Olha só, eu sou cliente do mesmo banco há mais de 10 anos. Antes dessa conta, tive uma em outro banco, que me tratou mal e cobrava taxas absurdas. Cancelei. Mas vivemos no mundo maravilhoso do capitalismo e suas fusões e aquisições, e o meu antigo banco comprou o meu atual banco.
Meu atual banco nunca me enviou cartões não solicitados. Lógico, envia aquelas cartinhas oferecendo crédito a juros módicos, me tratando pelo primeiro nome, na maior intimidade, pra tentar me ludibriar e me fazer crer que sou trouxa por não aceitar dinheiro fácil: "Iara, tem 25 mil reais esperando por você!". Aham. Só que cartinha assim a gente nem precisa abrir, né? Pode xingar os caras por aumentar o lixo do planeta, mas fazer o quê?
Hoje cheguei em casa e tinha uma correspondência pra mim do banco (assinada pelo atual e pelo ex que agora é futuro - acompanhou?), sem cara de propaganda, com a senha do "meu" cartão Mastercard. Estranhei e comparei com o Mastercard que eu já tenho - da conta com o marido. Números diferentes. Os infelizes me mandando cartão novo!
Lembrei que recebi uma ligação há uns 10 dias oferecendo um Mastercard. Expliquei que eu tenho um Visa pra conta pessoal e um Master pra conjunta, fora o Amex que fizeram pra mim na única vez que eu viajei a trabalho (e agora você vai achar que eu sou rica, mas eu tenho mais cartão que dinheiro, acredite), e não estou interessada, de maneira nenhuma, em ter outros, obrigada. Mas a correspondência com a senha diz que eu devo recebê-lo em 7 dias.
Daí que eu liguei querendo cancelar. Dificuldade imensa até atender uma pessoa. Cinco minutos tentando decifrar qual dos números me levaria a uma atendente, não a uma gravação. E quando eu consegui fui informada de que eu não posso cancelar o cartão neste momento. Tenho que esperá-lo chegar. Eu não pedi a porra do cartão e tenho que perder tempo e gastar telefone cancelando, senão pago uma tarifa cara por ele. Sim, o Procon proibiu essa palhaçada. Mas cadê que os caras respeitam!
Vou ligar na sexta pra minha gerente quebrando tudo. Se vou.
Ok. Voltamos em instantes com nossa programação normal
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quarta-feira, 2 de junho de 2010
segunda-feira, 31 de maio de 2010
Ando devagar porque já tive pressa - ou quem entende a Mafalda?
O stress crônico parece estar sendo controlado, finalmente.
Hoje fui à academia, depois de duas semanas sem dar as caras. Nada contra exercícios, mas eu decidi que não preciso de mais pressão do que a que o mundo já exerce naturalmente sobre mim, obrigada. Então, quando não quiser, não vou. Simples assim.
O dia foi corrido e cheio de trabalho. Mas ainda assim saí de lá inteira - e no horário.
Durante o dia pensei na sopa que eu tinha plajeado fazer, nos legumes que comprei no mercado, no frango que eu tirei do congelador. Como que coroando dias mais tranquilos, minha sopa ficou um espatáculo. Na hora em que provei, antes do marido chegar da faculdade, tive certeza de que tinha ficado sensacional - uma das melhores que eu já fiz. Sabe quando você se alimenta exatamente com a única coisa que você quer naquele momento? Quando nada mais faria sentido? Pois então. Há uns 10 dias que a minha ansiedade tem me feito atacar o pote de nutella sem compaixão todas as noites. Hoje não vai ser assim, porque a minha sopinha já liberou serotonina o suficiente. Comfort food mesmo.
Sou fã da Mafalda , mas nunca pude entender sua resistência obstinada a sopas. A mãe dela devia cozinhar mal. Só isso explica.
Hoje fui à academia, depois de duas semanas sem dar as caras. Nada contra exercícios, mas eu decidi que não preciso de mais pressão do que a que o mundo já exerce naturalmente sobre mim, obrigada. Então, quando não quiser, não vou. Simples assim.
O dia foi corrido e cheio de trabalho. Mas ainda assim saí de lá inteira - e no horário.
Durante o dia pensei na sopa que eu tinha plajeado fazer, nos legumes que comprei no mercado, no frango que eu tirei do congelador. Como que coroando dias mais tranquilos, minha sopa ficou um espatáculo. Na hora em que provei, antes do marido chegar da faculdade, tive certeza de que tinha ficado sensacional - uma das melhores que eu já fiz. Sabe quando você se alimenta exatamente com a única coisa que você quer naquele momento? Quando nada mais faria sentido? Pois então. Há uns 10 dias que a minha ansiedade tem me feito atacar o pote de nutella sem compaixão todas as noites. Hoje não vai ser assim, porque a minha sopinha já liberou serotonina o suficiente. Comfort food mesmo.
Sou fã da Mafalda , mas nunca pude entender sua resistência obstinada a sopas. A mãe dela devia cozinhar mal. Só isso explica.
terça-feira, 25 de maio de 2010
Várias coisas
Meu irmão teve alta hoje, portanto antes do que os médicos tinham previsto anteriormente. \o/ Agradeço mais uma vez a quem se manifestou carinhosamente aqui torcendo por ele. Valeu mesmo.
Uma grande amiga minha se casou no sábado. Daí eu passei a semana envolta em emoções tão opostas que eu tô exausta. Algumas reflexões sobre saúde pública, sobre casamento, idéias pra post. A semana tendo e amadurecendo idéias. Várias coisas mais interessantes que meus devaneios sobre minha vida. Mas quem disse que, nesse momento, depois deste rali emocional, eu sou fisicamente capaz?
Preciso de férias tipo, pra ontem. Tenho 10 dias pra tirar em julho. 7 semanas até lá. Ao contrário do ano passado, em que achei que a sanidade mental não duraria até as férias (eu emendei quase um ano no emprego anterior com o atual, tava há quase 2 anos sem férias), esse ano eu temo pelo físico mesmo. Eu tô podre.
Um caso irônico pra encerrar: eu costumo carregar meu bilhete único quando ainda tenho um pouco de crédito (tão ligadas como funciona o transporte público em São Paulo, né? Você coloca créditos num bilhete magnético e, quando passa a catraca, eles vão sendo descontados). Pelas minhas contas, tava na hora. Saquei R$100,00 pra carregar pro mês. E só depois de sacar tive a brilhante idéia de verificar o saldo da minha conta. Depois de sacar 100, fiquei com 60 negativos. Na hora de carregar, descobri que ainda tinha 16 no cartão, que não é muito, mas era o suficiente pra me locomover até sexta, quando cai o salário. Pensei, ok, meu banco é o tal dos “10 dias sem juros”. Vai rolar só uma cacaquinha de IOF, mas beleza. Nem preciso de dinheiro até sexta-feira mesmo. Daí lembrei que quinta tenho uma consulta médica no meio da manhã. E como eu tô enroladíssima no trabalho, a idéia é voltar de táxi. E o táxi não aceita bilhete único, né? E eu me sinto uma trouxa com 116 reais no cartão e devendo pro banco. E às vezes eu acho que meu mau humor não vai passar nunca...
Uma grande amiga minha se casou no sábado. Daí eu passei a semana envolta em emoções tão opostas que eu tô exausta. Algumas reflexões sobre saúde pública, sobre casamento, idéias pra post. A semana tendo e amadurecendo idéias. Várias coisas mais interessantes que meus devaneios sobre minha vida. Mas quem disse que, nesse momento, depois deste rali emocional, eu sou fisicamente capaz?
Preciso de férias tipo, pra ontem. Tenho 10 dias pra tirar em julho. 7 semanas até lá. Ao contrário do ano passado, em que achei que a sanidade mental não duraria até as férias (eu emendei quase um ano no emprego anterior com o atual, tava há quase 2 anos sem férias), esse ano eu temo pelo físico mesmo. Eu tô podre.
Um caso irônico pra encerrar: eu costumo carregar meu bilhete único quando ainda tenho um pouco de crédito (tão ligadas como funciona o transporte público em São Paulo, né? Você coloca créditos num bilhete magnético e, quando passa a catraca, eles vão sendo descontados). Pelas minhas contas, tava na hora. Saquei R$100,00 pra carregar pro mês. E só depois de sacar tive a brilhante idéia de verificar o saldo da minha conta. Depois de sacar 100, fiquei com 60 negativos. Na hora de carregar, descobri que ainda tinha 16 no cartão, que não é muito, mas era o suficiente pra me locomover até sexta, quando cai o salário. Pensei, ok, meu banco é o tal dos “10 dias sem juros”. Vai rolar só uma cacaquinha de IOF, mas beleza. Nem preciso de dinheiro até sexta-feira mesmo. Daí lembrei que quinta tenho uma consulta médica no meio da manhã. E como eu tô enroladíssima no trabalho, a idéia é voltar de táxi. E o táxi não aceita bilhete único, né? E eu me sinto uma trouxa com 116 reais no cartão e devendo pro banco. E às vezes eu acho que meu mau humor não vai passar nunca...
domingo, 9 de maio de 2010
Sem querer ser piegas... mas talvez sendo
Daí que marido vai ganhar mais um sobrinho ou sobrinha (e eu também por tabela). E rola aquela pergunta de quando daremos nossa contribuição para aumentar a família, ao que respondemos que, por enquanto, não daremos, sorry.
Antes de conhecer meu moço, eu não pensava em ser mãe. Hoje esse não é um assunto decidido, mas posso dizer que boas possibilidades de acontecer no futuro, embora não me pareça essencial para justificar minha passagem pela terra.
Acho que minha relutância vem – além, claro, do feminismo que me faz acreditar que maternidade é escolha e não destino inevitável - da minha relação com minha mãe, nem sempre fácil. Reconheço nela uma generosidade do tamanho do mundo. Porque eu não sou o que ela sonhou pra mim. Minha mãe veio de uma família pobre, sem instrução e muito machista. Para nossa sorte, encontrou meu pai. Ela tinha parado de estudar quando era novinha, porque sua saúde não dava conta de trabalhar de dia e estudar a noite. Quando se casou com meu pai e foi demitida de seu emprego como operária, ele a incentivou a continuar seus estudos. Minha mãe só não fez faculdade porque não se animou: apoio do meu pai nunca faltou. E eu presenciei na infância e na adolescência uma disputa ferrenha entre as idéias arejadas do meu pai e o machismo da minha avó materna, que vivia conosco. Ele achava que minha mãe deveria estudar, ela achava que isso poderia atrapalhar o “andamento da casa”; ele insistiu pra que minha mãe dirigisse, ela tinha tremenda dificuldade em confiar na minha mãe ao volante; ele sempre se ocupou de tarefas domésticas, ela achava que minha mãe deveria se envergonhar por permitir que o marido lavasse um prato; ele só achava que estava sendo um cara razoável, minha avó achava que ele era um semi-deus por ser “bom” com a filha dela. Minha avó já faleceu e eu não quero jogar na conta dela o machismo, de jeito nenhum. Ela também foi educada assim.
Mas meu pai é diferente e os tempos são outros. E pra minha mãe era muito difícil perceber que meu pai não me reprimiria, como normalmente se espera dos pais. Apesar de ter sido adolescente nos anos 70, minha mãe não viveu a revolução sexual. Isso era coisa de moças de classe média e nível universitário. Moças pobres e vindas “da roça” tinham que se casar virgens. Assim foi com a minha ela. E assim ela esperava que tivesse sido comigo, apesar de saber que o mundo tinha mudado muito e minhas perspectivas eram outras. Eu soube por uma tia que minha mãe chorou quando se deu conta de que eu não era virgem mais. Não fui eu que contei, não presenciei a cena, mas conhecendo minha mãe, faz sentido.
Pra resumir, ela teve que aceitar tudo. Que eu não me casaria virgem, que eu não me casaria na igreja, que eu não ficaria em casa até me casar e pior: que eu sequer estaria muito interessada em casamento. Que tinha vontade de ir viver fora do país (e fui!). Que quando eu dizia que ia dormir na casa de uma amiga, talvez eu estivesse passando a noite com um cara que não era importante a ponto de ser apresentado (ela nunca foi boba, sabia bem quando eu estava mentindo). Ela sofreu muito. Sofreu muitíssimo. E eu não alivei nada pra ela me sentindo culpada. Nunca me culpei por ser livre. E ela aprendeu a aceitar.
Ela sofre até hoje. Eu não sou casada, né? Sou de fato, mas não de direito. Daí, quando eu juntei os trapos, ela dizia pras pessoas, principalmente a família machista que “a Iara está casada”. Tipo, repetia, como um mantra. Cada vez que ia lá, contava: "fulano perguntou e eu disse que você está casada". Pra dizer que eu não estava “morando com o namorado”. Nem “amigada”, nem “amaziada”. Eu sou é casada, só não tenho papel. E pra ela é importante. E não me cobra nada, aceitou meu marido, acredito que também muito diferente do genro com o qual sonhava, com um amor imenso. Ele me ama e me faz feliz, pra ela é o suficiente.
