o discurso de que ninguém deve fazer é tão reacionário quanto o discurso de que todo mundo pode/deve fazer. A nossa relação com o próprio corpo deveria ser o mais pessoal e o menos mediada possível. Não cabe a mídia nem ao discurso feminista de esquerda me dizer como eu devo me relacionar com o meu corpo. Mas eu sei que boa parte das mulheres que se submetem a procedimentos caros e arriscados estão agindo sob muita influência externa ao tomar sua decisão - e não é o discurso feminista que as influencia, vale ressaltar.
Quando eu era mais nova, dizia que odiava minhas pernas. Além dos vazinhos, e também por conta da má circulação, eu tenho muita celulite. Sempre tive. E um dia eu me dei conta que são as minha pernas gordinhas, riscadinhas de vermelho, azul e roxo tal qual o mapa rodoviário federal e tortinhas como as do Garrincha (sem falar do joelho meio podre, claro) que me levam pra cima e pra baixo. Que eu já andei quilômetros por aí com elas, que elas já carregaram muito peso (meu e das minhas mochilas), e que na verdade é essa a função delas. Elas estão aqui pra me carregar, não pra servir de enfeite para os olhos alheios. Então, cabe a mim respeitá-las, poxa vida!
Mas pra que continuassem cumprindo sua função eficientemente, eu tive que operá-las. Ok. E foi tudo muito tranquilo, apesar de parecer meio surreal. Nem lembro da anestesia (eu já estava sedada quando aplicaram), voltei pra casa no mesmo dia, tudo numa boa. Por sorte, está fazendo frio em São Paulo, já que eu tenho que ficar deitada, com as pernas pra cima e usando meias kendall. O repouso está terminando, a dor está passando e só as meias piniquentas me acompanharão por mais umas 2 semanas. Nem é um pós operatório dos piores. Tirei 10 dias de férias do trabalho e estou pondo a leitura feminista em dia. Enquanto isso, tenho a sorte de ter um maridão dedicado cuidando de mim com todo o carinho do mundo. Maridão esse que conta só ter reparado que as coxas grossas eram "uma delícia" quando me viu de saias. Nem notou as varizes lá. E eu acredito, viu? O olhar do outro pode ser mais generoso do que o nosso.
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Desculpaê, pieguice de novo
Eu tinha planejado escrever sobre o andamento do meu trabalho da pós. Vou fazer isso, porque eu tô muito empolgada, mas não hoje, nem agora. É porque aconteceu algo que eu quero contar. Prosaico assim, visto de fora, mas tão forte pra mim.
A gente cresce ouvindo a moral de que dinheiro não traz felicidade. Daí o cartão de crédito te diz que “tem coisas que o dinheiro não compra”. E é verdade, claro. Mas às vezes a gente sente isso de uma maneira tão impactante. Como escrevi no meu aniversário, eu acho que os meus amigos, o carinho das pessoas que me cercam, é o bem mais precioso conquistado nestes meus 30 anos. E eu não tenho “1 milhão de amigos” como diz a música, o que me alegra é o quanto sou amada por essas pessoas tão especiais.
Tenho a minha amiga Ma, que foi pra França na mesma época que eu, nos conhecemos por lá. Vivemos muitas coisas juntas, ela conheceu sua cara-metade e ficou. Hoje ela é mãe do Arthur, um francobrasileiro de quase 11 meses, uma coisa de louco de tão fofinho e sorridente. A Ma é uma pessoa maravilhosa, e eu desenvolvi uma relação de cumplicidade imensa com ela. Não fosse isso o suficiente, ela já me quebrou vários galhos. Várias coisas que hoje estão no meu apartamento são herança dela, que tinha seu canto montado aqui, deixou tudo estocado na casa da mãe quando foi pra França, e resolveu me emprestar móveis e utensílios de cozinha quando eu saí da casa dos meus pais. Empréstimo sem data pra devolução, as coisas estão comigo até hoje. E a mãe dela numa simpatia sem tamanho todos os milhares de vezes que eu fui buscar algum móvel, algum presente mandado da França ou deixar lá algo a ser mandado na próxima viagem da família.