Enfim. Eu sei que não é de graça pra ela. Por mais que se diga que “filho a gente tem é pro mundo”, não deve ser nada fácil ver aquele ser nascido de você se tornar alguém muito diferente dos seus sonhos. Amar assim tão desprendidamente, sem fazer cobranças, sem chantagens emocionais, sem reclamar que eu vou mais a casa da sogra do que a dela. Ela transborda generosidade aceitando que eu escolhi meu caminho e continua me amando e repetindo que sente um enorme orgulho de mim. E eu só quero ser mãe se me sentir capaz disso.
Antes de conhecer meu moço, eu não pensava em ser mãe. Hoje esse não é um assunto decidido, mas posso dizer que boas possibilidades de acontecer no futuro, embora não me pareça essencial para justificar minha passagem pela terra.
Acho que minha relutância vem – além, claro, do feminismo que me faz acreditar que maternidade é escolha e não destino inevitável - da minha relação com minha mãe, nem sempre fácil. Reconheço nela uma generosidade do tamanho do mundo. Porque eu não sou o que ela sonhou pra mim. Minha mãe veio de uma família pobre, sem instrução e muito machista. Para nossa sorte, encontrou meu pai. Ela tinha parado de estudar quando era novinha, porque sua saúde não dava conta de trabalhar de dia e estudar a noite. Quando se casou com meu pai e foi demitida de seu emprego como operária, ele a incentivou a continuar seus estudos. Minha mãe só não fez faculdade porque não se animou: apoio do meu pai nunca faltou. E eu presenciei na infância e na adolescência uma disputa ferrenha entre as idéias arejadas do meu pai e o machismo da minha avó materna, que vivia conosco. Ele achava que minha mãe deveria estudar, ela achava que isso poderia atrapalhar o “andamento da casa”; ele insistiu pra que minha mãe dirigisse, ela tinha tremenda dificuldade em confiar na minha mãe ao volante; ele sempre se ocupou de tarefas domésticas, ela achava que minha mãe deveria se envergonhar por permitir que o marido lavasse um prato; ele só achava que estava sendo um cara razoável, minha avó achava que ele era um semi-deus por ser “bom” com a filha dela. Minha avó já faleceu e eu não quero jogar na conta dela o machismo, de jeito nenhum. Ela também foi educada assim.
Mas meu pai é diferente e os tempos são outros. E pra minha mãe era muito difícil perceber que meu pai não me reprimiria, como normalmente se espera dos pais. Apesar de ter sido adolescente nos anos 70, minha mãe não viveu a revolução sexual. Isso era coisa de moças de classe média e nível universitário. Moças pobres e vindas “da roça” tinham que se casar virgens. Assim foi com a minha ela. E assim ela esperava que tivesse sido comigo, apesar de saber que o mundo tinha mudado muito e minhas perspectivas eram outras. Eu soube por uma tia que minha mãe chorou quando se deu conta de que eu não era virgem mais. Não fui eu que contei, não presenciei a cena, mas conhecendo minha mãe, faz sentido.
Pra resumir, ela teve que aceitar tudo. Que eu não me casaria virgem, que eu não me casaria na igreja, que eu não ficaria em casa até me casar e pior: que eu sequer estaria muito interessada em casamento. Que tinha vontade de ir viver fora do país (e fui!). Que quando eu dizia que ia dormir na casa de uma amiga, talvez eu estivesse passando a noite com um cara que não era importante a ponto de ser apresentado (ela nunca foi boba, sabia bem quando eu estava mentindo). Ela sofreu muito. Sofreu muitíssimo. E eu não alivei nada pra ela me sentindo culpada. Nunca me culpei por ser livre. E ela aprendeu a aceitar.
Ela sofre até hoje. Eu não sou casada, né? Sou de fato, mas não de direito. Daí, quando eu juntei os trapos, ela dizia pras pessoas, principalmente a família machista que “a Iara está casada”. Tipo, repetia, como um mantra. Cada vez que ia lá, contava: "fulano perguntou e eu disse que você está casada". Pra dizer que eu não estava “morando com o namorado”. Nem “amigada”, nem “amaziada”. Eu sou é casada, só não tenho papel. E pra ela é importante. E não me cobra nada, aceitou meu marido, acredito que também muito diferente do genro com o qual sonhava, com um amor imenso. Ele me ama e me faz feliz, pra ela é o suficiente.
Enfim. Eu sei que não é de graça pra ela. Por mais que se diga que “filho a gente tem é pro mundo”, não deve ser nada fácil ver aquele ser nascido de você se tornar alguém muito diferente dos seus sonhos. Amar assim tão desprendidamente, sem fazer cobranças, sem chantagens emocionais, sem reclamar que eu vou mais a casa da sogra do que a dela. Ela transborda generosidade aceitando que eu escolhi meu caminho e continua me amando e repetindo que sente um enorme orgulho de mim. E eu só quero ser mãe se me sentir capaz disso.
quinta-feira, 6 de maio de 2010
Várias coisas sobre gênero – ou pensamentos muitos e confusos
Às vezes eu fico pensando se vale a pena fazer um post meio maluco só com associações que passam pela minha cabeça, sem trazer nada novo, não colocar nenhum questão nova, nem chegar a uma conclusão, só com referências externas e links, meio colagem mesmo. Mas, enfim, os macaquinhos tão aqui sapateando, né?
Tô pensando no livro da Beatriz Preciado, que eu ganhei e não li ainda, e na Judith Butler, que eu também não li, e a maneira como (sei de ouvir falar e ler outras coisas por aí), problematizam gênero. E, puxa, muito legal. E um nó. Eu gosto bastante. Porque se você me encontrar na rua vai ter certeza que, por mais que conteste muita coisa, por mais que não corresponda a todos os modelos de vaidade e feminilidade postos, eu sou uma mulher. Mas lembro de já ter sofrido muito por não me encaixar. Nada a ver com transexualidade, nem com homossexualismo sequer. O problema é o modelo cor-de-rosa-Barbie. A passividade. Enfim, muitas coisas. Mas pegava muito no visual mesmo. A coisa da delicadeza, porque eu não sou delicada pra nada nessa vida. Sou carinhosa e tal, mas não delicada. E é por isso que eu pirei lá na Espanha. Lógico que o Almodóvar já tinha me dado uma pista. Mas a coisa foi mais prosaica até: quando eu vi nas lojas as roupas de Flamenco para a “feria” de Málaga. Aqueles babados, aqueles brincos enormes, aquelas cores fortes. É isso, eu sou over. Eu sou pombagira. Depois de ler “Bodas de Sangre”, a noiva se justificando, dizendo que o noivo era um riozinho que não dava conta de apagar seu incêndio, eu pensei: é isso! Eu sou essa mulher.
Mas divago (e este post não é mera divagação?). Eu lembrei disso, dessa questão do problema do gênero, de definição, da dificudade, por algumas razões.
Li outro dia isso. A pessoa que conseguiu um documento escrito “sexo indefinido”. Péssimo estar na página de bizarrices do Globo porque o assunto é muito interessante. Mas me chamou a atenção esse lance de que não era possível determinar características físicas, psicológicas ou comportamentais de um dos gêneros. Físicas, ok. Mas fico pensando em como determinar caraterísticas “psicológicas ou comportamentais” de um gênero. Dá pra fazer isso sem usar lugares comuns? Quer dizer, eu aceito quando minha amiga psicóloga me diz que “não é porque algo é socialmente construído que é necessariamente ruim”. E imagino que é um conjunto de fatores que deveria determinar essa performance de gênero, mas não tiverema sucesso aí. Enfim, curioso, né?
Outra coisa: o post da Lu que fala do Irã. Quer dizer, transexual, pode. Homossexual, não. Porque tem que definir, ficar dentro do limite. Extremamente violento, claro, e me faz lembrar do argumento mais frequente entre religiosos, mesmo os locais, quando condenam o homossualismo: Deus criou o homem e a mulher, um para o outro. Sistema binário mesmo, nenhum questionamento possível.
Por fim (como se houvesse um fim), a matéria da Piuaí sobre o médico especialista em cirurgias de mudanças de sexo. Recomendo a leitura da matéria inteira. Como a coisa é complexa. Em algum momento, a especialista em direito civil consultada fala de como os transexuais são conservadores. Quer querem corresponder a um modelo de mulher bem tradicional. Mas é o ponto de vista dela, porque aparece lá os casos de homens que queriam ser mulheres lésbicas. Quer dizer, se relacionar-se sexualmente com uma mulher e ter um pênis fosse o suficiente para definir um homem, usando um ponto de vista conservador, essas pessoas não teriam conflitos.
Por fim, o que define o que é mulher, né? Se você responder que é a vagina, vai desconsiderar os transexuais, e o Buck Angel vai rir na sua cara. Se você considerar que é um conjunto de comportamentos tais e tais, pode soar bem sexista. Mas lembro de ler num blog uma vez que se a única coisa que nós, mulheres, tivermos em comum for a opressão, pára o mundo que eu quero descer. Acho que a coisa é fascinante porque é muito mais complexa do que parece. E o médico diz lá na reportagem que só dá pra dizer quem tem falo e quem não tem, mas eu não aceito ser definida por uma ausência – a que não tem falo. Só posso concordar com a Judith Butler quando diz que gênero é performance. A gente deveria poder ser o que é sem que isso implicasse em determinismo e discriminação.
Tô pensando no livro da Beatriz Preciado, que eu ganhei e não li ainda, e na Judith Butler, que eu também não li, e a maneira como (sei de ouvir falar e ler outras coisas por aí), problematizam gênero. E, puxa, muito legal. E um nó. Eu gosto bastante. Porque se você me encontrar na rua vai ter certeza que, por mais que conteste muita coisa, por mais que não corresponda a todos os modelos de vaidade e feminilidade postos, eu sou uma mulher. Mas lembro de já ter sofrido muito por não me encaixar. Nada a ver com transexualidade, nem com homossexualismo sequer. O problema é o modelo cor-de-rosa-Barbie. A passividade. Enfim, muitas coisas. Mas pegava muito no visual mesmo. A coisa da delicadeza, porque eu não sou delicada pra nada nessa vida. Sou carinhosa e tal, mas não delicada. E é por isso que eu pirei lá na Espanha. Lógico que o Almodóvar já tinha me dado uma pista. Mas a coisa foi mais prosaica até: quando eu vi nas lojas as roupas de Flamenco para a “feria” de Málaga. Aqueles babados, aqueles brincos enormes, aquelas cores fortes. É isso, eu sou over. Eu sou pombagira. Depois de ler “Bodas de Sangre”, a noiva se justificando, dizendo que o noivo era um riozinho que não dava conta de apagar seu incêndio, eu pensei: é isso! Eu sou essa mulher.
Mas divago (e este post não é mera divagação?). Eu lembrei disso, dessa questão do problema do gênero, de definição, da dificudade, por algumas razões.
Li outro dia isso. A pessoa que conseguiu um documento escrito “sexo indefinido”. Péssimo estar na página de bizarrices do Globo porque o assunto é muito interessante. Mas me chamou a atenção esse lance de que não era possível determinar características físicas, psicológicas ou comportamentais de um dos gêneros. Físicas, ok. Mas fico pensando em como determinar caraterísticas “psicológicas ou comportamentais” de um gênero. Dá pra fazer isso sem usar lugares comuns? Quer dizer, eu aceito quando minha amiga psicóloga me diz que “não é porque algo é socialmente construído que é necessariamente ruim”. E imagino que é um conjunto de fatores que deveria determinar essa performance de gênero, mas não tiverema sucesso aí. Enfim, curioso, né?
Outra coisa: o post da Lu que fala do Irã. Quer dizer, transexual, pode. Homossexual, não. Porque tem que definir, ficar dentro do limite. Extremamente violento, claro, e me faz lembrar do argumento mais frequente entre religiosos, mesmo os locais, quando condenam o homossualismo: Deus criou o homem e a mulher, um para o outro. Sistema binário mesmo, nenhum questionamento possível.
Por fim (como se houvesse um fim), a matéria da Piuaí sobre o médico especialista em cirurgias de mudanças de sexo. Recomendo a leitura da matéria inteira. Como a coisa é complexa. Em algum momento, a especialista em direito civil consultada fala de como os transexuais são conservadores. Quer querem corresponder a um modelo de mulher bem tradicional. Mas é o ponto de vista dela, porque aparece lá os casos de homens que queriam ser mulheres lésbicas. Quer dizer, se relacionar-se sexualmente com uma mulher e ter um pênis fosse o suficiente para definir um homem, usando um ponto de vista conservador, essas pessoas não teriam conflitos.
Por fim, o que define o que é mulher, né? Se você responder que é a vagina, vai desconsiderar os transexuais, e o Buck Angel vai rir na sua cara. Se você considerar que é um conjunto de comportamentos tais e tais, pode soar bem sexista. Mas lembro de ler num blog uma vez que se a única coisa que nós, mulheres, tivermos em comum for a opressão, pára o mundo que eu quero descer. Acho que a coisa é fascinante porque é muito mais complexa do que parece. E o médico diz lá na reportagem que só dá pra dizer quem tem falo e quem não tem, mas eu não aceito ser definida por uma ausência – a que não tem falo. Só posso concordar com a Judith Butler quando diz que gênero é performance. A gente deveria poder ser o que é sem que isso implicasse em determinismo e discriminação.
sexta-feira, 23 de abril de 2010
Nota breve sobre o racismo
A notícia é velha, mas como fala de futebol e o jogo de volta foi na quarta-feira, eu fiquei matutando. Porque na semana passada, no jogo Palmeiras e Atlética Paranaense, um jogador atleticano deu uma cabeçada num palmeirense, os dois se enfezaram, e o último cuspiu no primeiro e o chamou de “macaco”. Findo o jogo, o ofendido foi prestar queixa na delegacia e abriu-se um processo por injúria de teor racista, que é diferente de racismo. Racismo é exercer seu poder pra excluir o outro diretamente (numa entrevista de emprego ou num elevador, por exemplo), diferente deste caso, em que houve ofensa verbal.