Enfim. O telefone tocou agora há pouco. Era a mãe da Ma. Disse que a filha pediu que os seus disquinhos coloridos de musiquinhas de infância fossem passados para o Mp3, para que o Arthur pudesse ter a oportunidade de ouvi-los. Ela fez isso e resolveu também fazer cópias para as pessoas queridas. Lembrou que o meu marido tem sobrinhas, imensamente amadas por mim, e me ofereceu uma cópia para presenteá-las.
Eu disse que era prosaico. Mas eu estou muito comovida pelo carinho de alguém que lembra não só de mim o tempo todo, mas de quem é importante pra mim. Tô boba até agora. Disquinhos de músicas da nossa infância, que serão copiados para as minhas pequenas queridas. Não consigo sequer estimar o valor de algo assim. Porque olha, se isso não é amor materializado, então eu não sei o que é.
A gente cresce ouvindo a moral de que dinheiro não traz felicidade. Daí o cartão de crédito te diz que “tem coisas que o dinheiro não compra”. E é verdade, claro. Mas às vezes a gente sente isso de uma maneira tão impactante. Como escrevi no meu aniversário, eu acho que os meus amigos, o carinho das pessoas que me cercam, é o bem mais precioso conquistado nestes meus 30 anos. E eu não tenho “1 milhão de amigos” como diz a música, o que me alegra é o quanto sou amada por essas pessoas tão especiais.
Tenho a minha amiga Ma, que foi pra França na mesma época que eu, nos conhecemos por lá. Vivemos muitas coisas juntas, ela conheceu sua cara-metade e ficou. Hoje ela é mãe do Arthur, um francobrasileiro de quase 11 meses, uma coisa de louco de tão fofinho e sorridente. A Ma é uma pessoa maravilhosa, e eu desenvolvi uma relação de cumplicidade imensa com ela. Não fosse isso o suficiente, ela já me quebrou vários galhos. Várias coisas que hoje estão no meu apartamento são herança dela, que tinha seu canto montado aqui, deixou tudo estocado na casa da mãe quando foi pra França, e resolveu me emprestar móveis e utensílios de cozinha quando eu saí da casa dos meus pais. Empréstimo sem data pra devolução, as coisas estão comigo até hoje. E a mãe dela numa simpatia sem tamanho todos os milhares de vezes que eu fui buscar algum móvel, algum presente mandado da França ou deixar lá algo a ser mandado na próxima viagem da família.
Enfim. O telefone tocou agora há pouco. Era a mãe da Ma. Disse que a filha pediu que os seus disquinhos coloridos de musiquinhas de infância fossem passados para o Mp3, para que o Arthur pudesse ter a oportunidade de ouvi-los. Ela fez isso e resolveu também fazer cópias para as pessoas queridas. Lembrou que o meu marido tem sobrinhas, imensamente amadas por mim, e me ofereceu uma cópia para presenteá-las.
Eu disse que era prosaico. Mas eu estou muito comovida pelo carinho de alguém que lembra não só de mim o tempo todo, mas de quem é importante pra mim. Tô boba até agora. Disquinhos de músicas da nossa infância, que serão copiados para as minhas pequenas queridas. Não consigo sequer estimar o valor de algo assim. Porque olha, se isso não é amor materializado, então eu não sei o que é.
segunda-feira, 14 de junho de 2010
As minhas Copas
Eu tava pensando, lendo posts por aí sobre a Copa, que dá pra gente fazer quase uma autobiografia pensando no que estava fazendo em cada uma delas, porque 4 anos entre uma e outra é um espaço considerável. Ainda mais se você, como eu, já não é assim tããão jovem, de um ano pra outro as coisas podem mudar pouco. Mas em 4 dá pra mudar muita coisa na vida, né?
Então vamos lá (e tome fôlego porque vai ser longo):
Eu sou nascida em 80, então fica fácil (pra vocês, porque pra mim é óbvio) saber minha idade em cada uma. Em 82 eu não lembro. Em 86 eu devo ter chorado quando o Brasil foi eliminado. Em 90 eu lembro da fogueteira do Maracanã (joga aí no google pra saber quem é), lembro que o técnico era o Lazaroni, lembro que a gente foi eliminado pela Argentina e lembro que o Careca jogava. Só (e marido vai achar um absurdo, porque sou capaz de apostar que ele sabia escalação já com essa idade...).