Uma vez eu li, no contexto da discussão sobre a legitimidade das cotas, algo bem interessante. Que essa historinha de que “não dá pra saber quem é negro no Brasil” é uma tremenda balela. É só o cara bater no seu carro. Aí você vai lá e chama de “criolo filho da puta”. E eu achei a definição muito precisa e ilustra bem este caso do jogo. O cara não deveria ter dado a cabeçada. Mas deu. E qual é a primeira coisa que o agredido lembra? Que o cara é negro. É foda, por que não existe xingamento politicamente correto, né? Mas se eu chamo alguém de “imbecil” ou “desgraçado”, é muito particular. Não tô desqualificando todo seu grupo social por tabela.
Meu caso específico, se alguém me sacanear, não consigo me imaginar sequer pensando “tinha que ser preto, judeu, japa, whatever”. Mas consigo me imaginar chamando de “filho da puta”. E, olha só, não tenho orgulho de assumir isso, porque eu me identifico aqui como feminista. No Fórum Social Mundial de 2005 assisti a um debate com profissionais do sexo que diziam o quanto o estigma do “filho da puta” era ofensivo à categoria. Só faço um aparte pra dizer que acredito que a expressão ficou tão universal que ninguém, quando a usa, deve ter em mente “você é desonrado porque sua mãe tem uma conduta sexual reprovável”, o real significado - o que não tira a legitimidade da queixa das prostituas, claro. Mas quando alguém chama um negro de “macaco”, não dá pra dizer que “abstraiu” o significado. Não acredito de jeito nenhum.
E fiquei pensando que o jogador do Palmeiras (meio que) se desculpou. Eu acho que dá pra gente se desculpar pelo que a gente faz, mas não pelo que a gente pensa. E o cara pensa, nem que seja no fundo do subconsciente, que a cabeçada cretina tem alguma coisa a ver com a cor.
Enfim. Acho triste.
Uma vez eu li, no contexto da discussão sobre a legitimidade das cotas, algo bem interessante. Que essa historinha de que “não dá pra saber quem é negro no Brasil” é uma tremenda balela. É só o cara bater no seu carro. Aí você vai lá e chama de “criolo filho da puta”. E eu achei a definição muito precisa e ilustra bem este caso do jogo. O cara não deveria ter dado a cabeçada. Mas deu. E qual é a primeira coisa que o agredido lembra? Que o cara é negro. É foda, por que não existe xingamento politicamente correto, né? Mas se eu chamo alguém de “imbecil” ou “desgraçado”, é muito particular. Não tô desqualificando todo seu grupo social por tabela.
Meu caso específico, se alguém me sacanear, não consigo me imaginar sequer pensando “tinha que ser preto, judeu, japa, whatever”. Mas consigo me imaginar chamando de “filho da puta”. E, olha só, não tenho orgulho de assumir isso, porque eu me identifico aqui como feminista. No Fórum Social Mundial de 2005 assisti a um debate com profissionais do sexo que diziam o quanto o estigma do “filho da puta” era ofensivo à categoria. Só faço um aparte pra dizer que acredito que a expressão ficou tão universal que ninguém, quando a usa, deve ter em mente “você é desonrado porque sua mãe tem uma conduta sexual reprovável”, o real significado - o que não tira a legitimidade da queixa das prostituas, claro. Mas quando alguém chama um negro de “macaco”, não dá pra dizer que “abstraiu” o significado. Não acredito de jeito nenhum.
E fiquei pensando que o jogador do Palmeiras (meio que) se desculpou. Eu acho que dá pra gente se desculpar pelo que a gente faz, mas não pelo que a gente pensa. E o cara pensa, nem que seja no fundo do subconsciente, que a cabeçada cretina tem alguma coisa a ver com a cor.
Enfim. Acho triste.
quarta-feira, 21 de abril de 2010
Castigo vem a cavalo
Se eu fosse uma pessoa crente, não no sentido evangélico, mas no sentido geral, eu diria que só pode ser castigo. Porque olha só, eu, cansada pra caramba, queria um dia pra descansar. E bom, 21 de abril é feriado, eu ia ter um dia pra descansar e estudar um pouco de qualquer maneira. Mas eu queria um pouco mais. O ideal era ter uma boa desculpa pra trabalhar de casa. No meu trabalho todo mundo usa laptop, temos uma conta com a AT&T para acessar a rede remotamente, então é bem normal trabalhar de casa. Normal pra quase todo mundo, menos pra mim, porque eu sou a assistente-faz-tudo que mexe com papelada, despacha motoboy, recebe relatório de reembolso de despesa da galera, enfim, tenho que estar por lá. Quando eu trabalho de casa normalmente é zica – tipo 31 de dezembro que não teve expediente pra ninguém, mas eu tive que “dar uma olhadinha” no e-mail pra ver se não apareciam pedidos de última hora pra colocar no sistema. Enfim, só-me-fodo.com.
Daí, isso. Eu tava louca pra ter um leve mal-estar que justificasse ficar em casa. Da última vez que isso aconteceu, foi um resfriado bem bobo, e eu só respondi a um ou dois e-mail pra fingir que trabalhava e tudo bem. Só que essa semana eu me estrepei. Comecei a me sentir indisposta no domingo e fiz aquele papel de esposa chata que na casa da sogra fica enchendo o saco do marido clamando “eu quero ir embora!”. Talvez eu já estivesse com febre, sei lá. Segunda eu fui trabalhar bem cansada e fui sentindo a garganta fechando. Comprei umas pastilhinhas porque achei que fosse uma irritação. No final da tarde, comecei a bater os dentes (sério!). Avisei a minha chefe que ia trabalhar de casa na terça, levei o computador e peguei um táxi pra chegar rápido. Chegando, fui verificar a minha temperatura: 38, 5°C. Sabe lá desde que horas. Fui tomar um banho pra ver se baixava. Saindo do banho, 39°C. Tomei o único remédio disponível em casa pra febre. Baixou pra 38°C.
Acordei na terça e liguei o computador. Minha senha não funcionava. Tive que ligar, com voz de pato, para o helpdesk na Finlândia. Tava difícil falar, imagina falar inglês. E bom resolvida a questão, trabalho. Muito trabalho. Tem épocas que eu nem tenho muito o que fazer, mas o VP resolveu me pedir uns relatórios financeiros e eu vinha apanhando desde segunda pra conciliá-los. Pra piorar, os relatórios que eu tirei essa semana não batem com os números que eu extraí no começo do ano para um colega. Não tenho nenhuma explicação, pode ser só cagada minha mesmo, embora eu não entenda como possa ter cagado nisso. E a febre subindo, o ouvido e a garganta doendo até pra engolir saliva, um gosto horroroso no boca. E eu parava de vez em quando pra descansar. Dei uma cochilada de 40 minutos e quando voltei tinham dois e-mails do tal colega na minha caixa: um levantando uma hipótese e outro, meia hora depois, perguntando: “e aí, o que você acha?”. Acho nada, mané. Minha febre subiu pra 39°C e não tem mais remédio em casa.
Por sorte (ou azar) o marido também não estava bem e não foi direto pra faculdade. Avisei que teríamos que ir pro hospital. Chegando lá, bronca: “como assim 39°C de febre e não tomou remédio, quer ter uma convulsão, senhora?!” (digressão: gostava mais quando me chamavam de menina, mas ok). Daí espera, uma bezetacil e outra injeção na veia que nem sei pra que serve. E aquela maravilha, né? Saí de casa super agasalhada, morrendo de frio, numa noite abafada, cheguei empapada de suor, sem febre. Sério mesmo, sem ironia, adoro a medicina moderna. Vocês não?
Nossos planos pra hoje, feitos semanas atrás, eram estudar, descansar e namorar (oi? de vez em quando é bom, né?). Acordei de novo com febre e o marido super indisposto. Depois de tomar novalgina, minha temperatura despencou para 35,8°C. Sério. Não era defeito no termômetro. Agora está em 37,5°C de novo. Resistirá meu pobre cérebro a esterilização via choque térmico? Estudei um pouquinho e descansei um pouco. Ouvido e garganta doem bem menos agora. Namorar? Estou há 2 dias sem beijo na boca. Porque enfrentar trânsito de São Paulo na hora do rush estando resfriado pra levar a esposa no PS é uma coisa. Beijar uma boca com gosto de pus é outra beeem diferente. Perdeu o apetite lendo isso? Imagine eu.
Daí, isso. Eu tava louca pra ter um leve mal-estar que justificasse ficar em casa. Da última vez que isso aconteceu, foi um resfriado bem bobo, e eu só respondi a um ou dois e-mail pra fingir que trabalhava e tudo bem. Só que essa semana eu me estrepei. Comecei a me sentir indisposta no domingo e fiz aquele papel de esposa chata que na casa da sogra fica enchendo o saco do marido clamando “eu quero ir embora!”. Talvez eu já estivesse com febre, sei lá. Segunda eu fui trabalhar bem cansada e fui sentindo a garganta fechando. Comprei umas pastilhinhas porque achei que fosse uma irritação. No final da tarde, comecei a bater os dentes (sério!). Avisei a minha chefe que ia trabalhar de casa na terça, levei o computador e peguei um táxi pra chegar rápido. Chegando, fui verificar a minha temperatura: 38, 5°C. Sabe lá desde que horas. Fui tomar um banho pra ver se baixava. Saindo do banho, 39°C. Tomei o único remédio disponível em casa pra febre. Baixou pra 38°C.
Acordei na terça e liguei o computador. Minha senha não funcionava. Tive que ligar, com voz de pato, para o helpdesk na Finlândia. Tava difícil falar, imagina falar inglês. E bom resolvida a questão, trabalho. Muito trabalho. Tem épocas que eu nem tenho muito o que fazer, mas o VP resolveu me pedir uns relatórios financeiros e eu vinha apanhando desde segunda pra conciliá-los. Pra piorar, os relatórios que eu tirei essa semana não batem com os números que eu extraí no começo do ano para um colega. Não tenho nenhuma explicação, pode ser só cagada minha mesmo, embora eu não entenda como possa ter cagado nisso. E a febre subindo, o ouvido e a garganta doendo até pra engolir saliva, um gosto horroroso no boca. E eu parava de vez em quando pra descansar. Dei uma cochilada de 40 minutos e quando voltei tinham dois e-mails do tal colega na minha caixa: um levantando uma hipótese e outro, meia hora depois, perguntando: “e aí, o que você acha?”. Acho nada, mané. Minha febre subiu pra 39°C e não tem mais remédio em casa.
Por sorte (ou azar) o marido também não estava bem e não foi direto pra faculdade. Avisei que teríamos que ir pro hospital. Chegando lá, bronca: “como assim 39°C de febre e não tomou remédio, quer ter uma convulsão, senhora?!” (digressão: gostava mais quando me chamavam de menina, mas ok). Daí espera, uma bezetacil e outra injeção na veia que nem sei pra que serve. E aquela maravilha, né? Saí de casa super agasalhada, morrendo de frio, numa noite abafada, cheguei empapada de suor, sem febre. Sério mesmo, sem ironia, adoro a medicina moderna. Vocês não?
Nossos planos pra hoje, feitos semanas atrás, eram estudar, descansar e namorar (oi? de vez em quando é bom, né?). Acordei de novo com febre e o marido super indisposto. Depois de tomar novalgina, minha temperatura despencou para 35,8°C. Sério. Não era defeito no termômetro. Agora está em 37,5°C de novo. Resistirá meu pobre cérebro a esterilização via choque térmico? Estudei um pouquinho e descansei um pouco. Ouvido e garganta doem bem menos agora. Namorar? Estou há 2 dias sem beijo na boca. Porque enfrentar trânsito de São Paulo na hora do rush estando resfriado pra levar a esposa no PS é uma coisa. Beijar uma boca com gosto de pus é outra beeem diferente. Perdeu o apetite lendo isso? Imagine eu.
sábado, 17 de abril de 2010
Sobre leituras II
Como eu já disse aqui, a lista do que deveria ter lido é gigantesca. E só aumenta. Se um dia eu escrever que estou entediada é porque não tem livro por perto, porque coisas pra ler não faltam nunca. E aí eu comecei a pós, aos sábados, o dia todo (eu deveria estar dormindo, porque amanhã acordo cedo). E o tema é meio Economia, meio Urbanismo. E, oi? Não sei nada sobre nada disso. Só lendo pra correr atrás. E mês passado foi meu aniversário. Minhas amigas que já sabiam do meu interesse pelo feminismo resolveram me presentear com livros sobre o tema (é, minhas amigas são legais). Lógico que ninguém quer que eu leia semana que vem, mas acho meio chato ganhar um livro e não voltar pra contar pra pessoa suas impressões. Então é isso. Trabalho 8 horas por dia, academia pra consertar o joelho podre (é isso ou a fisioterapia, não tenho muita escolha), pós (e sua respectiva monografia), marido, amigos (meus e dele), família (minha e dele) e livros. Claro, e Copa do Mundo pra eu passar um mês só pensando em futebol e dispersar completamente. E um blog que eu tento atualizar de vez em quando. Depois tem gente que me pergunta quando eu vou ter filhos. Humpf!
Então a lista atual das coisas que eu gostaria de ler nos próximos dois meses, mas que vou me sentir realizada se conseguir dar conta este ano ainda, está assim:
Para a pós:
- O que é cidade? Raquel Rolnik – segundo o coordenador do curso, leitura básica para os ignorantes em urbanismo;
- Formação Ecônomica do Brasil, Celso Furtado – pra entender minimamente Economia;
- Formação do Brasil Contemporâneo, Caio Prado Júnior – idem idem.
Isso fora os textos avulsos, que a gente copia, e são muitos, claro. E a bibliografia específica para o meu trabalho, que eu ainda nem fui atrás. E não, isso não é a bibliografia mínima. O mínimo do mínimo ainda incluiria a Era dos Extremos, do Hobsbawm, mas eu sei que não vai rolar agora.
Sobre feminismo:
- Le conflit – la femme et la mère, Elisabeth Badinter. Lembram do livro que a Amanda postou aqui? Foi por conta dessa discussão que eu conheci o blog dela. E mandei um link para Ma, uma amiga que além de morar na França, acabou de ser mãe. Ela achou interessante e resolveu me mandar o livro de lá, porque ela sempre me manda presentes e acha que nunca ainda não me estragou o suficiente;
- Testo Yonqui, Beatriz Preciado. Imaginem uma intelectual que resolver se auto ministrar testosterona e, ao mesmo tempo em que relata as reações do hormônio em seu corpo, faz uma análise de questões de gênero? Presente da amiga, Fe, que anunciou assim "Iarinha, trouxe uma bomba pra você de Barcelona!";
- Backlash, Susan Faludi. A Lud que colocou o link para baixar de graça lá no blog dela. Eu baixei e deixei na área de trabalho do computador. E ele fica aqui, olhando pra minha cara todo dia. Li só a introdução e tô esperando a brecha pra ler o resto.
Diversos e aleatórios:
- Disgrace, JM. Coetzee. Não li nada dele ainda e morro de curiosidade. Sei lá porque resolvi começar com esse;
- A elegância do ouriço, Muriel Barbery. Em dois dias, vi duas referências a este livro do qual eu nunca tinha falando até então. Uma no formspring da Mari, dizendo que tinha gostado (nem te falei sobre isso ontem, Mari) e uma amiga com quem conversei no msn me contou que tinha lido e se lembrou de mim. Bastou pra pulga da curiosidade picar.
Factível ler isso em 2 meses, alguém pode dizer. Eu também acho, dá 1 por semana só. O que me angustia é que eu acho que não vai ser factível pra mim de jeito nenhum. Ó, vida.
Então a lista atual das coisas que eu gostaria de ler nos próximos dois meses, mas que vou me sentir realizada se conseguir dar conta este ano ainda, está assim:
Para a pós:
- O que é cidade? Raquel Rolnik – segundo o coordenador do curso, leitura básica para os ignorantes em urbanismo;
- Formação Ecônomica do Brasil, Celso Furtado – pra entender minimamente Economia;
- Formação do Brasil Contemporâneo, Caio Prado Júnior – idem idem.
Isso fora os textos avulsos, que a gente copia, e são muitos, claro. E a bibliografia específica para o meu trabalho, que eu ainda nem fui atrás. E não, isso não é a bibliografia mínima. O mínimo do mínimo ainda incluiria a Era dos Extremos, do Hobsbawm, mas eu sei que não vai rolar agora.
Sobre feminismo:
- Le conflit – la femme et la mère, Elisabeth Badinter. Lembram do livro que a Amanda postou aqui? Foi por conta dessa discussão que eu conheci o blog dela. E mandei um link para Ma, uma amiga que além de morar na França, acabou de ser mãe. Ela achou interessante e resolveu me mandar o livro de lá, porque ela sempre me manda presentes e acha que nunca ainda não me estragou o suficiente;
- Testo Yonqui, Beatriz Preciado. Imaginem uma intelectual que resolver se auto ministrar testosterona e, ao mesmo tempo em que relata as reações do hormônio em seu corpo, faz uma análise de questões de gênero? Presente da amiga, Fe, que anunciou assim "Iarinha, trouxe uma bomba pra você de Barcelona!";
- Backlash, Susan Faludi. A Lud que colocou o link para baixar de graça lá no blog dela. Eu baixei e deixei na área de trabalho do computador. E ele fica aqui, olhando pra minha cara todo dia. Li só a introdução e tô esperando a brecha pra ler o resto.
Diversos e aleatórios:
- Disgrace, JM. Coetzee. Não li nada dele ainda e morro de curiosidade. Sei lá porque resolvi começar com esse;
- A elegância do ouriço, Muriel Barbery. Em dois dias, vi duas referências a este livro do qual eu nunca tinha falando até então. Uma no formspring da Mari, dizendo que tinha gostado (nem te falei sobre isso ontem, Mari) e uma amiga com quem conversei no msn me contou que tinha lido e se lembrou de mim. Bastou pra pulga da curiosidade picar.
Factível ler isso em 2 meses, alguém pode dizer. Eu também acho, dá 1 por semana só. O que me angustia é que eu acho que não vai ser factível pra mim de jeito nenhum. Ó, vida.
segunda-feira, 5 de abril de 2010
A orgulhosa individualista que se casou
E aí que eu tenho essa enorme dificuldade de entender que o feminismo não é individualista e que brigar pela autonomia da mulher não significa, de maneira nenhuma, dizer que ela tem que “se bastar” em tudo. Que não pode aceitar ajuda e etc. A intransigentemente orgulhosa sou eu, não a agenda feminista. Isso tem de estar claro.
Daí que quando o marido me conheceu eu dividia uma apartamento com outras 3 meninas que eu conheci pela internet. Montamos uma república meio no susto, e a coisa até que funcionou muito bem por um tempo. Eu achava bacana, sabe? O meu lado ecológico sabe que é insustentável para o planeta todo mundo ter uma geladeira tanto quanto é insustentável todo mundo usar carro todo dia (eu vou trabalhar de trem). Um ano e tanto depois, relacionamento estável entre eu e mocinho, resolvemos dividir o teto.
E, puxa, o meu lado orgulhoso tem sofrido pra entender isso. Porque eu não tinha dinheiro para pagar o aluguel do apartamento na república sozinha, mas se alguém saísse, era só fazer uma seleção e colocar outra pessoa no lugar (sim, passamos por isso, e interessadas não faltavam). Mas aqui eu não dou conta do aluguel sozinha e às vezes me incomodo. Com o agravante de que o marido daria conta do aluguel sozinho, se fosse o caso. Ele nem ganha assim taaaanto mais do que eu. Mas é a diferença entre fechar a conta e não fechar.
E lógico que ele não me cobra isso, tão loucas? Nem faria sentido. E, racionalmente, eu sei que ele não me sustenta. Que a gente tá nessa juntos. Que se uma hora der errado, eu não pago o aluguel desse, mas pago o de outro, ué? Mas tem o demônio do orgulho. Semanas atrás, numa crise, cheguei a cogitar procurar um lugar mais barato só pra me sentir mais em paz, mas racionalmente falando, seria ridículo. Teríamos que mudar de bairro, de repente ir pra mais longe, ter menos conforto. Mais fácil eu deixar de ser cabeça dura e entender que, poxa, casamento também é isso.
Daí tem outra coisa engraçada. Por sugestão do marido (ele adora créditos, então estou dando), abrimos uma conta conjunta, que funciona assim: cada um deposita lá parte do salário, pra nossas despesas de casal, e mantém separado o seu dinheiro de “caixa 2”. Então a gente não fica fazendo contas: são os dois que pagam por tudo. Mas, puxa, até isso me incomoda. Primeiro que, centralista que sou, tenho a maior dificuldade de compartilhar organização com alguém. E maridinho é organizadíssimo pra tudo nessa vida, menos pra dinheiro. E eu sou o inverso. Na república, eu é quem pagava todas as contas, e depois cobrava das meninas. Mas aqui resolvi relaxar um pouco. Entro em casa hoje e encontro aviso de cobrança da Net. Valor em aberto. Ligo pro marido: “mas não tá no débito automático?”. Não tá, marido. Tá escrito lá: pagamento com boleto. E ele já esqueceu outra vez, e já recebemos outra cartinha (mas foi só uma, nas outras ele pagou na data). Pra piorar, a conta é conjunta, mas só mandam um cartão de senhas pra operações pela internet. E eu quero resolver logo isso, mas o cartão está com quem? Com o marido. E ele está onde? Na faculdade. Isso, respira, control freak. Vai surtar por tão pouco?
Agora, humilhação mór, é que na conta conjunta ele é o “titular 1”, e eu o “titular 2”. Felizmente não usam o termo “dependente”. Mas um dia precisei checar informações por telefone e me pediram o CPF e o RG dele. E eu argumentava que eu era titular também, caráleo. Não. Uns são mais titulares que outros. Ah, e o cartão de crédito é dele, o meu é “adicional”. E a primeira vez que fui lá transferir dinheiro pra nossa conta, acessei a função “para contas do mesmo CPF”. Não funciona. O CPF titular da conta é o dele.
Moral da história: eu sou cabeça duríssima. Apesar de racionalmente entender que eu não sou dependente de ninguém, que somos duas pessoas que colaboram uma com a outra para a felicidade mútua, o subconsciente orgulhoso ainda tem muitas dificuldades de assimilar. Mas, ó, falando sério: o sistema bancário também não colabora.
Daí que quando o marido me conheceu eu dividia uma apartamento com outras 3 meninas que eu conheci pela internet. Montamos uma república meio no susto, e a coisa até que funcionou muito bem por um tempo. Eu achava bacana, sabe? O meu lado ecológico sabe que é insustentável para o planeta todo mundo ter uma geladeira tanto quanto é insustentável todo mundo usar carro todo dia (eu vou trabalhar de trem). Um ano e tanto depois, relacionamento estável entre eu e mocinho, resolvemos dividir o teto.
E, puxa, o meu lado orgulhoso tem sofrido pra entender isso. Porque eu não tinha dinheiro para pagar o aluguel do apartamento na república sozinha, mas se alguém saísse, era só fazer uma seleção e colocar outra pessoa no lugar (sim, passamos por isso, e interessadas não faltavam). Mas aqui eu não dou conta do aluguel sozinha e às vezes me incomodo. Com o agravante de que o marido daria conta do aluguel sozinho, se fosse o caso. Ele nem ganha assim taaaanto mais do que eu. Mas é a diferença entre fechar a conta e não fechar.
E lógico que ele não me cobra isso, tão loucas? Nem faria sentido. E, racionalmente, eu sei que ele não me sustenta. Que a gente tá nessa juntos. Que se uma hora der errado, eu não pago o aluguel desse, mas pago o de outro, ué? Mas tem o demônio do orgulho. Semanas atrás, numa crise, cheguei a cogitar procurar um lugar mais barato só pra me sentir mais em paz, mas racionalmente falando, seria ridículo. Teríamos que mudar de bairro, de repente ir pra mais longe, ter menos conforto. Mais fácil eu deixar de ser cabeça dura e entender que, poxa, casamento também é isso.
Daí tem outra coisa engraçada. Por sugestão do marido (ele adora créditos, então estou dando), abrimos uma conta conjunta, que funciona assim: cada um deposita lá parte do salário, pra nossas despesas de casal, e mantém separado o seu dinheiro de “caixa 2”. Então a gente não fica fazendo contas: são os dois que pagam por tudo. Mas, puxa, até isso me incomoda. Primeiro que, centralista que sou, tenho a maior dificuldade de compartilhar organização com alguém. E maridinho é organizadíssimo pra tudo nessa vida, menos pra dinheiro. E eu sou o inverso. Na república, eu é quem pagava todas as contas, e depois cobrava das meninas. Mas aqui resolvi relaxar um pouco. Entro em casa hoje e encontro aviso de cobrança da Net. Valor em aberto. Ligo pro marido: “mas não tá no débito automático?”. Não tá, marido. Tá escrito lá: pagamento com boleto. E ele já esqueceu outra vez, e já recebemos outra cartinha (mas foi só uma, nas outras ele pagou na data). Pra piorar, a conta é conjunta, mas só mandam um cartão de senhas pra operações pela internet. E eu quero resolver logo isso, mas o cartão está com quem? Com o marido. E ele está onde? Na faculdade. Isso, respira, control freak. Vai surtar por tão pouco?