Mas 94 começa a ficar bom. Não só porque a gente ganhou a primeira vez (desde que eu sou gente, claro), mas porque eu já era adolescente e comecei a farrear (sem beber ainda, esclareço). E outro dia fiz um churrasco aqui em casa e lembrei com a minha amiga Ceci que essa já é a nossa 5º Copa juntas. A Ceci fez 14 anos em 4 de julho de 1994, dia do jogo Brasil x Estados Unidos, que foi uma festona lá porque era dia da Independência e uma festona pra mim por comemorar o aniversário de uma amiga vendo futebol. Não lembro se foi antes ou depois da Copa que a gente chegou a se estapear por conta, justamente, de futebol: a Ceci é sãopaulina e eu sou corintiana, e o time dela tinha levado um “sacode” de 4 a 0 do Flamengo. Ah, não lembro se a Mari tava nesse dia. E a Mari é corintiana também. Ah, e falando em Corinthians, lembro que o Ronalducho nessa época era o Ronaldinho do Cruzeiro, um moleque magrelo.
98 teve uma final estranha. E na época eu tinha uma relação estranha com um carinha tão nada a ver que até hoje as pessoas (meus pais, inclusive) não entendem bem como eu passei tanto tempo (2 anos) com ele. Não era má pessoa, só não combinava. E, bom, eu assisti aquela final com ele e... perder daquele jeito da França também não combinava. Enfim. Estranho.
2002 foi o auge da vida de solteira. Lembro que uns jogos tinham uns horários loucos. Lembro que eu e a Ceci fomos assistir Brasil x Inglaterra numa festa bizarra que virava do dia 12 para o dia 13 de junho. Frio pra cacete, dia dos namorados, e chegando lá só tinha mulher. A gente bebeu algumas mas não aguentou ficar até 3 e meia quando começava o jogo. Ela me deixou em casa e eu e a minha mãe assistimos sozinhas do sofá da sala – meu pai e meu irmão não gostam o suficiente de futebol para acordar de madrugada pra isso, mas nós duas gostamos. Eu tava quase dormindo e não acreditei quando a bola do Ronaldinho Gaúcho, que parecia um cruzamento errado, entrou. Fiquei olhando pra minha mãe e perguntando: “entrou mesmo?”. E lembrei que a Copa foi o descanso dela nessa época: minha avó, mãe dela, tava bem doente. Faleceu menos de uma mês depois dessa noite: em 11 de julho de 2002.
Ah, mas essa merece 2 parágrafos. Eu e Ceci fomos parar numa balada na final. A idéia era começar a festejar no dia anterior (notem, o jogo só começava às 8h30 da manhã!). Chegamos tipo, à 1h00, bebemos, farreamos e a Ceci perdeu a comanda do bar. Bom, quando é assim os caras querem te cobrar uma multa de 200 ou 300 contos, mas Ceci já tinha carteirinha da OAB nessa época e quebrou o pau com um gerente enquanto eu, largada em alguma mesa, lutava contra o sono e a ressaca. Fomos pra casa dela e eu, de novo largada no sofá, mal vibrei o Penta porque, oi, minha cabeça doía depois de tanta cachaça (crianças, não tentem isso em casa). Nesse dia combinamos, eu e Ceci, que em 2006 estaríamos na Alemanha.
Bem, nós não fomos. Em 2006 eu tava na França (mas marido, que eu ainda não conhecia, estava na Alemanha!). E toda uma experiência. Porque os franceses só se ligaram no que estava acontecendo depois de bater a Espanha. Mas eu andava com a comunidade brasileira. E íamos assistir aos jogos no Stade de Charléty (achei o nome, Amanda!), num telão instalado pela prefeitura. Mas teve o desastre, né? De virar freguesa da França na França. No dia do jogo, um sábado, eu saí orgulhosa de verde a amarelo segura de que, no dia seguinte, ia abafar passeando na Champs Elysées assim. Almocei com a Lu, minha amigona que morava na maison Provence de France na Cité Universtaire, e passamos o dia ouvindo provocações. Cheguei a mostrar o dedo médio pra um moleque no metrô (é, eu já tinha 26 e o moleque não passava de 15, mas e daí?). Enfim, assistimos o jogo num bar brasileiro em République (pra quem nunca foi a Paris, isso não é uma localização precisa, porque não sei agora, mas na época o que mais tinha era brasileiro em République – o badalado Favela Chic fica por lá). E perdemos. Na volta, algum babaca jogou xixi numa amiga que estava com a camiseta do Brasil (oi? você achava que essa falta de civilidade não acontecia por lá?). Mas, enfim. Eles perderam na final. Nos pênaltis. E eu ria com satisfação ao ver o Zidane sendo expulso – vingança é um prato que se come frio e eu não sou feita só de sentimentos nobres. Hehe.