Agora, humilhação mór, é que na conta conjunta ele é o “titular 1”, e eu o “titular 2”. Felizmente não usam o termo “dependente”. Mas um dia precisei checar informações por telefone e me pediram o CPF e o RG dele. E eu argumentava que eu era titular também, caráleo. Não. Uns são mais titulares que outros. Ah, e o cartão de crédito é dele, o meu é “adicional”. E a primeira vez que fui lá transferir dinheiro pra nossa conta, acessei a função “para contas do mesmo CPF”. Não funciona. O CPF titular da conta é o dele.
Moral da história: eu sou cabeça duríssima. Apesar de racionalmente entender que eu não sou dependente de ninguém, que somos duas pessoas que colaboram uma com a outra para a felicidade mútua, o subconsciente orgulhoso ainda tem muitas dificuldades de assimilar. Mas, ó, falando sério: o sistema bancário também não colabora.
quinta-feira, 4 de março de 2010
La femme de trente ans
Pois é, chegou o dia. Trinta anos. E, ó, nem doeu, viu? (Post programado, mas se tiver doído eu volto aqui pra contar, prometo).
E a gente imagina, quando é adolescente, que com essa idade será adulto, a vida vai estar resolvida, etc, etc. E putz, a minha está em muita coisa, mas não está em outras e isso não chega a ser um problema. Mas daí, pra me divertir, eu resolvi fazer um balanço, que acaba servindo também como um about me:
Carreira
Não tenho uma carreira, é essa a verdade. E tudo bem. O fato é que ainda não descobri o que eu quero ser quando crescer, mas consegui ter uma ocupação razoável, com um salário honesto. Pra ajudar o ambiente em que trabalho é bom. Tipo, nada resolvido, mas paz, sabem? Saquei logo que pouca gente nessa vida se realiza profissionalmente. Isso significa que eu me conformei em não me realizar? Não, de jeito nenhum. Só me dei conta de que, enquanto eu não acho o caminho pra essa realização (e eu tô tentando) tenho que pagar as contas o melhor possível e ser feliz, porque ser feliz é a única coisa urgente nessa vida.
Auto-imagem
Pô, eu ainda quero emagrecer, embora a ansiedade e a cara-de-pau tenham colocado a reeducação alimentar pra escanteio. Mas tem duas coisas muito importantes a serem ditas. Primeiro: eu gosto da minha imagem. Tô há muitos quilômetros de distância de ser a Gisele Bündchen, sou meio fora dos padrões mesmo, e talvez uma quantidade considerável de gente me acharia feia. Mas eu curto o espelho. Segundo, eu tenho feito enormes esforços em descolar meu “eu” da minha imagem, tal qual a Ludmila faz tão bem lá e como eu já tinha explicado aqui antes mesmo de conhecê-la. Então, independente do número do manequim, eu me acho muito gostosa, sem falsa modéstia. Tenho essa fome de gente, de vida e de experiências que torna as pessoas interessantes. Enquanto eu mantiver isso, tô viva pro mundo. O resto é bobagem.
Amigos
Passei a adolescência e o começo da idade adulta me sentindo meio loser porque eu nunca fui popular. Nunca tive “a galera” que liga no sábado à noite. Sempre tive alguns poucos e excelentes amigos. Depois do ano na França, vi o número aumentar um tanto, mantendo a qualidade e a diversidade. Meus amigos são muito diferentes, minha relação com cada um deles é diferente, mas são todos queridíssimos, e boa parte há mais de uma década. Se eu quero novos amigos? Claro! Mas só se forem amizades construídas com calma, e nessa certeza de que eu não tenho que agradar a todo mundo, mas posso ter uma relação muito bacana mesmo com gente muito diferente de mim. Meus amigos são o maior tesouro construído nestes 30 anos.
Dinheiro
Não tenho carro (usamos um de leasing, sabem? tipo aluguel). Não tenho apartamento. Tenho uma poupancinha só pro caso de dar uma merda, que não seria o suficiente pra dar um entrada num imóvel. E tenho guardado um quase nada de dinheiro nos últimos tempos. Também não tenho nenhuma dívida, e isso é bom. Sou desapegada sem ser irresponsável: gasto porque tenho, se não tiver, mudo pra mais longe pra pagar um aluguel mais barato. Acho bacana poder ir a um show caro, ir a um restaurante legal e viajar nas férias. Dinheiro foi feito pra me fazer feliz. Mas tenho plena consciência de que isso não vai acontecer se eu viver só em função dele.
Vida afetiva
Não encontrei o príncipe encantado. Há pouco tempo atrás, quando achei que atingiria a maturidade numa vibe Sex and the City, porque há anos eu não tinha um relacionamento estável, encontrei um cara cheio de qualidades e cheio de defeitos, assim como eu. Logo percebi que ele era a melhor companhia do mundo. E o melhor companheiro do mundo pra mim. E um dia disse: “você ainda não sabe, porque é segredo, mas vai se casar comigo.” Tinha 3 meses que estávamos juntos e eu nem tinha dito “eu te amo” ainda. Não tinha definido dentro de mim meu sentimento por ele, mas sabia que era ele. Não foi amor à primeira vista como nos filmes, mas uma construção, tijolo por tijolo. Obras em andamento ainda, claro, e sempre. E eu não quero nunca banalizar isso, nem deixar a lei do mínimo esforço tomar conta. Vai ser lindo enquanto os dois quiserem que seja. Por enquanto os dois querem, muito.
Experiências diversas
Aos 30 anos, eu achei que daria pra ter aprendido alemão também, ou pelo menos italiano, que não é tão difícil. Mas me comunico razoavelmente bem em inglês, espanhol e francês, além do português. Sou semianalfabeta nas 4, como boa corintiana, mas tá valendo. Pra quem ainda é monolíngue, recomendo: falar um idioma estrangeiro é uma das coisas que mais abrem horizontes nessa vida, em todos os campos. Li muitíssimo menos do que gostaria e deveria. Dei pelo menos uma passadinha rápida em mais de metade dos estados brasileiros e em sete países. Ainda quero viajar muito, mas se não rolar muita chance mais, essa frustração já não vou ter. Gostaria de ter tido mais relacionamentos de média duração, mas já “experimentei” um bocadinho. E já beijei uma mocinha na boca (lembram da Kate Perry? “I kissed a girl and I like it”).
Sobre o futuro
Talvez a realização profissional? Talvez mais uma(s) língua(s) (alemão e árabe – quero alguma coisa bem difícil agora). Talvez, em alguns anos, um lugar para chamar de nosso? Talvez mais viagens? Talvez filhos? Talvez nada disso?
É bom não saber o que vai acontecer com a gente (né, Mari?). Que venham os próximos 30.
E a gente imagina, quando é adolescente, que com essa idade será adulto, a vida vai estar resolvida, etc, etc. E putz, a minha está em muita coisa, mas não está em outras e isso não chega a ser um problema. Mas daí, pra me divertir, eu resolvi fazer um balanço, que acaba servindo também como um about me:
Carreira
Não tenho uma carreira, é essa a verdade. E tudo bem. O fato é que ainda não descobri o que eu quero ser quando crescer, mas consegui ter uma ocupação razoável, com um salário honesto. Pra ajudar o ambiente em que trabalho é bom. Tipo, nada resolvido, mas paz, sabem? Saquei logo que pouca gente nessa vida se realiza profissionalmente. Isso significa que eu me conformei em não me realizar? Não, de jeito nenhum. Só me dei conta de que, enquanto eu não acho o caminho pra essa realização (e eu tô tentando) tenho que pagar as contas o melhor possível e ser feliz, porque ser feliz é a única coisa urgente nessa vida.
Auto-imagem
Pô, eu ainda quero emagrecer, embora a ansiedade e a cara-de-pau tenham colocado a reeducação alimentar pra escanteio. Mas tem duas coisas muito importantes a serem ditas. Primeiro: eu gosto da minha imagem. Tô há muitos quilômetros de distância de ser a Gisele Bündchen, sou meio fora dos padrões mesmo, e talvez uma quantidade considerável de gente me acharia feia. Mas eu curto o espelho. Segundo, eu tenho feito enormes esforços em descolar meu “eu” da minha imagem, tal qual a Ludmila faz tão bem lá e como eu já tinha explicado aqui antes mesmo de conhecê-la. Então, independente do número do manequim, eu me acho muito gostosa, sem falsa modéstia. Tenho essa fome de gente, de vida e de experiências que torna as pessoas interessantes. Enquanto eu mantiver isso, tô viva pro mundo. O resto é bobagem.
Amigos
Passei a adolescência e o começo da idade adulta me sentindo meio loser porque eu nunca fui popular. Nunca tive “a galera” que liga no sábado à noite. Sempre tive alguns poucos e excelentes amigos. Depois do ano na França, vi o número aumentar um tanto, mantendo a qualidade e a diversidade. Meus amigos são muito diferentes, minha relação com cada um deles é diferente, mas são todos queridíssimos, e boa parte há mais de uma década. Se eu quero novos amigos? Claro! Mas só se forem amizades construídas com calma, e nessa certeza de que eu não tenho que agradar a todo mundo, mas posso ter uma relação muito bacana mesmo com gente muito diferente de mim. Meus amigos são o maior tesouro construído nestes 30 anos.
Dinheiro
Não tenho carro (usamos um de leasing, sabem? tipo aluguel). Não tenho apartamento. Tenho uma poupancinha só pro caso de dar uma merda, que não seria o suficiente pra dar um entrada num imóvel. E tenho guardado um quase nada de dinheiro nos últimos tempos. Também não tenho nenhuma dívida, e isso é bom. Sou desapegada sem ser irresponsável: gasto porque tenho, se não tiver, mudo pra mais longe pra pagar um aluguel mais barato. Acho bacana poder ir a um show caro, ir a um restaurante legal e viajar nas férias. Dinheiro foi feito pra me fazer feliz. Mas tenho plena consciência de que isso não vai acontecer se eu viver só em função dele.
Vida afetiva
Não encontrei o príncipe encantado. Há pouco tempo atrás, quando achei que atingiria a maturidade numa vibe Sex and the City, porque há anos eu não tinha um relacionamento estável, encontrei um cara cheio de qualidades e cheio de defeitos, assim como eu. Logo percebi que ele era a melhor companhia do mundo. E o melhor companheiro do mundo pra mim. E um dia disse: “você ainda não sabe, porque é segredo, mas vai se casar comigo.” Tinha 3 meses que estávamos juntos e eu nem tinha dito “eu te amo” ainda. Não tinha definido dentro de mim meu sentimento por ele, mas sabia que era ele. Não foi amor à primeira vista como nos filmes, mas uma construção, tijolo por tijolo. Obras em andamento ainda, claro, e sempre. E eu não quero nunca banalizar isso, nem deixar a lei do mínimo esforço tomar conta. Vai ser lindo enquanto os dois quiserem que seja. Por enquanto os dois querem, muito.
Experiências diversas
Aos 30 anos, eu achei que daria pra ter aprendido alemão também, ou pelo menos italiano, que não é tão difícil. Mas me comunico razoavelmente bem em inglês, espanhol e francês, além do português. Sou semianalfabeta nas 4, como boa corintiana, mas tá valendo. Pra quem ainda é monolíngue, recomendo: falar um idioma estrangeiro é uma das coisas que mais abrem horizontes nessa vida, em todos os campos. Li muitíssimo menos do que gostaria e deveria. Dei pelo menos uma passadinha rápida em mais de metade dos estados brasileiros e em sete países. Ainda quero viajar muito, mas se não rolar muita chance mais, essa frustração já não vou ter. Gostaria de ter tido mais relacionamentos de média duração, mas já “experimentei” um bocadinho. E já beijei uma mocinha na boca (lembram da Kate Perry? “I kissed a girl and I like it”).
Sobre o futuro
Talvez a realização profissional? Talvez mais uma(s) língua(s) (alemão e árabe – quero alguma coisa bem difícil agora). Talvez, em alguns anos, um lugar para chamar de nosso? Talvez mais viagens? Talvez filhos? Talvez nada disso?
É bom não saber o que vai acontecer com a gente (né, Mari?). Que venham os próximos 30.
terça-feira, 2 de março de 2010
Inferno astral é assim
Imagina que no domingo, você deixa na rodoviária alguém amado que está num momento muito difícil da vida. Imagina o vazio e a sensação de impotência de não poder ajudar essa pessoa como gostaria.
Imagina que, depois disso, você tem sua maior crise de ansiedade dos últimos anos e chora sem parar por mais de meia hora, achando que não vai dar conta do resto da semana. E sente medo do marido se assustar e resolver pular fora porque ele nunca te viu desse jeito.
Imagina que na segunda-feira você tem avaliação de desempenho no trabalho, e precisa dar conta de expressar toda a sua insatisfação. Imagina que sua chefe concorda com o seu ponto de vista, que acha que você merece muito, mas que, dado o momento da empresa, ela não pode prometer nada. E o pior é que você sabe que ela não está enrolando e que corre o risco de não ver nada mudar nos próximos meses.
Chato, né?
Agora imagina que no Natal o marido fez uma listinha de coisas que ele poderia gostar de ganhar, das mais varidas faixas de preço, pra você ter opção. E você olha lá ingressos pra um show bacana. E como ele te deu um show bacana de presente, você quer retribuir porque apesar de shows bacanas custarem os “zóidacara” pra quem não é estudante (e pra quem é também, ainda que seja metade do “zóidacara” do preço da inteira), o 13º taí, não há crianças a serem sustentadas e bom, o marido merece.
Agora imagina você esperar meses pelo show, torcer pra não chover, São Pedro colaborar, você se empolgar pensando que vai ser muito legal, saber que galera pretende cantar parabéns pro vocalista que faz aniversário só 2 dias antes de você e, quando o show começa, você descobrir que contrataram o pior engenheiro de som do universo.
Pausa aqui. O vizinho do apartamento enfrente ao nosso é surdo e ouve a novela no talo. Dá pra ouvir da nossa sala.
Ouço a novela do vizinho com maior qualidade de som do que ouvi o show que paguei “zóidacara” e foi presente de Natal pro marido. Saímos na metade, quando nos demos conta de que nem no bis os som ia ser arrumado, depois de passar muita raiva com as tentativas de equalização.
Outra pausa. Acabo de receber um sms de uma amiga que estava lá, mas na pista vip (daí é “zóidacara” meeeesmo, “dicumforça”). Segundo ela, lá se ouvia perfeitamente.
Ó, se isso não é inferno astral, eu não sei o que é. Sério, tô boa não.

(Chris Martin, pisciano querido, juro que as vaias não eram pra você, tá?)
Imagina que, depois disso, você tem sua maior crise de ansiedade dos últimos anos e chora sem parar por mais de meia hora, achando que não vai dar conta do resto da semana. E sente medo do marido se assustar e resolver pular fora porque ele nunca te viu desse jeito.
Imagina que na segunda-feira você tem avaliação de desempenho no trabalho, e precisa dar conta de expressar toda a sua insatisfação. Imagina que sua chefe concorda com o seu ponto de vista, que acha que você merece muito, mas que, dado o momento da empresa, ela não pode prometer nada. E o pior é que você sabe que ela não está enrolando e que corre o risco de não ver nada mudar nos próximos meses.
Chato, né?
Agora imagina que no Natal o marido fez uma listinha de coisas que ele poderia gostar de ganhar, das mais varidas faixas de preço, pra você ter opção. E você olha lá ingressos pra um show bacana. E como ele te deu um show bacana de presente, você quer retribuir porque apesar de shows bacanas custarem os “zóidacara” pra quem não é estudante (e pra quem é também, ainda que seja metade do “zóidacara” do preço da inteira), o 13º taí, não há crianças a serem sustentadas e bom, o marido merece.
Agora imagina você esperar meses pelo show, torcer pra não chover, São Pedro colaborar, você se empolgar pensando que vai ser muito legal, saber que galera pretende cantar parabéns pro vocalista que faz aniversário só 2 dias antes de você e, quando o show começa, você descobrir que contrataram o pior engenheiro de som do universo.
Pausa aqui. O vizinho do apartamento enfrente ao nosso é surdo e ouve a novela no talo. Dá pra ouvir da nossa sala.
Ouço a novela do vizinho com maior qualidade de som do que ouvi o show que paguei “zóidacara” e foi presente de Natal pro marido. Saímos na metade, quando nos demos conta de que nem no bis os som ia ser arrumado, depois de passar muita raiva com as tentativas de equalização.
Outra pausa. Acabo de receber um sms de uma amiga que estava lá, mas na pista vip (daí é “zóidacara” meeeesmo, “dicumforça”). Segundo ela, lá se ouvia perfeitamente.
Ó, se isso não é inferno astral, eu não sei o que é. Sério, tô boa não.

(Chris Martin, pisciano querido, juro que as vaias não eram pra você, tá?)
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
Subjetividades
Não tem nada de errado acontecendo na minha vida, porém ando numa irritação sem precedentes. Melhor dizendo, estou completamente instável emocionalmente – porque de vez em quando me empolgo demais também. Tipo bipolar mesmo, ou um “Poltergeist” se apoderando do meu corpo. No final de semana fui procurar o meu cd do Cranberries e não achei. Tenho poucos cds, sei lá, só uns 30, acho. E além desse do Cranberries, já perdi o da Elza Soares, o acústico do Ira, um da Marisa Monte. Notem, não é o do colega de trabalho que tinha uma banda, nem aquele "ao vivo" do Djavan que já deu no saco, nem o meio esotérico que eu ganhei de brinde quando fiz massagem. Esses aí tão guardadinhos. Não é nada engraçado, porque eu nunca encontrei um cd perdido por aí, então não sei onde eles vão parar. Provavelmente na quarta dimensão, junto com as sobrinhas e os pés de meia solitários. Tô putíssima da vida com isso até agora.
Mas, enfim. Fiquei desproporcionalmente irritada (tenho gostado muito do verbo “to overreact”, acho perfeito). Ontem eu tinha uma consulta, queria ir de ônibus pra andar menos, o maldito não passava. Desisti, fui pra estação pegar o trem, ele também atrasou, e quando veio, tava super lotado. E eu lá, bufando como doida, e resmungando “que inferno! que inferno!”. E o sapato machucando no pé. Hoje tive outra consulta na hora do almoço. Engoli alguma coisa e chegando lá, a recepcionista me avisou que o médico estava atrasado “mas só tem uma pessoa na sua frente”. Como é uma clínica grande, a gente não sabe se as pessoas na sala de espera estão lá pra ver o mesmo cara. Depois de assitir ao médico chamar a terceira paciente (oi? é, eu não era a próxima...), após 45 minutos de espera, fui reclamar com a recepcionista, que se comprometeu a “dar o recado”. Não agüentei nem mais 5 minutos. Voltei pro trabalho semi-histérica, se eu entrasse na consulta daquele jeito não ia prestar mesmo. No caminho, ao passar por um corredor no centro comercial onde trabalho, um infeliz, vendo a minha cara de brava, resolveu sacanear e se plantar no meu caminho pra fazer uma gracinha. Não consigo mais lembrar com precisão, acho que mandei ele se fuder, aos gritos e tremendo. Tive que tomar um fitoterápito pra me acalmar e conseguir trabalhar (pouco) o resto da tarde.
E, puxa, motivo nenhum, eu sei. Boas perspectivas para o ano. Mas viajando total, me peguei pensando no quanto pode ser violenta o julgamento das pessoas sobre a nossa subjetividade. Uma amiga minha, que tem o blog mais fofo e cor-de-rosa da lista ali da lista ao lado, disse que um troll maníaco tem mandado ela procurar o que fazer, só porque ela fala de decoração e não, sei lá, da fome no mundo. Alguém pode achar que, por gostar de maquiagem e cozinha, sou uma ingênua cooptada pelo patriarcado, que não se dá conta de que cozinhar pro marido e ficar cheirosa são desempenhar um papel de objeto do prazer alheio sem nenhum senso crítico: “e ainda se diz feminista, pobrezinha!”
Eu perfiro acreditar que não há objetividade alheia que dê conta da gente, sabe? E não tem nada mais irritante do que imaginar alguém lendo isso e pensando: “olha a mimada, queria ver se tivesse perdido a casa/a família/a vida com a chuva”. Todo o respeito e solidariedade às tragédias alheias, e nem de longe imagino os meus problemas minimamente comparáveis. Mas os meus calos, por menores que sejam, doem. E atire a primeira pedra quem nunca teve uma “overreaction”.
Mas, enfim. Fiquei desproporcionalmente irritada (tenho gostado muito do verbo “to overreact”, acho perfeito). Ontem eu tinha uma consulta, queria ir de ônibus pra andar menos, o maldito não passava. Desisti, fui pra estação pegar o trem, ele também atrasou, e quando veio, tava super lotado. E eu lá, bufando como doida, e resmungando “que inferno! que inferno!”. E o sapato machucando no pé. Hoje tive outra consulta na hora do almoço. Engoli alguma coisa e chegando lá, a recepcionista me avisou que o médico estava atrasado “mas só tem uma pessoa na sua frente”. Como é uma clínica grande, a gente não sabe se as pessoas na sala de espera estão lá pra ver o mesmo cara. Depois de assitir ao médico chamar a terceira paciente (oi? é, eu não era a próxima...), após 45 minutos de espera, fui reclamar com a recepcionista, que se comprometeu a “dar o recado”. Não agüentei nem mais 5 minutos. Voltei pro trabalho semi-histérica, se eu entrasse na consulta daquele jeito não ia prestar mesmo. No caminho, ao passar por um corredor no centro comercial onde trabalho, um infeliz, vendo a minha cara de brava, resolveu sacanear e se plantar no meu caminho pra fazer uma gracinha. Não consigo mais lembrar com precisão, acho que mandei ele se fuder, aos gritos e tremendo. Tive que tomar um fitoterápito pra me acalmar e conseguir trabalhar (pouco) o resto da tarde.
E, puxa, motivo nenhum, eu sei. Boas perspectivas para o ano. Mas viajando total, me peguei pensando no quanto pode ser violenta o julgamento das pessoas sobre a nossa subjetividade. Uma amiga minha, que tem o blog mais fofo e cor-de-rosa da lista ali da lista ao lado, disse que um troll maníaco tem mandado ela procurar o que fazer, só porque ela fala de decoração e não, sei lá, da fome no mundo. Alguém pode achar que, por gostar de maquiagem e cozinha, sou uma ingênua cooptada pelo patriarcado, que não se dá conta de que cozinhar pro marido e ficar cheirosa são desempenhar um papel de objeto do prazer alheio sem nenhum senso crítico: “e ainda se diz feminista, pobrezinha!”
Eu perfiro acreditar que não há objetividade alheia que dê conta da gente, sabe? E não tem nada mais irritante do que imaginar alguém lendo isso e pensando: “olha a mimada, queria ver se tivesse perdido a casa/a família/a vida com a chuva”. Todo o respeito e solidariedade às tragédias alheias, e nem de longe imagino os meus problemas minimamente comparáveis. Mas os meus calos, por menores que sejam, doem. E atire a primeira pedra quem nunca teve uma “overreaction”.
domingo, 13 de dezembro de 2009
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
Êxtase
Ontem a vi pela primeira vez ao vivo. Presente do marido, que nem é fã, mas sabia o quanto seria importante pra mim, e queria me ver chorando horrores, o danado. Mas eu me contive e só chorei um pouquinho... Ai... o que posso dizer? Uma experiência das mais ricas. Ouvir "Explode Coração" assim, ao vivo, só na voz dela, sem o acompanhamento da banda, emudeceu o teatro. E no bis ela cantou "Reconvexo" e é muito bobo, mas acho tão lindo ouvir o meu nome na voz dela (sou a sereia que canta/ destemida Iara)! Depois no bis-do-bis, cantou "Olhos nos olhos", com a platéia acompanhando.
Saí me sentindo a pessoa mais realizada do mundo. E o mundo seria um lugar lindo se todo mundo pudesse sentir essa epifania ao menos uma vez na vida...
Ah! Quase esquecendo, e eu adoro contar isso: meu pai assistiu "Opinião" em 1965, quando a Maria Bethânia estreiou profissionalmente substituindo a Nara Leão. Cara de sorte, ele...
Saí me sentindo a pessoa mais realizada do mundo. E o mundo seria um lugar lindo se todo mundo pudesse sentir essa epifania ao menos uma vez na vida...
Ah! Quase esquecendo, e eu adoro contar isso: meu pai assistiu "Opinião" em 1965, quando a Maria Bethânia estreiou profissionalmente substituindo a Nara Leão. Cara de sorte, ele...
domingo, 6 de dezembro de 2009
Futebol
Eu gosto de futebol. E sempre gostei muito de homens que gostam de futebol. O marido é perdidamente apaixonado. E pelo Palmeiras. E eu sou corintiana. Mas não tem problema, a gente vive bem assim, principalmente quando seca o São Paulo juntos e dá certo. Dois momentos inesquecíveis do nosso relacionamento, ambos proporcionados por times cariocas, foram ver o Fluminense tirar o São Paulo da Libertadores ano passado (antes do jogo cantei a bola de que a decisão sairia no último momento do jogo, e acertei) e a linda vitória do Botafogo duas semanas atrás (jogão, gente, jogão).
E bom, Flamengo campeão. Mereceu muito. Marido super chateado porque, depois de liderarem tanto tempo, não vão nem pra Libertadores. E a graça do futebol é essa, a imprevisibilidade, o “nada como um dia após o outro”. Tanto é assim que o Flamengo é o primeiro time a ser campeão brasileiro depois de levar surra de 5 a 0. E foi do Coritiba, rebaixado hoje.
Além de futebol, eu gosto muito de homem gostoso. E, putz, me lembro a primeira vez que eu vi o Adriano (suspiro...). E além de gostar de futebol de homem gostoso, gosto quando a lógica capitalista não é determinante nas decisões das pessoas.
Considerando tudo isso, tô achando lindo o Flamengo campeão, com o Adriano ídolo e artilheiro. O Adriano é um anti-herói: joga muito, mas é um cara instável, alcóolatra, um Garrincha quase. E eu AMO essa instabilidade, sabe? E o romantismo evocado por ela. O cara tava mal lá na Europa, ganhando bem, mas motivação zero, e vontade de abandonar tudo. Aí pinta o Flamengo e a chance de continuar trabalhando com o que gosta e fazer churrasco na laje com a galera da Vila Cruzeiro de vez em quando. Tem gente que achava aposta furada do time, mas ele chegou e detonou. Não esqueço o primeiro jogo dele de volta, o Maracanã cantando: “eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci...”.