Mas aí, 2010. 30 anos. Julho completo 2 anos no mesmo emprego, e “nunca antes na história desse país” isso aconteceu. Aluguel de apartamento no meu nome. E um marido! Tá bem legal, porque ele é louco por futebol, e a gente é parceiro até pra colar figurinha no álbum. E engraçado pensar que essa pessoa que hoje é tão importante pra mim não fazia parte da minha vida 4 anos atrás. E se você me contasse que: “ó, você vai conhecer um moço assim e assim, e menos de 1 ano e meio depois de vê-lo pela primeira vez vocês já vão estar montando casa”, eu ia achar graça. Mas a vida nos traz surpresas boas às vezes, né? ;)
A próxima Copa é no Brasil e o casal aqui decidiu que vai a estádios (assim no plural), nem que tenha que rifar as duas mães, a minha e a dele (ok, é mentira, só quem ofereceu a mãe pra rifa fui eu – hoho!). Não somos pessoas sérias: a gente mora de aluguel, mas se tiver que gastar até o último trocado pra ver um jogo da Copa no estádio, assim o faremos, porque, oi, outra Copa no Brasil não virá tão cedo. Por motivos óbvios (fraldas custam muito caro) combinamos que filhos só depois de 2014. Talvez a gente encomende algum logo depois da final. Pra comemorar. \o/
Então vamos lá (e tome fôlego porque vai ser longo):
Eu sou nascida em 80, então fica fácil (pra vocês, porque pra mim é óbvio) saber minha idade em cada uma. Em 82 eu não lembro. Em 86 eu devo ter chorado quando o Brasil foi eliminado. Em 90 eu lembro da fogueteira do Maracanã (joga aí no google pra saber quem é), lembro que o técnico era o Lazaroni, lembro que a gente foi eliminado pela Argentina e lembro que o Careca jogava. Só (e marido vai achar um absurdo, porque sou capaz de apostar que ele sabia escalação já com essa idade...).
Mas 94 começa a ficar bom. Não só porque a gente ganhou a primeira vez (desde que eu sou gente, claro), mas porque eu já era adolescente e comecei a farrear (sem beber ainda, esclareço). E outro dia fiz um churrasco aqui em casa e lembrei com a minha amiga Ceci que essa já é a nossa 5º Copa juntas. A Ceci fez 14 anos em 4 de julho de 1994, dia do jogo Brasil x Estados Unidos, que foi uma festona lá porque era dia da Independência e uma festona pra mim por comemorar o aniversário de uma amiga vendo futebol. Não lembro se foi antes ou depois da Copa que a gente chegou a se estapear por conta, justamente, de futebol: a Ceci é sãopaulina e eu sou corintiana, e o time dela tinha levado um “sacode” de 4 a 0 do Flamengo. Ah, não lembro se a Mari tava nesse dia. E a Mari é corintiana também. Ah, e falando em Corinthians, lembro que o Ronalducho nessa época era o Ronaldinho do Cruzeiro, um moleque magrelo.
98 teve uma final estranha. E na época eu tinha uma relação estranha com um carinha tão nada a ver que até hoje as pessoas (meus pais, inclusive) não entendem bem como eu passei tanto tempo (2 anos) com ele. Não era má pessoa, só não combinava. E, bom, eu assisti aquela final com ele e... perder daquele jeito da França também não combinava. Enfim. Estranho.
2002 foi o auge da vida de solteira. Lembro que uns jogos tinham uns horários loucos. Lembro que eu e a Ceci fomos assistir Brasil x Inglaterra numa festa bizarra que virava do dia 12 para o dia 13 de junho. Frio pra cacete, dia dos namorados, e chegando lá só tinha mulher. A gente bebeu algumas mas não aguentou ficar até 3 e meia quando começava o jogo. Ela me deixou em casa e eu e a minha mãe assistimos sozinhas do sofá da sala – meu pai e meu irmão não gostam o suficiente de futebol para acordar de madrugada pra isso, mas nós duas gostamos. Eu tava quase dormindo e não acreditei quando a bola do Ronaldinho Gaúcho, que parecia um cruzamento errado, entrou. Fiquei olhando pra minha mãe e perguntando: “entrou mesmo?”. E lembrei que a Copa foi o descanso dela nessa época: minha avó, mãe dela, tava bem doente. Faleceu menos de uma mês depois dessa noite: em 11 de julho de 2002.
Ah, mas essa merece 2 parágrafos. Eu e Ceci fomos parar numa balada na final. A idéia era começar a festejar no dia anterior (notem, o jogo só começava às 8h30 da manhã!). Chegamos tipo, à 1h00, bebemos, farreamos e a Ceci perdeu a comanda do bar. Bom, quando é assim os caras querem te cobrar uma multa de 200 ou 300 contos, mas Ceci já tinha carteirinha da OAB nessa época e quebrou o pau com um gerente enquanto eu, largada em alguma mesa, lutava contra o sono e a ressaca. Fomos pra casa dela e eu, de novo largada no sofá, mal vibrei o Penta porque, oi, minha cabeça doía depois de tanta cachaça (crianças, não tentem isso em casa). Nesse dia combinamos, eu e Ceci, que em 2006 estaríamos na Alemanha.
Bem, nós não fomos. Em 2006 eu tava na França (mas marido, que eu ainda não conhecia, estava na Alemanha!). E toda uma experiência. Porque os franceses só se ligaram no que estava acontecendo depois de bater a Espanha. Mas eu andava com a comunidade brasileira. E íamos assistir aos jogos no Stade de Charléty (achei o nome, Amanda!), num telão instalado pela prefeitura. Mas teve o desastre, né? De virar freguesa da França na França. No dia do jogo, um sábado, eu saí orgulhosa de verde a amarelo segura de que, no dia seguinte, ia abafar passeando na Champs Elysées assim. Almocei com a Lu, minha amigona que morava na maison Provence de France na Cité Universtaire, e passamos o dia ouvindo provocações. Cheguei a mostrar o dedo médio pra um moleque no metrô (é, eu já tinha 26 e o moleque não passava de 15, mas e daí?). Enfim, assistimos o jogo num bar brasileiro em République (pra quem nunca foi a Paris, isso não é uma localização precisa, porque não sei agora, mas na época o que mais tinha era brasileiro em République – o badalado Favela Chic fica por lá). E perdemos. Na volta, algum babaca jogou xixi numa amiga que estava com a camiseta do Brasil (oi? você achava que essa falta de civilidade não acontecia por lá?). Mas, enfim. Eles perderam na final. Nos pênaltis. E eu ria com satisfação ao ver o Zidane sendo expulso – vingança é um prato que se come frio e eu não sou feita só de sentimentos nobres. Hehe.