Lógico, o Adriano não ganha troco jogando aqui (se estiver recebendo direitinho, Flamengo é famoso pela inadimplência), mas seu objetivo não é se tornar o atleta mais rico da sua geração. Superada a pobreza, garantido o seu sustento e o dos filhos, ele quer ser um ídolo entre seus iguais, ser reconhecido pela maior torcida do Brasil. Então esse título pra ele é além de um sucesso profissional, um sonho de menino.
E voltando ao marido e ao sofá de casa, há uma aposta interna: verá o marido o seu Palmeiras ser campeão do Libertadores mais uma vez antes de eu ver o meu Corinthians campeão pela primeira vez? Ou será o contrário? O prêmio (além do prazer futebolístico, claro) é significativo: um sapato escândalo pra mim, o equivalente ao valor de um sapato em cerveja (Guinness, especificamente) pra ele. Como para ganhar precisa participar, tô saindo na frente. \o/
E bom, Flamengo campeão. Mereceu muito. Marido super chateado porque, depois de liderarem tanto tempo, não vão nem pra Libertadores. E a graça do futebol é essa, a imprevisibilidade, o “nada como um dia após o outro”. Tanto é assim que o Flamengo é o primeiro time a ser campeão brasileiro depois de levar surra de 5 a 0. E foi do Coritiba, rebaixado hoje.
Além de futebol, eu gosto muito de homem gostoso. E, putz, me lembro a primeira vez que eu vi o Adriano (suspiro...). E além de gostar de futebol de homem gostoso, gosto quando a lógica capitalista não é determinante nas decisões das pessoas.
Considerando tudo isso, tô achando lindo o Flamengo campeão, com o Adriano ídolo e artilheiro. O Adriano é um anti-herói: joga muito, mas é um cara instável, alcóolatra, um Garrincha quase. E eu AMO essa instabilidade, sabe? E o romantismo evocado por ela. O cara tava mal lá na Europa, ganhando bem, mas motivação zero, e vontade de abandonar tudo. Aí pinta o Flamengo e a chance de continuar trabalhando com o que gosta e fazer churrasco na laje com a galera da Vila Cruzeiro de vez em quando. Tem gente que achava aposta furada do time, mas ele chegou e detonou. Não esqueço o primeiro jogo dele de volta, o Maracanã cantando: “eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci...”.
Lógico, o Adriano não ganha troco jogando aqui (se estiver recebendo direitinho, Flamengo é famoso pela inadimplência), mas seu objetivo não é se tornar o atleta mais rico da sua geração. Superada a pobreza, garantido o seu sustento e o dos filhos, ele quer ser um ídolo entre seus iguais, ser reconhecido pela maior torcida do Brasil. Então esse título pra ele é além de um sucesso profissional, um sonho de menino.
E voltando ao marido e ao sofá de casa, há uma aposta interna: verá o marido o seu Palmeiras ser campeão do Libertadores mais uma vez antes de eu ver o meu Corinthians campeão pela primeira vez? Ou será o contrário? O prêmio (além do prazer futebolístico, claro) é significativo: um sapato escândalo pra mim, o equivalente ao valor de um sapato em cerveja (Guinness, especificamente) pra ele. Como para ganhar precisa participar, tô saindo na frente. \o/
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Semana
Tem um "empório" (leia-se: vendinha metida a besta cheia de coisas deliciosas e caras que eu não posso comer durante o regime) no caminho entre o trem e a minha casa. Ele também é meio bar, meio restaurante. Segundas e terças-feiras fecha às 18h00, mas nos outros dias fica aberto até meia-noite. De modos que, quando eu volto pra casa na quarta-feira, passo enfrente umas 7 da noite e vejo aberto, meu coraçãozinho se enche de alegria. Cai a ficha de que a semana está perto do fim...
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Leveza
Essa semana assisti a “Persépolis” com o marido, que ele não tinha visto ainda. É uma animação incrivelmente bem produzida que trata uma história triste com toda a leveza possível.
Em algum momento da minha vida fui acusada por uma “ex-amiga” de ser uma pessoa pesada, porque eu tava sempre vendo o lado ruim das coisas, segundo ela. Pô, tomei a pílula vermelha. Sofrimento enorme, esse, viu? Queria, como ela, conseguir fletar com o policial que estava na Sorbonne pra reprimir as manifestações dos estudantes. Mas eu não via o cara gostoso, via a repressão, não rolava mesmo. Não sou uma criatura iluminada, pelo contrário, acho que até sou bem superficial algumas vezes. Mas somo dois mais dois e sou bem crítica, e não tenho culpa disso. Taí o Caio Fernando Abreu, que não me deixa mentir:
"Você pode se recusar a ver, o tempo que quiser: até o fim de sua maldita vida, você pode recusar, sem necessidade de rever seus mitos ou movimentar-se de seu lugarzinho confortável. Mas a partir do momento em que você vê, mesmo involuntariamente, você está perdido: as coisas não voltarão a ser mais as mesmas e você próprio já não será o mesmo. O que vem depois, não se sabe.”
Por outro lado, como muito custo, aprendi que o mundo não vai ser um lugar melhor se eu for infeliz. Que eu preciso sim refletir sobre as minhas escolhas, mas que não é indigno sentir-se bem num mundo tão miserável, contanto que eu não faça de conta que esssa miséria não tem absolutamente nada a ver comigo. Antes eu achava que pra conseguir isso a gente precisava ser muito cínico. Hoje acho que basta um pouco de pragmatismo.
Mas o título fala de leveza. Tenho curtido muito filmes que tratam de temas sérios de maneira leve, mas não leviana, que a gente encara no sábado com pipoquinha assim, despretensiosamente. E o Persépolis, apesar da intensidade, tem uma narradora que faz a sua autobiografia não se levando tão a sério, o que é sensacional. Na mesma categoria, amei de paixão o “A Culpa é do Fidel”. Não assistiu ainda? Corre na locadora ou no torrent, porque é imperdível. E “O Crocodilo” do Nanni Moretti? Comédia leve, mas que faz uma denúncia pesada sobre a máfia que é o governo Berlusconi.
Gosto de filmes e de refletir sobre a realidade. Se eu puder fazer os dois ao mesmo tempo e ainda me divertir então, programa perfeito. Aceito sugestões.
Em algum momento da minha vida fui acusada por uma “ex-amiga” de ser uma pessoa pesada, porque eu tava sempre vendo o lado ruim das coisas, segundo ela. Pô, tomei a pílula vermelha. Sofrimento enorme, esse, viu? Queria, como ela, conseguir fletar com o policial que estava na Sorbonne pra reprimir as manifestações dos estudantes. Mas eu não via o cara gostoso, via a repressão, não rolava mesmo. Não sou uma criatura iluminada, pelo contrário, acho que até sou bem superficial algumas vezes. Mas somo dois mais dois e sou bem crítica, e não tenho culpa disso. Taí o Caio Fernando Abreu, que não me deixa mentir:
"Você pode se recusar a ver, o tempo que quiser: até o fim de sua maldita vida, você pode recusar, sem necessidade de rever seus mitos ou movimentar-se de seu lugarzinho confortável. Mas a partir do momento em que você vê, mesmo involuntariamente, você está perdido: as coisas não voltarão a ser mais as mesmas e você próprio já não será o mesmo. O que vem depois, não se sabe.”
Por outro lado, como muito custo, aprendi que o mundo não vai ser um lugar melhor se eu for infeliz. Que eu preciso sim refletir sobre as minhas escolhas, mas que não é indigno sentir-se bem num mundo tão miserável, contanto que eu não faça de conta que esssa miséria não tem absolutamente nada a ver comigo. Antes eu achava que pra conseguir isso a gente precisava ser muito cínico. Hoje acho que basta um pouco de pragmatismo.
Mas o título fala de leveza. Tenho curtido muito filmes que tratam de temas sérios de maneira leve, mas não leviana, que a gente encara no sábado com pipoquinha assim, despretensiosamente. E o Persépolis, apesar da intensidade, tem uma narradora que faz a sua autobiografia não se levando tão a sério, o que é sensacional. Na mesma categoria, amei de paixão o “A Culpa é do Fidel”. Não assistiu ainda? Corre na locadora ou no torrent, porque é imperdível. E “O Crocodilo” do Nanni Moretti? Comédia leve, mas que faz uma denúncia pesada sobre a máfia que é o governo Berlusconi.
Gosto de filmes e de refletir sobre a realidade. Se eu puder fazer os dois ao mesmo tempo e ainda me divertir então, programa perfeito. Aceito sugestões.
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Mea culpa, ou sobre a incoerência cotidiana
A coisa mais comum do mundo é encontrar gente se comportando de maneira oposta ao seu discurso. A gente chama isso de incoerência. Quando a gente indetifica, costuma apontar lá o dedão no incoerente. Eu acho que às vezes até é bem válido, quando o incoerente usa o seu discurso para julgar nossas ações, mas se dá ao direito de ter seus próprios critérios. Porque além de incoerente, a pessoa vira uma hipócrita. Mas o ser humano é cheio de incoerências, né?
A família lá da França tinha um discurso politicamente correto e tal, mas não separava o lixo reciclável. E um dia minha “patroa” contou que, numa conversa com os colegas do trabalho, todo mundo deu uma desculpa para não separá-lo, ainda que achasse reciclagem uma idéia fantástica. Uma vez, almoçando com ex-colegas de trabalho, comentou-se o absurdo da quantidade de veículos em São Paulo circulando ocupados por somente uma pessoa. Daí Fulano lembrou que era vizinho do Sicrano, e do Beltrano. E todo mundo se deu conta de que tinha um colega de trabalho morando em seu bairro. Mas apesar disso, concluiram que dar carona não funcionaria porque “tolheria a nossa liberdade de ir e vir nos horários mais convenientes”.
O blog 7 x 7 da Época tem umas coisas muita machistas e retrógradas às vezes, como o post sobre a Dilma, mas a mesma Ruth de Aquino, capaz daquele discurso reaça de carteirinha, fez um post que me comoveu bastante. Fala de um documentário sobre mulheres de diferentes idades e classes sociais que contraíram Aids de seus maridos. E aí eu percebi uma enorme incoerência minha, e me incomodei muito. Com todos ex-namorados, ficantes, one-night-stand e etc, sempre usei camisinha. Conheci o namorido há dois anos, quando eu e ele já tinhamos “aproveitado bastante a vida”. Quando começamos a sair, usávamos camisinha, mas um dia deixamos de usar. Conversamos sobre o assunto, mas pra ser honesta, não consigo me lembrar de todos os termos. Não fizemos exame antes. Deixo muito claro que também não foi uma imposição machista dele: só deixamos a camisinha porque eu concordei sem nenhuma resistência. Como sou doadora de sangue, ele ainda tinha essa garantia de que, muito provavelmente, eu estava “bem”. Eu, nem isso. Há um acordo de que, se um dia (ou quando, pra ser mais realista) transarmos com outras pessoas ainda estando juntos, vamos ter o cuidado de usá-la.
Mas, putz, e daí, né? Quer dizer, o namorido pode ficar chateado ao ler isso (mas acho que não), mas quem me garantiu que ele não tinha HIV quando a gente se conheceu? A palavra dele, que talvez nem soubesse também? E quem o garantiu que eu não fosse HIV positiva? A última doação de sangue que eu fiz 6 meses antes de conhecê-lo? Não, né. A gente fica romântico, e fica burro. Honestamente, não acho que “isso nunca vai acontecer comigo”. Sei, muito conscientemente, dos riscos que corremos, eu e ele, até porque “mulher contrair HIV do marido” não é uma ficção, há um caso assim no nosso círculo de relações. Porque se comportar assim, então? Não sei responder.
E me sinto ainda pior porque eu não aponto o dedo na cara, mas muitas vezes julgo a falta de cuidado do outro, sabe? Apesar de ser pró-aborto, tendo a, no meu íntimo, acreditar que a pessoa que engravidou sem ter se planejado não fez o suficiente para evitar a gravidez, porque eu sempre usei pílula E camisinha. Não uso agora porque um filho não planejado neste momento seria bem vindo. Mas contrair uma doença venérea não seria bacana em momento algum, óbvio, e isso eu não estou evitando. E este post é um mea culpa: não posso julgar. Nunca, jamais em tempo algum, porque eu também sou humana.
Não sou insensível a ponto de dizer “bem-feito!”. Nem pra quem se descuidou engravidou sem se planejar, nem para a mulher que aceitou voltar para o marido violento e apanhou de novo e, nem pra quem contraiu câncer de pele de tanto torrar no branzeamento artificial. Tenho a delicadeza de me solidarizar com os dramas do outro mesmo sendo decorrentes de atitudes que não combinam com o meu discurso, porque o respeito a alteridade, ao direito do outro de ser outro, é fundamental pra mim. Só demorei a me dar conta de que o outro do meu discurso, às vezes, é a minha ação.