Mas aí, 2010. 30 anos. Julho completo 2 anos no mesmo emprego, e “nunca antes na história desse país” isso aconteceu. Aluguel de apartamento no meu nome. E um marido! Tá bem legal, porque ele é louco por futebol, e a gente é parceiro até pra colar figurinha no álbum. E engraçado pensar que essa pessoa que hoje é tão importante pra mim não fazia parte da minha vida 4 anos atrás. E se você me contasse que: “ó, você vai conhecer um moço assim e assim, e menos de 1 ano e meio depois de vê-lo pela primeira vez vocês já vão estar montando casa”, eu ia achar graça. Mas a vida nos traz surpresas boas às vezes, né? ;)
A próxima Copa é no Brasil e o casal aqui decidiu que vai a estádios (assim no plural), nem que tenha que rifar as duas mães, a minha e a dele (ok, é mentira, só quem ofereceu a mãe pra rifa fui eu – hoho!). Não somos pessoas sérias: a gente mora de aluguel, mas se tiver que gastar até o último trocado pra ver um jogo da Copa no estádio, assim o faremos, porque, oi, outra Copa no Brasil não virá tão cedo. Por motivos óbvios (fraldas custam muito caro) combinamos que filhos só depois de 2014. Talvez a gente encomende algum logo depois da final. Pra comemorar. \o/
quinta-feira, 10 de junho de 2010
Sex and the City
Então, eu não vi o segundo filme e acho que não vou ver. Não no cinema, pelo menos. A não ser que alguma amiga sugira um programinha luluzinha em que a sessão de cinema esteja inclusa- e daí eu vou pela companhia. E nada contra. Mas só não consigo ser entusiasta. Eu tenho amigas superhiperultramegamaxi fãs, que têm todas as temporadas, conhecem episódios de cor, etc, etc. E eu mal sei das histórias, porque só assisti reprises – só fui ter TV a cabo em casa há 3 anos, e a série já tinha acabado.
Mas eu respeito. Muito. Porque se eu tenho uma certa gastura com o consumismo e os deslumbres por grifes – ok, eu tenho mais pares de sapato do que eu precisaria, mas não sou deslumbrada com isso – a gente tem que reconhecer que em termos de comportamento a série foi revolucionária. Uma coisa que sempre me chamou a atenção foi falarem abertamente de mulheres se masturbando. E é impressionante como ninguém falava. Aliás, quase ninguém fala ainda. Nem entre amigas. Recentemente, uma amiga se queixava do quanto era chato estar sem companhia masculina e eu falei que tem horas que a gente se cansa de se satisfazer só com os dedos. Visivelmente constrangida, ela disse que “não gostava disso”. Olha só, da minha geração, fala sobre homens numa boa, mas prazer solitário “não gosta”. E eu acho bizarro mesmo. Consegue imaginar um cara falando pro outro: “ô, nem gosto de punheta?”. Pois é.
Mas as moças lá gostam. E eu lembro da faxineira que a Miranda arranjou que trocou o vibrador dela por uma imagem religiosa. E penso que nunca antes de SATC a gente veria algo assim. E penso na Samantha e toda a sua voracidade, como ela destrói todas as previsões machistas de que a mulher “rodada” tá “condenada” (todas as aspas do mundo, né?) a ficar sozinha. Por ela termina a série ao lado de um homem gato, apaixonado e companheiro, disposto a ficar ao lado dela no momento mais difícil de sua vida, não importa com quantos homens ela tenha transado antes. Lembro da Charlotte que nunca tinha pegado um espelhinho pra olhar sua própria vagina e penso em quantas Charlottes encontramos por aí... Daí meu respeito, porque olha, não deveria ter nada de chocante nada disso, mas todo mundo fazia de conta que a nossa sexualidade só existia orbitando um homem, e para o prazer dele. Então, na ficção assim cotidiana, as mulheres nunca foram tão autônomas.
Daí lembro de ter visto em algum site feminista uma crítica ao primeiro filme. Mas o que eu mais gostei foi justamente o que muita gente achou machista pra caramba. Tipo, a Miranda é a minha personagem favorita. E, desculpe quem não viu o filme, lá ela tá há muitos meses sem transar com o marido. E daí ele a trai e eles se separam. E contando parece mesmo que o lance é que a gente tem obrigação de transar e tal. Mas eu não entendi assim. Porque sexo é carinho em muitos contextos, e a gente vê que não era sexo que Miranda recusava a Steve – era intimidade. E que ele sofre muito por isso. E ele conta a ela que a traiu arrasado, destruído. Não há um pingo de intenção de humilhá-la no ato dele, ele é quem se sente humilhado de ter que esmolar carinho fora da relação. E, por ser feminista, eu deveria acreditar que mulheres não tem reponsabilidade nenhuma pela felicidade dos seus parceiros só pra fazer oposição a quando se acreditava que tudo estava nas nossas mãos? Não, né? Então, bobona que sou, chorei horrores. Pra mim, o filme marcou por essa história: a tentativa de reconstruir uma relação abalada, de fazer o amor valer mais do que a mágoa. E a trilha desta trama é “How can you mend a broken heart”, só pra eu chorar mais ainda. E eu tava no comecinho do namoro com o marido, mas já fiquei pensando o quanto o perdão é matéria-prima essencial dos relacionamentos, especialmente aqueles que se pretendem longos.
Ok, a Carrie, o Big e tal. Isso dá preguiça mesmo. Aliás, desculpaê quem é fã, mas eu acho a Carrie uma chata, sempre achei. Mas quem disse que são os protagonistas que sempre contam as melhores histórias?
Mas eu respeito. Muito. Porque se eu tenho uma certa gastura com o consumismo e os deslumbres por grifes – ok, eu tenho mais pares de sapato do que eu precisaria, mas não sou deslumbrada com isso – a gente tem que reconhecer que em termos de comportamento a série foi revolucionária. Uma coisa que sempre me chamou a atenção foi falarem abertamente de mulheres se masturbando. E é impressionante como ninguém falava. Aliás, quase ninguém fala ainda. Nem entre amigas. Recentemente, uma amiga se queixava do quanto era chato estar sem companhia masculina e eu falei que tem horas que a gente se cansa de se satisfazer só com os dedos. Visivelmente constrangida, ela disse que “não gostava disso”. Olha só, da minha geração, fala sobre homens numa boa, mas prazer solitário “não gosta”. E eu acho bizarro mesmo. Consegue imaginar um cara falando pro outro: “ô, nem gosto de punheta?”. Pois é.
Mas as moças lá gostam. E eu lembro da faxineira que a Miranda arranjou que trocou o vibrador dela por uma imagem religiosa. E penso que nunca antes de SATC a gente veria algo assim. E penso na Samantha e toda a sua voracidade, como ela destrói todas as previsões machistas de que a mulher “rodada” tá “condenada” (todas as aspas do mundo, né?) a ficar sozinha. Por ela termina a série ao lado de um homem gato, apaixonado e companheiro, disposto a ficar ao lado dela no momento mais difícil de sua vida, não importa com quantos homens ela tenha transado antes. Lembro da Charlotte que nunca tinha pegado um espelhinho pra olhar sua própria vagina e penso em quantas Charlottes encontramos por aí... Daí meu respeito, porque olha, não deveria ter nada de chocante nada disso, mas todo mundo fazia de conta que a nossa sexualidade só existia orbitando um homem, e para o prazer dele. Então, na ficção assim cotidiana, as mulheres nunca foram tão autônomas.
Daí lembro de ter visto em algum site feminista uma crítica ao primeiro filme. Mas o que eu mais gostei foi justamente o que muita gente achou machista pra caramba. Tipo, a Miranda é a minha personagem favorita. E, desculpe quem não viu o filme, lá ela tá há muitos meses sem transar com o marido. E daí ele a trai e eles se separam. E contando parece mesmo que o lance é que a gente tem obrigação de transar e tal. Mas eu não entendi assim. Porque sexo é carinho em muitos contextos, e a gente vê que não era sexo que Miranda recusava a Steve – era intimidade. E que ele sofre muito por isso. E ele conta a ela que a traiu arrasado, destruído. Não há um pingo de intenção de humilhá-la no ato dele, ele é quem se sente humilhado de ter que esmolar carinho fora da relação. E, por ser feminista, eu deveria acreditar que mulheres não tem reponsabilidade nenhuma pela felicidade dos seus parceiros só pra fazer oposição a quando se acreditava que tudo estava nas nossas mãos? Não, né? Então, bobona que sou, chorei horrores. Pra mim, o filme marcou por essa história: a tentativa de reconstruir uma relação abalada, de fazer o amor valer mais do que a mágoa. E a trilha desta trama é “How can you mend a broken heart”, só pra eu chorar mais ainda. E eu tava no comecinho do namoro com o marido, mas já fiquei pensando o quanto o perdão é matéria-prima essencial dos relacionamentos, especialmente aqueles que se pretendem longos.
Ok, a Carrie, o Big e tal. Isso dá preguiça mesmo. Aliás, desculpaê quem é fã, mas eu acho a Carrie uma chata, sempre achei. Mas quem disse que são os protagonistas que sempre contam as melhores histórias?
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