A família lá da França tinha um discurso politicamente correto e tal, mas não separava o lixo reciclável. E um dia minha “patroa” contou que, numa conversa com os colegas do trabalho, todo mundo deu uma desculpa para não separá-lo, ainda que achasse reciclagem uma idéia fantástica. Uma vez, almoçando com ex-colegas de trabalho, comentou-se o absurdo da quantidade de veículos em São Paulo circulando ocupados por somente uma pessoa. Daí Fulano lembrou que era vizinho do Sicrano, e do Beltrano. E todo mundo se deu conta de que tinha um colega de trabalho morando em seu bairro. Mas apesar disso, concluiram que dar carona não funcionaria porque “tolheria a nossa liberdade de ir e vir nos horários mais convenientes”.
O blog 7 x 7 da Época tem umas coisas muita machistas e retrógradas às vezes, como o post sobre a Dilma, mas a mesma Ruth de Aquino, capaz daquele discurso reaça de carteirinha, fez um post que me comoveu bastante. Fala de um documentário sobre mulheres de diferentes idades e classes sociais que contraíram Aids de seus maridos. E aí eu percebi uma enorme incoerência minha, e me incomodei muito. Com todos ex-namorados, ficantes, one-night-stand e etc, sempre usei camisinha. Conheci o namorido há dois anos, quando eu e ele já tinhamos “aproveitado bastante a vida”. Quando começamos a sair, usávamos camisinha, mas um dia deixamos de usar. Conversamos sobre o assunto, mas pra ser honesta, não consigo me lembrar de todos os termos. Não fizemos exame antes. Deixo muito claro que também não foi uma imposição machista dele: só deixamos a camisinha porque eu concordei sem nenhuma resistência. Como sou doadora de sangue, ele ainda tinha essa garantia de que, muito provavelmente, eu estava “bem”. Eu, nem isso. Há um acordo de que, se um dia (ou quando, pra ser mais realista) transarmos com outras pessoas ainda estando juntos, vamos ter o cuidado de usá-la.
Mas, putz, e daí, né? Quer dizer, o namorido pode ficar chateado ao ler isso (mas acho que não), mas quem me garantiu que ele não tinha HIV quando a gente se conheceu? A palavra dele, que talvez nem soubesse também? E quem o garantiu que eu não fosse HIV positiva? A última doação de sangue que eu fiz 6 meses antes de conhecê-lo? Não, né. A gente fica romântico, e fica burro. Honestamente, não acho que “isso nunca vai acontecer comigo”. Sei, muito conscientemente, dos riscos que corremos, eu e ele, até porque “mulher contrair HIV do marido” não é uma ficção, há um caso assim no nosso círculo de relações. Porque se comportar assim, então? Não sei responder.
E me sinto ainda pior porque eu não aponto o dedo na cara, mas muitas vezes julgo a falta de cuidado do outro, sabe? Apesar de ser pró-aborto, tendo a, no meu íntimo, acreditar que a pessoa que engravidou sem ter se planejado não fez o suficiente para evitar a gravidez, porque eu sempre usei pílula E camisinha. Não uso agora porque um filho não planejado neste momento seria bem vindo. Mas contrair uma doença venérea não seria bacana em momento algum, óbvio, e isso eu não estou evitando. E este post é um mea culpa: não posso julgar. Nunca, jamais em tempo algum, porque eu também sou humana.
Não sou insensível a ponto de dizer “bem-feito!”. Nem pra quem se descuidou engravidou sem se planejar, nem para a mulher que aceitou voltar para o marido violento e apanhou de novo e, nem pra quem contraiu câncer de pele de tanto torrar no branzeamento artificial. Tenho a delicadeza de me solidarizar com os dramas do outro mesmo sendo decorrentes de atitudes que não combinam com o meu discurso, porque o respeito a alteridade, ao direito do outro de ser outro, é fundamental pra mim. Só demorei a me dar conta de que o outro do meu discurso, às vezes, é a minha ação.
domingo, 15 de novembro de 2009
Contemporaneidades
"Mesmo se desobedece às leis da comunidade, o homem continua a pertencer-lhe; não passa de um menino levado que não ameaça a ordem coletiva. Ao contrário, se a mulher se evade da sociedade, retorna à Natureza e ao demônio, desencadeia no seio da coletividade foças incontroláveis e perniciosas"
BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo, 1949
Só eu fico assustada quando certos clássicos parecem ter sido publicados tipo assim, essa semana?
BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo, 1949
Só eu fico assustada quando certos clássicos parecem ter sido publicados tipo assim, essa semana?
sábado, 14 de novembro de 2009
Ode à comida!
Três anos atrás eu pesava 10kg menos que agora. Ao contrário de todas as amigas na mesma situação, voltei da França com 4kg menos do que quando cheguei lá. Engordei quase 2kg no inverno, mas quando começou a esquentar eu fui emagrecendo entre 1kg e 1,5kg por mês. Tomando vinho, comendo chocolate, pão com manteiga (eu poderia passar o resto da vida comendo baguete francesa e manteiga Président). A família pra quem eu trabalhava tinha uma balança no banheiro. Às segundas, dia em que eu limpava a casa, eu ia me pesar. Lembrava do sorvete do final de semana e pensava: "já era, engordei". Mas não, tava sempre um pouquinho menos do que na semana anterior.
Esses bons tempos acabaram. Chegando ao Brasil, ganhei uns 2kg logo na primeira semana: não conseguia parar de comer goiabada com queijo. Deve ter uns bons meses que eu não como goiabada com queijo, mas na época a privação por 1 ano despertou uma compulsão sem precedentes. Ganhei mais alguns quilos depois disso e achei que tinha chegado a um teto. É que eu sempre tive tetos, aquele limite que, mesmo comendo sem critério, dali não passava. E eu nunca na vida fui muito gorda, nem fui magra. Não sou muito alta (tenho 1,67), mas tenho pernas grossas, costar largas, um pulso grosso. Não sou nada mignon, então não dá pra ser magrinha mesmo. Ah! E nunca tive barriga saliente, o que é uma tremenda vantagem estética. Sempre vivi feliz usando manequim 42.
Voltando, de uns tempos pra cá, a coisa desandou e eu comecei a engordar mesmo sem exagerar. Mentira: eu não sou compulsiva, mas sou gulosa. E a balança tem sido implacável. Um dia me pesei e vi que, bastava um final de semana mais glutão, e eu chegaria aos 80kg (antes disso já tinha notado que as calças 44 estão apertaaaaadas). Aí acendou uma luz amarela e eu resolvi marcar uma consulta com uma endocrinologista. Ela me pediu uns exames e chegou à conclusão mais provável: nada de errado comigo, mas o meu metabolismo mudou. Ano que vem faço 30 anos, e as coisas resolveram ser mais lentas. E pior: segundo a médica, minha glicemia está no limite então, se eu não me cuidar, não serei uma gordinha saudável, serei uma gordinha diabética.
Bom, regime então. Fiquei morrendo de medo da médica insistir em remédios, porque eu não quero, acho que meu caso não é sério assim. Pra minha surpresa, ela só rabiscou um cardápio no receituário mesmo. E, bacana, é comida pra caramba! Umas 3 frutas por dia, arroz com feijão, pão integral com queijo de manhã (e nem precisa ser daqueles brancos sem gosto, pode ser o Minas Padrão, mais cremosinho, que eu adoro). O lanche da tarde por de ser uma banana nanica, ou um iogurte, ou uma xícara grandona de capuccino. Não vou passar fome, mesmo sendo comilona. Mas vou passar vontade: sem docinhos, sem petisco de boteco, sem ceveja. Segundo ela, sem academia nem nada, dá pra perder uns 3kg por mês, o que significaria chegar bem mais elegante ao meu aniversário em março. Vale o esforço.
Hoje fui ao mercado e à feira. Comprei muitas frutas e legumes e verduras e queijo e barrinhas de cereal. Passei os últimos dias me despedindo do cardápio trash. Sexta rolou hamburguer e cheesecake, até amanhã rolam as últimas cervejinhas. Vai rolar também uma visita providencial à minha mãe amanhã, pra almoçar. Tenho que confessar que estes 10kg extras ao mesmo tempo que me incomodam, são a recordação de muitos momentos bacanas, sabem? Muito chopp trincando, muita coxinha do Veloso e do Frangó, muita pizza da Brás, muita costelinha do Outback, barras de chocolate importadas e nacionais, muita picanha nos churrasco na casa da sogra, lautos jantares (em geral risotos, adoro risotos) preparados com carinho para os meus amigos, regados à vinho tinto, feijoadas com os amigos do marido em São José. De acordo com a médica, a dieta deve ser seguida de segunda a segunda. Final de semana livre, só quando eu estiver no peso ideal, na fase de manutenção. Então este post é uma homenagem a todas as coisas que eu adoro comer e que não vão fugir: vão só ficar mais distantes de mim por alguns meses. Se eu me comportar diretinho, vou reencontrá-las em breve. A coxinha olhará pra mim e nem me reconhecerá: "nossa, Iara, como você tá elegante!". Ok, viajei agora, desculpaê.
Pra minha sorte, eu sou tão gulosa que gosto das coisas saudáveis e magrinhas também: adoro salada fresquinha, quase todas as frutas, pão integral, salmão grelhado...
Esses bons tempos acabaram. Chegando ao Brasil, ganhei uns 2kg logo na primeira semana: não conseguia parar de comer goiabada com queijo. Deve ter uns bons meses que eu não como goiabada com queijo, mas na época a privação por 1 ano despertou uma compulsão sem precedentes. Ganhei mais alguns quilos depois disso e achei que tinha chegado a um teto. É que eu sempre tive tetos, aquele limite que, mesmo comendo sem critério, dali não passava. E eu nunca na vida fui muito gorda, nem fui magra. Não sou muito alta (tenho 1,67), mas tenho pernas grossas, costar largas, um pulso grosso. Não sou nada mignon, então não dá pra ser magrinha mesmo. Ah! E nunca tive barriga saliente, o que é uma tremenda vantagem estética. Sempre vivi feliz usando manequim 42.
Voltando, de uns tempos pra cá, a coisa desandou e eu comecei a engordar mesmo sem exagerar. Mentira: eu não sou compulsiva, mas sou gulosa. E a balança tem sido implacável. Um dia me pesei e vi que, bastava um final de semana mais glutão, e eu chegaria aos 80kg (antes disso já tinha notado que as calças 44 estão apertaaaaadas). Aí acendou uma luz amarela e eu resolvi marcar uma consulta com uma endocrinologista. Ela me pediu uns exames e chegou à conclusão mais provável: nada de errado comigo, mas o meu metabolismo mudou. Ano que vem faço 30 anos, e as coisas resolveram ser mais lentas. E pior: segundo a médica, minha glicemia está no limite então, se eu não me cuidar, não serei uma gordinha saudável, serei uma gordinha diabética.
Bom, regime então. Fiquei morrendo de medo da médica insistir em remédios, porque eu não quero, acho que meu caso não é sério assim. Pra minha surpresa, ela só rabiscou um cardápio no receituário mesmo. E, bacana, é comida pra caramba! Umas 3 frutas por dia, arroz com feijão, pão integral com queijo de manhã (e nem precisa ser daqueles brancos sem gosto, pode ser o Minas Padrão, mais cremosinho, que eu adoro). O lanche da tarde por de ser uma banana nanica, ou um iogurte, ou uma xícara grandona de capuccino. Não vou passar fome, mesmo sendo comilona. Mas vou passar vontade: sem docinhos, sem petisco de boteco, sem ceveja. Segundo ela, sem academia nem nada, dá pra perder uns 3kg por mês, o que significaria chegar bem mais elegante ao meu aniversário em março. Vale o esforço.
Hoje fui ao mercado e à feira. Comprei muitas frutas e legumes e verduras e queijo e barrinhas de cereal. Passei os últimos dias me despedindo do cardápio trash. Sexta rolou hamburguer e cheesecake, até amanhã rolam as últimas cervejinhas. Vai rolar também uma visita providencial à minha mãe amanhã, pra almoçar. Tenho que confessar que estes 10kg extras ao mesmo tempo que me incomodam, são a recordação de muitos momentos bacanas, sabem? Muito chopp trincando, muita coxinha do Veloso e do Frangó, muita pizza da Brás, muita costelinha do Outback, barras de chocolate importadas e nacionais, muita picanha nos churrasco na casa da sogra, lautos jantares (em geral risotos, adoro risotos) preparados com carinho para os meus amigos, regados à vinho tinto, feijoadas com os amigos do marido em São José. De acordo com a médica, a dieta deve ser seguida de segunda a segunda. Final de semana livre, só quando eu estiver no peso ideal, na fase de manutenção. Então este post é uma homenagem a todas as coisas que eu adoro comer e que não vão fugir: vão só ficar mais distantes de mim por alguns meses. Se eu me comportar diretinho, vou reencontrá-las em breve. A coxinha olhará pra mim e nem me reconhecerá: "nossa, Iara, como você tá elegante!". Ok, viajei agora, desculpaê.
Pra minha sorte, eu sou tão gulosa que gosto das coisas saudáveis e magrinhas também: adoro salada fresquinha, quase todas as frutas, pão integral, salmão grelhado...
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